O preconceito de classe no Brasil é uma das engrenagens mais profundas da desigualdade do país, estruturado historicamente pela herança escravista e pela reprodução de privilégios. Muitas vezes mascarado por mitos como o da "democracia racial" ou de uma suposta cordialidade, o preconceito social — ou elitismo classista — opera estabelecendo uma rígida barreira invisível para manter a distância social entre os detentores do capital (econômico e cultural) e a classe trabalhadora.
Sociólogos contemporâneos, com destaque para as análises de Jessé Souza em suas obras sobre as classes sociais no Brasil, apontam que essa dinâmica se manifesta de formas muito específicas:
1. A Raiz Escravista e o "Racismo de Classe"
A elite brasileira se formou e se consolidou sob o signo da escravidão. Isso gerou um fenômeno em que as clivagens de raça e classe se fundem. O preconceito de classe funciona como um "racismo de classe", que criminaliza e deshumaniza os indivíduos periféricos, associando a pobreza histórica — que afeta majoritariamente negros e mestiços — à falta de inteligência, à vadiagem ou à ausência de modos civilizados.
2. O Papel da Classe Média como Guardiã
A reprodução desse sistema não é feita apenas pelas elites . A classe média atua frequentemente como a guardiã da "distância social". Como não possui o grande capital econômico, a classe média se apega ao capital cultural (diplomas, o domínio de códigos de etiqueta e linguísticos tidos como legítimos) para se diferenciar dos mais pobres.
3. Rejeição á Ascensão Social
O preconceito de classe no Brasil costuma ficar mais evidente em períodos de inclusão econômica ou de políticas de ação afirmativa. A entrada de classes populares em espaços antes exclusivos das elites — como aeroportos, universidades públicas (via cotas) ou shoppings centers (através dos "rolezinhos") — costuma gerar reações de forte rejeição disfarçadas de discursos sobre "perda de qualidade" ou "falta de educação".
4. A Moralização e a Criminalização da Pobreza
Para justificar a manutenção da desigualdade, as elites constroem narrativas morais que culpam o próprio indivíduo por sua vulnerabilidade social.
Falsa meritocracia : Trata o sucesso como fruto exclusivo do esforço, ignorando o abismo de oportunidades e o peso do berço econômico e cultural.
Estigmatização territorial: Quem reside em favelas, periferias ou provém de regiões historicamente marginalizadas (como a população nordestina nos grandes centros do Sudeste) sofre uma homogeneização negativa, sendo associado à violência ou ao atraso.
2. A acomodação das relações raciais em
posições de classe
Emerson Ferreira Rocha
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ROCHA, E.F. A acomodação das relações raciais em posições de classe.
In: O negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de
riqueza com os dados do Censo 2010 [online]. Brasília: Editora UnB,
2019, pp. 35-70. Pesquisa, inovação & ousadia series. ISBN: 978-65
5846-052-7. https://doi.org/10.7476/9786558460527.0004.
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2 A acomodação das relações
raciais em posições de classe
É duradoura e, muitas vezes, acirrada a controvérsia sobre os pesos relativos
da classe social e da raça sobre as chances de vida das pessoas no Brasil. Curiosa
mente, o leitor que vasculhar com cuidado as pesquisas quantitativas mais recen
tes sobre o tema, sem intenção muito arraigada de buscar subsídios em um dos
polos da controvérsia, encontrará poucas razões para que ela exista, pelo menos
da forma como se apresenta. Sobre a desigualdade racial de renda, por exemplo,
fazendo abstração de discrepâncias menores entre coefi cientes estimados, essa
literatura converge para uma conclusão substantiva que pode ser sintetizada em
dois períodos. De modo geral, o ponto de partida socioeconômico e a escolaridade
formal explicam a maior parte da desigualdade de renda observada entre negros
e brancos. Não obstante, a condição racial tem um efeito próprio que estabelece
graves iniquidades entre negros e brancos equiparáveis em termos daqueles fatores.
Além disso, a intensidade dos efeitos da discriminação racial varia de acordo com
a posição socioeconômica. O que torna complicado o debate é, mais uma vez, sua
relação com o imbricado imaginário sobre relações raciais no Brasil.
Muito amiúde, discutir classe e raça constitui uma forma de debater a natureza
mesma das relações raciais no país. Tema espinhoso, pois se situa na mediação
entre a análise sociológica e as narrativas mais abrangentes sobre a especifi cidade
O negro no mundo dos ricos
do Brasil enquanto civilização. A primeira seção deste capítulo encerra um esforço
para desatar alguns nós gerados por essa sobreposição de narrativas. A segunda
retoma algumas das principais conclusões dos estudos empíricos sobre relações
raciais no Brasil, identificando um processo cumulativo de conhecimento. Quer
dizer: preocupa-se mais com o desenvolvimento interno dos estudos sobre o tema.
A terceira seção aborda o objeto mais específico deste livro, o estudo da condição
dos negros em posições socioeconômicas mais privilegiadas.
2.1 Um mito de origem: a ideia de “racismo brasileiro”
Luiz Aguiar Costa Pinto, que, com a morte de Arthur Ramos, passou a coor
denar o famoso projeto de pesquisa sobre relações raciais no Brasil apoiado prin
cipalmente pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a
Cultura (UNESCO), afirmou que a comparação com os Estados Unidos, principal
recurso heurístico dos grandes intérpretes sobre o tema, contribuiu mais para
confusões do que para esclarecimentos (COSTA PINTO, 1953). Sem embargo, o
campo de estudos sobre relações raciais no Brasil se constitui sob a égide dessa
comparação. Num primeiro momento, ele desponta pela emancipação da análise
cultural em relação às teorias do racismo científico institucionalizadas no Brasil
ao longo do século XIX (SCHWARTZ, 1993) e persistentes durante a primeira
metade do século XX (DELUCA, 1999). Pode-se localizar o início dessa passa
gem no trabalho de Nina Rodrigues (1932), que, diante da pouca confiabilidade
das informações sobre proveniências étnicas dos negros brasileiros com base em
registros documentais – dado o fluxo interno de escravos do território africano,
registros de portos de origem não poderiam ser considerados bons indicadores
de proveniência étnica –, procurou identificar essas proveniências pelo estudo
comparativo de práticas religiosas no Brasil com as descrições oferecidas por
trabalhos de campo realizados na África. Nesse momento, tematizava-se a questão
racial no Brasil primeiramente sob a perspectiva dos estudos culturais, enquanto
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2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
“la mayor parte de la bibliografía del negro em los Estados Unidos [era] más
bien de índole sociológica que antropológica” (RAMOS, 1944, p. 78).
Foi exatamente por meio do contato com a agenda de pesquisa norte-americana
que se desenvolveram no Brasil os estudos sobre a questão racial do ponto de
vista da estratificação social, agenda de pesquisa à qual o termo “relações raciais”
geralmente se refere. Não é, portanto, “por nada” que muitas polêmicas existen
tes na discussão sobre relações raciais no Brasil podem ser entendidas enquanto
satélites gravitando em torno da comparação, explícita ou implícita, entre Brasil e
Estados Unidos. Foi essa comparação que colocou no centro do debate a questão,
extremamente abstrata, sobre a natureza das relações raciais no Brasil.
Não que tenha existido uma simples imposição imperialista de conceitos cunha
dos no caso norte-americano. Ao que tudo indica, os intelectuais brasileiros exer
ceram um papel extremamente ativo, desde o começo, na elaboração dos termos
dessa comparação. O fato de que fizeram isso num contexto em que colaborar com
intelectuais norte-americanos era algo estratégico para conseguir recursos e projetar
um campo de pesquisas sociais no Brasil configura, por si só, uma assimetria de
poder. No entanto, o modo como as coisas parecem ter acontecido não aponta para
o simples recebimento de categorias, mas sim para o esforço ativo de pesquisadores
brasileiros para investir na especificidade nacional das relações raciais enquanto
ideia-força da pesquisa brasileira sobre o tema. Esses pesquisadores fizeram isso
porque essa ideia era estratégica. Financiamentos de pesquisa eram motivados pela
curiosidade “gringa” a respeito de uma modalidade tão especial de relação entre
grupos raciais distintos no contexto de uma mesma ordem nacional. Tais pesquisa
dores fizeram isso, também, porque essa mesma ideia era plausível. Afinal de contas,
existiam contrastes muito marcantes entre o contexto brasileiro e o estadunidense
com relação ao sistema de segregação racial instituído no sul dos Estados Unidos
após a Guerra Civil, com as manifestações violentas de um conjunto de valores
raciais nitidamente puristas. Tudo aquilo era muito diferente do racismo eugênico
que havia vingado no Brasil durante o período recém-pós-escravista.
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O negro no mundo dos ricos
As palavras de Robert Park, certamente baseadas na pesquisa realizada na
Bahia por seu estudante Peirson durante a década de 1930, expressam bem o sentido
geral das conclusões dos primeiros esforços comparativos:
Assim, pode-se dizer, sem que se traia o sentido em que o termo
é comumente empregado, que há sim raças no Brasil – que exis
tem, por exemplo, europeus e africanos – mas que não há relações
raciais já que praticamente não existe consciência racial. Fala-se em
relações raciais quando existe um problema racial e não existe pro
blema racial no Brasil ou, se ele existe, é muito pequeno e não tem
claramente a ver com as populações de origem africana e europeia
(PARK, 2000, p. 105, tradução nossa).1
Esse tipo de interpretação se lastreia no esquema teórico de relações raciais
baseado no conceito de castas. Esse esquema é explicitado no trabalho A com
parative study of American caste, da década de 1930, onde os autores propõem
a díade conceitual casta e classe para descrever a relação entre questão racial e
estratificação socioeconômica nos Estados Unidos (WARNER; DAVIS, 1939).
O esquema é simples. Primeiro, a segregação sistemática faria de negros e brancos
duas castas distintas. Segundo, haveria uma diferenciação de classes dentro de
cada uma dessas castas, sendo que essa diferenciação no interior da casta negra é
menor e enviesada para as posições de baixo status social, como consequência de
sua posição subordinada.
