segunda-feira, 25 de maio de 2026

Escala 6 por 1.

  

O capitalismo é um sistema econômico, social e político predominante na maioria do mundo, que se baseia em princípios como a propriedade privada, a economia de mercado, a busca pelo lucro e o acúmulo de capital. 

Princípios Fundamentais

Propriedade Privada: Os meios de produção (fábricas, terras, ferramentas) são de propriedade de indivíduos ou empresas privadas, e não do Estado.

Busca pelo Lucro: O principal objetivo da atividade econômica é a geração de lucro, que é o capital que excede os custos de produção.

Economia de Mercado (Livre Concorrência): A produção e a distribuição de bens e serviços são reguladas pela lei da oferta e da procura. A concorrência entre produtores ajuda a regular os preços e a oferta.

Acúmulo de Capital: A riqueza (capital) é acumulada na forma de bens e dinheiro por indivíduos e empresas.

Divisão de Classes: A sociedade é estratificada em classes sociais, principalmente a burguesia (donos dos meios de produção) e o proletariado (trabalhadores que vendem sua mão de obra por um salário).

Não Intervenção Estatal (em teoria): Propõe-se que o Estado não deve intervir diretamente na economia, permitindo que o mercado se autorregule, embora na prática o grau de intervenção varie entre os países. 

O sistema capitalista passou por diversas fases ao longo da história, adaptando-se às realidades de cada época: 

Capitalismo Comercial (ou Mercantilismo): (Séculos XIV ao XVI) Focado no acúmulo de riquezas através do comércio, com forte intervenção do Estado e busca por balanças comerciais favoráveis (metalismo).

Capitalismo Industrial: Impulsionado pelas Revoluções Industriais, a produção em massa e a indústria tornaram-se o centro da economia.

Capitalismo Financeiro: Caracterizado pela predominância do capital financeiro (bancos, investimentos, bolsas de valores) sobre o capital produtivo, especialmente a partir do século 20. 

O capitalismo se opõe historicamente ao socialismo, que defende a coletividade e a distribuição igualitária da riqueza.

Confira a dissetração dos autores Valdir Damázio Júnior1 

Hanen Sarkis Kanaan2 

Juliana Niesborski

NEGACIONISMO CLIMÁTICO E 

OS INTERESSES DO CAPITAL

 reflexões sobre o projeto 

obscurantista e a atuação 

dos intelectuais

 Valdir Damázio Júnior1 

Hanen Sarkis Kanaan2 

Juliana Niesborski3

 1 Doutorando em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Mestre em Educação 

Científica e Tecnológica pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor do 

departamento de Matemática da Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC). E-mail: 

valdir.damazio@udesc.br 

2 Doutora em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Professora da rede pública 

estadual de educação de Santa Catarina no curso de magistério e ensino médio. E-mail: 

hanensc@gmail.com 

3 Doutoranda em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Mestre pelo Programa 

de Pós-Graduação em Rede Nacional para o Ensino das Ciências Ambientais pela 

Universidade Federal do Paraná Setor Litoral (UFPR). Professora da Prefeitura Municipal 

de Matinhos (PR). E-mail: juliana.niesborski@gmail.com 

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 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, edição especial

ResUMO:

 O presente trabalho analisa como as mudanças climáticas antropogênicas estão 

diretamente relacionadas às contradições presentes no modo de produção capitalista, 

destacando o papel da ideologia neoliberal e dos intelectuais orgânicos ao capital na 

ocultação dessa problemática. Argumenta-se que um projeto obscurantista, sustentado 

por pseudociências e falta de rigor ético e científico, busca minar a credibilidade do 

conhecimento científico contribuindo para a inércia social frente à crise ambiental. Com 

base nos escritos e estratégias de atuação de Gramsci, discute-se a função dos intelectuais 

na disputa pela hegemonia. Conclui-se que o enfrentamento ao obscurantismo exige 

uma crítica estrutural ao capitalismo e a formação de intelectuais orgânicos às classes 

subalternas capazes de iniciar um processo de transformação intelectual e moral da 

sociedade.

 Palavras-chave: Crise climática; Obscurantismo; 

Neoliberalismo; Intelectuais orgânicos.

 aBsTRacT: 

This paper analyzes how anthropogenic climate change is directly related to the 

contradictions present in the capitalist mode of production, highlighting the role of 

neoliberal ideology and organic intellectuals aligned with capital in concealing this 

problem. It is argued that an obscurantist project, supported by pseudosciences and 

a lack of ethical and scientific rigor, seeks to undermine the credibility of scientific 

knowledge, contributing to social inertia in the face of the environmental crisis. Based 

on Gramsci’s writings and strategies of action, the role of intellectuals in the dispute 

for hegemony is discussed. It is concluded that confronting obscurantism requires a 

structural critique of capitalism and the formation of organic intellectuals from the 

subaltern classes, capable of initiating a process of intellectual and moral transformation 

of society.

 Keywords: Climate crisis; Obscurantism; Neoliberalism; Organic intellectuals.

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 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, edição especial

inTROdUçãO

 Nesse trabalho destacamos que as mudanças climáticas 

antropogênicas não são apenas fruto de problemas de 

gestão ou descaso, mas estão diretamente relacionadas 

às contradições do modo de produção capitalista e aos interesses de 

classe. Dado as diretrizes de crescimento exponencial e de acumu

lação infinita de capital, capitalismo e degradação ambiental 

constituem dois polos de uma contradição insuperável internamente 

ao modo de produção capitalista.

 Diante disso, buscamos analisar algumas condições necessárias 

para que essa contradição seja ocultada enquanto raiz do problema, 

levando a letargia e inércia da população frente a tão relevante temá

tica. Consideramos que, na disputa pela hegemonia, a ideologia 

neoliberal necessita se valer de um projeto obscurantista que visa 

minar a credibilidade dos conhecimentos sistematicamente produ

zidos, essenciais para a atuação política no que diz respeito aos atuais 

desafios de nosso momento histórico.

 Um dos fatores indispensáveis para que o projeto em questão obscu

rantista tenha se desenvolvido nas últimas décadas é a constante 

atuação de intelectuais ligados aos interesses do capital. De acordo 

com Gramsci (2001), a atuação dos intelectuais é um elemento 

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 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

fundamental na captação do consenso das classes subalternas e na 

disputa pela hegemonia.

 Ainda que para Gramsci (2001), poderíamos dizer que “todos 

os homens são intelectuais”, uma vez que não é possível separar 

claramente atividade física e atividade intelectual, “[...] nem 

todos os homens têm na sociedade a função de intelectuais” 

(GRAMSCI, 2001, p. 18).

 No que diz respeito ao nosso tema em questão, a ocultação das contra

dições do capitalismo que levam ao aprofundamento dos problemas 

ambientais por meio de um projeto obscurantista, a atuação dos inte

lectuais nesse processo também exerce um papel fundamental. Nesse 

caso, os intelectuais que contribuem continuamente para o forta

lecimento do obscurantismo vão desde jornalistas, influenciadores 

digitais, políticos, cientistas, professores etc.

 O que chama a atenção nesse ponto específico é que dada a natureza 

da questão climática, a atuação de intelectuais atrelados aos inte

resses do capital só é possível mediante a falsificação e deturpação 

de conhecimentos científicos consolidados. Não raro, esse projeto 

obscurantista flerta com o negacionismo científico, com pseudo

ciências, com a perseguição a intelectuais comprometidos com o 

rigor científico e preceitos éticos, com perseguição às universidades 

e demais instituições produtoras de conhecimento e dados etc. 

Diante das características peculiares da atuação desses intelectuais 

e das dinâmicas contemporâneas de difusão de concepções obscu

rantistas, as contribuições de Gramsci sobre o papel dos intelectuais 

na desestabilização da classe trabalhadora tornam-se especialmente 

relevantes. Sua análise e denúncia do papel exercido por intelectuais 

na manipulação teórica como mecanismo para induzir letargia e 

ofuscar os antagonismos de classe oferecem um instrumental valioso 

para compreensão e combate ao projeto obscurantista em curso.

 É o caso, por exemplo, das análises de Gramsci referentes aos inte

lectuais lorianistas4, que se caracterizavam principalmente pela 

4 O termo lorianismo foi criado por Gramsci tendo como referência o pensador italiano 

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 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

“[...] falta de organicidade, ausência de espírito crítico sistemático, 

negligência no desenvolvimento da atividade científica, ausência 

de centralização cultural, frouxidão e indulgência ética no campo 

da atividade científico-cultural, etc.” (GRAMSCI, 2001, p. 257). Ou 

seja, um grupo de “[...]. intelectuais que não são rigorosos em suas 

pesquisas e em seus argumentos, nem quanto ao método e nem 

quanto à ética” (SCHLESENER, 2024, p. 131). 

Diante da atual necessidade de enfrentamento ao obscurantismo e 

aos intelectuais que contribuem para a hegemonia do capitalismo 

e de todo o desequilíbrio e destruição ambiental indissociável a 

esse modo de produção, acreditamos que as proposições feitas por 

Gramsci para combater os intelectuais lorianistas podem contribuir 

para pensarmos em formas de enfrentar o obscurantismo atual. Sua 

perspectiva, que passa em grande medida pela função social dos 

intelectuais, auxilia na reflexão sobre a formação de dirigentes e 

intelectuais organicamente ligados à construção de uma sociedade 

mais justa, igualitária e ambientalmente sustentável.

 a eMeRgência cliMáTica e a cOnTRadiçãO capiTal-naTUReza

 Os atuais problemas que envolvem a crise climática e seus desdo

bramentos políticos, econômicos, culturais e educacionais em suas 

múltiplas dimensões não podem ser vistos apenas como efeitos cola

terais e solucionáveis dentro da ordem estabelecida. Não se trata 

apenas de um processo que se desencadeia com o aumento das 

emissões de gases do efeito estufa que se iniciam com o processo de 

industrialização. Tal análise determinística desconsidera as dimen

sões econômicas, políticas e ideológicas envolvidas.

 Esse processo se intensifica ao longo do século XX e resiste 

em ter sua ordem alterada no século XXI, apesar do vasto 

Achille Loria (1857 - 1943). Gramsci foi bastante crítico da influência de Loria sobre os 

operários e sobre o partido socialista italiano, denunciando constantemente a falta de 

rigor metodológico e ético de Lori.

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 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

conhecimento científico das causas dos problemas e da urgente 

necessidade de tomadas de decisões que revertam as causas mate

riais (aparentes) do problema.

 O sistema capitalista, completamente baseado, desde a 

Revolução Industrial, em combustíveis fósseis, é o respon

sável pela crise ecológica atual, e, em particular, pela 

mudança climática. Sua lógica irracional de expansão e 

acumulação infinitas, desperdício de recursos, consumo 

ostentatório, obsolescência programada, produtivismo 

obcecado com a busca do lucro a qualquer preço, está 

levando o planeta à beira do abismo (LÖWY, 2021, p. 478).

 Assim, no modo de produção capitalista, a relação do capital com a 

natureza representa dois polos de uma contradição que impossibilita 

qualquer solução sustentável no que diz respeito à questão climática. 

Isto porque “[...] esse sistema impõe o crescimento exponencial, incita 

a destruição ambiental e destrói o tecido social enquanto aumenta a 

concentração de poder e riqueza” (HARVEY, 2022, p. 74).

 Dada a própria lógica do capital de maximização de lucros e de cres

cimento exponencial do capital, associado ao fato de que vivemos em 

um ambiente com uma quantidade finita de recursos, a reprodução 

das condições existentes torna-se uma tarefa impossível. 

