Diário de um Jornalista.

Cotidiano .

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Elites . Atraso e Poder.

 O preconceito de classe no Brasil é uma das engrenagens mais profundas da desigualdade do país, estruturado historicamente pela herança escravista e pela reprodução de privilégios. Muitas vezes mascarado por mitos como o da "democracia racial" ou de uma suposta cordialidade, o preconceito social — ou elitismo classista — opera estabelecendo uma rígida barreira invisível para manter a distância social entre os detentores do capital (econômico e cultural) e a classe trabalhadora.

Sociólogos contemporâneos, com destaque para as análises de Jessé Souza em suas obras sobre as classes sociais no Brasil, apontam que essa dinâmica se manifesta de formas muito específicas:

1. A Raiz Escravista e o "Racismo de Classe"

A elite brasileira se formou e se consolidou sob o signo da escravidão. Isso gerou um fenômeno em que as clivagens de raça e classe se fundem. O preconceito de classe funciona como um "racismo de classe", que criminaliza e deshumaniza os indivíduos periféricos, associando a pobreza histórica — que afeta majoritariamente negros e mestiços — à falta de inteligência, à vadiagem ou à ausência de modos civilizados.

2. O Papel da Classe Média como Guardiã

A reprodução desse sistema não é feita apenas pelas elites . A classe média atua frequentemente como a guardiã da "distância social". Como não possui o grande capital econômico, a classe média se apega ao capital cultural (diplomas, o domínio de códigos de etiqueta e linguísticos tidos como legítimos) para se diferenciar dos mais pobres.

3. Rejeição  á  Ascensão Social

O preconceito de classe no Brasil costuma ficar mais evidente em períodos de inclusão econômica ou de políticas de ação afirmativa. A entrada de classes populares em espaços antes exclusivos das elites — como aeroportos, universidades públicas (via cotas) ou shoppings centers (através dos "rolezinhos") — costuma gerar reações de forte rejeição disfarçadas de discursos sobre "perda de qualidade" ou "falta de educação".

4. A Moralização e a Criminalização da Pobreza

Para justificar a manutenção da desigualdade, as elites constroem narrativas morais que culpam o próprio indivíduo por sua vulnerabilidade social.

 Falsa meritocracia : Trata o sucesso como fruto exclusivo do esforço, ignorando o abismo de oportunidades e o peso do berço econômico e cultural.

 Estigmatização territorial: Quem reside em favelas, periferias ou provém de regiões historicamente marginalizadas (como a população nordestina nos grandes centros do Sudeste) sofre uma homogeneização negativa, sendo associado à violência ou ao atraso.

2. A acomodação das relações raciais em 

posições de classe 

Emerson Ferreira Rocha 

SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros 

ROCHA, E.F. A acomodação das relações raciais em posições de classe. 

In: O negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de 

riqueza com os dados do Censo 2010 [online]. Brasília: Editora UnB, 

2019, pp. 35-70. Pesquisa, inovação & ousadia series. ISBN: 978-65

5846-052-7. https://doi.org/10.7476/9786558460527.0004. 

All the contents of this work, except where otherwise noted, is licensed under a 

Creative Commons Attribution 4.0 International license. 

Todo o conteúdo deste trabalho, exceto quando houver ressalva, é publicado sob a 

licença Creative Commons Atribição 4.0.  

Todo el contenido de esta obra, excepto donde se indique lo contrario, está bajo 

licencia de la licencia Creative Commons Reconocimento 4.0. 

2 A acomodação das relações 

raciais em posições de classe

É duradoura e, muitas vezes, acirrada a controvérsia sobre os pesos relativos 

da classe social e da raça sobre as chances de vida das pessoas no Brasil. Curiosa

mente, o leitor que vasculhar com cuidado as pesquisas quantitativas mais recen

tes sobre o tema, sem intenção muito arraigada de buscar subsídios em um dos 

polos da controvérsia, encontrará poucas razões para que ela exista, pelo menos 

da forma como se apresenta. Sobre a desigualdade racial de renda, por exemplo, 

fazendo abstração de discrepâncias menores entre coefi cientes estimados, essa 

literatura converge para uma conclusão substantiva que pode ser sintetizada em 

dois períodos. De modo geral, o ponto de partida socioeconômico e a escolaridade 

formal explicam a maior parte da desigualdade de renda observada entre negros 

e brancos. Não obstante, a condição racial tem um efeito próprio que estabelece 

graves iniquidades entre negros e brancos equiparáveis em termos daqueles fatores. 

Além disso, a intensidade dos efeitos da discriminação racial varia de acordo com 

a posição socioeconômica. O que torna complicado o debate é, mais uma vez, sua 

relação com o imbricado imaginário sobre relações raciais no Brasil.

Muito amiúde, discutir classe e raça constitui uma forma de debater a natureza 

mesma das relações raciais no país. Tema espinhoso, pois se situa na mediação 

entre a análise sociológica e as narrativas mais abrangentes sobre a especifi cidade 

O negro no mundo dos ricos

do Brasil enquanto civilização. A primeira seção deste capítulo encerra um esforço 

para desatar alguns nós gerados por essa sobreposição de narrativas. A segunda 

retoma algumas das principais conclusões dos estudos empíricos sobre relações 

raciais no Brasil, identificando um processo cumulativo de conhecimento. Quer 

dizer: preocupa-se mais com o desenvolvimento interno dos estudos sobre o tema. 

A terceira seção aborda o objeto mais específico deste livro, o estudo da condição 

dos negros em posições socioeconômicas mais privilegiadas.

2.1 Um mito de origem: a ideia de “racismo brasileiro”

Luiz Aguiar Costa Pinto, que, com a morte de Arthur Ramos, passou a coor

denar o famoso projeto de pesquisa sobre relações raciais no Brasil apoiado prin

cipalmente pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a 

Cultura (UNESCO), afirmou que a comparação com os Estados Unidos, principal 

recurso heurístico dos grandes intérpretes sobre o tema, contribuiu mais para 

confusões do que para esclarecimentos (COSTA PINTO, 1953). Sem embargo, o 

campo de estudos sobre relações raciais no Brasil se constitui sob a égide dessa 

comparação. Num primeiro momento, ele desponta pela emancipação da análise 

cultural em relação às teorias do racismo científico institucionalizadas no Brasil 

ao longo do século XIX (SCHWARTZ, 1993) e persistentes durante a primeira 

metade do século XX (DELUCA, 1999). Pode-se localizar o início dessa passa

gem no trabalho de Nina Rodrigues (1932), que, diante da pouca confiabilidade 

das informações sobre proveniências étnicas dos negros brasileiros com base em 

registros documentais – dado o fluxo interno de escravos do território africano, 

registros de portos de origem não poderiam ser considerados bons indicadores 

de proveniência étnica –, procurou identificar essas proveniências pelo estudo 

comparativo de práticas religiosas no Brasil com as descrições oferecidas por 

trabalhos de campo realizados na África. Nesse momento, tematizava-se a questão 

racial no Brasil primeiramente sob a perspectiva dos estudos culturais, enquanto 

36

36

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

“la mayor parte de la bibliografía del negro em los Estados Unidos [era] más 

bien de índole sociológica que antropológica” (RAMOS, 1944, p. 78).

Foi exatamente por meio do contato com a agenda de pesquisa norte-americana 

que se desenvolveram no Brasil os estudos sobre a questão racial do ponto de 

vista da estratificação social, agenda de pesquisa à qual o termo “relações raciais” 

geralmente se refere. Não é, portanto, “por nada” que muitas polêmicas existen

tes na discussão sobre relações raciais no Brasil podem ser entendidas enquanto 

satélites gravitando em torno da comparação, explícita ou implícita, entre Brasil e 

Estados Unidos. Foi essa comparação que colocou no centro do debate a questão, 

extremamente abstrata, sobre a natureza das relações raciais no Brasil.

Não que tenha existido uma simples imposição imperialista de conceitos cunha

dos no caso norte-americano. Ao que tudo indica, os intelectuais brasileiros exer

ceram um papel extremamente ativo, desde o começo, na elaboração dos termos 

dessa comparação. O fato de que fizeram isso num contexto em que colaborar com 

intelectuais norte-americanos era algo estratégico para conseguir recursos e projetar 

um campo de pesquisas sociais no Brasil configura, por si só, uma assimetria de 

poder. No entanto, o modo como as coisas parecem ter acontecido não aponta para 

o simples recebimento de categorias, mas sim para o esforço ativo de pesquisadores 

brasileiros para investir na especificidade nacional das relações raciais enquanto 

ideia-força da pesquisa brasileira sobre o tema. Esses pesquisadores fizeram isso 

porque essa ideia era estratégica. Financiamentos de pesquisa eram motivados pela 

curiosidade “gringa” a respeito de uma modalidade tão especial de relação entre 

grupos raciais distintos no contexto de uma mesma ordem nacional. Tais pesquisa

dores fizeram isso, também, porque essa mesma ideia era plausível. Afinal de contas, 

existiam contrastes muito marcantes entre o contexto brasileiro e o estadunidense 

com relação ao sistema de segregação racial instituído no sul dos Estados Unidos 

após a Guerra Civil, com as manifestações violentas de um conjunto de valores 

raciais nitidamente puristas. Tudo aquilo era muito diferente do racismo eugênico 

que havia vingado no Brasil durante o período recém-pós-escravista.

37

O negro no mundo dos ricos

As palavras de Robert Park, certamente baseadas na pesquisa realizada na 

Bahia por seu estudante Peirson durante a década de 1930, expressam bem o sentido 

geral das conclusões dos primeiros esforços comparativos:

Assim, pode-se dizer, sem que se traia o sentido em que o termo 

é comumente empregado, que há sim raças no Brasil – que exis

tem, por exemplo, europeus e africanos – mas que não há relações 

raciais já que praticamente não existe consciência racial. Fala-se em 

relações raciais quando existe um problema racial e não existe pro

blema racial no Brasil ou, se ele existe, é muito pequeno e não tem 

claramente a ver com as populações de origem africana e europeia 

(PARK, 2000, p. 105, tradução nossa).1

Esse tipo de interpretação se lastreia no esquema teórico de relações raciais 

baseado no conceito de castas. Esse esquema é explicitado no trabalho A com

parative study of American caste, da década de 1930, onde os autores propõem 

a díade conceitual casta e classe para descrever a relação entre questão racial e 

estratificação socioeconômica nos Estados Unidos (WARNER; DAVIS, 1939). 

O esquema é simples. Primeiro, a segregação sistemática faria de negros e brancos 

duas castas distintas. Segundo, haveria uma diferenciação de classes dentro de 

cada uma dessas castas, sendo que essa diferenciação no interior da casta negra é 

menor e enviesada para as posições de baixo status social, como consequência de 

sua posição subordinada.

Esse esquema tornou-se corrente e está presente, por exemplo, no abrangente 

livro An American dilemma (MYRDAL, 1944), onde o autor denuncia a incon

gruência normativa entre o sistema de castas raciais e a ordem democrática nos 

1 “Thus, one may say, without doing injustice to the sense in which the term is ordinarily used, that 

there are, to be sure, races in Brazil – there are, for example, Europeans and Africans – but not 

race relations because there is in that country no race consciousness, or almost none. One speaks 

of race relations when there is a race problem, and there is no race problem in Brazil, or if there 

is, it is very little if at all concerned with the peoples of African and European origin.” 

