O bolsonarismo é um fenômeno político de extrema-direita e populista, centrado na figura do ex-presidente Jair Bolsonaro, e que se mantém relevante mesmo após o fim de seu mandato. É considerado por analistas uma versão brasileira de uma onda internacional reacionária. O movimento é caracterizado pela combinação de diversos elementos, como conservadorismo social, militarismo e o uso intenso das mídias digitais.
Características principais
Valores conservadores: A plataforma bolsonarista se baseia em valores tradicionais, com ênfase na defesa da família, da religião e da ordem moral.
Militarismo e ordem: Promove a militarização da segurança pública e do comportamento social, valorizando a disciplina e a autoridade militar.
Populismo: O discurso bolsonarista é antiestablishment e se dirige diretamente aos eleitores, criando uma conexão forte com sua base de apoio. A retórica costuma explorar a polarização e a crítica a supostos inimigos, como a "velha política" e o "comunismo".
Uso de mídias digitais: O movimento utiliza intensivamente as redes sociais e aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, para mobilizar apoiadores, disseminar notícias e informações (muitas vezes falsas ou distorcidas), e contornar a mídia tradicional.
Nacionalismo e "cidadão de bem": O bolsonarismo se apropria de símbolos nacionais e constrói uma narrativa identitária em torno do "cidadão de bem" para se contrapor a grupos sociais considerados "fora do padrão", como a esquerda, movimentos antirracistas e a população LGBTQIAPN+.
Americanização da política: O movimento reproduz práticas e performances de grupos de extrema-direita internacionais, como o trumpismo nos Estados Unidos, utilizando estratégias de comunicação e narrativas compartilhadas.
Após o fim do mandato de Bolsonaro e sua inelegibilidade, o movimento continua a se manifestar no cenário político brasileiro, mas enfrenta desafios:
Enfraquecimento: Analistas indicam que a "onda bolsonarista" tem se enfraquecido, especialmente após condenações de Bolsonaro na Justiça. Há questionamento sobre a capacidade do ex-presidente de manter a liderança de seu campo político.
Divisões internas: Reportagens recentes sugerem rachas dentro do bolsonarismo, com a ala mais radical questionando a liderança de Bolsonaro e figuras como o governador Tarcísio de Freitas sendo vistas como potenciais substitutos para a direita em 2026.
Apoio duradouro: Apesar das dificuldades, o bolsonarismo ainda mantém uma base de apoiadores significativa, que continua a se mobilizar em torno de suas pautas.
Cenário eleitoral: Embora seja considerado enfraquecido, o bolsonarismo continua a ser um fator relevante nas próximas eleições, com candidatos da direita buscando associar-se ou distanciar-se da figura do ex-presidente.
BRASIL CONTEMPORÂNEO
Artigo convidado | Editor responsável: Marco Antonio Teixeira
DOI: https://doi.org/10.12660/cgpc.v28.89859
O BRASIL DE BOLSONARO: UMA DEMOCRACIA SOB
ESTRESSE
Bolsonaro’s Brazil: A democracy under stress
El Brasil de Bolsonaro: Una democracia bajo estrés
Cláudio Gonçalves Couto1 | claudio.couto@fgv.br | ORCID: 0000-0003-0153-1877
1Fundação Getulio Vargas, Escola de Administração de Empresas de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
RESUMO
O ressentimento social manifesto nas Jornadas de Junho de 2013, resultante de expectativas frustradas de setores
sociais ascendentes (que viram estancado seu progresso) e de camadas superiores na estratificação social (que
perderam sua distinção), ensejou afetos antipolíticos. Estes, por sua vez, alimentaram o antipartidarismo e o
sentimento antissistema, propícios ao sucesso eleitoral de outsiders e políticos marginais. Nesse contexto, tornaram-se
prefeitos vários outsiders nas eleições municipais de 2016, e Jair Bolsonaro conquistou a Presidência em 2018. Seu
governo-movimento caracterizou-se pelo populismo extremista de fundo religioso, excludente e antipluralista, que
mobilizou apoios a um governo anormal e, por isso, incompreensível pela análise institucionalista convencional:
em vez de tomar o quadro institucional como dado, atuou solapando-o. Isso gerou estresse no sistema, pois o
ataque reiterado a outros poderes (especialmente o Judiciário) teve como resposta o hiperativismo institucional,
gerador de uma armadilha populista, que minou a legitimidade de instituições instadas a atuar defensivamente.
Palavras-chave: extremismo, populismo, governo Bolsonaro, instituições políticas, democracia.
ABSTRACT
The social resentment expressed in the June 2013 Journeys, resulting
from frustrated expectations of ascending social sectors (who saw their
progress stalled) and of higher layers in the social stratification (who
lost their distinction), gave rise to anti-political affections. These, in
turn, have fueled anti-party and anti-system sentiment conducive to the
electoral success of outsiders and marginal politicians. In this context,
several outsiders became mayors in the 2016 municipal elections, and
Jair Bolsonaro won the presidency in 2018. His movement-government
was characterized by extremist populism with a religious, exclusionary,
and anti-pluralist background. This populism mobilized support for
an abnormal government, which defies conventional institutionalist
analysis as it undermines the existing framework instead of accepting
it as given. This approach led to institutional stress, as the repeated
attack on other branches of power (especially the Judiciary) triggered
hyperactivity within the institutions, generating a populist trap that
undermined the legitimacy of institutions.
Keywords: extremism, populism, Bolsonaro government, political
institutions, democracy.
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RESUMEN
El resentimiento social manifestado en las protestas de junio de
2013, resultado de las expectativas frustradas de los sectores sociales
ascendentes (que vieron frenado su progreso) y de las capas superiores
de la estratificación social (que perdieron su distinción), dio lugar a
afectos antipolíticos. Estos, a su vez, alimentaron el antipartidismo y
el sentimiento antisistema, propicios al éxito electoral de outsiders y
políticos marginales. En este contexto, varios outsiders se convirtieron
en alcaldes en las elecciones municipales de 2016 y Jair Bolsonaro
ganó la presidencia en 2018. Su movimiento de gobierno se caracterizó
por un populismo extremista con trasfondo religioso, excluyente y
antipluralista, que movilizó el apoyo a un gobierno anómalo y, por
tanto, incomprensible para el análisis institucionalista convencional:
en lugar de tomar el marco institucional como dado, actuó socavándolo.
Esto generó tensión institucional, ya que el ataque reiterado a otros
poderes (especialmente el Judicial) se encontró con un hiperactivismo
institucional, que generó una trampa populista que minó la legitimidad
de las instituciones exigidas a actuar defensivamente.
Palabras clave: extremismo, populismo, gobierno Bolsonaro,
instituciones políticas, democracia.
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INTRODUÇÃO
Finalizo este ensaio no último dia de junho de 2023, momento em que o ex-presidente Jair
Bolsonaro se tornou inelegível por oito anos, por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
em Ação de Investigação Judicial e Eleitoral (AIJE) movida pelo Partido Democrático Traba
lhista (PDT). As razões para a cassação de seus direitos políticos foram desvio de finalidade e
abuso de poder político, tipificados numa reunião do então presidente com embaixadores e
outros representantes diplomáticos estrangeiros na residência oficial da Presidência, o Palácio
da Alvorada. Na ocasião, Bolsonaro atacou o sistema de justiça, em particular a justiça eleito
ral, e – com base em informações sabidamente falsas – levantou suspeitas infundadas sobre o
processo eletrônico de votação no Brasil, com vistas a deslegitimá-lo e, assim, criar pretextos
para eventualmente contestar seus resultados.
Não se tratou de um episódio isolado ou raro; antes disso, foi apenas mais um numa série
de eventos em que Jair Bolsonaro investiu contra as instituições do Estado Democrático de
Direito durante seu mandato presidencial. Seu governo nunca foi o de um típico chefe de
governo do presidencialismo de coalizão brasileiro desde o início da redemocratização em
1985. Até 2018, houve governos melhores ou piores, mais bem-sucedidos ou fracassados, de
presidentes populares ou impopulares, chefiados por políticos habilidosos ou desastrados;
o que ainda não existira é um governo marcado pelo signo da anormalidade, transformada
em regra. Em se tratando do governo Bolsonaro, sequer é o caso de se falar em crise, já que
esta supõe descaminho em relação a uma rota; neste caso o descaminho foi estatuído como
a própria rota.
Neste ensaio, dividido em quatro seções, além desta introdução, traçarei um apanhado do
significado dos quatro anos do mandato de Jair Bolsonaro à frente do País. Na primeira seção,
apontarei os precedentes que tornaram possível à extrema-direita chegar à Presidência da Repú
blica. Na segunda, tratarei do perfil da liderança e dos fundamentos ideológicos do movimento
político que impulsionou a vitória eleitoral e definiu o modus operandi do governo. Na terceira,
procurarei definir que governo foi esse, lançando mão do que concebi como um “governo-mo
vimento” (Couto, 2021a). Na quarta, seção de conclusão, apontarei as consequências de um
governo como esse para a institucionalidade democrática, no que concerne tanto à sua opera
ção como à sua capacidade de resistir às investidas que procuram destruí-la.
OS PRECEDENTES: O RESSENTIMENTO E OS ABALOS DE 2013
Entre 2001 e 2014, o Brasil experimentou uma acentuada queda da desigualdade econômica,
que se fez acompanhar também de um forte declínio da pobreza. As Figuras 1 e 2 ilustram esses
dados com clareza. Nota-se que a redução mais acentuada de ambas se deu a partir dos anos
de 2002 e 2003, quando se deram a eleição e o início do primeiro governo Lula. Essas mudan
ças produziram uma transformação estrutural das mais significativas na sociedade brasileira.
Um grande contingente de pessoas até então excluídas do acesso a itens básicos de consumo e
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lazer passou a tê-lo, adentrando assim um âmbito social antes restrito a parcelas amplamente
minoritárias da população. Nos termos de Arretche (2018), incluíam-se os outsiders da socie
dade brasileira.
Tal inclusão não se deu sem que houvesse reações. Foi negativa a percepção de parce
las significativas dos setores mais bem aquinhoados da população brasileira, que não só viram
tornar-se mais custosos certos bens e serviços que os distinguiam dos demais (como o serviço
das empregadas domésticas), como ainda puderam perceber que seus espaços antes exclusivos
passavam a ser ocupados também por segmentos antes ausentes – o que alguns chamaram de
“efeito aeroporto”, com o acesso dos mais pobres às viagens aéreas, antes restritas às parcelas
mais ricas da população (Pinto, 2014). Isso se refletiu na percepção negativa de contingentes
significativos acerca dos governos petistas e seu partido (Aquino, 2020; Couto, 2013).
Figura 1. Desigualdade de renda no Brasil
Fonte: IPEADATA/IBGE.
Tal mudança produziu uma perda de distinção social que abriu caminho para o avanço
de um discurso populista voltado não exatamente aos eternos perdedores, mas aos novos, àque
les que viram fragilizar-se sua condição historicamente privilegiada e diferenciadora, definidora
secular material e simbólica das bases desiguais da sociedade brasileira.