Ou seja, 

operando em descompasso com a natureza, promove a 

destruição dos recursos naturais e evidencia um dese

quilíbrio entre a crescente necessidade de produção 

de mercadorias e a incapacidade do planeta de prover 

recursos naturais no mesmo ritmo para atender a essa 

demanda. (ARAÚJO; SILVA, 2021, p. 156).

 Assim, qualquer ação séria que colocasse o equilíbrio ambiental e 

o bem-estar das pessoas como prioridade seria uma real ameaça 

à reprodução do modo de produção capitalista. Por outro lado, 

enquanto as diretrizes de crescimento exponencial, maximização 

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 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

de lucros e a manutenção do poder e privilégios de uma minoria 

em detrimento do planeta e demais seres humanos permanecerem 

como hegemônicas, a degradação ambiental e humana seguirá seu 

curso como sacrifícios necessários à lógica do capital.

 A contradição entre capital e preservação ambiental nos coloca 

diante de uma importante questão: trata-se de uma contradição 

que, embora relevante, não compromete estruturalmente a dinâ

mica capitalista, permitindo sua continuidade; ou os problemas 

provocados pelas mudanças climáticas podem chegar ao ponto de 

inviabilizar a própria lógica de reprodução capitalista? 

Mesmo que exista a possibilidade (e os prognósticos científicos 

não são nada animadores) de que os problemas ambientais levem 

a uma desestruturação produtiva e social do que conhecemos, não 

podemos contar com o bom senso das elites (e do conjunto de inte

lectuais que representam os seus interesses) para que abram mão 

de seus privilégios. 

O atual estágio dos conhecimentos produzidos sobre a crise climá

tica já seriam mais do que suficientes para engendrar ações efetivas 

em um mundo em que a racionalidade e o bem comum fossem 

as diretrizes principais. Porém, por mais contraditório que possa 

parecer, racionalidade, bom senso e preceitos éticos não são os 

únicos elementos que influenciam a atuação de intelectuais em 

uma sociedade marcada pela divisão de classes e em constante 

disputa pela hegemonia.

 Em um modelo de produção onde o crescimento infinito e a maxi

mização de lucros são as diretrizes principais, mesmo ações ditas 

ecológicas e “preocupadas” com a preservação ambiental, oriundas 

de concepções teóricas e de intelectuais bem intencionados, mas não 

detentores do devido rigor científico, ético e metodológico, são postas 

a serviço da maximização de lucros no curto prazo e na manutenção 

dos interesses de classe. Isso porque “[...] todos os projetos ecoló

gicos e ambientais são projetos socioeconômicos (e vice-versa). Sendo 

assim, tudo depende do propósito dos projetos socioeconômicos e 

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 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

ecológicos: bem-estar das pessoas ou taxa de lucro?” (HARVEY, 

2022, p. 323). Portanto, qualquer movimento ecológico que pretenda 

ir “[...] além de uma política meramente cosmética ou de melhoria, 

deve ser anticapitalista” (HARVEY, 2022, p. 328). 

Löwy (2020, não paginado) destaca que ações como 

[...] ‘capitalismo verde’, ‘mercados de crédito de emissões’, 

‘mecanismos de compensação’ e outras manipulações da 

chamada ‘economia de mercado sustentável’ provaram ser 

completamente ineficazes. Enquanto a ‘ecologização’ está 

sendo feita a cada curva, as emissões estão disparando e a 

catástrofe está se aproximando rapidamente. 

Vivenciamos um cenário distópico em que, ao mesmo tempo em 

que preparam bunkers (MELLO, 2023) (ou sonham com fugas para 

Marte) para se protegerem de um possível colapso climático, as elites 

mundiais buscam formas de obter ainda mais lucros com as opor

tunidades abertas pelo colapso. Isto é um indício de que o capital 

[...] pode perfeitamente continuar a circular e se acumular 

sob condições de catástrofe ambiental. Desastres 

ambientais criam oportunidades abundantes para um 

‘capitalismo do desastre’ lucrar com prodigalidade. Não 

necessariamente a morte por inanição de pessoas expostas 

e vulneráveis e a destruição generalizada de habitats 

prejudicarão o capital (a não ser que provoquem rebelião 

e revolução), justamente porque grande parte da popu

lação mundial já se tornou redundante e descartável 

(HARVEY, 2022, p. 324).

 O aproveitamento das oportunidades pelo grande capital muitas 

vezes aparece travestido de uma “louvável” roupagem de anseio por 

mudança, como, defesa de uma economia verde, transição energética 

sustentável, utilização de produtos menos poluentes etc. Ou, então, 

se aproveitando diretamente dos efeitos do colapso ambiental como 

forma de destruição de capital fixo (com vidas humanas incluídas 

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 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

no processo) e início de novos ciclos de extração de valor na subs

tituição de tal capital.

 Com esse intuito, toda uma indústria da tragédia (ou capitalismo 

de desastre) começa a se estruturar. É o caso de empresas como a 

Alvarez & Marsal, que atuou, por exemplo, na recuperação de desas

tres como o furacão Katrina em New Orleans nos Estados Unidos 

no ano de 2005, Brumadinho (2019) em Minas Gerais e que firmou 

parcerias com a prefeitura de Porto Alegre após as cheias que asso

laram o estado do Rio Grande do Sul em 2024 (DIAS, 2024). Essa 

lógica de reconstrução traz junto a necessidade do aprofundamento 

das sempre infalíveis práticas neoliberais. 

Alves (2024) destaca que, entre as medidas de recuperação propostas 

pela Alvarez & Marsal na reconstrução de New Orleans, constam 

medidas de gestão alinhadas às diretrizes neoliberais, cortando 

gastos com serviços públicos como educação. Apenas em New 

Orleans foram demitidos mais de 7 mil professores com o intuito 

de tornar a gestão pública mais eficiente e abrir caminho para a 

privatização do sistema público. 

Ou seja, “[...] cidades onde há descontrole de serviços públicos ou 

devastação por tragédias naturais, viram laboratório para empresas 

privadas lucrarem com planos de recuperação” (ALVES, 2024, não 

paginado). Permitem a instalação de condições favoráveis para “[...] 

os urubus da crise criarem novas fronteiras de acumulação de capital – e implantarem as reformas e medidas antipopulares que tanto 

desejam” (DIAS, 2024, não paginado).

 Isto significa dizer que

 [...] o capital prospera e evolui por meio da volatilidade dos 

desastres ambientais localizados, que não só criam novas 

oportunidades de negócios, como também fornecem um 

disfarce conveniente para esconder as falhas do capital: a 

‘mãe natureza’, caprichosa, imprevisível e teimosa, é quem 

leva a culpa pelas desgraças que em boa parte são causadas 

pelo capital (HARVEY, 2022, p. 331).

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 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

Se por um lado a negação, inação ou a busca por vantagens diante 

dos problemas desencadeados pela crise climática que vivenciamos 

sejam totalmente compreensíveis como ações necessárias para a 

manutenção dos privilégios de classe e aos interesses do capital, o 

mesmo não ocorre na perspectiva das classes subalternas, as prin

cipais vítimas da degradação ambiental.

 Diante disso, existe uma necessidade em se negar as condições que 

possibilitem uma compreensão da atual situação, bem como o acesso 

aos conhecimentos que permitam uma avaliação do problema pelas 

massas subalternas. Tal ofensiva se dá por meio de um processo de 

difusão ideológica que se vale de ideias obscurantistas, descrédito 

sistemático do conhecimento científico, sucateamento das institui

ções científicas que estejam minimamente fora do controle direto 

dos interesses do capital e toda uma rede de desinformação estru

turada em torno das redes sociais digitais. 

É com o objetivo de pôr em circulação esse projeto obscurantista 

que uma rede de intelectuais dos mais variados setores busca operar 

junto às classes subalternas causando confusão e tentando impedir a 

tomada de consciência necessária para perceber as contradições do 

capitalismo no que diz respeito à sustentabilidade social e ambiental.

 OBscURanTisMO e desinfORMaçãO cOMO pROjeTO

 Se, como buscamos argumentar anteriormente, os interesses de 

classe e as diretrizes da lógica do capital são os responsáveis prin

cipais para a negação da realidade material e para a inação frente às 

mudanças necessárias, o que justifica a apatia das massas perante 

uma tragédia anunciada na qual serão os maiores afetados? 

Tal questionamento se torna ainda mais incompreensível quando 

presenciamos que ao invés de precisar recorrer a estruturas repres

sivas para conter as pressões populares por mudanças significativas, 

as elites contam com o consentimento popular. Tal consentimento 

se dá por meio da adoção de argumentos que implicam na negação 

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 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

dos problemas que nos afligem ou com um completo desconheci

mento do tema, independente da sua relevância.

 Retomamos o argumento apresentado anteriormente de que, caso 

medidas efetivas de mitigação e superação dos problemas climáticos 

fossem adotadas, isso implicaria em superar as próprias estruturas 

do capitalismo, dada a impossibilidade da resolução da contradição 

capital/preservação ambiental sem a superação das próprias condi

ções estruturais que levam a atual relação metabólica produção/

 natureza. Como aponta Schlesner (2024, p. 223),

 a violência contra as classes subalternas lançadas no 

desemprego e na miséria e na destruição do meio 

ambiente, o desprezo pelo conhecimento científico, a 

apologia à violência e a disseminação do ódio, são alguns 

dos problemas sociais a serem enfrentados.

 Diante disso, restam apenas medidas que não alterem as estru

turas do problema. Para isso, é necessário a criação de estratégias 

que não permitam que a contradição fundamental seja exposta e 

compreendida pelos bilhões de homens e mulheres interessados na 

manutenção de condições planetárias favoráveis à vida da espécie 

humana no planeta.

 É nesse sentido que a busca pelo consentimento passivo das massas 

passa pela instituição de um senso comum que busca materializar 

elementos da ideologia hegemônica e, para isso, a atuação dos inte

lectuais é essencial. Para Gramsci (1999), o senso comum trata-se de 

“[...] uma concepção do mundo absorvida acriticamente pelos vários 

ambientes sociais e culturais nos quais se desenvolve a individuali

dade moral do homem médio” (GRAMSCI, 1999, p. 114). 

No atual contexto social, o senso comum almejado e ideologica

mente construído para a manutenção do consenso passa por alguns 

pontos-chave. 1) A naturalização da ideologia neoliberal como única 

forma possível, inclusive interiorizando elementos neoliberais para 

a gestão da vida privada tais como, empreendedorismo de si, defesa 

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 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

da meritocracia etc.; 2) A utilização de fragmentos desconexos de 

questões científicas e técnicas, de modo a permitir a manipulação de 

ideias e conceitos, mas impedindo uma real apropriação dos funda

mentos necessários para a compreensão do conhecimento produzido; 

e 3) A utilização de pautas morais que sustentem maniqueísmos como 

bem e mal, nós e eles, amigos e inimigos etc. 

Com esse intuito se recorre à ação de intelectuais que contribuam 

para a manutenção de um permanente pânico moral, de funda

mentalismos religiosos, de elogios à segurança propiciada pela 

militarização da vida e, até mesmo, de concepções neofascistas, 

misóginas, machistas, entre outros.

 Como condição para a manutenção destes elementos ideológicos no 

senso comum, é necessário negar o acesso a um conjunto de saberes, 

práticas e conhecimentos que possibilitem a população a passagem 

do senso comum (conjunto de conhecimentos fragmentados e desco

nexos) para o bom senso5. Ou seja, impedir que se desenvolvam 

condições que possibilitem a percepção crítica dos problemas natu

rais e sociais e das possíveis soluções para os mesmos. Isso porque 

superar o senso comum significa superar uma visão de 

mundo fragmentária que, por suas condições, nos mantém 

vinculados ao saber dominante; implica, por suposto, 

compreender e criticar o instituído, elaborando um modo 

de pensar autônomo (SCHLESENER, 2024, p. 204).

