segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Populismo Global.

  A principal diferença entre a direita e a extrema direita reside na aceitação do pluralismo democrático e na intensidade de certas pautas ideológicas. Enquanto a direita tradicional atua dentro das instituições vigentes, a extrema direita frequentemente adota posturas antissistema ou de exclusão de minorias

Direita Convencional

A direita moderada ou liberal-conservadora foca na manutenção da ordem social e na liberdade econômica, respeitando as regras democráticas. 

Economia: Defesa do livre mercado, privatizações e redução do papel do Estado.


Sociedade: Fomento a valores tradicionais e à hierarquia social, mas convivendo com a diversidade política.


Política: Atuação por meio de partidos tradicionais e respeito às instituições democráticas. 


A extrema direita radicaliza os princípios da direita e pode apresentar traços autoritários. 

Nacionalismo Radical: Defesa de uma identidade nacional "pura", muitas vezes com viés chauvinista ou xenófobo.


Antissistema: Críticas severas às instituições democráticas e ao pluralismo, frequentemente promovendo lideranças fortes que se colocam como "outsiders".


Rejeição de Minorias: Discursos que marginalizam grupos específicos (imigrantes, minorias religiosas ou raciais) sob a justificativa de preservar a cultura nacional.


Exemplos Históricos e Atuais: Inclui desde o fascismo histórico até movimentos contemporâneos que adotam táticas de polarização extrema e contestação da legitimidade de adversários. 

O avanço de forças conservadoras e da extrema direita na Europa contemporânea é impulsionado por crises econômicas sistêmicas, reações identitárias contra a imigração e o ceticismo em relação às instituições da União Europeia.

Crises Econômicas: A desestruturação do estado de bem-estar social e as pressões sobre a classe média geradas pelas transformações pós-industriais criam um terreno fértil para o populismo de direita.

Crise Migratória e Identidade: A retórica anti-imigração (especialmente direcionada a muçulmanos) e a defesa da soberania cultural nativa tornaram-se o núcleo unificador desses partidos.

Euroceticismo: A rejeição às diretrizes centralizadoras da União Europeia alimenta o apelo nacionalista e protecionista em diversos países do continente.

Conservadorismo e extrema-direita  

na Europa e no Brasil*

Conservatism and far-right forces in Europe and Brazil

Michael Löwy

Diretor de Pesquisas emérito do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS)/Paris.

michael.lowy1@gmail.com

Resumo: Temos assistido, na Europa dos últimos 

anos, a um espetacular ascenso político e eleitoral 

de forças de extrema-direita, racistas, xenófobas, 

fascistas ou semifascistas. Um fenômeno que não 

pode ser unicamente explicado pela crise econô

mica, já que em dois dos países mais atingidos por 

ela, Portugal e Espanha, a extrema-direita é pouco 

presente no cenário político, enquanto tem um 

papel muito significativo em países que pouco 

sofreram com essa crise (Suíça, Áustria). No 

Brasil não temos partidos racistas, a extrema-di

reita se manifesta no chamado a um golpe militar.

Palavras-chave: Extrema-direita. Fascismo. Ra

cismo. Golpismo.

A extrema-direita na Europa

Abstract: Lately in Europe, we have seen a 

spectacular political and electoral increase of the 

far-right forces, which are racist, xenophobic, 

fascist or semi-fascist. Such a phenomenon cannot 

be explained solely by the economic crisis, since 

in two of the most affected countries — Portugal 

and Spain — the far-right force´s presence is little 

in the political scene, while it has a very significant 

role in countries which did not suffer a lot because 

of such a crisis (Switzerland, Austria). In Brazil 

we do not have racist parties, the far-right force 

manifests itself in the calling of a military coup.

Keywords: Far-right. Fascism. Racism. Coup.

As eleições europeias na França confirmaram uma tendência que, há 

alguns anos, já estava aparente: o crescimento do apoio à Frente 

Nacional. Essa evolução não é especificamente francesa: por qua

se todo o continente europeu vemos o espetacular levante da extrema- direita. 

* Tradução de Deni Alfaro Rubbo e Marcelo Netto Rodrigues.

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Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 124, p. 652-664, out./dez. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0101-6628.044

O fenômeno não encontra precedentes desde os anos 1930. Em muitos 

países, a direita xenófoba já havia obtido entre 10% e 20% dos votos duran

te a última década; em 2014, em três países (Reino Unido, Dinamarca, 

França) alcançaram de 25% a 30%. Além disso, sua influência é maior do 

que o seu próprio eleitorado: suas ideias contaminam também a direita 

“clássica” e até parte da esquerda social neoliberal. O caso francês é o mais 

sério deles, com o avanço da Frente Nacional excedendo até mesmo as 

previsões mais pessimistas. Como escreveu em um editorial recente o site 

Mediapart, “são cinco minutos para meia-noite”.

Pode essa situação ser comparada à Europa dos anos 1930? Sim e não. 

É a primeira vez, desde os anos 1930, que a extrema-direita alcança tal in

fluência na política europeia. Mas a história nunca se repete. Há muitas di

ferenças entre as conjunturas do passado e as do presente. A mais óbvia é 

que, depois de 1933, dois dos mais importantes países da Europa, Itália e 

Alemanha, tiveram regimes fascistas totalitários. Afortunadamente, nada 

comparável existe hoje! Uma outra diferença importante é que os interesses 

da burguesia hoje são esmagadoramente favoráveis à globalização capita

lista neoliberal e hostis ao nacionalismo econômico — um conteúdo básico 

de qualquer projeto fascista ou semifascista. Por outro lado, a esquerda 

antifascista, tanto em sua versão mais radical — marxistas e anarquistas 

— quanto em sua forma mais moderada, parlamentar, da Frente Popular, era 

muito mais forte nos anos 1930 do que hoje. Outra diferença é que, parado

xalmente, ao contrário da época atual, a maioria dos movimentos fascistas 

dos anos 1930, com a notável exceção da Alemanha (e, em uma escala 

muito menor, França), não era abertamente racista. Isso se aplica, ao menos 

até antes de 1938, aos movimentos liderados por Mussolini, Franco e Sala

zar na Itália, Espanha e Portugal.

A atual extrema-direita europeia é muito diversa, uma variedade que vai 

de partidos abertamente neonazistas, como o Aurora Dourada na Grécia, a 

forças burguesas perfeitamente bem integradas ao jogo político institucional, 

como o suíço UDC. O que eles têm em comum é o seu nacionalismo chauvi

nista — e, portanto, oposição à globalização “cosmopolita” e a qualquer 

forma de unidade europeia —, xenofobia, racismo, ódio a imigrantes e ciganos 

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(o povo mais antigo do continente), islamofobia e anticomunismo. Além 

disso, em sua maioria, se não em sua totalidade, são favoráveis a medidas 

autoritárias contra a “insegurança” (usualmente associada a imigrantes) por 

meio do aumento da repressão policial, penas de prisão e pela reintrodução 

da pena de morte. A orientação reacionária nacionalista, na maioria das vezes, 

é “complementada” com uma retórica “social”, em apoio às pessoas simples 

e à classe trabalhadora (branca) nacional. Em outras questões — por exemplo, 

neoliberalismo, democracia parlamentar, antissemitismo, homofobia, miso

ginia ou secularismo — esses movimentos são mais divididos.

Muitos “especialistas” e comentaristas de mídia anunciam que fascismo 

e antifascismo são fenômenos pertencentes ao passado. Acreditamos que a 

realidade é um tanto mais complexa. É óbvio que hoje não vemos partidos 

fascistas de massa comparáveis ao NSDAP na Alemanha dos anos 1930, 

mas já naquele período o fascismo não se limitava apenas a esse modelo: o 

franquismo espanhol e o salazarismo português eram muito diferentes dos 

modelos italiano e alemão. Até mesmo partidos que tentaram imitar o exem

plo alemão, como o Partido Popular Francês (PPF) fundado por Jacques 

Doriot em 1936 — uma organização claramente fascista que viria a se tornar 

uma das principais forças colaboracionistas durante o regime de Vichy —, 

dificilmente podem ser comparados ao NSDAP alemão. Seria, portanto, um 

erro alegar que não existem partidos fascistas atualmente na Europa, por não 

termos nada equivalente aos nacional-socialistas dos anos 1930.

Uma tentativa de tipologia da extrema-direita europeia atual teria de 

distinguir pelo menos três tipos diferentes:

I. Partidos de caráter diretamente fascista e/ou neonazista: por exemplo, 

o Aurora Dourada, da Grécia; o Jobbik, da Hungria; o Setor Direito, da 

Ucrânia; o Partido Nacional Democrata, na Alemanha; e várias outras forças 

menores e menos influentes. Aqui também se incluiria a recente criação 

atípica francesa “nacional-socialista” e antissemita Reconciliação Nacional 

(Alain Soral).

II. Partidos semifascistas, isto é, com raízes e fortes componentes fas

cistas, mas que não podem ser identificados com o padrão fascista clássico. 

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É o caso, em diferentes formas, da Frente Nacional, da França; do FPÖ, da 

Áustria; e do Vlaams Belang, da Bélgica, entre outros. Seus líderes funda

dores tinham ligações estreitas com o fascismo histórico e com as forças que 

colaboraram com o Terceiro Reich, e vários de seus quadros não escondem 

a nostalgia pelo passado fascista. Mas suas lideranças atuais tentam “mo

dernizá-los”, apresentando uma imagem mais “respeitável”, por exemplo, 

substituindo antissemitismo por islamofobia. Por razões que explicaremos 

adiante, consideramos o conceito de “populismo” como totalmente inade

quado para caracterizar esses partidos.

III. Partidos de extrema-direita que não possuem origens fascistas mas 

compartilham do seu racismo, xenofobia, retórica anti-imigrante e islamo

fobia. Exemplos são a italiana Lega Nord, o suíço UDC (União Democrá

tica do Centro), o britânico Ukip (Partido de Independência do Reino Unido), 

o holandês Partido da Liberdade, o norueguês Partido Progressista, o Parti

do dos Verdadeiros Finlandeses (True Finns) e o Partido do Povo Dinamar

quês. Os Democratas Suecos são um caso intermediário, com origens cla

ramente fascistas (e neonazistas), mas que têm feito grandes esforços, desde 

os anos 1990, para apresentar uma imagem mais “moderada”.

Como em todas as tipologias, a realidade é mais complexa, e algumas 

dessas formações políticas parecem tomar parte de vários tipos diferentes. 

É preciso também levar em conta que isso não é uma estrutura estática, mas 

sim em constante movimento. Alguns desses partidos parecem mover de um 

tipo a outro. No momento, há somente um exemplo na Europa de um parti

do fascista tornando-se um partido de direita “normal”: o italiano Aliança 

Nacional, de [Gianfranco] Fini. Não se pode excluir a possibilidade que 

outros partidos similares sigam esse caminho, mas, por ora, não existem 

sinais de tal desenvolvimento.

Embora as ideologias dos partidos de extrema-direita possuam muitas 

similaridades, sua prática política não é homogênea. Enquanto alguns, como 

o francês FN, pretendem ser “antissistêmicos” e permanecem, por ora, fora 

das instituições de poder, outros, como o Partido da Liberdade da Áustria e 

o italiano Lega Nord têm, em anos recentes, participado de governos; os 

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partidos dinamarquês e holandês apoiaram seus governos sem se unir a eles, 

enquanto o suíço UDC e o norueguês Partido Progressista no momento fazem 

parte de coalizões governamentais.

A extrema-direita na Europa Oriental — as antigas “Democracias Po

pulares” — como o partido húngaro Jobbik, o Partido da Grande Romênia 

e o Atak, da Bulgária, assim como partidos similares nas Repúblicas Balcâ

nicas, Ucrânia, ex-Iugoslávia etc., têm algumas características comuns que 

são, em certa medida, distintas dos seus equivalentes no Ocidente: a) o bode 

expiatório é menos o imigrante estrangeiro do que as minorias nacionais 

tradicionais: judeus e ciganos; b) diretamente conectado a esses partidos ou 

tolerado por eles, gangues racistas violentas atacam, e algumas vezes matam, 

o povo Roma [cigano]; c) raivosamente anticomunistas, eles se consideram 

herdeiros dos movimentos nacionalista e/ou fascista dos anos 1930, que 

frequentemente colaboraram com o Terceiro Reich. O fracasso desastroso 

da assim chamada “transição” (para o capitalismo), sob a liderança de par

tidos liberais e/ou social-democratas, criaram condições favoráveis para o 

surgimento de tendências de extrema-direita.1

Qualquer que seja a sua transformação e “modernização”, a extrema--direita ainda representa uma ameça real à democracia. Um dos argumentos 

usados para mostrar que ela mudou e não tem muito mais a ver com o fas

cismo é a aceitação da democracia parlamentar e da via eleitoral para chegar 

ao poder. Bom, podemos lembrar que certo Adolf Hitler chegou a chanceler 

alemão por voto legal no Reichstag e que o marechal Pétain foi eleito chefe 

de Estado pelo Parlamento francês. Se a Frente Nacional chegasse ao poder 

por meios eleitorais — uma hipótese que tristemente não pode mais ser 

descartada —, o que sobraria de democracia na França?

Como explicar esse sucesso crescente da extrema-direita? O primeiro 

elemento de explicação é o processo de globalização capitalista neoliberal 

— também um poderoso processo de homogeneização cultural forçada — 

que produz e reproduz, em escala europeia e planetária, os identity panics 

1. Ver Dominique Vidal, Le ventre est encore fecond. Les nouvelles extrêmes droites européennes. 

Paris: Libertalia, 2012. p. 129-148.

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[pânicos de identidade], a obsessiva procura por fontes e raízes que leva a 

formas chauvinistas de religião, formas religiosas de nacionalismo, além de 

alimentar conflitos étnicos e confessionais.2

Diretamente relacionado a esse processo de hegemonia mundial neo

liberal do capital financeiro há um outro fator importante: a crise econômi

ca que tem despedaçado a Europa desde 2008. Exceto na Grécia e na Espa

nha, essa crise tem em quase todos os lugares favorecido muito mais a 

extrema-direita do que a esquerda radical — diferente da situação europeia 

dos anos 1930, quando em muitos países a esquerda antifascista cresceu 

paralelamente ao fascismo. A extrema-direita atual tem, sem dúvida, se 

beneficiado da crise, particularmente na França. Mas isso não explica tudo: 

na Espanha e em Portugal, dois dos países mais atingidos duramente pela 

crise, a extrema-direita permanece apenas marginal. E na Grécia, apesar de 

a Aurora Dourada ter desfrutado de um crescimento exponencial, ela possui 

muito menos influência do que o Syriza, a coalizão da esquerda radical. Na 

Suíça e na Áustria, dois países em grande parte poupados pela crise, a ex

trema-direita racista muitas vezes fica acima de 20% de apoio. Portanto, 

devemos evitar as explicações exclusivamente economicistas muitas vezes 

apresentadas pela esquerda.

