segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Misoginia e Patriarcado.

O feminicídio é a expressão mais extrema da violência estrutural do patriarcado, que trata a mulher como posse. 

Relação entre Patriarcado e Feminicídio

Posse e controle: O patriarcado é um sistema de dominação onde os homens detêm o poder e os privilégios sociais.

Objeto de controle: Nessa lógica, a mulher é vista como propriedade do parceiro, que tenta controlar sua liberdade e autonomia.

Ponto limite: Quando a mulher busca independência ou decide terminar um relacionamento, o agressor usa a violência extrema para reafirmar seu domínio.

Não é caso isolado: O crime reflete uma construção cultural e política de ódio e desigualdade de gênero, e não um evento acidental.


ELAÇÕES PATRIARCAIS DE GÊNERO E FEMINICÍDIO NO BRASIL: 

DEBATES SOBRE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER 

ELANE MENDONÇA CONDE CARNEIRO1 

DAIANE DAINE DE OLIVEIRA GOMES2 

Resumo: Este artigo aborda o tema violência contra a mulher na atualidade, e traz reflexões 

sobre as desigualdades de sexo, raça e classe. Enfatizamos as relações patriarcais de gênero 

como categoria que explica a opressão feminina, além de também destacarmos que a questão 

racial também é estruturante na sociedade capitalista. Utilizando uma pesquisa bibliográfica 

para trazer dados sobre o feminicídio no Brasil, o estudo explora também a condição das 

mulheres negras diante do sexismo e racismo que sofrem cotidianamente.  

Palavras-chave: Relações patriarcais de gênero; feminicídio; violência contra a mulher. 

Resumen: Este artículo aborda el tema de la violencia contra la mujer en la actualidad, y trae 

reflexiones sobre las desigualdades de género, raza y clase. Enfatizamos las relaciones de 

género patriarcales como una categoría que explica la opresión femenina, y también 

Enfatizamos que la cuestión racial también está estructurando en la sociedad capitalista. 

Utilizando una encuesta bibliográfica para traer datos sobre el femicidio en Brasil, el estudio 

también explora la condición de las mujeres negras frente al sexismo y el racismo que sufren 

diariamente. 

Palavras claves: Relaciones patriarcales de género; Femicidio; Violencia contra la mujer. 

1. INTRODUÇÃO 

A violência contra a mulher é um tema quem vem ganhando 

notoriedade na mídia e na sociedade brasileira, mas nem sempre é 

compreendida como algo estrutural, que tem raízes históricas, ligadas às 

relações sociais de sexo e de gênero.  

Segundo o Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil 

(2015), realizado pela Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil está entre 

1 Professor com formação em Serviço Social. Universidade Estadual do Ceará. E-mail: 

<elanemconde@gmail.com>  

2Professor com formação em Serviço Social. Coordenadoria Especial de Políticas Públicas 

para Promoção da Igualdade Racial.  

Anais do 16º Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social  

os países onde mais mulheres são assassinadas, ocupando a 5° posição no 

ranking entre os países com maior índice de mortes femininas. Ainda de acordo 

com o mapa, somente em 2013, 4.762 mulheres foram assassinadas no país, o 

que representa 13 homicídios de mulheres por dia no referido ano.  

O presente artigo aborda essa temática dividindo o estudo em dois 

tópicos. O primeiro traz um breve histórico do movimento feminista e destaca a 

violência contra a mulher, enfatizando a que ocorre no âmbito doméstico e 

familiar da mulher. O tópico seguinte debate a categoria patriarcado, 

enfatizando as opressões de gênero e raça/etnia.  

2. 

MULHERES ASSASSINADAS NO BRASIL: DISCUSSÕES SOBRE 

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER E FEMINICÍDIO. 

Um levantamento realizado em 2018 pelo G1 sobre a temática afirma 

que ocorreram, em 2017, 4.473 homicídios dolosos de mulheres, o que indica 

que uma mulher foi morta a cada duas horas no referido ano. Devido a esse 

grande número de homicídio, o termo feminicídio passou a ser utilizado para 

falarmos de mulheres que são mortas pela condição de serem mulheres. 

