domingo, 11 de outubro de 2026

Bets

 O governo federal proibiu as apostas de quota fixa no Brasil, as chamadas "bets", além de jogos online e cassinos virtuais (como o "Jogo do Tigrinho"). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma Medida Provisória (MP) que extingue a exploração, oferta, intermediação e publicidade

A decisão foi motivada pela preocupação com o endividamento e a inadimplência das famílias brasileiras. Novas apostas e depósitos já estão bloqueados, e o setor tem até o dia 5 de outubro para encerrar as atividades publicitárias e de patrocínio.

 Cronograma de Retirada do Dinheiro

Até 5 de outubro (23h59): Prazo final para os apostadores sacarem voluntariamente os saldos diretamente nos sites e aplicativos das bets.

7 e 8 de outubro: As empresas deverão repassar aos bancos os valores vinculados ao CPF de cada cliente.

9 a 14 de outubro: Os bancos efetuarão a devolução automática do saldo aos usuários que não realizaram o saque voluntário.

A partir de 14 de outubro: Caso haja algum problema ou impedimento na devolução bancária, a Caixa Econômica Federal intermediará os resgates.

O veto total gera um forte impacto financeiro no esporte nacional, pois 14 dos 20 clubes da Série A do Brasileirão perdem o patrocínio máster de suas camisas. Estima-se que os clubes deixem de arrecadar cerca de R$ 910 milhões em contratos que estavam ativos. Além disso, grandes empresas do setor analisam ir à Justiça para tentar reaver os R$ 2,5 bilhões pagos ao governo federal pelas outorgas de funcionamento emitidas recentemente.

"Bets" significa "apostas" em inglês (derivado do plural da palavra bet ou do verbo to bet, que significa apostar). No Brasil, o termo passou a ser amplamente utilizado para se referir às plataformas e casas de apostas online, focadas em palpites esportivos ou jogos de cassino virtual.

Refere-se aos sites e aplicativos onde usuários colocam dinheiro real em eventos com resultados incertos (como jogos de futebol, basquete ou e-sports) sob o modelo de quota fixa. O mercado dessas empresas no Brasil passou por intensas transformações de mercado e debates sobre regulamentação nos últimos anos.

Em várias regiões do Brasil, bets (ou betes, taco, bets-lousi) é o nome de um jogo tradicional de rua jogado em duplas. Inspirado no críquete, o objetivo principal é derrubar a "casinha" (geralmente uma garrafa pet ou lata) do adversário usando uma bola, enquanto a dupla defensora tenta rebater a bola usando bastões (tacos).

As apostas online (bets) destroem famílias ao comprometer a renda básica, gerar endividamento extremo e provocar o adoecimento mental dos apostadores.

Destruição do Orçamento: Recursos essenciais para alimentação, moradia e contas básicas são desviados para as plataformas de apostas. Estudos indicam que bilhões de reais de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, acabam comprometidos por esses gastos.

: O vício em jogos é classificado como um transtorno em que a pessoa perde o controle sobre o ato de apostar, mesmo enfrentando graves prejuízos financeiros e familiares.

Crises Emocionais e Conflitos: A perda de dinheiro gera episódios frequentes de ansiedade, irritabilidade, mentiras, quebra de confiança e isolamento, culminando muitas vezes no rompimento dos vínculos familiares.

Aumento da Desigualdade: O endividamento atinge de forma mais severa as famílias de menor renda, aprofundando a vulnerabilidade social e a pobreza.

OS IMPACTOS DOS JOGOS

DE AZAR NA

CONTEMPORANEIDADE E A

EFETIVAÇÃO DE DIREITOS

FUNDAMENTAIS: UMA

ANÁLISE SOBRE SAÚDE,

DIGNIDADE E

VULNERABILIDADE SOCIAL

THE IMPACTS OF GAMBLING ON CONTEMPORANEITY AND THE

REALIZATION OF FUNDAMENTAL RIGHTS: AN ANALYSIS OF HEALTH,

DIGNITY AND SOCIAL VULNERABILITY

Ciências Sociais Aplicadas 06/12/2025

•

REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.17836286

Manuelly Bandeira Sousa1

Marcius Vinicius Fonseca Araújo1

Kaio Borges Silva1

Gerdeson Kauan Gomes Silva1

Cliciano Vieira da Silva2

RESUMO

Os jogos de azar, como o famoso fortune tiger, foram elaborados

com o intuito inicial de induzir ao vício. Baseado em evidências

científicas, os jogos de apostas possuem um padrão inicial de

ganhos fáceis em conjunto com estímulos sensoriais e a falsa ilusão

de “quase ganho” ou de recuperar o que foi perdido apostando. As

casas de apostas, atualmente, se tornaram um fator de exploração

de vulnerabilidades, tanto socioeconômicos quanto emocionais,

dado que tais estímulos afetam o sistema dopaminérgico

mesolímbico que enganam o cérebro com a falsa sensação de

micro-recompensas, contribuem com comportamentos impulsivos

decorrentes da imersão aos jogos e, consequentemente, com a

ludopatia. Essa condição tem corroborado com questões onde há

manipulação do sistema cognitivo do indivíduo, com o aumento de

pessoas endividadas no Brasil e comportamentos quase obsessivos

em jogar, em uma dependência comportamental, onde as pessoas

veem tal atividade como método de refúgio mas não é nada mais

do que uma forma de levar ao dilapidamento compulsivo do próprio

patrimônio. O presente artigo busca analisar os impactos dos jogos

de azar na contemporaneidade, aprofundando-se  na relação de tais

jogos com a perpetuação e o aumento da desigualdades e

vulnerabilidade da população, assim como a violação de princípios e

direitos assegurados pela Constituição, como o direito à saúde, ao

mínimo existencial e ao princípio da dignidade da pessoa humana.

Uma atividade que inicialmente seria uma fonte de lazer ou de

renda extra, se tornou uma febre causadora de adoecimento

psíquico, endividamento e ao aumento da prodigalidade, um dos

principais motivos pelo qual tantas famílias estão na miséria

atualmente, configurando violação da dignidade humana. Dessa

forma, evidencia-se que os jogos de azar afetam diretamente a

saúde mental, a autonomia financeira e a estabilidade familiar,

demonstrando que sua expansão representa um desafio social

crescente, exigindo atenção e compreensão aprofundada.

Palavras-chave: Jogos de azar; violação da dignidade da pessoa

humana; dependência comportamental; ludopatia; vulnerabilidade

socioeconômica.

ABSTRACT

Gambling, such as the famous fortune tiger, were elaborated with

the initial purpose of inducing addiction. Based on scientific

evidence, betting games have an initial pattern of easy winnings

together with sensory stimuli and the false illusion of "almost gain"

or recovering what was lost betting. Bookmakers have currently

become a factor in the exploitation of vulnerabilities, both

socioeconomic and emotional, given that such stimuli affect the

mesolimbic dopaminergic system that deceive the brain with the

false sensation of micro-rewards, contribute to impulsive behaviors

resulting from immersion in games and, consequently, with

ludopathy. This condition has corroborated with issues where there

is manipulation of the individual's cognitive system, with the

increase in indebted people in Brazil and almost obsessive behaviors

in gambling, in a behavioral dependence, where people see such

activity as a method of refuge but it is nothing more than a way to

lead to the compulsive dilapidation of one's own heritage. This

article 

seeks to analyze the impacts of gambling on

contemporaneity, deepening the relationship of such games with

the perpetuation and increase in inequalities and vulnerability of the

population, as well as the violation of principles and rights

guaranteed by the Constitution, such as the right to health, the

existential minimum and the principle of human dignity. An activity

that would initially be a source of leisure or extra income, has

become a fever causing mental illness, indebtedness and increased

prodigality, one of the main reasons why so many families are

currently in misery, constituting a violation of human dignity. Thus, it

is evident that gambling directly affects mental health, financial

autonomy and family stability, demonstrating that its expansion

represents a growing social challenge, requiring attention and in

depth understanding.

Keywords: Gambling; violation of the dignity of the human person;

behavioral dependence; gambling addiction; socioeconomic

vulnerability.

1. INTRODUÇÃO

1.1. Expansão dos Jogos de Azar e Acesso Facilitado Pela

Tecnologia

No decorrer das décadas mais recentes, os jogos de azar passaram

por um processo globalizador e transformação imersiva, muito se

deu pelo avanço tecnológico e pela popularização da internet que

teve seu acesso mais democrático nos últimos tempos, onde

independente da classe social, o seu acesso tem por ser mais fácil,

seja em seu próprio ambiente domiciliar, seja nos locais laborais da

população ou em ambientes públicos, podendo ser praças públicas,

restaurantes e escolas. Além disso, o mundo das apostas limitados à

máquinas de azar localizadas desde uma ambientação de bar ou até

grandes salões de jogos, sendo eles presentes em grandes

metrópoles ou grandes hotéis, sendo um grande exemplo a cidade

de Las Vegas, no deserto de Mojave, no Estado de Nevada nos

Estados Unidos da América. Conhecida por ser a “Cidade dos Jogos”,

onde milionários e uma demasia de turistas apostam a cada

instante, com a chance de ganhar tudo ou perder tudo, muitas vezes

movidos pelo vício que se instaura em pouco tempo no de decorrer

do jogo, oportunizado pelas ilusões de prosperidade por meio do

jogo e receio de sair do recinto envergonhado, com o seu financeiro

comprometido por apostas fúteis que somente elevam o seu ego

momentaneamente, trazendo ao seu psicológico o sentimento de

frustração e o despertar de realidade que era apenas uma ilusão.

Os jogos não surgiram de hoje, desde antiguidade há registros de

jogos e rituais envolvendo apostas. Até mesmo na Grécia e na Roma

antiga haviam relatos de jogos utilizados como forma de

entretenimento. No entanto essas formas de entretenimento não

eram associadas à miséria do ser humano. O primeiro registro de

casas clandestinas de jogos surgiu na idade média, que mesmo

sendo abominado pela igreja católica e pelas autoridades,

continuaram a se propagar, buscando formas de se esquivar da lei

para continuar com suas atividades.

No início do século XX, surgiram os primeiros cassinos e, embora

abolidos do Brasil até os dias atuais, com a evolução da internet e

das redes sociais, as maneiras das pessoas terem acesso a esse tipo

de jogatina também evoluiu. Foi quando surgiram, no final do século

XX, os primeiros boatos de cassinos virtuais e, por conseguinte, a

popularização das apostas esportivas, dos slots e do famoso jogo do

“Tigrinho”.