Fatores históricos têm, sem dúvida, jogado algum papel: uma longa 

tradição antissemita espalhada em certos países; a persistência daquelas 

correntes que colaboraram durante a Segunda Guerra Mundial; e a cultura 

colonial que impregna atitudes e comportamentos mesmo muito tempo 

depois da descolonização — não só nos antigos impérios, mas em quase 

todos os países europeus. Todos esses fatores estão muito presentes na  França 

e contribuem para explicar a força do partido de Le Pen, mas são menos 

relevantes em países sem um passado colonial ou fascista, como a Suíça.

A conjuntura internacional, particularmente no Oriente Médio, também 

favorece esse cenário. As agressivas políticas coloniais e expansivas do 

governo israelense nutrem antissemitismo (particularmente entre os jovens 

2. Daniel Bensaïd, Fragments mécréants. Mythes identitaires et République imaginaire. Paris: Lignes, 

2005, passim.

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muçulmanos) mal disfarçado como “antissionismo”, ao passo que o terror 

do Estado islâmico (Daesh) e de outros jihadistas assassinos alimenta a is

lamofobia, pretensamente em nome do “secularismo”. É lógico que não é 

por causa de Netanyahu ou Bin Laden que o racismo e a xenofobia se de

senvolveram na Europa, mas os eventos negativos no Oriente Médio são 

habilmente manipulados pela extrema-direita para promover sua agenda, 

com considerável sucesso. O mesmo se aplica, logicamente, aos ataques 

terroristas na Europa — como os assassinatos recentes dos editores do 

jornal satírico Charlie Hebdo — que são usados como munição pela  direita 

racista para empreender a sua “guerra de civilização” contra os cidadãos 

muçulmanos europeus.

A esquerda como um todo, com apenas algumas exceções, tem severa

mente subestimado esse perigo. Não viu a “onda marrom” vindo e, portanto, 

não viu a necessidade de tomar a iniciativa de uma mobilização antifascista. 

Para algumas correntes da esquerda que veem a extrema-direita como nada 

mais do que um efeito colateral da crise e do desemprego, são essas as causas 

que devem ser atacadas, e não o fenômeno fascista propriamente dito. Tal 

raciocínio tipicamente economicista desarmou a esquerda diante da ofensiva 

ideológica racista, xenofóbica e nacionalista da extrema-direita.

Nenhum grupo social é imune à praga marrom. As ideias da extrema--direita, em particular o racismo, contaminaram uma parte significativa não 

só da pequena burguesia e dos desempregados, mas também da classe tra

balhadora e da juventude. Isto é particularmente notável no caso francês. 

Essas ideias não têm relação nenhuma com a realidade da imigração: o voto 

para a Frente Nacional, por exemplo, foi particularmente alto em certas 

áreas rurais que nunca viram um único imigrante. E os imigrantes ciganos 

[Roma], recentemente objeto de uma campanha racista histérica que deixou 

algumas impressões — com a participação generosa do ministro do Interior 

“socialista” da época, o sr. Manuel Valls — chegam a menos do que 20 mil 

em toda a França.

A análise “clássica” de esquerda sobre o fascismo o explica essencial

mente como um instrumento do grande capital para esmagar a revolução e 

o movimento dos trabalhadores. Com base nessa premissa, algumas pessoas 

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da esquerda argumentam que já que hoje o movimento dos trabalhadores 

está muito enfraquecido e a ameaça revolucionária não existe, o grande 

capital não teria interesse em apoiar movimentos da extrema-direita, de modo 

que o risco de uma ofensiva marrom não existiria. Esta é, uma vez mais, 

uma leitura economicista que não leva em conta a autonomia de nenhum 

fenômeno político. Os eleitores podem, na verdade, escolher um partido que 

não tem o apoio da grande burguesia. Além disso, esse estreito argumento 

econômico parece ignorar o fato de que o grande capital pode acomodar-se 

em todos os tipos de regimes políticos sem muito exame de consciência.

O conceito de “populismo” empregado por certos cientistas políticos, 

mídia e até mesmo por parte da esquerda é totalmente inadequado para 

explicar a natureza da Frente Nacional (ou seus equivalentes na Europa), 

servindo apenas para semear confusão. Na América Latina dos anos 1930 

até os anos 1960, o termo populismo correspondia a algo bem específico: 

governos nacionais populares ou movimentos ao redor de figuras carismá

ticas — Vargas, Perón, Cárdenas —, com amplo apoio popular e uma retó

rica anti-imperialista. Entretanto, o seu uso francês (ou europeu) a partir dos 

anos 1990 é terrivelmente vago e impreciso. Um dos primeiros a usar o 

termo para caracterizar o movimento de Le Pen foi o cientista político P.-A. 

Taguieff, que definiu populismo como “um estilo retórico que está direta

mente ligado com o apelo ao povo”.3 Outros cientistas sociais se referem ao 

populismo como “uma posição política que toma o lado do povo contra as 

elites” — uma caracterização que serve para quase todo partido político ou 

movimento! Quando aplicado à Frente Nacional ou outros partidos europeus 

da extrema-direita, esse pseudoconceito transforma-se em um eufemismo 

enganoso que ajuda — seja deliberadamente ou não — a legitimá-los, tor

nando-os mais aceitáveis ou mesmo atraentes — quem não é a favor do povo 

contra as elites? — enquanto cuidadosamente se evitam os termos pertur

badores racismo, xenofobia, fascismo ou extrema-direita.4 “Populismo” 

3. P.-A. Taguieff, Le populisme et la science politique, Vingtième siècle, 1997. p. 8.

4. Ver o interessante livro de Annie Collovald. Le “populisme du FN”, un dangereux contresens. 

Broissieux: Editions du Croquant, 2004. p. 53 e 113. (Col. Raisons d’agir.)

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também é usado deliberadamente de uma forma mistificadora por ideologias 

neoliberais e pela mídia na França (assim como na Europa), a fim de fazer 

um amálgama entre a extrema-direita, por exemplo, a Frente Nacional, e a 

esquerda radical, por exemplo a Frente de Esquerda, caracterizadas como 

“populismo de direita” e “populismo de esquerda”, já que ambas se opõem 

a políticas neoliberais, “Europa” etc.

Jean-Yves Camus, respeitado cientista político francês, explicava que 

partidos como a Frente Nacional poderiam ser chamados de “populistas” 

enquanto eles “fingem substituir a democracia representante pela democra

cia direta” e opõem o “senso comum popular” contra as “elites naturalmen

te pervertidas”. Esse é um argumento muito equivocado, já que o apelo à 

democracia direta, a crítica da representação parlamentar e das elites polí

ticas é muito mais presente entre os anarquistas e outras correntes políticas 

de extrema-esquerda do que entre a extrema-direita, cujo projeto político 

enfatiza o autoritarismo. Felizmente, Camus, que é um dos melhores espe

cialistas da extrema-direita francesa e europeia, recentemente corrigiu seu 

ponto de vista, argumentando, em 2014, que se deve evitar o emprego do 

termo “populismo”, que tem sido usado “a fim de desacreditar qualquer 

crítica do consenso ideológico neoliberal, qualquer questionamento sobre a 

bipolarização do debate político europeu entre os liberais conservadores, 

qualquer expressão nas urnas do sentimento popular de desafio do mau 

funcionamento da democracia representativa”.5

A utilização por parte de alguns pesquisadores do termo “pós-fascismo” 

para designar a extrema-direita europeia — notadamente a Frente Nacional 

— parece questionável para nós. O prefixo “pós” — por exemplo, “pós--modernismo” — tem dois significados comuns: a passagem de uma época 

histórica e a ruptura com um modo de pensar.

 No caso da Frente Nacional, “pós-fascismo” refere-se, implícita ou 

explicitamente, a duas hipóteses que nos parecem errôneas:

5. Jean-Yves Camus. Extrêmes droites mutantes en Europe. Le Monde Diplomatique, p. 18-19, mar. 

2014.

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1) O fascismo é uma época histórica ultrapassada, a FN se situa em 

um período posterior. É o que afirma, por exemplo, um pesquisador 

como Philippe Milet (cujos trabalhos são geralmente interessantes) 

de forma explícita: “O FN vem depois do fascismo, seu reformis

mo é pós-fascista — ele é segundo o fascismo”.6 No entanto, 

acreditamos que o fascismo não é (foi) uma época, mas um modo 

de organização e uma ideologia política que se manifestou, por 

diferentes formas e por diferentes momentos, bem depois do fim 

do Terceiro Reich.

2) O FN, por suas ideias e suas práticas, teria operado uma ruptura 

com o fascismo. Essa parece ser uma hipótese bastante arriscada, 

que não leva em conta os elementos muito importantes de conti

nuidade entre o lepenismo e sua matriz fascista (petanismo).

Não há nenhuma receita mágica para combater a extrema-direita. 

Devemos nos inspirar — com uma distância crítica apropriada — nas 

tradições antifascistas do passado, mas também devemos saber como 

inovar, a fim de responder às novas formas desse fenômeno. Devemos 

saber como combinar iniciativas locais com os movimentos culturais e 

sociopolíticos unitários solidamente organizados e estruturados, tanto em 

nível nacional quanto em nível continental. Às vezes é possível unir-se 

com o fantasma do “republicanismo”, mas qualquer movimento antifas

cista só será eficaz e crível se for motivado por forças situadas fora do 

consenso neoliberal dominante. Isso significa uma luta que não pode ser 

limitada dentro das fronteiras de um único país, mas deve ser organizada 

em termos de Europa como um todo. A luta contra o racismo, bem como 

a solidariedade com as suas vítimas, é um dos componentes essenciais 

dessa resistência. Ainda não é tarde demais para impedir “a resistível 

ascensão de Arturo Ui” (para citar a conhecida peça de teatro antifascis

ta por Bertolt Brecht).

6. J. P. Milet. L’extrême droite pour tous. Lignes, p. 55; grifos do autor.

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Conservadorismo e extrema-direita no Brasil

Não vou me estender sobre o conservadorismo e a extrema-direita no 

Brasil porque as colegas que falarão depois de mim o farão, com muito mais 

competência do que eu. Limitar-me-ei a algumas sugestões comparando os 

fenômenos europeus com o Brasil.

1) Enquanto na Europa existe, em vários países, uma continuidade 

política e ideológica entre movimentos neofascistas atuais e o fas

cismo clássico dos anos 1930, isso não ocorre no Brasil. O fascis

mo brasileiro, o integralismo, chegou a ter bastante peso nos anos 

1930, inclusive influenciando o golpe do Estado Novo, em 1938. 

Mas a extrema-direita brasileira atual tem pouca relação com essa 

matriz antiga; grupos neofascistas existem, porém são marginais. 

Nada comparável com a Aurora Dourada grega ou a Frente Nacio

nal francesa.

2) Não existem no Brasil, como no Europa, partidos de massa tendo o 

racismo como sua principal bandeira. Claro, o Brasil está longe de 

ser uma democracia racial, e um racismo difuso está bastante pre

sente na sociedade. Porém, um partido brasileiro que tentasse fazer 

do racismo seu programa principal nunca teria 25% dos votos como 

na França...

3) O tema da luta contra a corrupção não é específico da extrema-di

reita, mas tem sido demagogicamente manipulado, com certo su

cesso, por setores conservadores, na Europa e, sobretudo, no Brasil. 

No Brasil é uma velha tradição, desde os anos 1940, dos conserva

dores: levanta-se a bandeira do combate à corrupção para justificar 

o poder das oligarquias tradicionais e, segundo o caso, legitimar 

golpes militares.

4) O que é comparável na extrema-direita francesa e brasileira são dois 

temas de agitação sociocultural do conservadorismo mais reacionário:

I. A ideologia repressiva, o culto da violência policial, o chamado 

a restabelecer a pena de morte: é o caso na Europa da extrema

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-direita e no Brasil da “bancada da bala”, fortemente representa

da no Congresso.

II. A intolerância com as minorias sexuais, em particular os homos

sexuais. É um tema agitado, com certo sucesso, por setores reli

giosos, com referência católica (Opus Dei, Civitas etc.) na 

França e evangélica neopentecostal no Brasil.

5) O elemento mais preocupante da extrema-direita conservadora no 

Brasil, que não tem um equivalente direto na Europa, é o apelo aos 

militares. O chamado a uma intervenção militar, o saudosismo da 

ditadura militar, é sem dúvida o aspecto mais sinistro e perigoso da 

recente agitação de rua conservadora no Brasil, ativamente promo

vido pelo PIG, o Partido da Imprensa Golpista.

Certo, já não estamos no período da Guerra Fria, em que se sucederam 

os golpes militares na América Latina, patrocinados pelo imperialismo 

americano. Mas não podemos esquecer que houve tentativas golpistas na 

Venezuela, na Bolívia e no Equador. Pior do que isso: muito recentemente, 

golpes de Estado pseudolegais, com cobertura parlamentar, tiveram lugar, 

com sucesso, em Honduras e no Paraguai.

Gostaria de concluir propondo uma pista de reflexão: o sistema capi

talista, sobretudo nos períodos de crise, produz e reproduz fenômenos 

como o fascismo, o racismo, os golpes de Estado e as ditaduras militares. 

A raiz desses fenômenos é sistêmica e a alternativa tem de ser radical, isto 

é, antissistêmica. Em vários países da América Latina está colocada a 

discussão sobre uma alternativa anti-imperialista e anticapitalista: o socia

lismo do século XXI. Isto é um socialismo que supera os limites dos 

movimentos socialistas do século passado — o compromisso social-de

mocrata com o sistema e a degeneração burocrática do chamado “socia

lismo real” —, mas recupera as bandeiras revolucionárias latino-america

nas, de Simón Bolívar a Ernesto Che Guevara, de José Martí a Farabundo 

Martí, de Emiliano Zapata a Augusto César Sandino, de Zumbi dos Pal

mares a Chico Mendes.

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Siglas

UDC: Union Democratique du Centre

NSDAP: Partido Nazista (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei)

FPÖ: Partido da Liberdade Austríaco

FN: Frente Nacional

Recebido em 26/6/2015 ■ Aprovado em 27/7/2015. O artigo Michael Löwy

Diretor de Pesquisas emérito do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS)/Paris.

michael.lowy1@gmail.com.


O populismo é uma estratégia política que divide a sociedade entre o "povo virtuoso" e uma "elite corrupta"

. Em 2026, essa distinção continua sendo central no debate global e brasileiro, diferenciando-se pela definição de quem é esse "povo" e quem é o seu inimigo. 

Populismo de Esquerda

Definição do "Povo": Foca na classe trabalhadora, nos marginalizados e nos explorados pelo sistema capitalista.


Inimigo Eleito: A elite econômica, o sistema financeiro, as grandes corporações e a desigualdade.