 Ao negar o acesso a tais conhecimentos, objetiva-se também impedir 

que se desenvolvam intelectuais orgânicos que trabalhem em prol 

dos interesses das classes subalternas e que possam se tornar diri

gentes em um processo que vise a superação das contradições postas. 

A formação desses intelectuais e dirigentes é essencial para que 

haja uma mudança significativa nas posturas e ações referentes à 

crise climática, uma vez que a inação e a ocultação dos problemas 

5 Para Gramsci (1999, p. 98), o bom senso consiste no núcleo sadio do senso comum “[...] e 

que merece ser desenvolvido e transformado em algo unitário e coerente”.

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 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

é uma das condições necessárias para que se mantenham as atuais 

engrenagens de exploração natural e humana responsáveis pela 

reprodução do capitalismo. Nesse cenário, “[...] interesses econô

micos e políticos de uma classe social podem impulsionar ou cercear 

ou impedir a busca das verdades sobre a natureza, a sociedade, as 

relações entre sociedade e natureza etc” (DUARTE, 2022, p. 56).

 Podemos, desta forma, falar em um projeto político que se vale do 

obscurantismo para garantir os interesses de classe. Se, por um lado, 

temos a hegemonia do neoliberalismo como programa político, o 

obscurantismo em suas mais diversas manifestações (econômico, 

fundamentalismo religioso, científico etc.) torna-se condição 

necessária para a manutenção dessa hegemonia. Isto porque o “[...] 

neoliberalismo e o obscurantismo são duas faces da mesma moeda” 

(DUARTE; MAZZEU; DUARTE, 2020, p. 717). 

O obscurantismo se manifesta quando “[...] há um esforço delibe

rado para que o conhecimento não avance ou para que as pessoas 

não tenham acesso aos conhecimentos já existentes, ou seja, um 

esforço para a manutenção da ignorância” (DUARTE; MAZZEU; 

DUARTE, 2020, p. 731).

 Projetos políticos que se valem do obscurantismo buscam

 [...] eternizar relações de poder que são favoráveis a deter

minados setores da sociedade e, para isso, precisa difundir 

preconceitos sobre qualquer pessoa, grupo ou linha de 

pensamento que possa pôr em questão essas relações de 

poder (DUARTE; MAZZEU; DUARTE 2020, p. 732).

 Assim, a circulação de visões de mundo obscurantistas; o ataque 

sistemático ao conhecimento científico; o descrédito de instituições 

e intelectuais que fazem ciência; o boicote a uma educação pública 

e a manutenção de uma estrutura tecnológica que facilite a disse

minação de desinformação podem ser consideradas um projeto. 

Projeto este que tem por finalidade impedir o desenvolvimento das 

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 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

condições que permitiriam às classes subalternas a compreensão 

crítica da realidade em que estão inseridas.

 É importante destacar que “[...] a luta do obscurantismo contra o 

conhecimento é sempre uma luta política e socialmente reacionária, 

é uma reação à possibilidade de mudanças profundas nas estruturas 

e nas dinâmicas de uma sociedade” (DUARTE; MAZZEU; DUARTE, 

2020, p. 732). Tal ponto fica explícito se voltarmos à questão refe

rente às transformações necessárias ao enfrentamento dos desafios 

impostos pelas mudanças climáticas. 

Diversas estratégias são postas simultaneamente em ação com o 

objetivo de confundir deliberadamente a população e dar margens 

às convenientes ideias obscurantistas. São ações que visam desle

gitimar o conhecimento científico, dirigindo ataques às instituições 

produtoras de ciência e aos intelectuais comprometidos com o rigor 

ético e metodológico necessários à pesquisa científica, sob o argu

mento de que estão dominadas por ideologias que buscam minar as 

bases tradicionais da sociedade. 

Ou, então, pela tentativa de banalizar a ciência, buscando criar 

uma imagem de que o conhecimento científico se trata de uma das 

possíveis opiniões, igualando os conhecimentos sistematizados e 

rigorosamente desenvolvidos aos que circulam ao nível do senso 

comum. Ponto este que a atuação de intelectuais sem comprometi

mento ético e metodológico, “[...] sem preocupação com as evidências 

históricas ou mesmo com a veracidade dos fatos” (SCHLESENER, 

2024, p. 131), de forma muito similar aos intelectuais lorianistas 

combatidos por Gramsci (2001), é fundamental.

 Uma outra estratégia na disseminação do obscurantismo social 

que aprisiona as massas na ignorância e inércia, que é diretamente 

dependente da atuação de “novos lorianistas”, é a parodização do 

conhecimento científico. Tal ofensiva busca criar deliberadamente 

estratégias para que teorias da conspiração, pseudociências assim 

como interesses específicos de grupos sejam apresentados com uma 

roupagem científica e acadêmica. 

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 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

Trata-se de uma abordagem que não tem por objetivo incitar as 

pessoas a desacreditarem na ciência, mas sim de “[...] provocar a 

dúvida e a desconfiança sobre uma certa ciência, restrita a certos 

grupos de pesquisadores, em certas instituições que, de forma 

proposital, passam a ser associadas a certos ‘interesses escusos’” 

(GUIMARÃES, 2022, p. 3).

 Ao se aproveitar do contexto artificialmente produzido de polari

zação social que se baseia num constante embate do bem contra o 

mal, busca-se mimetizar, campos do conhecimento sistematizado 

apresentando o “outro lado” (o bem) da ciência. É o caso de “teorias” 

como o Design inteligente, em oposição a teoria da evolução em 

biologia (HENTGES; ARAÚJO, 2020, p. 4) e revisionismos histó

ricos como os realizados por plataformas como o Brasil Paralelo, 

se contrapondo a história ideológica esquerdista desenvolvida nas 

universidades (PICOLI; CHITOLINA; GUIMARÃES, 2020). 

Com esse intuito, são utilizados como critério de cientificidade para 

a defesa de interesses específicos e propulsão de desinformação, a 

seleção de cientistas sem o mínimo rigor e de estudos científicos 

específicos que validariam certas ideias ideologicamente conve

nientes. Quase sempre ideias sem nenhuma aceitação dentro da 

sistematização do conhecimento e do consenso científico. A margi

nalização destes cientistas se daria por conta de um complô de 

cientistas (do mal) em ocultar a verdade da população. 

Tal prática foi amplamente utilizada durante a pandemia de Covid-19 

com “estudos científicos” e intelectuais a serviço do projeto obscu

rantista (políticos, jornalistas, médicos, cientistas etc.) recomendando 

a utilização de medicamentos já amplamente tidos como ineficientes, 

como a cloroquina, e mesmo apresentando os perigos das vacinas 

enquanto propunham soluções como a “imunidade de rebanho”. 

Essa é uma estratégia recorrente também quando o tema são as 

mudanças climáticas antropogênicas. Na mídia ou em ações que 

buscam questionar a natureza antropogênica das mudanças climá

ticas são frequentes a participação de nomes como Ricardo Felício, da 

33

 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

Universidade do Estado de São Paulo e Luiz Carlos Baldicero Molion, 

da Universidade Federal de Alagoas, ambos sem relevância acadê

mica na área, mas tomados como grandes especialistas em bolhas de 

desinformação, conforme apontado por Miguel (2020) e por Pontes, 

Soares e Geraque (2023).

 Tais intelectuais, inclusive, estão diretamente relacionados a setores 

do agronegócio brasileiro (Miguel, 2022), muitas vezes interessados 

em negar os problemas ambientais e “passar a boiada” com relação 

às legislações ambientais. Ricardo Felício inclusive foi cotado para 

ser ministro do meio ambiente do governo Bolsonaro (Matoso, 2018).

 Diante do exposto, fica evidente a necessidade do combate aos 

intelectuais vinculados ao projeto obscurantista e ao negacio

nismo científico. Tais intelectuais, orgânicos ao neoliberalismo, 

são frequentemente alinhados a interesses políticos e econômicos 

e distorcem a ciência para promover agendas obscurantistas, colo

cando em risco vidas e o meio ambiente.

 cOnsideRações finais

 Como podemos inferir da análise precedente, qualquer problema 

decorrente das contradições internas ao modo de produção capita

lista não pode ser encarado de forma isolada. Por este motivo, pensar 

em soluções para a crise climática antropogênica atual implica 

perceber as múltiplas conexões econômicas, sociais, políticas, cultu

rais e ideológicas que permitiram a falha metabólica propiciada pelo 

modo de produção capitalista na relação dos seres humanos com o 

ambiente natural. Além disso, é fundamental a compreensão das 

condições que possibilitam o ocultamento dos problemas e a conse

quente inércia com relação a tomada de atitudes que objetivem suas 

resoluções, ponto este que está diretamente relacionado à atuação 

dos intelectuais.

 Nesse sentido, consideramos que as propostas e ações de Gramsci 

no combate aos danosos efeitos dos intelectuais lorianistas sobre 

34

 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

o movimento operário podem servir para pensarmos formas de 

enfrentamento ao projeto obscurantista em curso.

 Uma das ações propostas e colocadas em prática por Gramsci é o 

enfrentamento direto aos intelectuais que atuam junto às massas 

populares para causar confusão e gerar a apatia necessária a manu

tenção da ordem estabelecida. Durante o período que se dedicou à 

produção de escritos jornalísticos destinados aos operários, de 1915 a 

1926, por diversas vezes Gramsci dirigiu-se à figura de Achille Loria 

com o intuito de desmascará-lo perante os trabalhadores. Ou seja, 

mostrar a falta de rigor, a bizarrice de suas concepções, a natureza 

pseudocientífica de suas teorias etc. 

Não raras vezes, Gramsci recorria ao sarcasmo e a ironia para tentar 

despertar o bom senso dos operários com uma apropriada alfine

tada, com o intuito “[...] de criar a aversão ‘instintiva’ pela desordem 

intelectual, acompanhando-a com o senso do ridículo” (GRAMSCI, 

2001, p. 266). A atuação de Gramsci com relação a Loria e demais 

intelectuais lorianistas mostra a necessidade de se atuar junto às 

classes subalternas buscando desmascarar a falta de rigor, a falta 

de comprometimento ético e mesmo mostrar o ridículo que muitas 

concepções hoje defendidas representam.

 Porém, cabe ressaltar que a atuação de intelectuais orgânicos aos 

interesses neoliberais se dá no campo da disputa pela hegemonia e 

tem como objetivo conduzir 

[...] a grande massa da população a um determinado 

nível cultural e moral, nível (ou tipo) que corresponde 

às necessidades de desenvolvimento das forças produ

tivas e, portanto, aos interesses das classes dominantes 

(GRAMSCI, 2012, p. 288).

 Com esse intuito, um dos objetivos do projeto obscurantista é 

garantir a hegemonia cultural da ideologia neoliberal necessária 

à manutenção de um Estado neoliberal. Essa hegemonia permite 

a dominação, por meio de força e consenso, de corpos e mentes de 

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 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

modo a impor relações sociais e produtivas que sustentem o indi

vidualismo, a meritocracia e a responsabilização individual por 

problemas decorrentes das contradições do capitalismo. 

Ou seja, relações sociais e culturais que permitem a reprodução de 

um imaginário social que impede que as massas populares tomem 

consciência das contradições que alimentam a atomização social, a 

competitividade entre indivíduos e um eterno desejo irrealizável por 

consumo. Elementos essenciais para a reprodução da ordem esta

belecida e o agravamento da crise climática.