Nos países ricos, o discurso populista da extrema-direita atingiu os perdedores de uma eco
nomia industrial cuja base de emprego se transformava, destruindo postos de trabalho antes
seguros (como no rust belt americano, que, em vez de dar a vitória ao Partido Democrata, como
de costume, ajudou a eleger Donald Trump em 2016); já no Brasil, foram os segmentos mais
afluentes aqueles a se ressentir de sua perda, menos por terem decaído e mais porque os de
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baixo, ascendendo, deles se aproximaram. Assim, criou-se campo fértil para um curioso popu
lismo, vigoroso entre os de cima. Só que não apenas para eles.
Entre os setores emergentes e a população de mais baixa renda, principais beneficiários
da redistribuição de riqueza e das políticas sociais, ainda permaneciam questões não resolvidas.
A primeira se dava fora das questões meramente econômicas, nas pautas moral e de costumes.
Os governos petistas eram associados não apenas às políticas econômicas e sociais, mas também
a uma pauta de costumes em dissonância com as perspectivas mais conservadoras de grande
parte dos brasileiros das classes mais baixas, em especial aqueles de fé evangélica, particular
mente refratários à agenda identitária de esquerda e de direitos de gênero. Produzia-se entre
esses brasileiros um terreno fértil para a disseminação de um ideário não apenas conservador,
mas reacionário (Gracino et al., 2021).
Figura 2. Pobreza no Brasil
Taxa de Pobreza (1985-2014)
Fonte: IPEADATA/IBGE.
Ainda no âmbito moral, o antipetismo foi alimentado por anos a fio em decorrência de
seguidos escândalos de corrupção que afetaram os governos do partido. Ainda durante os anos
de Lula, o chamado “mensalão”. Depois de findos seus dois mandatos, já com sua sucessora,
Dilma Rousseff, o chamado “petrolão”, deflagrado com as revelações e o estardalhaço midiá
tico da Operação Lava Jato. Assim, se, para os mais afeitos ao conservadorismo religioso, o PT
passou a ser associado à devassidão dos comportamentos da vida privada, aos mais chegados ao
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conservadorismo social, a pecha da corrupção petista operou como um pretexto bem mais con
veniente do que a crítica às políticas de redução das desigualdades de classe. Não era mais o
caso de atacar o Bolsa Família, o alto custo das empregadas domésticas ou a presença de “gente
diferenciada” em shoppings de luxo, hotéis e aeroportos (Psicóloga nega ter dito que Metrô
atrai “mendigos, gente diferenciada”, 2011). Bastava apontar o dedo para a corrupção petista
(supostamente a maior de todas) e, com isso, rechaçar o partido e seus governos de consciên
cia limpa. Afinal, quem não seria contra a corrupção?
Ademais, a perda de dinamismo da economia durante os anos de Dilma Rousseff também
foi um fator crucial para a debacle petista, aguçando a insatisfação popular e motivando a ida
massiva às ruas a partir de junho de 2013. Comandados por jovens de esquerda do Movimento
Passe Livre (MPL), protestos contra o custo dos transportes rapidamente deram espaço a mani
festações multitudinárias sem foco definido, em que se protestava basicamente contra tudo,
da corrupção à qualidade dos serviços públicos e à realização da Copa do Mundo no Brasil,
bem como contra o sistema político estabelecido – com especial atenção aos partidos políticos.
Repetiam-se situações em que, diante da aparição de militantes partidários nas marchas, por
tando suas bandeiras e emblemas, populares bradavam: “Sem partido!” e “Abaixa a bandeira!”
(Pacheco, 2022).
Notável naquele movimento foi a presença de grandes faixas amarelas em que se pro
clamava: “Meu partido é meu país” (Machado, 2023). Em pouco tempo, elas deram lugar a
camisetas, igualmente amarelas, com a consigna levemente alterada: “Meu partido é o Brasil”.
Essa indumentária celebrizou-se ao ser envergada em aparições públicas por Jair Bolsonaro
e seus filhos. O rechaço aos partidos políticos, seja por brados, seja por letreiros, deslindava o
animus daquelas jornadas: contra o sistema político e suas instituições, como se uma nação
mobilizada espontaneamente se bastasse a si mesma e fosse mais autêntica, dispensando estru
turas organizacionais hierárquicas e oligarquizadas como soem ser as representativas, partidárias
e sindicais. Esse paradoxal ativismo político antipolítico (Avritzer, 2020) de negação da política
profissional e seu principal instrumento (os partidos), bem como das mediações institucionais
da democracia liberal, abria espaço para o avanço do populismo. Associado ao antipetismo e
marcado pelo conservadorismo (senão reacionarismo), esse ativismo oferecia terreno fértil para
o populismo de extrema-direita.
Uma primeira amostra desse espírito do tempo deu-se nas eleições municipais de 2016,
mesmo ano do impeachment de Dilma Rousseff e da eleição, nos EUA, de Donald Trump.
Além da retumbante derrota do PT e da esquerda como um todo (à exceção do PC do B,
com bom desempenho no Maranhão do então governador Flávio Dino), surgiram outsiders
que se apresentavam como não políticos. Na cidade de São Paulo, o empresário promoter de
eventos João Dória Junior elegeu-se já no primeiro turno sob o lema “não sou político, sou
gestor” (Dória, 2016). Em Belo Horizonte, o também empresário e dirigente de futebol Ale
xandre Kalil usou slogan de sentido similar: “Chega de político, é hora de Kalil” (Mendonça,
2016). Se reais outsiders tinham campo para avançar eleitoralmente num ambiente hostil
aos políticos tradicionais do establishment, por que não pretensos outsiders que fossem ainda
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mais capazes de encampar um discurso antissistema? Ia-se desenhando um cenário bastante
favorável às pretensões eleitorais do antes improvável candidato presidencial Jair Bolsonaro.
A LIDERANÇA ANTISSISTEMA E O POPULISMO RELIGIOSO DE JAIR
BOLSONARO
A categoria de outsider é inadequada para definir o tipo de político que era o então deputado
Jair Bolsonaro. Afinal, tratava-se de um longevo parlamentar de oito mandatos consecutivos (um,
parcial, como vereador e sete como deputado) e com todos os seus três filhos adultos também
seguindo a carreira política como parlamentares nos níveis municipal, estadual e federal, confi
gurando um bem-sucedido empreendimento político familiar. O mais jovem dos três, Eduardo,
para evitar concorrer com o pai em seu reduto, o Rio de Janeiro, mudou o domicílio eleitoral
para São Paulo, elegendo-se deputado federal em 2014. O mais velho, Flávio, estava já em seu
quarto mandato seguido como deputado estadual no Rio de Janeiro e concorreria ao senado
em 2018, após ter sido derrotado como candidato a prefeito do Rio em 2016. E o filho do meio,
Carlos, já era vereador no Rio de Janeiro por cinco mandatos consecutivos.
Porém, se outsider não define adequadamente Bolsonaro, ele pode ser mais bem des
crito como um político marginal. Ao longo de seus sete mandatos na Câmara dos Deputados,
jamais teve posição institucional de destaque, notabilizando-se antes por seu comportamento
extravagante, suas declarações ultrajantes e sua presença constante na mídia, em especial a
de entretenimento, que o tratava como uma atração de circo de horrores. Sua marginalidade
institucional fica clara quando se considera que, durante esse extenso período de atividade
parlamentar, Bolsonaro jamais teve um lugar na mesa diretora da Casa, nunca presidiu uma
comissão permanente, nenhuma vez liderou a bancada de seu partido nem relatou projetos
de lei importantes. Embora sempre integrando partidos de adesão, nunca atuou disciplinada
mente como um apoiador dos governos integrados por seus partidos; antes, operava como uma
espécie de maverick, seguindo sua própria agenda, voltada à defesa dos interesses corporativos
de policiais e militares e a bradar bazófias extremistas de direita.
Uma coisa não se pode negar, contudo. Jair Bolsonaro de fato era (e é) um político antis
sistema. Entenda-se com isso sua explícita aversão ao próprio regime democrático e ao Estado
de Direito, verbalizada inúmeras vezes na apologia à ditadura militar, ao golpismo, à tortura,
à violência policial, à eliminação física de adversários, à intolerância, ao antipluralismo e ao
desrespeito às leis. Foi esse seu destemor em afrontar a civilidade democrática (ou seja, o “sis
tema”) que levou seus seguidores mais apaixonados a o alcunharem como “mito”.
Num cenário de rechaço amplamente disseminado à atividade política profissional, aos
partidos, às instituições representativas e à esquerda, o discurso ultrarradical contra todos esses
“inimigos” tinha potencial para prosperar eleitoralmente – como de fato ocorreu. Isso, a despeito
de Bolsonaro ser ele mesmo um político profissional de longa trajetória parlamentar e líder
do vasto empreendimento político familiar acima referido. Suas marginalidade institucional e
extremismo ideológico lhe conferiram a aparência de outsider, mesmo sem propriamente o ser.
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Durante sua campanha, e já no governo, ganhou corpo um discurso populista de forte
coloração religiosa. Os dois principais bordões de campanha, repetidos à exaustão, continham
elementos religiosos. Um dizia: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”; o outro era uma
passagem bíblica: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, retirada do Evangelho
de São João (8:32). Além de acenar ao eleitorado mais fortemente devoto, especialmente o
evangélico, que optou massivamente por Bolsonaro nas urnas, associava-se também a naciona
lidade à religiosidade. Tal associação é um elemento forte do discurso bolsonarista.
O populismo bolsonarista traz uma concepção excludente de povo. Coloca fora dele os não
cristãos, sejam os declaradamente desprovidos da fé, sejam aqueles passíveis de serem enqua
drados nesse papel por seu comportamento ou suas ideias. Na medida em que o Brasil seria
um “país cristão” e, portanto, os valores cristãos deveriam prevalecer sobre os demais (segundo
a percepção restritiva de cristianismo adotada pelo bolsonarismo, a mais conservadora, senão
reacionária), os que não se enquadrarem nisso deveriam ser excluídos da condição de povo e
se submeter ao jugo da maioria. Ou seja, no discurso bolsonarista, a inclusão na nação exige o
pertencimento a uma fé religiosa.
Há, portanto, uma noção de povo excludente e de base essencialmente religiosa. Se
noutros contextos, como na Europa e nos EUA, o populismo exclui um grupo religioso
em particular (os muçulmanos), no Brasil de Bolsonaro a exclusão é mais genérica: os não
cristãos segundo os critérios adotados pelo próprio bolsonarismo. Até por isso, há uma pos
sibilidade de conversão e, consequentemente, de inclusão na condição de povo: os que
“aceitarem Jesus” e se comportarem segundo os princípios de tal aceitação: conservadores,
intolerantes, crentes.
Essa perspectiva ficou clara em diversas declarações dadas por Jair Bolsonaro, tanto durante
a campanha eleitoral como já na vigência de seu governo. Num ato de campanha na Paraíba,
em fevereiro de 2017, disse ele: “Deus acima de tudo. Não tem essa historinha de Estado laico
não. O Estado é cristão e a minoria que for contra que se mude. As minorias têm que se curvar
para as maiorias” (Agence France-Presse, 2018). Já no cargo de presidente, Bolsonaro diferen
ciou o Estado do governo, atenuando o discurso, mas manteve a profissão de fé: “O Estado é
laico. Respeitamos a todos. Mas nosso governo é CRISTÃO” (“O Estado é laico, mas nosso
governo é cristão”, diz Bolsonaro no Twitter, 2020). Porém, na campanha presidencial de 2022,
o presidente-candidato voltou ao discurso radical de sujeição dos dissidentes: “Meu Deus do
céu. Para onde nós iremos cedendo às minorias? As leis existem, no meu entender, para prote
ger as maiorias. As minorias têm que se adequar” (Behnke, 2022).