Objetivo: Redirecionar o poder econômico e promover a justiça social através da intervenção estatal e políticas distributivas.


Cenário em 2026: No Brasil, o O Partido dos Trabalhadores  continua sendo a principal referência, com o governo buscando resgatar a popularidade através de agendas sociais focadas nas classes populares  para a disputa eleitoral em 2026.


Populismo de Direita

Definição do "Povo": Baseia-se em uma identidade cultural, nacional ou religiosa (frequentemente definida como a "maioria silenciosa").


Inimigo Eleito: Elites intelectuais e "cosmopolitas", o "sistema" (establishment) político, instituições como o Judiciário e, por vezes, minorias ou imigrantes.


Objetivo: Restaurar valores tradicionais e a ordem social, muitas vezes com um discurso antissistema e agenda de liberalismo econômico.

E segue o populismo de direita. Infelizmente .

Confira a noticia no Portal G1 da Rede Globo. https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/09/21/apos-nova-vitoria-extrema-direita-alema-partido-do-povo-preve-queda-de-merz.ghtml



E assim caminha a humanidade 
Imagem do Portal G1 da Rede Globo.


Trumpismo.

  O trumpismo é um movimento político, estilo de governança e conjunto de ideias nacional-populistas associado a [Donald Trump] e à sua base de apoio.Características PrincipaisPopulismo anti-elites: Divisão agressiva entre os interesses do "povo" e o "establishment" político e midiático.Nacionalismo e protecionismo: Defesa da soberania nacional estrita, com foco em políticas comerciais protecionistas (como guerra de tarifas) e forte controle de imigração.Rejeição ao multilateralismo: Crítica a acordos internacionais, oposição a organizações globais e priorização de negociações bilaterais diretas.Polarização profunda: Uso de uma retórica de confronto direto que alimenta divisões sociais e partidárias intensas.Origem e ImpactoO fenômeno ganhou força expressiva a partir da campanha presidencial de 2016 nos Estados Unidos. Mais do que uma simples plataforma partidária, o trumpismo reconfigurou o Partido Republicano norte-americano e serviu de referência para correntes políticas nacionalistas e conservadoras radicais em várias partes do mundo.

rump e o Ocidente 

Ernesto Henrique Fraga Araújo* 

Resumo 

O presidente Donald Trump propõe uma visão do Ocidente não baseada no capitalismo e 

na democracia liberal, mas na recuperação do passado simbólico, da história e da cultura das 

nações ocidentais. A visão de Trump tem lastro em uma longa tradição intelectual e 

sentimental, que vai de Ésquilo a Oswald Spengler, e mostra o nacionalismo como 

indissociável da essência do Ocidente. Em seu centro, está não uma doutrina econômica e 

política, mas o anseio por Deus, o Deus que age na história. Não se trata tampouco de uma 

proposta de expansionismo ocidental, mas de um pan‑nacionalismo. O Brasil necessita 

refletir e definir se faz parte desse Ocidente.  

Palavras‑chave: 

Trump; Ocidente; Nacionalismo; Globalismo; Metapolítica; Teopolítica 

Em janeiro de 2017, pouco depois da posse de Donald Trump, ocorreu‑me uma imagem do 

futebol americano para caracterizar o que esperar do novo presidente dos Estados Unidos: 

Donald Trump is Western Civilization’s Hail Mary pass. Era a época dos playoffs da NFL, e em 

poucos dias viria a finalíssima, o Superbowl, que acabou sendo o jogo mais extraordinário nos 

51 anos dessa disputa, assim como a eleição de Trump fora, talvez, a mais extraordinária da 

história americana. Nessa confluência de inesperados, tanto na política quanto no esporte 

nacional dos norte‑americanos, a metáfora do Hail Mary pass parecia apropriada, 

* Diplomata de carreira, é diretor do Departamento dos EUA, Canadá e Assuntos 

Interamericanos do Ministério das Relações Exteriores (MRE). 324 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

mas não tive a quem apresentá‑la na época, e assim peço a vênia daqueles que não apreciam 

o jogo da bola oval para utilizá‑la agora, pois me parece que continua apropriada para 

caracterizar alguns elementos centrais da administração Trump. O “passe de Ave Maria” 

descreve uma situação do seguinte tipo: faltam apenas poucos segundos de partida e seu time 

está perdendo. Tem a posse de bola, mas está ainda no começo do seu campo, na altura da 

jarda 20 ou 30, por exemplo. Só há tempo para mais um avanço que permita chegar ao 

touchdown e à vitória. Um lançamento normal renderia no máximo umas 30 jardas, ainda muito 

insuficientes. O time então parte para o lance de última esperança. O quarterback pega a bola 

e a segura enquanto os seus recebedores, praticamente todo o resto do time, correm 

loucamente até o fim do campo do outro lado. O quarterback então lança o mais longe que 

puder, rezando para que o improvável aconteça e a bola caia na mão de um dos recebedores, 

que, mesmo cercado por todos os defensores adversários, lá na end zone, consiga 

milagrosamente marcar o touchdown. No futebol americano não há nada mais emocionante 

do que o momento em que a bola começa a voar num Hail Mary pass e não se sabe se a oração 

vai dar certo, se o recebedor conseguirá o touchdown e o impossível se materializará. Muita 

gente não sabe que o Ocidente está jogando, muito menos que está perdendo. Tornou‑se 

corrente desmerecer qualquer um que enxergue um Ocidente ameaçado, ou mesmo qualquer 

um que simplesmente tente definir o Ocidente por oposição a algo. Vem logo a crítica: “Isso 

aí é Clash of Civilizations, isso está ultrapassado, desacreditado, isso é chauvinismo, racismo, 

xenofobia...”. Passou a ser politicamente incorreto e, portanto, inaceitável, nos círculos de 

boa conversação, falar de uma Civilização Ocidental, ou utilizar o modelo de relações 

internacionais baseado na competição entre as diferentes civilizações, proposto por Samuel 

Huntington, onde uma civilização possa vencer e outra perder. Só se pode falar de Civilização 

Ocidental se for para denegrir o seu passado ou para negar a sua existência ou relevância no 

presente. Já quanto à expressão “Ocidente”, acostumamo‑nos a empregá‑la apenas no 

sentido geopolítico de um grupo de países da Europa e América do Norte que compartilha 

uma aliança militar e uma adesão (que é proibido questionar) à economia 

325 Cadernos de Política Exterior 

de mercado e à democracia representativa, basicamente um conceito da Guerra Fria e que, 

nessa definição, faz pouco sentido desde o fim daquela configuração mundial. Entretanto, se 

abrirmos por um momento a porta, se deixarmos de olhar o mapa e começarmos a estudar 

o território, principalmente o território do espírito, veremos uma enorme massa de palavras 

e sentimentos, ideias e crenças formada ao longo de 25 ou 30 séculos (não é tanto, são apenas 

100 gerações), à qual podemos chamar Ocidente, Civilização Ocidental, uma entidade 

orgânica, viva, outrora pujante, mas hoje com sintomas sérios de debilidade e até mesmo 

demência, dando a impressão de que, deixadas as coisas ao seu curso natural, poderá 

desaparecer para sempre em poucos anos. 

Os países ocidentais gozam até de relativa saúde econômica e política. São militarmente 

fortes. Não enfrentam maiores riscos ao seu sistema de vida. Nem a Rússia nem a China nem 

a Coreia do Norte representam uma verdadeira ameaça à democracia ou à liberdade dos 

europeus ou norte‑americanos. Os cofres e os arsenais estão cheios, a tecnologia permite o 

incremento contínuo da eficiência. Mas isso não é o Ocidente. O Ocidente 

é algo mais profundo, e, nessa profundeza da sua alma, o Ocidente sofre, sofre de um mal 

misterioso como o Rei Pescador na saga do Santo Graal. Alguém precisa procurar o cálice 

que contém o sangue capaz de curá‑lo. 

Mas voltemos do Santo Graal a algo mais prosaico, ao futebol americano, e perguntemos: e 

se Donald Trump for, hoje, o único estadista ocidental que entende o jogo e está disposto a 

jogá‑lo, o único que percebe a urgência destes últimos segundos do último tempo? O certo 

é que Trump desafia nossa maneira usual de pensar. Aceitemos esse desafio. Não nos 

satisfaçamos com uma caricatura, com as matérias de 30 segundos que aparecem no Jornal 

Nacional e tentam sempre mostrar um Trump desconexo, arbitrário, caótico. 

Assim como Ronald Reagan – formado por uma universidade insignificante no meio dos 

milharais de Illinois, narrador esportivo medíocre, ator de pouco talento – conseguiu aquilo 

em que gerações de políticos sofisticados e aristocratas da Ivy League falharam, isto é, derrotar  

326 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

o comunismo, assim também Donald Trump – esse bilionário com ternos um pouco largos 

demais, incorporador de cassinos e clubes de golfe – parece ter hoje uma visão de mundo 

que ultrapassa em muitas léguas, em profundidade e extensão, as visões da elite 

hiperintelectualizada e cosmopolita que o despreza.  

Em Varsóvia, no dia 6 de julho de 2017, Trump pronunciou um discurso marcante em defesa 

do Ocidente. Um discurso que nenhum outro estadista no mundo hoje teria a coragem ou a 

capacidade de pronunciar. O tema central é a visão de que o Ocidente – concebido como 

uma comunidade de nações (e não como um amálgama indistinto 

sem fronteiras) – está mortalmente ameaçado desde o interior, e somente sobreviverá se 

recuperar o seu espírito. O discurso intitula‑se Remarks by President Trump to the People of 

Poland, e desde o início coloca claramente a Polônia não somente como uma admirável nação 

em si mesma, mas como símbolo de resistência e fé, de uma determinação que – espera – 

possa ser imitada hoje por todo o Ocidente como forma de lutar por sua sobrevivência. “No 

povo polonês”, diz Trump, “vemos a alma da Europa”. Trump usa a Polônia para procurar 

ensinar aos europeus o que eles são no fundo. Através da Polônia, faz um apelo aos europeus 

para, ao lado dos Estados Unidos, arregimentarem‑se em defesa da sua essência comum. De 

fato, não por acaso Trump escolheu a Polônia para ali pronunciar seu chamado à defesa do 

Ocidente. Identificou, nos poloneses, o espírito de luta, de resistência e autoafirmação na 

adversidade, o qual reputa indispensável à sobrevivência do Ocidente em seu conjunto. 

“Vocês [os poloneses] perderam a sua 

nação, mas nunca perderam o seu orgulho”. A Polônia aparece no discurso como 

porta‑estandarte e símbolo do Ocidente: “No povo polonês vemos a alma da Europa”, diz 

Trump, para em seguida completar: “A nação de vocês é grande porque o seu espírito é 

grande e o seu espírito é forte.” Essa grandeza e essa força residem na identidade profunda 

do povo, da nação polonesa: “A história da Polônia é a história de um povo que nunca perdeu 

a esperança, que nunca se deixou quebrar e que nunca, nunca esqueceu quem ele mesmo é”. 

Trump enxerga a primazia do espírito sobre o poder material, invocando a figura do bispo 

católico polonês Michael Kozal, martirizado pelos nazistas em 1943, que dizia, conforme 

citado  

327 Cadernos de Política Exterior 

por Trump: “Mais horrível que a derrota pelas armas é o colapso do espírito humano”. O 

presidente não menciona em seu discurso, mas talvez tivesse presente também a figura do 

rei polonês Jan Sobieski, que veio em socorro de Viena cercada, prestes a cair nas mãos do 

exército otomano, e, na tarde de 12 de setembro de 1683, desceu do Kahlenberg à frente de 

sua cavalaria, sob a bandeira da virgem negra de Czestochowa, para derrotar as forças 

muito superiores de Mustafá Pachá, salvando a Europa da dominação islâmica. Porém a 

principal figura polonesa a quem Trump faz apelo é o papa João Paulo II. Em um momento 

central do discurso, Trump relembra a primeira missa do papa polonês em Varsóvia, em 

1979, quando um milhão de pessoas entusiasmadas interrompeu o sermão para gritar 

“Queremos Deus”. O presidente americano interpreta, nesse grito, uma fusão do 

nacionalismo com a fé, a fé como parte integrante do sentimento nacional e vice‑versa: 

naquele momento, segundo ele “os poloneses reafirmaram sua identidade como uma nação 

devotada a Deus”, pois naquele grito “encontraram as palavras para dizer que a Polônia seria 

Polônia uma vez mais”. Para Trump, o clamor dos poloneses por Deus, pela volta de Deus 

ao centro de suas vidas juntamente com a recuperação da nacionalidade, a fé e a pátria 

renascendo juntas depois de estraçalhadas pela ditadura materialista e “internacionalista” 

imposta pelos soviéticos, esse clamor volta a ser hoje o clamor do Ocidente: “O povo da 

Polônia, o povo da América, o povo da Europa ainda gritam: Queremos Deus!”. 

O discurso transita então dessa Polônia entendida como modelo em pequena escala de toda 

a alma ocidental, em seu passado de resistência, para o Ocidente de hoje. O Ocidente, em 

sua visão, muito longe de viver tranquilo, sentado no topo da cadeia alimentar da globalização 

como muitos supõem, está sob séria ameaça. As ameaças visíveis, Trump as 

encontra no “terrorismo islâmico radical” (dito assim com todas as letras), mas também – o 

que pode surpreender pelo prosaísmo neste contexto de luta existencial – na burocracia, essa 

força que “drena a vitalidade e a riqueza do povo”. Porém Trump enxerga bem mais do que 

esses perigos, e neles enxerga mais do que uma simples questão de segurança ou de 

eficiência econômica. Para ele, o verdadeiro e enorme perigo é a perda da própria identidade 

ocidental, a perda do espírito, o desaparecimento dos 

328 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

“laços de cultura, fé e tradição que nos fazem quem somos”. As forças antiocidentais, “sejam 

externas ou internas”, se deixadas agir, “minarão nossa coragem, solaparão nosso espírito e 

enfraquecerão nossa vontade de defender a nós mesmos e nossas sociedades”. O problema, 

portanto, não está no terrorismo nem muito menos na diminuição da competitividade, mas 

sim, muito mais fundo, está no desaparecimento da vontade de ser 

quem se é, como coletividades identificadas com um destino histórico e uma cultura viva. 

E o que é isso que o Ocidente é, e que não pode deixar de ser, sob pena de desaparecer como 

civilização? Trump o explica na parte seguinte do discurso: o Ocidente é “uma comunidade 

de nações”. O Ocidente é um conjunto, certamente, mas não uma massa disforme, muito 

menos um agrupamento de estados baseado em algum tratado, e sim um conjunto de nações – entidades definidas cada qual em sua identidade histórica e cultural profunda, e não como 

entes jurídicos abstratos – concebidas a partir de experiências únicas e não a partir de 

princípios ou valores frios. Uma comunidade, portanto, onde os particularismos não são um 

acidente, mas a sua própria essência e conformam um todo orgânico, indispensáveis à saúde 

e pujança do conjunto. A erradicação das fronteiras, o princípio supranacional, a 

convergência de valores – nada poderia estar mais longe dessa concepção de Trump do 

Ocidente como uma comunidade de nações. 