Assim, utilizamos a seguinte definição: 

O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: 

o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação 

irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido 

por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da 

sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao 

assassinato; 

como destruição da identidade da mulher, 

pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da 

dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou 

degradante. (RELATÓRIO FINAL, CPMI, 2013) 

O feminicídio cresce no Brasil, apesar dos avanços das leis. No ano 

de 2016, quando a Lei Maria da Penha (11.340/2016) completava 10 anos, o 

lar foi considerado o local mais perigoso para as mulheres brasileiras, pois 85% 

das ocorrências de denúncias das mulheres no país são registradas dentro da 

Anais do 16º Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social  

própria casa, de acordo com a Central de Atendimento à Mulher 180. De 

acordo a referida Lei, são cinco as formas de violência doméstica contra a 

mulher: Física, Sexual, Psicológica, Moral e Patrimonial:  

I – a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda 

sua integridade ou saúde corporal; II – a violência psicológica, 

entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e 

diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno 

desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, 

comportamentos, crenças e decisões... III – a violência sexual, 

entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a 

manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante 

intimidação, ameaça, coação ou uso da força... IV – a violência 

patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure 

retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, 

instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e 

direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer 

suas necessidades; V – a violência moral, entendida como qualquer 

conduta que configure calúnia, difamação ou injúria. (BRASIL, 2010, 

p. 14-15) 

O Mapa da Violência da ONU (2015) também traz os seguintes dados 

sobre a violência contra a mulher no país: em 2013, 50,3% dos casos de 

assassinatos foram cometidos por familiares, parceiros ou ex-parceiros, e 

quase 30% das mulheres foram mortas dentro da própria casa. Em 2015, a Lei 

13.104 é aprovada e o feminicídio passa a ser circunstância qualificadora do 

crime de homicídio. Além das mortes, as mulheres são também as maiores 

vítimas do tráfico humano, da exploração sexual, do assédio e da violência 

institucional.  

É necessário destacar que a luta por uma sociedade em que a mulher 

não é subjugada passou a ser mais conhecida a partir do Movimento 

Feminista. No Brasil, a luta das mulheres passa a ter destaque com o 

movimento feminista, que ganha uma maior visibilidade durante a Ditadura 

Militar. Desde a década de 1960, a luta contra a violência ditatorial e pela 

liberdade de expressão ocorria. No fim da década seguinte, ainda sob o 

governo militar de Figueiredo, o movimento organizado dos trabalhadores, a 

exemplo das 429 greves e dos 3 milhões de trabalhadores que pararam suas 

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atividades naquele período (NETTO, 2014), já demonstrava que as lutas 

sociais se inseriam fortemente na cena política do país. 

Esse foi o período, segundo Corrêa (2001), de maior expressão do 

movimento feminista contemporâneo no Brasil, que, atuou fortemente nas 

resistências contra o governo ditatorial, principalmente após 1968, com a 

imposição do AI5; além da luta contra a ordem posta, o movimento reivindicava 

também direitos para as mulheres e melhorias para estas em diversas áreas: 

habitação, educação, saúde, etc. A respeito desse período, Cisne (2014) afirma 

que é na segunda metade do século XX que o movimento feminista se 

consolida como sujeito coletivo de luta das mulheres. A mesma autora 

acrescenta:  

Os anos de 1970 marcam os movimentos feministas pelo 

reconhecimento de que a reivindicação da igualdade é 

impossível em um sistema patriarcal. Esses anos, que 

prolongam o movimento de contracultura dos anos 1960, 

sublinham a luta dos movimentos de liberação das mulheres, 

não apenas na reivindicação de novos direitos, mas de 

questionamento do domínio político (CISNE, 2014, p.138) 

Além da presença nas ruas, a academia começava a ser espaço de 

atuação das feministas, que eram em sua maioria jornalistas, partidárias de 

esquerda, universitárias, estudantes e sindicalistas. Debates, reflexões e 

estudos a respeito das mulheres passam a vigorar em algumas universidades 

brasileiras. Corrêa (2001), enfatizando a importância do movimento nesse 

período, afirma que há uma intensa articulação entre as feministas dos anos 

1970 nas décadas seguintes, com as produções iniciais sobre a categoria 

gênero dos anos 90. 