Esse povo excludente do discurso populista bolsonarista não é uma peculiaridade sua. Ele
está presente nos discursos populistas mundo afora. Mesmo nos casos europeus e americano,
em que se estigmatizam os muçulmanos, afirma-se que a identidade cristã (europeia, ameri
cana) estaria sob ameaça islâmica. Nesses casos o muçulmano é também associado ao imigrante,
cujo afluxo massivo ameaçaria desfigurar a própria cultura local.
No caso brasileiro, a imigração não tem peso relevante, e o “inimigo” é interno, com
pondo-se dos não cristãos que integram a população (mas não o povo) e as elites corrompidas
(embora o bolsonarismo jamais as defina exatamente como “elites”). Esses inimigos podem
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ser artistas, intelectuais, comunistas ou homossexuais, enfim, todo tipo de desajustados que
cotidianamente desrespeitariam os valores majoritários e, assim, deveriam ser eliminados ou
subjugados. Não há pluralismo num povo assim concebido. Nas palavras de Bolsonaro: “As
minorias se adequam ou simplesmente desaparecem” (Abrucio et al., 2020).
Que governo foi esse?
O governo Bolsonaro não foi um governo normal. Por isso, para entendê-lo, não é possível uti
lizar os mesmos parâmetros usados para analisar governos em tempos normais da política. Nas
conjunturas fluídas das transições de regime, a estrutura institucional ainda não está bem esta
belecida e, consequentemente, a análise institucional é precária (Couto, 1998). Algo similar
ocorre nas crises políticas profundas, quando a estrutura política se fluidifica (Dobry, 2015).
Quando há um governo extremista, que atua reiteradamente para erodir as instituições e, com
elas, a própria democracia, a estrutura constitucional é continuamente desafiada e abalada.
Perdem efetividade analítica os critérios normalmente usados para entender como as institui
ções operam e como as políticas públicas são formuladas, implementadas e avaliadas (inclusive
pelo eleitorado), pois o governo não atua em conformidade com os parâmetros institucionais
dados, mas busca subvertê-los.
O ataque constante à institucionalidade democrática pelo Executivo obriga os demais
atores institucionais a agir de maneira defensiva e com maior intensidade do que em tempos
normais. Noutras palavras, no contexto de um governo extremista, as instituições operam sob
estresse, sendo desafiadas no seu limite e obrigando seus dirigentes a assumir condutas mais
radicais do que as que seriam adotadas sob condições usuais de operação. O abuso sistemático
por parte do Executivo faz com que condutas que seriam prontamente percebidas como abusi
vas por parte dos outros poderes se tornem não apenas normais, mas talvez indispensáveis. Por
isso, todo o sistema político democrático passa a funcionar de modo excepcional – seja por ini
ciativa de seus agressores, seja de seus defensores.
É por isso que tanto se questiona se as instituições estão ou não funcionando na vigência
de um governo com tais características. Trata-se de um problema mal posto: não é tanto o caso
de as instituições estarem ou não funcionando, mas sob que condições tal funcionamento se
dá. Tal qual um organismo vivo acometido por uma doença, que passa a operar sob estresse e
produz reações orgânicas diferentes das usuais, a estrutura institucional também passa a fun
cionar fora do compasso regular, com alguns órgãos precisando compensar a insuficiência ou
a disfuncionalidade de outros. Ao se observar a interação do Executivo bolsonarista com os
demais poderes (em especial o Poder Judiciário) e com os governos subnacionais (Abrucio et
al., 2020), tem-se uma demonstração de como tal fenômeno se dá.
As reiteradas transgressões dos limites constitucionais, a tentativa de invadir competências
alheias, a abdicação do papel coordenador da presidência em sua relação com o Congresso, as
omissões repetidas quanto a atribuições governamentais, o assédio institucional e o desmantela
mento da burocracia pública (Cardoso et al., 2022) vão tornando caóticas as relações políticas.
Tais violações fazem com que o sistema de justiça seja chamado a agir numa frequência e
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numa intensidade extraordinárias. Caso não o fizesse, permitiria que se dessem as condições
para uma concentração de poder excessiva nas mãos do Executivo, que por si mesma já seria
uma nova disfunção, bastante danosa ao funcionamento da democracia, senão capaz de a des
truir definitivamente. Porém, ao atuar como essa força de contenção, os atores judiciais caem
numa armadilha circular: precisam agir mais porque mais provocados; ao agir mais, são acu
sados de invadir competências alheias; isso os leva a terem de se defender, o que suscita novas
acusações de excessos judiciais e de parcialidade, numa espiral de radicalização.
O governo-movimento
Esse modus operandi do bolsonarismo no governo ocorre porque não se trata de um governo
especialmente ocupado com a produção de políticas públicas – noutra faceta, talvez a princi
pal, de sua anormalidade. Em vez disso, o governo se ocupa de mobilizar constantemente a sua
base militante e ativar seus apoiadores, instrumentalmente fundamentais em sua estratégia de
ataque continuado aos outros poderes. A esse fenômeno me refiro como governo-movimento
(Couto, 2021b).
A característica de governo-movimento da gestão de Bolsonaro está relacionada exata
mente ao aspecto não mediado nem institucionalizado do populismo, nos termos postos pela
perspectiva político-estratégica de populismo (Weyland, 2017, 2021a, 2021b). Em vez de atuar
por intermédio das instituições e adaptando-se a elas, o governo populista procura sobrepor-se
às instituições, minando-as e submetendo-as a suas próprias conveniências.
Por isso mesmo, o bolsonarismo não só prescinde de partidos, mas opera mais efetiva
mente sem as limitações institucionais que a dinâmica partidária impõe. O movimentismo
bolsonarista serve como lógica operativa não só da atuação no Executivo, mas também no
Legislativo. Em sua trajetória de político marginal, Bolsonaro operou embrionariamente
como esse líder de movimento, embora sua marginalidade e seu individualismo, durante
três décadas, não lhe tenham possibilitado atuar como líder de qualquer movimento efe
tivo. Isso só se tornou possível a partir da crise institucional deflagrada nas jornadas de
junho de 2013, quando começa a colapsar a base sobre a qual se assentou a democracia
da Nova República.
O ápice desse governo-movimento deu-se já após terminado o mandato presidencial, o que
não é inesperado em se tratando de um governo com tais características. Na Intentona do 8 de
Janeiro, militantes bolsonaristas, instados pelos reiterados ataques de seu líder à institucionali
dade democrática, investiram furiosamente contra as sedes dos três poderes em Brasília, após
dois meses acampados à frente de quartéis, clamando por um golpe militar. Esse golpe não se
daria apenas contra o vitorioso nas urnas, Lula, mas contra toda a estrutura institucional – em
especial o Poder Judiciário. Não à toa, além da intenção de derrubar o candidato presidencial
vitorioso e já empossado, o bolsonarismo também exigia que as Forças Armadas interviessem
no Supremo Tribunal Federal (STF) e no TSE, removendo os magistrados percebidos como
antagonistas do líder.
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EXTREMISMO NO GOVERNO: INSTITUIÇÕES DEMOCRÁTICAS SOB
ESTRESSE
A análise usual da operação de instituições políticas poliárquicas tende a assumir como dado
que os atores políticos relevantes atuem sem ter como objetivo o solapamento das próprias insti
tuições. Ou seja, as disputas dão-se dentro dos marcos constitucionais definidos, respeitando-se
direitos fundamentais dos diversos atores e respeitando – minimamente que seja – as regras do
jogo competitivo. Mesmo comportamentos contrários à legalidade (como a corrupção) não têm
como objetivo suprimir a institucionalidade democrática, respeitando os limites da preserva
ção do regime. Noutros termos, nas poliarquias é de se esperar, por parte dos atores-chave, uma
autocontenção que permita a preservação do jogo competitivo democrático.
Uma situação limítrofe de atuação dentro dessa lógica de preservação da poliarquia é o
“jogo duro constitucional” (constitutional hard-ball) ou, nos termos de Glezer (2020), “catimba
constitucional” (Balkin, 2008; Tushnet, 2004). Nela, atores políticos, mais do que simplesmente
transgredir as regras – seja literalmente, seja no espírito da lei –, atuam de modo a violar direitos
políticos e civis de adversários, mas ainda sem ter como objetivo o solapamento da democra
cia em seu conjunto. Isto é, a violação das normas do Estado Democrático de Direito dá-se de
maneira localizada e não sistêmica.
Tal limite é ultrapassado, contudo, por quem busca deliberadamente uma ruptura do
regime, seja estabelecendo uma autocracia plena, seja instituindo o que se tem denominado
“democracias iliberais”. É esse o caso de populistas extremistas como Jair Bolsonaro.
Como outros líderes nacionais de perfil similar no período recente, Bolsonaro não atuou
declaradamente para romper a estrutura institucional democrática, o que poderia fazer por
meio de um autogolpe ou da decretação de um Estado de Sítio ou de Emergência que esca
lasse mais rapidamente rumo à implantação de uma autocracia plena ou um regime iliberal.
Em vez disso, agiu de modo a estressar continuamente a estrutura de freios e contrapesos, des
gastando outros atores institucionais, convertendo-os em inimigos políticos e produzindo um
processo continuado de deslegitimação. Assim, tornou cada vez mais alto o custo de lhe impor
freios e impedir ações suas voltadas ao desrespeito da institucionalidade democrática – mesmo
quando perpetradas em nome de uma suposta defesa da ordem constitucional, ou, na peculiar
linguagem política bolsonaresca, dentro das “quatro linhas da Constituição”.
Entre 2019 e 2022, o estressamento da institucionalidade do Estado de Direito a fragilizou
e gerou riscos sérios de desdemocratização no Brasil. A ruptura da democracia propriamente
dita não ocorreu porque houve muita resistência institucional e social às investidas do então
presidente, em especial por parte do Poder Judiciário, de governos subnacionais, de setores da
imprensa e de organizações da sociedade civil.
A Intentona do 8 de Janeiro foi apenas o ponto culminante e mais dramático desse pro
cesso de ataque à democracia, um ato desesperado de tentar obter numa última tentativa
aquilo que não se logrou conquistar nos quatro anos anteriores. O fracasso dessa tentativa de
golpe foi também resultado dessa continuada resistência, apesar do que as evidências pare
cem revelar como tentativas de sabotagem promovidas pelas próprias forças de segurança.
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E, assim como o golpismo bolsonarista se estendeu para além do final de seu mandato pre
sidencial, as medidas de resistência a ele também precisarão seguir ativas. A declaração da
inelegibilidade de Jair Bolsonaro em 30 de junho foi apenas mais um passo nesse processo.
Não poderá ser o último.
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Cláudio Gonçalves Couto
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CONFLITOS DE INTERESSE
O autor não tem conflitos de interesse a declarar.
CONTRIBUIÇÃO DO AUTOR
Cláudio Gonçalves CoJornal Estado de São Paulo.
E assim caminha a humanidade.
uto: Conceituação, curador
ia de dados, Redação – rascunho original;
Redação – revisão e edição O artigo do autora Marco Antônio Teixeira
O trumpismo é a ideologia política associada ao ex-presidente e atual presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, e sua base de apoiadores. Embora não seja uma ideologia formalmente definida, é caracterizada por uma mistura de nacionalismo, populismo de direita e sentimentos antiestablishment. O movimento, fortemente vinculado aos slogans "Make America Great Again" (MAGA) e "America First", tem um impacto significativo e contínuo tanto na política dos EUA quanto em nível global.