Esse esquema tornou-se corrente e está presente, por exemplo, no abrangente
livro An American dilemma (MYRDAL, 1944), onde o autor denuncia a incon
gruência normativa entre o sistema de castas raciais e a ordem democrática nos
1 “Thus, one may say, without doing injustice to the sense in which the term is ordinarily used, that
there are, to be sure, races in Brazil – there are, for example, Europeans and Africans – but not
race relations because there is in that country no race consciousness, or almost none. One speaks
of race relations when there is a race problem, and there is no race problem in Brazil, or if there
is, it is very little if at all concerned with the peoples of African and European origin.”
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2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
Estados Unidos. O que as gerações de estudos posteriores sobre relações raciais
no Brasil tentaram mostrar foi, em grande medida, que esse esquema conceitual
seria insuficiente para analisar o problema nessa região dos trópicos. Partindo
desse esquema, a única conclusão possível seria a da inexistência de castas raciais
no Brasil e, por conseguinte, da inexistência de um problema racial. Esse impasse
conceitual é responsável pela ambiguidade de alguns trabalhos de meados do
século XX. Ele explica, por exemplo, como o organizador do clássico Classe e raça
no Brasil rural (WAGLEY, 1952) pôde afirmar na introdução do livro, utilizando o
termo democracia racial, que não existem problemas relevantes relacionados à dis
criminação racial no Brasil, enquanto um dos estudos que compõem o livro afirma:
Existem vários elementos definidores das classes – riqueza, edu
cação e família. A raça também é importante. Pessoas dizem que
a riqueza é mais importante, em segundo lugar a educação e, em
terceiro, a raça. Assim, a raça constitui um dentre um conjunto mais
amplo de elementos ordenando as pessoas numa hierarquia social,
e não um fator que divide a sociedade em dois grupos distintos
(HUTCHINSON, 1952, p. 16, tradução nossa).2
O trabalho de campo aponta para formulação mais sofisticada e atual do pro
blema, segundo a qual a raça constitui um dos fatores de um complexo multicausal
que afeta as chances de vida das pessoas. Por outro lado, o peso do quadro concei
tual comparativo impede que o organizador compreenda a extensão dos resultados
empíricos. A experiência norte-americana no início do século XX constitui o caso
paradigmático de problema racial. Esse caso concreto é transposto ao plano abstrato
conceitual pela disjuntiva entre classes econômicas e castas raciais. A disjuntiva
2 “There are many elements which go toward defining the classes – wealth, education and family.
Race is also important. People say that wealth is the most important, education the second, and
race the third in importance. Thus, race is but one of a number of elements ranking people in a
social scale, rather than a separating factor which divide them into distinct groups.”
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O negro no mundo dos ricos
conceitual assume, e aqui está o quid pro quo, o estatuto geral de parâmetro para a
identificação de problemas raciais. Por conseguinte, os casos concretos aos quais
a disjuntiva não se aplica, em que não existe a formação de castas definidas, não
podem ser classificados como problemáticas do ponto de vista das relações raciais.
Observa-se que o problema existe e que a distinção entre tipos raciais pesa sobre
uma estrutura complexa de distinção e atribuição de status, mas o esquema concei
tual não pode designá-lo. E, se o problema não tem nome, é como se não existisse.
Não é por acaso que trabalhos interpretativos subsequentes procurarão justa
mente dar nome ao “racismo à brasileira”. O esforço é o de fazê-lo existir no campo
conceitual, para o que é necessário inovar em relação ao esquema então disponível.
Antes de chegar a isso, contudo, é interessante notar que, mesmo em se tratando dos
Estados Unidos, há o risco de se perder de vista importantes peculiaridades das relações
raciais caso o esquema classes econômicas e castas raciais seja aplicado de maneira
demasiado ortodoxa. A quarta edição de The negro handbook (1942, p. 69) aplica
esse esquema com flexibilidade, revelando dinâmicas interessantes e estranhas ao
imaginário acadêmico que construímos acerca das relações raciais nos Estados Unidos.
Diz-se que, antes da legislação Jim Crow, havia uma tendência por parte das
pessoas brancas de tratar pessoas negras de modo diferente, a depender de sua educa
ção de classe. Essa tendência foi interrompida pelas leis aplicadas a todos os negros.
Desse modo, a legislação cristalizou a linha de casta e minimizou a importância das
diferenças de classe no interior do grupo dos negros. Esse foi provavelmente o fator
mais crucial para a formação do presente sistema de casta, uma vez que a diferencia
ção por classes entre os negros continuou e, na verdade, ganhou momentum. Como
mostraremos, existe, em décadas recentes, uma tendência para a aplicação das regras
de segregação com alguma discrição sobre negros com status diferenciado de classe.
Se tendência similar existia antes das leis Jim Crow, então essas leis adiaram esse
processo social específico em uma ou duas gerações. (Tradução nossa).3
3 “Before the Jim Crow legislation there is also said to have been a tendency on the part of white people
to treat Negroes somewhat differently depending upon their class education. This tendency was broken
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2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
A diferenciação, entre os negros, por classes sociais não é estranha ao emprego
convencional do esquema de castas e classes, mas a modulação da discriminação
racial pela posição de classe, sim. Convencionalmente, pensa-se em uma linha de
castas com subdivisões internas de classe, mas não na interação entre esses dois
fatores de estratificação. O que esse trecho traz é uma apreensão mais complexa
das dinâmicas de discriminação e de atribuição de status. Em vez de simplesmente
aplicar uma tipologia para definir as relações raciais no contexto norte-americano,
a análise percebe tendências distintas atuando simultaneamente e interagindo entre
si. De um lado, os dispositivos que reforçam e recrudescem as fronteiras entre
castas, do outro, o status socioeconômico gerando relações de reconhecimento que
atravessam a barreira racial.
Há ainda mais. É sabido que a constituição de castas nos Estados Unidos teve
a ver com a separação absoluta em termos de ascendência racial, popularizando a
alcunha “regra da uma gota de sangue”. Sem embargo, nos Estados Unidos a ideia de
pureza racial teve grande adesão e concertou práticas tanto difusas quanto institucio
nalizadas. Algo muito diferente do que ocorreu no Brasil, onde, no mesmo início do
século XX, consolidou-se a ideia de eugenia por meio da miscigenação seletiva. Mas,
a discriminação por tonalidades, para a qual o mestiço, quando claro, é bem-vindo ou
pelo menos melhor recebido e tratado, constitui traço especialíssimo do preconceito
racial dos trópicos? O autor do clássico de 1852, Uncle Tom’s cabin, narra:
O itinerante no Sul deve ter muitas vezes notado aquela refinada
atmosfera de refinamento, aquela delicadeza da voz e das maneiras,
que parece constituir, em tantos casos, um dom particular da morena
by the laws which applied to all Negroes. The legislation thus solidified the caste line and minimized
the importance of class differences in the Negro group. This particular effect was probably the more
crucial in the formation of the present caste system, since class differentiation within the Negro group
continued and, in fact, gained momentum. As we shall find, a tendency is discernible again, in recent
decades, to apply the segregation rules with some discretion to Negroes of different class status. If a
similar trend was well under way before Jim Crow laws, those laws must have postponed this parti
cular social process for one or two generations.” (The Negro Handbook, 1942, p. 69).
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O negro no mundo dos ricos
clara e da mulata. Essas graças naturais à morena são geralmente
acompanhadas da mais estonteante beleza e, quase sempre, de
uma apresentação pessoal atrativa e agradável. (STOWE, 2009,
p. 381, tradução nossa).4
A distinção do mestiço em termos estéticos, a associação dessa distinção esté
tica com diferenças em atributos pessoais e de valoração social, assim como a
distinção de certas gradações de negritude, não se encontram apenas na narrativa
literária. Na verdade, a existência, nos Estados Unidos, de melhores condições
socioeconômicas para negros com tonalidade de pele mais clara é documentada por
trabalhos acadêmicos desde a primeira metade do século XX (KEITH; HERRING,
1991; RANSFORD, 1970; MYRDAL, 1944). Em The Mullato in the United States,
Reuter (1969) apresenta uma pesquisa sobre a condição socioeconômica dos negros
norte-americanos desde o período colonial e mostra como os mestiços ocuparam
com maior frequência as posições relativamente melhores, tanto no âmbito do
trabalho escravo quanto nas brechas abertas aos negros no mundo do trabalho
livre. Entre os escravos de ofício, os escravos urbanos e os escravos domésticos
(que viviam em melhores condições, longe do eito e dentro da casa senhorial),
assim como entre os negros livres, os mulatos sempre foram desproporcionalmente
representados. Segundo o primeiro censo norte-americano a distinguir oficialmente
“mulatos”, o de 1850, eles perfaziam 11% da população negra. No entanto, compu
nham 8% da população escrava e quase 40% da população negra livre. O mesmo
autor observa ainda:
Mas a principal razão para que o mulato [aparte, por exemplo,
a crença na superioridade de suas habilidades intelectuais] fosse
escolhido preferencialmente ao negro para qualquer atividade que
4 “The traveller in the south must often have remarked that peculiar air of refinement, that softness
of voice and manner, which seems in many cases to be a particular gift to the quadroon and mulatto
woman. These natural graces in the quadroon are often united with beauty of the must dazzlin kind,
and in almost every case with a personal appearance prepossessing and agreeable.”
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2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
o colocasse em associação com o senhor foi o fato de ser ele um
animal mais bonito. Ele tinha uma aparência melhor. (REUTER,
1969, p. 177, tradução nossa).5
A relevância do fenótipo também é atestada mais tarde pelo autor de Black
bourgeoisie. Frazier (1957) observa que parte considerável dos anúncios vendidos
pela imprensa negra era referente a produtos cosméticos cujo efeito era suprimir
ou modificar caraterísticas tipicamente negroides. Em outro trabalho, o mesmo
autor chama atenção para a relevância do racialismo de base fenotípica para as
dinâmicas matrimoniais:
Um homem que, pelo sucesso nos negócios ou em sua carreira profis
sional tenha adquirido segurança econômica, tende a esposar uma filha
de tez clara de uma dessas tradicionais famílias mestiças com o objetivo
de consolidar seu status social. Eis como um professor universitário
negro, que havia ascendido do proletariado, destacou, referindo-se a sua
esposa loira, oriunda de uma família tradicional: “Veja minha esposa.