 Assim, conforme aponta Schlesener (2023, p. 299-300), a “[...] crítica 

à sociedade capitalista nas novas dimensões que assume a ideo

logia mostra que a luta pela cultura popular [...]” é um dos pontos 

fundamentais “[...] para a organização de movimentos sociais que 

proponham um caminho alternativo a esta sociedade”

 Por esse motivo, a construção das condições materiais capazes de 

fazer frente ao projeto obscurantista a serviço do capital passa pela 

formação de intelectuais orgânicos às classes subalternas capazes 

tornarem-se dirigentes num processo de reforma intelectual, moral 

e cultural da sociedade. Reforma esta que seja capaz de instituir rela

ções sociais solidárias, que rompam com o individualismo neoliberal. 

A atuação contra-hegemônica de intelectuais orgânicos ligados aos 

mais variados movimentos sociais pode contribuir para a criação de 

novas relações ético-políticas no âmbito da sociedade e da cultura, 

condição esta, necessárias para “[...] a construção de uma nova 

concepção de mundo articulada a uma mudança estrutural da socie

dade” (SCHLESENER, 2024, p. 56).

 É nesse ponto que as lutas por justiça social, o combate às causas da 

crise climática e a superação das contradições capitalistas revelam 

sua profunda interligação. Todas convergem na necessidade de 

transformações estruturais que englobam simultaneamente as 

esferas econômica, ética e cultural, exigindo um enfrentamento 

direto tanto ao projeto obscurantista quanto aos intelectuais que 

lhe dão sustentação teórica e política.

 36

 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

Esse enfrentamento, por sua vez, demanda a formação de dirigentes 

e intelectuais orgânicos às classes subalternas, que devem emergir 

dos diversos espaços de resistência frutos da organização popular.

 A formação destes intelectuais orgânicos

 [...] envolve tanto a perspectiva política de organização 

dos movimentos sociais pela qual se forma a consciência 

crítica e luta por transformações radicais, quanto os meca

nismos de educação que a sociedade oferece, entre eles, 

todo o sistema escolar (SCHLESENER, 2017, p. 33).

 Porém, é importante não perdermos de vista que não interessa a 

atual hegemonia neoliberal a aquisição por parte das massas popu

lares dos conhecimentos que possibilitem uma melhor leitura da 

realidade material e social em que estão inseridos. Muito menos 

o desenvolvimento de condições que permitam a formação de 

indivíduos autônomos e com pensamento livre, capazes de serem 

dirigentes num processo radical de transformação da sociedade.

 Portanto, a formação de intelectuais orgânicos ligados às classes 

populares não só se configura como uma resistência ao projeto 

obscurantista e aos intelectuais a ele associados, mas também se 

revela fundamental para a construção de alternativas à atual relação 

dos seres humanos com o ambiente natural. Essas alternativas 

são essenciais para enfrentar de maneira efetiva a crise climática 

de origem antropogênica, diretamente derivada das contradições 

inerentes ao sistema capitalista.

 RefeRências

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metabolismo social e sua ruptura no capitalismo: aspectos históricos e 

37

 Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial

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escritos de Gramsci. Ponta Grossa, PR: Uepg, 2024. E-Book. O artigo dos autores  Valdir Damázio Júnior1 

Hanen Sarkis Kanaan2 

Juliana Niesborski.

Há elação intrínseca entre o capitalismo e o negacionismo climático, na qual interesses econômicos e a lógica de acumulação de capital impulsionam a negação da ciência climática. 

Capitalismo e Crise Climática

Lógica de Lucro e Crescimento: O capitalismo, em sua busca por lucro e crescimento exponencial e ilimitado, baseia-se na exploração intensiva dos recursos naturais e na emissão massiva de gases de efeito estufa, principalmente pela queima de combustíveis fósseis.

Destruição Ambiental como Característica: A degradação ambiental não é um acidente, mas uma característica do modo de produção capitalista, que tende a destruir a natureza da qual a humanidade depende para gerar lucro.

 Muitos  argumentam que o crescimento econômico sustentado dentro de uma estrutura capitalista é incompatível com as mudanças sociais necessárias para mitigar os impactos climáticos. Soluções capitalistas são vistas como ineficazes para combater a raiz do problema. 

Proteção de Interesses Econômicos: O negacionismo climático não é sobre ciência, mas sobre proteção do grande capital . Ele serve como um projeto político e ideológico para proteger os interesses de classes dominantes  e setores econômicos (como a indústria de combustíveis fósseis e o agronegócio) que teriam muito a perder com a transição para uma economia de baixo carbono.

 O discurso capitalista visa a não compreensão  da crise climática, impedindo processos de governamentalização e a implementação de políticas ambientais eficazes que poderiam limitar a lucratividade de certas indústrias.

: O negacionismo busca criar uma falsa controvérsia sobre o consenso científico em torno das mudanças climáticas e seu caráter antropogênico (causado pelo homem), para manter o status quo e evitar a responsabilização do sistema econômico vigente.                      No Brasil, a escala 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso) surgiu como um desdobramento das leis trabalhistas consolidadas em meados do século 20. 

Abaixo, detalho as bases históricas e legais dessa jornada:

1. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) de 1943 

A escala está fundamentada na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), criada em 1º de maio de 1943, durante o governo de Getúlio Vargas. 

Descanso Semanal Remunerado (DSR): A legislação estabeleceu que todo trabalhador tem direito a pelo menos 24 horas consecutivas de repouso semanal, preferencialmente aos domingos.


Lógica da Escala: Para cumprir a carga horária máxima permitida na época, as empresas distribuíam o trabalho em seis dias, garantindo o sétimo dia de folga exigido por lei. 


2. A Constituição de 1988 e a Jornada de 44 Horas 

Com a promulgação da Constituição de 1988, a jornada semanal máxima foi reduzida de 48 para 44 horas semanais

Para acomodar essas 44 horas sem ultrapassar o limite diário de 8 horas, muitas empresas adotaram o modelo de 8 horas de segunda a sexta-feira e 4 horas aos sábados, completando o ciclo de 6 dias trabalhados antes da folga. 


3. Necessidade Setorial

A escala tornou-se o padrão em setores que operam ininterruptamente ou com alta demanda aos finais de semana, como: 

Varejo e Comércio: Supermercados e shoppings.


Serviços Essenciais: Hospitais e segurança.


Indústria: Linhas de produção que não podem parar. 


Debate Atual

Recentemente, a escala 6x1 tem sido alvo de intensos debates e propostas legislativas para sua extinção. 

Movimento VAT (Vida Além do Trabalho): Liderado por Rick Azevedo, o movimento ganhou força nas redes sociais criticando o desgaste físico e mental dessa jornada.


Propostas de Mudança: Em abril de 2026, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou a admissibilidade de PECs (Propostas de Emenda à Constituição) que visam acabar com esse modelo, propondo alternativas como a escala 4x3 ou 5x2 . E segue a exploração no grande Capital .

 .                     O centrismo é um posicionamento político que se situa entre a esquerda e a direita no espectro político. Sua principal característica é a defesa de uma postura moderada e equilibrada, buscando conciliar ideias de diferentes ideologias para encontrar soluções práticas. Aqui estão os pontos fundamentais para entender o centrismo:Conciliação de Valores: Centristas buscam equilibrar a justiça social e a igualdade (frequentemente pautas de esquerda) com a liberdade individual e o crescimento econômico pró-mercado (pautas de direita).Pragmatismo: O foco tende a ser em resultados práticos e evidências, evitando o que consideram "extremismos" ou "pureza ideológica".Moderação: Defende-se a manutenção da ordem democrática e a realização de reformas graduais, em oposição a mudanças revolucionárias ou reacionárias bruscas.Variações:Centro-esquerda: Inclina-se levemente à esquerda, com maior foco em bem-estar social e intervenção estatal moderada.Centro-direita: Inclina-se à direita, priorizando o livre mercado e o conservadorismo liberal.Centrismo Radical: Defende mudanças significativas no sistema, mas de forma pragmática e não ideológica. No contexto brasileiro, é comum a confusão entre o centrismo ideológico e o "Centrão". Enquanto o centrismo é uma filosofia de moderação, o "Centrão" refere-se a um bloco de partidos que se caracteriza mais pelo apoio ao governo vigente em troca de cargos e verbas do que por uma ideologia definida.                 Esses termos definem o espectro político com base em como diferentes grupos acreditam que a sociedade e a economia devem ser organizadas. Esquerda: Prioriza a igualdade social e a justiça coletiva. Geralmente defende uma maior intervenção do Estado na economia para garantir serviços públicos (como saúde e educação) e reduzir a desigualdade.Direita: Foca na liberdade individual, no livre mercado e na preservação de valores tradicionais. Tende a defender um Estado menor, com menos impostos e menos interferência na economia, acreditando que a competição gera crescimento.Centro: Busca um equilíbrio entre as duas visões. O centro politico ,tenta conciliar a eficiência do mercado com políticas de bem-estar social, adotando posturas moderadas e pragmáticas Confira a notícia na CNN Brasil .   https://www.cnnbrasil.com.br/politica/fim-da-escala-6x1-entenda-negociacao-para-definir-periodo-de-transicao/.

E assim caminha a humanidade. 

Imagem ; Site Outras Palavras. 


 


Elites .

   As elites brasileiras têm um papel central na manutenção da desigualdade social no país, que possui raízes históricas e se perpetua por meio de diversos mecanismos econômicos, políticos e culturais. A concentração de renda e poder, aliada a uma lógica extrativista e patrimonialista, contribui para um sistema que favorece uma pequena parcela da população em detrimento da maioria. 

Concentração de renda e riqueza

Domínio econômico: O 1% mais rico da população brasileira detém uma parcela desproporcional da riqueza, resultado de um sistema que permite o acúmulo de capital por meio de lucros e dividendos, enquanto a renda do trabalho cresce a um ritmo muito mais lento. Em 2024, um relatório apontou que 63% da riqueza do Brasil estava nas mãos de 1% da população.

Privilégios tributários: A elite se beneficia de um sistema tributário regressivo, no qual os impostos sobre o consumo (que afetam a população mais pobre) são mais altos que os impostos sobre grandes fortunas e lucros. Há evidências de que os 10% mais pobres pagam uma porcentagem maior de sua renda em tributos do que os 10% mais ricos. 

Raízes históricas e estruturais

Legado colonial: A desigualdade social no Brasil é um reflexo do passado colonial, com a influência ibérica, a escravidão e o sistema de grandes propriedades de terra (latifúndios) estabelecendo as bases para a concentração de poder e riqueza.

Racismo e exclusão: A elite, historicamente branca e de origem europeia, utiliza mecanismos culturais e morais para justificar a subordinação e a desumanização das classes populares, principalmente de negros e mestiços, perpetuando o racismo estrutural. 

Mecanismos de perpetuação

Controle político: As elites exercem grande influência sobre o sistema político, garantindo que as políticas públicas sejam favoráveis aos seus interesses. Isso inclui a oposição a políticas redistributivas, a transferência de renda e a taxação de grandes fortunas, como apontado por análises críticas.

Influência ideológica: A elite e a classe média, muitas vezes aliada a ela, reforçam a lógica da meritocracia para justificar a desigualdade, ignorando as barreiras estruturais que impedem o avanço social das classes populares.

Visão colonialista: A mentalidade de parte da elite brasileira, descrita por alguns analistas como colonialista, prioriza o lucro e o investimento em ambientes que favorecem seus interesses, mesmo que isso signifique manter o país em uma condição de precariedade. 