Características principais
Nacionalismo e populismo: O trumpismo promove uma agenda nacionalista que prioriza os interesses dos EUA acima de tudo (política "America First"). Utiliza uma retórica populista para se apresentar como defensor do povo contra "a elite" e "o establishment".
Anti-imigração: A aversão à imigração e o reforço da segurança nas fronteiras são pilares centrais do trumpismo, com medidas como a construção do muro na fronteira com o México e a proposta de dificultar a imigração legal.
Críticas às instituições: O movimento frequentemente questiona a integridade de instituições como a mídia, o sistema judicial e até mesmo o próprio processo democrático, gerando acusações de antidemocracia.
Inclinações autoritárias: Críticos do movimento apontam para inclinações autoritárias, como a crença de que o presidente está acima do estado de direito e a comparação da base política de Trump a um culto à personalidade.
Desprezo por tratados internacionais: Durante sua presidência, Trump desrespeitou e abandonou diversos acordos internacionais, demonstrando ceticismo em relação a organizações multilaterais.
Impactos e evolução em 2024 e 2025
Vitória nas eleições de 2024: A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2024 solidificou o trumpismo como uma força política duradoura, garantindo-lhe um segundo mandato a partir de 2025.
Impacto no Partido Republicano: Os apoiadores de Trump se consolidaram como a maior facção dentro do Partido Republicano, muitas vezes marginalizando as alas mais tradicionais. A resposta à ascensão de Trump resultou no surgimento do movimento "Never Trump", que se opõe a essa ideologia.
Projeções para 2025: Analistas preveem que a volta de Trump ao poder em 2025 ameaça não apenas os EUA, mas também as regras de longa data que regem entidades como a ONU. Além disso, esperam-se novas ofensivas para restringir a imigração.
Influência internacional: O trumpismo continua a ter reflexos internacionais, influenciando movimentos populistas e nacionalistas em diversos países, incluindo a América Latina. O cenário americano também tem sido comparado com a situação política de outras nações.
MAGA é a sigla para o slogan político "Make America Great Again" (em português, "Tornar a América Grande Novamente"). Originalmente usado por Ronald Reagan na sua campanha presidencial de 1980, o lema foi popularizado por Donald Trump em suas campanhas de 2016, 2020 e 2024.
História e significado
Origem: A frase foi usada por Reagan em um período de dificuldades econômicas nos EUA, marcado por alta inflação e desemprego.
Popularização por Trump: Em 2016, o slogan se tornou central na campanha de Trump. Ele evocava uma nostalgia de um passado dos EUA que, segundo ele e seus apoiadores, havia sido perdido devido a fatores como imigração e globalização.
Movimento político: Com o tempo, MAGA passou a designar não apenas o slogan, mas também a ideologia e a base de apoiadores de Donald Trump, conhecida como o movimento MAGA. Os adeptos costumam usar bonés vermelhos com a sigla.
"America First": O movimento MAGA está associado à política de "America First" (América em Primeiro Lugar), que defende protecionismo econômico, controle de imigração e a promoção de valores considerados tradicionais.
Controvérsias e críticas
Associação com discriminação: O movimento MAGA é frequentemente associado a críticas e discriminação contra grupos minoritários, incluindo questões de raça, gênero e diversidade sexual.
Críticas ao slogan: O uso da frase é visto por alguns como uma "linguagem codificada" ou uma crítica aos direitos civis e ao avanço social. Críticos alegam que a busca por uma "América grande novamente" idealiza um passado excludente.
Relação com a mídia: A base de apoiadores de MAGA frequentemente tem uma relação antagônica com a mídia tradicional, acusando-a de ser tendenciosa.
Confira abaixo o artigo do autores Ubirajara de None Caputoa e Henrique Araujo Aragusukua
Donald Trump e o fascismo: uma análise inspirada na teoria crítica
Ubirajara de None Caputoa *
Henrique Araujo Aragusukua
a Universidade de São Paulo, Instituto de Psicologia, Departamento de Psicologia Social, São Paulo, SP, Brasil
Resumo: A atuação de Donald Trump durante o período em que esteve na presidência dos Estados Unidos
suscita a investigação de possíveis semelhanças entre ele e líderes fascistas do passado. A proposta deste
ensaio é apresentar reflexões sobre a atuação política de Trump, inspiradas pelas discussões sobre a psicologia
e a propaganda fascista na teoria crítica. Embora pareça impossível tomar Trump por um líder fascista clássico,
principalmente em razão de contextos históricos muito diferentes, também é impossível desconsiderar o nexo
entre suas estratégias políticas e o modus operandi de agitadores fascistas no século XX. Além disso, é inegável que
sua política mobiliza elementos sociopsicológicos que remontam às análises da emergência do fascismo histórico,
como a identificação com uma figura idealizada e transcendente, a submissão a uma autoridade ou causa superior
e a agressividade direcionada às ameaças do out-group.
Palavras-chave: fascismo, teoria crítica, fascismo digital, psicologia social.
Introdução
regimes fascistas das primeiras décadas do século XX –
que passaremos a chamar de fascismo histórico (Mann,
O termo “fascista” costuma ser usado para
desqualificar desafetos localizados em qualquer ponto
do amplo espectro político-ideológico. Recuperando a
história do fascismo, é preciso lembrar que “a direita é
o gênero de que o fascismo é espécie” e “a ideologia de
direita representa sempre a existência de forças sociais
empenhadas em conservar determinados privilégios . . .
de que tais forças são beneficiárias” (Konder, 2009, p. 27).
O fascismo, contrapondo-se à influência das ideias liberais
na própria direita, promove um Estado-nação transcendente
e totalizante (Mann, 2008; Paxton, 2008). No entanto, não
é raro encontrar o adjetivo “fascista” associado a ideias
progressistas, o que seria suficiente para implodir o termo,
necessariamente associado, em sua origem, a um tipo de
conservadorismo de direita.
Verifica-se que o senso comum atribui ao termo
“fascismo” sentidos diversos que o afastam de sua
configuração original. Mesmo que as múltiplas acepções
insultuosas do significante “fascismo” não sejam
nítidas, nota-se tendência de associá-lo ao autoritarismo,
à rigidez e à negação do humano. Tais associações são
compreensíveis, ao considerar que os movimentos fascistas
originais se tornaram regimes políticos conhecidos por
eliminarem seus oponentes pelo uso “justificado” da
violência, excluírem os que consideravam indesejáveis
e submeterem todos/as ao regime. O uso comum da
palavra “fascismo” para denunciar ações contra grupos
vulneráveis e posicionamentos políticos autoritários
e inflexíveis demonstra que os modos de agir dos
*Endereço para correspondência: biracaputo@gmail.com
2008) para melhor orientar a leitura – permanecem na
memória coletiva e nos discursos do presente.
O fascismo histórico foi um movimento político
emergente no início do século XX, marcado pelas
seguintes características: nacionalismo, chauvinismo
étnico e racial, estatismo, paramilitarismo, conteúdo social
conservador, uso de mitos irracionais para a justificação
de sua prática política, antiliberalismo, antidemocracia
e antissocialismo (e.g. Bianchi & Melo, 2018; Konder,
2009; Mann, 2008). Torna-se possível, em acordo com
Freud, porque “a dicotomia entre in-group e out-group é
de uma natureza tão profundamente enraizada que afeta
até mesmo aqueles grupos cujas ideias aparentemente
excluem tais reações” (Adorno, 2015a, p. 174). Sendo
assim, Freud livra-se da “ilusão liberal de que o progresso
da civilização iria produzir automaticamente um aumento
de tolerância e uma diminuição da violência contra os
out-groups” (Adorno, 2015a, p. 174). Por isso o fascismo,
enquanto uma tendência política, permanece nos dias
atuais. Atualiza-se de acordo com condições históricas
objetivas, mas permanece.
Problema e método
Neste ensaio, buscamos levantar algumas
reflexões sobre a atuação política de Donald Trump,
inspirados pelas discussões sobre psicologia e propaganda
fascista a partir da teoria crítica (Adorno, 2015a, 2015b;
Carone, 2002; Fromm, 1980), em conexão com outros
estudos sobre o fascismo histórico (e.g. Mann, 2008;
Paxton, 2008) e sobre as tendências fascistas na política
http://dx.doi.org/10.1590/0103-6564e220050
Ubirajara de None Caputo & Henrique Araujo Aragusuku
(MAGA), em que se evidenciam dois elementos:
2
2
contemporânea (e.g. Fielitz & Marcks, 2019; Neiwert,
2017). Nosso problema é lançar luz sobre como uma
questão do presente – a emergência da extrema direita
no cenário político estadunidense – pode ter confluências
com análises de um fenômeno político do passado.
Anteriormente um outsider da elite política
norte-americana, Trump foi eleito 45º presidente dos
Estados Unidos, em 2017 – cargo que exerceu até
janeiro de 2021 –, através de uma campanha permeada
por polêmicas e conflitos, amparando-se em uma
agenda radicalmente neoliberal no campo econômico
(avessa a direitos trabalhistas, políticas sociais etc.)
e conservadora no campo cultural (xenófoba, contra
as lutas dos movimentos LGBTI+, feminista e negro
etc.). Embora pareça impossível tomar Trump por
um líder fascista clássico, principalmente em razão
de contextos históricos muito diferentes, também é
impossível desconsiderar o nexo entre suas estratégias
políticas e o modus operandi de líderes fascistas no
século XX. Além disso, é inegável que sua política
mobiliza elementos sociopsicológicos que remontam
às análises da emergência do fascismo histórico.
Nosso objetivo neste ensaio não é discutir
exaustivamente os conceitos envolvidos em nossa análise,
mas sim traçar, de forma ampla, reflexões que produzam o
debate acadêmico e possam ser reaproveitadas no futuro,
inspirando novos estudos. Por meio dos fundamentos
da teoria crítica, compreendemos que os fenômenos
políticos estão intrinsecamente conectados a elementos
sociopsicológicos responsáveis por constituir a vida humana
em sociedade (Azevedo & Menin, 1995). Paralelamente,
tais fenômenos estão permeados por relações e estruturas
de poder, sendo um dos fins do pensamento crítico o
desvelamento das desigualdades e opressões que tornam
a vida em sociedade miserável para a maioria das pessoas.
Como definido por Max Horkheimer (2002), a teoria crítica
é “uma teoria dominada em todos os aspectos por uma
preocupação com condições razoáveis de vida” (p. 1999),
por um compromisso teórico com a justiça social e a
emancipação humana.
Consonâncias e dissonâncias
A discussão sobre a medida em que Trump e seu
projeto de poder se assemelham ao fascismo histórico e,
portanto, podem ser caracterizados como neofascistas,
requer urgência, uma vez que projetos análogos, os quais
propõem retrocessos sociais e políticos – ameaças às
liberdade civis, proposições etnonacionalistas, negacionismo
científico e afrouxamento de regras ambientais –, podem
ser identificados em diferentes países, como Hungria,
com Orbán; Turquia, com Erdogan; Filipinas, com Duterte;
Rússia, com Putin; e Brasil, com Bolsonaro (Löwy, 2019).