38

38

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

Estados Unidos. O que as gerações de estudos posteriores sobre relações raciais 

no Brasil tentaram mostrar foi, em grande medida, que esse esquema conceitual 

seria insuficiente para analisar o problema nessa região dos trópicos. Partindo 

desse esquema, a única conclusão possível seria a da inexistência de castas raciais 

no Brasil e, por conseguinte, da inexistência de um problema racial. Esse impasse 

conceitual é responsável pela ambiguidade de alguns trabalhos de meados do 

século XX. Ele explica, por exemplo, como o organizador do clássico Classe e raça 

no Brasil rural (WAGLEY, 1952) pôde afirmar na introdução do livro, utilizando o 

termo democracia racial, que não existem problemas relevantes relacionados à dis

criminação racial no Brasil, enquanto um dos estudos que compõem o livro afirma:

Existem vários elementos definidores das classes – riqueza, edu

cação e família. A raça também é importante. Pessoas dizem que 

a riqueza é mais importante, em segundo lugar a educação e, em 

terceiro, a raça. Assim, a raça constitui um dentre um conjunto mais 

amplo de elementos ordenando as pessoas numa hierarquia social, 

e não um fator que divide a sociedade em dois grupos distintos 

(HUTCHINSON, 1952, p. 16, tradução nossa).2

O trabalho de campo aponta para formulação mais sofisticada e atual do pro

blema, segundo a qual a raça constitui um dos fatores de um complexo multicausal 

que afeta as chances de vida das pessoas. Por outro lado, o peso do quadro concei

tual comparativo impede que o organizador compreenda a extensão dos resultados 

empíricos. A experiência norte-americana no início do século XX constitui o caso 

paradigmático de problema racial. Esse caso concreto é transposto ao plano abstrato 

conceitual pela disjuntiva entre classes econômicas e castas raciais. A disjuntiva 

2 “There are many elements which go toward defining the classes – wealth, education and family. 

Race is also important. People say that wealth is the most important, education the second, and 

race the third in importance. Thus, race is but one of a number of elements ranking people in a 

social scale, rather than a separating factor which divide them into distinct groups.”

39

O negro no mundo dos ricos

conceitual assume, e aqui está o quid pro quo, o estatuto geral de parâmetro para a 

identificação de problemas raciais. Por conseguinte, os casos concretos aos quais 

a disjuntiva não se aplica, em que não existe a formação de castas definidas, não 

podem ser classificados como problemáticas do ponto de vista das relações raciais. 

Observa-se que o problema existe e que a distinção entre tipos raciais pesa sobre 

uma estrutura complexa de distinção e atribuição de status, mas o esquema concei

tual não pode designá-lo. E, se o problema não tem nome, é como se não existisse.

Não é por acaso que trabalhos interpretativos subsequentes procurarão justa

mente dar nome ao “racismo à brasileira”. O esforço é o de fazê-lo existir no campo 

conceitual, para o que é necessário inovar em relação ao esquema então disponível. 

Antes de chegar a isso, contudo, é interessante notar que, mesmo em se tratando dos 

Estados Unidos, há o risco de se perder de vista importantes peculiaridades das relações 

raciais caso o esquema classes econômicas e castas raciais seja aplicado de maneira 

demasiado ortodoxa. A quarta edição de The negro handbook (1942, p. 69) aplica 

esse esquema com flexibilidade, revelando dinâmicas interessantes e estranhas ao 

imaginário acadêmico que construímos acerca das relações raciais nos Estados Unidos.

Diz-se que, antes da legislação Jim Crow, havia uma tendência por parte das 

pessoas brancas de tratar pessoas negras de modo diferente, a depender de sua educa

ção de classe. Essa tendência foi interrompida pelas leis aplicadas a todos os negros. 

Desse modo, a legislação cristalizou a linha de casta e minimizou a importância das 

diferenças de classe no interior do grupo dos negros. Esse foi provavelmente o fator 

mais crucial para a formação do presente sistema de casta, uma vez que a diferencia

ção por classes entre os negros continuou e, na verdade, ganhou momentum. Como 

mostraremos, existe, em décadas recentes, uma tendência para a aplicação das regras 

de segregação com alguma discrição sobre negros com status diferenciado de classe. 

Se tendência similar existia antes das leis Jim Crow, então essas leis adiaram esse 

processo social específico em uma ou duas gerações. (Tradução nossa).3

3 “Before the Jim Crow legislation there is also said to have been a tendency on the part of white people 

to treat Negroes somewhat differently depending upon their class education. This tendency was broken 

40

40

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

A diferenciação, entre os negros, por classes sociais não é estranha ao emprego 

convencional do esquema de castas e classes, mas a modulação da discriminação 

racial pela posição de classe, sim. Convencionalmente, pensa-se em uma linha de 

castas com subdivisões internas de classe, mas não na interação entre esses dois 

fatores de estratificação. O que esse trecho traz é uma apreensão mais complexa 

das dinâmicas de discriminação e de atribuição de status. Em vez de simplesmente 

aplicar uma tipologia para definir as relações raciais no contexto norte-americano, 

a análise percebe tendências distintas atuando simultaneamente e interagindo entre 

si. De um lado, os dispositivos que reforçam e recrudescem as fronteiras entre 

castas, do outro, o status socioeconômico gerando relações de reconhecimento que 

atravessam a barreira racial.

Há ainda mais. É sabido que a constituição de castas nos Estados Unidos teve 

a ver com a separação absoluta em termos de ascendência racial, popularizando a 

alcunha “regra da uma gota de sangue”. Sem embargo, nos Estados Unidos a ideia de 

pureza racial teve grande adesão e concertou práticas tanto difusas quanto institucio

nalizadas. Algo muito diferente do que ocorreu no Brasil, onde, no mesmo início do 

século XX, consolidou-se a ideia de eugenia por meio da miscigenação seletiva. Mas, 

a discriminação por tonalidades, para a qual o mestiço, quando claro, é bem-vindo ou 

pelo menos melhor recebido e tratado, constitui traço especialíssimo do preconceito 

racial dos trópicos? O autor do clássico de 1852, Uncle Tom’s cabin, narra:

O itinerante no Sul deve ter muitas vezes notado aquela refinada 

atmosfera de refinamento, aquela delicadeza da voz e das maneiras, 

que parece constituir, em tantos casos, um dom particular da morena 

by the laws which applied to all Negroes. The legislation thus solidified the caste line and minimized 

the importance of class differences in the Negro group. This particular effect was probably the more 

crucial in the formation of the present caste system, since class differentiation within the Negro group 

continued and, in fact, gained momentum. As we shall find, a tendency is discernible again, in recent 

decades, to apply the segregation rules with some discretion to Negroes of different class status. If a 

similar trend was well under way before Jim Crow laws, those laws must have postponed this parti

cular social process for one or two generations.” (The Negro Handbook, 1942, p. 69).

41

O negro no mundo dos ricos

clara e da mulata. Essas graças naturais à morena são geralmente 

acompanhadas da mais estonteante beleza e, quase sempre, de 

uma apresentação pessoal atrativa e agradável. (STOWE, 2009, 

p. 381, tradução nossa).4

A distinção do mestiço em termos estéticos, a associação dessa distinção esté

tica com diferenças em atributos pessoais e de valoração social, assim como a 

distinção de certas gradações de negritude, não se encontram apenas na narrativa 

literária. Na verdade, a existência, nos Estados Unidos, de melhores condições 

socioeconômicas para negros com tonalidade de pele mais clara é documentada por 

trabalhos acadêmicos desde a primeira metade do século XX (KEITH; HERRING, 

1991; RANSFORD, 1970; MYRDAL, 1944). Em The Mullato in the United States, 

Reuter (1969) apresenta uma pesquisa sobre a condição socioeconômica dos negros 

norte-americanos desde o período colonial e mostra como os mestiços ocuparam 

com maior frequência as posições relativamente melhores, tanto no âmbito do 

trabalho escravo quanto nas brechas abertas aos negros no mundo do trabalho 

livre. Entre os escravos de ofício, os escravos urbanos e os escravos domésticos 

(que viviam em melhores condições, longe do eito e dentro da casa senhorial), 

assim como entre os negros livres, os mulatos sempre foram desproporcionalmente 

representados. Segundo o primeiro censo norte-americano a distinguir oficialmente 

“mulatos”, o de 1850, eles perfaziam 11% da população negra. No entanto, compu

nham 8% da população escrava e quase 40% da população negra livre. O mesmo 

autor observa ainda:

Mas a principal razão para que o mulato [aparte, por exemplo, 

a crença na superioridade de suas habilidades intelectuais] fosse 

escolhido preferencialmente ao negro para qualquer atividade que 

4 “The traveller in the south must often have remarked that peculiar air of refinement, that softness 

of voice and manner, which seems in many cases to be a particular gift to the quadroon and mulatto 

woman. These natural graces in the quadroon are often united with beauty of the must dazzlin kind, 

and in almost every case with a personal appearance prepossessing and agreeable.” 

42

42

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

o colocasse em associação com o senhor foi o fato de ser ele um 

animal mais bonito. Ele tinha uma aparência melhor. (REUTER, 

1969, p. 177, tradução nossa).5

A relevância do fenótipo também é atestada mais tarde pelo autor de Black 

bourgeoisie. Frazier (1957) observa que parte considerável dos anúncios vendidos 

pela imprensa negra era referente a produtos cosméticos cujo efeito era suprimir 

ou modificar caraterísticas tipicamente negroides. Em outro trabalho, o mesmo 

autor chama atenção para a relevância do racialismo de base fenotípica para as 

dinâmicas matrimoniais:

Um homem que, pelo sucesso nos negócios ou em sua carreira profis

sional tenha adquirido segurança econômica, tende a esposar uma filha 

de tez clara de uma dessas tradicionais famílias mestiças com o objetivo 

de consolidar seu status social. Eis como um professor universitário 

negro, que havia ascendido do proletariado, destacou, referindo-se a sua 

esposa loira, oriunda de uma família tradicional: “Veja minha esposa. 

Eu me casei com ela para que não houvesse dúvida a respeito do sta

tus da minha família. Ela em a cor de pele certa e, além disso, vem de 

uma família tradicional.” (FRAZIER, 1951, p. 321, tradução nossa).6

Tudo isso torna claro ao que Pierson (1942) se referia quando notava, em 

uma das passagens em que modera o tom peremptório de suas conclusões sobre a 

5 “But the most important reason that the mulatto [aside, for example, the belief in his superior 

intellectual abilities] was chosen in preference to the Negro for any employment that brought him 

into association with the master family was the fact that he was a better-looking animal. He made 

a better appearance.”

6 “A man who through success in business or in his profession has a secure economic position may 

marry a fair daughter of one of these old mulatto families in order to consolidate his social status. 