1.2. Divulgação Massiva, Influência Digital e Impacto em Pessoas

Vulneráveis

Durante toda a história da evolução do ser humano os indivíduos

buscavam uma forma de alcançar o prazer, o que se tornou possível

pela excitação decorrente a inibição do sistema dopaminérgico,

liberado pelos jogos e pela ilusão de uma possível recompensa, bem

como a facilidade de acesso na sociedade hodierna. Com o avanço

tecnológico e a evolução das casas de apostas isso se tornou

bastante acessível, principalmente com a alta gama de divulgações

por Digital Influencer’s. Ao entrar no Instagram, por exemplo, é

comum que dentre cinco stories publicados por “influenciadores”

digitais, três serem de divulgação de jogos de aposta, onde os

mesmo convidam os seus seguidores a apostar ou jogar; links de

acesso para cassinos on-line e para jogos que dependem puramente

da sorte, bem como cupons, que permitem um certo desconto

ilusório. Alguns influenciadores divulgam em suas redes sociais. E, as

vezes até chegam a jogar, mas em um tipo de conta diferente das

que divulgam.

As contas “demo” são plataformas que simulam a jogatina e

propaga a ilusão do ”ganho fácil”, tendo em vista que, nessas contas,

não há perdas reais, somente ganhos elevados como maneira de

atiçar o interesse das pessoas, independentemente da sua cor,

classe social, gênero ou região geográfica. No entanto, pesquisas

apontam que cerca de 80% da população brasileira gastam até

R$100, sendo ela em sua maioria pessoas de baixa renda (CNN,

BRASIL, 2025). O intuito desse artigo não é atacar tais

influenciadores, mas sim, demonstrar como algo que chega a ser

banal para eles podem afetar tão drasticamente a vida de uma

pessoa, principalmente pessoas sem nenhuma fonte de renda, que

buscam uma forma de ganhar dinheiro facilmente ou a retirada do

sufoco financeiro, ocasionado, muitas vezes, por boletos vencidos,

cobranças, e apostas compulsivas . E é justamente essa a ilusão

proposta das casas de apostas. Além disso, é de suma importância

mencionar, a fim de demonstrar a que ponto pessoas com ludopatia

ou Transtorno de jogo podem chegar, que pessoas portadoras de tal

patologia tendem a cometer atos ilícitos para manter o seu vício de

desenfreado em jogar (MENDIETA; QUEIROZ, 2024).

1.3. Aspectos Neurológicos dos Jogos: Dopamina e Compulsão

Nos jogos de azar, as bancas têm como principal instrumento a

combinação de cores, ou seja dos estímulos visuais, da música e

sensação de quase ganho. E isso não é por acaso. Com a repetição

das atividades ao jogar, dopamina aumenta, assim como as

expectativa nas apostas em conjunto com a busca de recompensa,

que é quando ocorre o controle inibitório do córtex préfrontal

ventromedial, que é a área do cérebro responsável pela tomada de

decisão e pelo controle de impulsos. Com a inibição dessa área, as

pessoas ficam sujeitas à busca do prazer imediato, não calculando

suas perdas ou consequências, mas sim priorizando a satisfação

comportamental compulsiva (CLARK; LAWRENCE; SAHAKIAN, 2009).

1.4. Consequências para a Saúde, Impactos Acerca da Dignidade

e a Ausência de Políticas Públicas

A saúde, enquanto via de direito fundamental, é um dos primeiros

campos afetados. A OMS – Organização Mundial de Saúde 

reconhece, desde 2018, a Ludopatia, que é caracterizada pelo desejo

incontrolável em jogar, em continuar jogando. Ela ocorre assim

como o vício em cigarro e álcool, mas nesse caso, a busca ocorre

pela sensação que as apostas causam no cérebro (Poliana Casemiro,

G1, 2024).

Ademais, a jogatina tende a comprometer a estabilidade emocional,

desencadeando quadros de ansiedade, depressão e estresse em

níveis extremos, além de gerar prejuízos que reverberam

diariamente no seio familiar e em sua qualidade de vida, já desde o

pináculo quebrando direitos fundamentais, onde o lazer também se

torna perturbação. Ao mesmo tempo, apesar desses riscos, muitos

jogadores não possuem acessos a políticas públicas que venham a

prestar acessória que sejam eficazes e que ofereçam apoio ou

tratamento adequado. Isso levanta a questão sobre a

responsabilidade do Estado diante da expansão dos jogos de azar e

sua negligência, desde o decorrer do vício e ações de prevenção,

educativas e assistenciais que realmente promovam a dignidade da

pessoa humana e a saúde integral das pessoas expostas a essa

prática.

Com os padrões pensados e elaborados para que as pessoas

desenvolvessem o vício e consequentemente uma doença que afeta

em todos os âmbitos da vida desses indivíduos – principalmente

familiar e sócioeconômica – também surgem questionamentos se

esses jogos não violam o direito à saúde, à dignidade da pessoa

humana e ao mínimo existencial, pois segundo o TCU, foram

identificado que beneficiários do Bolsa Família transferiram cerca de

R$3,7 bilhões para jogos on-line em janeiro de 2025 (BRASIL, TCU,

2025). Pessoas de baixa renda e em estado de fragilização, que são

beneficiadas por um programa que tem um intuito minimizar a

desigualdade, de promover mesmo que minimamente condições

dignas de vida – como acabar com a fome e reduzir pobreza – , são

os principais alvos das bancas de aposta, assim como pessoas

desempregadas e endividadas que, por conseguinte, se tornam

sujeitas a comprometer a sua moradia, as despesas dos seus filhos e

familiares ou até mesmo suas próprias, bem como o seu sustento.

Em uma pesquisa do Serasa em parceria com o Instituto Opinion

Box, mais de 40% de pessoas inadimplentes no Brasil já buscaram os

jogos de aposta como alternativa de ganho de dinheiro a fim de

pagar suas dívidas, enquanto 52% dos usuários passaram a jogar

recorrentemente em busca de recuperar o que haviam apostado

anteriormente e perdido, gerando, assim, um ciclo de dependência

(UOL, 2024).

De acordo com a PEIC – Pesquisas de endividamento e

Inadimplência do Consumidor), cerca de 79,5% das famílias

brasileiras estão endividadas (CNN, BRASIL, 2025), enquanto

levantamentos apontam aumento de 16% para 35% de

endividamento devido a apostas entre 2024 e 2025 (InfoMoney,

2025).

A lei 14.790/2023 regulariza as atividades das bets, licenciando os

jogos de apostas e contribuindo com a perpetuação da miséria e da

prodigalidade de indivíduos vulneráveis ao permitir a livre realização

de atividades em ambientes virtuais, levantando um debate sobre o

Estado, quanto garantidor de dignidade, saúde e proteção, contribui

de maneira gradativa para com a sociedade brasileira, tendo em

vista os altos e crescentes índices de inadimplência e à saúde da

nossa comunidade.

1.5. Relato de Campo e Consequências Sociais

Em uma pesquisa de campo realizada na região de Pedreiras,

Maranhão, ocorreu um caso que contribuiu com a escolha do tema

deste artigo. Uma mãe de três filhos desenvolveu um vício em jogos

de aposta em meados de 2022, e não parou em 2022. O filho dessa

mãe, devido a proteção de imagem e dignidade não poderemos

revelar o nome, relatou que a mãe tinha uma conta bancária onde a

mesma depositava mensalmente uma quantia para contribuir com

a futura faculdade dele e revela que na conta haviam mais de

R$80.000. A mãe gastou todo o fundo de faculdade do filho,

atualmente não pode comprar nada porque todo o dinheiro que ela

recebe a mesma direciona aos jogos, o filho pegou a mãe mentindo

para os familiares de que ela não poderia comprar os seus remédios

e muito menos comida para sustentar os seus filhos porque ela

estava pagando os remédios para a condição cardíaca do seu

cônjuge, como forma de ganhar dinheiro para suprir o próprio vício,

entre outras várias mentiras que ele relatou derivadas da mãe. O

filho afirmou, também, que ela paga uma conta mensal devido a um

dinheiro emprestado, empréstimo este de R$27.000, além de dizer

para todos ao seu redor que parou de jogar e se reclamar

constantemente de a sua vida é ruim, sendo essa uma

consequência de seus próprios atos. E não são atos conscientes, são

atos, 

comportamentos compulsivos derivados de um

condicionamento, pois o filho relatou de que a mãe começou

ganhando, ganhando muito dinheiro, e depois passou a perder. Ele

relata que, como uma busca incontrolável de recuperar o dinheiro

que ganhou facilmente em grande quantia quando começou a

ganhar, sua mãe começou a apostar em altas quantias, sendo a

quantia mais baixa R$300, dinheiro esse que poderia ser usado para

sofrer a necessidade dos seus filhos ou as suas próprias, sem que

essas contribuísse com a desgraça da própria família e a sua. Um

relato difícil para um filho se contar, no entanto, o testemunho do

filho evidencia o quanto os jogos podem contribuir com a destruição

de uma vida e não só uma, mas a todos ao seu redor.

Tal relato coloca a prova como a lei 14.790/2023 contribui com a

violação ao direito à dignidade e a corroboração da precarização do

mínimo existencial, pois direitos estão sendo constantemente

violados devido a essa atividade. A ludopatia é uma doença que

merece muito mais a atenção e não basta apenas restringir o envio

do benefício de pessoas cadastradas no Bolsa Família diretamente

para as bancas de jogatinas, tal atividade deve ser abolida no Brasil.

As casas de apostas se demonstraram um fenômeno capaz de gerar

prejuízos significativos à sociedade brasileira. Há um nível crescente

de pessoas dilapidando o próprio patrimônio. A progressão da

ludopatia não afeta apenas o jogador, esse processo também

contribui para que seus filhos, seus cônjuges e seus familiares

sofram e testemunhem o sofrimento de uma pessoa doente, uma

pessoa incapaz de quebrar o ciclo de apostas.

A instabilidade decorrente do vício tende a inserir os familiares do

portador do transtorno em contextos em que há mentiras, traições,

perda de bens, endividamento, colapso financeiro e a

desmoralização do seu próprio nome perante a sociedade. Esses

fatores revelam o impacto social, emocional e moral na vida do

dependente, bem como a instabilidade, a dor e os rombos

financeiros instaurados na sua unidade familiar, evidenciando o

modo e o impacto das plataformas de jogos digitais enquanto

fragilização de lares.

1.6. Riscos Suicidas e Consequências Extremas

Além do que foi supracitado, o Transtorno do Jogo, caracterizada

pelo comportamento compulsivo, também pode desencadear um

elevado risco ao suicídio e a depressão, duas condições derivadas do

desespero financeiro decorrentes do vício em casas de apostas

(DSM-5).

Vinicius Marinho Ferreira, de 28 anos, tirou sua própria vida devido

aos jogos. Vinicius já havia perdido a casa, a esposa e os filhos e a

confiança de quem vivia com ele. A família entende que Vinicius

estava em surto, mesmo diante de tantas perdas derivadas do jogo,

a compulsão por jogar ainda continuava presente. Na manhã de sua

morte, Vinicius chegou a fazer 13 apostas de R$1.000 cada, uma por

minuto, no site Bet360. Vinicius perdeu todas e como muitos

brasileiros que desenvolveram um comportamento compulsivo pelo

jogo, infelizmente teve impacto direito com sua saúde e resultou em

sua morte (BRANDALISE; GENTILE, 2024).