Inspirado em certa redução da influência dos
Estados Unidos no cenário internacional e na ameaça
econômica representada pela China, o mote da campanha
presidencial de Trump foi “Make America Great Again”
o nacionalismo e a necessidade de reerguer a pátria.
Tais elementos são amplamente reconhecidos como
características fulcrais e indispensáveis ao fascismo
(e.g. Griffin, 1991; Turner, 2019). É razoável que o líder
de uma nação a tenha em alta conta, mas o que se viu
na campanha de Trump e ao longo de seu mandato foi a
exacerbação da ideia de nação como um mito, exatamente
como Mussolini havia feito no século anterior: “Criamos
o nosso mito. O mito é uma fé, uma paixão. . . . O nosso
mito é a nação, o nosso mito é a grandeza da nação!”1
(Konder, 2009, p. 36).
Embora espere-se que um projeto de governo
inclua políticas que zelem pelos interesses do país, Trump
baseou o seu governo na afirmação de que os Estados
Unidos são uma nação ameaçada que deve ser defendida
ardorosamente, bem ao gosto de líderes fascistas do
passado. Em um discurso realizado no dia 3 de julho
de 2020, num evento comemorativo da independência
dos Estados Unidos, em meio a aplausos e um acalorado
público, Trump anunciou que:
Nossos fundadores declararam ousadamente que nós
somos todos dotados dos mesmos direitos divinos –
dados a nós por nosso Criador no Céu. E o que Deus
nos deu, não permitiremos a ninguém, nunca, tomar
de nós – nunca . . . Nossa nação está testemunhando
uma campanha impiedosa para varrer nossa história,
difamar nossos heróis, apagar nossos valores e
doutrinar nossas crianças. . . . Eles pensam que o povo
americano é fraco e brando e submisso. Mas não,
o povo americano é forte e orgulhoso, e ele não permitirá
que nosso país, e todos os seus valores, história e
cultura, sejam tomados dele (“Remarks…”, 2020).
É importante diferenciar o uso da “nação” como
mito capaz de unir uma coletividade a serviço de algo maior
do que si mesma do conceito de “Estado”. As concepções
do fascismo histórico e de Trump quanto ao Estado, como
ente político organizativo de uma sociedade, são muito
diferentes. Mussolini chegou a declarar que nada deveria
haver fora do Estado. É claro que o Duce não se referia a
um Estado popular, democrático ou socialista, mas sim
a um Estado capitalista-corporativista e intervencionista
que deveria se submeter a seus desígnios ditatoriais.
O estatismo é um elemento primordial do fascismo
histórico (Mann, 2008), sendo o Estado autoritário, avesso
às premissas do liberalismo, um meio de consolidação
do imaginário de nação.
Na Europa do século passado, os movimentos
fascistas surgiram em contraposição aos governos liberais,
nos quais “esperava-se que a intervenção governamental
se limitasse às poucas funções que os indivíduos não
podiam desempenhar para si próprios” e que “os assuntos
1 Tradução da fala original de Mussolini citada em Opera omnia
(Vol. XVIII, p. 457).
2
Psicologia USP I www.scielo.br/pusp
3
Donald Trump e o fascismo: uma análise inspirada na teoria crítica
3
econômicos e sociais fossem entregues ao livre jogo das
escolhas individuais no âmbito do mercado” (Paxton,
2008, p. 135). Trump não preconizou a interferência do
Estado na economia de seu país. Ao contrário, defendeu o
modelo neoliberal ao trabalhar para reduzir a participação
do Estado em programas de saúde implementados pelo
seu antecessor, reforçando a ideia de autorregulação dos
mercados e de supressão de políticas sociais (Bianchi
& Melo, 2018). Enquanto as lideranças do fascismo
histórico são frutos da crise dos regimes liberais do
início do século XX (Fromm, 1980; Mann, 2008), Trump
surge no contexto de hegemonia neoliberal existente no
mundo globalizado, reafirmando as premissas basilares
do capitalismo financeiro em plano geopolítico, a despeito
de algumas medidas protecionistas para favorecer o
mercado estadunidense contra a concorrência externa.
O ideário liberal, contra o qual o fascismo
histórico se lançou, não repercute apenas nos modos
de funcionamento das economias. Ele se assenta na
ideia de liberdade individual como direito fundamental
dos/as integrantes de uma dada sociedade. O fascismo
histórico, ao contrário, preconiza a subordinação de
cada homem e mulher ao “bem comum”, com estreita
margem para escolhas livres e pessoais – o que o torna
essencialmente antidemocrático. Trump não ameaçou
abertamente as liberdades individuais e nem propôs
institucionalmente restrições democráticas, mas
buscou apagar a estrutura multicultural da sociedade
estadunidense. Ao desqualificar as pessoas latinas,
muçulmanas, asiáticas, negras e de outros segmentos
populacionais vulneráveis, por contraste, acabou por
delinear um modelo de cidadão/ã ideal, baseado em raça/
cultura, acentuando o imaginário de poder da população
branca e cristã, revitalizando as políticas segregacionistas
que marcaram a história dos Estados Unidos.
Outro inimigo do fascismo histórico foi o
comunismo. Também nos Estados Unidos, durante a
guerra fria, a retórica da ameaça comunista foi mobilizada
por grupos de direita. Expoentes da política institucional,
como o senador McCarthy, precedidos por religiosos,
como Martin Luther Thomas, entre outros ativistas de
extrema direita, tratavam os comunistas como “inimigos
do povo” (Carone, 2002, p. 198), justificando políticas
que suspendiam liberdades e direitos civis. Em seu
período como presidente, no qual o comunismo não
mais se configurava como ameaça, Trump elegeu as
pessoas imigrantes, em especial muçulmanas e latinas,
como inimigas dos valores de sua nação. E o fez de
forma muito semelhante a seus antecessores de extrema
direita, conforme se nota ao comparar sua retórica anti
imigração ao padrão da propaganda norte-americana
do início do século XX (Adorno, 2015a; Carone, 2002).
Ao alertar para os riscos de permitir a permanência
de imigrantes indesejados/as no país, Trump inverteu
os papéis de agressor e vítima. Segundo Iray Carone
(2002), “o aspecto psicológico imanente à construção
ideológica que converte o agressor em vítima ameaçada
e a vítima em agressor, consiste em estimular e justificar
a violência contra os out-groups, neles projetando o que
deles se imagina” (p. 202).
A respeito do vazio de argumentos que justificassem
uma cruzada pró-americana nos discursos da extrema
direita norte-americana do passado, Carone (2002)
acrescenta: “a argumentação era substituída pelo artifício
de nomear grupos, pessoas e raças como alvo de suas
diatribes” (p. 205), exatamente como fez Trump em diversos
discursos sobre imigrantes (e.g. Lind, 2019). Não é por acaso
que o público-alvo desses discursos – “pessoas de baixa
classe média, com pouca escolaridade, sujeitos de meia
idade ou idosos com profundas convicções religiosas de
caráter fundamentalista ou sectário” (p. 199) – se assemelha
ao público de seguidores/as mais fanáticos/as de Trump.
Esses/as eleitores/as foram convencidos/as, como
se deu no fascismo alemão e italiano do século passado,
de que se tornaram “vítimas de um sistema de exploração
internacional” (Konder, 2009, p. 37), e se sentiram impelidos/
as a lutar contra o inimigo para buscar “uma restauração de
algo do passado – uma revolução conservadora, a volta aos
bons velhos tempos” (Carone, 2002, p. 208). Sendo assim,
intencionalmente ou não, Trump agiu como um herdeiro
genuíno da retórica e das tendências fascistas existentes
em grupos da extrema direita estadunidense do século
XX, ressentidos com os processos de democratização e
o avanço dos movimentos por direitos civis para grupos
historicamente excluídos e perseguidos.
O personagem
O fascismo é indissociável da figura de um líder
capaz de sensibilizar uma massa de seguidores a cultuá-lo
e apoiá-lo em suas pretensões. Foi isso que Trump fez
ao incitar seguidores a invadirem o Capitólio em 6 de
janeiro de 2021. Nesse dia, ele discursou para milhares de
pessoas na capital estadunidense e insuflou uma multidão
a marchar e, posteriormente, invadir violentamente o
Congresso para tentar impedir o término da sessão que
formalizaria a vitória de seu sucessor à presidência da
república. Repetindo o slogan “Stop the Steal”, Trump
enfatizou que as eleições foram fraudadas para “impedir
sua esmagadora vitória”, mesmo sem qualquer evidência
ou compromisso em provar essas graves acusações
(“Trump’s…”, 2021).
Theodor Adorno tratou sobre a retórica de líderes
fascistas com maestria. Ele nos fala de uma atmosfera de
agressividade emocional propositadamente promovida
pelo líder, de uma reiteração constante de ideias, da
necessidade de o líder atuar narcisicamente para permitir a
identificação narcísica de seus seguidores (Adorno, 2015a).
Tais características são frequentemente identificadas nos
discursos de Trump e em suas constantes postagens nas
redes sociais. Conforme enfatizado por Ruth Wodak
(Jackson, 2021), foram 34 mil tweets disparados por
Trump entre junho de 2015 e janeiro de 2021, nos quais
circulou grande parte de sua propaganda – que privilegiou
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ambiente televisivo, o que prevaleceu foi a excelência
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a escandalização, a provocação, a violação de normas
e a incitação ao ódio como formas de mobilização de
seus apoiadores/as. Sobre isso, Adorno (2015a) afirma:
O líder pode adivinhar os desejos e necessidades
psicológicas daqueles suscetíveis à sua propaganda,
porque os reflete psicologicamente e deles se
distingue por uma capacidade de exprimir, sem
inibições, o que é latente . . . a própria linguagem,
desprovida de seu significado racional, funciona de
uma forma mágica e favorece aquelas regressões
arcaicas que reduzem os indivíduos a membros de
multidões (p. 181).
Assim como as massas do entreguerras elegeram
líderes fortes, potencialmente capazes de restaurar a
ordem, nos dias atuais, quase metade do eleitorado
estadunidense tentou eleger Trump para um segundo
mandato, cuja campanha baseou-se em um suposto
mito da “restauração nacional” diante das ameaças
de inimigos internos e externos, presumidos como
sabotadores de valores verdadeiramente americanos.
Uma parte desse eleitorado se identificou de forma tão
absoluta com seu líder político que chegou a crer nas
afirmações de Trump, mesmo sem qualquer tipo de
evidência, de que a eleição havia sido fraudada e que
isso justificaria uma insurreição violenta.
É notável que o lema “Stop the Steal” tenha sido
empregado de forma instrumental, como uma propaganda
política sem qualquer compromisso com a verdade, tendo
como objetivo final a mobilização de uma base social.
Evidencia-se, assim, mais um elemento estruturante da
ideologia fascista: a mentira como estratégia para construir
uma realidade planejada (Arendt, 2012). Ao submeter a
própria verdade a seu poder, o líder fascista pretende atingir
os limites da dominação, e isso se torna possível, segundo
Federico Finchelstein (2020), porque o que o líder diz ou
faz torna-se mais importante do que os fatos. Conforme
Jason Stanley (2018), “a política fascista troca a realidade
pelos pronunciamentos de um único indivíduo. . . . Mentiras
óbvias e repetidas fazem parte do processo pelo qual a
política fascista destrói o espaço da informação” (p. 66).