E o que caracteriza essa comunidade, a partir das nacionalidades (e não por cima das 

nacionalidades)? Trump elenca, em primeiro lugar, a arte: “as obras de arte inspiradoras que 

honram a Deus”, e em seguida a inovação, a celebração dos heróis, das tradições e dos 

costumes imemoriais (aquilo que, na origem de nossa própria cultura, Camões expressou 

dizendo “as armas e os barões assinalados”), o estado de direito, a liberdade de expressão, o 

empoderamento das mulheres, a família no centro da vida e não o governo ou a burocracia, 

o hábito de debater e questionar e a ânsia de conhecer, e “acima de tudo (...) a dignidade de 

cada vida humana, (...) a esperança de cada alma de viver em liberdade”. Aí estão “os laços 

sem preço que nos unem como nações, como aliados e como uma civilização”, aquilo que 

“herdamos de nossos ancestrais, (...) que nunca existiu desta 

maneira antes (...) e que, se fracassarmos em preservá‑lo, nunca, jamais voltará a existir”. 

329 Cadernos de Política Exterior 

Há muito tempo um líder mundial não falava dessa maneira. Trump aqui se aproxima de 

Reagan e de Churchill (que se viam como os grandes defensores da liberdade e da civilização 

diante da barbárie e da opressão). Entre tantas expressões fora do comum, o apelo aos 

ancestrais é particularmente gritante. A Europa pós‑moderna – junto com os Estados Unidos 

que, até Obama, cada vez mais se assemelhavam à Europa – viviam 

ultimamente numa espécie de tanque de isolamento histórico, viviam já fora da história, 

depois da história, num estado de espírito (ou falta de espírito) onde o passado é um território 

estranho. Desde o “iluminismo” toda a tradição liberal e revolucionária constituiu‑se numa 

rejeição do passado – em suas várias facetas de rejeição dos heróis, rejeição do culto religioso 

e rejeição da família (a família, esse indispensável microcosmo da história, que liga o 

indivíduo ao tempo assim como a nação liga um povo a um tempo). De repente “os 

ancestrais” aparecem no discurso do mandatário do país que vinha liderando a “ordem 

liberal”, essa mesma “ordem” que rejeitava o passado, os heróis, a fé e a família. O homem 

pós‑moderno não tem ancestrais, as sociedades pos‑modernas não têm heróis. Trump, ao 

falar de alma, desafia frontalmente o homem pós‑moderno, que não tem alma, que tem 

apenas processos químicos ocorrendo aleatoriamente entre seus neurônios. Trump fala de 

Deus, e nada é mais ofensivo para o homem pós‑moderno, que matou Deus há muito tempo 

e não gosta que lhe recordem o crime. 

Essas expressões de Trump parecerão a muitos, no mínimo, manifestações de mau gosto, a 

outros parecerão laivos de fascismo. Sim, vivemos em um mundo onde falar dos heróis, dos 

ancestrais, da alma e da nação, da família e de Deus é, para grande parte da ideologia 

dominante, uma indicação de comportamento fascista. O problema estará com Trump ou 

estará com essa ideologia contra a qual ele se insurge? 

Os capangas de Stálin, os de Mao Tse‑Tung e os de Pol Pot também chamavam tudo de 

fascista: ter um livro era fascista, amar os pais ou os filhos era fascista, venerar os símbolos 

tradicionais era fascista, tudo o que pudesse remotamente contestar o poder dominante do 

estado era fascista e levava o cidadão para o gulag, para o campo de reeducação ou para a 

fossa comum. Nossa ideologia “liberal” pós‑moderna incorporou esse reflexo. Ela (ainda) 

não pune as expressões de fascismo com a internação em gulags ou com a execução sumária, 

mas sim com o ridículo, com o ostracismo, 

330 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

com o descrédito público, com a execução sumária de sua persona política senão de sua pessoa 

física (embora as agressões muito físicas das brigadas de black blocks “antifascistas” nos EUA 

contra qualquer partidário de Trump já estejam alastrando‑se perigosamente pelo país). 

Trump nos convida a reexaminar os postulados dessa ideologia que tomamos como 

moeda corrente, como a única forma decente de pensar. 

A forma política desta civilização tal como Trump a concebe é a de uma “forte aliança de 

nações livres, soberanas e independentes”. A Otan aparece como a expressão militar dessa 

aliança, mas Trump deixa bem claro que, sem a aliança espiritual, esse braço armado é inútil. 

“Nossa defesa”, diz ele: não é apenas um comprometimento de dinheiro, é um comprometimento 

de vontade. (...) A defesa do Ocidente depende não apenas dos meios, mas também da vontade dos 

seus povos (...). Podemos ter as maiores economias e as armas mais mortíferas da Terra, mas se não 

tivermos famílias fortes e valores fortes, então seremos fracos e não sobreviveremos. 

O clamor pela defesa espiritual, pelo rearmamento espiritual do Ocidente, a partir da 

identidade nacional, domina a parte final do discurso. Trump enfatiza: “A questão 

fundamental do nosso tempo é saber se o Ocidente tem a vontade necessária para sobreviver. 

Temos confiança em nossos valores para defendê‑los a qualquer custo? Temos respeito 

suficiente por nossos cidadãos para protegermos nossas fronteiras? Temos o desejo e a 

coragem de preservar nossa civilização diante daqueles que querem subvertê‑la 

e destruí‑la?” 

Trump retoma o exemplo da Polônia e narra a luta desesperada dos patriotas poloneses, 

durante o levante de Varsóvia contra os nazistas, para manter aberta uma estreita passagem 

entre as duas partes da cidade, a passagem da Avenida Jerusalém, último alento dos 

insurgentes. A geração atual é chamada a retomar esse combate dramático contra os novos 

inimigos, não podendo esquecer‑se jamais de que, como os heróis nos recordam, “o 

Ocidente foi salvo com o sangue dos patriotas”. Nesse combate, “cada metro de solo, cada 

centímetro de civilização merece ser defendido com a sua vida”. (Vem à mente aqui um 

livro recente do filósofo de esquerda francês Michel Onfray, Décadence, que, partindo de uma 

atmosfera intelectual muito diferente de Trump, 

331 Cadernos de Política Exterior 

chega à conclusão, muito semelhante, de que o Ocidente está fadado a desaparecer diante do 

Islã, pois os muçulmanos estão dispostos a morrer por sua civilização e os ocidentais não). 

Trump insiste em lembrar onde se trava essa nova guerra: “Nossa luta pelo Ocidente não 

começa no campo de batalha, começa no nosso espírito, na nossa vontade e na nossa alma 

(...).” E, nesse combate, tudo está em jogo: “Nossa liberdade, nossa civilização, nossa 

sobrevivência dependem dos laços de história, cultura e memória.” O tom em que Trump 

encerra o discurso é o da peroração de um chefe aos soldados antes da batalha: “Assim como 

a Polônia não se deixou quebrar, eu declaro hoje, para todo o mundo ouvir, que o Ocidente 

nunca, jamais será quebrado. (...) Juntos lutemos como os poloneses – pela família, pela 

liberdade, pelo país e por Deus”. 

Essa visão do Ocidente não implica um conflito com o não Ocidente. O inimigo do Ocidente 

não é a Rússia nem a China, não é um inimigo estatal, mas é sim principalmente um inimigo 

interno, o abandono da própria identidade, e um inimigo externo, o islamismo radical – o 

qual, entretanto, ocupa lugar secundário em relação ao primeiro, pois o islamismo só 

representa ameaça porque encontra o Ocidente espiritualmente fraco e 

alheio a si mesmo. Não há nada aqui de uma “lógica de nós contra eles”, como os detratores 

de Trump gostam de dizer. É uma lógica de “nós buscando a recuperação de nós mesmos”. 

Trump propõe ao Ocidente uma espécie de trabalho junguiano – realçar a figura do herói, 

recriar a narrativa da busca e das tribulações desse herói, uma terapia civilizacional cuja chave 

está em reencontrar o contato com um inconsciente coletivo 

abandonado, sufocado sob os golpes do liberalismo tecnocrático e do politicamente correto. 

É uma visão mais geopsíquica ou psicopolítica do que qualquer outra coisa. 

Não esqueçamos que, na psicologia junguiana, à diferença da freudiana, Deus existe, real e 

fundamentalmente. Em Jung, como em Trump, não se trata de desvencilhar‑se das ilusões 

para tentar manter uma saúde mental medíocre – como para Freud e muitos liberais – mas 

de aprofundar‑se naquelas pretensas ilusões e descobrir que elas, na verdade, 

332 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

constituem o substrato e a realidade básica capaz de dar sentido à vida psíquica e levá‑la 

a um nível superior. A alma (anima), o Deus que existe na alma (e que, portanto, existe), os 

arquétipos, o simbolismo do si mesmo, todas essas figuras de Jung estão na visão 

ocidentalista de Trump. O presidente quer submeter o Ocidente a uma terapia de 

recuperação da personalidade perdida. O restabelecimento do contato com o próprio 

inconsciente, que o Ocidente havia abandonado. Não há um verdadeiro inimigo externo, o 

inimigo é o autoesquecimento. 

O Ocidente pós‑moderno é um Ocidente que não quer olhar para si mesmo, que tem um 

forte impulso de autocontestação e por vezes até mesmo celebra a substituição de sua cultura 

por aquela dos imigrantes não ocidentais que chegam em número crescente. Não o faz por 

ser altruísta, por ter compaixão ou tolerância, estas são apenas uma máscara: no fundo o 

Ocidente escancara as portas para milhões de imigrantes porque se nega a si mesmo, porque 

está psiquicamente doente. Trump quer deter o avanço desse impulso autodestrutivo. 

A visão de mundo de Trump tomou forma clara também no discurso pronunciado na 

abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 19 de setembro de 2017, de forma 

totalmente compatível e complementar com o discurso de Varsóvia. Na ONU, Trump 

advoga por um mundo de nações soberanas e independentes, que se respeitem mutuamente, 

e cuja cooperação será forte exatamente na medida em que se construa a partir  da soberania 

e da independência, e não da diluição das fronteiras ou do 

princípio supranacional. 

Podemos dizer que Trump propõe um pan‑nacionalismo – um mundo onde a busca da paz 

e da prosperidade precisa basear‑se nas nações, e não confrontá‑las. A criação da ONU, 

segundo ele, “baseou‑se na visão de que diferentes nações podem cooperar para proteger 

sua soberania, preservar sua segurança e promover sua prosperidade”. Deixa claro que 

as Nações Unidas são nações unidas, unidas exatamente para melhor defender a unicidade e 

personalidade de cada uma, e não para diluirem‑se em uma pasta global sem forma. Ademais, 

o denominador comum que as congrega na ONU constitui‑se de soberania, segurança e 

prosperidade: Trump não fala de “valores universais” ou algo assim, porque em sua visão 

333 Cadernos de Política Exterior 

não existem “valores universais” que se superponham à identidade de cada nação e de cada 

civilização. Os valores só existem dentro de uma nação, dentro de uma cultura, enraizados 

em uma nação, e não em uma espécie de éter multilateral abstrato. A defesa desses valores 

depende justamente da saúde e robustez nas nações, e não da diluição das nacionalidades: a 

existência de “nações fortes e soberanas [permite] a países diversos, com valores diferentes, 

diferentes culturas e diferentes sonhos não apenas coexistirem, mas trabalharem lado a lado 

sobre a base do respeito mútuo”. 

Subjaz em todo o discurso a negação frontal à ideia de que as Nações Unidas sejam ou devam 

ser o embrião de um governo mundial, ou de que deva existir algo chamado “governança 

global”. Trata‑se de uma concepção que se encaixa perfeitamente com o 

ocidentalismo expresso em Varsóvia. O Ocidente forma uma comunidade de nações que 

compartilham algo que as ultrapassa – cultura, história e fé. As nações não ocidentais não 

compartilham desse mesmo conjunto de cultura, história e fé, portanto, não fazem parte do 

Ocidente – mas esse Ocidente também não quer fazer parte do resto do mundo, não quer 

impor seu patrimônio ao restante do mundo, mesmo porque esse patrimônio é impossível 

de se impor, já que, por definição, é impossível compartilhar sua própria ancestralidade, sua 

própria identidade. 

Temos aqui o oposto do imperialismo ou do intervencionismo. No discurso diante da ONU, 

Trump afasta‑se de qualquer ideia neocon de imposição da democracia a terceiros países: Não 

buscamos impor nossa maneira de viver a quem quer que seja. (...) Não esperamos que países diversos 

compartilhem as mesmas culturas, tradições ou mesmo sistemas de governo. Mas esperamos que 

todas as nações mantenham estes dois deveres soberanos fundamentais: respeitar os interesses de seu 

próprio povo e os direitos de qualquer outra nação soberana. 

Trump não deseja, portanto, um Ocidente que saia pelo mundo implantando democracias. 

Deseja respeito mútuo entre as nações e entre civilizações. O respeito deve dar‑se entre 

nações que tenham sua própria identidade e que se autogovernem, e não numa geleia geral 

planetária regida por “valores”. Mas Trump prega também o autorrespeito (“respeitar os 

interesses do seu próprio povo”), o que no fundo é uma maneira de repetir 

334 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

a mensagem de Varsóvia: revalorizar a identidade do Ocidente através das nações que o 

compõem. Assinale‑se que, para Trump, os países, na arena internacional, regem‑se por 

“deveres”, e não por “valores”. Tanto no dever de respeito mútuo quanto no de 

autorrespeito está manifesto o princípio da nação como, primordialmente, espaço de 

preservação da própria identidade. 

Nesse arcabouço de pensamento é que se insere o princípio America First. Afirma Trump 

diante da Assembleia Geral: Como presidente dos Estados Unidos, colocarei sempre a América 

primeiro, do mesmo modo que vocês, líderes de seus países, vão sempre colocar seus países primeiro. 

Todos os líderes responsáveis têm a obrigação de servir seus próprios cidadãos, e o estado nação 

permanece o melhor veículo para elevar a condição humana. 

Expressão claríssima do que acima chamamos o pan‑nacionalismo. Um anticosmopolitismo 

radical. Cada estado tem o dever, e não só o direito, de trabalhar pelo seu povo, o estado só 

se legitima se for nacional, enraizado numa comunidade, e cada pessoa se desenvolve como 

membro de uma comunidade nacional, não como “cidadão do mundo”. O estado não é um 

mal necessário, mas um bem precioso – na medida em que não seja uma estrutura de 

administração tecnocrática, mas o defensor e propulsor da sua comunidade história, um 

estado nação no sentido de estado inseparável da nação. 