Confira o artigo do autor  Juber MarquesPacífico

RTIGOORIGINAL

 Ainfluência das elites na

 manutenção dasdesigualdades

 sociais no Brasil

 Juber MarquesPacífico1

 RESUMO:Opresente artigo tem como objetivo central analisar

 brevemente a trajetória das desigualdades sociais brasileiras,

 pensadas a partir de sua construção histórica e seu processo de

 naturalização por mecanismos de poder derivados da

 colonização do Brasil, levando em conta a perspectiva da

 dominação das elites e as formas com as quais essa classe

 conseguiu manter seus privilégios e a manutenção de uma

 estrutura social favorável aos seus interesses. A partir das obras

 Elite do atraso, de Jessé Souza, Revolução Burguesa no Brasil,

 de Florestan Fernandes e Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro,

 realizou-se uma revisão e elucidação de fatos históricos e dos

 aspectos sociais envolvidos na temática para apresentar o

 contexto que evidencia a relação direta entre o poder das elites

 e amanutenção das desigualdades sociais.

 PALAVRAS-CHAVE: Desigualdade Social; Elites; Jessé Souza;

 Florestan Fernandes; Darcy Ribeiro.

 Theelites and the maintenance of social

 inequalities in Brazil

 ABSTRACT: The main objective of this article is to briefly analyze the

 trajectory of Brazilian social inequalities, thought from its historical

 construction and its process of naturalization by mechanisms of

 power derived from the colonization of Brazil, taking into account the

 perspective of elite domination and the forms with which this class

 managed to maintain its privileges and the maintenance of a social

 structure favorable to its interests. From the works Elite do atraso, by

 Jessé Souza, Revolução Burguesa no Brasil, by Florestan Fernandes

 and Povo Brasileiro, by Darcy Ribeiro, a review and elucidation of

 historical facts and social aspects involved in the theme was carried

 out to present the context that evidences the direct relationship

 between the power of elites and the maintenance of social

 inequalities.

 KEYWORDS: Social Inequality; Elites; Jessé Souza; Florestan

 Fernandes; Darcy Ribeiro.

 1Mestrando em Ciências Sociais pela UFJF. Bacharel em direito pela UFJF e em Ciências

 Humanas/Ciências Sociais pela mesma instituição. Pós-graduado em Direito Constitucional.

 COMOCITAR:PACÍFICO, Juber Marques. A influência das elites na manutenção das desigualdades sociais no

 Brasil. In: Revista Ensaios, v. 20, jan.-dez., 2022, p. 21-35.

 21

1. Introdução

 A desigualdade social é tema presente nas grandes discussões das ciências

 sociais no Brasil, por ser indispensável na tentativa de se estabelecer balizas que

 possam nortear e evidenciar a trajetória social, econômica e cultural do país. O

 chamado pensamento social brasileiro, esforço empreendido por diversos autores

 como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro, Florestan

 Fernandes e, mais recentemente, Jessé de Souza, entre muitos outros, tentam refazer

 de maneira crítica a nossa história social.

 Notadamente, a partir do final do século XX, predominou a definição de

 desigualdade social relacionada à diferença entre as possibilidades de acesso e

 obtenção de bens socialmente valorizados. Entretanto, apesar de ser uma definição

 mais prática por ser um fator mensurável, não é a mais adequada, nem deve ser a

 única forma de encarar a complexa realidade que determina a desigualdade social

 como um fenômeno característico das relações da sociedade em todo o mundo.

 Segundo Costa (2019), é necessário pensar em quatro dimensões: desigualdade de

 quê, entre quem, quando e onde. Partindo dessa premissa, é necessário pensar a

 desigualdade social sob vários aspectos, como renda, raça ou acesso às oportunidades,

 uma visão multidimensional que envolve diversos ângulos da vida humana e que

 devem ser pensados de forma interdependente.

 Os diversos atravessamentos presentes na atual conjuntura social, econômica,

 cultural e simbólica, que acabam por afetar diretamente o indivíduo, atualmente

 ganharam ainda mais importância nas pesquisas sociológicas. Temas que outrora não

 ocupavam espaços de relevo nas discussões acadêmicas, hoje possuem

 relevância.Vejamos os inúmeros debates acerca das desigualdades ambientais, ou

 ainda as discussões sobre desigualdade de gênero em ambiente de trabalho– dois

 exemplos que apontam para uma sociologia coerente com as novas realidades.

 A compreensão dessas disparidades exige que se explore o contexto histórico

 de sua construção, os atores e as instituições que fizeram e fazem parte da estrutura

 social daí derivada, bem como analisar os discursos que buscam justificar a

 manutenção do status quo. Nesse ponto, pretende-se expor de que forma as elites, ao

 longo de uma empreitada histórica, criaram e naturalizaram a estratificação social para

 manter privilégios e propagar a ideia de inferioridade das classes vulneráveis, sem

 possibilitar que qualquer mecanismo abrisse portas para superar as desigualdades e

 modificar a estrutura social.

 Para adentrar nessa discussão, utilizou-se da metodologia de revisão

 bibliográfica, sendo de destaque as obras de três sociólogos brasileiros que

 contribuíram de maneira substancial para a temática e que tentam descortinar as

 causas e as possíveis soluções para a desigualdade no país: Jessé Souza, com A elite do

 atraso (2019), Darcy Ribeiro, com O povo Brasileiro (1995) e Florestan Fernandes, com

 22

A revolução burguesa no Brasil (2006). Tais obras apresentam certa afinidade na ideia

 de uma sociedade marcada por diferenças importantes entre as classes que a compõe,

 permitindo tal aproximação.

 2. Desigualdade social no Brasil

 NoBrasil, a disparidade social é caracterizada principalmente pela concentração

 de riquezas na mão de um seleto grupo, pelo preconceito racial, pela exploração do

 trabalho, pela escassa participação de boa parte da população nas decisões políticas,

 pela diferença no acesso e no nível educacional, dentre tantos outros aspectos que

 causam ou derivam desses fatores. E o resultado dessas disparidades é, de um lado, a

 exclusão, a limitação e vulnerabilidade; e, de outro, o oportunismo e o privilégio.

 Essas desigualdades sociais não surgiram da noite para o dia: elas refletem,

 necessariamente, processos históricos de longo prazo pelos quais a sociedade

 brasileira e tantas outras no mundo, ainda que com suas diferenças, já passaram. Sobre

 essa perspectiva, importa observar que, apesar de momentos e tentativas de

 diminuição e erradicação das desigualdades, existem interesses na sua manutenção e

 perpetuação na estrutura social, e não há perspectivas de grandes mudanças nesse

 quadro.

 Jessé Souza, em seu livro A elite do atraso, destaca que em países europeus, os

 quais os brasileiros normalmente admiram, também existe desigualdade social, mas

 “ela não é abissal como aqui” (SOUZA, 2019, p. 84). Segundo o autor, a diferença é que

 a Europa se preocupou em criar condições sociais mais homogêneas para todas as

 classes.

 Por outro lado, no Brasil, desde a colonização, tem sido naturalizado o

 fenômeno da desigualdade social como forma de manter a relação de distanciamento,

 preconceito e dominação das elites sobre as classes populares. Essa herança

 escravocrata não perpetuou apenas o preconceito e desigualdade relacionados à cor

 da pele, mas serve de pano de fundo para justificar as diferenças de classes daí

 decorridas. Porém, como bem pontua Souza (Ibidem), ao contrário da cor da pele, as

 classes podem ser modificadas e, por isso, deve-se prestar atenção nas “carências que

 reproduzem as misérias”.

 A condenação escravocrata, que outrora se relacionava à raça, passa a ser uma

 condenação de classe. O escravo brasileiro na atualidade é aquele que forma a classe

 trabalhadora, o que Souza (Ibid.) chama de “batalhadores”, os alvos da elite do

 dinheiro com suas raízes escravocratas. Nesse sentido, Felix (2017, p. 93) afirma que a

 manutenção da ralé, termo utilizado por Souza para se referir às classes mais baixas da

 pirâmide social brasileira, será resultado dos esforços das elites do país nos ataques aos

 seus direitos.

 23

Essencial salientar que, apesar de a escravidão ao longo da nossa história ter

 ganhado novas formas e instrumentos, a relação entre elites e classes trabalhadoras

 passa necessariamente pela questão racial. As elites brasileiras, detentoras do poder e

 do controle dos meios de produção, na visão marxista, ou aqueles que possuem acesso

 ao capital cultural, na concepção bourdieusiana, são os brancos. Aos negros sobram os

 empregos menos remunerados, limitação no acesso à cultura, e a vulnerabilidade em

 todos os sentidos.

 Analisando a obra de Souza, Felix (2017, p. 92) cita o impeachment da

 Presidente Dilma Rousseff como exemplo evidente do pacto entre os donos do poder

 para perpetuar uma sociedade cruel e forjada na escravidão. A reforma trabalhista que

 penalizou os batalhadores, a redução do poder de fiscalização do trabalho escravo e a

 limitação na divulgação da lista suja de empresas que praticam trabalho análogo à

 escravidão seriam alguns dos vários exemplos de um golpe empreendido pelas elites

 para a manutenção de seus privilégios.

 O processo de manutenção das desigualdades é longo e constante. Durante o

 período de urbanização no Brasil, manteve-se a estrutura de distribuição desigual de

 privilégios perpetrada pela aristocracia da época. Mais uma vez, a intenção de manter

 a divisão social não seria superada, pois não havia esse interesse, pelo contrário, havia

 a “tendência nítida de defesa do desnivelamento dos privilégios daquela aristocracia”

 (FERNANDES, 2006, p. 46).

 A Revolução Burguesa, que tinha o intuito de modificar a estrutura política e

 econômica do país enquanto colônia, também sequer levou em consideração modificar

 as condições da população mais vulnerável, mas apenas de uma minoria de

 interessados. Segundo Fernandes (2006, p. 50),

 as elites nativas não se erguiam contra a estrutura da sociedade colonial.

 Mas, contra as implicações econômicas, sociais e políticas do estatuto

 colonial, pois este neutralizava sua capacidade de dominação em todos os

 níveis da ordem social.

 Mais do que isso, era premente para essa elite a “consecução de dois fins

 políticos interdependentes: a internalização definitiva dos centros de poder e a

 nativização dos círculos sociais que podiam controlar esses centros de poder” (Ibid.).

 A industrialização, a implantação e expansão do capitalismo também foram

 fatores que contribuíram para manter e ampliar o liame da desigualdade social,

 intensificando a formação e divisão da sociedade de classes. É o avanço desses

 processos que ajudou a criar o que ainda se vê atualmente, uma “classe trabalhadora

 crescentemente precarizada e ameaçada pelo desemprego e por cortes de direitos”

 (SOUZA, 2019, p. 100). O discurso que tenta responsabilizar os trabalhadores pelas

 problemáticas econômicas do país parece naturalizado, sempre se pensa em cortar

 direitos dos trabalhadores quando se quer beneficiar ainda mais aqueles que já

 possuem privilégios.

 24

Essa crescente distância entre estratos sociais e a forma intencional com que os

 processos de avanço das estruturas socioeconômicas perpetuaram as desigualdades

 condicionaram as camadas mais altas da sociedade a enxergar a ralé, nas palavras de

 Jessé Souza, como uma ferramenta de trabalho para produzir e gerar lucro, oferecendo

 o mínimo dedireitos para que eles continuem a exercer seu papel,

 Nem podia ser de outro modo no caso de um patronato que se formou

 lidando com escravos, tidos como coisas e manipulados com objetivos

 puramente pecuniários, procurando tirar de cada peça o maior proveito

 possível. Quando ao escravo sucede o parceiro, depois o assalariado

 agrícola, as relações continuam impregnadas dos mesmos valores, que se

 exprimem na desumanização das relações de trabalho (RIBEIRO, 1995, p.