A personalidade e a história de vida de Trump
estão longe de serem compatíveis com o exigido para
um líder responsável por combater a corrupção e pela
regeneração dos valores da nação. Enquanto ele dizia
defender valores conservadores do povo americano
oprimido pelo corrupto establishment, sua história era
permeada por contradições. Como um bilionário do ramo
da construção e celebridade televisiva, Trump faz parte
da elite econômica dos Estados Unidos. Sua história é
permeada por polêmicas, dentre elas, diversos casos
de corrupção e más práticas empresariais, infidelidade
conjugal e escândalos sexuais (e.g. Dickinson, 2018;
Prokop, 2016). No entanto, tais incoerências não
abalaram a sua influência política e sua capacidade de
convencimento de milhões de pessoas. Assim como no
na execução de um personagem, pois sua liderança não
se sustentou na coerência de suas práticas, mas sim
em sua performance como agitador e propagador de
uma narrativa política. Em acordo com as reflexões
de Adorno, esse elemento se assemelha à retórica de
agitadores fascistas do início do século XX.
Este caráter fictício é o elemento vital das
performances da propaganda fascista. . . . O caráter
fictício da oratória propagandista, o hiato entre a
personalidade do locutor e o conteúdo e caráter de
suas afirmações são atribuíveis ao papel cerimonial
que ele assume e que dele se espera. Essa cerimônia,
entretanto, é meramente uma revelação simbólica da
identidade que ele verbaliza, uma identidade que os
ouvintes sentem e pensam, mas não podem exprimir.
A gratificação que eles obtêm da propaganda
consiste muito provavelmente na demonstração dessa
identidade. . . . Certamente podemos chamar este ato
de identificação um fenômeno de regressão coletiva
(Adorno, 2015b, p. 146).
Desse modo, destacamos, a retórica fascista
se sustenta em processos primários de identificação – já discutidos por Freud (2011) em seu texto sobre a
psicologia das massas, retomado por Adorno (2015a) – em que a racionalidade das ações e a autonomia dos
sujeitos é suspensa pelo culto à liderança que encarna
valores e ideais superiores. Dentro dessa lógica, mentiras
e afirmações não baseadas em evidências, sempre imersas
em provocações e agitações, tornam-se práticas cotidianas
no jogo político, pois a coerência da narrativa política
não se dá por meio da racionalidade de suas proposições,
mas através de processos de identificação. Isto é, pela
evocação de uma identidade étnico-nacional idealizada
e sempre em perigo.
Inúmeras vezes Trump utilizou a expressão
“we, the american people” ao mesmo tempo que se
apresentava como o único e legítimo representante dos
interesses desse coletivo (que se entende como um povo
nação). Em seus pronunciamentos, ele constantemente
utilizou a estratégia retórica de afirmação de si – o amor
a si próprio do narcisismo (Freud, 2011) – novamente
recorrendo a declarações inverificáveis. Já em 2015,
quando se lançou candidato à presidência, Trump
afirmou: “eu sou o único que pode fazer a América
verdadeiramente grande novamente”. Ao longo dos
seus quatro anos de presidência, declarações como
“eu sou o único”, “sou o melhor” e “ninguém sabe
mais do que eu” foram utilizadas com frequência em
seus discursos, como uma forma de autoafirmação
de sua autoridade (NowThis News, 2019; Vice News,
2020). Mesmo as afirmações mais absurdas, como
“ninguém sabe mais sobre o Estado Islâmico que eu” e
“sou o melhor presidente para as pessoas negras desde
Abraham Lincoln [que aprovou o fim da escravidão em
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Donald Trump e o fascismo: uma análise inspirada na teoria crítica
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1863]”, eram ouvidas com naturalidade e concordância
por seus/suas eleitores/as.
Como evidenciado por Adorno (2015b), “o agitador
fascista é usualmente um exímio vendedor de seus próprios
defeitos psicológicos. Isso somente é possível devido a
uma similaridade estrutural geral entre seguidores e
líder” (p. 144). Em uma espécie de narcisismo coletivo,
Trump corporificou a grandeza e infalibilidade da “nação
americana”, angariando fervorosos/as seguidores/as que
entregaram suas vidas e suas individualidades para uma
causa maior e para a defesa da nação.
O movimento MAGA
O fascismo não se constitui apenas por uma retórica
promovida por lideranças, agitadores e propagandistas,
mas também por um movimento que mobiliza pessoas
em ações políticas. Como agitadores fascistas convencem
uma parcela significativa da população de que suas ideias
políticas, geralmente incoerentes e irracionais, devem ser
seguidas? Quais os mecanismos sociais e psicológicos
que tornam possível a emergência de um movimento
fascista de massas?
Existem diferenças importantes entre o contexto
sociopolítico em que Trump presidiu os EUA e o da Europa
do entreguerras, o que dificulta qualquer tipo de analogia
direta e explícita (Bianchi & Melo, 2018). Entretanto,
existem notáveis semelhanças entre as estratégias
retóricas utilizadas por Trump enquanto líder político e
as propagandas fascistas do século XX. Em relação ao
caráter de seus/suas seguidores/as, também é possível
traçar alguns paralelos a partir das discussões sobre os
aspectos sociopsicológicos do fascismo histórico (Adorno,
2015a; Fromm, 1980).
Desde que se lançou como candidato à
presidência dos Estados Unidos, Trump organizou em
torno de si um potente movimento comprometido com
sua eleição – e, posteriormente, reeleição – e com a
defesa intransigente de sua liderança: o “Make America
Great Again (MAGA)”. Slogans desse movimento
foram estampados em camisetas, bonés e bandeiras,
os quais se tornaram importantes elementos de
autoidentificação e unificação de seus/suas seguidores/
as. A lealdade intransigente a esse movimento foi
enfatizada por diversos meios de comunicação e pelo
próprio Trump em um comício de campanha, em 2016,
quando afirmou que “eu poderia parar no meio da
Fifth Avenue [movimentada via de Nova York] e atirar
em alguém, e eu não perderia nenhum eleitor” (CNN,
2016), seguido por risadas e ovações do público que
lhe assistia. De fato, a lealdade a esse movimento foi
testada nas eleições de 2020, quando Trump recebeu
74 milhões de votos (em torno de 47% do total de
votos) graças à mobilização de suas bases eleitorais.
No entanto, há muitas diferenças entre o movimento
pró-Trump e o fascismo histórico. De modo distinto aos
movimentos fascistas do século XX, não existiu unidade
política e nem estrutura centralizadora no MAGA.
Trump atuou por meio do Partido Republicano, porém
não se ateve às decisões de seus organismos de direção.
Ao contrário, procurou sempre impor suas decisões ao
partido, recorrendo constantemente ao conflito direto com
as principais lideranças partidárias quando contrariado.
Diferentemente do fascismo histórico (Mann, 2008;
Paxton, 2008), não houve unidade entre movimento,
partido e liderança e, principalmente, não houve organismo
paramilitar responsável pela operação da violência política.
Apesar da existência de diversos grupos paramilitares pró
Trump – muitos responsáveis pela organização da invasão
do Capitólio –, estes atuaram de forma independente às
estruturas do Partido Republicano e à liderança de Trump.
Sendo assim, o modo de operar do movimento político
que sustentou Trump difere significativamente de seu
correspondente no fascismo histórico.
Por outro lado, quando analisamos os mecanismos
sociopsicológicos e as motivações que unificaram os/as
seguidores/as de Trump em um movimento, algumas
analogias são possíveis. Em suas teses sobre a psicologia
do fascismo, Erich Fromm (1980) defendeu que fatores
sociológicos relacionados à emergência do capitalismo –
em especial, a expansão da liberdade individual e a
desestruturação da ordem e da autoridade tradicional –
produziram efeitos em nível psicológico, como o aumento
da percepção da insegurança existencial e do desamparo
social, que modificaram a relação dos sujeitos com o
mundo. Atuante no plano político, o fascismo histórico
surgiu em reação às incertezas e inseguranças do mundo
moderno, tratando-se de uma resposta à universalização
do individualismo (desagregador e desamparador)
promovida pelo capitalismo e pelo liberalismo.
Fromm (1980) descreve dois mecanismos
psicológicos que atuam como recursos para a fuga das
incertezas geradas pela modernidade, podendo fazer as
pessoas aderirem aos movimentos fascistas. O primeiro
mecanismo é a renúncia do próprio ego individual e a sua
fusão a algo maior (uma liderança ou uma causa), suprindo
a impotência do eu perante o mundo. Trata-se de uma
forma de controle das ansiedades por meio da submissão
a uma autoridade ou identidade que promove estabilidade,
ordem e controle. O segundo é o da destrutividade,
isto é, a busca pela destruição dos objetos (podem ser
grupos, pessoas, ideias etc.) considerados responsáveis
pela insegurança e impotência perante o mundo.
A destruição das ameaças produziria assim um mundo
mais seguro e menos incerto. Ambos os mecanismos
atuaram em conjunto no caso do fascismo histórico:
“o indivíduo sobrepuja o sentimento de insignificância
em comparação com o poder esmagador do mundo
exterior, seja renunciando à sua integridade individual,
seja destruindo outros de maneira que o mundo deixe
de ameaçá-lo” (p. 150).
Adorno (2015a) também descreve alguns
mecanismos psicológicos capazes de fazer as pessoas
aderirem a movimentos fascistas; esses mecanismos
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massa de pessoas aparentemente indiferentes,
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estruturam traços de personalidade que os tornam o que o
autor, ao tratar sobre a personalidade autoritária, chamou
de indivíduos potencialmente fascistas (Adorno, Frenkel
Brunswik, Levinson, & Sanford, 1950). Para ele, existe
uma dinâmica entre submissão e agressividade que torna a
retórica da liderança fascista verdadeiramente eficaz para
o seu público-alvo, na qual “a imagem do líder satisfaz
o duplo desejo do seguidor em se submeter à autoridade
e ser ele mesmo a autoridade” (Adorno, 2015a, p. 172).
Desse modo, há um ganho narcísico aos/às adeptos/as
dos movimentos fascistas por meio da identificação de
si em um coletivo que transcende o eu individual, com a
elevação da autoestima e a idealização das características
do in-group. Em contrapartida, intensificam-se as
hostilidades contra o out-group, com o direcionamento de
toda a agressividade a ameaças imaginárias (geralmente
grupos minoritários e oprimidos) que desestabilizam a
identidade transcendente idealizada.
No caso do MAGA, é evidente que tais mecanismos
psicológicos atuaram no processo de mobilização política,
seja pela intransigente submissão desse movimento à
autoridade de Trump e à idealização de uma identidade
nacional pura e transcendente (“os verdadeiros americanos”)
ou pela agressividade extrema direcionada aos grupos que
ameaçam essa autoridade e identidade (imigrantes, latinos,
mulçumanos, negros etc.). Se por questões de estrutura
organizacional é indevido identificar o movimento pró
Trump com fascismo per se, não é difícil visualizar suas
tendências fascistas.
Fascismo no século XXI?
Respeitados os diferentes contextos econômicos,
políticos e sociais, analistas sociais de todo o mundo
(e.g. Bull, 2012; Foster, 2017; Löwy, 2019) apontam
alguns motivos para o fortalecimento de movimentos
de extrema direita capazes de pavimentar o caminho
para a implementação de governos de característica
fascista. Alguns desses motivos são: enfraquecimento dos
movimentos de esquerda após a queda do muro de Berlim,
avanço do neoliberalismo com supressão de políticas
sociais e aumento da insegurança material, reação
ao processo de globalização, aumento do sentimento
de ameaça em razão da ação de grupos extremistas e
imigração em massa de refugiados de guerras.