Eu me casei com ela para que não houvesse dúvida a respeito do sta
tus da minha família. Ela em a cor de pele certa e, além disso, vem de
uma família tradicional.” (FRAZIER, 1951, p. 321, tradução nossa).6
Tudo isso torna claro ao que Pierson (1942) se referia quando notava, em
uma das passagens em que modera o tom peremptório de suas conclusões sobre a
5 “But the most important reason that the mulatto [aside, for example, the belief in his superior
intellectual abilities] was chosen in preference to the Negro for any employment that brought him
into association with the master family was the fact that he was a better-looking animal. He made
a better appearance.”
6 “A man who through success in business or in his profession has a secure economic position may
marry a fair daughter of one of these old mulatto families in order to consolidate his social status.
As a black college professor who had risen from black proletariat remarked concerning his blond
wife who came from an old family: ‘You see my wife. I married her so that there would be no question
about the status of my family. She has the right color and, more than that, comes from an old family’.”
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O negro no mundo dos ricos
inexistência de problemas raciais no Brasil, que, não havendo aqui o mesmo padrão
de discriminação existente entre negros e brancos nos Estados Unidos, haveria um
tipo de discriminação comum ao interior da casta negra norte-americana. Contudo,
o que Pierson equivocadamente deixa de notar é que a hierarquia entre diferentes
níveis de negritude era eficaz enquanto critério de distinção no interior da casta negra
apenas porque se configurava como critério de distinção para a sociedade como
um todo. Ainda que, durante certo período, um sistema institucional de segregação
prevenisse quase que absolutamente a aproximação entre negros e brancos, quer no
mercado de trabalho quer no mundo da vida, o fato de ter sido o mestiço, tanto no
passado quanto no presente, um tipo humano mais valorizado e admitido nos níveis
possíveis de intercurso social com os brancos constituiu o fator determinante para
a sua ascensão a condições sociais melhores que as da população negra em geral.
Em outras palavras, a discriminação racial com base fenotípica não é exclusividade
brasileira, tendo estado presente também, desde muito tempo, nos Estados Unidos.
Estudos quantitativos mais recentes convergem para essa mesma conclusão.
Utilizando uma classificação racial com cinco categorias de negros (do muito escuro
ao muito claro), Keith e Herring (1991, p. 772) mostram que essas gradações
raciais se associam a diferenças em níveis de escolaridade, de status ocupacional
e de rendimentos. Além disso, a discriminação racial com base em diferenças num
continuum fenotípico também motivou, nos Estados Unidos, um grande volume
de pesquisas nas áreas da psicologia social e cognitiva que investigam implicações
desse tipo de hierarquia racial sobre a construção da autoestima (MADDOX, 2004).
Torna-se forçoso admitir que a ideia de que esse tipo de discriminação racial,
com base no fenótipo, encerra uma exclusividade brasileira constitui, na verdade,
uma espécie de mito fundador do campo de estudos sobre relações raciais no Brasil.
No esforço de se livrarem das restrições do esquema conceitual de classes e castas
para melhor abordarem a natureza das relações raciais no Brasil, nossos pesquisado
res continuaram a assumir esse esquema formal como substância, confundindo-o com
o próprio caso concreto da discriminação racial nos Estados Unidos. Em contraste,
44
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2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
encontram na discriminação sem castas, baseada no fenótipo, um esquema que, por
sua vez, acabou por se confundir com o próprio caso concreto da discriminação racial
no Brasil. Ganha formas acabadas uma espécie de tese da especificidade nacional do
racismo, em formulações como a disjuntiva entre “preconceito de origem” (o norte--americano) e “preconceito de marca” (o brasileiro) (NOGUEIRA, 1950) ou a ideia
do “mulato enquanto válvula de escape” (DEGLER, 1971). Mais recentemente, uma
das questões utilizadas pelos organizadores de uma ampla pesquisa sobre relações
raciais no Brasil para motivar sua equipe foi: “O racismo brasileiro é mais ou menos
violento do que outros?” (MAGGIE; REZENDE, 2002, p. 15).
2.2 As quatro abordagens sobre relações raciais no Brasil
Uma forma usual de organizar a tradição de estudos sobre relações raciais
no Brasil é identificar ondas ou gerações nessa produção (GUIMARÃES, 2004;
OSÓRIO, 2008). Assim, Osório (2008), por exemplo, distingue três ondas teóricas.
Na primeira, cujo maior expoente é Donald Pierson, prevalece a ideia de que a
discriminação racial é, no Brasil, um fenômeno pouco relevante. De acordo com
essa onda teórica, o único critério de estratificação relevante na sociedade brasileira
seria a classe social. As desigualdades raciais observadas seriam apenas fruto da
sobreposição entre raça e classe. A segunda onda ganha força a partir da década de
1950 e sua característica principal é a identificação da discriminação racial como
fenômeno relevante no Brasil, opondo-se, assim, em suas principais conclusões,
à geração anterior. A terceira onda emerge a partir da década de 1970 e sua marca
é o rigor metodológico na aplicação de técnicas de mensuração para identificar os
efeitos da raça tanto no mercado de trabalho quanto no sistema educacional.
Outra forma de traçar um panorama sobre essa literatura é observar um avanço
cumulativo nas questões centrais que nortearam as pesquisas. É possível identificar
quatro dessas questões, e cada uma motivou abordagens teóricas e metodológicas
diferentes. Primeiramente, houve a abordagem descritiva. Depois, acumulando
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O negro no mundo dos ricos
os ganhos dessa última, uma abordagem tipológica. Em terceiro lugar, surge a
abordagem quantitativa, que, partindo do conhecimento acumulado pelas abor
dagens precedentes, procura confrontar suas principais proposições com testes
formais de hipóteses. Em último lugar, intimamente ligada à abordagem anterior,
desenvolve-se a abordagem estrutural. Esta última também se apoia em técnicas
quantitativas, diferindo por se preocupar não apenas com a mensuração dos efeitos
da discriminação racial sobre as chances de vida das pessoas, como também com a
identificação de padrões de interação entre a condição racial e a posição das pessoas
na estrutura de classes sociais.
A primeira pergunta que orientou os estudos sobre relações raciais no Brasil
foi: “Existe discriminação?”. Essa pergunta motivou uma abordagem descritiva,
cujo principal objetivo era retratar o modo como a raça afetava ou não afetava sig
nificativamente as interações sociais e as atribuições de status no Brasil. Falamos
desses trabalhos na seção anterior. Eles constituem os estudos pioneiros do campo
de pesquisa no Brasil. Como já visto, sob o peso da comparação esquemática com
os Estados Unidos, as respostas iniciais são negativas, de que a discriminação racial
no Brasil não existe ou, se existe, não é relevante. Contudo, o avanço dos trabalhos
de campo foi caminhando no sentido de uma resposta positiva. Na coletânea de
artigos Race and class in rural Brazil (WAGLEY, 1952), pesquisadores notam uma
resistência generalizada, uma reação social com relação à ascensão de classe por
parte de negros, que seria tão mais saliente quanto mais elevadas as posições sociais
em questão. Por sua vez, na década de 1940, Virgínia Bicudo, estudando relatos de
pessoas negras de diversas classes sociais, afirmava existir no Brasil “um precon
ceito de cor distinto do preconceito de raça e de classe” (BICUDO, 2010, p. 122).
À medida que as pesquisas descritivas chegavam a relativo consenso sobre a
existência de discriminação racial, uma nova pergunta passou a orientar os estudos:
“Qual discriminação existe no Brasil?”. Tratava-se agora de qualificar as atitudes e as
práticas discriminatórias típicas do país. Esse é o momento em que se consolida a tese
da especificidade nacional do racismo, como visto na seção anterior. Enquadram-se
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2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
nela orientações metodológicas diferentes, como a pesquisa histórico-processual de
Nogueira (1950) e Degler (1971) e o culturalismo de Da Matta (1974). O que reúne
pesquisas tão diversas é que, sob o enorme peso da comparação com os Estados
Unidos, todas buscam uma tipologia para explicar a discriminação racial, no quadro
da qual um tipo específico corresponderia ao caso brasileiro.
O problema com essa abordagem é que fenômenos como a existência de dife
renciações de status com base no fenótipo ou a interação dinâmica entre condição
racial e posições de classe na conformação de status tendem a ser abstraídos na
formação de uma espécie de tipo ideal-concreto, que responderia por tudo o que
há de especial no Brasil no que diz respeito às relações raciais. Isso gera dificulda
des desnecessárias para a análise e a interpretação das próprias especificidades da
discriminação racial no contexto brasileiro. Faz, por exemplo, parecer inadequado
trabalhar com uma operacionalização binária dos grupos raciais. A separação entre
negros e brancos seria estranha ao país cujo tipo de discriminação racial se baseia
num continuum ou numa proliferação de fisionomias raciais intermediárias. Isso
quando a pesquisa mostra que as classificações raciais operam em um jogo com
plexo e irredutível a tais tipologias, em que, para algumas dimensões das relações
sociais, a distinção entre negros e brancos se acentua enquanto, para outras dimen
sões, evidenciam-se fronteiras raciais mais matizadas (TELLES, 2003).
A abordagem quantitativa, que ganha lugar a partir da década de 1970, con
tará com o pano de fundo dessas discussões, mas fará uma inflexão considerá
vel no debate. Àquela altura, a literatura oferecia aos pesquisadores dois produtos
consolidados. Primeiro, a confirmação de que a discriminação racial é um fenômeno
relevante para a determinação das chances de vida no Brasil. Segundo, um patrimônio
de hipóteses e de especulações sobre os mecanismos pelos quais essa discriminação
opera. O que esses pesquisadores fizeram foi lançar o debate ao nível dos testes
formais de hipótese a partir da pergunta: “O quanto de discriminação racial existe?”.
Essa abordagem já aparece em Nogueira (1950), com um desenho de pesquisa
próximo a um experimento natural, visando quantificar os efeitos da discriminação
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O negro no mundo dos ricos
racial, e também em Costa Pinto (1953), pela utilização, com o mesmo intuito, de
dados censitários. Mas é com os trabalhos de Hasenbalg (1979) e de Valle Silva
(1988) que ela se consolida. Contando com a maior sistematicidade dos levantamen
tos do IBGE a partir da década de 1970, os autores empregam modelos estatísticos
multicausais para estimar os efeitos da discriminação racial sobre indicadores de
escolaridade e de posição socioeconômica. O caráter analítico desses modelos
permitiu também um avanço nas discussões sobre os mecanismos da discrimi
nação racial ao possibilitar a diferenciação das correlações entre raça e variáveis
dependentes distintas.