A luta das mulheres por melhorias de vida e direitos não é algo 

recente na história. Há séculos, o sexo feminino está presente no 

desenvolvimento de ações coletivas, no entanto, estas não foram reconhecidas 

e historicamente o desprestígio social acompanhou a história de conquista das 

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mulheres. O reconhecimento das mulheres como sujeitos históricos se dá com 

o movimento feminista. 

Apesar de um maior destaque do movimento ocorrido no XX, a 

atuação das mulheres, principalmente das pertencentes às classes menos 

abastadas não é algo recente. O feminismo é considerado o auge das 

reivindicações por direitos para as mulheres, no entanto, antes dele, mulheres 

já resistiam às subordinações a que eram submetidas por serem mulheres. 

Saffioti (2013) pontua que desde o século XVIII, quando o modo de produção 

capitalista se firmou, as mulheres da classe trabalhadora ocupavam uma 

condição de exploração maior que os homens da mesma classe. Nesse 

contexto, já havia forte resistência por parte delas. 

Segundo Toledo (2001), um dos marcos para o Movimento Feminista3 

é a Revolução Francesa. Em 1791, a francesa Olympe de Gouges escreveu a 

Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, contestando também, além do 

fim dos privilégios feudais, o fim do privilégio dos homens e a exigência de que 

as mulheres também tivessem acesso aos direitos políticos. Ainda de acordo 

com a autora, a luta feminina nos tempos modernos poder ser dividida em três 

grandes fases: 

A primeira foi no final do século XIX e início do XX, com o 

movimento sufragista e a luta por outros direitos democráticos. 

A segunda foi no final dos anos 60 e início dos 70, com os 

movimentos feministas que visavam, basicamente, a liberação 

sexual. E a terceira no final dos anos 70 e início dos 80, de 

caráter sobretudo sindical e protagoniza principalmente pela 

mulher trabalhadora latino-americana. (2001, p.75). 

3 [...] o feminismo esteve, também, por longo tempo, prisioneiro da visão eurocêntrica e 

universalizante das mulheres. A conseqüência disso foi a incapacidade de reconhecer as 

diferenças e desigualdades presentes no universo feminino, a despeito da identidade biológica. 

Dessa forma, as vozes silenciadas e os corpos estigmatizados de mulheres vítimas de outras 

formas de opressão além do sexismo, continuaram no silêncio e na invisibilidade. As denúncias 

sobre essa dimensão da problemática da mulher na sociedade brasileira, vêm exigindo a 

reelaboração do discurso e práticas políticas do feminismo. E o elemento determinante nessa 

alteração de perspectiva é o emergente movimento de mulheres negras sobre o ideário e a 

prática política feminista no Brasil (CARNEIRO, 2003b, p. 118) 

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Apesar de todo esse processo histórico e das permanentes 

mobilizações, as mulheres continuam a ter menos espaços que os homens em 

algumas áreas da sociedade, principalmente na política em geral. A atuação 

das mulheres nos espaços públicos, geralmente, está ligada ao espaço 

privado. Diante das lutas, conquistas por mais direitos ocorrem, mas, ainda 

assim,  

[...] Não se pode esquecer, contudo, de que o grande número de 

denúncias de violência física, moral e sexual praticado contra as 

mulheres, todo o tipo de exploração sexual que emerge, o tráfico de 

mulheres, as intocáveis formas de descriminação, desqualificação, 

humilhações e preconceitos a que são submetidas, as mulheres 

cotidianamente, constituem permanências reveladoras de que todas 

essas conquistas ainda estão longe de ser resolvidas.  (OSTERNE, 

2007, p.16) 