Os eleitores de Trump e de partidos de extrema
direita fora dos Estados Unidos guardam semelhanças
entre si e com aqueles que levaram os regimes fascistas
do início do século XX ao poder. De acordo com Hannah
Arendt (2012),
Potencialmente, as massas existem em qualquer
país e constituem a maioria das pessoas neutras e
politicamente indiferentes. . . . Em sua ascensão,
tanto o movimento nazista na Alemanha quanto
os movimentos comunistas na Europa depois
de 1930 recrutaram os seus membros entre uma
que todos os outros partidos haviam abandonado
por lhes parecerem demasiado apáticas ou estúpidas
para lhes merecerem a atenção. Isso permitiu a
introdução de métodos inteiramente novos de
propaganda política . . . (p. 439).
Decerto, Arendt referia-se à pesada máquina de
propaganda nazifascista, a qual se utilizou sobretudo
da tecnologia radiofônica, ao citar novos métodos
de propaganda política. Sobre isso, Adorno (2015a)
escreveu:“[a propaganda fascista] é psicológica por causa
de seus objetivos irracionais e autoritários, que não
podem ser alcançados por meio de convicções racionais,
mas somente através do despertar habilidoso de ‘uma parte
da herança arcaica do sujeito’” (p. 165). “O que acontece
quando massas são subjugadas pela propaganda fascista
[é] uma revitalização quasi-científica de sua psicologia. . . .
A psicologia das massas foi apropriada por seus líderes e
transformada em meio para dominação” (p. 186).
Nos dias atuais, não há dúvidas de que novas
estruturas têm sido intensamente utilizadas para
disseminar mensagens de cunho fascista. Aos meios
de comunicação de massa corporativos, como redes de
televisão e grande imprensa, junta-se a contribuição
de recursos telemáticos (sistemas de comunicação
imediata e de longa distância), que se constituem numa
importantíssima arena de disputa ideológica. Usuários/
as das redes sociais disseminam suas próprias versões
sobre os acontecimentos e opinam obstinadamente sobre
tudo e todos. A presumida possibilidade de anonimato,
a sensação de plena liberdade para manifestar-se,
a busca por reconhecimento, o descomprometimento com
a verdade e a argumentação incipiente e superficial são
alguns fatores que tornam as redes sociais ambientes
propícios ao desmonte da racionalidade. Por meio delas,
trafega instantaneamente imensurável quantidade de
informações, dificultando um olhar consequente e
apurado sobre elas e esmaecendo suas fronteiras com a
realidade. O quadro se agrava quando as interações entre
usuários/as são interpeladas por robôs e algoritmos que
selecionam conteúdos de reforço, evitando a reflexão
crítica e o contraditório.
Maik Fielitz e Holger Marcks (2019) descreveram
a gramática da propagação de ideias da extrema direita
contemporânea, constituinte do que denominam fascismo
digital: uma variação do fascismo que não precisa de
partidos, pois utiliza a estrutura do mundo digital para
sua dinâmica. Segundo os autores, a internet tornou-se
um território usado pela extrema direita para minar
as sociedades democráticas, usando uma concepção
ampliada de liberdade de expressão. As estruturas
comunicacionais disponíveis nas redes sociais permitem a
disseminação de discursos de intolerância, com conteúdos
misóginos, LGBTfóbicos, racistas, xenófobos etc., cujos/
as autores/as, quando confrontados/as, alegam ser vítimas
de intolerância e terem sido alijados de sua liberdade de
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Donald Trump e o fascismo: uma análise inspirada na teoria crítica
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expressão. Trata-se de uma estratégia discursiva à qual
Fielitz & Marks (2019), recorrendo à formulação liberal
de Karl Popper, denominam reedição do paradoxo da
tolerância. Isto é, tais grupos se utilizam da liberdade de
expressão para serem intolerantes, atacando a liberdade
de grupos minoritários ou destituídos de poder e, em
última instância, minando a própria democracia e a
liberdade geral.
Outra retórica largamente utilizada pela extrema
direita por meio das redes sociais é o discurso do medo.
Segundo Rebecca Lewis (2018), a extrema direita
desenvolveu um sistema para descontextualizar fatos a
fim de fazer sua audiência se sentir, em termos pessoais
ou como sociedade, alvo potencial de um perigo iminente.
Por exemplo, a notícia de que uma mulher foi atacada
por um imigrante em um país distante pode basear uma
mensagem como: “É urgente proteger nossas mulheres
e crianças dos imigrantes”. Roger Griffin (1991) alerta
para o fato de quase todos os estudos sobre a extrema
direita atribuírem a ela o medo como estratégia política
porque a ideia de uma sociedade ameaçada pode suscitar
uma solução autoritária.
As mensagens que consubstanciam os discursos
utilizados pela extrema direita têm origem em uma
postagem de um/a líder, ou simplesmente numa fala pública
que lança um tema a ser “trabalhado”. Os/as apoiadores/as
fiéis – também chamados ativistas digitais ou influencers – formulam mensagens que serão disseminadas “por
enxame”, utilizando a estrutura ramificada das redes
sociais. Para terem maior impacto, essas mensagens são
concebidas para serem consumidas rapidamente, com
conteúdo simples e direto, de caráter visual (memes) e
com apelo dramático (Fielitz & Marks, 2019).
Como redes sociais são remuneradas por
publicidade, isto é, proporcionalmente à atenção que
conseguem captar de seus bilhões de usuários, influencers
se beneficiam economicamente do alcance de suas
postagens e têm milhões de seguidores/as, os quais muitas
vezes não se dão conta de que estão cooperando com
uma dinâmica fascista. Os algoritmos de aproximação de
usuários/as das redes sociais auxiliam o recrutamento de
seguidores/as, pois permitem encontrar quem concorde
com suas ideias e dão a sensação de que muitas pessoas
estão ouvindo (Neiwert, 2017). As milhões de replicações
de uma mensagem falaciosa tendem a fazê-la ser
aceita como verdade, inibindo que o contraditório seja
ouvido e confundindo a percepção de quem são seus/
suas reais emissores/as. Diferentemente das estruturas
comunicacionais utilizadas pelo fascismo histórico,
no qual poucos/as emissores/as se dirigiam a muitos/
as receptores/as, na era do fascismo digital (Fielitz &
Marks, 2019), as mensagens originárias podem ir sofrendo
ajustes à medida que são compartilhadas por múltiplos/
as emissores/as, os quais passam a ser, de certo modo,
seus/suas coautores/as.
A manipulação é vital para o fascismo digital.
Mensagens ambíguas e imprecisas causam confusão
sobre o que é a realidade, passando a impressão de que
ela pode ser reinterpretada mesmo sem qualquer tipo de
evidência (pós-verdade, fake news, realidade alternativa
etc.). Ficou célebre o risível episódio em que o secretário
de imprensa estadunidense, Sean Spicer, mentiu ao dizer
que a tomada de posse de Trump bateu todos os recordes
de participantes. Ao ser desmentido por inúmeros veículos
de imprensa por meio de imagens inquestionáveis do
evento, a porta-voz da Casa Branca, Kellyanne Conway,
disse que o secretário apenas havia manifestado “fatos
alternativos” (Jaffe, 2017). A manipulação de informações
também foi usada pelo fascismo histórico e, por isso,
foram desenvolvidos mecanismos de controle, tais como
jornalismo profissional e rigor ético na produção de
conhecimento (Fielitz & Marks, 2019).
Redes sociais são empreendimentos comerciais que
movimentam trilhões de dólares e congregam bilhões de
usuários/as. Ao serem questionadas sobre o uso pernicioso
às sociedades democráticas das estruturas comunicacionais
das redes sociais, as empresas responsáveis costumam
argumentar que as redes são territórios livres nos quais
todos/as podem se expressar em igualdade de condições.
Entretanto, é preciso considerar que a racionalidade fascista
não se atém aos limites éticos. No fascismo digital, segundo
Fielitz e Marks (2019), a verdade não importa. As mensagens
podem ser manipuladas para se tornarem dramáticas,
com forte apelo emocional, pois assim se disseminam mais
facilmente (Soroka, Young, & Balmas, 2015). Segundo
Zeynep Tufekci (2017), política não se faz só com a razão,
e o papel do líder de extrema direita é fazer funcionar em
seu benefício “essa máquina emocional” – as redes sociais.
Entre os vários elementos envolvidos na psicologia
das massas e na propaganda fascista – tais como vínculo
entre os membros da “horda fraterna”, identificação
narcísica, primazia da forma sobre o conteúdo discursivo,
gratificação pela rendição à massa e renúncia da
individualidade, hostilidade ao out-group etc. (Adorno,
2015a, 2015b; Fromm, 1980) –, há um que se destaca pela
grande importância: o apelo à violência. De acordo com
Adorno (2015a), “[há um] potencial atalho de emoções
violentas a ações violentas enfatizado por todos os
autores da psicologia de massa” (p. 161). Foi o que se
viu na violenta invasão do Capitólio, possibilitada pela
mobilização nas redes sociais, quando foi consumada a
derrota de Trump para um segundo mandato. Para Robert
Paxton (2021), reconhecido especialista no fascismo
histórico europeu, esse episódio foi um importante ponto
de virada em seu entendimento sobre o fascismo de
Trump: “Eu hesitei em chamar Donald Trump de fascista.
Até agora”, escreveu poucos dias após o evento.
Considerações finais
O fascismo italiano originário pode ser visto como
uma ideologia para justificar um projeto de poder tido
como necessário para defender a nação e reconduzi-la
a um passado glorioso. Sobre essa ideia seminal,
Psicologia USP, 2024, volume 35, e220050
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Ubirajara de None Caputo & Henrique Araujo Aragusuku
ameaçadores, causa erosão no entendimento intersubjetivo
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durante o século passado, outros movimentos políticos
se desenvolveram, chegaram ao poder e operaram por
meio de extrema violência. Segundo os autores evocados
neste ensaio, o fascismo é notadamente fortalecido por
nossa vocação intrínseca à autopreservação.
A partir do século XX, o exercício do poder,
que nos séculos anteriores podia ser discricionário,
passou a depender de eleições populares e, portanto,
do convencimento das massas. Para isso, o método
utilizado pelo fascismo é a propagação do medo para
agregar multidões e emprestar uma noção ética ao uso
da força. Neste século XXI, testemunhamos partidos
conservadores de extrema direita tentando reeditar
métodos do fascismo, adaptando-os a novos contextos
socioeconômicos e informacionais. A veiculação maciça
de tipos de discurso utilizados pela extrema direita,
muitas vezes simplistas, manipulados, dramáticos e
sobre o que é a verdade. Por isso, torna-se indispensável
repensar estruturas que disseminam mentiras, produzem
intolerância e alimentam as tendências fascistas de
determinado grupo de pessoas.
Mas se é possível explorar as disposições
psicológicas para o fascismo, presentes em todos/as
nós, seria possível estimular a solidariedade e o respeito
à diversidade? Se sim, como? Sabe-se que, apesar de
nossa tendência à autoconservação, é possível acatar as
necessidades do out-group como legítimas e, em alguma
medida, sentirmo-nos comprometidos/as coletivamente
com elas. Essa possibilidade, no sentido oposto ao da
propaganda fascista, implica evocar o respeito à diferença,
à justiça social, à razão crítica, ao método científico,
e a capacidade de mobilizar-se em favor do outro.