Pode-se dizer que o trabalho desses pesquisadores reatualizou o diálogo com
a produção norte-americana. Naquele país, consolidava-se uma agenda de pesquisa
sobre estratificação, mobilidade social e discriminação, que procurava diferenciar os
efeitos da origem social sobre as chances de vida dos efeitos de outros fatores, como
a condição de minoria (DUNCAN e DUNCAN, 1968), a de gênero (R. OAXACA,
1973) e a de raça (DUNCAN, 1968).Esses estudos tiravam um pouco de foco o tema
da formação de castas raciais e começavam a se orientar por modelos multicausais
em que a raça constituía um fator de estratificação, dentre outros. Esses estudos
respondiam à conjuntura da década de 1960, quando não apenas a segregação legal
foi desarticulada, como houve um impulso, pelas diferentes formas de ação afirma
tiva, à mobilidade ascendente para pessoas negras. Com isso, a pesquisa norte-a
mericana passou a enfrentar um dilema muito familiar aos brasileiros: “É a origem
social ou a discriminação racial o principal determinante das desvantagens sociais
dos negros?”. O debate entre Wilson (1978) e Willie (1978) sintetiza a discussão.
Em The declining significance of race, Wilson argumenta que, com a abertura
dos direitos civis e com os incentivos governamentais à contratação de negros,
houve um aumento observável na proporção de negros completando cursos supe
riores, principalmente os de prestígio, assim como na proporção de negros ocu
pando cargos com alta remuneração, tanto na administração pública quanto no
mundo coorporativo. O autor argumenta que, entre os jovens negros altamente
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48
2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
escolarizados, as chances de obter bons empregos tornavam-se equiparáveis às chan
ces experimentadas por jovens brancos com o mesmo nível de formação. O autor
conclui que boa parte das desigualdades de oportunidade entre negros e brancos
seria em razão de efeitos da opressão racial exercida no passado, não no presente.
Do outro lado, Willie (1978) se opõe a esse diagnóstico, apresentando dados
sobre a persistência de disparidades raciais em indicadores socioeconômicos.
Em outro trabalho, Thomas e Hughes (1986) mostram a persistência dos impactos
da raça sobre indicadores de bem-estar e de saúde, independentemente da posição
de classe. Esses autores argumentam que, mesmo havendo uma relativa queda na
correlação parcial entre a condição racial e indicadores socioeconômicos, não se
poderia tomar essa queda por si só como evidência de um declínio na importância
da raça de maneira geral. A discriminação racial, além de ter ainda impacto sobre a
posição socioeconômica, parecia afetar a habilidade para converter posição socioe
conômica em condições de bem-estar. Ainda em outro estudo, Thomas (1993)
mostra que, entre as décadas de 1960 e 1980, houve, sim, uma queda nos efeitos
da raça sobre os rendimentos, mas que essa queda foi relativamente discreta e insu
ficiente para afirmar que a raça tivesse deixado de ser relevante na determinação
das chances de vida nos Estados Unidos.
A quarta abordagem, a estrutural, constitui um desdobramento da abordagem
quantitativa. O que a distingue é a preocupação não apenas de mensurar os efeitos
da discriminação racial sobre indicadores socioeconômicos, como também de iden
tificar padrões na interação entre a discriminação racial e as posições na estrutura
de classes. Essas preocupações já aparecem nos trabalhos de Nogueira (1950) e de
Costa Pinto (1953), quando sugerem que, com o avanço da ordem competitiva, o
papel das distinções raciais tenderia a se intensificar. Aparecem também, e muito
destacadamente, no trabalho de Florestan Fernandes (1972), quando o autor discute
a interação estrutural entre as relações raciais e a composição do mercado de tra
balho livre e competitivo, a modernização do arcaico e a arcaização do moderno,
em suas palavras, observando a atuação especial das barreiras raciais em relação
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O negro no mundo dos ricos
aos negros em situação de classe ascendente. Por sua vez, o trabalho de Marvin
Harris na coletânea organizada por Wagley (1952) indicava que a dinamização
da economia, num primeiro momento, tendia a acentuar, e não mitigar, o peso do
critério racial na competição por recompensas socioeconômicas.
São, contudo, os estudos quantitativos mais recentes que consolidam a aborda
gem estrutural. Esses estudos utilizam estratégias de análise que, além de multicau
sais, permitem diferenciar os efeitos da discriminação racial em diferentes níveis
da estratificação social. O rótulo de abordagem estrutural não é utilizado por esses
pesquisadores. Ainda assim, esses estudos, em comum, investigam não apenas
os efeitos parciais da discriminação racial, como sua modulação pela estrutura
socioeconômica. Um resultado convergente entre esses trabalhos é a constatação
de que os efeitos da discriminação racial são, de maneira geral, mais acentuados em
posições sociais mais altas, quer se tratando das chances de concluir níveis superio
res de ensino, quer se tratando das chances de acesso a posições de classe de maior
status, ou ainda, quer se tratando da desigualdade de renda entre negros e brancos
no interior de uma de classe social mais afluente (SOARES, 2000; BIDERMAN;
GUIMARÃES, 2004; RIBEIRO, 2006; FERREIRA, 2001, HASENBALG; SILVA,
1998; SANTOS, 2005b; NUNES; VILASBOAS, 2016).
Esse padrão chama atenção para um princípio de articulação entre classe social
e raça que será designado aqui como “princípio de acomodação das relações raciais
em posições de classe”. A ideia de acomodação é empregada em oposição à ideia
de sobreposição. É bastante claro que classe e raça se sobrepõem. As classes mais
baixas são majoritariamente negras e as mais altas, compostas por maioria branca.
A sobreposição entre raça e classe é um estado de coisas, identificável pelo estudo
descritivo da distribuição dos grupos raciais por faixas de status socioeconômico.
A acomodação, por seu turno, refere-se a um padrão de interação entre raça
e classe identificável apenas por meio de modelos explicativos de análise. Ela diz
respeito ao porquê de as barreiras da discriminação racial se acentuarem em se
tratando da competição pelas posições sociais mais bem aquinhoadas. Ela chama
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50
2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
atenção para o fato de que o que ocorre não é apenas uma naturalização de que
pessoas negras ocupam tipicamente posições desfavorecidas. Esse estado de coisas
parece contar também com uma força normativa. No nível agregado, a discrimina
ção racial se comporta não apenas como efeito da existência generalizada de pre
conceitos em relação aos negros, mas também como uma força que procura manter
uma ordem das coisas, segundo a qual, por assim dizer, determinadas posições
sociais não são para pessoas de cor. A discriminação racial não se constitui apenas
por uma disposição difusa à desconfiança, à aversão ou mesmo à hostilidade com
relação ao negro. Muito mais do que isso, seus esquemas de classificação operam
com uma visão de todo sobre o espaço social.
2.3 O estudo sobre negros em classes altas
O estudo sobre a presença de negros em elites definidas com base em estrati
ficações socioeconômicas aparece eventualmente como tópico no conjunto mais
geral de estudos sobre desigualdades raciais. Myrdal (1944) dedica o capítulo 14
do extenso An American dilemma ao estudo dos negros de classes média e alta nos
Estados Unidos durante a primeira metade de século XX. Nesse caso, a definição de
elites se dá pela distinção entre ocupações manuais e não manuais. O autor inves
tiga a representação dos negros entre profissionais liberais, professores, servidores
públicos e empresários, observando a relevância desproporcional das ocupações
clericais e da de professor, o que ele atribui à segregação racial nas escolas e nas
igrejas, que gerou, nesses setores, nichos raciais no mercado de trabalho. Essas
profissões constituíram assim uma via importante de ascensão para os negros, ainda
que pastores negros fossem em geral mais pobres, em razão da menor afluência
de suas comunidades, e professores negros contassem geralmente com piores con
dições de infraestrutura e recebessem, frequentemente, menores salários, mesmo
após determinação, datada de 1940, de inconstitucionalidade para essas diferenças
salariais baseadas em raça. O empreendimento no varejo, nota o autor, também
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O negro no mundo dos ricos
sofreu impactos ambivalentes da segregação. Por um lado, as vizinhanças segre
gadas constituíram uma clientela cativa para empreendedores negros. Por outro
lado, os limites do poder de consumo dessa clientela, assim como as restrições no
acesso a fornecedores e a crédito, limitavam os horizontes de crescimento por parte
desses empreendedores. Interessante que o autor também dedique uma subseção
do capítulo a ocupações ilícitas que, àquele tempo, consistindo principalmente na
atividade do jogo de números, ofereceram oportunidades para a ascensão de alguns
negros a posições de elite na “economia underground” (MYRDAL, 1944).
Em The negro in modern industrial society, Dutcher (1930) descreve as varia
ções na proporção de negros no mercado de trabalho qualificado e em posições de
status mais elevado, como funções executivas e profissionais liberais. A presença de
negros em estratos de elite não é, contudo, foco do estudo. O autor aborda a distribui
ção dos negros na estrutura ocupacional como um todo, considerando fatores como
sexo, migração e diferenças regionais. Já antes disso, Reuter (1969), no interessante
livro The mulatto in the United States, escrevia sobre negros ocupando posições de
destaque nas mais diversas atividades da produção econômica e cultural. O autor
utiliza informações disponíveis em uma gama de publicações impressas contendo
listagens de negros socialmente eminentes. O autor utiliza também listagens de per
sonalidades elaboradas, a pedido, por pessoas negras reconhecidamente afluentes,
além de informações biográficas disponíveis em diversas fontes. Com esse material,
Reuter mapeia algumas centenas de negros socialmente destacados em áreas como
política, medicina, direito, educação, literatura, artes, administração pública e negó
cios. O interesse do autor, contudo, é analisar a posição do mestiço, enquanto grupo
racial diferenciado, no processo de integração do negro na sociedade de classes nos
Estados Unidos. Sua investigação revela que, embora os “mulatos” fossem, durante
a década em estudo, a de 1910, algo em torno de 20% da população de cor, eles
eram mais de 80% dentre os negros em posições de elevado status socioeconômico.