As a black college professor who had risen from black proletariat remarked concerning his blond 

wife who came from an old family: ‘You see my wife. I married her so that there would be no question 

about the status of my family. She has the right color and, more than that, comes from an old family’.” 

43

O negro no mundo dos ricos

inexistência de problemas raciais no Brasil, que, não havendo aqui o mesmo padrão 

de discriminação existente entre negros e brancos nos Estados Unidos, haveria um 

tipo de discriminação comum ao interior da casta negra norte-americana. Contudo, 

o que Pierson equivocadamente deixa de notar é que a hierarquia entre diferentes 

níveis de negritude era eficaz enquanto critério de distinção no interior da casta negra 

apenas porque se configurava como critério de distinção para a sociedade como 

um todo. Ainda que, durante certo período, um sistema institucional de segregação 

prevenisse quase que absolutamente a aproximação entre negros e brancos, quer no 

mercado de trabalho quer no mundo da vida, o fato de ter sido o mestiço, tanto no 

passado quanto no presente, um tipo humano mais valorizado e admitido nos níveis 

possíveis de intercurso social com os brancos constituiu o fator determinante para 

a sua ascensão a condições sociais melhores que as da população negra em geral. 

Em outras palavras, a discriminação racial com base fenotípica não é exclusividade 

brasileira, tendo estado presente também, desde muito tempo, nos Estados Unidos.

 Estudos quantitativos mais recentes convergem para essa mesma conclusão. 

Utilizando uma classificação racial com cinco categorias de negros (do muito escuro 

ao muito claro), Keith e Herring (1991, p. 772) mostram que essas gradações 

raciais se associam a diferenças em níveis de escolaridade, de status ocupacional 

e de rendimentos. Além disso, a discriminação racial com base em diferenças num 

continuum fenotípico também motivou, nos Estados Unidos, um grande volume 

de pesquisas nas áreas da psicologia social e cognitiva que investigam implicações 

desse tipo de hierarquia racial sobre a construção da autoestima (MADDOX, 2004).

Torna-se forçoso admitir que a ideia de que esse tipo de discriminação racial, 

com base no fenótipo, encerra uma exclusividade brasileira constitui, na verdade, 

uma espécie de mito fundador do campo de estudos sobre relações raciais no Brasil. 

No esforço de se livrarem das restrições do esquema conceitual de classes e castas 

para melhor abordarem a natureza das relações raciais no Brasil, nossos pesquisado

res continuaram a assumir esse esquema formal como substância, confundindo-o com 

o próprio caso concreto da discriminação racial nos Estados Unidos. Em contraste, 

44

44

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

encontram na discriminação sem castas, baseada no fenótipo, um esquema que, por 

sua vez, acabou por se confundir com o próprio caso concreto da discriminação racial 

no Brasil. Ganha formas acabadas uma espécie de tese da especificidade nacional do 

racismo, em formulações como a disjuntiva entre “preconceito de origem” (o norte--americano) e “preconceito de marca” (o brasileiro) (NOGUEIRA, 1950) ou a ideia 

do “mulato enquanto válvula de escape” (DEGLER, 1971). Mais recentemente, uma 

das questões utilizadas pelos organizadores de uma ampla pesquisa sobre relações 

raciais no Brasil para motivar sua equipe foi: “O racismo brasileiro é mais ou menos 

violento do que outros?” (MAGGIE; REZENDE, 2002, p. 15).

2.2 As quatro abordagens sobre relações raciais no Brasil

Uma forma usual de organizar a tradição de estudos sobre relações raciais 

no Brasil é identificar ondas ou gerações nessa produção (GUIMARÃES, 2004; 

OSÓRIO, 2008). Assim, Osório (2008), por exemplo, distingue três ondas teóricas. 

Na primeira, cujo maior expoente é Donald Pierson, prevalece a ideia de que a 

discriminação racial é, no Brasil, um fenômeno pouco relevante. De acordo com 

essa onda teórica, o único critério de estratificação relevante na sociedade brasileira 

seria a classe social. As desigualdades raciais observadas seriam apenas fruto da 

sobreposição entre raça e classe. A segunda onda ganha força a partir da década de 

1950 e sua característica principal é a identificação da discriminação racial como 

fenômeno relevante no Brasil, opondo-se, assim, em suas principais conclusões, 

à geração anterior. A terceira onda emerge a partir da década de 1970 e sua marca 

é o rigor metodológico na aplicação de técnicas de mensuração para identificar os 

efeitos da raça tanto no mercado de trabalho quanto no sistema educacional.

Outra forma de traçar um panorama sobre essa literatura é observar um avanço 

cumulativo nas questões centrais que nortearam as pesquisas. É possível identificar 

quatro dessas questões, e cada uma motivou abordagens teóricas e metodológicas 

diferentes. Primeiramente, houve a abordagem descritiva. Depois, acumulando 

45

O negro no mundo dos ricos

os ganhos dessa última, uma abordagem tipológica. Em terceiro lugar, surge a 

abordagem quantitativa, que, partindo do conhecimento acumulado pelas abor

dagens precedentes, procura confrontar suas principais proposições com testes 

formais de hipóteses. Em último lugar, intimamente ligada à abordagem anterior, 

desenvolve-se a abordagem estrutural. Esta última também se apoia em técnicas 

quantitativas, diferindo por se preocupar não apenas com a mensuração dos efeitos 

da discriminação racial sobre as chances de vida das pessoas, como também com a 

identificação de padrões de interação entre a condição racial e a posição das pessoas 

na estrutura de classes sociais.

A primeira pergunta que orientou os estudos sobre relações raciais no Brasil 

foi: “Existe discriminação?”. Essa pergunta motivou uma abordagem descritiva, 

cujo principal objetivo era retratar o modo como a raça afetava ou não afetava sig

nificativamente as interações sociais e as atribuições de status no Brasil. Falamos 

desses trabalhos na seção anterior. Eles constituem os estudos pioneiros do campo 

de pesquisa no Brasil. Como já visto, sob o peso da comparação esquemática com 

os Estados Unidos, as respostas iniciais são negativas, de que a discriminação racial 

no Brasil não existe ou, se existe, não é relevante. Contudo, o avanço dos trabalhos 

de campo foi caminhando no sentido de uma resposta positiva. Na coletânea de 

artigos Race and class in rural Brazil (WAGLEY, 1952), pesquisadores notam uma 

resistência generalizada, uma reação social com relação à ascensão de classe por 

parte de negros, que seria tão mais saliente quanto mais elevadas as posições sociais 

em questão. Por sua vez, na década de 1940, Virgínia Bicudo, estudando relatos de 

pessoas negras de diversas classes sociais, afirmava existir no Brasil “um precon

ceito de cor distinto do preconceito de raça e de classe” (BICUDO, 2010, p. 122).

À medida que as pesquisas descritivas chegavam a relativo consenso sobre a 

existência de discriminação racial, uma nova pergunta passou a orientar os estudos: 

“Qual discriminação existe no Brasil?”. Tratava-se agora de qualificar as atitudes e as 

práticas discriminatórias típicas do país. Esse é o momento em que se consolida a tese 

da especificidade nacional do racismo, como visto na seção anterior. Enquadram-se 

46

46

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

nela orientações metodológicas diferentes, como a pesquisa histórico-processual de 

Nogueira (1950) e Degler (1971) e o culturalismo de Da Matta (1974). O que reúne 

pesquisas tão diversas é que, sob o enorme peso da comparação com os Estados 

Unidos, todas buscam uma tipologia para explicar a discriminação racial, no quadro 

da qual um tipo específico corresponderia ao caso brasileiro.

O problema com essa abordagem é que fenômenos como a existência de dife

renciações de status com base no fenótipo ou a interação dinâmica entre condição 

racial e posições de classe na conformação de status tendem a ser abstraídos na 

formação de uma espécie de tipo ideal-concreto, que responderia por tudo o que 

há de especial no Brasil no que diz respeito às relações raciais. Isso gera dificulda

des desnecessárias para a análise e a interpretação das próprias especificidades da 

discriminação racial no contexto brasileiro. Faz, por exemplo, parecer inadequado 

trabalhar com uma operacionalização binária dos grupos raciais. A separação entre 

negros e brancos seria estranha ao país cujo tipo de discriminação racial se baseia 

num continuum ou numa proliferação de fisionomias raciais intermediárias. Isso 

quando a pesquisa mostra que as classificações raciais operam em um jogo com

plexo e irredutível a tais tipologias, em que, para algumas dimensões das relações 

sociais, a distinção entre negros e brancos se acentua enquanto, para outras dimen

sões, evidenciam-se fronteiras raciais mais matizadas (TELLES, 2003).

A abordagem quantitativa, que ganha lugar a partir da década de 1970, con

tará com o pano de fundo dessas discussões, mas fará uma inflexão considerá

vel no debate. Àquela altura, a literatura oferecia aos pesquisadores dois produtos 

consolidados. Primeiro, a confirmação de que a discriminação racial é um fenômeno 

relevante para a determinação das chances de vida no Brasil. Segundo, um patrimônio 

de hipóteses e de especulações sobre os mecanismos pelos quais essa discriminação 

opera. O que esses pesquisadores fizeram foi lançar o debate ao nível dos testes 

formais de hipótese a partir da pergunta: “O quanto de discriminação racial existe?”.

Essa abordagem já aparece em Nogueira (1950), com um desenho de pesquisa 

próximo a um experimento natural, visando quantificar os efeitos da discriminação 

47

O negro no mundo dos ricos

racial, e também em Costa Pinto (1953), pela utilização, com o mesmo intuito, de 

dados censitários. Mas é com os trabalhos de Hasenbalg (1979) e de Valle Silva 

(1988) que ela se consolida. Contando com a maior sistematicidade dos levantamen

tos do IBGE a partir da década de 1970, os autores empregam modelos estatísticos 

multicausais para estimar os efeitos da discriminação racial sobre indicadores de 

escolaridade e de posição socioeconômica. O caráter analítico desses modelos 

permitiu também um avanço nas discussões sobre os mecanismos da discrimi

nação racial ao possibilitar a diferenciação das correlações entre raça e variáveis 

dependentes distintas.

 Pode-se dizer que o trabalho desses pesquisadores reatualizou o diálogo com 

a produção norte-americana. Naquele país, consolidava-se uma agenda de pesquisa 

sobre estratificação, mobilidade social e discriminação, que procurava diferenciar os 

efeitos da origem social sobre as chances de vida dos efeitos de outros fatores, como 

a condição de minoria (DUNCAN e DUNCAN, 1968), a de gênero (R. OAXACA, 

1973) e a de raça (DUNCAN, 1968).Esses estudos tiravam um pouco de foco o tema 

da formação de castas raciais e começavam a se orientar por modelos multicausais 

em que a raça constituía um fator de estratificação, dentre outros. Esses estudos 

respondiam à conjuntura da década de 1960, quando não apenas a segregação legal 

foi desarticulada, como houve um impulso, pelas diferentes formas de ação afirma

tiva, à mobilidade ascendente para pessoas negras. Com isso, a pesquisa norte-a

mericana passou a enfrentar um dilema muito familiar aos brasileiros: “É a origem 

social ou a discriminação racial o principal determinante das desvantagens sociais 

dos negros?”. O debate entre Wilson (1978) e Willie (1978) sintetiza a discussão.