Portanto, o tema da violência contra a mulher ainda é um tabu quando 

adentra o âmbito doméstico e familiar, já que as mulheres ainda sentem 

dificuldades para entender as violências como crime e, assim, tentarem romper 

com a relação abusiva e denunciarem os autores das agressões, 

principalmente quando estes são parceiros, ex-parceiros ou membros da 

família. É comum, por causa dessa dificuldade de romperem a relação abusiva, 

que as vítimas sejam vistas como às mulheres que “gostam de apanhar”: 

[...] há quem os considere não sujeito e, por via de consequência, 

passivas. (Chaui, 1985; Gregori, 1989). Mulheres em geral, e 

especialmente quando são vítimas de violência, recebem tratamento 

de não sujeitos [...] Isto não significa que as mulheres sejam 

cúmplices de seus agressores, como defendem Chaui e Gregori. 

Para que pudessem ser cúmplices, dar seu consentimento às 

agressões masculinas, precisariam desfrutar de igual poder que os 

homens. Sendo detentoras de parcelas infinitamente menores de 

poder que os homens, as mulheres só podem ceder, não consentir. 

(SAFFIOTI, 2015, p.84) 

Diante da questão de tentativas de se livrar de uma relação desigual 

de poder, a mulher, constantemente, rompe o relacionamento após a violência 

e o reinicia depois que o agressor, geralmente, mostra-se arrependido, o que 

Anais do 16º Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social  

configura o chamado “ciclo da violência”. Dito isto, ainda de acordo com Saffioti 

(2015, p.84), acrescentamos: 

A violência doméstica ocorre numa relação afetiva, cuja ruptura 

demanda, via de regra, intervenção externa. Raramente uma 

consegue desvincular-se de um homem violento sem auxílio externo. 

Até que este ocorra, descreve uma trajetória oscilante, com 

movimentos de saída da relação e de retorno a ela. Este é chamado 

ciclo de violência, cuja utilidade é meramente descritiva. 

Há necessidade de destacarmos também que a noção de mulher 

omissa, que quer estar em um relacionamento abusivo, e a de que essa 

agressão é um problema somente do casal perpassa a ideologia dominante na 

sociedade. Cisne (2014, p.95) afirma que tal ideologia, que é “patriarcal-racista

capitalista, penetra na consciência dos indivíduos devido à naturalização das 

relações de dominação e exploração que a alienação produz”, e, assim, “é 

essa alienação que faz com que mulheres naturalizem e reproduzam sua 

condição de subalternidade e subserviência como algo inato ou mesmo 

biológico” (CISNE, 2014, p.95)

Alguns casos de feminicídio que tiveram os parceiros ou ex parceiros 

como autores de crime foram destaques na imprensa nacional. Um deles foi o 

da modelo e atriz Elisa Samúdio, morda pelo ex-parceiro Bruno Fernandes, 

goleiro do time de futebol Flamengo.  

Eliza morreu, supostamente, com 25 anos de idade, em junho de 

2010. Em 2009, a atriz denunciou4, na Delegacia da Mulher do Rio de Janeiro, 

o goleiro por agressão e ameaça de morte, mas teve seu pedido pela 

renovação de medidas protetivas negado pelo 3º Juizado da Violência 

Doméstica e Familiar Contra a Mulher de Jacarepaguá (zona oeste do Rio). A 

juiza da Vara alegou que Eliza não tinha “um relacionamento familiar” com o 

goleiro e, por isso, não cabia a aplicação da Lei Maria da Penha.  

O caso de Eliza é um dos exemplos mais conhecidos da falha do 

Estado em executar a Lei Maria da Penha e nos faz questionar como os 

4Fonte: http://www.compromissoeatitude.org.br/caso-eliza-samudio/ 

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profissionais das varas e dos juizados estão entendendo o que é a violência de 

gênero, que tem como base o machismo.  

Eliza havia tido um relacionamento íntimo com Bruno e tinha um filho 

dele, ainda assim, não houve entendimento de que ela necessitava de uma 

proteção específica para mulheres em risco, mesmo que a LMP caracterize no 

artigo 5° a violência doméstica como agressão que ocorre “III - em qualquer 

relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a 

ofendida, independentemente de coabitação” (BRASIL, 2010). A própria Maria 

da Penha se pronunciou dizendo que o Estado ignorou o “pedido de socorro 

dessa mulher”. 