Diante do pressuposto, torna-se evidente como os jogos de azar

impactam a saúde, a dignidade humana e as condições de vida de

pessoas em situação de fragilidade social, da mesma forma que

prejudica a vida das pessoas ao seu redor. Ao analisar dados

recentes, relatos reais e o modo desumano de como os sistemas de

indução ao vício das casas de apostas operam, evidencia-se a

urgência de debates acerca dos impactos dos jogos na sociedade

contemporânea brasileira, tendo em vista que os jogos extrapolam a

esfera no mero entretenimento e prejudicam os âmbitos familiares,

socioeconômicos e psicológicos dos indivíduos, sendo uma situação

que urge debates sobre politicas que garantam a efetivação dos

direitos humanos violados diante desse revés e seus impactos no

Brasil contemporâneo.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1. 

Dignidade da Pessoa Humana Como Fundamento

Constitucional

A dignidade da pessoa humana ocupa um lugar central no

ordenamento jurídico brasileiro, tendo força normativa e valor que

registra estrutura todo o sistema de direitos fundamentais (art. 1º, III,

CF/88). Conceitualmente, a dignidade é entendida como qualidade

intrínseca do sujeito, que impõe ao estado o dever de promoção e

proteção de condições mínimas de existência e autonomia.

Immanuel Kant formula uma base filosófica importante para essa

ideia ao afirmar que o ser humano deve ser tratado sempre como

fim de si mesmo, não apenas como meio para fins alheios (KANT,

1785). Essa perspectiva normativa orienta a interpretação das

normas socioassistenciais e sanitárias, impondo ao Direito um viés

protetivo frente à práticas que possam comprometer a integridade

física, psíquica ou econômica dos indivíduos. Em paralelo com a

ideia defendida no situado artigo, os fatores impulsionados pelos

jogos de azar exploram fragilidades do ser humano, pois tais jogos se

baseiam em mecanismos de indução e manipulação que possam

degradar a sua autonomia, principalmente cognitiva, lesionado o

direito ao mínimo existencial ao deixar indivíduos portadores da

patologia decorrente da compulsão em jogar comprometerem a

sua saúde, o seu seio familiar e a sua renda.

2.2. Vulnerabilidade Socioeconômica e o Papel das Políticas

Públicas

A vulnerabilidade socioeconômica refere-se às condições objetivas

que aumentam a exposição de grupos à violação de direitos

(pobreza, desemprego, fragilidade de redes e proteção). A teoria da

vulnerabilidade, tal como formulada por Martha Fineman, afirma

que a vulnerabilidade é uma característica universal e contínua da

condição humana, exigindo do Estado respostas institucionais

estruturadas para promover igualdade real (FINEMAN, 2008). O

público alvo das casas de apostas são pessoas em situação de

vulnerabilidade, tanto socioeconômicas quanto psicológicas;

pessoas que procuram uma fonte de renda extra ou ganho fácil de

dinheiro, o que até ocorre inicialmente, mas depois a banca também

passa a ganhar, criando um ciclo de dependência em que as

pessoas são inseridas ao tentarem recuperar o dinheiro apostado e

perdido. Assim, nesse contexto, é notória a exploração das

fragilidades dos indivíduos induzidos ao vício que, por conseguinte,

dá origem a um transtorno.

A Constituição incorpora a lógica de proteção as situações de

vulnerabilidade ao promover políticas de assistência social e redução

da pobreza (art. 203 e demais dispositivos correlatos), reconhecendo

que a autonomia básica depende de garantias materiais. A

abordagem das capacidades, proposta por Amartya Sem e

desenvolvida por Martha Nussbaum, complementa essa perspectiva

ao se entrar a ação pública na expansão das liberdades substantivos

e das oportunidades reais das pessoas (SEM, 1999; NUSSBAUM,

2000). Essas teorias orientam a noção de que políticas públicas não

são meramente assistenciais, mas instrumentos constitucionais para

restaurar capacidades básicas e prevenir a reprodução

intergeracional de mecanismos, fatores ou estruturas que instaurem

a privação, a fim de garantir a efetivação ao direito da dignidade da

pessoa humana.

2.3. Jogos de Azar: Evolução Normativa e Tensões Regulatórias

Historicamente proibidos no Brasil, os jogos de azar passaram por

transformações normativas recentes que indicam uma tentativa de

conciliar ação econômica e proteção social. A Lei n° 13.756/2018 criou

a modalidade de apostas de quota fixa e abriu caminho para

regulamentação, reconhecendo a existência do mercado impondo a

necessidade de salvaguardas regulatórias (BRASIL, 2018). Essa nova

realidade regulatória coloca em tensão duas finalidades

constitucionais: a racionalidade econômica da atividade e o dever de

proteger a saúde e a dignidade dos cidadãos, especialmente de

quem já se encontra em situação de fragilidade. Assim, o direito

regulatório deve ser interpretada a luz do princípio da dignidade e

da vulnerabilidade, o que exige dispositivos de prevenção,

transparência e mecanismo de autocontrole/autoexclusão.

2.4. Impactos Sobre a Saúde Pública: Ludopatia, Dependência e

Consequências Socioeconômicas

A expansão das apostas, sobretudo em ambiente online, tem sido

associada ao aumento de transtornos comportamentais. A

Organização Mundial de Saúde o “gaming disorder” (transtorno de

jogo eletrônico) 11° revisão da CID (ICD-11), o que é evidencia a

preocupação internacional com comportamentos aditivos

relacionados a jogos e a necessidade de políticas de saúde públicas

integradas (WHO, 2019). De modo análogo, o Manual Diagnóstico e

Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) da American Psychiatric

Association reconhece o transtorno de jogo como um problema

clínico com critérios diagnósticos claros, reforçando a dimensão

médica e social da questão (APA, 2013). Os apoiam a ideia de que os

efeitos do jogo problemático – ansiedade, depressão, isolamento

social, endividamento e prejuízo de vínculos familiares– exigem

articulação entre prevenção (regulação da oferta da publicidade),

tratamento (serviços de saúde mental) e medidas socioeconômicas

(proteção contra superendividamento), conforme previsto na Lei

Orgânica da Saúde (Lei n° 8.080/1990) que estabelece a saúde como

direito de todos e dever do Estado (BRASIL, 1990).

2.5. Jogos de Azar, Dignidade e Exploração de Vulnerabilidade

Quando a atividade comercializa a esperança de ganho fácil e

direciona a publicidade a populações empobrecidas, manifesta-se

um fenômeno de exploração da vulnerabilidade que põe em risco a

dignidade. A perda de recursos essenciais e a desestruturação de

vínculos ilustram como práticas de mercado podem agravar

desigualdades e violar o núcleo mínimo de dignidade humana.

Ponto de vista jurídico, a espaços para responsabilização civil e, em

casos extremos, medidas administrativas e penais quando a

promoção do jogo incorre em indução de comportamento de risco e

exploração de públicos vulneráveis. A conjugação das teorias de

Kant (dignidade), Fineman (vulnerabilidade), Sem e Nussbaum

(capacidades) fornece um arcabouço teórico robusto para sustentar

uma regulação orientada à minimização de danos e a proteção de

direitos básicos.

2.6. Síntese Normativa e Orientações para Proteção dos Direitos

Humanos

A fundamentação teórica que proposta articula quatro vetores: (i) a

dignidade o fundamento que impõe proteção positiva; (ii) a

vulnerabilidade socialeconômica como critério para intervenção

estatal; (iii) a abordagem das capacidades como guia para políticas

públicas orientadas à expansão de oportunidades; e (iv) necessidade

de políticas públicas integradas que combinam regulação

econômica, prevenção e saúde pública e redes de assistência Social.

Na prática e isso recomenda a adoção de medidas regula aleatórias

orientadas por princípios de minimização de danos parênteses

limites a publicidade, mecanismos de autocontrole, identificação de

públicos de risco), investimento em serviços de saúde mental e

políticas de mitigação socioeconômica (programas de proteção ao

endividamento suporte a famílias afetadas). Só assim a resposta total

cumprirá sua função constitucional de promover dignidade e

reduzir a exposição de grupos vulneráveis a riscos evitáveis.

3. METODOLOGIA

No decorrer do desenvolvimento do artigo em questão, baseamos

nos em uma pesquisa de triangulação composta por pesquisa

bibliográfica, documental e empírica, conforme a junção possibilitou

a comparação dos fatos com a teoria. Além disso, a pesquisa adotou

se caráter exploratório, porque houve um levantamento de

hipóteses e entraves, foi identificado padrões a fim de induzir as

pessoas ao vício, bem como uma junção de literaturas para

compreender o o estudo da ludopatia; também foi adotado uma

abordagem descritiva, pois houve a finalidade de contextualizar o

funcionamento das plataformas, os mecanismos de indução ao vício

e a suas consequências; além disso, a pesquisa também é

classificada como qualitativa, pois baseou-se em fenômenos

complexos por meios de conteúdos e interpretações empíricas,

teóricas e normativas, concentrando-se na análise de relatos,

evidencias sociais, contextos e os impactos da patologia nos âmbitos

da vida dos indivíduos.

A princípio, foram realizadas pesquisas acerca da evolução dos jogos

de apostas e a popularização na sociedade contemporânea,

seguidos pelos mecanismos de imersão aos jogos e os impactos

jurídicos das apostas, bem como os mecanismos de indução ao

comportamento compulsiva. Para tal, foi utilizado autores do estudo

da neurociência comportamental relevantes para a articulação de

análises teóricas. Neurocientistas e pesquisadores como Clark,

Lawrence e Sahakian (2009), se mostraram extremamente

relevantes para a pesquisa, pois forneceram bases essenciais para

compreensão dos mecanismos cognitivos e neurobiológicos

relacionados a compulsão por jogos de azar, incluindo a liberação

elevada de neurotransmissores dopaminérgicos, a perda de controle

inibitório e os padrões de reforço intermitente. Posteriormente,

foram realizadas pesquisas bibliográficas acerca dos fundamentos

da dignidade da pessoa humana, da vulnerabilidade e das

capacidades, cuja base fora encontrado em autores clássicos e

juristas que elevaram o embasamento do presente artigo, Immanuel

Kant, Martha Fineman, Amartya Sen e Martha Nussbaum.

Subsequentemente, incluiu-se a análise de dados de órgãos

públicos oficiais utilizados para aprofundar os argumentos

apresentados no artigo, como o Banco Central do Brasil, o Tribunal

de Contas da União, o Serasa e classificação dos contextos e

conceitos acerca da saúde e psicopata Gia, como a OMS/CID-11 e o

DSM-5, que reconhece internacionalmente o transtorno do jogo ou

ludoapatia como a condição mental e comportamental compulsiva.

Além disso, embasaram-se em fontes jornalísticas de alta

repercussão como suporte empírico para detectar padrões sociais,

aumento de pobreza e supera endividamento, assim danos à saúde

mental e à integridade física. E, conforme pesquisas divulgadas pela

CNN Brasil, UOL, InfoMoney, tal transtorno se mostrou um alto

expoente de endividamento, dilapidamento de patrimônios e

fragilidades socioeconômicas.