Em The declining significance of race, Wilson argumenta que, com a abertura 

dos direitos civis e com os incentivos governamentais à contratação de negros, 

houve um aumento observável na proporção de negros completando cursos supe

riores, principalmente os de prestígio, assim como na proporção de negros ocu

pando cargos com alta remuneração, tanto na administração pública quanto no 

mundo coorporativo. O autor argumenta que, entre os jovens negros altamente 

48

48

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

escolarizados, as chances de obter bons empregos tornavam-se equiparáveis às chan

ces experimentadas por jovens brancos com o mesmo nível de formação. O autor 

conclui que boa parte das desigualdades de oportunidade entre negros e brancos 

seria em razão de efeitos da opressão racial exercida no passado, não no presente.

Do outro lado, Willie (1978) se opõe a esse diagnóstico, apresentando dados 

sobre a persistência de disparidades raciais em indicadores socioeconômicos. 

Em outro trabalho, Thomas e Hughes (1986) mostram a persistência dos impactos 

da raça sobre indicadores de bem-estar e de saúde, independentemente da posição 

de classe. Esses autores argumentam que, mesmo havendo uma relativa queda na 

correlação parcial entre a condição racial e indicadores socioeconômicos, não se 

poderia tomar essa queda por si só como evidência de um declínio na importância 

da raça de maneira geral. A discriminação racial, além de ter ainda impacto sobre a 

posição socioeconômica, parecia afetar a habilidade para converter posição socioe

conômica em condições de bem-estar. Ainda em outro estudo, Thomas (1993) 

mostra que, entre as décadas de 1960 e 1980, houve, sim, uma queda nos efeitos 

da raça sobre os rendimentos, mas que essa queda foi relativamente discreta e insu

ficiente para afirmar que a raça tivesse deixado de ser relevante na determinação 

das chances de vida nos Estados Unidos.

A quarta abordagem, a estrutural, constitui um desdobramento da abordagem 

quantitativa. O que a distingue é a preocupação não apenas de mensurar os efeitos 

da discriminação racial sobre indicadores socioeconômicos, como também de iden

tificar padrões na interação entre a discriminação racial e as posições na estrutura 

de classes. Essas preocupações já aparecem nos trabalhos de Nogueira (1950) e de 

Costa Pinto (1953), quando sugerem que, com o avanço da ordem competitiva, o 

papel das distinções raciais tenderia a se intensificar. Aparecem também, e muito 

destacadamente, no trabalho de Florestan Fernandes (1972), quando o autor discute 

a interação estrutural entre as relações raciais e a composição do mercado de tra

balho livre e competitivo, a modernização do arcaico e a arcaização do moderno, 

em suas palavras, observando a atuação especial das barreiras raciais em relação 

49

O negro no mundo dos ricos

aos negros em situação de classe ascendente. Por sua vez, o trabalho de Marvin 

Harris na coletânea organizada por Wagley (1952) indicava que a dinamização 

da economia, num primeiro momento, tendia a acentuar, e não mitigar, o peso do 

critério racial na competição por recompensas socioeconômicas.

São, contudo, os estudos quantitativos mais recentes que consolidam a aborda

gem estrutural. Esses estudos utilizam estratégias de análise que, além de multicau

sais, permitem diferenciar os efeitos da discriminação racial em diferentes níveis 

da estratificação social. O rótulo de abordagem estrutural não é utilizado por esses 

pesquisadores. Ainda assim, esses estudos, em comum, investigam não apenas 

os efeitos parciais da discriminação racial, como sua modulação pela estrutura 

socioeconômica. Um resultado convergente entre esses trabalhos é a constatação 

de que os efeitos da discriminação racial são, de maneira geral, mais acentuados em 

posições sociais mais altas, quer se tratando das chances de concluir níveis superio

res de ensino, quer se tratando das chances de acesso a posições de classe de maior 

status, ou ainda, quer se tratando da desigualdade de renda entre negros e brancos 

no interior de uma de classe social mais afluente (SOARES, 2000; BIDERMAN; 

GUIMARÃES, 2004; RIBEIRO, 2006; FERREIRA, 2001, HASENBALG; SILVA, 

1998; SANTOS, 2005b; NUNES; VILASBOAS, 2016).

Esse padrão chama atenção para um princípio de articulação entre classe social 

e raça que será designado aqui como “princípio de acomodação das relações raciais 

em posições de classe”. A ideia de acomodação é empregada em oposição à ideia 

de sobreposição. É bastante claro que classe e raça se sobrepõem. As classes mais 

baixas são majoritariamente negras e as mais altas, compostas por maioria branca. 

A sobreposição entre raça e classe é um estado de coisas, identificável pelo estudo 

descritivo da distribuição dos grupos raciais por faixas de status socioeconômico.

A acomodação, por seu turno, refere-se a um padrão de interação entre raça 

e classe identificável apenas por meio de modelos explicativos de análise. Ela diz 

respeito ao porquê de as barreiras da discriminação racial se acentuarem em se 

tratando da competição pelas posições sociais mais bem aquinhoadas. Ela chama 

50

50

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

atenção para o fato de que o que ocorre não é apenas uma naturalização de que 

pessoas negras ocupam tipicamente posições desfavorecidas. Esse estado de coisas 

parece contar também com uma força normativa. No nível agregado, a discrimina

ção racial se comporta não apenas como efeito da existência generalizada de pre

conceitos em relação aos negros, mas também como uma força que procura manter 

uma ordem das coisas, segundo a qual, por assim dizer, determinadas posições 

sociais não são para pessoas de cor. A discriminação racial não se constitui apenas 

por uma disposição difusa à desconfiança, à aversão ou mesmo à hostilidade com 

relação ao negro. Muito mais do que isso, seus esquemas de classificação operam 

com uma visão de todo sobre o espaço social.

2.3 O estudo sobre negros em classes altas

O estudo sobre a presença de negros em elites definidas com base em estrati

ficações socioeconômicas aparece eventualmente como tópico no conjunto mais 

geral de estudos sobre desigualdades raciais. Myrdal (1944) dedica o capítulo 14 

do extenso An American dilemma ao estudo dos negros de classes média e alta nos 

Estados Unidos durante a primeira metade de século XX. Nesse caso, a definição de 

elites se dá pela distinção entre ocupações manuais e não manuais. O autor inves

tiga a representação dos negros entre profissionais liberais, professores, servidores 

públicos e empresários, observando a relevância desproporcional das ocupações 

clericais e da de professor, o que ele atribui à segregação racial nas escolas e nas 

igrejas, que gerou, nesses setores, nichos raciais no mercado de trabalho. Essas 

profissões constituíram assim uma via importante de ascensão para os negros, ainda 

que pastores negros fossem em geral mais pobres, em razão da menor afluência 

de suas comunidades, e professores negros contassem geralmente com piores con

dições de infraestrutura e recebessem, frequentemente, menores salários, mesmo 

após determinação, datada de 1940, de inconstitucionalidade para essas diferenças 

salariais baseadas em raça. O empreendimento no varejo, nota o autor, também 

51

O negro no mundo dos ricos

sofreu impactos ambivalentes da segregação. Por um lado, as vizinhanças segre

gadas constituíram uma clientela cativa para empreendedores negros. Por outro 

lado, os limites do poder de consumo dessa clientela, assim como as restrições no 

acesso a fornecedores e a crédito, limitavam os horizontes de crescimento por parte 

desses empreendedores. Interessante que o autor também dedique uma subseção 

do capítulo a ocupações ilícitas que, àquele tempo, consistindo principalmente na 

atividade do jogo de números, ofereceram oportunidades para a ascensão de alguns 

negros a posições de elite na “economia underground” (MYRDAL, 1944).

Em The negro in modern industrial society, Dutcher (1930) descreve as varia

ções na proporção de negros no mercado de trabalho qualificado e em posições de 

status mais elevado, como funções executivas e profissionais liberais. A presença de 

negros em estratos de elite não é, contudo, foco do estudo. O autor aborda a distribui

ção dos negros na estrutura ocupacional como um todo, considerando fatores como 

sexo, migração e diferenças regionais. Já antes disso, Reuter (1969), no interessante 

livro The mulatto in the United States, escrevia sobre negros ocupando posições de 

destaque nas mais diversas atividades da produção econômica e cultural. O autor 

utiliza informações disponíveis em uma gama de publicações impressas contendo 

listagens de negros socialmente eminentes. O autor utiliza também listagens de per

sonalidades elaboradas, a pedido, por pessoas negras reconhecidamente afluentes, 

além de informações biográficas disponíveis em diversas fontes. Com esse material, 

Reuter mapeia algumas centenas de negros socialmente destacados em áreas como 

política, medicina, direito, educação, literatura, artes, administração pública e negó

cios. O interesse do autor, contudo, é analisar a posição do mestiço, enquanto grupo 

racial diferenciado, no processo de integração do negro na sociedade de classes nos 

Estados Unidos. Sua investigação revela que, embora os “mulatos” fossem, durante 

a década em estudo, a de 1910, algo em torno de 20% da população de cor, eles 

eram mais de 80% dentre os negros em posições de elevado status socioeconômico.

Pesquisas especificamente dedicadas ao tema dos negros em posição de elite são 

mais raras. Contudo, é possível identificar uma tradição de estudos que se desenvolve 

52

52

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

nos Estados Unidos. Esse desenvolvimento ocorre em duas grandes etapas: (i) uma 

que começa ao final da década de 1890, em que a pesquisa sobre elites negras se 

confunde com a formação de uma consciência de classe e de uma narrativa de classe 

dominante negra basicamente em termos de uma elite demiurga e (ii) uma segunda 

fase de estudos mais estritamente acadêmicos. A primeira fase culmina em trabalhos 

de crítica à narrativa de classe construída durante as primeiras décadas do século XX, 

abalando-se a ideia de que a composição de uma elite negra seria uma via de emanci

pação para o conjunto da população de cor. Em outras palavras, há um deslocamento 

da posição de primeira pessoa, articuladora da narrativa de classe dominante negra, 

para uma posição de terceira pessoa, observadora e crítica dessa narrativa.

Em verdade, essa primeira fase de estudos constitui uma dimensão da própria 

diferenciação social da elite negra, de origens relativamente remotas. Em 1790, os 

Estados Unidos contavam uma população de negros livres estimada em aproximada

mente 60 mil almas, perfazendo 8% da população negra total. Em 1860, esse número 

chegaria praticamente a 500 mil, perfazendo 11% da população negra. A maior 

proporção de negros livres nos Estados Unidos em período escravista se deu em 

1830, com praticamente 14% (QUARLES, 1969). A redução dessa proporção, até 

1860, provavelmente ocorreu devido a reações da sociedade branca em sua parcela 

escravista diante do crescimento do abolicionismo. Alguns estados decretaram leis 

restringindo manumissões (HARRIS, 1936), expressão de uma resposta que deve 

ter ocorrido também por outras vias. Desses 500 mil negros livres na década de 

1860, aproximadamente metade vivia no Sul, onde dividia espaço com a grande 

massa de negros escravos. A outra metade, no Norte, vivia onde a escravidão nunca 

constituiu um aspecto tão relevante da economia e já era virtualmente extinta na 

década de 1830 (QUARLES, 1969). As principais origens dessa população negra 

livre eram as fugas, a manumissão, a compra da própria liberdade e o crescimento 

vegetativo. Como sói ser, a relação sexual entre senhores e escravas era um fator 

importante que motivava manumissões. Em 1850, metade da população negra livre 

era mestiça, contrastando com apenas 8% da população escrava.