Se efetivada, marcará o futuro de nossa civilização.
Donald Trump and fascism: an analysis inspired by critical theory
Abstract: Donald Trump’s actions during his presidency calls for an investigation regarding possible similarities between him
and fascist leaders of the past. This essay is reflects on Trump’s political actions inspired by discussions on fascist psychology and
propaganda within Critical Theory. Although Trump may escape the category of a classic fascist leader, mainly due to the different
historical contexts, the similarities between his political strategies and those of 20th-century fascist agitators is undeniable.
Moreover, his politics mobilize socio-psychological elements that date back to the emergence of historical fascism, such as
identification with an idealized and transcendent identity, submission to a superior authority or cause, and aggressiveness
directed to out-group threats.
Keywords: fascism, critical theory, digital fascism, social psychology.
Donald Trump y el fascismo: un análisis inspirado en la teoría crítica
Resumen: La actuación de Donald Trump durante el período en el que fue presidente de los Estados Unidos plantea la posibilidad
de investigar posibles similitudes entre los líderes fascistas del pasado y él. El propósito de este ensayo es presentar reflexiones
sobre la actuación política de Trump inspiradas en discusiones sobre psicología y propaganda fascista en teoría crítica. Si bien
parece imposible ver a Trump como un líder fascista clásico, principalmente debido a contextos históricos muy diferentes,
también es imposible ignorar el nexo entre sus estrategias políticas y el modus operandi de los agitadores fascistas en el siglo
XX. Además, es innegable que su política moviliza elementos sociopsicológicos que se remontan al análisis del surgimiento
del fascismo histórico, como la identificación con una identidad idealizada y trascendente, la sumisión a una autoridad o causa
superior, y agresividad dirigida a amenazas del out-group.
Palabras clave: fascismo, teoría crítica, fascismo digital, psicología social.
Donald Trump et le fascisme : une analyse inspirée de la théorie critique
Résumé: Les actions de Donald Trump au cours de sa présidence appellent une enquête sur les similitudes possibles entre lui et
les leaders fascistes du passé. Cet essai réfléchit aux actions politiques de Trump en s’inspirant des discussions sur la psychologie
et la propagande fasciste au sein de la Théorie Critique. Bien que Trump puisse échapper à la catégorie de leader fasciste
classique, principalement en raison de contextes historiques très différents, les similitudes entre ses stratégies politiques et celles
des agitateurs fascistes du XXe siècle sont indéniable. En outre, sa politique mobilise des éléments socio-psychologiques qui
remontent à l’émergence du fascisme historique, tels que l’identification à une identité idéalisée et transcendante, la soumission
à une autorité ou à une cause supérieure, et l’agressivité dirigées vers les menaces du out-group.
Mots-clés: fascisme, théorie critique, fascisme numérique, psychologie sociale.
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Psicologia USP I www.scielo.br/pusp
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Donald Trump e o fascismo: uma análise inspirada na teoria crítica
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Recebido: 22/01/2021
Revisado: 20/04/2022
Aprovado: 05/07/2023. O artigo do autores Ubirajara de None Caputoa e Henrique Araujo Aragusukua
O populismo é uma estratégia política que se baseia na mobilização do apoio popular por meio de um discurso que divide a sociedade entre o "povo virtuoso" e as "elites corruptas". Caracterizado por uma retórica anti-establishment, essa abordagem constrói uma identidade de grupo em torno de um líder forte, que se apresenta como o verdadeiro representante dos anseios da população.Características principaisDivisão maniqueísta: O discurso populista cria uma oposição moral e política entre "o povo", visto como homogêneo e puro, e "as elites", retratadas como corruptas e egoístas.Liderança carismática: A figura central é um líder forte e carismático, que se posiciona como a única voz autêntica do povo. Ele estabelece uma relação direta com as massas, frequentemente por meio de discursos emocionais e comunicativos.Anti-elitismo: A retórica populista ataca o sistema político tradicional e as instituições estabelecidas, alegando que elas não servem aos interesses do povo. Isso pode incluir críticas à mídia, ao Judiciário e a outros poderes.Polarização: Ao opor o povo à elite, o populismo tende a gerar polarização na política, tornando difícil o diálogo e a busca por consenso.Populismo e ideologiasO populismo não é uma ideologia completa, mas sim uma estratégia que pode se associar tanto à esquerda quanto à direita do espectro político, adaptando seu discurso às pautas de cada vertente.Populismo de esquerda: Tende a focar em questões socioeconômicas, opondo o "povo" — frequentemente trabalhadores e classes mais pobres — a elites econômicas e políticas. Busca redistribuição de renda e critica o sistema hegemônico.Populismo de direita: Muitas vezes se concentra em temas de identidade nacional, cultura e ordem social, opondo o "povo" a elites liberais e globalistas, além de grupos minoritários ou imigrantes. Foca na soberania nacional e valores tradicionais.O populismo na América Latina e no BrasilNa América Latina, o populismo foi um fenômeno marcante no século XX, impulsionado pela industrialização e urbanização. No Brasil, Getúlio Vargas é um dos principais exemplos, ao usar o rádio para se comunicar diretamente com as massas e apresentar-se como o "pai dos pobres".Críticas e ameaçasEmbora possa mobilizar o apoio de grupos insatisfeitos, o populismo é frequentemente criticado por enfraquecer as instituições democráticas. Ao deslegitimar a oposição e concentrar poder na figura do líder, pode levar a retrocessos na democracia e a um governo mais autoritário. Além disso, o discurso que simplifica problemas complexos pode dificultar a formulação de políticas públicas eficazes.populismo de direita e esquerdaO populismo de direita e o de esquerda compartilham características estruturais, como a retórica de oposição "povo bom versus elite corrupta" e a centralização em uma liderança carismática. No entanto, eles se distinguem por suas bases ideológicas, estratégias e nas propostas políticas que defendem.Características compartilhadasApesar das diferenças ideológicas, ambos os populismos empregam táticas semelhantes para mobilizar apoio:Retórica maniqueísta: Dividem a sociedade em dois grupos opostos: o "povo", descrito como virtuoso e sofredor, e a "elite", retratada como corrupta, egoísta e inimiga do bem-comum.Liderança carismática: Centralizam a figura do líder, que se apresenta como o único capaz de interpretar e realizar a "vontade do povo", frequentemente se colocando como um "outsider" que combate o sistema.Polarização e emoção: Utilizam discursos que buscam polarizar a sociedade, apelando a emoções como medo e raiva para desqualificar adversários e fortalecer a lealdade de seus seguidores.[Ceticismo com as instituições: Expressam desconfiança em relação a instituições democráticas, como o judiciário, a imprensa e o congresso, que seriam supostamente manipuladas pela elite.Populismo de direitaAs raízes ideológicas da direita populista são frequentemente associadas ao nacionalismo, conservadorismo social e uma postura anti-globalista. Suas principais características incluem:Nacionalismo e xenofobia: Promovem um forte nacionalismo, definindo o "povo" de forma excludente, muitas vezes com base em etnia ou cultura. Isso frequentemente vem acompanhado de retórica xenófoba e anti-imigração.Oposição à globalização: Critica as instituições de governança global e os acordos internacionais, que seriam prejudiciais aos interesses nacionais e à soberania.Conservadorismo social: Defende a manutenção da ordem social tradicional e valores considerados conservadores, combatendo o "politicamente correto" e outras pautas progressistas.Neoliberalismo econômico: Embora possa adotar retóricas anti-elite, em muitos casos, não se opõe de fato ao neoliberalismo econômico, mas sim a certos aspectos que considera prejudiciais aos interesses nacionais.Populismo de esquerdaO populismo de esquerda é baseado em uma defesa por maior igualdade social e na crítica ao sistema neoliberal. Suas principais características incluem:Luta contra a oligarquia: Aponta as oligarquias e o capital financeiro como a verdadeira elite inimiga do "povo", e não as minorias ou imigrantes.Aprofundamento da democracia: Defende um projeto de radicalização, aprofundamento e ampliação da democracia, visando maior participação popular e igualdade.Anti-neoliberalismo: Posiciona-se contra as políticas neoliberais, defendendo maior intervenção estatal, políticas sociais e redistribuição de renda.Pluralismo social: Diferente do populismo de direita, a esquerda populista geralmente busca unificar a voz de grupos populares e movimentos sociais, sem um critério excludente de nacionalidade ou etnia.Contexto atualNo cenário político contemporâneo, o populismo de direita tem ganhado destaque em várias partes do mundo, em parte por explorar o sentimento de descontentamento com a globalização e a perda de empregos na indústria, além de utilizar as redes sociais para disseminar suas narrativas.Por outro lado, o populismo de esquerda, embora presente, enfrenta desafios para se apresentar como "anti-sistema" em países onde já esteve no poder, dificultando a mobilização de massas com a mesma intensidade de alguns líderes de direita. Ambos os fenômenos contribuem para a polarização política e, em suas manifestações mais extremas, representam um risco para as instituições democráticas. Segundo o Sociólogo, Mestre e Doutor Cesar Portantiolo Maia, no Quarto Período da Habilitação em Jornalismo na Comunicação Social, pelas Faculdades Integradas Alcântara Machado (FIAAM FAAM).O populismo de Direita avança em nivel global. Infelizmente.Confira no link a seguir .https://mobidrive.com/
sharelink/p/ 79JSJ6hlp0zz9vDToyOY8n6ULGHVmg im8OuxOodKAgGN.Domald Trump . Um governante fascista e antidemocrático , se tornou uma liderança nacional , ao captar a insatisfação popular por meio de plataformas anti politica . Se considerando com uma oposição as elites políticas tradicionais . Donald Trump consolidou sua imagem como um magnata bem sucedido do setor imobiliário , fazendo sua auto imagem como celebridade da televisão. Seu programa de TV ( O Aprendiz ) , projetou a imagem de um gestor bem sucedido é muito assertivo . Tal projeção midiática ,lhe conferiu projeção nacional , que pouquíssimos ex presidentes dos Estados Unidos possuem historicamente . Na parte econômica , Donald Trump , soube explorar a desindustrialização e a estagnação económica dos trabalhadores no interior e no chamado " cinturão da ferrugem " ,gerando raiva contra a globalização . Trump culpou o livre comercio e a migração da indústria norte americana pela estagnação económica. Trump também capitalizou as reações de um eleitorado conservador as transformações culturais promovidas pelas elites cosmopolitas das regiões costeiras . Trump também capitalizou a rejeição aos decoros políticos tradicionais . O que o vendeu como alguém que não se encaixa nas convenções sociais e no sistema político tradicional . O que lhe dá fatia do eleitorado . Trumpismo e Bolsonarismo , sao correntes fascistas e antidemocrática . Que se valem do sentimento anti sistema para impor o populismo autoritário . No caso de Trump . Governando a maior economia do planeta . Se vale de tarifas globais . Como forma cafajeste de coerção politica . Confira a notícia no Portal G1 da Rede Globo. https://g1.globo.com/ politica/eleicoes/2026/ pesquisaeleitoral/noticia/ 2026/07/27/datafolha- 52percent-acreditam-que-trump- quer-ajudar-flavio-bolsonaro- com-tarifaco.ghtml. Imagem do Portal G1 da Rede Globo.
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