Por fim, desenvolveu-se uma pesquisa documental com ênfase em

dispositivos legais, como a Constituição de 1988, a Lei nº 8.080/1990

(Lei Orgânica da Saúde), a Lei nº 13.756/2018 e a Lei nº 14.790/2023,

que oferecem subsídios acerca das apostas de quota fixa e da

regulamentação das bets no cenário brasileiro. Ademais, foi

integrado ao artigo um relatório de campo obtido na região de

Pedreiras, Maranhão, que descreve um caso real de compulsão

comportamental derivada das plataformas de jogatinas, bem como

as consequências psicológicas do portador da patologia e os seus

respingos à sua família; consequências financeiras e sociais. Tal

relato foi utilizado como evidência qualitativa afim de ilustrar a

gravidade alastrado pela ludopatia no cotidiano da população

vulnerável.

A junção dos instrumentos de pesquisa e abordagem permite uma

análise interdisciplinar sobre os impactos das apostas, integrando

perspectivas psicológicas e jurídicas, contribuindo para a

compreensão central de como a ludopatia prejudica o cenário

brasileiro.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

A análise dos Dados Públicos, da Literatura e de estudos correlatos

demonstra que o mercado de jogos de azar digitais se consolidou no

Brasil em um período de lacuna normativa, com indicadores

expressivos de adesão e potencial de dano social (CNC, 2025;

InfoMoney, 2025).

No cenário global, 8,7% da população mundial apresenta

engajamento recorrente com plataformas digitais de apostas (WHO,

2022). No Brasil, o impacto financeiro desse fenômeno ganhou

contornos relevantes no mês de agosto de 2024, quando usuários

brasileiros realizaram depósitos que alcançaram R$ 20 milhões,

enviados ao exterior por intermédio de plataformas transnacionais

de bets, segundo registros divulgados pelo Banco Central do Brasil

(2024).

Além do volume financeiro, o perfil socioeconômico do apostador

majoritário revela forte presença de vulnerabilidade econômica.

Pesquisas conduzidas com usuários impactados por estratégias de

marketing digital indicaram que 80% dos jogadores realizam

apostas de até R$ 100 por sessão, e pertencem, em sua maioria, às

faixas de baixa renda ou extrema pobreza, grupo mais exposto à

narrativa de ganhos fáceis e à captação via influenciadores digitais

(MARTINS, 2024; SILVA; ALMEIDA, 2024).

No campo da saúde, a Organização Mundial da Saúde (OMS)

reconhece oficialmente o Transtorno do Jogo no CID-11, situando a

ludopatia como condição de natureza mental e comportamental

(WHO, 2022). No Brasil, alertas de médicos e psiquiatras apontam

que a dependência em jogos se tornou um dos transtornos de maior

incidência clínica no país, associada a quadros de ansiedade,

depressão, estresse severo, endividamento e ruptura da dinâmica

familiar.

A ausência de regulamentação específica anterior à Lei nº

14.790/2023 permitiu que as plataformas digitais empregassem

livremente modelos baseados em coleta intensiva e análise

algorítmica de dados pessoais, incluindo histórico de apostas,

padrões de perdas e comportamento online. Esse processamento

possibilita identificar jogadores vulneráveis e acionar incentivos

personalizados (bônus, cashback e campanhas comportamentais de

resgate de perdas), sem transparência adequada ou mecanismos

efetivos de autodeterminação informativa e opt-out, em aparente

desconformidade com os princípios da Lei Geral de Proteção de

Dados – LGPD (BRASIL, 2018).

A inexistência de sede física de muitas plataformas no território

nacional, somada à fiscalização insuficiente, também resultou na

impossibilidade prática de responsabilização e ressarcimento

judicial ou administrativo de cidadãos lesados, agravando a

assimetria de poder entre empresa e usuário. A síntese dos achados

está organizada no quadro abaixo:

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante dos impactos detalhados no artigo, pesquisas demonstraram

que ludopatia, ou transtorno do jogo, é um fenômeno complexo que

ultrapassa todos os âmbitos da vida do indivíduo, seja elas

socioeconômicas, sociais, psicológicas, jurídicas e neurobiológicas,

tornando-se um problema significativo para a sociedade brasileira.

Tendo em vista que, com base em evidências já pressupostas, há

uma lesão à autonomia e a dignidade da pessoa humana, bem

como ao mínimo existencial, dado que, instrumentos públicos

INDICADOR ACHADO PRINCIPAL

Adesão global 8,7% da população mundial engajada nos jogos de

azar no meio digital.

Fluxo financeiro

(Brasil)

R$ 20 milhões de reais jogados/ depositados em

agosto de 2024.

Perfil apostador 80% apostam até R$ 100. A maioria pessoas em

situação de extrema pobreza.

Saúde mental Transtorno do jogo CID-11, bem como alta incidência

clínica no Brasil.

Privacidade e

dados

Coleta algorítmica de histórico de depósitos e percas;

nudges personalizados.

Ambiente jurídico Regulação tardia; plataformas sem sede fisica no

Brasil; fiscalização insuficiente.

oficiais, reportagens e estudos científicos indicam que esse

fenômeno tem contribuído para a intensificação da vulnerabilidade

social, aprofundando desigualdades já existentes e gerando

situações de miséria e colapso financeiro em inúmeros lares

brasileiros.

Além disso, literaturas do âmbito da neurociência comprovam que

há uma lesão ao controle inibitório da área do cérebro responsável

pela tomada de decisão e pelo manejo de impulsos, sujeitando as

pessoas a busca da satisfação do prazer imediato e a constante

exposição à dopamina, contribuindo com a perca da autonomia e o

desenvolvimento da ludopatia. Destarte, consolida-se uma tensão

entre às praticas das apostas digitais e a efetivação aos direitos

fundamentais, como a dignidade da pessoa humana e o direito à

saúde, que é exponencialmente violado hodiernamente pela

exposição desenfreada às pràticas jogatinosas.

Diante do que foi exposto, torna-se evidente que o transtorno no

jogo não afeta somente o portador, mas também todos ao seu redor,

sendo um comportamento que pode desencadear riscos ao suicídio,

depressão, um desespero financeiro decorrente do vício,

deterioração e dilapidamento de patrimônio assim como prejudica

todos os demais âmbitos da vida do portador, principalmente

familiar. O mínimo existencial e a dignidade da pessoa humana são

comprometidas diante a constante prática dessa atividade, sendo,

principalmente, dada pela negligência estatal diante esse revés.

Ainda que a legislação recente busque regular o setor, os elementos

analisados evidenciam que a regulamentação, por si só, não é

suficiente para proteger grupos vulneráveis da exploração

promovida pelos mecanismos de indução ao vício.

Por fim, é de suma importância salientar, que a compulsão por jogar

ultrapassa o indivíduo, tornando-o sujeito a intensificação da

fragilidade social, pois pesquisa científicas comprovam que pessoas

com dependência em jogo apresenta um alto índice de

comportamentos, e em casos extremos, ao suicídio, evidenciando a

urgência de políticas públicas que garantam a efetivação do direito

ao mínimo existencial, à saúde e a dignidade da pessoa humana.

que exige respostas articuladas entre políticas públicas, regulação

estatal, educação financeira e medidas de proteção social. Somente

por meio de uma abordagem interdisciplinar e centrada na

dignidade humana será possível mitigar os danos e prevenir que o

fenômeno continue produzindo adoecimento, vulnerabilidade e

injustiças sociais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Manual of Mental Disorders. 5. ed. Washington, DC: APA, 2013.

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Fundo Nacional de Segurança Pública. Diário Oficial da União:

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exploração de apostas de quota fixa. Diário Oficial da União: Brasília,

DF, 30 dez. 2023. Disponível em: https://www.planalto.gov.br. Acesso

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transferiram R$ 3,7 bilhões para sites de apostas. Brasília, 2025.

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CASEMIRO, Poliana. OMS reconhece a ludopatia como transtorno

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and the brain: cognitive neuroscience perspective. Nature Reviews

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CNN BRASIL. Brasileiros apostam majoritariamente até R$ 100,

aponta 

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KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. 1785.

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Acesso em: 30 nov. 2025.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). International Classification

of Diseases (ICD-11). Geneva: WHO, 2019. Disponível em:

https://icd.who.int. Acesso em: 30 nov. 2025.

1 

Graduandos em Bacharelado em Direito pela Faculdade de

Educação São Francisco (FAESF), Pedreiras, Maranhão. E-mail: acesse

o artigo original para visualizar o e-mail

2

Mestre em Estudos Jurídicos com ênfase em Direito Internacional,

Must University. E-ma. O artigo dos autores Manuelly Bandeira Sousa1, Marcius Vinicius Fonseca Araújo1, Kaio Borges Silva1, Gerdeson Kauan Gomes Silva1 e Cliciano Vieira da Silva2. 


Confira a lei que regulamenta apostas no Brasil . No site oficial da Presidência da Republica .https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/l14790.htm.A lei que regulamenta as "bets" (apostas esportivas e jogos online) no Brasil , popularmente conhecida como a Lei das Bets. Estabelecendo  as regras para a exploração comercial da modalidade lotérica de "apostas de quota fixa".As diretrizes do mercado brasileiro de apostas incluem:.Fiscalização e Autorização.Órgão Responsável: A regulação e a fiscalização são controladas pelo Ministério da Fazenda, por meio da Secretaria de Prêmios e Apostas Domínio Oficial: Os sites das empresas autorizadas a atuar nacionalmente devem obrigatoriamente utilizar a extensão .Sede no Brasil: As operadoras precisam ter constituição jurídica, registro de CNPJ e sede em território nacional.Restrições Financeiras e de Segurança.Métodos Permitidos: Depósitos e saques só podem ser feitos por meios eletrônicos rastreáveis, como Pix, cartão de débito ou cartão pré-pago.Métodos Proibidos: É estritamente proibido o uso de cartões de crédito, criptomoedas, dinheiro em espécie ou transferências vindas de contas de terceiros.Identificação (KYC): As plataformas exigem validação rigorosa de identidade, incluindo o envio de documentos e verificação por biometria facial para evitar fraudes.Proteção ao Consumidor e Jogo Responsável.Menores de Idade: Menores de 18 anos são completamente proibidos de apostar e de serem alvo de publicidade.Alertas Obrigatórios: Campanhas publicitárias devem exibir mensagens claras de aviso sobre os riscos da atividade (ex: "Apostar pode causar dependência"), ocupando no mínimo 10% do espaço do anúncio.Endividamento: Os bônus de boas-vindas oferecidos por plataformas são proibidos, e o governo faz o cruzamento de dados para monitorar o superendividamento da população associado aos jogos.Impostos e Destinação dos RecursosTributação: Empresas pagam 12% de imposto sobre o GGR (Gross Gaming Revenue, a receita bruta após a dedução dos prêmios pagos).Divisão da Arrecadação: Os tributos recolhidos eram até então , obrigatoriamente repassados a áreas sociais prioritárias como saúde, educação, segurança pública, turismo e esporte.