53

O negro no mundo dos ricos

No seio dessa população negra livre, gestou-se a diferenciação de uma elite 

negra. As principais possibilidades de trabalho livre concentraram-se nos serviços 

pessoais, serviços de alimentação, na pequena agropecuária e, especialmente no Sul, 

onde a cultura escravista prevenia brancos de se ocuparem em trabalhos manuais, 

a manufatura também constituiu um espaço privilegiado para a ação do negro 

livre, o que não aconteceu, em extensão comparável, nos estados livres do Norte. 

Especialmente nos serviços pessoais, as acomodações de status numa sociedade 

escravocrata permitiram que alguns empreendedores negros alcançassem consi

derável riqueza, firmando-se enquanto proprietários de salões e de restaurantes 

onde atenderiam a elite branca endinheirada. Desde que atuando em uma atividade 

serviçal, quer dizer: desde que sua condição de subalternidade não fosse posta sob 

suspeita, não incomodava ao homem branco que esses negros livres adquirissem 

alguma riqueza. Em outras palavras, tratava-se de uma janela para a ascensão de 

classe diretamente vinculada à conservação relativa da posição de status. Contudo, 

com o crescimento da agitação abolicionista, os negros livres empreendedores 

passaram a estar mais sujeitos à insegurança social e jurídica no Sul, sofrendo 

ameaças e tendo seus negócios arruinados quer pelo boicote, quer pelo desmando 

cinicamente amparado em formalidades jurídicas, quer pela violência pura e sim

ples. Ainda assim, uma classe de negros livres trabalhadores continuou existindo, 

com alguns deles se sobressaindo em sucesso econômico.

Graças à manutenção de uma considerável circulação de dinheiro, houve, desde 

o final do século XVIII, a formação de sociedades de assistência mútua entre os 

negros livres, contando com a simpatia e com a colaboração proativa (o que significa 

não apenas doações, como também proteção social e jurídica) de pessoas brancas. 

Esses fundos de ajuda mútua atendiam o propósito de acumular crédito, que pode

ria ser retirado não apenas para fins empreendedores, mas também para socorrer 

emergências outras, como casos de saúde ou morte. Num primeiro momento, as 

igrejas serviram como base para a organização dessas sociedades, cujo número 

cresceu francamente ao longo da primeira metade do século XIX.

54

54

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

Sem embargo, a formação, a partir de 1794, de uma igreja protestante negra 

independente constituiu um aspecto decisivo para a vida social da população negra 

nos Estados Unidos, à medida que significou a consolidação de uma base institu

cional para a organização da vida civil. Não à toa Frazier (1957, p. 79) afirma que 

“a instituição mais importante criada pela população negra nos Estados Unidos foi 

a Igreja Negra”. A partir das sociedades de ajuda mútua, alicerçadas na organização 

civil oferecida pelas igrejas, os negros empenharam esforços com o intento de obter 

crédito junto a bancos, esforços muitas vezes malogrados pela discriminação racial. 

Diante das restrições de crédito, da insegurança social e jurídica, além das limita

ções impostas pelo campo restrito de atividades que a discriminação e as condições 

de pobreza permitiam optar, apenas uma modesta e pouco numerosa elite negra 

se desenvolveu ainda no período pré-Guerra Civil (HARRIS, 1936). Listagens e 

descrições somando algumas dezenas de negros possuidores de moderadas fortunas 

no período anterior à abolição, incluindo um fazendeiro negro com posse de quase 

uma centena de escravos e outros negros. Para uma surpresa ainda maior, empre

sários na atividade logística podem ser encontradas no livro Negro in the making 

of America, de Benjamin Quarles e também em The negro as capitalist, de Harris.

Essa diferenciação se acelera e ganha novas bases a partir da Guerra Civil. 

Como já mencionado, a própria segregação racial constituiu-se, por um lado, em 

fator favorável à diferenciação de classes média e média alta negras. A segregação 

racial na moradia, nos serviços e em outros setores da atividade econômica implicou 

o desenvolvimento de uma estrutura ocupacional cativa para negros que, embora 

restrita em comparação às oportunidades disponíveis à população branca, permitia 

certa diferenciação social. Mais que a segregação, contudo, deve-se considerar o 

investimento de recursos e de energia na integração dos negros à atividade eco

nômica, ainda que racialmente segregada. A Lei de Direitos Civis de 1875, que 

prevenia a discriminação racial, foi declarada inconstitucional já em 1883, com o 

intuito de abrir franco espaço para a construção de um sistema de segregação racial 

formalizado em normas no Sul do país. Contudo, as emendas constitucionais de 

55

O negro no mundo dos ricos

1866, prevendo plena cidadania aos negros, não foram derrubadas, o que levou 

à construção do princípio “separados, porém iguais”, segundo o qual, os servi

ços, embora racialmente segregados com base em legislação, deveriam apresentar 

padrões equiparáveis de qualidade e infraestrutura. Obviamente o mote “separados, 

porém iguais” não descrevia a realidade, e os serviços e acomodações dedicados 

à população negra eram muito inferiores. No entanto, essa adesão ao princípio de 

igualdade, formalizada em emenda constitucional, ofereceu base legal não apenas 

para a luta política contra a discriminação racial como também ferramentas jurí

dicas para que se garantisse algum nível de investimento nos serviços dedicados à 

população negra (MYRDAL, 1944).

Durante os anos imediatamente posteriores à Guerra Civil, considerável ener

gia foi despendida com o objetivo de integrar o negro à vida civil e à atividade 

econômica. Em The negro, Dubois (1915) narra a ação de políticos republicanos, 

àquela época representantes da visão de mundo progressista sustentada na região 

Norte, durante a década de 1860, tentando influenciar políticos sulistas a favor 

da extensão do direito de sufrágio aos negros. Efetivamente, em 1870, entraria 

em vigor emenda constitucional abolindo a restrição do direito ao voto com base 

no critério racial. Muito embora, com a rearticulação dos conservadores no Sul e 

sua ascensão ao controle político dos estados naquela região ao longo da década 

de 1870, práticas oficiosas e extrajurídicas (como intimidação e violência) foram 

amplamente empregadas para impedir o pleno exercício do direito ao voto por 

parte dos negros.

Na década de 1860, instituíram-se o Freedmen’s Bureau e o Freedmen’s Savings 

Bank, instituições dedicadas ao esforço de integração do negro à sociedade de clas

ses. A primeira no que concerne a serviços como educação e assistência social, e 

a segunda, no que se refere à concessão de crédito. O Freedmen’s Bureau atuou 

na construção de hospitais prestando assistência jurídica e atuou ainda na garantia 

de salários mínimos para negros empregados em fazendas no Sul, “se tornando, 

com efeito, a primeira agência mediadora entre capital e trabalho na América” 

56

56

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

(QUARLES, 1969, p. 128, tradução nossa)7. Compreensível sua existência no 

contexto de entusiasmo humanista no período imediatamente posterior à Guerra 

Civil, o Freedmen’s Bureau não resistiu, contudo, ao realinhamento político que 

ocorreria a partir da década de 1970, com o fortalecimento dos democratas no Sul 

e o enfraquecimento da ala mais radical no partido republicano. A instituição foi 

extinta naquela mesma década, deixando um legado. DuBois (1915), ele mesmo 

um notável expoente dessa elite negra na virada para século XX, escreve suas 

impressões sobre o Freedmen’s Bureau:

Foi, sem dúvidas, um enorme experimento, mas com todas as suas 

falhas flagrantes, ele foi bem-sucedido em um grau impressionante. 

Ele tornou impossível o reestabelecimento imediato da escravidão, 

sendo provavelmente o método mais rápido para fazê-lo. Ele deu 

aos filhos dos homens libertos a chance de se educarem. (DUBOIS, 

1915, p. 207, tradução nossa).8

O Freedmen’s Bank constituiu também uma experiência precursora. Fundado 

em 1965, o banco foi concebido mais como um instrumento de política pública do 

que como um empreendimento de mercado propriamente dito. Sua capitalização 

se deu mormente com base nos salários e nas pensões recebidas pelos soldados 

negros envolvidos na Guerra Civil, assim como na poupança da população negra 

em geral. O intuito era garantir que boa parte do dinheiro recebido por soldados 

e suas famílias não fosse dissipada, mas, antes, reunida em poupança, garantindo 

renda em médio e em longo prazo, assim como disponibilidade de crédito para a 

população negra. A gestão do banco ficou sob o comando de pessoas brancas da elite 

de poder, com pessoas negras sendo progressivamente contratadas para o quadro 

7 “[…] becoming in effect the first mediating agency between capital and labor in America.”

8 “This was without a doubt a tremendous experiment, but with all its manifest mistakes it succeeds 

to an astonishing degree. It made the immediate reestablishment of the old slavery impossible, and 

it was probably the only quick method of doing this. It gave the freedmen’ sons a chance to begin 

their education.” 

57

O negro no mundo dos ricos

de funcionários. O banco se capitalizou e se expandiu rapidamente, criando filiais 

em diversos estados. A partir de 1870, um novo grupo da elite de poder assumia o 

comando da instituição na mesma medida em que se aprovava, no congresso, uma 

nova regulação, que permitia ao Freedmem’s Bank uma atuação mais agressiva no 

mercado financeiro. A ação especulativa e a ingerência do grupo então no controle 

levaram o banco a falir. Foi inútil a nomeação de Frederick Douglas, renomada 

personalidade negra da época, para presidente, como tentativa de recuperar a con

fiança de investidores, em especial da população negra, que se sentiria representada 

na figura eminente do novo presidente. Em 1874, o Freedmen’s Bank encerrava 

suas atividades, deixando uma perda significativa de depósitos (HARRIS, 1936).

A imprensa negra, nascida em meados do século XIX e pautada pelo tema 

abolicionista, a partir da reconstrução, passará a responder a um conjunto maior 

de expectativas de uma população negra passando por um processo conjunto de 

integração à sociedade de classes e de diferenciação social, e, ao mesmo tempo, 

submetida a formas virulentas de discriminação. A imprensa negra se desenvolverá 

num contexto de emergente segregação racial em regime não escravista, tendo 

que lidar não apenas com a situação política da população negra, mas também: 

com a necessidade de estabelecer diálogo com a população branca, tendo em vista 

a obtenção de apoio político; com as demandas do público em termos de outros 

tipos de informação (que não de conteúdo político) e de entretenimento; com o 

crescimento e modernização da gestão num contexto de evolução da indústria 

de comunicação; e, finalmente, com os jogos de poder envolvendo a imprensa, 

o campo político e o mundo corporativo. Ao assumir essa gama diversificada de 

tarefas, a imprensa negra revelou-se como um dos suportes para a formação de 

consciência de classe por parte da elite negra em diferenciação (FRAZIER, 1957). 