Trump complementa assim, em Nova York, a visão de Varsóvia, onde propugnava por um 

Ocidente que respeite a si mesmo e recupere sua própria identidade e tradição ameaçadas 

pelo esvaziamento da nacionalidade e pelo esquecimento dos heróis. 

Trump não enxerga o mundo como uma comunidade internacional, certamente não no 

sentido em que caracteriza o Ocidente como uma “comunidade”. O conceito de 

comunidade, reserva‑o para aquelas nações que, juntas, sem deixar a identidade de cada qual, 

compõem uma civilização. Comunidade precisa ter base na história profunda, nos mesmos 

arquétipos. Comunidade construída só com base em valores abstratos não é comunidade. 

Nas relações internacionais rege o respeito mútuo, mas não rege o sentimento – este só 

governa dentro de uma civilização. 

335 

Cadernos de Política Exterior 

O nacionalismo, a ideia de nação, está muito ligado ao nascimento do Ocidente. Segundo 

Ésquilo, no calor da batalha de Salamina os gregos cantavam: 

Ô paídes hellênon íte, 

eleutheroúte patrída, eleutheroúte de 

paídas, gynaíkas, 

theôn te patrôon édê, 

thêkas te progónôn, 

nun hypér pántôn agôn!  

(Avante, ó filhos de helenos, 

libertai a pátria, libertai 

vossos filhos, vossas mulheres, 

os templos de vossos deuses, 

os túmulos dos ancestrais, 

agora mais que nunca, lutai!) 

Claro que Ésquilo apresenta aqui o retrato romantizado da batalha – mas talvez nem tanto. 

A batalha naval de Salamina, onde a esquadra combinada das cidades gregas derrotou os 

invasores persas (e salvou o Ocidente em seu nascedouro) ocorreu em 480 a.C., e Ésquilo – 

que lutou ele mesmo na refrega – compôs a peça conhecida como “Os Persas”, de onde 

provém a citação, logo em 472 a.C. Salamina deve ter acontecido mais ou menos como ele 

descreve1. As cidades gregas formam diante dos invasores persas a primeira aliança do 

Ocidente, esse Ocidente que então se limitava à Grécia, mais ou menos nos moldes descritos 

por Trump, uma comunidade de nações independentes, ferozmente independentes, mas que 

ao mesmo tempo se concebiam como um conjunto completamente diferente do invasor ou 

de todo o resto do mundo, e unidos não por 

1 Bem mais tarde, Heródoto chega a listar o número de trirremes fornecidos por cada cidade, e 

não deixa de ser fascinante que, graças a ele, saibamos até hoje que, aos 180 barcos de Atenas 

e 40 de Corinto, uniram-se, por exemplo, quatro de Naxos, cinco de Trezena e um de Crotona. 

336 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

algum tipo de conveniência geoestratégica, não para preservar as rotas comerciais ou algo 

assim, mas para defender a liberdade, a família, a sua herança cultural e os seus deuses. Unidos 

por alguma coisa que decidem chamar de “pátria”. Eleutheroúte patrída, libertai a pátria! Deve 

ser a primeira vez em que essa palavra aparece nesse sentido na literatura grega ou em 

qualquer literatura. Pouco importa se aquele grito surgiu exatamente assim na batalha – 

importa apenas que, logo oito anos depois, Ésquilo o encenava no anfiteatro e esse clamor 

fazia sentido para o seu público, pois forçosamente o conceito de pátria existia e os gregos 

pelo menos queriam acreditar que ele existisse. Libertemos a pátria! Libertemos as mulheres, 

os filhos! Libertemos, preservemos os templos, defendamos nossos deuses e nossos 

antepassados. Ainda bem que esses gregos – nossos antepassados! – ainda bem que eles não 

tentaram a via da tolerância e do diálogo, ainda bem que eles não excluíram a opção militar, 

ainda bem que não desistiram. O Ocidente nasce em Salamina, nasce na luta, o Ocidente não 

nasce no diálogo nem na tolerância, nasce na defesa de sua própria identidade. Não é só a 

sobrevivência material nem a liberdade política, é a sobrevivência dos seus próprios deuses, 

sua própria cultura, sua própria história, é pela sobrevivência espiritual que as 180 trirremes 

atenienses e as quatro trirremes de Naxos lutaram em Salamina. Os gregos poderiam ter‑se 

rendido para não correr o risco diante de forças muito superiores (como podiam ter‑se 

rendido em Maratona, ou nas Termópilas) e ter aceito o papel de tributários de Dario ou de 

Xerxes, como o haviam feito tantos povos do Oriente submetidos ao Império Persa (o 

Império Persa era o globalismo da época). Poderiam tornar‑se parte de um belo império 

multicultural. Perderiam a liberdade política, perderiam sua história e sua cultura, sua crença, 

mas em troca ganhariam a sobrevivência material. 

Perderiam a pátria, com tudo o que ela contém, com tudo o que a conforma (as mulheres, 

os filhos, os templos e as sepulturas), mas não precisariam se expor às flechas e machados 

persas. E talvez nem realmente perdessem isso tudo, os persas poderiam poupar suas famílias 

e deixa‑los cultuar Apolo. Estranhamente, os gregos não se satisfaziam em manter seu culto 

e sua casa como algo “tolerado” por um imperador distante – queriam seu culto e sua casa, 

mas também e, sobretudo, sua liberdade, sem a qual nada faria sentido. Entregar a liberdade 

aos persas não seria mau negócio de um ponto de vista puramente racional. Os gregos em 

Salamina, entretanto, 

337 Cadernos de Política Exterior 

não foram tão racionais. O grito nasceu no seu peito, Patrída!, e até hoje ecoa. Eleutheroúte 

patrída, a pátria e a liberdade já surgem como conceitos inseparáveis naquele dia no final do 

verão de 480 a.C. A pátria, essa pátria que nasce em Salamina, não é um conceito, é uma 

emoção, um sentimento, um conjunto de sentimentos que toma uma forma política, mas que 

não é em sua essência uma forma política. Trump o sabe, como Ésquilo o sabia. 

O Ocidente nasce em Salamina, mas não só na batalha propriamente dita como também e, 

sobretudo, em sua transposição literária por Ésquilo. Assim, o Ocidente já nasce com uma 

dimensão autorreflexiva, nasce não só como um fato, mas como um trabalho literário de 

construção consciente da história – a tragédia grega é onde o mito conflui com a história. 

“Os Persas” não é uma obra tardia, muito ao contrário, é cronologicamente a primeira 

tragédia (ou mais precisamente é a segunda parte da primeira trilogia, cujo início, “Fineu”, 

não chegou até nós) do primeiro grande poeta trágico. Pátria, liberdade, o sentimento da 

história, o mito – o grito eleutheroúte patrída reúne tudo isso numa nova síntese, numa “poesia” 

no sentido etimológico de algo criado, uma obra humana. Essa poesia, essa 

criação, é o Ocidente. Sim, o Ocidente é, de certa forma, uma criação literária – o que não 

quer dizer que não exista, ou que seja ilusório, pura invenção ou enganação. Muito pelo 

contrário, significa que o Ocidente é uma realização do espírito tal como este se manifesta 

em determinadas pessoas que compõem determinadas comunidades. 

O patriotismo pertence, portanto, à essência do Ocidente. Não foi pensado pelos filósofos, 

foi sentido pelos homens diante do perigo da morte – e não esqueçamos que, para os que 

conhecem a “metafísica da guerra” conforme a expressão de Julius Evola, o grito que nasce 

no peito de um homem na hora da batalha é sagrado, não provém dele, mas lhe é inspirado 

pelo deus. Esse grito de “Libertai a pátria!” não surgiu nunca na Babilônia, nem no Egito, 

não há nada parecido com o conceito de pátria nessas culturas. Os egípcios acreditavam 

viver numa terra sagrada que reproduzia a forma do céu (o Nilo correspondia à Via Láctea, 

as pirâmides de Giza à constelação de Órion para onde iam as almas imortais dos faraós, ao 

menos segundo a interpretação de Robert Bauval), mas não parece haver, na extensa 

literatura egípcia, nada parecido ao clamor de Salamina. Os soldados dos soberanos 

orientais lutavam pelo pagamento, pelo butim, no máximo por 

338 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

alguma fidelidade ao rei (facilmente reversível), mas jamais pela “pátria”. Alguns povos 

antigos lutaram certamente pela liberdade, outros pela sobrevivência de sua família, outros 

pelos seus deuses, ou pela tumba de seus maiores – mas nenhum, senão o grego, lutou pela 

pátria como a soma disso tudo, pela pátria como união indissociável da liberdade, família, 

história e crença. Nenhum deles tampouco, senão o grego, celebrou a pátria e sua 

libertação numa peça de teatro. 

Quanto à Índia, à China e ao Japão antigos, seria preciso examinar a questão das origens do 

nacionalismo nessas culturas também. Mas é certo que, na antiguidade mediterrânea e 

centro‑asiática, nada se compara a Salamina. Pode‑se formular a hipótese de que Índia, China 

e Japão dão hoje continuidade a uma longa linha nacionalista que principia nos primórdios 

dessas culturas. Todos eles praticam um profundo exclusivismo cultural, preservam e 

defendem sem pudor seus deuses e a tumba de seus ancestrais. 

No entanto, segundo os dogmas politicamente corretos de hoje, aquelas culturas nunca são 

chamadas de “fascistas”. Só se contesta a identidade, só se prega a diversidade no Ocidente. 

Ninguém reclama de que a China e o Japão preservem seu caráter profundamente sínico e 

nipônico. Por que só o Ocidente teria a obrigação da diversidade, por que só o Ocidente não 

teria direito à sua identidade? Por causa das guerras provocadas – diz‑se – pelo nacionalismo, 

principalmente a I e a II Guerras Mundiais? Mas o Japão também lutou do lado errado na II 

Guerra e, no entanto, não sofreu o aniquilamento, a invalidação de toda a sua cultura 

pregressa como a Alemanha, por exemplo, sofreu2. 

Roma preservou e aprofundou o nacionalismo tal como originalmente expresso por Ésquilo, 

principalmente entre os primórdios da Urbe e o início do Império. Dulce et decorum est pro 

patria mori, dizia Horácio, “doce e honroso é morrer pela pátria”. A Eneida de Virgílio é o 

primeiro e o maior épico nacionalista de todos os tempos. Já no auge de Roma, o patriotismo 

como amor ao seu rincão e aos seus deuses domésticos se transformou 

2 Curiosamente, esse compreensível descrédito e invalidação do nacionalismo alemão após a 

guerra, em decorrência do nazismo, foi aos poucos se estendendo aos demais nacionalismos 

europeus e ao patriotismo norte-americano, inclusive e absurdamente aos nacionalismos dos 

países cujos soldados lutaram, por amor a suas pátrias, contra o nazifascismo. Na memória 

coletiva que temos hoje, é como se a II Guerra tivesse sido travada, não entre algumas nações 

de um lado e outras nações de outro, tal qual realmente aconteceu, mas entre o princípio 

da nação de um lado e a negação desse princípio do outro, com a vitória final da negação, e 

consequente desmantelamento do nacionalismo enquanto lado perdedor. 

339 Cadernos de Política Exterior 

rapidamente em um ufanismo estatal, uma religião cívica, mas ainda estava baseado em algo 

vivo e pulsante. No Império, o nacionalismo degenera, a nação desaparece e fica só o estado. 

Mas, nos séculos que forjaram a grandeza romana, a nação era algo sagrado, simbolizada pela 

águia das legiões, e associada desde o princípio à liberdade republicana. Embaixo da águia 

vinha a sigla (a primeira sigla da história) SPQR, Senatus Populus que Romanus, o Senado e o 

povo, ou seja, o estado e a sociedade unidos – ou, numa perspectiva sociológica, a elite e a 

plebe unidas sob as asas da nação. 

Aliás, vem evidentemente do latim a palavra “nação”: natio, nationis da mesma raiz do verbo 

nascor, nasci, natum, nascer. A ideia de nação está assim profundamente ligada à autopercepção 

de uma comunidade de pessoas que compartilham uma origem comum. A nação não é uma 

escolha, mas um fato indelével e fundacional na vida do indivíduo como o seu próprio 

nascimento. Não por acaso o marxismo cultural globalista dos dias atuais promove ao mesmo 

tempo a diluição do gênero e a diluição do sentimento nacional: querem um mundo de 

pessoas “de gênero fluido” e cosmopolitas sem pátria, negando o fato biológico do 

nascimento de cada pessoa em determinado gênero e em determinada comunidade histórica. 

Aliás, ainda sou do tempo em que ouvia professores marxistas na universidade conclamando 

cada jovem de todo o mundo a “lutar pela libertação da sua comunidade histórica”, o que 

soava falso, mas que pelo menos ainda continha um eco de Ésquilo, uma maneira leninista 

de dizer eleutheroúte patrída. Já hoje o marxismo conclama a destruir o conceito de comunidade 

histórica, a nação, e não fala mais de liberdade, hoje quer um mundo de fronteiras abertas 

onde todos são imigrantes e ninguém pode identificar‑se com a sua terra nem com a sua 

gente sem ser chamado de fascista. Nos dois casos, a negação do gênero e a negação da 

nacionalidade, o marxismo cultural busca o mesmo objetivo: enfraquecer o ser humano, 

torna‑lo uma paçoca maleável incapaz de resistir ao poder do estado, criar pessoas inseguras, 

desconectadas, incapazes de assumir um papel social próprio ou de ter ideias que não sejam 

os chavões politicamente corretos veiculados na mídia. 

Durante cerca de 1.000 anos, entre o final do principado de Augusto e a explosão de 

criatividade e autoconfiança europeia no século XI, o Ocidente não teve nação: a massa 

imperial amorfa, na longa decadência do mundo antigo, transitou depois um caos 

fragmentado em feudos e 

340 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

microrreinos. Coincidentemente, não foi um período muito feliz na história ocidental, essa 

sequência entre o outono de Roma e o longo inverno da idade das trevas. A Europa começa 

a renascer como civilização quando as nações começam a germinar, na Alta Idade Média, e 

quando ao mesmo tempo a cristandade toma consciência de si mesma e parte para a luta, 

para a reconquista (bem‑sucedida na Península Ibérica, não tanto na Terra Santa). Para usar 

uma imagem indesculpavelmente piegas, é como se um amontoado desconexo de rochas 

começasse a condensar‑se e tomar a forma de vários planetas, diferentes uns dos outros, mas 

compondo todos eles um mesmo sistema e orbitando todos eles em torno do mesmo sol, a 

fé cristã. O processo evidentemente foi imperfeito, obedeceu a formas e velocidades 

completamente diferentes. A França começara a formar‑se muito antes, com Clóvis e Carlos 

Magno, este, aliás, também o pai da Alemanha; a Espanha se condensara inicialmente não 

em um, mas em dois grandes reinos; Portugal surgiu inexplicavelmente quase que a partir do 

nada (por que as gentes do pequeno condado portucalense, entre Douro e Minho, de súbito 

começaram a sentir‑se uma nação, e não um simples feudo como seria de esperar, por que 

tão cedo, tão longe de tudo?); a Itália voltou a ser a nação que de certa forma nunca deixara 

de ser desde as guerras púnicas, mesmo que só viesse a ter o seu estado muitos séculos mais 

tarde; a Inglaterra ganhou o sentido de si mesma ao ser conquistada por um bando de 

aventureiros normandos, etc. As figuras e idiossincrasias 

dessa história são infinitas – algumas nações se formaram pela guerra, outras pela língua ou 

pela literatura – mas o vetor é em todos os casos o mesmo e tudo aponta num sentido 

comum, a nação. A nação passa a encarnar o vigor do espírito ocidental. 