Bets destroem vidas . Destroem famílias. As betts comprometem as rendas dos mais humildes. Que jogam tudo o que tem nesses sites de apostas.

As bets destrõem milhões da brasileiros (as).

Confira a notícia no UOL https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2026/10/11/bets-66-dos-pequenos-negocios-apoiam-a-proibicao-aponta-sebrae.htm

...Confira os campeões das competições no Brasil e no mundo . No site campeões do futebol .https://www.campeoesdofutebol.com.br/competicoes.html. Confira os canais do site campeões do futebol .https://www.campeoesdofutebol.com.br/canais.html.

Imagem do UOL .




 

sábado, 10 de outubro de 2026

Democracia perdendo .

 A política é a atividade humana voltada para a organização, administração e tomada de decisões em uma sociedade, com o objetivo de gerenciar recursos, resolver conflitos de forma pacífica e estabelecer as leis que regem a convivência entre as pessoas.


Origem da Palavra

 Pólis: O termo vem do grego polis, que significa "cidade" ou "cidade-estado".

 Politiké: Na Grécia Antiga, referia-se às ações e aos debates dos cidadãos para organizar a vida em comunidade. Aristóteles definiu o ser humano como um "animal político", pois a nossa natureza é viver em sociedade.


Principais Dimensões

 Esfera pública e estatal: Envolve o governo de países, estados e municípios, a disputa pelo poder, a criação de leis e a gestão de impostos em benefício da população.

 Convivência social: Manifesta-se também fora dos governos, nas relações do dia a dia, em condomínios, escolas, empresas, famílias e movimentos sociais. Resolução de conflitos: É a ferramenta usada para alinhar interesses e opiniões diferentes sem recorrer à violência.

Você pode saber mais sobre a prática e os conceitos fundamentais no portal educacional Politize! ou consultar a visão histórica detalhada 

rtigos

Desilusão Política, Crise dos Grandes Partidos

e 

Ascensão de Novas Organizações Político

partidárias na Europa Central Pós 1989

Barbosa[1], Flávio Rodrigues

Flávio Rodrigues Barbosa[1] 

f.rodriguesbarbosa@gmail.com

Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF, Brasil

Argumentos - Revista do Departamento de Ciências

Sociais da Unimontes

Universidade Estadual de Montes Claros, Brasil

ISSN: 1806-5627

ISSN-e: 2527-2551

Periodicidade: Semestral

vol. 14, núm. 1, 2017

revista.argumentos@unimontes.br

URL:  http://portal.amelica.org/ameli/jatsRepo/363/3631546017/

index.html

Esta obra está licenciada com Creative Commons - Atribuição

NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

Este trabalho está sob uma Licença Creative Commons Atribuição

NãoComercial-Não Derivada 4.0 Internacional.

Resumo: O presente trabalho aborda a atual crise política

vivenciada pelos partidos políticos centro-europeus, herdeiros das

democratizações de 1989. Nosso foco específico recai sobre a

experiência da República Tcheca, país que, entre todas as outras

ex-repúblicas do bloco soviético, teve a mais bem-sucedida história

de transição política e, até 2010, possuía o sistema partidário

mais estável da região. Entre as causas que produziram a crise dos

grandes partidos, figuram a precoce relação apática entre cidadãos

e seus representantes, a incapacidade dos grandes partidos em

atender as principais demandas da população e o envolvimento

dos principais partidos políticos com o mais novo e mais extremo

fenômeno de corrupção conhecido como Captura do Estado.

Com efeito, tem se fomentado o sucesso de novos partidos

políticos, muitas vezes classificados como antiestablishment e/ou

populistas, que a cada eleição vêm ocupando significativos lugares

antes pertencentes aos grandes partidos.

Palavras-chave: 

Pós-comunismo, 

Partidos 

Democratização, Corrupção, Captura do Estado.

Políticos,

Abstract: is paper deals with the current political crisis

experienced by Central European political parties, heirs of the

democratizations of 1989. Our specific focus is on the experience

of Czech Republic, a country which among all other ex-republics

of the Soviet bloc had the most successful history of political

transition and, until 2010, had the most stable party system in

the region. Among the causes that have produced the crisis of the

main political parties are the early apathetic relationship between

citizens and their representatives, the inability of large parties to

meet the main demands of the population and the involvement

of the main political parties with the newest and most extreme

phenomenon of corruption known as State Capture. In fact, the

success of new political parties, oen classified as antistablishment

and / or populists, has been fostered, with each seat occupying

significant seats formerly belonging to the major parties.

Keywords: Post-communism, Political Parties, Democratization,

Corruption, State Capture.

Resumen: El presente trabajo aborda la actual crisis política

vivida por los partidos políticos centroeuropeos, herederos de

las democratizaciones de 1989. Nuestro enfoque específico recae

sobre la experiencia de la República Checa, país que, entre todas las

otras ex repúblicas del bloque soviético, tuvo la más exitosa historia

de transición política y, hasta 2010, poseía el sistema partidista

más estable de la región. Entre las causas que produjeron la crisis

Modelo de publicação sem fins lucrativos para preservar a natureza acadêmica e

aberta da comunicação científica

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Argumentos - Revista do Departamento de Ciências Sociais da Unimontes, 2017, 14(1), Enero-Junio, ISSN: 1806-5627 / 2527-2551

de los grandes partidos, figuran la precoz relación apática entre

ciudadanos y sus representantes, la incapacidad de los grandes

partidos en atender las principales demandas de la población y la

implicación de los principales partidos políticos con el más nuevo

y más extremo fenómeno de corrupción conocida como Captura

del Estado. En efecto, se ha fomentado el éxito de nuevos partidos

políticos, a menudo clasificados como antiestablamiento y / o

populistas, que cada elección viene ocupando significativos lugares

antes pertenecientes a los grandes partidos.

Palabras 

clave: 

Post-comunismo, 

Partidos 

Democratización, Corrupción, Captura del Estado.

1. Problemas de Construção de um Estado Democrático

Políticos,

O caráter do Estado sob o regime autoritário era de um estado desprovido

de quase nenhuma autonomia, sendo político-ideologicamente controlado pelo

Partido Comunista. Em outras palavras, o Estado era dependente das decisões

políticas do processo-decisório monopolizado pelo maquinário do partido. Essa

característica não foi modificada durante os primeiros anos de transformação

política e transição para uma economia de mercado, pelo contrário, foi reforçada.

Por outro lado, grande parte dos políticos não possuía nenhum tipo de

experiência ou até mesmo algum plano para com esse tipo de transição. As

recomendações da primeira fase do processo de reformas seguiram, na maior

parte, as diretrizes do Consenso de Washington e ignoraram a necessidade de

construir um novo estado de direito democrático (Dvoráková, 2015).

Construir partidos políticos que desfrutassem da confiança e laços fortes

com a população era uma das considerações mais importantes no início da

transição democrática nos países centro-europeus. Na República Tcheca, por

exemplo, os partidos políticos originados com a democratização tiveram suas

construções entrelaçadas ao Estado e acabaram criando condições ideais para a

patronagem e o clientelismo (Haughton, 2008). As elites emergentes passaram

a conduzir suas ações políticas nas seguintes direções: ?a do interesse pessoal

de construir seu próprio partido, ou de prosseguir com um objetivo mais

amplo de construção do Estado? (Haughton, 2008, p. 490). O problema é que

os partidos acabaram limitando tanto as oportunidades para dedicar tempo

e energia na construção de uma extensa organização partidária, assim como

também colocaram uma pesada necessidade de aquisição de recursos financeiros

em algum lugar. Com níveis relativamente baixos de financiamento partidário à

disposição, passou a ser tentador para os partidos no poder, oferecer recompensas

em forma de favoráveis privatizações para indivíduos dispostos a doar dinheiro

[2] . Assim, testemunhavam-se os partidos governantes extraírem ganhos materiais

que dificultaram a introdução de uma supervisão e regulação de bens do Estado, ?

havendo pouco esforço para transformar o estado em uma organização mais

racional-burocrática? (Haughton, 2008, p. 491).

O ambiente institucional, nas novas democracias centro-europeias, também

mostrava as seguintes falhas: ausência de um quadro jurídico de base para

atividades econômicas particulares, ausência de princípios do Estado de Direito,

falhas de garantias na exequibilidade da lei, constitucionalismo fraco e com

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Flávio Rodrigues Barbosa[1]. Desilusão Política, Crise dos Grandes Partidos e Ascensão de Novas Organizações Político-partidárias na Europa ...

subestimação de mecanismos de accountability horizontal. Nota-se também, a

ausência de princípios construídos para responsabilização administrativa, como

instituições de supervisão e órgãos de fiscalização. Outra ausência notada se

encontra na falta de princípios de boa governança (Dvoráková, 2015).

No início do processo de reforma política e transição econômica, havia

disponível uma grande quantidade de propriedade nacional. Isso formou uma

fonte sem precedentes para atividades de corrupção. A principal forma se

encontrava através dos meios empreendidos nos processos de desmantelamento

e reforma do estado autoritário e de privatização. Os impactos foram sentidos

quando já era possível perceber o amplo espaço de oportunidades para práticas

ilícitas, em estados que se mostravam fracos e ineficazes na luta contra desvios

institucionais e que promoviam um alto custo político e social, desembocando

em uma profunda desconfiança na direção do Estado, instituições e políticos,

dentro de suas sociedades. Dessa forma, o estado foi desmontado, ocupado e

privatizado por redes clientelísticas que, por sua vez, interconectaram política,

economia e aparelho de Estado, enfraquecendo a legitimidade da democracia. O

resultado foi a formação de um amplo espaço de oportunidade para a corrupção

[3] sob um ângulo denominado por Captura do Estado[4] e identificado

pelo Banco Mundial quando, dez anos após as primeiras reformas políticas

e econômicas empreendidas pelas novas democracias do centro-leste europeu,

decidiu investigar os tipos de corrução e crimes econômicos que estavam sendo

praticados nos países da região[5].

O processo de transição política e reforma de mercado, acabou sendo marcado

pelo considerável ganho de controle sobre o Estado por novos e poderosos atores

econômicos privados, que o utilizaram para fins de extração de vantagens próprias

e, com isso, o estado recém-edificado não se mostraria muito diferente de outrora.

A diferença, dessa vez, é que, no antigo regime, o Partido Comunista fazia da

administração do Estado o seu campo pessoal de extração de recursos, enquanto

que após 1989 o partido comunista sai de cena e cede a vez para os novos partidos

e estratos empresariais emergentes com a democratização, permanecendo a forma

como este era utilizado. Uma vez que o partido controlava a riqueza da nação,

o estado servia tanto como sua principal fonte de renda, assim como seu mais

eficaz instrumento para ganho de benefícios (Grzymala-Busse, 2007; Dvoráková,

2015).