Sem embargo, o inventário de negros ocupando posições de elite elaborado por 

Reuter (1969) contou em muito com registros feitos pela imprensa negra, enu

merando negros de destaque e discutindo sobre seu papel perante o passado e o 

futuro da população negra.

58

58

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

Cabe mencionar também o The negro handbook, série de publicações orga

nizada por homens negros da imprensa. O periódico inventariava negócios de 

pessoas negras, incluindo bancos, companhias de seguro e de empréstimo, além 

de propriedades agrícolas. A publicação também trazia informações sobre negros 

ocupados em setores como as forças armadas, a imprensa, o teatro e organizações 

civis. O periódico parece inspirado na campanha Don’t buy where you cannot work, 

capitaneada por algumas lideranças e de alguma repercussão na comunidade negra 

durante a primeira metade do século XX, promovendo o boicote aos empreendi

mentos brancos por parte da população negra. O Negro handbook cumpriria o papel 

de difundir pela população negra informações sobre onde encontrar os empreen

dimentos liderados por pessoas negras, aos quais, de acordo com a campanha, 

deveria ser dada preferência.

O livro inaugural dos estudos sobre elites negras nos Estados Unidos, Negro 

in business, editado por DuBois (1971) em 1899, aparece no contexto dessa arti

culação para si da elite negra já existente em si, em uma conferência, realizada na 

Universidade de Atlanta, dedicada à formação superior de afro-americanos para 

discutir passado, presente e futuro de uma classe negra empreendedora. Esse pro

cesso de articulação, que inclui a formação da National Negro Business League, 

em 1900, é interpretado por Frazier (1957, p. 141) enquanto processo de institu

cionalização do que seria o “mito de uma classe negra dos negócios”, isto é, não a 

classe em si, tal qual ela existe, com suas enormes limitações em termos de poder 

e de diversificação econômica, mas a classe transformada em elemento de uma 

narrativa, em coisa simbólica sobre a qual se projetavam ambições e expectativas. 

O estudo Negro in business mostra a apropriação das ciências sociais pela inte

lligentsia negra no esforço de construção dessa narrativa. Na introdução, o editor 

argumenta a inserção da pesquisa num projeto mais geral, de formação de “líderes 

do pensamento e missionários da cultura em meio à massa” (DUBOIS, 1899, p. 1). 

Na sequência, a publicação apresenta caráter de estudo empírico sistemático, com 

apresentação da metodologia utilizada na coleta de dados e discussão dos resultados 

59

O negro no mundo dos ricos

sobre a distribuição ocupacional da população negra oferecidos pelo Censo de 

1890. O principal dispositivo retórico responsável pelo trânsito entre o escrutínio 

descritivo e a construção da narrativa consiste nos critérios de classificação:

O termo “homem de negócios” é interpretado, nesse estudo, de 

modo a incluir todos com estoques de produtos a vender, e também 

todas as pessoas que tenham pelo menos $ 500 em capital investido. 

A propósito, enquanto um barbeiro seria a princípio classificado 

como artesão, aquele com $ 500 ou mais investidos em sua loja, 

tendo vários assistentes empregados, é antes um capitalista do que 

um artesão, e 62 desse foram classificados como homens de negócio. 

Assim também pareceu adequado classificar 31 ferreiros e mantene

dores de rodas que tinham considerável capital investido, além de 

estoques de produtos para a venda. Em vários outros casos houve 

alguma dificuldade para traçar uma linha divisória entre artesãos em 

homens de negócios, e a decisão teve de ser mais ou menos arbitrá

ria, apesar do investimento de capital considerável ter constituído 

o critério mais recorrente. (DUBOIS, 1899, p. 7, tradução nossa).9

Como se nota, a definição operacional de “homem de negócios” é feita ampla o 

bastante para incluir empreendedores de pequeno porte, que, numa acepção comum, 

seriam oxalá considerados pequeno burgueses. Do ponto de vista técnico, não há 

incorreção nenhuma nesse procedimento, uma vez que essa definição operacional 

é explicitada na exposição do trabalho. Contudo, independentemente da defini

ção operacional adotada, o termo “businessman” insere-se num campo semântico 

9 “The term ‘business man’ in this study has been interpreted to include all with stocks of goods to sell, 

and also all other persons who have at least $500 of capital invested; for instance, while the ordinary 

barber should be classified as an artisan, a man with $ 500 or more invested in a shop, with several 

hired assistants, is a capitalist rather than an artisan, and 62 such men have been classed as business 

men. So, too, it seemed best to include 31 blacksmiths and wheelwrights who had considerable capital 

invested and kept stocks of wagons or other goods on sale. In several other cases there was some difficulty 

in drawing a line between artisans and business men, and the decision had to be more or less arbitrary, 

although the investment of considerable capital directly in the business was the usual criterion.” 

60

60

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

próprio, partilhado por outros termos como capitalista, burguês, empreendedor, e 

que, por conseguinte, empresta ao termo conotações um pouco mais ambiciosas do 

que a definição operacional a princípio permitiria. Ao alternar entre uma definição 

operacional mais modesta e uma exposição técnica rente a essa definição e, por 

outro lado, uma exposição retórica que evoca as conotações mais audaciosas do 

termo, o texto sustenta a narrativa grandiloquente de uma classe negra capitalista.

Uma expressão ainda mais acabada dessa abordagem em que o estudo da elite 

negra se confunde com o processo de formação de uma consciência de classe por 

parte dessa mesma elite consiste numa publicação do início do século passado: 

The negro problem: a series of articles by representative American negroes of 

to-day (WASHINGTON, 1903). A publicação reúne textos escritos por diferentes 

negros de destaque, discutindo agora não apenas o estatuto de uma elite negra, mas 

a questão mais geral da integração do negro à sociedade de classes. Isso quer dizer 

que o conteúdo da publicação não traz apenas um esforço de construção de uma 

narrativa de elite negra, mas, sobretudo, o que é mais radical, uma vivência dessa 

narrativa. Os autores, muitas vezes, simplesmente escrevem assumindo o lugar de 

fala instituído por essa narrativa: o de uma elite negra demiurga, responsável pela 

interpretação da condição do negro na sociedade estadunidense e sob cuja ação 

histórica repousaria a ascensão da população negra como um todo.

Quando o autor do primeiro capítulo, Industrial education for the negro, 

Booker Washington, discute a importância de uma educação técnica para as massas 

negras, está implícita a noção de que existe uma elite negra, constituída enquanto 

uma minoria mais altamente letrada. Junto a isso, a retórica do texto opera uma 

tomada de posição enquanto parte dessa elite, que seria responsável por discutir 

as estratégias mais adequadas para a melhoria das condições de vida da população 

negra em geral. Por seu turno, o Capítulo 6, Representative American negroes, ao 

elencar um número de negros eminentes, constitui uma reflexão explícita acerca 

do que definiria essa condição de elite, isto é, acerca do significado de ser um 

negro “exemplar”. O principal critério é a contribuição à construção de um orgulho 

61

O negro no mundo dos ricos

racial. O que o autor argumenta a favor das pessoas elencadas é o juízo de que suas 

realizações, em determinado campo de atuação ou em vários, teriam se elevado 

além da média e mesmo para além do bom, porém, ainda ordinário, em suficiente 

medida para figurarem como pessoas altamente apreciáveis, cujo gênio, socialmente 

reconhecido, testemunharia a favor das potencialidades da “raça” negra como um 

todo. Nesse sentido, embora a eminência dos negros exemplares elencados esti

vesse, em geral, ancorada em posições elevadas na distribuição socioeconômica, 

o conceito de elite articulado pelo autor ultrapassa essa definição, reivindicando 

uma posição de valor simbólico.

Especialmente interessante é o capítulo The talented tenth, onde DuBois defende 

uma genuína teoria das elites. Como um recurso retórico a ser notado, o autor começa 

e termina o artigo com a seguinte linha: “The negro race, like all races, is going to 

be safe by its exceptional men”. Entrementes, Dubois defende a necessidade de se 

garantir, por meio de uma educação superior de caráter humanístico, orientada a uma 

formação geral em ciências, línguas, filosofia e história – em suma, uma educação 

cujo objetivo seja, para além da formação técnica profissional, Paideia – a existên

cia de pessoas negras de elite, dotadas tanto de sofisticação intelectual quanto de 

verve prática. Ocupando com brilhantismo posições de liderança como professores, 

pastores, jornalistas, nos negócios, na administração pública e na política, os mem

bros dessa elite não apenas trariam benefícios à população negra por meio de suas 

realizações profissionais, como também exerceriam sobre esta população uma 

influência pedagógica que elevaria os padrões de sociabilidade e as habilidades 

intelectuais e laborais da mulher e do homem negro em geral. Existe, portanto, na 

virada para o século XX, uma elite negra enquanto classe em si e para si. Ela existe 

em si como fruto de um processo de diferenciação social iniciado entre negros livres 

na sociedade escravista e intensificado a partir da Guerra Civil. Ela existe para si 

porque concebeu a si mesma enquanto tal e, assumindo-se como, mais do que elite, 

vanguarda, atribuiu a si mesma o papel de discutir sobre o passado, o presente e o 

futuro do processo de integração do negro à sociedade de classes.

62

62

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

É sobre esse pano de fundo que surge, em 1936, o livro The negro as capitalist, 

de Abram Harris. Nesse trabalho, o autor investiga a diferenciação de uma classe 

empreendedora na população negra, adotando como foco de investigação empírica 

os bancos. Entre 1888 e 1934, mais de uma centena de bancos foram criados por 

negros, além de um número de Credit Unions e de Building and Loan Societies. Deste 

grande número, apenas pouco mais de uma dezena de bancos sobreviveriam, numa 

dinâmica envolvendo não apenas quebra, mas também fusões. Esses bancos foram 

capitalizados pela expansão, ocorrida depois da Guerra Civil, de sociedades visando 

garantir à população negra nível de poupança necessário ao acesso a serviços básicos. 

Com a igreja negra servindo como suporte de organização civil, diversas Fraternal 

Insurances e Burial Societies foram criadas e promoveram um acúmulo inicial de 

capital. Embora o desenvolvimento dessa classe no seio da população negra seja de 

impressionar, a discriminação e a segregação racial mantiveram muito restritos os 

horizontes dessa diferenciação social. Nenhum avanço significativo foi feito pela 

população negra nos setores da indústria e do comércio no atacado. Excluindo-se o 

próprio setor financeiro, a diversificação de uma classe negra “capitalista” se restrin

giu aos serviços de recreação e lazer, ao comércio no varejo, aos serviços pessoais 

e à pequena propriedade agrária. O que o autor identifica é um desenvolvimento 

da classe negra capitalista durante as primeiras décadas do século XX medido pelo 

constante aumento, com alguma queda durante e após a Crise de 1929, no total de 

depósitos adquiridos pelos principais bancos de cada período.