 212).

 A ideia de naturalização da desigualdade social deriva também da noção de que

 essa estratificação construída historicamente é resultado da sua adoção como um

 “negócio” que enobrece e privilegia uma elite, tornando-os dominadores, e que

 degrada e subjuga os demais, encarados como objeto de enriquecimento. Mesmo com

 avanços pontuais na melhora da vida dos mais vulneráveis, o Brasil não tem

 conseguido se estruturar para garantir à população condições favoráveis de

 sobrevivência e progresso. Pelo contrário, o que se intensifica são os privilégios de uma

 pequena camada preocupada exclusivamente com interesses próprios.

 A continuidade desse processo de construção e manutenção das desigualdades

 sociais ao longo da história do país resulta para a sociedade, como afirma Ribeiro, em

 “incompatibilidades insanáveis”, como “a incapacidade de assegurar um padrão de

 vida, mesmo modestamente satisfatório, para a maioria da população nacional; a

 inaptidão para criar uma cidadania livre” que expõe a fragilidade da base na qual foi

 construído o sistema democrático brasileiro (1995, p. 218). Inclusive, isso se reflete na

 política, na elegibilidade de representantes que muitas vezes se mostram adversários

 das classes populares, mas que conseguem manipular e comprar votos dessa massa de

 eleitores.

 Aperpetuação da desigualdade social e sua consequente naturalização também

 derivam da reprodução, da transmissão familiar de ideologias, recursos e perspectivas

 dentro das próprias classes sociais, que dificilmente se modificam ao longo da vida dos

 indivíduos que as integram. Ou seja, “o privilégio de uns e a carência de outros são

 decididos desde o berço” (SOUZA, 2019, p. 85).

 Para Jessé Souza (2019), a partir de 1930, a elite passou a utilizar um

 mecanismo construído de modo consciente e planejado para manter um “pacto

 antipopular” que mistura aspectos racionais, como manutenção dos privilégios, e

 irracionais, como ódio e ressentimento de classes. Por conta disso, é como se existisse

 uma “lei da desigualdade”, invisível e silenciosa, que dita quem pode e quem não pode

 ser rico, quem pode e quem não pode dominar na ordem social.

 25

Assim, o Brasil se vê dividido, basicamente, em três estratos sociais: a elite,

 composta por um pequeno número de pessoas mais ricas, a classe média, formada por

 boa parte da população, e a classe popular, que conta com um número relevante de

 indivíduos que vivem à margem da sobrevivência.

 Na visão de Ribeiro (1995), existem quatro classes, denominadas “classes

 dominantes”, “classe intermediárias”, “classes subalternas” e “classes oprimidas”. Essas

 classes não poderiam ser colocadas numa estrutura triangular, mas sim de um losango,

 com um topo finíssimo formado pela classe dominante, seguido por um número pouco

 maior da classe intermediária, um pescoço que se alarga, representando trabalhadores

 regulares e consumidores, e a linha mais ampla com a parte marginalizada da

 população, a classe subalterna.

 A classe dominante representa a mínima parcela da população e possui

 efetivamente o poder sobre a sociedade, inclusive devido ao “apoio” das outras classes

 (RIBEIRO, 1995). É aquela que, ao longo do tempo, possui o maior interesse em manter

 os traços da desigualdade social.

 Já a classe intermediária representa um quantitativo bem maior em relação à

 dominante, normalmente tendo o papel de apaziguar ou intensificar tensões sociais, já

 que possuem cargos que de alguma forma são relevantes socialmente, mas que,

 apesar disso, não se preocupam em mudar o quadro social, e sim manter a ordem

 vigente (Ibidem). Além disso, é a classe que mais ajuda a elite a se manter no poder e

 perpetuar as desigualdades sociais, inclusive tentando tirar vantagem disso.

 A classe subalterna e a oprimida formam a maior parte da população. A

 primeira integra a vida social regular, tem empregos estáveis, faz parte do sistema

 produtivo e consumerista, preocupando-se em defender o que já possui e obter mais,

 sem que isso necessariamente seja uma forma de transformação social. Por fim, a

 classe oprimida é o elo mais fraco da desigualdade social. Excluídos, que buscam fazer

 parte do sistema produtivo e ter acesso ao mercado, são marginalizados, grande parte

 julgados por sua raça (normalmente pretos e mulatos), com trabalhos informais e

 recebendo o mínimo para o próprio sustento (Ibidem).

 Com este panorama, é possível entender porque o maior enfoque da

 desigualdade social brasileira é voltado para as questões socioeconômicas. Como bem

 pontua Ribeiro, “a distância social mais espantosa do Brasil é a que separa e opõe os

 pobres dos ricos” (1995, p. 219). Isso porque a renda é um fator que automaticamente

 coloca os indivíduos como pertencentes a determinada classe e também os imprime o

 rótulo de privilegiados ou oprimidos. Daí deriva uma cadeia de processos que mantêm

 a “lei da desigualdade” em funcionamento, impossibilitando a ascensão da maioria da

 população e ratificando a institucionalização desse sistema desigual.

 26

3. Asdimensõesdasdesigualdades sociais no Brasil

 É importante compreender os mecanismos de poder presentes na sociedade

 brasileira que bloqueiam as formas de reação das classes dominadas e como elas

 ocorrem em meio a um país que sedizdemocrático. A base para a desigualdade social

 no Brasil foi formada por uma sucessão de atos e acontecimentos em favor da

 naturalização do sistema de dominação e elitização da democracia. Portanto, torna-se

 plausível estudar os discursos que buscam justificar e desmascarar a perpetuação das

 desigualdades sociais no Brasil.

 Dentre as proposições que justificam a desigualdade, cabe o relato daquelas

 que se referem à herança deixada pelo passado colonial brasileiro, à que expõe o papel

 do Estado e a influência da corrupção política, e a diferença e oportunidade de acesso

 à educação de qualidade.

 3.1. O passado que condena

 A trajetória dos estudos sociológicos no Brasil– notadamente construída ao

 longo do século XX por autores criticados por Jessé Souza, entre os quais Gilberto

 Freyre, Buarque e Faoro– criou um tipo de culturalismo racista, ancorando um

 pensamento sociológico de “vira-lata” e que muito desconhece as verdadeiras raízes

 do drama da desigualdade. Para Souza, é na escravidão submetida ao país que se

 apoiam as bases fundamentais da desigualdade social atual. A colonização é, portanto,

 responsável por estabelecer hierarquia entre colonos e colonizados, exploradores e

 explorados.

 A cultura colonizadora dos portugueses, a escravidão e a exploração são as

 raízes que desencadearam o processo histórico de práticas e princípios que geram a

 desigualdade no país. Conforme esclarece Lopez, esse discurso

 [...] associa a desigualdade atual à herança institucional e cultural do

 passado remoto. A cultura dos colonizadores portugueses ou nascida da

 escravidão é a raiz das práticas e valores que, hoje, geram as desigualdades.

 É assim que a associação entre conceitos sociológicos como colonização de

 exploração e patrimonialismo compõe o léxico das explicações das mazelas

 brasileiras atuais, neste caso, herdadas dos portugueses (LOPEZ, 2020, p. 59)

 A naturalização das hierarquias sociais derivadas do sistema de escravização do

 povo foi determinante para que fosse disseminado a indiferença social em relação aos

 pobres, o que Jessé Souza viria a denominar de “ódio ao pobre”. Esse sentimento aos

 mais humildes, construído ao longo do tempo pela escravidão, estabeleceu uma

 distinção clara entre “nós e eles”. Aos mais pobres cabe a reprodução do trabalho

 realizado por seus ascendentes há 500 anos, braçal e menos remunerado, uma

 escravidão doméstica. Pode-se concluir, portanto, que a escravidão só prosperou com o

 ódio ao escravo, e que o Brasil de hoje é marcado não só pela sua exclusão, mas

 também pela sua humilhação (SOUZA, 2017).

 27

Ainda que muito dessa desigualdade inicialmente tenha mudado, com parcela

 da população marginalizada conseguindo mobilidade social, com o reconhecimento da

 dignidade da pessoa humana e dos direitos fundamentais inerentes, as transições

 históricas pelas quais o Brasil passou jamais apagaram as desigualdades criadas

 anteriormente. Discursos racistas, a estrutura de dominação, humilhação e opressão

 escravocrata deixaram claros vestígios de ser a “herança maldita” que até hoje assola a

 população mais vulnerável da sociedade brasileira (SOUZA, 2019).

 3.2. O Estado e acorrupçãopolítica

 Por essa justificativa, o Estado teria a culpa sobre a desigualdade social no país

 devido à corrupção política perpetrada por seus agentes, governantes ou políticos. A

 administração estatal e as políticas públicas são utilizadas como ferramentas para

 desviar recursos públicos que deveriam ser direcionados a atender as necessidades do

 povo e, com isso, amenizar as desigualdades.

 Além disso, existe outro argumento que integra esse discurso e que está ligado

 à distribuição dos recursos para pagar e beneficiar os agentes do Estado. Segundo

 Lopez, “a variação do argumento é relacionar a desigualdade às remunerações e aos

 benefícios materiais do cargo político, percebido como via complementar para

 apropriação indevida de recursos públicos” (2020, p. 59).

 Ocorre que esse discurso já foi muito criticado, pelo fato de se considerar que

 essa corrupção deriva da herança cultural maldita deixada pelos portugueses, sem se

 pensar sobre outros agentes que atuam “silenciosamente” para interferir no Estado. É

 nesse ponto que se encaixa o termo justificativo para as mazelas políticas, o famoso

 “jeitinho brasileiro” de conseguir as coisas. Jessé Souza esclarece que esse termo se

 refere ao “capital social de relações pessoais”, que foi naturalizado devido à sua

 repetição e fácil explicação para as práticas sociais vantajosas. Assim, o termo se

 tornou tão comum, que passou a ser “pensado como algo generalizável para todos os

 brasileiros de todas as classes” (SOUZA, 2019, p. 86-87).

 A crítica do autor vem desmascarar justamente esse ponto. Os problemas do

 país seriam oriundos de seu processo de colonização que resultou na influência da

 elite, do setor privado e do mercado nas instituições. O chamado “jeitinho brasileiro”

 acaba por encobrir algo essencial na conclusão do raciocínio: a escravidão é a raiz das

 grandes disparidades existentes e responsável por impedir as transformações

 necessárias.

 Para Darcy Ribeiro, a lentidão dos processos revolucionários no Brasil é por

 culpa da resistência das classes dominantes, independente da estrutura arcaica e do

 atraso econômico que isso provoca.

 28

 A mais grave dessas continuidades reside na oposição entre os interesses do

 patronato empresarial, de ontem e de hoje, e os interesses do povo

 brasileiro. Ela se mantém ao longo de séculos pelo domínio do poder

institucional e do controle da máquina do Estado nas mãos da mesma classe

 dominante, que faz prevalecer uma ordenação social e legal resistente a

 qualquer progresso generalizável a toda a população. Ela é que regeu a

 economia colonial, altamente próspera para uma minoria, mas que

 condenava o povo à penúria. Ela é que deforma, agora, o próprio processo

 de industrialização, impedindo que desempenhe aqui o papel transformador

 que representou em outras sociedades (RIBEIRO, 1995, p. 250).

 Florestan Fernandes (2006), com o mesmo pensamento, afirma que, no período

 de transição para a independência brasileira, o Estado se mostrou desde o início como

 o alvo das elites e como uma entidade que poderia ser manipulável com vista à sua

 adaptação aos seus interesses econômicos, inclusive para implantação da política do

 liberalismo.