A captura do estado ocorre, com mais frequência, em sociedades com

raízes democráticas fracas ou onde populações se encontram desiludidas com

promessas não realizadas pelos políticos e partidos tradicionais, e tem ajudado

novos tipos de organizações políticas em suas rápidas conquistas pelo poder

e apropriação de quadros institucionais de combate à corrupção (Hellmann,

2000; Omelyanchuk; 2001, Nosko, 2014). Os resultados de suas intenções e

estratégias têm se mostrado, na maioria dos casos analisados (Slinko, Jakolev e

Zurahvskaya, 2003, Barbosa, 2016), mais no intuito de ganhar o apoio popular

do que, de fato, combater a corrupção. Como efeito, pessoas desanimadas com

a política tradicional têm optado por duas saídas: se retirar da participação

política, principalmente nos períodos de eleições, ou apostar nas novas forças

emergentes. Entre as novas apostas que vêm obtendo sucesso meteórico nas duas

últimas eleições tchecas (2010-2013), destacaram-se os três mais bem-sucedidos

novos partidos políticos locais: TOP09, Assuntos Públicos ( Veci Verejne), e

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Argumentos - Revista do Departamento de Ciências Sociais da Unimontes, 2017, 14(1), Enero-Junio, ISSN: 1806-5627 / 2527-2551

o SIM2011 ( ANO2011). Ressalta-se que, as duas últimas são organizações

partidárias construídas sob um novo modelo de partido político denominado

na literatura de Business-firm Party/Partido-empresa de Negócios, (Hopkin e

Paolucci, 1999, Paolucci, 2006, Barbosa (2016).

O modelo é muitas vezes entendido como um tipo extremo do catch-all e

apresenta como uma evidência geral no vínculo de sua imagem com a de algum

rico empresário [6] . Geralmente, uma figura de negócios que alcança grande

expressão nacional e opta por fundar um novo partido político com caráter

de empresa privada. Esse tipo de organização partidária é construído sobre

um edifício paternalista, onde questões que vão desde as fontes de finanças do

partido, assim como processos de seleção e recrutamento são dependentes de

seu líder, fundador e proprietário[7]. Sua organização interna é composta por

tecnocratas e profissionais contratados, os quais também podem ser funcionários

terceirizados cooptados entre uma de suas próprias empresas. Os funcionários do

partido trabalham, então, como analistas e consultores em uma espécie de agência

de defesa de interesses pessoais do proprietário do partido, cujo objetivo é o ganho

de poder político para o mesmo (Paolucci, 2006).

O Forza Italia, de Silvio Berlusconi, foi um dos primeiros exemplos de partido

empresa de negócios bem-sucedidos estudados, sendo também considerado como

o mais radical tipo de Business-firm Party. O modelo de Berlusconi tem sido ?

clonado? e readaptado por muitos novos partidos das jovens democracias da

Europa Central, como a República Tcheca [8] , Polônia [9] , Romênia [10] , Bulgária

[11] , Áustria [12] e etc. A repetição de seu sucesso eleitoral meteórico, em muito

contando com a ajuda de retóricas anti-corrupção, anti-partidos, anti-políticos

tradicionais e suas elites, vem se configurando como um desafio para a democracia

liberal e seus modelos de organizações partidárias (Barbosa, 2016).

2. O Diário da Desilusão e Crise dos Partidos Tradicionais Ilustrado

Através de Décadas de Pesquisas de Opinião Pública na República Tcheca

As eleições de 1992, tiveram como grande vencedor o Partido Liberal

Democrata (ODS), com Vaclav Klaus como primeiro-ministro e, Vaclav Havel,

do Fórum Cívico, como presidente. A divergência de ideias entre ambos os

transformaria em seus principais rivais políticos e a queda de braço entre as duas

lideranças findou com a vitória final de Klaus e seu projeto de modernidade

neoliberal, onde os intelectuais dissidentes do partido comunista (desde a década

de 1960) e principais articuladores da revolução, não teriam lugar. O projeto de

Klaus já custaria logo de início a dissolução da República da Tchecoslováquia.

Um choque para a população. Os escândalos envolvendo a forma como se

exerceram os processos de privatizações e as más condutas financeiras, durante a

década de 1990[13], foram os primeiros exemplos de que as elites herdeiras de

1989 estavam menos interessadas na reconstrução democrática do estado e mais

mobilizadas por interesses pessoais e de curto prazo. Desmantelava-se o estado

autoritário, mas sua fraca e baixa autonomia fora mantida e um amplo espaço para

práticas de captura do estado foi aberto (Barbosa, 2016). Se nos tempos de regime

de força o estado era refém do partido comunista, nos novos tempos mudava-se

apenas seu sequestrador.

O primeiro ano pós regime autoritário foi marcado por uma grande

expectativa. No país que protagonizou a chamada Revolução de Veludo, a mais

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bem-sucedida das revoluções de 1989, os ânimos com os novos tempos puderam

ser conferidos nos altos índices de participação eleitoral em sua primeira eleição,

conforme ilustra a tabela 1:

Tabela 1

Participação Eleitoral na Tchecoslováquia

International Idea

Quanto mais as capacidades dos partidos tchecos (e nesse período também

os partidos eslovacos) eram postas à prova, mais a população entendia que as

promessas dos reformistas de 1989 nunca seriam realizadas. A dissolução da

Tchecoslováquia ou o ?divórcio de veludo?, em 1993, foi o primeiro sintoma

de demonstração da incapacidade dos primeiros partidos políticos tchecos

(e eslovacos) em captar os desejos de sua população. Uma velha sombra do

autoritarismo de outrora agora se fazia presente na conduta política da nova

elite dirigente, sendo violentamente simbolizada na forma como os partidos

políticos atuaram no processo que levou a dissolução do país ao descartar

qualquer preocupação em ouvir a voz das massas (Barbosa, 2016). Originava-se

aí, o primeiro passo para a crescente desconfiança nas organizações partidárias

herdeiras da democratização, com a queda de participação política eleitoral dos

cidadãos logo nas eleições seguintes. Conforme mostra a tabela 2:

Tabela 2

Participação Eleitoral na Tchecoslováquia

International Idea

Os dados fornecidos pelos pleitos de 1990 e 1992 (tabelas 1 e 2) nos permitem

verificar o nível de entusiasmo da população tchecoslovaca e a importância que

estes viam em seu envolvimento no processo eletivo, assim como seu grau de fé

nas mudanças que as novas instituições políticas prometiam. A primeira eleição

pós 1989 contou com uma participação maciça de eleitores, registrando 96,33%

de comparecimento nas urnas. Número que cairia 8,65% nas eleições seguintes,

muito em decorrência do clima de tensão que se fazia através da atuação política

das principais lideranças dos dois territórios (Vacláv klaus, pela parte tcheca,

e Vladimir Meciar, pela parte eslovaca). As promessas de construção de um

mundo novo e democrático caminharam rumo à desconstrução da república

binacional da Tchecoslováquia. Um fim estranho para uma nova democracia

onde as novas elites dirigentes de um país, que anos antes ressaltava a soberania

de sua população, nem sequer a consultava sobre qualquer desejo de separação.

A dissolução sem consulta colocaria os partidos políticos em xeque com a

população, iniciando um período de ceticismo, onde os níveis de participação

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eleitoral nunca mais ultrapassariam pouco mais de 60% dos eleitores, conforme

mostra a tabela 3:

Tabela 3

Participação Eleitoral na República Tcheca em ordem cronológica

International IDEA

De 1992 a 1996 registra-se uma queda de 8,39%. Em 1998, em grande

parte atribuída aos escândalos de corrupção que vieram à tona envolvendo os

democratas cívicos (ODS), o número cai em 2,29%. Nas eleições de 2002,

registra-se o maior recorde de baixa participação eleitoral, com apenas 57,95% de

presença dos eleitores, muito em decorrência de ser a vez dos sociais democratas

(CSSD) terem alguns de seus principais políticos pegos em práticas corruptas.

Em 2006 a situação melhora um pouco, registrando um crescimento de 6,52%.

No pleito de 2010, ano que marcou a primeira ascensão de novos partidos no

parlamento [14] tem-se o terceiro pior registro de participação eleitoral, com o

registro caindo mais 1,87%. Finalmente, nas últimas eleições realizadas no país,

em 2013, a queda na participação registrou mais 3,12%, colocando o pleito de

2013 como o segundo pior da história política tcheca e também se notabilizando

pela entrada de mais dois novos partidos no parlamento [15] .

A baixa participação é fruto do comportamento cético do eleitorado, assim

como também é efeito da desilusão com os partidos políticos herdeiros

da democratização e suas estratégias de governança. Desde a dissolução, as

organizações partidárias tchecas se viram diante de um problema desafiador,

relacionado com a manutenção de sua relevância e suas capacidades de responder

os anseios populares. No entanto, falharam, e passou-se a assistir, quase que

diariamente, através dos principais meios de comunicação, notícias veiculando a

nova elite dirigente e seu envolvimento com diversas práticas de corrupção.

A frustração com os partidos políticos, na República Tcheca, instaurou um

clima de ceticismo. Com efeito, assistiu-se o gradativo afrouxamento dos laços

entre os partidos políticos e os eleitores até, finalmente em 2010 e 2013, a

destituição dos laços de confiabilidade manifestados nas urnas. O distanciamento

ocorre em paralelo à crescente reprovação dos principais partidos políticos

tchecos após o envolvimento destes com práticas de corrupção. Há também o

problema promovido pela parecença entre os partidos políticos. A parecença

não é algo similar apenas no programa de governo ou no discurso político nos

momentos de campanha, mas na forma de gestão da governança, incluindo o

uso da máquina pública em benefício próprio. A repetição do padrão (ruim)

de governança, reprovado anteriormente, pelo novo partido a quem o povo

depositou sua fé, causou uma nova frustração, pois, de fato, tem-se o sentimento

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de impotência, onde ninguém será capaz de cumprir com as promessas feitas.

Com efeito, indiferença, frouxidão de laços e a praticamente extinção da filiação

partidária são as maiores heranças que a parecença pôde gerar, tal conforme

apontaremos como as características desse período na República Tcheca (mas que

também se pode verificar em toda Europa Central), no qual se instaurou uma

atmosfera de marasmo político que fomentou a ascensão antiestablishment.

A tabela 4 aborda os níveis de percepção dos eleitores tchecos sobre a

importância que estes acreditam ter para seus representantes políticos. Nota-se

que, de 2009 a 2015, as opções ?a grande maioria? e ?uma boa parte? figuram

com níveis baixíssimos de crença, exceção feita a opção ?todos?, a qual não

obteve porcentagem para figurar na tabela. Por outro lado, os índices obtidos

pelas opções ?pouco mais da minoria?, ?a grande minoria? e ?nenhum?, mostram

que para os eleitores tchecos (nesse período) a vocação política dotada do velho

espírito público é atividade encontrada apenas na minoria ou pouco mais da

minoria de seus políticos.