Pesquisas especificamente dedicadas ao tema dos negros em posição de elite são
mais raras. Contudo, é possível identificar uma tradição de estudos que se desenvolve
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2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
nos Estados Unidos. Esse desenvolvimento ocorre em duas grandes etapas: (i) uma
que começa ao final da década de 1890, em que a pesquisa sobre elites negras se
confunde com a formação de uma consciência de classe e de uma narrativa de classe
dominante negra basicamente em termos de uma elite demiurga e (ii) uma segunda
fase de estudos mais estritamente acadêmicos. A primeira fase culmina em trabalhos
de crítica à narrativa de classe construída durante as primeiras décadas do século XX,
abalando-se a ideia de que a composição de uma elite negra seria uma via de emanci
pação para o conjunto da população de cor. Em outras palavras, há um deslocamento
da posição de primeira pessoa, articuladora da narrativa de classe dominante negra,
para uma posição de terceira pessoa, observadora e crítica dessa narrativa.
Em verdade, essa primeira fase de estudos constitui uma dimensão da própria
diferenciação social da elite negra, de origens relativamente remotas. Em 1790, os
Estados Unidos contavam uma população de negros livres estimada em aproximada
mente 60 mil almas, perfazendo 8% da população negra total. Em 1860, esse número
chegaria praticamente a 500 mil, perfazendo 11% da população negra. A maior
proporção de negros livres nos Estados Unidos em período escravista se deu em
1830, com praticamente 14% (QUARLES, 1969). A redução dessa proporção, até
1860, provavelmente ocorreu devido a reações da sociedade branca em sua parcela
escravista diante do crescimento do abolicionismo. Alguns estados decretaram leis
restringindo manumissões (HARRIS, 1936), expressão de uma resposta que deve
ter ocorrido também por outras vias. Desses 500 mil negros livres na década de
1860, aproximadamente metade vivia no Sul, onde dividia espaço com a grande
massa de negros escravos. A outra metade, no Norte, vivia onde a escravidão nunca
constituiu um aspecto tão relevante da economia e já era virtualmente extinta na
década de 1830 (QUARLES, 1969). As principais origens dessa população negra
livre eram as fugas, a manumissão, a compra da própria liberdade e o crescimento
vegetativo. Como sói ser, a relação sexual entre senhores e escravas era um fator
importante que motivava manumissões. Em 1850, metade da população negra livre
era mestiça, contrastando com apenas 8% da população escrava.
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O negro no mundo dos ricos
No seio dessa população negra livre, gestou-se a diferenciação de uma elite
negra. As principais possibilidades de trabalho livre concentraram-se nos serviços
pessoais, serviços de alimentação, na pequena agropecuária e, especialmente no Sul,
onde a cultura escravista prevenia brancos de se ocuparem em trabalhos manuais,
a manufatura também constituiu um espaço privilegiado para a ação do negro
livre, o que não aconteceu, em extensão comparável, nos estados livres do Norte.
Especialmente nos serviços pessoais, as acomodações de status numa sociedade
escravocrata permitiram que alguns empreendedores negros alcançassem consi
derável riqueza, firmando-se enquanto proprietários de salões e de restaurantes
onde atenderiam a elite branca endinheirada. Desde que atuando em uma atividade
serviçal, quer dizer: desde que sua condição de subalternidade não fosse posta sob
suspeita, não incomodava ao homem branco que esses negros livres adquirissem
alguma riqueza. Em outras palavras, tratava-se de uma janela para a ascensão de
classe diretamente vinculada à conservação relativa da posição de status. Contudo,
com o crescimento da agitação abolicionista, os negros livres empreendedores
passaram a estar mais sujeitos à insegurança social e jurídica no Sul, sofrendo
ameaças e tendo seus negócios arruinados quer pelo boicote, quer pelo desmando
cinicamente amparado em formalidades jurídicas, quer pela violência pura e sim
ples. Ainda assim, uma classe de negros livres trabalhadores continuou existindo,
com alguns deles se sobressaindo em sucesso econômico.
Graças à manutenção de uma considerável circulação de dinheiro, houve, desde
o final do século XVIII, a formação de sociedades de assistência mútua entre os
negros livres, contando com a simpatia e com a colaboração proativa (o que significa
não apenas doações, como também proteção social e jurídica) de pessoas brancas.
Esses fundos de ajuda mútua atendiam o propósito de acumular crédito, que pode
ria ser retirado não apenas para fins empreendedores, mas também para socorrer
emergências outras, como casos de saúde ou morte. Num primeiro momento, as
igrejas serviram como base para a organização dessas sociedades, cujo número
cresceu francamente ao longo da primeira metade do século XIX.
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2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
Sem embargo, a formação, a partir de 1794, de uma igreja protestante negra
independente constituiu um aspecto decisivo para a vida social da população negra
nos Estados Unidos, à medida que significou a consolidação de uma base institu
cional para a organização da vida civil. Não à toa Frazier (1957, p. 79) afirma que
“a instituição mais importante criada pela população negra nos Estados Unidos foi
a Igreja Negra”. A partir das sociedades de ajuda mútua, alicerçadas na organização
civil oferecida pelas igrejas, os negros empenharam esforços com o intento de obter
crédito junto a bancos, esforços muitas vezes malogrados pela discriminação racial.
Diante das restrições de crédito, da insegurança social e jurídica, além das limita
ções impostas pelo campo restrito de atividades que a discriminação e as condições
de pobreza permitiam optar, apenas uma modesta e pouco numerosa elite negra
se desenvolveu ainda no período pré-Guerra Civil (HARRIS, 1936). Listagens e
descrições somando algumas dezenas de negros possuidores de moderadas fortunas
no período anterior à abolição, incluindo um fazendeiro negro com posse de quase
uma centena de escravos e outros negros. Para uma surpresa ainda maior, empre
sários na atividade logística podem ser encontradas no livro Negro in the making
of America, de Benjamin Quarles e também em The negro as capitalist, de Harris.
Essa diferenciação se acelera e ganha novas bases a partir da Guerra Civil.
Como já mencionado, a própria segregação racial constituiu-se, por um lado, em
fator favorável à diferenciação de classes média e média alta negras. A segregação
racial na moradia, nos serviços e em outros setores da atividade econômica implicou
o desenvolvimento de uma estrutura ocupacional cativa para negros que, embora
restrita em comparação às oportunidades disponíveis à população branca, permitia
certa diferenciação social. Mais que a segregação, contudo, deve-se considerar o
investimento de recursos e de energia na integração dos negros à atividade eco
nômica, ainda que racialmente segregada. A Lei de Direitos Civis de 1875, que
prevenia a discriminação racial, foi declarada inconstitucional já em 1883, com o
intuito de abrir franco espaço para a construção de um sistema de segregação racial
formalizado em normas no Sul do país. Contudo, as emendas constitucionais de
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O negro no mundo dos ricos
1866, prevendo plena cidadania aos negros, não foram derrubadas, o que levou
à construção do princípio “separados, porém iguais”, segundo o qual, os servi
ços, embora racialmente segregados com base em legislação, deveriam apresentar
padrões equiparáveis de qualidade e infraestrutura. Obviamente o mote “separados,
porém iguais” não descrevia a realidade, e os serviços e acomodações dedicados
à população negra eram muito inferiores. No entanto, essa adesão ao princípio de
igualdade, formalizada em emenda constitucional, ofereceu base legal não apenas
para a luta política contra a discriminação racial como também ferramentas jurí
dicas para que se garantisse algum nível de investimento nos serviços dedicados à
população negra (MYRDAL, 1944).
Durante os anos imediatamente posteriores à Guerra Civil, considerável ener
gia foi despendida com o objetivo de integrar o negro à vida civil e à atividade
econômica. Em The negro, Dubois (1915) narra a ação de políticos republicanos,
àquela época representantes da visão de mundo progressista sustentada na região
Norte, durante a década de 1860, tentando influenciar políticos sulistas a favor
da extensão do direito de sufrágio aos negros. Efetivamente, em 1870, entraria
em vigor emenda constitucional abolindo a restrição do direito ao voto com base
no critério racial. Muito embora, com a rearticulação dos conservadores no Sul e
sua ascensão ao controle político dos estados naquela região ao longo da década
de 1870, práticas oficiosas e extrajurídicas (como intimidação e violência) foram
amplamente empregadas para impedir o pleno exercício do direito ao voto por
parte dos negros.
Na década de 1860, instituíram-se o Freedmen’s Bureau e o Freedmen’s Savings
Bank, instituições dedicadas ao esforço de integração do negro à sociedade de clas
ses. A primeira no que concerne a serviços como educação e assistência social, e
a segunda, no que se refere à concessão de crédito. O Freedmen’s Bureau atuou
na construção de hospitais prestando assistência jurídica e atuou ainda na garantia
de salários mínimos para negros empregados em fazendas no Sul, “se tornando,
com efeito, a primeira agência mediadora entre capital e trabalho na América”
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2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
(QUARLES, 1969, p. 128, tradução nossa)7. Compreensível sua existência no
contexto de entusiasmo humanista no período imediatamente posterior à Guerra
Civil, o Freedmen’s Bureau não resistiu, contudo, ao realinhamento político que
ocorreria a partir da década de 1970, com o fortalecimento dos democratas no Sul
e o enfraquecimento da ala mais radical no partido republicano. A instituição foi
extinta naquela mesma década, deixando um legado. DuBois (1915), ele mesmo
um notável expoente dessa elite negra na virada para século XX, escreve suas
impressões sobre o Freedmen’s Bureau:
Foi, sem dúvidas, um enorme experimento, mas com todas as suas
falhas flagrantes, ele foi bem-sucedido em um grau impressionante.