 Na fase de transição, as elites nativas encaravam o Estado, naturalmente,

 como “meio” e “fim”: “meio”, para realizar a internalização dos centros de

 decisão política e promover a nativização dos círculos dominantes; e o “fim”

 de ambos os processos, na medida em que ele consubstanciava a

 institucionalização do predomínio político daquelas elites e dos “interesses

 internos” com que elas se identificavam (FERNANDES, 2006, p. 53).

 Por outro lado, não seria possível perpetuar a tese de que essa corrupção do

 Estado é devido a uma transmissão cultural dos portugueses. Para Souza, isso é apenas

 uma construção fantasiosa do culturalismo racista que supõe uma “continuidade

 cultural com Portugal” que é transmitida de forma automática, como “um código

 genético”. Na verdade, os indivíduos são formados de acordo com as instituições que

 os rodeiam, como família, escola, economia, política e mercado (SOUZA, 2019, p. 39).

 É a partir dessa dominação e exploração mascarada do Estado pelas elites que

 surge a definição da política nacional como patrimonialista, isto é, o Estado brasileiro

 foi montado sob a imagem do homem cordial, que não distingue o público do privado.

 Este é o ponto em que o Estado é demonizado e o mercado poupado, como se deste

 nada de mal viria, porém, numa sociedade capitalista, quem detém o poder é

 justamente o mercado.

 Criticando a visão de Sérgio Buarque sobre esse patrimonialismo de uma elite

 derivada da herança portuguesa, Jessé Souza afirma que isso esconde a verdadeira

 elite do mercado que controla o aparato estatal, inclusive com poder de colocar sua

 chefia sob políticos que protejam seus interesses.

 Como a elite que vampiriza a sociedade está, segundo ele, no Estado,

 abre-se caminho [...] para uma concepção do mercado que é o oposto do

 Estado corrupto. Com isso, não só o poder real, do mercado e dos

 endinheirados, é tornado invisível, como o Estado é tornado o suspeito

 preferido [...] de todos os malfeitos. Essa ideia favorece os golpes de Estado

 baseados no pretexto da corrupção seletiva, mote que sempre é levado à

 baila quando o Estado hospeda integrantes não palatáveis pelo mercado

 ávido de capturá-lo apenas para si (SOUZA, 2019, p. 33).

 29

Nesse ponto, a corrupção do Estado passa a ser a corrupção do e para o

 mercado, tornada invisível para não mostrar os verdadeiros culpados, que manipulam

 legal e ilegalmente a máquina pública em favor dos seus interesses.

 Por outro lado, observa-se também a dificuldade que as classes mais oprimidas

 têm deinfluenciar nas decisões políticas as quais tendem a afetar seu próprio destino e

 concepções pessoais. Para Costa, isso se materializa justamente “nas distribuições

 assimétricas dos direitos políticos e sociais” (2019, p. 57).

 As classes vulneráveis, apesar de muito terem avançado em termos de

 conquista de direitos humanos, de cidadania, trabalho, entre outros, ainda

 permanecem à mercê de uma posição socioeconômica desigual, que não os permite

 uma proteção contra as mazelas que o sistema de poder criou para manter inacessíveis

 as oportunidades e privilégios. Esse quadro também é reflexo do sistema de educação

 brasileiro e da grande disparidade de qualidade entre o ensino público e privado, como

 será discutido no tópico a seguir.

 3.3. A disparidade entre níveis e oportunidades

 educacionais

 Em sua obra mais aclamada, O capital no século XXI, Thomas Piketty afirma que

 “No longo prazo, a força que de fato impulsiona o aumento da igualdade é a difusão do

 conhecimento e a disseminação da educação de qualidade” (2014, p. 29). As palavras

 do autor nos indicam que a educação ocupa lugar importante na determinação da

 desigualdade, pois é a partir dela que se vislumbra a possibilidade de mobilidade social

 e participação do mercado. Contribuindo com o tema, Lopez entende que a educação é

 um fator associado à empregabilidade e poder aquisitivo, pois a “educação é o meio

 para ampliar as oportunidades de emprego e renda” (2020, p. 60).

 O palco forjado para justificar as disparidades educacionais normalmente é

 relacionado à meritocracia, segundo a qual as posições sociais são resultado de

 conquistas pessoais dos indivíduos e não de fatores sociais externos. O argumento é

 aprimorado quando se diz que as pessoas deixam a escola por futilidades e desleixo,

 que não aproveitam as oportunidades que a vida oferece.

 Não é preciso ir muito longe para desmascarar esse discurso: veja-se a

 diferença entre a classe média e a classe oprimida. Geralmente, a primeira desde cedo

 é estimulada pela família a adquirir capital intelectual e focar nos estudos. Todo o seu

 tempo é dedicado àquilo que lhe permitirá o sucesso escolar e profissional, mantendo

 a cultura da sua classe, já que “todas as vantagens culturais e econômicas se juntam,

 mais tarde, para a produção, desde o berço, de um campeão na competição social”

 (SOUZA, 2020, p. 91).

 Por outro lado, a classe oprimida, em sua maioria constituída por uma família

 desestruturada, ainda que insista na educação como forma de escapar à pobreza, não

 30

é isso que a criança percebe, afinal, não funcionou para seus pais. Além disso, muitas

 dessas crianças ainda novas passam a trabalhar informalmente para complementar a

 baixa renda familiar e, consequentemente, não há prioridade para os estudos e para a

 formação crítica sobre sua realidade, o que impossibilita enxergar qualquer melhoria

 de vida. “São produzidos, nesse contexto, seres humanos com carências cognitivas,

 afetivas e morais, advindo daí sua inaptidão para a competição social” (SOUZA, 2019,

 p. 93).

 Sobre outra perspectiva, a desigualdade atrelada à educação se conecta ao

 quadro de corrupção do país, que reduz as oportunidades que poderiam ser criadas a

 partir de políticas públicas de qualidade, mas que, ao invés disso, sofrem com os

 desvios de recursos públicos e com o sucateamento das escolas e da educação pública.

 A disparidade dos níveis e da qualidade educacional entre classes podem explicar a

 desigualdade, mas esse problema resulta, em parte, por conta da corrupção política.

 Assim, sem conseguir mobilidade social, a classe oprimida continua pobre e

 vivendo à margem da sociedade, enquanto as classes mais abastadas podem pensar e

 moldar seu futuro, já que vivem se dedicando para obter conhecimento.

 À pobreza econômica foi acrescentada a pobreza em todas as outras

 dimensões da vida. Se a pobreza econômica, por exemplo, implica foco no

 aqui e no agora por conta das urgências da sobrevivência imediata, toda a

 atenção se concentra necessariamente no presente e nunca no futuro, posto

 que é incerto. Por outro lado, olhar para o futuro é o que constrói o

 indivíduo racional moderno, que sopesa suas chances e calcula

 constantemente onde deve investir seu tempo e suas habilidades. A prisão

 no aqui e no agora tende a reproduzir no tempo, portanto, a carência do

 hoje, e não a saída para um futuro melhor (SOUZA, 2019, p. 93).

 Isso condiz com a manutenção da desigualdade, pois a educação é um caminho

 para sua correção, e criar oportunidades de igualdade educacional seria um passo para

 romper com a estrutura social de dominação, distribuindo mais o capital econômico e

 cultural, o que não é desejável pelas elites.

 3.4. A concentração de riqueza e o sistema econômico

 A má distribuição de renda, com a concentração de maior parte das riquezas

 nas mãos de pouquíssimos e a maior parte da população tendo o mínimo para

 sobreviver, é mais um dos fatores que justificam a desigualdade social brasileira.

 Obviamente, mais renda significa melhor moradia, mais acesso à assistência médica,

 mais acesso à educação, lazer e tantas outras condições de vida melhores.

 Outrossim, o sistema econômico brasileiro foi sendo moldado e naturalizado à

 estrutura de classes derivada da sociedade colonial que, ao longo de seu processo

 histórico, foi firmando os obstáculos de ordem social, ideológica, política e cultural

 para impedir a mobilidade social das classes oprimidas. Isso se perpetuou e

 intensificou com a implantação e expansão do sistema capitalista desde a revolução

 burguesa que, conforme Fernandes, construiu uma ordem social provinda da opção

 31

dessa classe “por um tipo de capitalismo que imola a sociedade brasileira às

 iniquidades do desenvolvimento desigual interno e da dominação imperialista externa”

 (2006, p. 353).

 Esse é o mesmo sistema capitalista que ainda hoje preza pelo lucro acima de

 tudo e ao custo de explorar uma mão-de-obra barata, oprimida, miserável e resignada

 com seu destino, com a pobreza, com o desrespeito aos direitos e o tratamento

 desumano. Como bempontua Florestan Fernandes:

 Parece incrível que esse tipo de opressão sistemática possa existir nos dias

 atuais; e, mais ainda, que ela e os terríveis mecanismos de repressão a que

 precisa recorrer possam ser conciliados com os ideais igualitários, de

 respeito à pessoa humana, aos direitos fundamentais do homem e ao estilo

 democrático de vida” (FERNANDES, 2006, p. 353).

 Outro ponto é que o sistema econômico brasileiro legaliza políticas públicas que

 buscam diminuir as disparidades sociais, ao mesmo tempo que cria outras que as

 amplifica, tendo como exemplo, principalmente, políticas tributárias regressivas que

 pesam excessivamente sobre os pobres, mas que não afetam na mesma medida os

 ricos e ainda os beneficia.

 Evidentemente, isso pode ser associado ao que foi visto no tópico sobre o

 Estado e a corrupção política, pois, mais uma vez, o sistema econômico é corrompido e

 utilizado como um mecanismo de controle da estratificação social e da perpetuação da

 distribuição desigual da renda pelas classes dominantes que, notadamente, reflete nas

 outras esferas da desigualdade social.

 4. Aselites e seu papel sobre a desigualdade

 Uma coisa pode ser notada a partir do que foi dito até aqui: a elite aparece por

 qualquer ângulo que se estude a questão da desigualdade social no Brasil, e, além

 disso, consegue se tornar uma manipuladora invisível da “lei da desigualdade”. Sua

 denominação variou ao longo do processo histórico de construção da estratificação

 social: colonizador, senhorio, burguesia, elite etc., sempre aqueles que pertenciam às

 classes sociais mais altas e que detinham algum poder sobre a estrutura social vigente.

 É possível notar também que as instituições públicas, com destaque para o

 Estado, serviram de panaceia para encobrir as forças das classes dominantes sobre a

 estrutura social do país, que atuaram, além de escultoras de sua própria prosperidade,

 como “reitora do processo de formação do povo brasileiro. Somos, tal qual somos, pela

 fôrma que ela imprimiu em nós, ao nos configurar, segundo correspondia a sua cultura

 e a seus interesses” (RIBEIRO, 1995, p. 178). No mesmo sentido é a observação de

 Florestan Fernandes:

 32

 Dessa forma, as classes e os setores de classes burguesas podiam aproveitar,

 estrutural e dinamicamente, as vantagens de sua condição de minoria, ou

 seja, dos ‘pequenos números’, utilizando tais vantagens de modo consciente,

 deliberado e organizado. Essa concentração e essa centralização do poder

real processavam-se, simultaneamente, em dois níveis: o das relações

 diretas de classes; e o de dominação de classe mediada pelo Estado nacional

 (FERNANDES, 2006, p. 391).