Tabela 4

Importância que os eleitores tchecos acreditam ter para seus representantes. 2009-2015 (%)

CVVM

Um outo dado interessante (tabela 5), pode ser encontrado em um quadro de

análise que avalia a força e fraqueza da relação eleitores e partidos políticos em

uma cronologia de nove anos (1995-2004). Para nós, um importante caminho

para o sucesso dos novos partidos já se mostra pavimentado nesse período

de tempo. A trajetória de análise, findada em 2004, deixa claro o quadro de

afrouxamento das relações entre eleitores e seus partidos preferidos. Mais da

metade dos entrevistados declararam divergir de seu partido em muitas questões

(25%), enquanto 28% não se identificam com qualquer partido e optaram por

aquele que o incomodava menos. Ceticismo e frustração, se por um lado corroem

os laços entre sociedade civil e seus representantes, produzem, por outro, a

proliferação do ?simpatizante morno?, aquele que vota no partido que menos

lhe dá motivos para rejeição sem mesmo ter uma forte identificação com suas

propostas. Na análise cronológica geral, observa-se que até 1997 a participação

morna era de 10 pontos percentuais menor. O ano de 1998 representa um

ponto significativo de mudança. Conforme as razões já expostas em linhas acima,

a participação de eleitores convictos passa a diminuir consideravelmente no

período subsequente.

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Tabela 5

Atitudes dos eleitores frente a seus partidos preferidos ? 1995-2004 (%)

CVVM

A tabela 6 ilustra a percepção da população tcheca sobre os partidos políticos

do país. Foi elaborado um quadro comparativo com as respostas obtidas entre os

anos de 2005 à 2011:

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Tabela 6

Visão sobre os Partidos Políticos dos cidadãos Tchecos[16]

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CVVM. Último acesso 09/2015

De acordo com os dados, para mais de 80% dos entrevistados, até 2011, os

partidos políticos são percebidos como organizações auto-interessadas, as quais

só se aproximam do eleitor comum no período de campanha eleitoral e sem

grandes diferenças entre si. Entre os índices com maior elevação de negatividade

no período abordado, destaca-se a percepção de que os partidos políticos são

instituições corruptas, recebendo um aumento (constante a cada ano de pesquisa)

de 13% quando comparado com o primeiro ano de entrevistas. Observa-se

também, que ao longo do período em que a pesquisa foi realizada, menos

de 50% dos entrevistados declararam acreditar que os partidos proporcionam

participação em atividades políticas. Importante observar que em um espaço de

um ano (2010-2011) as opiniões sobre a necessidade dos partidos políticos para

a promoção de interesses de variados grupos e classes sociais caiu 11%, enquanto

a crença de que partidos são necessários para se fazer uma democracia caiu 10%.

O quadro 1 acompanha a problemática abordada sobre a crise contemporânea

da filiação partidária, nos fornecendo um gráfico comparativo entre os anos

2003-2011, onde os entrevistados foram questionados sobre a possibilidade de

filiação partidária em algum momento de suas vidas.

Quadro 1

Quadro comparativo sobre intenções de filiação partidária

CVVM. Traduzido pelo autor.

Conforme pode ser observado, a filiação partidária também é um fenômeno

de grande rejeição no território tcheco. A resposta relativa a ?não ter pensado?

obteve em oito anos de pesquisa um aumento de 8%, e conforme o gráfico nos

permite ver, trata-se de um número que nunca esteve abaixo da casa dos 80%

dos entrevistados. Da mesma forma, o número entre aqueles que responderam

sim,obteve uma queda de 6%. E em nenhum momento se mostrando pouco

maior de 10%. Não à toa que as eleições de 2010, para o parlamento tcheco,

amargaria, até então, o segundo pior registro de comparecimento às urnas de toda

a história desta jovem democracia do centro-leste europeu.

O gráfico 1, de comparação sobre a orientação política geral dos cidadãos

tchecos mostra que durante o período de 2008 a 2013 o número de

eleitores identificados com alguma corrente fundamental de opinião política

se enfraqueceu gradativamente. A corrente que mais sentiu o impacto foi a

ecológica-ambientalista, registrando ao longo dos cinco anos de pesquisa uma

perda de 16% de eleitores identificados.

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Gráfico 1

Orientação Política dos Eleitores Tchecos. Resultado geral 2008-2013 (%)

CVVM

Os dados singulares, para cada ano de pesquisa, nos trazem uma informação

surpreendente. Foi solicitado aos eleitores que marcassem duas opções de

preferência política. Na primeira, os entrevistados assinalaram sua principal

preferência, enquanto na segunda, apontaram outra possibilidade de voto.

Destacamos na tabela 7, os números que figuram entre os eleitores que declararam

não possuir afinidades com qualquer das correntes políticas presentes na pesquisa.

Conforme é notado, 14% dos entrevistados não conseguiram apontar, entre

as indicações, alguma corrente preferencial, enquanto 46% foram incapazes de

apontar uma segunda opção. A soma sugere um total de 60 % de entrevistados

sem qualquer identificação com alguma corrente política fundamental. No

entanto, se levarmos em conta que os mesmos 14% sem uma primeira preferência

podem ter também assinalado a preferência 2, o resultado cai para um ainda

considerável número de 32% de eleitores sem uma segunda opção. Por outro

lado, é bem provável que outros que tenham assinalado ter uma primeira opção

de preferência, tenham assinalado não ter uma segunda. Mas quando somamos

as primeiras preferências entre os ?sem resposta?, aqueles que ?não sabem? e a

opção ?outros?, temos um total de 26% de entrevistados sem identificação com

qualquer das correntes políticas fundamentais que podem ser encontradas nos

principais partidos tchecos estabelecidos.

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Tabela 7

Orientações políticas 2010 (%)

CVVM.

Nota Os dados da Terceira coluna representam a porcentagem de entrevistados que se identificam com a primeira e segunda escolha.

3. Novos Partidos e Terremoto Antiestablishment: As eleições de 2010 e

2013

Os resultados das eleições legislativas de 2010 e 2013 foram chamados de ?

terremoto político? por diversos meios de comunicação da Europa Central.

O apoio para com os dois maiores partidos caiu para um mínimo histórico,

e o Partido Democrata Cristão, terceiro maior do país, deixou a câmara

baixa do parlamento pela primeira vez na história. Além disso, dois novos

partidos políticos ? Assuntos Públicos (VV- Ve?ejné veci) e TOP09 ? ganharam

representação parlamentar e entraram na coalizão governamental (ver tabela 8).

Em 2013, foi a vez do ANO2011 (SIM2011) e USVIT (Alvorecer) obterem

um meteórico sucesso eleitoral e conquistarem vagas no parlamento em suas

primeiras eleições disputadas, a qual também teria ficado marcada por mais um

fracasso recorde de comparecimento às urnas, desbancado a eleição anterior

(2010) do rankingde segundo pior resultado eleitoral da história do país (ver

tabela 9).

Tabela 8

Eleições Legislativas 2010

CZSO

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Tabela 9

Eleições Legislativas 2013

CZSO

A eleição de 2010 foi realizada em condições específicas, as quais muitas se

repetiriam em 2013. Conforme mostram os dados apresentados, ao baixíssimo

nível de ligação entre os eleitores e partidos políticos, o período de recessão

econômica, devido à crise do euro, em 2007, e a crescente importância dos

problemas de corrupção, nos quais os partidos estabelecidos vieram a se envolver,

somava-se agora ao mais alto nível de insatisfação popular com a política (tabela

10). Trata-se de um sentimento de reação a uma crise. Os novos partidos e suas

lideranças souberam combinar as falhas dos partidos tradicionais e as angústias

dos cidadãos, criando eficazes argumentos acerca da crise de autoridade das

organizações políticas estabelecidas e sua completa falência e incapacidade de

atender as crescentes demandas da população.

Tabela 10

Satisfação com a situação política pré-eleições. 1996-2010 (%)

CVVM

Em 2010, no período pré-eleitoral, as pesquisas de opinião pública acerca da

situação política do país continuavam apontando o estado de enfermidade e o

calvário a ser seguido pelos partidos estabelecidos. Suborno e corrupção eram

apontados como os fatores que mais influenciavam as tomadas de decisão. Foi

solicitado aos entrevistados que avaliassem as opções selecionadas em uma escala

de 1 a 7, onde 1 é o principal fator de influência e 7 um fator sem qualquer

influência. Na tabela 11, vemos que ?suborno e corrupção? são apontados com

as avaliações mais altas nas três primeiras colocações, tendo logo em seguida a

companhia de ?grupos de interesse e lobbies?, os quais figuram no segundo lugar

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geral e segundo lugar nos três primeiros graus de avaliação de influência. O menor

impacto de influência foi atribuído aos cidadãos, com 24% no sétimo e último

grau de avaliação de critérios de importância e força de influência. Dessa forma,

conclui-se que de acordo com a percepção do eleitor tcheco, o processo decisório

nacional é exercido através de lobbies e grupos de interesse, sendo dominado

por práticas corruptas e de suborno em um ambiente onde o povo não exerce

qualquer influência.

Tabela 11

Opinião sobre o que mais influencia o processo decisório. 2010 (%)

CVVM

Associada com a descrença nos partidos políticos estabelecidos, se encontra a

baixa moralidade percebida de seus membros perante o eleitorado. De 2002 a

2015, a opinião de que os políticos devem ter suas condutas avaliadas com o maior

rigor possível nunca ficou em níveis menores que 58% (tabela 12), atingindo seus

maiores índices de avaliação nos piores anos eleitorais da história da República

Tcheca (2002, 2010 e 2013). Os eleitores também manifestaram o desejo de

ver seus representantes sendo julgados sem critérios de privilégio, o que, por si

só, ilustra o cansaço com a cultura da impunidade, e também de acordo com

os atos que cometem fora da vida pública, o que demonstra o desejo de ver no

representante político um cidadão moral de conduta exemplar (tabela 17).

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Tabela 12

Avaliação da moralidade dos políticos tchecos. 2002-2015 (%)

CVVM. Traduzido pelo autor.

Em onze anos de pesquisa e monitoramento da opinião pública (tabela 13), a

corrupção tem sido percebida como fato presente na maioria dos agentes públicos

do país. Suborno e corrupção aparecem nas pesquisas como uma prática da

maioria dos políticos, obtendo seu maior índice de avaliação (48%) em 2014.

Desde 2010, a presença de suborno e corrupção passou a gradativamente ser

percebida como praticada por quase todos os políticos. Por sua vez, avaliações

sobre tal presença em ?menos da metade dos políticos? eram maiores e iguais à ?

quase todos? até 2010, e avaliações como ?muito poucos são corruptos? nunca

conseguiram números expressivos.

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Tabela 13

Percepção de suborno e corrupção entre agentes públicos. 2004-2015

CVVM. Traduzido pelo autor.