A restrição na diversificação dos setores produtivos impactava negativamente o 

setor financeiro da classe negra capitalista, uma vez que a capitalização dos bancos, 

pelo menos no que tange aos depósitos, se dava sobre uma base produtiva menos 

diversificada e de relativamente modesta envergadura financeira. Essa frágil classe 

econômica negra dominante resistiria menos ainda diante do crescimento em escala 

das firmas. Setores como o comércio varejista e a prestação de serviços nas comu

nidades negras segregadas passaram a ser cada vez mais penetrados por grandes 

firmas, organizadas em cadeia e dominadas por brancos. Boa parte das energias 

63

O negro no mundo dos ricos

antes concentradas pelas lideranças negras no projeto de uma elite econômica negra 

empreendedora divergiram para a reivindicação de que se ocupassem negros, em 

boas posições profissionais, nessas grandes firmas que dominavam o mercado no 

varejo. Em outras palavras, refletindo mudanças nas circunstâncias objetivas, o 

projeto de uma elite negra capitalista cedeu, em boa medida, lugar para o projeto 

de uma elite negra assalariada.

O livro de Harris marca um deslocamento de posição de fala na discussão sobre 

elites negras: da primeira pessoa para a terceira pessoa, do articulador da narrativa 

de classe dominante para o crítico dessa narrativa. Harris (1936) termina seu livro 

chamando atenção para o antagonismo de classe no interior da população negra, que 

seria mascarado pelo discurso da elite negra demiurga. Considere-se o contexto de 

discussão do autor. Havia, na época, a defesa de um projeto econômico separatista 

para a população negra. O influente intelectual negro DuBois defendia a ideia de 

que, diante da segregação racial, institucionalizada no Sul e simplesmente eficaz 

no Norte, a população negra precisaria reagir formando uma estrutura econômica 

independente. Por outro lado, havia o influente empresário e intelectual Booker 

Washington defendendo não um projeto separatista de economia, mas, numa linha 

de pensamento mais pragmática, um projeto protecionista, segundo o qual, a popu

lação negra deveria consumir em estabelecimentos dos quais fossem proprietárias 

pessoas negras, mesmo quando esses praticassem preços sensivelmente mais altos, 

como forma de fortalecer a elite econômica negra. A posição de Harris é de que 

a ideia de uma economia independente para a população negra era simplesmente 

irrealista. Já quanto ao protecionismo econômico, segundo o autor, esse discurso 

pretendia mascarar, sob uma ideologia de solidariedade racial, o antagonismo de 

classe entre a elite e as massas na população negra. O autor enfatiza:

Em sua confusão, as massas são levadas a dirigirem seus ânimos 

contra os judeus e a branquitude. As reais forças por trás de suas 

deficiências e desconforto são mascarados pela raça, o que os impede 

64

64

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

de ver que o que homem negro de negócios quer, antes de tudo, é 

a liberdade para monopolizar e explorar o mercado de consumo 

que elas provêm. As massas não conseguem ver que elas não têm 

explorador maior que o negro capitalista que vive da exploração 

de trabalho mal remunerado e até mesmo extenuante, embora ele 

próprio e sua família geralmente vivem em consumo ostentatório. 

(HARRIS, 1936, p. 184, tradução nossa).10

O trabalho de Franklin Frazier (1957), em Black bourgeuoisie, aponta também 

para a existência desse antagonismo e se concentra numa crítica ácida à narrativa 

de classe da elite negra. Na verdade, o autor desenvolve um estudo crítico sobre 

grupo de status e composição de estilo de vida a partir da posição dessa classe, 

antecipando uma abordagem que logo ganharia notoriedade na sociologia com o 

trabalho de Pierre Bourdieu (1984), na década de 1970. Em termos de metodologia, 

o autor adota uma estratégia bem livre, recorrendo a dados censitários, fontes docu

mentais (principalmente publicações da imprensa negra) e entrevistas realizadas 

por ocasião de sua pesquisa anterior sobre famílias negras nos Estados Unidos. 

Sua crítica centra-se basicamente na forma como a narrativa de classe da burguesia 

negra se articula, segundo ele, enquanto uma solução simbólica precária para as 

ambiguidades inerentes à condição dessa pequena classe que, embora dominante, 

seria, ao mesmo tempo, violentamente dominada. A posição ocupada pela burguesia 

negra seria definida por uma ambivalência: se a identificação com o estilo de vida 

e com as visões de mundo das classes dominantes leva à ruptura com as massas 

pobres do próprio grupo racial, a discriminação e a segregação frustram o efetivo 

acesso às posições sociais e, sobretudo, ao mundo da vida das elites. Adotando 

10 “In their confusion, the masses are led to direct their animus against the Jew and against white

ness. The real forces behind their disabilities and discomfort are masked by race which prevents 

them from seeing that what Negro business man wants most of all is freedom to monopolize and 

exploit the market they provide. They cannot see that they have no greater exploiter than the black 

capitalist who lives upon low-waged if not sweated labor, although he and his family may, and 

often do, live in conspicuous luxury.” 

65

O negro no mundo dos ricos

uma escrita estilística como recurso de persuasão sobre a dramaticidade mesma 

da condição da elite negra, o autor argumenta:

A burguesia negra vive sobretudo em um mundo do blefe; num 

jogo de máscaras, encenando tristes papéis para dissimular seu sen

timento de inferioridade e de insegurança e as frustrações que agi

tam sua vida secreta. Seus membros se esforçam para evitar serem 

confundidos com a massa de cor, mas lhes é impossível escapar à 

mesma opressão que atinge seus semelhantes de raça menos favore

cidos. Tal esforço para escapar de sua própria negritude lhes incute 

um ódio de si mesmos, que encontra expressão no rebaixamento 

das caraterísticas sociais e físicas dos negros. Do mesmo modo, 

seus sentimentos de inferioridade e de insegurança são traídos pela 

intensidade patológica de sua luta para se elevarem socialmente em 

um mundo dos negros isolado, assim como pelo intenso desejo de 

aceitação pelos brancos. (FRAZIER, 1957, p. 192, tradução nossa).11

O argumento central é o de que a burguesia negra, em certo sentido, ocuparia 

uma espécie de não lugar social. O campo restrito de sua atuação econômica é o 

bastante para sustentar sua diferenciação em relação às massas negras, mas não o 

bastante para alçá-la a uma posição efetivamente importante na economia do país. 

Ademais, as restrições impostas a sua circulação pelo mundo da vida equivalem 

a impossibilidade de acesso a ritos e a uma vida cotidiana capaz de sustentar uma 

representação de si própria enquanto elite. Em consonância com os estilismos de 

Frazier, lembrando as imagens de A divina comédia, a elite negra viveria numa 

11 “La bourgeoisie noire vit surtout dans un monde du bluff; le masque qu’elle porte pour jouer son triste 

rôle, dissimule son sentiment d’infériorité et d’insécurité et les frustrations qui hantent sa vie secrète. 

Ses membres se sont efforcés d’éviter d’être confondus avec les masses de couleur, mais il leur est 

aussi impossible d’échapper à l’oppression qu’à leurs frères de race moins favorisés. Cet effort pour 

échapper à leur négritude a suscite en eux une haine d’eux-mêmes, qui trouve son expression dans le 

dénigrement des caractères sociaux et physiques des Noirs. De même, leurs sentiment d’infériorité et 

d’insécurité transparaissaient dans l’intensité pathologique de leur lutte pour s’élever socialement 

dans un monde noir isolé et dans leur intense désir de se faire accepter par les Blancs.” 

66

66

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

espécie de limbo. Foi tendo o limbo como morada que Virgílio guiou Dante incauto, 

caminhando altivo no inferno e no purgatório, mas, pagão ainda, a despeito do mérito 

de suas proezas, não pôde seguir jornada pelo paraíso. Assim, a elite negra andaria 

sobre as cabeças das massas negras pauperizadas, mas não atravessaria os portões 

de acesso ao mundo da burguesia branca dominante. Na interpretação de Frazier, é 

por conta dessa posição de não lugar que a burguesia negra criou para si uma espé

cie de lugar mítico de prestígio e reconhecimento social, ancorado em rituais e na 

materialização do discurso em publicações, especialmente por meio da imprensa.

A argumentação de Frazier constitui, assim, um ataque violento à narrativa de 

elite demiurga construído durante as primeiras décadas do século XX. Primeira

mente, o autor expõe e enfatiza, como já feito por Harris em The negro as capitalist, 

os antagonismos de classe entre essa elite e as massas negras. Em segundo lugar, ele 

desenvolve uma crítica extensa e direta a essa narrativa, afirmando a inexistência 

de uma autêntica solidariedade racial capaz de atravessar as clivagens de classe. 

Na opinião do autor, o orgulho racial das elites de cor seria um sentimento muito 

frágil que não geraria solidariedade de classe, mas, pelo contrário, se trairia no 

antagonismo com as massas negras da classe popular e, ainda mais dramaticamente, 

num antagonismo com o próprio corpo:

A burguesia de cor alardeia constantemente seu orgulho racial; mas, 

ao reparar suas atitudes em relação aos traços físicos ou às caracte

rísticas sociais dos negros, percebe-se por óbvio que, na verdade, 

ela não quer se identificar com eles (FRAZIER, 1957, p. 194, tra

dução nossa).12

Considerando o fato de que boa parte da elite negra é mulata, Frazier comenta 

por várias vezes o “esnobismo de cor” dos mulatos (Frazier, 1957, p. 178) diante das 

12 “La bourgeoisie de couleur étale constamment son orgueil d’être noire; mais si on étudie son 

attitude à l’égard de traits physiques ou des caractéristiques sociales des Noir, il devient évident 

que’elle ne tient pas vraiment à ce qu’on la confonde avec eux.” 

67

O negro no mundo dos ricos

massas pobres de negros retintos, esnobismo cujo simétrico oposto seria, nas pala

vras do autor, um “complexo de inferioridade” em relação ao branco. Cabe notar: 

embora o trabalho apresente uma qualidade notável, a argumentação do autor parece 

fortemente enviesada por uma posição pessoal avessa à elite negra. Esse dessabor 

parece advir da reprovação moral diante do que o autor provavelmente considera 

uma atitude mais ou menos comum nessa classe. Em The negro family in the United 

States, publicado originalmente em 1948, Frazier comenta sobre a posição não 

incomum no seio da elite negra de apoiar a discriminação de negros pobres em 

estabelecimentos públicos. O autor cita “um homem negro, editor de uma gazeta, 

que chamava a atenção de um homem branco para o fato de que ‘as pessoas brancas, 

de maneira geral, riscam uma linha de separação no ponto errado, colocando todos 

nós na mesma categoria’” (Frazier, 1951, p. 326, tradução nossa).13

A partir da década de 1960, acumula-se, nos Estados Unidos, certo volume de 

estudos de caráter eminentemente quantitativo sobre a afluência econômica entre 

os negros (BRIMMER, 1988; COLLINS, 1983; FEATHERMAN; HAUSER, 1976; 

HINE, 2003). Muitos desses estudos concentram-se na verdade numa “classe média” 

negra, termo com o qual se referem, geralmente, a trabalhadores não manuais qua

lificados e também a especialistas. Em geral, discute-se sobre a contribuição das 

políticas de Estado instituídas a partir de 1964 para o crescimento dessa classe, sobre 

a persistência (ou a não persistência) de barreiras raciais à sua plena expansão, assim 

como sobre a fragilidade das suas posições em termos não apenas econômicos, mas 

de poder. Nesse corpo de trabalhos, existe uma discussão sobre em que medida 

o aumento nos níveis de mobilidade social por parte dos negros indicaria uma 

queda na relevância da condição racial enquanto fator de estratificação (LANDRY; 

MARSH, 2011). Esse debate reflete, sobretudo, os desafios interpretativos impostos 

pela passagem de um contexto em que a segregação racial operava uma separa

ção absoluta entre negros e brancos enquanto castas para um contexto em que a 

13 “[...] a colored newspaper editor who remarked to a white man that ‘the white people draw the line 

at the wrong point and put all of us in the same class’.” 