A Revolução Francesa subitamente contesta a nação. Como em tantas revoluções, o povo 

que queria pão, respeito e liberdade, mas que amava a monarquia como símbolo nacional, 

foi rapidamente traído pela elite intelectual que o manobrara para chegar ao poder e que 

imediatamente começou a dar‑lhe opressão, miséria e discurso ideológico, juntamente 

com a cabeça de Luís XVI, que ninguém pedira. Os revolucionários mais extremos queriam 

um mundo sem classes, sem fronteiras, sem Deus, sem família, sem tradições, sem nação. 

Na escola, todos aprendemos a celebrar esse momento tenebroso da história e aprendemos 

a desprezar a Revolução Americana, sem saber que ela pode ser vista como um 

341 Cadernos de Política Exterior 

verdadeiro triunfo do espírito e da liberdade. Mas não terá sido a Revolução Francesa o 

laboratório onde se criaram os vírus de todos os despotismos que avassalaram o mundo 

desde então? O certo é que a França somente se ergueu da fúria homicida e suicida 

revolucionária quando voltou a ser uma nação, com Bonaparte – o qual depois saiu pela 

Europa plantando, seja por imitação ou por contrarreação, o desejo de nacionalismo, 

despertando‑o ou avivando‑o na Itália, nas terras do que viria a ser a Alemanha, na Rússia, 

até mesmo na Suíça. O movimento romântico – que surge mais ou menos no momento em 

que Napoleão chega com suas tropas a Milão (como acreditava Stendhal) e afirma‑se 

rapidamente como uma enorme contrarrevolução cultural, oposta em tudo aos “ideais” da 

Revolução Francesa – tem como um de seus pilares o nacionalismo. O romantismo relê toda 

a história pregressa à luz do sentimento nacional, recria e rearranja os mitos para revelar algo 

profundamente verdadeiro, o fato de que a alma humana é nacionalista, de 

que a história do Ocidente só tem significado, só corporifica um destino – por oposição a 

um simples amontoado de fatos – em torno do sentimento nacional3. Na América Latina o 

enorme impulso romântico inventa nações que não existiam, inclusive a nossa. 

Dessa última década do século XVIII e começo do século XIX surgem todas as linhagens 

espirituais e políticas que disputam o mundo até hoje. Pode‑se argumentar que qualquer 

corrente política, hoje, descende intelectualmente de Babeuf e Robespierre ou de Goethe e 

Chateaubriand. O nacionalismo de raiz romântica vigorou até a I Guerra Mundial, quando 

chegou ao paroxismo e levou a uma crise tão profunda na autoconcepção do Ocidente que 

não nos recuperamos até hoje. Ressurgiu, ao mesmo tempo, com os bolcheviques, o grande 

inimigo revolucionário da ideia de nação. No vácuo deixado pelo descrédito do nacionalismo, 

começou a erguer‑se um novo inimigo, o internacionalismo financeiro 

(simbolizado por um fato logo anterior à guerra, a criação do Federal Reserve em 1913). E, 

na crise espiritual dos anos 20, tomou forma um movimento que pioraria ainda mais a 

situação para o lado nacionalismo: o socialismo se dividiu em duas correntes, uma que 

permaneceu antinacionalista; e outra que, para chegar ao poder, na Itália e na Alemanha, 

sequestrou o 

3 Aliás, o romantismo também cria a palavra “sentimento” e também relê todo o passado para 

descobrir o sentimento, para revelar o sentimento onde até então ninguém o tinha visto. 

342 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

nacionalismo, deturpou e escravizou o sentimento nacional genuíno para seus fins malévolos, 

gerando o fascismo e o nazismo (nazismo = nacional‑socialismo, ou seja, o socialismo 

nacionalista). A partir da experiência nazifascista e dessa contaminação do sentimento 

nacional autêntico pelo movimento revolucionário socialista, o nacionalismo tornou‑se 

praticamente inviável no Ocidente, ou pelo menos na Europa, inclusive porque, após a II 

Guerra, a gigantesca máquina de propaganda marxista conseguiu apagar qualquer traço do 

caráter essencialmente socialista do fascismo e do nazismo, colocando sobre o nacionalismo 

toda a culpa pela catástrofe. Para expiar essa culpa, os povos decidiram trancar seu 

sentimento nacional no calabouço mais profundo, e começaram a substituir o tecido rico e 

complexo de suas histórias por uma coleção de clichês bem‑comportados. 

Fernando Pessoa, último profeta desta última flor do Lácio, dizia na Mensagem: “As nações 

todas são mistérios. Cada uma é todo o mundo a sós.” Pessoa compôs a Mensagem na época 

spengleriana da decadência do Ocidente que coincidiu com o grande desencanto frente ao 

nacionalismo, mas sua reação é justamente a tentativa genial de recuperar ou reinventar o 

nacionalismo mítico (criar mitos é o ofício mais alto que um ser humano 

pode ter, segundo o próprio Pessoa), refundar a unicidade profunda, multidimensional, 

transpolítica da nacionalidade. Da nacionalidade portuguesa no seu caso, mas num contexto 

de pan‑nacionalismo, bastante semelhante ao de Trump: “As nações todas são mistérios”: 

aqui, a palavra “mistérios” pode‑se ler não só no sentido de enigma inescrutável, mas também 

de celebração e rito iniciático, de culto mistérico, como nos mistérios de Elêusis, e nesse 

sentido cada nação é também uma religião. 

“Cada uma é todo o mundo a sós”: ou seja, cada nação é uma experiência e uma vivência 

incomunicável, mas preservando e expressando cada uma o sentido da humanidade toda”. 

No mesmo poema (dirigido a Dona Tareja ou Teresa de Leão, mãe de Afonso Henriques, 

portanto, mãe de Portugal), mais adiante, o vate lamenta: “O homem que foi o teu menino 

envelheceu”. Esse menino, nascido naquele século XI de Dona Tareja e chegado à velhice 

nos anos 1930 da Mensagem, é certamente Portugal, mas ao mesmo tempo é também a ideia 

da nação europeia, esse grupo de 

343 Cadernos de Política Exterior 

mônadas‑irmãs que nascem juntas, vivem suas vidas paralelas e pareciam estar à beira do fim, 

na esteira da Grande Guerra. Mas não é o fim. Pessoa acredita no renascimento da nação – 

tanto da sua própria nação quanto do princípio nacionalista, que são a mesma coisa, pois a 

ideia de nação só existe porque existem as nações específicas, e vice‑versa 

(se é que entendi bem o meu Platão). Assim, ele implora à mãe de Portugal (que aqui também 

representa, claramente, a virgem mãe de Deus, pois Portugal, o filho em seus braços, é 

também o Cristo): “Mas todo vivo é eterno infante. Onde estás e não há o dia, no antigo 

seio, vigilante, de novo o cria!”. 

O historiador Vítor Manuel Adrião vê nas navegações portuguesas um grande ritual 

iniciático, e, portanto, o Brasil, fruto supremo desse “mistério”, tem uma origem profunda e 

sagrada, ligada aos mais profundos arcanos da alma ocidental tal qual manifestados na nação 

portuguesa. Também o Brasil é o filho em que aquele Portugal envelhecido, mas eterno 

infante, se transforma. Os brasileiros, entretanto, ao longo de décadas, abandonamos a tal 

ponto a nossa conexão com a velha alma lusa que já não conseguimos perceber‑nos como 

parte desse drama e, imitando os povos europeus, abandonamos qualquer sentimento do 

sagrado na leitura de nossa história. Vivemos na Ilha da Vera Cruz, na terra da Santa Cruz, 

mas não nos interessamos em saber o que esse nome original significa, em conhecer o destino 

a que esse nome convoca, vemo‑lo como mera 

curiosidade escolar. Por que o destino nos deu primeiramente esse nome, ilha da cruz 

verdadeira, terra da cruz sagrada? Por que tão cedo o ocultou e o trocou pelo nome de uma 

árvore? Mas quiçá não o trocou tanto assim: a árvore, o lenho, a cruz. Em que sentido fomos 

ou podemos voltar a ser aquela cruz verdadeira? Axis mundi de tantas culturas, Ygdrasil dos 

nórdicos (a árvore que conecta a terra e o céu), árvore da vida da cabala 

hebraica, que na cabala cristã se transforma também na cruz de Cristo. E o que dizer da ilha 

mítica chamada Brasil, que os celtas – pelo menos desde o século XIV tal qual atestado pelos 

mapas – acreditavam existir a oeste da Irlanda, mas que só emerge das névoas por um dia a 

cada sete anos? 

Terá sido por mera coincidência que ganhamos o mesmo nome? Por que não aprendemos 

nada disso? Por que nos contentamos com tão pouco em nossa história? Ciclo do açúcar, 

ciclo do ouro, ciclo do café, império, república, ditadura, democracia e pronto. Nada mais? 

344 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

Há exatamente 100 anos, em fins de 1917, Oswald Spengler finalizava a redação do primeiro 

volume de seu magnífico Das Untergangdes Abendlandes, A Decadência do Ocidente, publicado 

em 1918, seguido pelo segundo volume em 1922. Das Untergang é o livro de um amador, 

confuso e surpreendente, caleidoscópico, nada acadêmico, e talvez por isso mesmo tenha 

influenciado muito mais a cultura em geral e o pensamento político do 

que a historiografia. Spengler – professor de história no curso secundário – fala de tudo, mas 

pouco fala da própria decadência do Ocidente, porém bastou o título de sua obra para abrir 

o debate, que desde então não cessou, sobre a mortalidade de nossa civilização e seu fim 

iminente. 

O pensamento de Spengler e a corrente de pessimismo ocidentalista que ele inaugura, há que 

dizê‑lo, nada tem de racista como tantas vezes se apregoa. Spengler não despreza ou odeia 

as outras civilizações ou os povos não ocidentais. Apenas sustenta que a vida de cada ser 

humano só faz sentido dentro de uma determinada civilização, de uma comunidade 

cultural ou – poderíamos acrescentar aqui – dentro de uma nação. Para ele não faz sentido 

falar em “humanidade”, a “humanidade” ou é um conceito zoológico ou então é uma palavra 

vazia, o caráter da humanidade somente se manifesta através da enorme variedade de suas 

formas culturais específicas, através dos povos, através das nações. A humanidade 

sem nações seria algo enormemente seco e pobre. Mas, como a cultura é algo orgânico, e 

não mecânico, ela tem o seu ciclo de vida e, portanto, nasce, cresce e morre. Assim, o 

desaparecimento de uma civilização como a ocidental, como qualquer outra, é algo 

irreparável e inevitável. 

Pode‑se inclusive argumentar que, quando Spengler publicou seu livro, o Ocidente acabava 

de perecer, nas trincheiras da Grande Guerra. De fato, olhando retrospectivamente, vemos 

que a I Guerra Mundial pôs fim senão ao Ocidente, certamente ao seu apogeu. O mundo em 

1913 era inteiramente dominado pela Europa e sua cultura, todo o resto do globo submetido 

a esse grande império, seja como colônia, seja como tributário. O mundo de 1917/1918 já 

era um mundo fragmentado, revoltado, o inexpugnável castelo eurocêntrico ruíra (derrubado 

pela própria guerra fratricida entre os europeus), por toda a parte irrompia o fogo da 

descolonização (primeiro mental, depois política), surgia na Rússia o grande inimigo 

comunista, começava a surgir dos cacos do Império 

345 Cadernos de Política Exterior 

Otomano o islamismo radical. Assistia‑se, senão ao fim, certamente ao começo do fim de 

uma estrutura político‑cultural portentosa.  

A Europa, como centro civilizacional, 

desapareceu na I Guerra Mundial, e o Ocidente ter‑se‑ia extinguido ali, não fossem os 

Estados Unidos empunharem a bandeira desse Ocidente moribundo. O protagonismo 

e a centralidade dos EUA na civilização ocidental foram ficando claros a partir de então, para 

tornar‑se indiscutível após a II Guerra, embora os europeus, carregados de esnobismo 

intelectual, nunca tenham plenamente admitido esse fato. A partir de 1918, e principalmente 

a partir de 1945, o destino do Ocidente (o Ocidente como destino) esteve nas mãos dos 

Estados Unidos. Os EUA tiveram as armas, o poder econômico e a vitalidade cultural para 

dar ao Ocidente uma sobrevida em que os spenglerianos não acreditariam. Nestas últimas 

sete décadas não foram os europeus, mas os norte‑americanos 

que preservaram o legado ocidental em seus principais pilares, não só militar e 

economicamente, não só institucional e politicamente, mas também na vida do espírito: a fé 

cristã morreu na Europa para todos os efeitos, mas viceja nos EUA (não penso apenas nos 

protestantes, penso também na Igreja Católica, vigorosa nos EUA, enfraquecida na Europa).  

O sentido de nação foi banido do mainstream cultural e social europeu, mas permanece central 

na vida americana. A própria cultura clássica é celebrada e vivenciada somente 

nos EUA como parte da própria herança, enquanto na Europa ela hoje se esgota na dimensão 

acadêmica, por um lado, e turística, por outro. 