Ele tornou impossível o reestabelecimento imediato da escravidão,
sendo provavelmente o método mais rápido para fazê-lo. Ele deu
aos filhos dos homens libertos a chance de se educarem. (DUBOIS,
1915, p. 207, tradução nossa).8
O Freedmen’s Bank constituiu também uma experiência precursora. Fundado
em 1965, o banco foi concebido mais como um instrumento de política pública do
que como um empreendimento de mercado propriamente dito. Sua capitalização
se deu mormente com base nos salários e nas pensões recebidas pelos soldados
negros envolvidos na Guerra Civil, assim como na poupança da população negra
em geral. O intuito era garantir que boa parte do dinheiro recebido por soldados
e suas famílias não fosse dissipada, mas, antes, reunida em poupança, garantindo
renda em médio e em longo prazo, assim como disponibilidade de crédito para a
população negra. A gestão do banco ficou sob o comando de pessoas brancas da elite
de poder, com pessoas negras sendo progressivamente contratadas para o quadro
7 “[…] becoming in effect the first mediating agency between capital and labor in America.”
8 “This was without a doubt a tremendous experiment, but with all its manifest mistakes it succeeds
to an astonishing degree. It made the immediate reestablishment of the old slavery impossible, and
it was probably the only quick method of doing this. It gave the freedmen’ sons a chance to begin
their education.”
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O negro no mundo dos ricos
de funcionários. O banco se capitalizou e se expandiu rapidamente, criando filiais
em diversos estados. A partir de 1870, um novo grupo da elite de poder assumia o
comando da instituição na mesma medida em que se aprovava, no congresso, uma
nova regulação, que permitia ao Freedmem’s Bank uma atuação mais agressiva no
mercado financeiro. A ação especulativa e a ingerência do grupo então no controle
levaram o banco a falir. Foi inútil a nomeação de Frederick Douglas, renomada
personalidade negra da época, para presidente, como tentativa de recuperar a con
fiança de investidores, em especial da população negra, que se sentiria representada
na figura eminente do novo presidente. Em 1874, o Freedmen’s Bank encerrava
suas atividades, deixando uma perda significativa de depósitos (HARRIS, 1936).
A imprensa negra, nascida em meados do século XIX e pautada pelo tema
abolicionista, a partir da reconstrução, passará a responder a um conjunto maior
de expectativas de uma população negra passando por um processo conjunto de
integração à sociedade de classes e de diferenciação social, e, ao mesmo tempo,
submetida a formas virulentas de discriminação. A imprensa negra se desenvolverá
num contexto de emergente segregação racial em regime não escravista, tendo
que lidar não apenas com a situação política da população negra, mas também:
com a necessidade de estabelecer diálogo com a população branca, tendo em vista
a obtenção de apoio político; com as demandas do público em termos de outros
tipos de informação (que não de conteúdo político) e de entretenimento; com o
crescimento e modernização da gestão num contexto de evolução da indústria
de comunicação; e, finalmente, com os jogos de poder envolvendo a imprensa,
o campo político e o mundo corporativo. Ao assumir essa gama diversificada de
tarefas, a imprensa negra revelou-se como um dos suportes para a formação de
consciência de classe por parte da elite negra em diferenciação (FRAZIER, 1957).
Sem embargo, o inventário de negros ocupando posições de elite elaborado por
Reuter (1969) contou em muito com registros feitos pela imprensa negra, enu
merando negros de destaque e discutindo sobre seu papel perante o passado e o
futuro da população negra.
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2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
Cabe mencionar também o The negro handbook, série de publicações orga
nizada por homens negros da imprensa. O periódico inventariava negócios de
pessoas negras, incluindo bancos, companhias de seguro e de empréstimo, além
de propriedades agrícolas. A publicação também trazia informações sobre negros
ocupados em setores como as forças armadas, a imprensa, o teatro e organizações
civis. O periódico parece inspirado na campanha Don’t buy where you cannot work,
capitaneada por algumas lideranças e de alguma repercussão na comunidade negra
durante a primeira metade do século XX, promovendo o boicote aos empreendi
mentos brancos por parte da população negra. O Negro handbook cumpriria o papel
de difundir pela população negra informações sobre onde encontrar os empreen
dimentos liderados por pessoas negras, aos quais, de acordo com a campanha,
deveria ser dada preferência.
O livro inaugural dos estudos sobre elites negras nos Estados Unidos, Negro
in business, editado por DuBois (1971) em 1899, aparece no contexto dessa arti
culação para si da elite negra já existente em si, em uma conferência, realizada na
Universidade de Atlanta, dedicada à formação superior de afro-americanos para
discutir passado, presente e futuro de uma classe negra empreendedora. Esse pro
cesso de articulação, que inclui a formação da National Negro Business League,
em 1900, é interpretado por Frazier (1957, p. 141) enquanto processo de institu
cionalização do que seria o “mito de uma classe negra dos negócios”, isto é, não a
classe em si, tal qual ela existe, com suas enormes limitações em termos de poder
e de diversificação econômica, mas a classe transformada em elemento de uma
narrativa, em coisa simbólica sobre a qual se projetavam ambições e expectativas.
O estudo Negro in business mostra a apropriação das ciências sociais pela inte
lligentsia negra no esforço de construção dessa narrativa. Na introdução, o editor
argumenta a inserção da pesquisa num projeto mais geral, de formação de “líderes
do pensamento e missionários da cultura em meio à massa” (DUBOIS, 1899, p. 1).
Na sequência, a publicação apresenta caráter de estudo empírico sistemático, com
apresentação da metodologia utilizada na coleta de dados e discussão dos resultados
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O negro no mundo dos ricos
sobre a distribuição ocupacional da população negra oferecidos pelo Censo de
1890. O principal dispositivo retórico responsável pelo trânsito entre o escrutínio
descritivo e a construção da narrativa consiste nos critérios de classificação:
O termo “homem de negócios” é interpretado, nesse estudo, de
modo a incluir todos com estoques de produtos a vender, e também
todas as pessoas que tenham pelo menos $ 500 em capital investido.
A propósito, enquanto um barbeiro seria a princípio classificado
como artesão, aquele com $ 500 ou mais investidos em sua loja,
tendo vários assistentes empregados, é antes um capitalista do que
um artesão, e 62 desse foram classificados como homens de negócio.
Assim também pareceu adequado classificar 31 ferreiros e mantene
dores de rodas que tinham considerável capital investido, além de
estoques de produtos para a venda. Em vários outros casos houve
alguma dificuldade para traçar uma linha divisória entre artesãos em
homens de negócios, e a decisão teve de ser mais ou menos arbitrá
ria, apesar do investimento de capital considerável ter constituído
o critério mais recorrente. (DUBOIS, 1899, p. 7, tradução nossa).9
Como se nota, a definição operacional de “homem de negócios” é feita ampla o
bastante para incluir empreendedores de pequeno porte, que, numa acepção comum,
seriam oxalá considerados pequeno burgueses. Do ponto de vista técnico, não há
incorreção nenhuma nesse procedimento, uma vez que essa definição operacional
é explicitada na exposição do trabalho. Contudo, independentemente da defini
ção operacional adotada, o termo “businessman” insere-se num campo semântico
9 “The term ‘business man’ in this study has been interpreted to include all with stocks of goods to sell,
and also all other persons who have at least $500 of capital invested; for instance, while the ordinary
barber should be classified as an artisan, a man with $ 500 or more invested in a shop, with several
hired assistants, is a capitalist rather than an artisan, and 62 such men have been classed as business
men. So, too, it seemed best to include 31 blacksmiths and wheelwrights who had considerable capital
invested and kept stocks of wagons or other goods on sale. In several other cases there was some difficulty
in drawing a line between artisans and business men, and the decision had to be more or less arbitrary,
although the investment of considerable capital directly in the business was the usual criterion.”
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2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
próprio, partilhado por outros termos como capitalista, burguês, empreendedor, e
que, por conseguinte, empresta ao termo conotações um pouco mais ambiciosas do
que a definição operacional a princípio permitiria. Ao alternar entre uma definição
operacional mais modesta e uma exposição técnica rente a essa definição e, por
outro lado, uma exposição retórica que evoca as conotações mais audaciosas do
termo, o texto sustenta a narrativa grandiloquente de uma classe negra capitalista.
Uma expressão ainda mais acabada dessa abordagem em que o estudo da elite
negra se confunde com o processo de formação de uma consciência de classe por
parte dessa mesma elite consiste numa publicação do início do século passado:
The negro problem: a series of articles by representative American negroes of
to-day (WASHINGTON, 1903). A publicação reúne textos escritos por diferentes
negros de destaque, discutindo agora não apenas o estatuto de uma elite negra, mas
a questão mais geral da integração do negro à sociedade de classes. Isso quer dizer
que o conteúdo da publicação não traz apenas um esforço de construção de uma
narrativa de elite negra, mas, sobretudo, o que é mais radical, uma vivência dessa
narrativa. Os autores, muitas vezes, simplesmente escrevem assumindo o lugar de
fala instituído por essa narrativa: o de uma elite negra demiurga, responsável pela
interpretação da condição do negro na sociedade estadunidense e sob cuja ação
histórica repousaria a ascensão da população negra como um todo.
Quando o autor do primeiro capítulo, Industrial education for the negro,
Booker Washington, discute a importância de uma educação técnica para as massas
negras, está implícita a noção de que existe uma elite negra, constituída enquanto
uma minoria mais altamente letrada. Junto a isso, a retórica do texto opera uma
tomada de posição enquanto parte dessa elite, que seria responsável por discutir
as estratégias mais adequadas para a melhoria das condições de vida da população
negra em geral. Por seu turno, o Capítulo 6, Representative American negroes, ao
elencar um número de negros eminentes, constitui uma reflexão explícita acerca
do que definiria essa condição de elite, isto é, acerca do significado de ser um
negro “exemplar”. O principal critério é a contribuição à construção de um orgulho
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O negro no mundo dos ricos
racial. O que o autor argumenta a favor das pessoas elencadas é o juízo de que suas
realizações, em determinado campo de atuação ou em vários, teriam se elevado
além da média e mesmo para além do bom, porém, ainda ordinário, em suficiente
medida para figurarem como pessoas altamente apreciáveis, cujo gênio, socialmente
reconhecido, testemunharia a favor das potencialidades da “raça” negra como um
todo. Nesse sentido, embora a eminência dos negros exemplares elencados esti
vesse, em geral, ancorada em posições elevadas na distribuição socioeconômica,
o conceito de elite articulado pelo autor ultrapassa essa definição, reivindicando
uma posição de valor simbólico.