3. RELAÇÕES PATRIARCAIS DE GÊNERO E DESIGUALDADES RACIAIS 

Os estudos sobre esse assunto do que é ser mulher e o que é ser 

homem ganham destaque grande na década de 1990, quando Scott (1990) 

torna-se autora de grande importância no Brasil, inclusive nos estudos do 

Serviço Social, quando se trata do debate gênero. Cisne (2013, p. 192) afirma: 

“as discussões de gênero são difundidas fortemente no Brasil, a partir da 

tradução do texto de Joan Scott: Gênero: uma categoria útil para análise 

histórica. Tradução realizada pelo SOS Corpo, em 1991, tornando-se um 

marco referencial”.  

Essa violência que atinge diretamente as mulheres está ligada a 

questão de gênero, que é considerado o sexo social. Scott (1991) define a 

categoria gênero como o sexo construído socialmente, baseado nas 

desigualdades biológicas entre homem e mulher. Assim, devido a essa 

construção, são atribuídas às mulheres comportamentos femininos e aos 

homens comportamentos masculinos, o que define uma relação desigual entre 

os sexos. 

Anais do 16º Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social  

Já Saffioti (2004) trata da relação de subalternidade da mulher em 

relação ao homem utilizando o termo patriarcado, categoria definida pela 

mesma autora como algo que 

[...] não se trata de uma relação privada, mas civil; dá direitos sexuais 

aos homens sobre as mulheres, praticamente sem restrição; 

configura um tipo hierárquico de relação, que invade todos os 

espaços da sociedade; tem uma base material; corporifica-se; 

representa uma estrutura de poder baseada tanto na ideologia quanto 

na violência. (SAFFIOTI, 2004, p. 48) 

Para Delphy (2009), a palavra patriarcado, que já era utilizada para 

falar de períodos da evolução da humanidade, passa a ser usada fortemente 

pelo movimento feminista dos anos 1970, no ocidente. Assim, “nessa nova 

acepção feminista, o patriarcado designa uma nova formação social em que os 

homens detêm o poder, ou ainda, mais simplesmente, o poder é dos homens. 

Ele é, assim, quase sinônimo de “dominação masculina” ou de opressão das 

mulheres”. (DELPHY, 2009, p.174) 

Nesse âmbito, tratamos da apropriação do corpo e da vida das 

mulheres pelos homens como uma forma destes garantirem a apropriação 

individual dos bens materiais produzidos coletivamente. Saffioti (2013) afirma 

ser estrutural e superestrutural as relações sociais qualificadas pelo 

patriarcado. Este, segundo a autora, é resultante de um processo histórico, e é 

uma forma específica das relações de gênero, o que nos permite falar de 

relações patriarcais de gênero. Com o advento do capitalismo, a mulher passa 

por uma dupla desvantagem: 1° por causa dos mitos biológicos que colocam as 

capacidades femininas como inferiores às capacidades masculinas, o que seria 

a desvantagem a nível superestrutural; 2° porque, no capitalismo, a mulher vai 

ser excluída ou secundarizada do modo de produção, demonstrando a 

desvantagem a nível estrutural (SAFFIOTI, 2013). 

Assim, contrapondo-se aos que afirmavam que o modo de produção 

capitalista traria a chance de liberdade à mulher, Saffioti (2013, p.60) defende 

Anais do 16º Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social  

 

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Anais do 16º Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social  

 

 

que essas desvantagens permitiram ao capitalismo ter a mão de obra feminina 

como uma fonte intensa de extorquir mais-valia.  

 

O modo capitalista de produção não fez apenas explicitar a natureza 

dos fatores que promovem a divisão da sociedade em classes 

sociais; lança mão da tradição para justificar a marginalização efetiva 

ou potencial de certos setores da população do sistema produtivo de 

bens e serviços. Assim é que o sexo, fator de há muito selecionado 

como fonte de inferiorização social da mulher, passa a interferir de 

modo positivo para a atualização da sociedade competitiva, na 

constituição das classes sociais. A elaboração social do fator natural 

sexo, enquanto determinação comum que é, assume, na nova 

sociedade, uma feição inédita e determinada pelo sistema de 

produção social. 