Os europeus de hoje não sentem mais que façam parte da mesma história que seus 

antepassados, como sentiam até o começo do século XX. Já não se percebem como atores 

do mesmo drama que colocou em cena os cretenses e seu minotauro, os aqueus às portas de 

Troia, Eneias caindo de joelhos ao entender que o Lácio era sua terra prometida (salve 

fatis mihi debita tellus), Salamina e as Termópilas, Alexandre em busca da imortalidade, Aníbal 

com seus elefantes às portas de Roma, as legiões chegando à Lusitânia e maravilhando‑se 

ao contemplar pela primeira vez as ondas majestosas do Atlântico, o logos de Heráclito e o 

logos de São João, São Paulo pregando o Cristo‑Deus, o sonho de Constantino, a conversão 

dos germanos e a conversão dos vikings, a cruzada dos barões e a dos eremitas, São Francisco 

com os passarinhos ao ombro, Percival e o Rei Artur, a partida das caravelas, as teses de 

Lutero, a Bastilha e a Vendeia, 

346 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

Napoleão batido pelo inverno, Lourdes e Fátima, Sédan e Verdun, Omaha Beach. Nada disso 

significa mais nada para um europeu – é como se ele houvesse deixado o palco e sentado‑se 

na plateia, “já não é comigo”. A fundação da União Europeia anulou, pasteurizou todo o 

passado. “Europa” já não significa todo aquele cabedal de experiência humana, mas apenas 

um conceito burocrático e um espaço culturalmente vazio regido 

por “valores” abstratos. Os europeus de hoje podem até estudar sua história, mas não a 

vivem como um destino, muito menos a celebram, nem a entendem como “sua”, não veem 

nela um sentido nem um chamado. É interessante ler lado a lado os historiadores europeus 

que escrevem hoje sobre a Grécia e Roma, por exemplo, ou sobre qualquer outro assunto, 

e aqueles que escreviam no século XIX, antes do grande cataclisma, da grande 

desnacionalização do Ocidente a partir da I Guerra. Aqueles de então viam‑se claramente 

dentro da história que contavam, participavam, falavam com a paixão e o empenho de quem 

sente, de quem conhece as pessoas de que fala, eram íntimos de Péricles e Godofredo de 

Bulhões. Os de hoje escrevem uma história fria, seus personagens não têm vida, são meras 

figuras esquemáticas, parece que estão escrevendo história por obrigação, nenhum 

sentimento do destino ou do mistério os conduz, não têm imaginação, não conseguem ver‑se 

a si mesmos empunhando uma lança na falange macedônia ou içando as velas na Santa Maria.  

Já os historiadores norte‑americanos de hoje – pelo menos alguns deles, os que escrevem 

para o grande público e não para a academia – parecem‑se àqueles europeus do século XIX, 

pois ainda contam a história americana como uma história de carne e osso, uma história que 

consegue comunicar o presente com o passado. Os americanos são o último povo 

tradicionalista no Ocidente (na expressão do professor Christian Kopff, diretor do 

“Centro para a Civilização Ocidental” na Universidade do Colorado em Boulder – cabendo 

perguntar, aliás, até quando a onda politicamente correta que avassala o ensino superior 

americano deixará esse centro ter esse nome). 

Só quem ainda leva a sério a história do Ocidente, só quem continua sendo ator e não mero 

espectador, são os norte‑americanos, ou pelo menos alguns norte‑americanos. 

Hoje, é muito mais fácil encontrar um ocidentalista convicto no Kansas ou em Idaho do que 

em Paris ou Berlim. 

347 Cadernos de Política Exterior 

Para tentar entender Trump em Varsóvia convém ler, além de Spengler e Onfray, também o 

mestre tradicionalista René Guénon (importante influência de Steve Bannon, 

ex‑estrategista‑chefe da Casa Branca e ainda central no movimento que levou Trump à 

presidência). Guénon, escrevendo nos anos 1920, acredita que o Ocidente moderno 

havia‑se distanciado completamente da “tradição” (o núcleo espiritual de todas as civilizações 

e que se manifesta diferentemente, mas de forma coerente em cada uma delas), tornando‑se 

um poço de materialismo e ignorância, cujo único princípio é a negação de qualquer 

espiritualidade. 

Francês convertido ao islamismo e vivendo no Egito, Guénon acreditava, entretanto, que 

somente o cristianismo, e especificamente o catolicismo, poderia talvez recuperar um 

mínimo de espiritualidade no Ocidente e salvá‑lo da completa aniquilação numa profunda 

idade das trevas, pois somente a Igreja Católica, segundo ele, preservava – embora latentes e 

incompreendidos por ela própria – os elementos da grande tradição. Diz Guénon: 

ser antimoderno não significa de nenhuma forma ser antiocidental, ao contrário, significa fazer um 

esforço para salvar o Ocidente de sua própria confusão (...) O Ocidente necessita enormemente de 

defesa, mas somente defesa contra si mesmo e suas próprias tendências que, se levadas à sua 

conclusão, levarão inevitavelmente à sua ruína e destruição. 

É impossível não ouvir ecos guenonianos no Trump de Varsóvia. 

Os EUA defenderam o Ocidente do comunismo e acharam que, quando o comunismo 

acabou, estava feito o trabalho, fim da história. Mas nada acabou. A partir dos anos 90 foi‑se 

vendo que o niilismo (alimentado pelo marxismo cultural) tinha‑se substituído ao inimigo 

comunista. Na verdade, pode‑se argumentar que o comunismo soviético era apenas uma 

entre tantas máscaras desse niilismo fundamental que precede Lênin e 

Stálin, precede Marx, precede Nietzsche, que vem dos philosophes ateus anticristãos que 

prepararam a revolução francesa. 

348 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

Esse inimigo, o niilismo, penetrou os próprios EUA. Rapidamente os Estados Unidos 

vinham substituindo o seu apego à história viva pelo sistema dos “valores” e do relativismo 

cultural (que, aliás, não é relativismo, é um absolutismo antiocidental). Ora, o Ocidente não 

está baseado em valores, não está baseado em tolerância nem em democracia, está baseado 

em Platão e Aristóteles, César e Alexandre, São Paulo e Santo Agostinho, Washington e 

Jefferson, batalhas e milagres, paixões e guerras, a cruz e a espada. O Ocidente tem cara, 

nome e sangue. Ideais e valores sim, mas esses ideais e valores não estão nos panfletos da 

Comissão Europeia nem nas decisões de qualquer corte de direitos humanos, estão nas 

cicatrizes do passado, seus heróis e mártires (heróis ambíguos, certamente, como 

qualquer ser humano). 

Desde 1945 (até Trump), mesmo nos EUA, cada vez se podia falar menos em “Ocidente”. 

Na época da Guerra Fria se usava muito a expressão “Mundo Livre” para opor‑se ao bloco 

socialista, e o conceito de Ocidente, o tesouro das gerações, conseguiu sobreviver, mal e 

porcamente, dentro dessa caixa de papelão, mas foi perdendo qualquer apelo mítico. 

The West era a metonímia que designava apenas uma aliança militar. Em sua base estavam 

“valores” – democracia, respeito aos direitos humanos, liberdade econômica –, mas não 

estavam sentimentos nem uma convicção do destino. 

Os EUA iam entrando no barco da decadência ocidental, entregando‑se ao niilismo, pela 

desidentificação de si mesmos, pela desaculturação, pela substituição da história viva pelos 

valores abstratos, absolutos, inquestionáveis. Iam entrando, até Trump. 

10 

O Ocidente pós‑moderno da desconstrução de todos os significados é também o Ocidente 

politicamente correto da imposição de significados, da criação de tabus, da petrificação do 

pensamento. O Ocidente nasceu interrogando o sentido das palavras, mas ultimamente 

desistiu. Se Sócrates chegasse hoje e, usando seu famoso método, começasse a perguntar: “o 

que é racismo”, “o que é justiça social”, “o que são direitos humanos”, “o que é um direito”, 

“o que é humano”, e se pusesse a desmascarar a inanidade intelectual e a superficialidade 

destes e de outros conceitos, seria novamente condenado a beber cicuta. 

349 Cadernos de Política Exterior 

Para dar um exemplo: “diversidade”. Ouve‑se muito que os problemas da África, as guerras 

civis, os golpes, os massacres e a instabilidade são causados pelo traçado artificial das 

fronteiras coloniais que os países africanos independentes herdaram e que reúnem, num 

mesmo estado, populações de etnias diversas e rivais. Essa interpretação, tão comum entre 

os bem‑pensantes, assume que diversidade étnica dentro de um país ocasiona, portanto, os 

mais sérios conflitos. O corolário evidente é de que, idealmente, as fronteiras africanas 

deveriam ser redesenhadas segundo as etnias, evitando‑se a diversidade dentro de um mesmo 

país. Entretanto, os mesmos bem‑pensantes vão a extremos para promover a diversidade 

nos países ocidentais, justificando‑a não só como dever moral, mas também 

pelos seus supostos benefícios, dizendo que a diversidade proporcionada pela imigração 

estimula o avanço intelectual, a produção cultural e a economia. Interessante. A única 

maneira de explicar racionalmente essa inversão de sinal da diversidade – ruim na África, boa 

nos Estados Unidos ou na Europa – seria supor que determinados povos têm  

capacidade de conviver com a diversidade, outros não – uma explicação que, evidentemente, 

os praticantes da ideologia dominante rejeitariam escandalizados. Então como explicam? 

Não explicam. Mantêm o duplo pensamento, a lógica stalinista pela qual 2+2 às vezes é 5, às 

vezes é 3, conforme a conveniência política. Revela‑se assim que “diversidade” não é um 

conceito racional, pesquisável, interrogável, mas apenas uma palavra de ordem, um tijolo que 

se atira na janela que se quer quebrar, e não um tijolo que sirva para construir, junto com 

outros tijolos, um edifício de pensamento lógico. 

11 

O Ocidente, o nacionalismo ocidental, é um sistema simbólico. Ao homem, animal 

simbólico, o pos‑modernismo vinha negando esse alimento essencial, o símbolo (“nem só 

de pão o homem viverá, mas de toda palavra”). O homem vinha perdendo a função 

simbólica, incapaz de pensar senão a partir de algumas categorias estereotipadas (opressão, 

justiça, humanidade, etc.) sem jamais se perguntar pela essência desses conceitos, sem jamais 

interrogar a sua verdade. Perdia o símbolo e ao mesmo tempo perdia o raciocínio intelectual. 

Só eram permitidas diferentes combinações e recombinações de conceitos fechados, mas não 

examinar 

350 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

por dentro cada um desses conceitos. Quem não tem símbolos não pensa e não sente. Por 

isso o projeto político‑intelectual da pós‑modernidade e do marxismo cultural dedica‑se 

a desacreditar e proibir qualquer símbolo. Um dos efeitos dessa campanha está no próprio 

enfraquecimento semântico do adjetivo “simbólico”, que passou a significar algo pouco 

expressivo e sem substância (falamos, por exemplo, de uma “contribuição simbólica” 

para designar uma contribuição irrisória), quando na verdade a geração ou apresentação de 

um símbolo deveria constituir um ato da mais alta relevância civilizacional. O simbólico é 

tudo, menos “simbólico”4. 

Se olharmos a cultura como algo orgânico, e não mecânico, numa perspectiva simbólica ou 

mítica em seu mais alto sentido – tal como pedia Spengler, tal como pede Trump – veremos 

no economicismo e no liberalismo sinais claros de decadência, de declínio da cultura, e não 

de progresso. O Ocidente que Trump quer reviver e defender não se 

baseia no capitalismo nem numa democracia liberal desnacionalizada, desencarnada, 

desvinculada de uma personalidade histórica, mas nos símbolos. A democracia liberal, tal 

qual praticada atualmente na Europa e nos EUA até o governo Obama, não se mostrava 

capaz de nutrir essa dimensão simbólica. O Ocidente de Trump, portanto, difere 

completamente daquilo que se chamava West na época da Guerra Fria: o West era o 

capitalismo democrático liberal, o Ocidente de Trump é o patrimônio simbólico mais 

profundo das nações que o compõem. Nesse quadro, Deus mesmo não deixa de ser um 

símbolo, o supersímbolo – ao mesmo tempo em que é real e super‑real. 

Evidentemente esse Deus por quem os ocidentais anseiam ou deveriam ansiar, o Deus de 

Trump (quem imaginou que alguma vez leria estas palavras, “o Deus de Trump”?) não é o 

Deus‑consciência cósmica, ainda vagamente admitido em alguns rincões da cultura 

dominante. Nada disso. É o Deus que age na história, transcendente e imanente ao mesmo 

tempo (mine eyes have seen the glory of the coming of the Lord, diz o início do “Hino de Batalha da 

República”, aquele do famoso refrão Glory Hallelujah, que precisa ser escutado com atenção 

para começar‑se a entender a alma americana). Nossa cultura, hoje, ignora esse Deus. Nossa 

cultura não 

4 A mesma degradação atingiu a palavra “mito”, mythos, que originalmente significava uma 

narrativa fundacional criadora de sentido para a vida e de comunicação com os planos mais 

altos da existência, e hoje significa simplesmente uma invencionice, uma mentira. 

351 Cadernos de Política Exterior 

tem nenhum contato autêntico com toda a imensa riqueza e desafio da cultura e da religião 

ocidentais desde Homero e Virgílio, desde Heráclito e Parmênides (assumindo, aqui, que o 

mundo antigo prefigurava de muitas maneiras o cristianismo e, mais do que isso, “ansiava 

pelo Filho”, como sustenta o escritor russo Dimitri Merejkovsky). Como pode ser que nos 

tenhamos deixado empobrecer e cegar dessa maneira? O pensamento e a história ocidental, 

com a fé deles inextricável, formam um enorme palácio do espírito, que nos pertence, mas 

optamos por viver num galpão ao lado, cercados apenas por duas ou três ideias feitas, unindo 

o materialismo mais primário ao humanismo mais superficial. 

Ao chamar por Deus, na praça de Varsóvia, Trump ataca o cerne da pos‑modernidade. 

Não se deve ler Trump pela chave das relações internacionais ou da ciência política, mas sim 

da luta titânica entre a fé e sua ausência, entre o mundo construído pela fé e o mundo que 

vai sendo destruído pelos “valores”. Podemos não querer estar do mesmo lado de Trump 

nessa luta, mas precisamos reconhecer que ele a postula, que ele é um líder nesse combate, 

que não é um “bilionário governando para bilionários” como algum detrator o chamou. 

Bilionário não diz we want God. 

12 

Trump e sua proposta de reconexão com o patrimônio mítico do passado ocidental não seria 

possível, paradoxalmente, sem a internet. A internet, se por um lado constituiu o paroxismo 

da globalização e do desenraizamento do indivíduo, por outro pode tornar‑se 

o instrumento que produz o fim da globalização, pois permite a volta do indivíduo à 

esfera política e o retorno de ideias e maneiras de pensar que já não tinham nenhum lugar na 

mídia oficial controlada pelo programa politicamente correto, inclusive o sentimento 

nacional, o princípio nacional de organização espontânea da sociedade. O mundo do discurso 

vinha‑se transformando em um enorme dictionnaire des idées reçues como chamava 

Flaubert, em um Newspeak como imaginou Orwell. A internet veio para rasgar esse 

dicionário, recuperar a língua e reabrir o espaço simbólico não controlado pelo estado ou 

pelas forças políticas oficiais. 

352 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

13 

Não seria absurdo sustentar que Trump defende o multipolarismo – só que a partir de uma 

multipolaridade civilizacional e não política, tendo como um de seus polos o Ocidente. 