Em 2015, as instituições percebidas com os níveis mais altos de corrupção na

República Tcheca (tabela 14) foram [17] : os partidos políticos (44%) e o setor de

distribuição dos subsídios europeus (36%); ministérios e agências centrais (25%)

e o setor de construção civil (24%). Interessante é a percepção demonstrada

no critério seguinte, o qual desce o nível de percepção da corrupção nas

instituições tchecas para ?grande corrupção?, onde os entrevistados apontaram,

em colocações quase invertidas, as mesmas instituições presentes no mais alto

nível de avaliação presentes no critério anterior: os ministérios e agências centrais

(33%), o setor de construção civil (32%), os partidos políticos e o setor de

distribuição dos subsídios europeus (ambos com 30%).

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Tabela 14

Nível de corrupção nas instituições da vida pública. 2015 (%)

CVVM[18]. Traduzido pelo autor.

Conclusão

Logo nos primeiros anos de nova república, as elites já teriam mostrado sua

incapacidade de ouvir as massas na condução dos negócios públicos mais

importantes do país. A dissolução de uma república binacional da ?noite para

o dia? e sem qualquer consulta popular, equivaleu a um balde de água fria

nos sonhos construídos através dos discursos reformistas de 1989, fazendo

lembrar o autoritarismo de outrora. Seu reflexo começou a ser visto no cada

vez mais agravante e decrescente número de cidadãos tchecos que participam

das eleições. O envolvimento dos principais partidos políticos em esquemas de

corrupção começa a implodir de vez a crença nas organizações partidárias pós

1989. Com a população desiludida, a maioria dos políticos são percebidos como

atores públicos corruptos com baixa moralidade. A política é vista como o lugar

por excelência das atividades de lobistas e grupos de interesses, onde desejos

políticos e sociais se realizam com práticas de suborno e corrupção. No mesmo

ambiente político nacional, os problemas mais sérios são ocultados dos cidadãos

e quando emergem em escândalos, por exemplo, nada acontece. Os cidadãos

passam a enxergar a si próprios como um elemento indiferente para as lideranças

políticas, só merecendo um lugar de importância no ano eleitoral. Com efeito,

esse mesmo cidadão politicamente fadigado se vê incapaz de optar por alguma

corrente política fundamental representada nos partidos estabelecidos. Ele se

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afasta de atividades cívicas como filiação partidária, a qual nem mais passa pela

sua cabeça. Esse afastamento da participação, por sua vez, o converte em um

eleitor descontente pronto para penalizar seu(s) partidos(s), votando em um

novo partido ou não comparecendo às urnas, abrindo também espaço para que

eleitores mornos e de opiniões efêmeras passem também a fazer diferença no

pleito.

Esse grupo de fatores pavimentou o caminho de sucesso para os novos partidos,

cujas características gerais podem ser enumeradas da seguinte forma: 1) Discurso

da promoção de uma Nova Política: através de exigências quanto a mudança

da forma como a política é conduzida, sendo oferecida em seu lugar uma

política ?anti-política?; 2) Personalidade: exercida na forma como lideranças

carismáticas se apresentam aos eleitores, se denominando cidadãos descontentes

ou políticos ?anti-políticos? sem passado ou experiência com a política; 3) Posição

centrista e recusa ideológica: projeção das clivagens tradicionais de esquerda/

direita como culpadas por toda ineficiência administrativa e direcionamento para

a chamada ideologia centrista e cidadanista; 4) Foco discursivo no combate à

corrupção e ao establishment, prometendo combater as práticas de corrupção

e renovar a política, projeto que só será bem-sucedido com a reprovação dos

partidos tradicionais e a retirada de seus políticos do parlamento; 5) Democracia

direta: presente nas promessas de capacitação dos cidadãos para o exercício da

democracia direta e participação popular na coautoria das políticas públicas do

partido (podendo tal realização ser prometida através de seu websitena internet);

6) Novos nomes: mais diretos e simplificados, que reforçam tanto a recusa das

clivagens tradicionais como a política dos partidos tradicionais (Barbosa, 2017).

Durante parte de 2014 e 2015, defendemos que esta tendência adotada pelos

novos partidos centro-europeus continuaria a crescer. Hoje, nota-se a presença

de partidos com estruturas, estilos e estratégias discursivas e de mobilização

semelhantes por toda a Europa, tendo no En Marche, de Emmanuel Macron, seu

último exemplo[19]. A maior parte do sucesso eleitoral desses novos partidos se

fez através da astúcia com que seus membros construíram suas retóricas de ataque

a seus rivais (ver Barbosa, 2017). Eles perceberam a desilusão e o distanciamento

entre partidos e eleitores devido ao modelo de governança por estes adotados,

ouviram as principais demandas da população e incluíram algumas em suas

plataformas de governo. Mas o principal seria a adesão, em suas estratégias

políticas, a uma construção da imagem de si em semelhança com o povo e

antagonista àquela com que seus adversários políticos se mostravam perante os

olhos da população. Contra a figura do corrupto e dos partidos corrompidos,

edificou-se uma ?nova elite pura?, dignitária do poder político e redentora da

população.

Referencias

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Flávio Rodrigues Barbosa[1]. Desilusão Política, Crise dos Grandes Partidos e Ascensão de Novas Organizações Político-partidárias na Europa ...

______. Partidos Políticos Antiestablishment na Europa Central Pós 1989: uma lógica

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Notas

[1]Doutor pelo PPGCSO/UFJF, onde também foi bolsista CAPES/PDSE na Vysoka Skola

Ekonomicka v Praze (Prague University of Economics). Email: f.rodriguesbarbosa@gmail.com

[2]Dois dos partidos governistas vistos como fundamentais para o sucesso econômico da

República Tcheca durante a década de 1990, o Partido Democrata Cívico e a Aliança Cívica

Democrática, se envolveram em escândalos de financiamento partidário em 1997, quando se

tornou evidente que o dinheiro doado teria sido em troca de influência e tratamento preferencial

(Barbosa, 2016).

[3]Dvoráková, Vladimira. Corruption in Post-communist States. Causes and Impacts. Graduate

Conference on Corruption and Anti-Corruption. University of Sussex, Brighton. 12-13 January,

2015.

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[4]A Captura do Estado (Hellmann et al, 2000) é uma bem organizada atividade

institucionalizada que faz uso tanto do funcionamento já existente das instituições estatais

legítimas, mas que também se utiliza de mudanças legais para alterar o desenho institucional das

mesmas, de forma que estas passem a servir melhor os interesses de seus captores. É caracterizada

pelo considerável ganho de controle sobre o Estado por (novos e) poderosos atores econômicos

privados que utilizam de sua prática para fins de extração de vantagens próprias. Da mesma

maneira que as demais formas de corrupção, a captura do estado é um método para aumentar os

ganhos privados. De acordo com Garay Salamanca (2008), o objetivo final da captura do Estado

pelos agentes privados é promover a Reconfiguração Cooptada do Estado, em outras palavras,

a transformação da máquina pública num instrumento de defesa dos interesses dos poderosos

agentes privados que passam a dominá-la.

[5]Um tratamento mais específico pode ser conferido em: Barbosa; Flávio Rodrigues. O Teatro

das Representações Trocadas. Corrupção, Ascenção Antiestablishmente e o Partido-empresa de

Negócios na Europa Central Pós-1989. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em

Ciências Sociais. Universidade Federal de Juiz de Fora. 2016.

[6]O modelo de Partido-empresa de negócios teve seus dois primeiros protótipos desenvolvidos

na literatura política através dos estudos de caso proporcionados entre o Forza Italia, de Silvio

Berlusconi e Unión de Centro Democratico, de Adolfo Suarez, na Espanha pós-franco.

[7]A figura do empresário político não é uma novidade exclusiva do modelo de partido-empresa

de negócios. A novidade, na abordagem de Hopkin e Paolucci (1999) e Paolucci (2006), reside

no fato de que o empresário, aqui, se oferece para coordenar e liderar o grupo latente em troca

de um elemento de ?lucro? privado, entendido como o prestígio e as vantagens materiais trazidas

pela ocupação de um cargo público. De acordo com os autores, ?o partido político deixa de

ser uma organização voluntária com objetivos essencialmente sociais para se tornar uma espécie

de empresa de negócios, onde os bens públicos produzidos são incidentais para os verdadeiros

objetivos, fazendo da política, na terminologia de Olson, um subproduto (Hopkin e Paolucci,

1999, p. 311) ?.

[8]Veci Verejne, ANO2011, ÚSVIT e SPD (Svoboda a p?ímá demokracie ? Liberdade e

Democracia Direta).

[9]Twój Ruch (Seu Movimento).

[10]PP-DD (Partido do Povo ? Dan Diaconescu).

[11]Simeon II.

[12]Team Stronach (Equipe Stronach).

[13]Uma lista e abordagem dos principais escândalos de corrupção e captura do estado, na

República Tcheca pós 1989, pode ser conferido em Barbosa (2016).

[14]TOP09, e VV.

[15]ÚSVIT e ANO2011.

[16]Nota: Extrapolação de até 100% é uma resposta espontânea não sei. + É a versão da soma

das respostas "concordo totalmente" e "concordo um pouco". - é o total de variantes das respostas

"concordo inteiramente" e "discordo um pouco".

[17]Nossa seleção abordou apenas os quatro maiores níveis percentuais.

[18]A tabela de avaliação classifica 5, para alta corrupção; 4, para grande corrupção; 3, para

corruptas; 2, para quase pouca corrupção e; 1, para sem corrupção.

[19]No entanto, a partir de 2016, muitos acadêmicos abandonaram a classificação

antiestablishment, passando a se dividir entre aqueles que continuam atrelando a ascensão

política desses novos tipos de agremiações políticas como um neopopulismo e, outros que tratam

do assunto classificando-o como o fenômeno post-partisan.O artigo do autor Flávio Rodrigues Barbosa[1] 

f.rodriguesbarbosa@gmail.com

Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF, Brasil

Um partido político é uma organização de cidadãos que compartilham ideologias, princípios e interesses comuns, unindo-se com o objetivo de conquistar e exercer o poder político para implementar um programa de governo. A própria palavra "partido" vem da ideia de divisão, representando uma "parte" da sociedade e uma visão específica sobre como o Estado deve ser administrado.

Do ponto de vista prático e legal, suas principais características e funções incluem:

 Pessoa Jurídica de Direito Privado: Embora tenham relevância pública direta, eles operam legalmente sob regras de direito privado, possuindo autonomia interna para sua organização.

 Mediação entre Povo e Estado: Funcionam como uma ponte burocrática e ideológica, traduzindo as demandas da população em propostas legislativas e ações governamentais.

Recrutamento e Treinamento: Identificam e preparam novas lideranças, além de organizar o debate político em torno de pautas sociais, econômicas e estruturais.

Para verificar os requisitos constitucionais específicos de candidatura e as regras locais sobre filiação partidária, consulte o portal oficial da justiça eleitoral ou do órgão de governança relevante.

E assim perdem as democracias. Com falta de representatividade na politica .

Confira a reportagem no Portal G1 da Rede Globo               .https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/10/10/de-desilusao-com-a-politica-a-viagens-abstencao-nas-eleicoes-de-2026-e-a-maior-desde-1998.ghtml

E assim caminha a humanidade.

Imagem do Portal G1 da Rede Globo.