Especialmente interessante é o capítulo The talented tenth, onde DuBois defende
uma genuína teoria das elites. Como um recurso retórico a ser notado, o autor começa
e termina o artigo com a seguinte linha: “The negro race, like all races, is going to
be safe by its exceptional men”. Entrementes, Dubois defende a necessidade de se
garantir, por meio de uma educação superior de caráter humanístico, orientada a uma
formação geral em ciências, línguas, filosofia e história – em suma, uma educação
cujo objetivo seja, para além da formação técnica profissional, Paideia – a existên
cia de pessoas negras de elite, dotadas tanto de sofisticação intelectual quanto de
verve prática. Ocupando com brilhantismo posições de liderança como professores,
pastores, jornalistas, nos negócios, na administração pública e na política, os mem
bros dessa elite não apenas trariam benefícios à população negra por meio de suas
realizações profissionais, como também exerceriam sobre esta população uma
influência pedagógica que elevaria os padrões de sociabilidade e as habilidades
intelectuais e laborais da mulher e do homem negro em geral. Existe, portanto, na
virada para o século XX, uma elite negra enquanto classe em si e para si. Ela existe
em si como fruto de um processo de diferenciação social iniciado entre negros livres
na sociedade escravista e intensificado a partir da Guerra Civil. Ela existe para si
porque concebeu a si mesma enquanto tal e, assumindo-se como, mais do que elite,
vanguarda, atribuiu a si mesma o papel de discutir sobre o passado, o presente e o
futuro do processo de integração do negro à sociedade de classes.
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2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
É sobre esse pano de fundo que surge, em 1936, o livro The negro as capitalist,
de Abram Harris. Nesse trabalho, o autor investiga a diferenciação de uma classe
empreendedora na população negra, adotando como foco de investigação empírica
os bancos. Entre 1888 e 1934, mais de uma centena de bancos foram criados por
negros, além de um número de Credit Unions e de Building and Loan Societies. Deste
grande número, apenas pouco mais de uma dezena de bancos sobreviveriam, numa
dinâmica envolvendo não apenas quebra, mas também fusões. Esses bancos foram
capitalizados pela expansão, ocorrida depois da Guerra Civil, de sociedades visando
garantir à população negra nível de poupança necessário ao acesso a serviços básicos.
Com a igreja negra servindo como suporte de organização civil, diversas Fraternal
Insurances e Burial Societies foram criadas e promoveram um acúmulo inicial de
capital. Embora o desenvolvimento dessa classe no seio da população negra seja de
impressionar, a discriminação e a segregação racial mantiveram muito restritos os
horizontes dessa diferenciação social. Nenhum avanço significativo foi feito pela
população negra nos setores da indústria e do comércio no atacado. Excluindo-se o
próprio setor financeiro, a diversificação de uma classe negra “capitalista” se restrin
giu aos serviços de recreação e lazer, ao comércio no varejo, aos serviços pessoais
e à pequena propriedade agrária. O que o autor identifica é um desenvolvimento
da classe negra capitalista durante as primeiras décadas do século XX medido pelo
constante aumento, com alguma queda durante e após a Crise de 1929, no total de
depósitos adquiridos pelos principais bancos de cada período.
A restrição na diversificação dos setores produtivos impactava negativamente o
setor financeiro da classe negra capitalista, uma vez que a capitalização dos bancos,
pelo menos no que tange aos depósitos, se dava sobre uma base produtiva menos
diversificada e de relativamente modesta envergadura financeira. Essa frágil classe
econômica negra dominante resistiria menos ainda diante do crescimento em escala
das firmas. Setores como o comércio varejista e a prestação de serviços nas comu
nidades negras segregadas passaram a ser cada vez mais penetrados por grandes
firmas, organizadas em cadeia e dominadas por brancos. Boa parte das energias
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O negro no mundo dos ricos
antes concentradas pelas lideranças negras no projeto de uma elite econômica negra
empreendedora divergiram para a reivindicação de que se ocupassem negros, em
boas posições profissionais, nessas grandes firmas que dominavam o mercado no
varejo. Em outras palavras, refletindo mudanças nas circunstâncias objetivas, o
projeto de uma elite negra capitalista cedeu, em boa medida, lugar para o projeto
de uma elite negra assalariada.
O livro de Harris marca um deslocamento de posição de fala na discussão sobre
elites negras: da primeira pessoa para a terceira pessoa, do articulador da narrativa
de classe dominante para o crítico dessa narrativa. Harris (1936) termina seu livro
chamando atenção para o antagonismo de classe no interior da população negra, que
seria mascarado pelo discurso da elite negra demiurga. Considere-se o contexto de
discussão do autor. Havia, na época, a defesa de um projeto econômico separatista
para a população negra. O influente intelectual negro DuBois defendia a ideia de
que, diante da segregação racial, institucionalizada no Sul e simplesmente eficaz
no Norte, a população negra precisaria reagir formando uma estrutura econômica
independente. Por outro lado, havia o influente empresário e intelectual Booker
Washington defendendo não um projeto separatista de economia, mas, numa linha
de pensamento mais pragmática, um projeto protecionista, segundo o qual, a popu
lação negra deveria consumir em estabelecimentos dos quais fossem proprietárias
pessoas negras, mesmo quando esses praticassem preços sensivelmente mais altos,
como forma de fortalecer a elite econômica negra. A posição de Harris é de que
a ideia de uma economia independente para a população negra era simplesmente
irrealista. Já quanto ao protecionismo econômico, segundo o autor, esse discurso
pretendia mascarar, sob uma ideologia de solidariedade racial, o antagonismo de
classe entre a elite e as massas na população negra. O autor enfatiza:
Em sua confusão, as massas são levadas a dirigirem seus ânimos
contra os judeus e a branquitude. As reais forças por trás de suas
deficiências e desconforto são mascarados pela raça, o que os impede
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2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
de ver que o que homem negro de negócios quer, antes de tudo, é
a liberdade para monopolizar e explorar o mercado de consumo
que elas provêm. As massas não conseguem ver que elas não têm
explorador maior que o negro capitalista que vive da exploração
de trabalho mal remunerado e até mesmo extenuante, embora ele
próprio e sua família geralmente vivem em consumo ostentatório.
(HARRIS, 1936, p. 184, tradução nossa).10
O trabalho de Franklin Frazier (1957), em Black bourgeuoisie, aponta também
para a existência desse antagonismo e se concentra numa crítica ácida à narrativa
de classe da elite negra. Na verdade, o autor desenvolve um estudo crítico sobre
grupo de status e composição de estilo de vida a partir da posição dessa classe,
antecipando uma abordagem que logo ganharia notoriedade na sociologia com o
trabalho de Pierre Bourdieu (1984), na década de 1970. Em termos de metodologia,
o autor adota uma estratégia bem livre, recorrendo a dados censitários, fontes docu
mentais (principalmente publicações da imprensa negra) e entrevistas realizadas
por ocasião de sua pesquisa anterior sobre famílias negras nos Estados Unidos.
Sua crítica centra-se basicamente na forma como a narrativa de classe da burguesia
negra se articula, segundo ele, enquanto uma solução simbólica precária para as
ambiguidades inerentes à condição dessa pequena classe que, embora dominante,
seria, ao mesmo tempo, violentamente dominada. A posição ocupada pela burguesia
negra seria definida por uma ambivalência: se a identificação com o estilo de vida
e com as visões de mundo das classes dominantes leva à ruptura com as massas
pobres do próprio grupo racial, a discriminação e a segregação frustram o efetivo
acesso às posições sociais e, sobretudo, ao mundo da vida das elites. Adotando
10 “In their confusion, the masses are led to direct their animus against the Jew and against white
ness. The real forces behind their disabilities and discomfort are masked by race which prevents
them from seeing that what Negro business man wants most of all is freedom to monopolize and
exploit the market they provide. They cannot see that they have no greater exploiter than the black
capitalist who lives upon low-waged if not sweated labor, although he and his family may, and
often do, live in conspicuous luxury.”
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O negro no mundo dos ricos
uma escrita estilística como recurso de persuasão sobre a dramaticidade mesma
da condição da elite negra, o autor argumenta:
A burguesia negra vive sobretudo em um mundo do blefe; num
jogo de máscaras, encenando tristes papéis para dissimular seu sen
timento de inferioridade e de insegurança e as frustrações que agi
tam sua vida secreta. Seus membros se esforçam para evitar serem
confundidos com a massa de cor, mas lhes é impossível escapar à
mesma opressão que atinge seus semelhantes de raça menos favore
cidos. Tal esforço para escapar de sua própria negritude lhes incute
um ódio de si mesmos, que encontra expressão no rebaixamento
das caraterísticas sociais e físicas dos negros. Do mesmo modo,
seus sentimentos de inferioridade e de insegurança são traídos pela
intensidade patológica de sua luta para se elevarem socialmente em
um mundo dos negros isolado, assim como pelo intenso desejo de
aceitação pelos brancos. (FRAZIER, 1957, p. 192, tradução nossa).11
O argumento central é o de que a burguesia negra, em certo sentido, ocuparia
uma espécie de não lugar social. O campo restrito de sua atuação econômica é o
bastante para sustentar sua diferenciação em relação às massas negras, mas não o
bastante para alçá-la a uma posição efetivamente importante na economia do país.
Ademais, as restrições impostas a sua circulação pelo mundo da vida equivalem
a impossibilidade de acesso a ritos e a uma vida cotidiana capaz de sustentar uma
representação de si própria enquanto elite. Em consonância com os estilismos de
Frazier, lembrando as imagens de A divina comédia, a elite negra viveria numa
11 “La bourgeoisie noire vit surtout dans un monde du bluff; le masque qu’elle porte pour jouer son triste
rôle, dissimule son sentiment d’infériorité et d’insécurité et les frustrations qui hantent sa vie secrète.
Ses membres se sont efforcés d’éviter d’être confondus avec les masses de couleur, mais il leur est
aussi impossible d’échapper à l’oppression qu’à leurs frères de race moins favorisés. Cet effort pour
échapper à leur négritude a suscite en eux une haine d’eux-mêmes, qui trouve son expression dans le
dénigrement des caractères sociaux et physiques des Noirs. De même, leurs sentiment d’infériorité et
d’insécurité transparaissaient dans l’intensité pathologique de leur lutte pour s’élever socialement
dans un monde noir isolé et dans leur intense désir de se faire accepter par les Blancs.”