68

68

2. A acomodação das relações raciais em posições de classe

condição racial passa a ser um fator com impacto relativo sobre as chances de vida 

das pessoas. Quanto a posições mais altas na hierarquia social, desenvolveram-se 

alguns estudos sobre a carreira de negros nos altos círculos executivos, identificando 

a tendência de que essas vagas se restrinjam a setores de atuação muito restritos e 

racializados (COLLINS, 1989).

No Brasil, a produção sobre negros nas elites é especialmente acanhada. A pri

meira menção ao tema pode ser localizada num capítulo de Sobrados e mocambos: 

o mulato bacharel. Nesse capítulo, Freyre (1936) explora basicamente a condição 

do filho homem, fruto de relações sexuais entre homens brancos e mulheres negras, 

e reconhecido pelo pai. Contando com altos níveis de escolaridade e com proteção 

social, esses mestiços galgavam posições sociais mais elevadas, sobretudo em car

gos públicos. De maneira geral, a condição do negro em posições sociais médias, 

fincadas em postos de trabalho não manual ou, menos frequentemente, na condição 

de especialistas, aparece como tópico nos diversos estudos sobre estratificação 

racial. Além disso, autores como Florestan Fernandes (1965) e Luiz Aguiar Costa 

Pinto (1953) dedicaram-se ao estudo do ativismo e da imprensa negra durante a 

primeira metade do século XX, notadamente com foco em elites políticas. O único 

clássico brasileiro, contudo, especificamente voltado ao estudo dos negros nas elites 

é o As elites de cor, de Thales de Azevedo (1955). O autor empreende um estudo 

sobre a inserção de negros em posições sociais elevadas na Bahia, diferenciando 

sua análise em termos de diversos campos de atividade. Embora não estruture sua 

análise exatamente com o intuito de identificar quais são os campos de atividade 

mais permeáveis à ascensão do negro, dedicando suas notas conclusivas a inter

pretações mais gerais sobre a natureza da discriminação racial no Brasil, o autor 

faz alguns apontamentos nesse sentido.

No comércio, Azevedo identifica dificuldades para a ascensão do negro sobre

tudo em função da baixa capacidade de investimento. A posição de proprietário 

depende do nível de capitalização. Assim, levando-se em conta um contexto de 

fragilidade nos fluxos de crédito, ficava mais do que nunca a cargo do patrimônio 

69

O negro no mundo dos ricos

acumulado em nível familiar as condições de possibilidade para que se atingisse 

essa condição. Assim, os negros atingiam, no máximo, a posição de pequenos 

comerciantes, um ou outro galgando posições um pouco mais elevadas. Na política, 

Azevedo (1955) identifi ca um ambiente mais permeável graças a algumas vias de 

acesso abertas por arranjos institucionais em regime democrático: organizações de 

classe e partidos. A burocracia também teria representado um canal mais aberto, 

sobretudo à medida que processos impessoais de seleção se consolidavam, garan

tindo ao negro educado chances de competir por posições. Contudo, o autor iden

tifi ca a persistência de algumas barreiras raciais no que se refere à progressão na 

carreira por meio de cargos por indicação. Embora, de maneira geral, o autor prefi ra 

interpretar essas barreiras como função de défi cits educacionais, não no sentido do 

título, mas no sentido mais amplo referente a aspectos comportamentais, poder-se-ia 

dizer de habitus, ele admite a discriminação racial como um aspecto relevante. O artigo do autor Emerson Ferreira Rocha 

As elites brasileiras têm um papel central na manutenção da desigualdade social no país, que possui raízes históricas e se perpetua por meio de diversos mecanismos econômicos, políticos e culturais. A concentração de renda e poder, aliada a uma lógica extrativista e patrimonialista, contribui para um sistema que favorece uma pequena parcela da população em detrimento da maioria. 

Concentração de renda e riqueza

Domínio econômico: O 1% mais rico da população brasileira detém uma parcela desproporcional da riqueza, resultado de um sistema que permite o acúmulo de capital por meio de lucros e dividendos, enquanto a renda do trabalho cresce a um ritmo muito mais lento. Em 2024, um relatório apontou que 63% da riqueza do Brasil estava nas mãos de 1% da população.

Privilégios tributários: A elite se beneficia de um sistema tributário regressivo, no qual os impostos sobre o consumo (que afetam a população mais pobre) são mais altos que os impostos sobre grandes fortunas e lucros. Há evidências de que os 10% mais pobres pagam uma porcentagem maior de sua renda em tributos do que os 10% mais ricos. 

Raízes históricas e estruturais

Legado colonial: A desigualdade social no Brasil é um reflexo do passado colonial, com a influência ibérica, a escravidão e o sistema de grandes propriedades de terra (latifúndios) estabelecendo as bases para a concentração de poder e riqueza.

Racismo e exclusão: A elite, historicamente branca e de origem europeia, utiliza mecanismos culturais e morais para justificar a subordinação e a desumanização das classes populares, principalmente de negros e mestiços, perpetuando o racismo estrutural. 

Mecanismos de perpetuação

Controle político: As elites exercem grande influência sobre o sistema político, garantindo que as políticas públicas sejam favoráveis aos seus interesses. Isso inclui a oposição a políticas redistributivas, a transferência de renda e a taxação de grandes fortunas, como apontado por análises críticas.

Influência ideológica: A elite e a classe média, muitas vezes aliada a ela, reforçam a lógica da meritocracia para justificar a desigualdade, ignorando as barreiras estruturais que impedem o avanço social das classes populares.

Visão colonialista: A mentalidade de parte da elite brasileira, descrita por alguns analistas como colonialista, prioriza o lucro e o investimento em ambientes que favorecem seus interesses, mesmo que isso signifique manter o país em uma condição de precariedade

E seguem seus preconceitos  de classe dominante no Brasil.

Confira a reportagem no UOL . https://noticias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/2026/10/08/nordeste-recebeu-27-milhoes-postagens-ofensivas-apos-eleicao-diz-pesquisa.htm

E assim caminha a humanidade.

Imagem do UOL .




on outubro 08, 2026 Nenhum comentário:
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Postagens mais antigas Página inicial
Assinar: Postagens (Atom)

Quem sou eu

Minha foto
Leandro Lúcio
Cursei Comunicação Social - Habilitação Jornalismo , nas Faculdades Integradas Alcântara Machado (FIAAM FAAM)
Ver meu perfil completo

Arquivo do blog

  • outubro 2026 (15)
  • setembro 2026 (55)
  • agosto 2026 (54)
  • julho 2026 (67)
  • junho 2026 (48)
  • maio 2026 (60)
  • abril 2026 (51)
  • março 2026 (48)
  • fevereiro 2026 (46)
  • janeiro 2026 (42)
  • novembro 2025 (65)
  • outubro 2025 (88)
  • setembro 2025 (93)
  • agosto 2025 (84)
  • julho 2025 (88)
  • junho 2025 (74)
  • maio 2025 (74)
  • abril 2025 (63)
  • março 2025 (59)
  • fevereiro 2025 (58)
  • janeiro 2025 (72)
  • dezembro 2024 (70)
  • novembro 2024 (58)
  • outubro 2024 (68)
  • setembro 2024 (65)
  • agosto 2024 (54)
  • julho 2024 (70)
  • junho 2024 (56)
  • maio 2024 (60)
  • abril 2024 (60)
  • março 2024 (63)
  • fevereiro 2024 (55)
  • janeiro 2024 (68)
  • dezembro 2023 (66)
  • novembro 2023 (69)
  • outubro 2023 (65)
  • setembro 2023 (57)
  • agosto 2023 (58)
  • julho 2023 (68)
  • junho 2023 (77)
  • maio 2023 (65)
  • abril 2023 (66)
  • março 2023 (77)
  • fevereiro 2023 (60)
  • janeiro 2023 (61)
  • dezembro 2022 (54)
  • novembro 2022 (43)
  • outubro 2022 (44)
  • setembro 2022 (34)
  • agosto 2022 (37)
  • julho 2022 (64)
  • junho 2022 (35)
  • maio 2022 (44)
  • abril 2022 (44)
  • março 2022 (37)
  • fevereiro 2022 (29)
  • janeiro 2022 (34)
  • dezembro 2021 (31)
  • novembro 2021 (39)
  • outubro 2021 (33)
  • setembro 2021 (44)
  • agosto 2021 (51)
  • julho 2021 (56)
  • junho 2021 (41)
  • maio 2021 (48)
  • abril 2021 (35)
  • março 2021 (55)
  • fevereiro 2021 (36)
  • janeiro 2021 (65)
  • dezembro 2020 (97)
  • novembro 2020 (62)
  • outubro 2020 (52)
  • setembro 2020 (45)
  • agosto 2020 (37)
  • julho 2020 (38)
  • junho 2020 (24)
  • maio 2020 (30)
  • abril 2020 (32)
  • março 2020 (25)
  • fevereiro 2020 (26)
  • janeiro 2020 (29)
  • dezembro 2019 (30)
  • novembro 2019 (38)
  • outubro 2019 (30)
  • setembro 2019 (31)
  • agosto 2019 (34)
  • julho 2019 (29)
  • junho 2019 (26)
  • maio 2019 (29)
  • abril 2019 (23)
  • março 2019 (25)
  • fevereiro 2019 (29)
  • janeiro 2019 (27)
  • dezembro 2018 (9)
  • novembro 2018 (19)
  • outubro 2018 (20)
  • setembro 2018 (8)

Marcadores

  • CaTR

Denunciar abuso

Pesquisar este blog

  • Página inicial

Elites . Atraso e Poder.

Postagens mais visitadas

  • Europa.
     O racismo na Europa é um problema persistente e, em algumas áreas, crescente, afetando desproporcionalmente imigrantes e minorias étnicas, ...
  • Portugal
                                                                                                                                                ...
  • Racismo Estrutural
      TÍTULO IV DA ORGANIZAÇÃO DOS PODERES CAPÍTULO I DO PODER LEGISLATIVO SEÇÃO I DO CONGRESSO NACIONAL Art. 44.  O Poder Legislativo ...
Tema Simples. Tecnologia do Blogger.