 Para Jessé Souza, a elite que habita o Estado, apesar de possuir sua influência

 sobre o quadro social brasileiro, não é ainda aquela que dita as regras. Foi dada toda a

 atenção sobre o patrimonialismo para que se acobertasse a verdadeira corrupção. A

 lógica mercadológica capitalista e a verdadeira elite manipuladora estão fora do

 Estado: a mídia. A elite do atraso é, portanto, uma elite que controla as mídias e,

 através dela, manipula a classe média, movendo as peças do jogo político de acordo

 comseus interesses (SOUZA, 2019).

 Cabe ainda mencionar que a dominação da elite, na visão de Jessé de Souza,

 ocorreu, durante todo o seu processo, através da criação e propagação de ideias e pela

 força das instituições sociais. De umas décadas para cá, a principal ferramenta utilizada

 pela elite para manipular e distribuir essas ideias foi a mídia (programas de tv,

 imprensa, editoras, jornais etc.). Este seria o poder simbólico que esconde a

 responsabilidade da elite e de seus instrumentos, que ficam invisíveis e nunca são

 trazidos à luz, assim como deslegitima qualquer ação ou ideia que tenha a ver com

 demandas populares (Ibidem).

 Além da mídia, há um outro elemento que pode ser visto como mais uma

 vítima desse sistema, mas que também possui responsabilidade pela ampliação e

 manutenção da desigualdade social: a classe média (Ibid.). Ela que se apresenta como

 “capataz” da elite, se organiza, controla e difunde ideias e valores de vida, que também

 é manipulada pela mídia, que tem interesse de manter seus privilégios, eleger seus

 políticos e se incomoda com ampliação do acesso à cultura, ao lazer, ao ensino, à

 política, enfim, com a possibilidade de compartilhar oportunidades com menos

 desigualdade.

 Dessas conjunções e manipulações sociais, econômicas, culturais e políticas,

 derivam o atraso brasileiro em relação aos princípios de uma sociedade democrática,

 na qual a maior parte da população não tem, na realidade, a liberdade de ser ou ter o

 que quiser, senão indo contra todo um sistema montado para dificultar ou impedir que

 o faça. É interessante destacar o que aponta Darcy Ribeiro:

 O ruim aqui, e efetivo fator causal do atraso, é o modo de ordenação da

 sociedade, estruturada contra os interesses da população, desde sempre

 sangrada para servir a desígnios alheios e opostos aos seus. Não há, nunca

 houve, aqui um povo livre, regendo seu destino na busca de sua própria

 prosperidade. O que houve e o que há é uma massa de trabalhadores

 explorada, humilhada e ofendida por uma minoria dominante,

 espantosamente eficaz na formulação e manutenção de seu próprio projeto

 de prosperidade, sempre pronta a esmagar qualquer ameaça de reforma da

 ordem social vigente (RIBEIRO, 1995, p. 452).

 Assim, os traços de poder de uma minoria elitizada sempre irradiaram por

 todos os níveis de organização da sociedade, dependendo dela o avanço ou o colapso

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do sistema. Essa elite não quer, e não pode, sem se destruir, renunciar aos privilégios e

 vantagens do controle social, econômico, cultural e político, e do controle sobre as

 classes e instituições.

 5. Considerações finais

 O surgimento da desigualdade social no Brasil e seu processo de naturalização

 iniciou-se com a colonização do país e, consequentemente, com a escravidão. As elites

 conseguiram, ao longo da nossa história, fortalecer seus poderes e exercer cada vez

 mais influência sobre as instituições, das quais o Estado foi o principal alvo e

 ferramenta para manter o controle da ordem social e, mais tarde, para acobertar a elite

 em sua empreitada de manipulação da esfera pública em favor de seus próprios

 interesses e do mercado.

 Observa-se que a naturalização levou séculos, mas tem cumprido seu objetivo

 de manter a estratificação social e criar uma cultura de menosprezo sobre as classes

 vulneráveis. O desinteresse, e mais do que isso, a necessidade da distribuição desigual

 e injusta de educação, cultura, renda, trabalho, oportunidades e tantos outros fatores,

 ajudam na manutenção da desigualdade e criam a perspectiva de impossibilidade de

 mobilidade social.

 A mídia também é usada como ferramenta de propagação de ideias que

 atendam ao interesse da minoria dominante. Além disso, há o papel da classe média

 de atuar como intermediária entre a classe pobre e a elite, geralmente favorecendo

 aos interesses desta para manter os seus distantes daquela.

 O que se percebe é que são pouquíssimas as chances de reforma da ordem

 social vigente, já que, como demonstrado, a elite sempre esteve pronta para impedir

 qualquer ameaça a sua estrutura de poder e dominação sobre as demais classes. Essa

 seria a forma como funciona e prospera silenciosamente a evidente e histórica

 disparidade de classes que impede a construção de uma sociedade mais justa.

 Referências bibliográficas

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 marcos da revolução burguesa. Perspectivas: Revista de Ciências Sociais, v. 53, 2019.

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 Roberto Rocha C. (org.). Implementando desigualdades: reprodução de desigualdades

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 Ponto-e-Vírgula: Revista de Ciências Sociais, n. 22, p. 92-96, 2017.

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 Análise Político-Institucional (BAPI), n. 23, jun. 2020. Disponível em:

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 PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Tradução: Monica Baugarten de Bolle. 1. Ed.

 Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

 RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. 2. Ed. Curitiba:

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 RIZEK, Cibele Saliba. Jessé de Souza- A elite do atraso: da escravidão à Lava-Jato: À

 guisa de um debate. 2018.

 SILVA FERREIRA, Ricardo Bruno da; FERNANDES, Isabela Duarte. Onde os fracos não

 têm vez: a elite do atraso ou o atraso da elite. Teoria e Cultura, v. 13, n. 2, 2018.

 SOUZA, Jessé. A elite do atraso. 1. ed. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2019.

 SOUZA, Jessé. Jessé Souza: É preciso explicar o Brasil desde o ano zero. Entrevista

 concedida a Amanda Massuela. Revista Cult (online). São Paulo: Bregantini, 2017.

 Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/jesse-souzaisponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/jesse-souza-a-elite-do-atraso/.

 Acesso em: 14 set. 2021.. O artigo do autor  Juber MarquesPacífico.

As nossas elites. Também são pegas em malfeitos. 

                Bancos privados são empresas  controladas por capital particular que intermediam recursos entre poupadores e tomadores de empréstimos Suas auditorias funcionam como mecanismos de controle para garantir a integridade financeira, a conformidade com normas regulatórias e a proteção do sistema financeiro. Diferente dos bancos públicos (que pertencem ao Estado), os bancos privados buscam a maximização do lucro e são de propriedade de acionistas ou grupos familiares. Eles podem ser: Comerciais: Focados em depósitos à vista e crédito de curto prazo.De Investimento: Especializados em operações estruturadas e gestão de ativos.Múltiplos: Instituições que operam com diversas carteiras simultaneamente. As auditorias em bancos privados são divididas em frentes complementares para assegurar a transparência Auditoria Interna: Realizada por funcionários da própria instituição para monitorar riscos, avaliar controles internos e sugerir melhorias operacionais contínuas.Auditoria Externa (Independente): É obrigatória por lei e deve ser feita por empresas registradas na CVM ( Comissão de Valores Imobiliários ). O objetivo é validar se as demonstrações financeiras publicadas pelo banco são confiáveis e seguem as normas do Banco Central do Brasil (BCB) e do Conselho Monetário Nacional (CMN). O Banco Central atua como auditor externo final, fiscalizando o cumprimento das regras do Sistema Financeiro Nacional e a saúde financeira da instituição para prevenir crises sistêmicas.  Segundo a Mestra e Jornalista Carla de Oliveira Tozo , no Sexto Período da Habilitação em Jornalismo na Comunicação Social , pelas Faculdades Integradas Alcântara Machado ( FIAAM).Em  2026.A partir de janeiro de 2026, as auditorias bancárias devem observar a  Reforma Tributária, que tem alíquotas de teste para os novos impostos IBS e CBS, exigindo que os sistemas de auditoria e conformidade fiscal validem esses novos destaques nos documentos eletrônicos. Além disso, há uma tendência crescente para a auditoria de relatórios não-financeiros (ESG), com foco nas questões ambientais e sociais  . O caso do Banco Master requer seria investigação .              Os maiores escândalos e falcatruas envolvendo bilionários incluem fraudes contábeis astronômicas, esquemas de pirâmide, desvios no mercado de criptomoedas e crimes corporativos que levaram impérios à falência e magnatas à prisão. Abaixo estão os casos mais marcantes do Brasil e do mundo, organizados por categorias.Fraudes Contábeis e CorporativasCaso Americanas (Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira): Em 2023, a varejista brasileira Lojas Americanas revelou uma fraude contábil de mais de R$ 40 bilhões. O esquema envolvia a criação artificial de contratos de publicidade e operações de crédito mal contabilizadas com bancos. O trio de bilionários controladores enfrentou forte desgaste de imagem, embora tenham mantido suas fortunas e fechado acordos bilionários de capitalização para salvar a empresa.Eike Batista: O ex-homem mais rico do Brasil viu seu império de commodities (grupo EBX) desmoronar após promessas irrealistas de produção de petróleo na OGX. Ele foi condenado por crimes como manipulação de mercado e uso de informação privilegiada (insider trading), além de seu envolvimento em esquemas de corrupção investigados na Operação Lava Jato.Wirecard (Markus Braun): O ex-CEO bilionário da empresa alemã de pagamentos foi preso após auditorias revelarem que US$ 2 bilhões simplesmente não existiam no balanço da companhia. A farsa consistia em inflar artificialmente o volume de vendas por meio de transações fantasmas. O Mercado de Criptomoedas e Novas TecnologiasSam Bankman-Fried (FTX): Conhecido como "SBF", o jovem que acumulou bilhões com a corretora de criptomoedas FTX protagonizou um dos colapsos mais rápidos da história. Ele utilizou ilegalmente bilhões de dólares dos depósitos de seus clientes para financiar apostas de risco em seu outro fundo, o Alameda Research, e acabou condenado à prisão por fraude e lavagem de dinheiro.Elizabeth Holmes (Theranos): Embora seu patrimônio estimado em bilhões fosse baseado no valor de sua startup de exames de sangue, a Theranos provou-se uma fraude completa. Holmes enganou investidores de peso ao prometer diagnósticos complexos com apenas uma gota de sangue, tecnologia que nunca funcionou. Ela foi condenada e presa por fraude em massa. Bernard Madoff: O ex-presidente da Nasdaq operou o maior esquema Ponzi da história moderna, movimentando cerca de US$ 65 bilhões. Madoff usava o dinheiro de novos investidores para pagar os rendimentos dos antigos. O esquema ruiu na crise de 2008, e ele foi condenado a 150 anos de prisão.Allen Stanford: O ex-banqueiro bilionário vendeu bilhões de dólares em certificados de depósito fraudulentos através de seu banco em Antigua. Ele prometia retornos seguros e consistentes, mas utilizava o dinheiro para sustentar seu estilo de vida luxuoso e financiar negócios fracassados. Stanford foi sentenciado a 110 anos de prisão. Escândalos de Influência e Redes de PoderJeffrey Epstein: O financista construiu uma fortuna opaca e teceu uma rede de influência internacional que incluía diversos bilionários, políticos e celebridades. Ele utilizava sua proximidade com grandes empresários, como o magnata da moda Les Wexner, para gerenciar fortunas ao mesmo tempo em que operava uma rede global de tráfico sexual de menores. Epstein foi preso e morreu na cadeia antes do fim do julgamento. Confira a reportagem no UOL .    https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2026/05/25/ex-presidente-do-brb-mandou-apressar-operacao-com-master-e-maquiar-contas.htm.


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