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2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
espécie de limbo. Foi tendo o limbo como morada que Virgílio guiou Dante incauto,
caminhando altivo no inferno e no purgatório, mas, pagão ainda, a despeito do mérito
de suas proezas, não pôde seguir jornada pelo paraíso. Assim, a elite negra andaria
sobre as cabeças das massas negras pauperizadas, mas não atravessaria os portões
de acesso ao mundo da burguesia branca dominante. Na interpretação de Frazier, é
por conta dessa posição de não lugar que a burguesia negra criou para si uma espé
cie de lugar mítico de prestígio e reconhecimento social, ancorado em rituais e na
materialização do discurso em publicações, especialmente por meio da imprensa.
A argumentação de Frazier constitui, assim, um ataque violento à narrativa de
elite demiurga construído durante as primeiras décadas do século XX. Primeira
mente, o autor expõe e enfatiza, como já feito por Harris em The negro as capitalist,
os antagonismos de classe entre essa elite e as massas negras. Em segundo lugar, ele
desenvolve uma crítica extensa e direta a essa narrativa, afirmando a inexistência
de uma autêntica solidariedade racial capaz de atravessar as clivagens de classe.
Na opinião do autor, o orgulho racial das elites de cor seria um sentimento muito
frágil que não geraria solidariedade de classe, mas, pelo contrário, se trairia no
antagonismo com as massas negras da classe popular e, ainda mais dramaticamente,
num antagonismo com o próprio corpo:
A burguesia de cor alardeia constantemente seu orgulho racial; mas,
ao reparar suas atitudes em relação aos traços físicos ou às caracte
rísticas sociais dos negros, percebe-se por óbvio que, na verdade,
ela não quer se identificar com eles (FRAZIER, 1957, p. 194, tra
dução nossa).12
Considerando o fato de que boa parte da elite negra é mulata, Frazier comenta
por várias vezes o “esnobismo de cor” dos mulatos (Frazier, 1957, p. 178) diante das
12 “La bourgeoisie de couleur étale constamment son orgueil d’être noire; mais si on étudie son
attitude à l’égard de traits physiques ou des caractéristiques sociales des Noir, il devient évident
que’elle ne tient pas vraiment à ce qu’on la confonde avec eux.”
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O negro no mundo dos ricos
massas pobres de negros retintos, esnobismo cujo simétrico oposto seria, nas pala
vras do autor, um “complexo de inferioridade” em relação ao branco. Cabe notar:
embora o trabalho apresente uma qualidade notável, a argumentação do autor parece
fortemente enviesada por uma posição pessoal avessa à elite negra. Esse dessabor
parece advir da reprovação moral diante do que o autor provavelmente considera
uma atitude mais ou menos comum nessa classe. Em The negro family in the United
States, publicado originalmente em 1948, Frazier comenta sobre a posição não
incomum no seio da elite negra de apoiar a discriminação de negros pobres em
estabelecimentos públicos. O autor cita “um homem negro, editor de uma gazeta,
que chamava a atenção de um homem branco para o fato de que ‘as pessoas brancas,
de maneira geral, riscam uma linha de separação no ponto errado, colocando todos
nós na mesma categoria’” (Frazier, 1951, p. 326, tradução nossa).13
A partir da década de 1960, acumula-se, nos Estados Unidos, certo volume de
estudos de caráter eminentemente quantitativo sobre a afluência econômica entre
os negros (BRIMMER, 1988; COLLINS, 1983; FEATHERMAN; HAUSER, 1976;
HINE, 2003). Muitos desses estudos concentram-se na verdade numa “classe média”
negra, termo com o qual se referem, geralmente, a trabalhadores não manuais qua
lificados e também a especialistas. Em geral, discute-se sobre a contribuição das
políticas de Estado instituídas a partir de 1964 para o crescimento dessa classe, sobre
a persistência (ou a não persistência) de barreiras raciais à sua plena expansão, assim
como sobre a fragilidade das suas posições em termos não apenas econômicos, mas
de poder. Nesse corpo de trabalhos, existe uma discussão sobre em que medida
o aumento nos níveis de mobilidade social por parte dos negros indicaria uma
queda na relevância da condição racial enquanto fator de estratificação (LANDRY;
MARSH, 2011). Esse debate reflete, sobretudo, os desafios interpretativos impostos
pela passagem de um contexto em que a segregação racial operava uma separa
ção absoluta entre negros e brancos enquanto castas para um contexto em que a
13 “[...] a colored newspaper editor who remarked to a white man that ‘the white people draw the line
at the wrong point and put all of us in the same class’.”
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2. A acomodação das relações raciais em posições de classe
condição racial passa a ser um fator com impacto relativo sobre as chances de vida
das pessoas. Quanto a posições mais altas na hierarquia social, desenvolveram-se
alguns estudos sobre a carreira de negros nos altos círculos executivos, identificando
a tendência de que essas vagas se restrinjam a setores de atuação muito restritos e
racializados (COLLINS, 1989).
No Brasil, a produção sobre negros nas elites é especialmente acanhada. A pri
meira menção ao tema pode ser localizada num capítulo de Sobrados e mocambos:
o mulato bacharel. Nesse capítulo, Freyre (1936) explora basicamente a condição
do filho homem, fruto de relações sexuais entre homens brancos e mulheres negras,
e reconhecido pelo pai. Contando com altos níveis de escolaridade e com proteção
social, esses mestiços galgavam posições sociais mais elevadas, sobretudo em car
gos públicos. De maneira geral, a condição do negro em posições sociais médias,
fincadas em postos de trabalho não manual ou, menos frequentemente, na condição
de especialistas, aparece como tópico nos diversos estudos sobre estratificação
racial. Além disso, autores como Florestan Fernandes (1965) e Luiz Aguiar Costa
Pinto (1953) dedicaram-se ao estudo do ativismo e da imprensa negra durante a
primeira metade do século XX, notadamente com foco em elites políticas. O único
clássico brasileiro, contudo, especificamente voltado ao estudo dos negros nas elites
é o As elites de cor, de Thales de Azevedo (1955). O autor empreende um estudo
sobre a inserção de negros em posições sociais elevadas na Bahia, diferenciando
sua análise em termos de diversos campos de atividade. Embora não estruture sua
análise exatamente com o intuito de identificar quais são os campos de atividade
mais permeáveis à ascensão do negro, dedicando suas notas conclusivas a inter
pretações mais gerais sobre a natureza da discriminação racial no Brasil, o autor
faz alguns apontamentos nesse sentido.
No comércio, Azevedo identifica dificuldades para a ascensão do negro sobre
tudo em função da baixa capacidade de investimento. A posição de proprietário
depende do nível de capitalização. Assim, levando-se em conta um contexto de
fragilidade nos fluxos de crédito, ficava mais do que nunca a cargo do patrimônio
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O negro no mundo dos ricos
acumulado em nível familiar as condições de possibilidade para que se atingisse
essa condição. Assim, os negros atingiam, no máximo, a posição de pequenos
comerciantes, um ou outro galgando posições um pouco mais elevadas. Na política,
Azevedo (1955) identifi ca um ambiente mais permeável graças a algumas vias de
acesso abertas por arranjos institucionais em regime democrático: organizações de
classe e partidos. A burocracia também teria representado um canal mais aberto,
sobretudo à medida que processos impessoais de seleção se consolidavam, garan
tindo ao negro educado chances de competir por posições. Contudo, o autor iden
tifi ca a persistência de algumas barreiras raciais no que se refere à progressão na
carreira por meio de cargos por indicação. Embora, de maneira geral, o autor prefi ra
interpretar essas barreiras como função de défi cits educacionais, não no sentido do
título, mas no sentido mais amplo referente a aspectos comportamentais, poder-se-ia
dizer de habitus, ele admite a discriminação racial como um aspecto relevante. O artigo do autor Emerson Ferreira Rocha
As elites brasileiras têm um papel central na manutenção da desigualdade social no país, que possui raízes históricas e se perpetua por meio de diversos mecanismos econômicos, políticos e culturais. A concentração de renda e poder, aliada a uma lógica extrativista e patrimonialista, contribui para um sistema que favorece uma pequena parcela da população em detrimento da maioria.
Concentração de renda e riqueza
Domínio econômico: O 1% mais rico da população brasileira detém uma parcela desproporcional da riqueza, resultado de um sistema que permite o acúmulo de capital por meio de lucros e dividendos, enquanto a renda do trabalho cresce a um ritmo muito mais lento. Em 2024, um relatório apontou que 63% da riqueza do Brasil estava nas mãos de 1% da população.
Privilégios tributários: A elite se beneficia de um sistema tributário regressivo, no qual os impostos sobre o consumo (que afetam a população mais pobre) são mais altos que os impostos sobre grandes fortunas e lucros. Há evidências de que os 10% mais pobres pagam uma porcentagem maior de sua renda em tributos do que os 10% mais ricos.
Raízes históricas e estruturais
Legado colonial: A desigualdade social no Brasil é um reflexo do passado colonial, com a influência ibérica, a escravidão e o sistema de grandes propriedades de terra (latifúndios) estabelecendo as bases para a concentração de poder e riqueza.
Racismo e exclusão: A elite, historicamente branca e de origem europeia, utiliza mecanismos culturais e morais para justificar a subordinação e a desumanização das classes populares, principalmente de negros e mestiços, perpetuando o racismo estrutural.
Mecanismos de perpetuação
Controle político: As elites exercem grande influência sobre o sistema político, garantindo que as políticas públicas sejam favoráveis aos seus interesses. Isso inclui a oposição a políticas redistributivas, a transferência de renda e a taxação de grandes fortunas, como apontado por análises críticas.
Influência ideológica: A elite e a classe média, muitas vezes aliada a ela, reforçam a lógica da meritocracia para justificar a desigualdade, ignorando as barreiras estruturais que impedem o avanço social das classes populares.
Visão colonialista: A mentalidade de parte da elite brasileira, descrita por alguns analistas como colonialista, prioriza o lucro e o investimento em ambientes que favorecem seus interesses, mesmo que isso signifique manter o país em uma condição de precariedade
E seguem seus preconceitos de classe dominante no Brasil.
Confira a reportagem no UOL . https://noticias.uol.com.br/
E assim caminha a humanidade.
Imagem do UOL .