Trump quer reviver o Ocidente, e não estender o seu domínio. Tampouco é necessariamente 

um adepto do excepcionalismo americano, nem muito menos um isolacionista, pois coloca 

os EUA como parte da civilização ocidental, um projeto comum 

ao qual convida os europeus a retornarem. A base do transatlanticismo para ele não deve ser 

o comércio nem a defesa, a Otan será apenas a expressão militar de uma aliança que só faz 

sentido se for uma comunhão espiritual e sentimental muito mais profunda. Podemos dizer 

que a política externa de Trump é uma política externa romântica, ao tentar recuperar os 

heróis e o sentido do destino. Ele pode até estar pronto, como está, a usar os instrumentos 

tradicionais da persuasão e dissuasão, mas o cerne de sua política não pode ser entendido 

pelas regras do jogo geoestratégico tradicional. O excepcionalismo americano se vê 

subsumido no excepcionalismo Ocidental, que não é um supremacismo, mas sim uma 

autoafirmação e não envolve a negação do outro. Antes, está implícito no seu discurso de 

Varsóvia e explícito no discurso diante da AGNU o princípio do respeito mútuo.  

Trump não quer ocidentalizar as outras civilizações, quer apenas que deixem a civilização 

ocidental em paz para que ela possa recuperar‑se e reencontrar o seu vigor. A batalha contra 

o Islã, assumida no discurso de Varsóvia, é uma luta defensiva pela preservação do espaço 

espiritual do Ocidente, não um projeto imperialista. Não há nada de isolacionismo nem de 

renúncia à liderança americana na política externa de Trump. Em Varsóvia, deixa claro que 

pretende ter um papel transformador no mundo. O que confunde muitas pessoas é que 

Trump leva a política externa para outro plano, o de uma luta cultural, civilizacional, e já não 

mais o jogo da geopolítica. Se ficar preso ao plano da geopolítica, o Ocidente está fadado a 

perder, pois não vai ser pela geopolítica que recuperará a sua alma. Os EUA de Trump 

querem Evidentemente liderar o Ocidente nessa direção da recuperação de si mesmo (o si 

mesmo segundo Jung, esse Selbst cujo símbolo supremo é o Cristo). Não se os EUA estão se 

desengajando da OMC, ou da Convenção do Clima, pois o jogo já não está nesse tabuleiro. 

353 Cadernos de Política Exterior 

14 

A questão do posicionamento da Rússia no novo tabuleiro proposto por Trump, o da luta 

geocultural, é mais complexo, de uma complexidade que provém da secular ambiguidade da 

alma russa, dividida entre ser ou não ser ocidental, entre deixar‑se ou não fazer parte da 

mesma cristandade. Alguns até enxergam uma rivalidade e disputa entre Estados Unidos e 

Rússia para saber qual dos dois resgatará a Europa de seu cativeiro pos‑moderno e ateu. Essa 

visão assume a Rússia de Putin como uma força fundamentalmente cristã, um retorno do 

mito histórico de “Moscou terceira Roma”, da Rússia como centro da cristandade após 

a queda da Roma latina e de Constantinopla. A aliança dos Estados Unidos e da Rússia como 

as duas grandes potências cristãs será talvez o sonho de Trump e de Putin. Esbarra, 

entretanto, em muitos obstáculos: a desconfiança russa sobre o futuro dos EUA, mesmo que 

no presente Trump lhe seja simpático; a atávica insegurança geoestratégica russa, que 

a leva a instintivamente sempre tentar ampliar seu perímetro de segurança terrestre; os 

interesses antirrussos do estamento de política externa de Washington; a visão de algumas 

correntes adeptas de Trump que veem na Rússia de hoje um estado neocomunista 

expansionista e em Putin um líder que nunca abandonou a mentalidade de agente da KGB. 

De todo modo, o relacionamento EUA‑Rússia sob Trump e Putin é uma equação que ainda 

não fecha. 

Para tentar uma espécie de aproximação diferencial dessa equação (pois certamente ela não 

é linear), conviria estudar os livros e pronunciamentos do escritor russo Alexander Dugin, 

criador da escola eurasianista e que, após criticar severamente durante duas décadas o 

propósito norte‑americano e europeu de impor à Rússia um liberalismo desenraizado, 

enxerga grande potencial de convergência com os EUA de Trump, e mesmo de cooperação, 

diante de um inimigo comum, o globalismo – entendido como os padrões liberais 

antinacionais e antitradicionais na vida social e do mercado globalizado sem fronteiras na 

vida econômica. 

354 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

15 

E o Brasil? Faz parte do Ocidente? No Itamaraty aprendemos ao longo das décadas a evitar, 

a todo custo, qualquer submissão do Brasil a um bloco, de modo a preservarmos 

a capacidade de desenvolver uma política externa autônoma. Queremos relacionar‑nos 

com todos os blocos, mas sem fazer exclusivamente parte de nenhum deles. Vemos então 

com grande desconfiança a ideia de integrarmos um Ocidente que necessariamente exclui 

outras civilizações e que nos deixaria presos a um determinado bloco. Mas esse não 

alinhamento absoluto não deveria impedir o Brasil de alinhar‑se consigo mesmo e com 

a própria essência de sua nacionalidade, se chegarmos à conclusão de que essa essência é 

ocidental. 

O povo brasileiro parece ser autêntica e profundamente nacionalista e, desse modo, o Brasil 

não teria por que sentir‑se desconfortável diante de um projeto de recuperação da alma do 

Ocidente a partir do sentimento nacional. Tenhamos presente que, hoje, o Brasil pleiteia o 

ingresso na OCDE, ou seja, na instituição central que caracteriza o Ocidente 

econômico. Sentir‑se o Brasil também parte do Ocidente espiritual, por dize‑lo 

assim, não seria talvez absurdo. 

Nesta hipótese, o Brasil – mesmo que o não queira – faz parte do Ocidente, e esse Ocidente 

está – mesmo que não o veja – em um conflito de gigantescas proporções por sua própria 

sobrevivência. Mas para posicionar‑se em tal cenário é preciso não enxergar a realidade 

apenas pelas lentes da política. De fato, ao lado da política, no sentido normal 

de processo decisório estatal e tudo o que o cerca, percebe‑se cada vez mais a existência e 

importância de uma metapolítica, ou seja, o conjunto de ideias, cultura, filosofia, história e 

símbolos que agem tanto no nível racional quanto no nível emotivo da consciência. Assim 

também, ao lado de uma política externa, o Brasil necessita de uma metapolítica externa, 

para que possamos situar‑nos e atuar naquele plano cultural‑espiritual em que, muito mais 

do que no plano do comércio ou da estratégia diplomático‑militar, estão‑se definindo os 

destinos do mundo. Destinos que precisaríamos estudar, não só do ponto de vista da 

geopolítica, mas também de uma “teopolítica”. 

355 Cadernos de Política Exterior 

16 

Trump: We want God. Isso lembra a célebre afirmação de Heidegger no fim da vida: Nur noch 

ein Gott kann uns retten. Esse “nós” que precisa desesperadamente de Deus, esse “nós” que 

apenas um Deus pode salvar, não é senão o Ocidente. 

A despeito da prosperidade europeia no pos‑guerra, da paz, da integração, Heidegger via o 

Ocidente dos anos 60 (quando deu a entrevista ao Der Spiegel na qual se encontra aquela frase) 

como uma civilização caindo aos pedaços. Heidegger, aliás, sempre foi um nacionalista e nos 

anos 30, achou que com o nazismo a nação estava renascendo, mas logo 

se desencantou. Entretanto, ao repudiar o nazismo, nunca abjurou do nacionalismo, e por 

isso tornou‑se um pária social, pois o poder dominante instalado no pos‑guerra não admitia 

essa dissociação. 

Heidegger fez sempre um enorme esforço em abrir a metafísica para a história e vice‑versa. 

O absoluto é indissociável do relativo e do tempo: SeinundZeit. Para ele a salvação existe na 

história e o espírito só frutifica na cultura histórica de uma nação. Porém, desde 1945, na 

ideologia liberal dominante, qualquer nacionalismo (ocidental) é associado em última 

instância ao nazismo. Nesse mundo ocidental desnacionalizado, nenhuma agência humana, 

mas somente sobre‑humana, somente um Deus poderia vir em socorro. Trump parece bem 

mais otimista do que Heidegger, mas, em última instância, está em sua mensagem também o 

mesmo grito: agora só Deus. Nur noch ein Gott. Não será o desenvolvimento nem a tecnologia 

nem a justiça social nem a cooperação nem a sustentabilidade nem os direitos humanos que 

nos salvarão. Somente um Deus poderá salvar‑nos, dar‑nos sentido – se 

Ele o quiser, se nós O quisermos, se reencontrarmos a nossa Wille zum Gott por trás de uma 

Wille zur Macht que também abandonamos na beira da estrada. (Aliás, quem sabe se a 

“vontade de poder” de Nietzsche não foi a maneira que ele encontrou para dizer we want God 

sem dar o braço a torcer? Se, no fundo, aquela Wille zur Macht não é apenas uma face visível 

da inconfessável, secreta e sempre presente Wille zum Gott, sendo o poder uma das faces de 

Deus?). Se os ocidentais entenderem (entendermos?) que precisam de salvação, se pelo 

menos olharem com atenção o jogo, perceberão que seu time está perdendo e faltam poucos 

segundos. 

356 ano III • número 6 • 2º semestre 2017 

Somente um Deus poderia ainda salvar o Ocidente, um Deus operando pela nação – 

inclusive e talvez principalmente a nação americana. Heidegger jamais acreditou na América 

como portadora do facho do Ocidente, considerava os EUA um país tão materialista quanto 

a União Soviética e incapaz da autopercepção metafísica indispensável à geração de um 

“novo começo”, como ele dizia, essa refundação do Ocidente que repetiria em outros termos 

o primeiro começo gerado pelos antigos gregos. Talvez Heidegger mudasse de opinião após 

ouvir o discurso de Trump em Varsóvia, e observasse: Nur noch Trump kann das Abendland 

retten, somente Trump pode ainda salvar o Ocidente. 

Sugestões Bibligráficas 

ADRIÃO, V. Ml. Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo. São Paulo: Madras, 2014. 

AESCHYLUS Persae. Oxford: Oxford University Press, 2009. 

EVOLA, J. Metaphysics of War. London: Arktos, 2001. 

GUÉNON, R. The Crisis of the Modern World. New York: Sophia Perennis, 2001. 

HEIDEGGER, M. Ormai solo un dio ci può salvare. Intervista com lo “Spiegel”. Parma: Ugo 

Guanda, 2000. 

HEIDEGGER, M. Nietzsche: Der europäischeNihilismus. (Gesamtausgabe, V. 48). Frankfurt: 

Vittorio Klostermann, 1986. 

JUNG, C.G. Aion – Researches into the Phenomenology of Self. New York: Bollingen Foundation, 

1959. 

MÉREJKOVSKY, D. Atlantide‑Europe – Le mystère de l’Occident. Lausanne: 

L’Âge d’Homme, 1995. 

NIETZSCHE, F. The Will to Power. New York: Vintage, 1968. 

ONFRAY, M. Décadence – Vie et Mort du judeo‑christianisme. Paris: Flammarion, 2017. O artigo do autor Ernesto Henrique Fraga Araújo* 

A principal diferença entre a direita e a extrema direita reside na aceitação do pluralismo democrático e na intensidade de certas pautas ideológicas. Enquanto a direita tradicional atua dentro das instituições vigentes, a extrema direita frequentemente adota posturas antissistema ou de exclusão de minorias

Direita Convencional

A direita moderada ou liberal-conservadora foca na manutenção da ordem social e na liberdade econômica, respeitando as regras democráticas. 

Economia: Defesa do livre mercado, privatizações e redução do papel do Estado.


Sociedade: Fomento a valores tradicionais e à hierarquia social, mas convivendo com a diversidade política.


Política: Atuação por meio de partidos tradicionais e respeito às instituições democráticas. 


A extrema direita radicaliza os princípios da direita e pode apresentar traços autoritários. 

Nacionalismo Radical: Defesa de uma identidade nacional "pura", muitas vezes com viés chauvinista ou xenófobo.


Antissistema: Críticas severas às instituições democráticas e ao pluralismo, frequentemente promovendo lideranças fortes que se colocam como "outsiders".


Rejeição de Minorias: Discursos que marginalizam grupos específicos (imigrantes, minorias religiosas ou raciais) sob a justificativa de preservar a cultura nacional.


Exemplos Históricos e Atuais: Inclui desde o fascismo histórico até movimentos contemporâneos que adotam táticas de polarização extrema e contestação da legitimidade de adversários. 

O populismo é uma estratégia política que divide a sociedade entre o "povo virtuoso" e uma "elite corrupta"

. Em 2026, essa distinção continua sendo central no debate global e brasileiro, diferenciando-se pela definição de quem é esse "povo" e quem é o seu inimigo. 

Populismo de Esquerda

Definição do "Povo": Foca na classe trabalhadora, nos marginalizados e nos explorados pelo sistema capitalista.


Inimigo Eleito: A elite econômica, o sistema financeiro, as grandes corporações e a desigualdade.


Objetivo: Redirecionar o poder econômico e promover a justiça social através da intervenção estatal e políticas distributivas.


Cenário em 2026: No Brasil, o O Partido dos Trabalhadores  continua sendo a principal referência, com o governo buscando resgatar a popularidade através de agendas sociais focadas nas classes populares  para a disputa eleitoral em 2026.


Populismo de Direita

Definição do "Povo": Baseia-se em uma identidade cultural, nacional ou religiosa (frequentemente definida como a "maioria silenciosa").


Inimigo Eleito: Elites intelectuais e "cosmopolitas", o "sistema" (establishment) político, instituições como o Judiciário e, por vezes, minorias ou imigrantes.


Objetivo: Restaurar valores tradicionais e a ordem social, muitas vezes com um discurso antissistema e agenda de liberalismo econômico.


Cenário em 2026: A direita brasileira, liderada por figuras associadas ao Partido Liberal (PL), enfrenta o desafio de se reorganizar em meio a divisões internas, buscando uma candidatura competitiva que mantenha a base populista e conservadora forte para as eleições gerais de 2026.

EMENDA I

O Congresso não legislará no sentido de estabelecer uma religião, ou proibindo o livre exercício

dos cultos; ou cerceando a liberdade de palavra, ou de imprensa, ou o direito do povo de se reunir

pacificamente, e de dirigir ao Governo petições para a reparação de seus agravos. Segundo a Constituição dos Estados Unidos na Universidade Federal de Londrina. Donald Trump é antidemocrático . E viola a primeira emenda da Constituição dos Estados Unidos.

Confira a noticia no Portal G1 da Rede Globo . https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/09/21/cnn-ms-now-politico-processam-governo-trump-banidos-casa-branca.ghtml

E assim caminha a humanidade.

Imagem da CNN Brasil. 





 

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