 

 

                                                                                                                                                                                                                                                           

 A mesma autora utiliza a categoria trabalho para tratar desse assunto: 

 

 

 

Na sociedade de classes, o trabalho a par de ser alienado enquanto 

atividade, gera um valor do qual não se apropria inteiramente do 

indivíduo que o executa, quer seja homem, quer seja mulher. Esta, 

entretanto, se apropria de menor parcela dos produtos de seu 

trabalho do que o faz o homem. É obvio, portanto, que a mulher sofre 

mais diretamente do que o homem os efeitos da apropriação privada 

dos frutos do trabalho social. (SAFFIOTI, 2013, p. 73) 

 

 

 

  Posto isso, discutir o trabalho feminino também é uma forma de 

aborda as desigualdades de classe, de raça e de gênero, já que há uma 

divisão sexual e racial do trabalho que marginaliza as mulheres, especialmente 

quando estas são pobres e negras. Hirata e Kergoat (2007, p.599) discorrem 

sobre o assunto: 

 

A divisão sexual do trabalho é a forma de divisão do trabalho social 

decorrente das relações sociais entre os sexos; mais do que isso, é 

um fator prioritário para a sobrevivência da relação social entre os 

sexos. Essa forma é modulada histórica e socialmente. Tem como 

características a designação prioritária dos homens à esfera produtiva 

e das mulheres à esfera repro- dutiva e, simultaneamente, a 

apropriação pelos homens das funções com maior valor social 

adicionado (políticos, religiosos, militares etc.)  

 

 

As mesmas autoras explicam que essa divisão social do trabalho 

pode ser entendida a partir de dois princípios: 

[...] 

o princípio de separação (existem trabalhos de homens e 

trabalhos de mulheres) e o princípio hierárquico (um trabalho de 

homem “vale” mais que um trabalho de mulher). Esses princípios são 

válidos para todas associedades conhecidas, no tempo e no espaço. 

Podem ser aplicados mediante um processo específico de 

legitimação, a ideologia naturalista. Esta rebaixa o gênero ao sexo 

biológico, reduz as práticas sociais a “papéis sociais” sexuados que 

remetem ao destino natural da espécie. (HIRATA; KERGOAT, 2007, 

p.599) 

Assim como o sexo é estruturante, e raça/etnia também é. 

Historicamente, os negros, tanto homens como mulheres, são os mais 

excluídos dos direitos e do acesso aos bens materiais, sendo os principais 

prejudicados pela desigualdade econômica do Brasil.  

O Censo Demográfico de 2010 traz os seguintes dados: de 191 

milhões de brasileiros, 51% é negra, o que corresponde a 97 milhões de 

habitantes do país. Desses 97 milhões, 25,6% é mulher. Ou seja, há 49 

milhões de mulheres negras no país. O mesmo estudo aponta ainda que 8,5% 

de habitantes vivem em situação de extrema pobreza5, e desse total, 70,8% 

são negros e negras. Sendo assim, “a articulação entre racismo e sexismo 

aprofunda as desigualdades e coloca as mulheres nos indicadores mais baixos 

de desenvolvimento, expressos nas condições de moradia, saúde, acesso a 

transporte e oportunidades de ascensão no trabalho” (RELATÓRIO 

FINAL/CPMI, 2013, p. 66).  

Os setores econômicos com as piores condições laborais em termos 

de remuneração, de estabilidade, de proteção e assim por diante contam com 

acentuada participação da parcela negra da força de trabalho. Pode-se citar: a 

agricultura (60,3% dos ocupados são negros), a construção civil (57,9%) e os 

serviços domésticos (59,1%). Assim, percebe-se o trabalho subalternizado de 

negras e negros brasileiros colocados em espaços de baixa remuneração e 

5Segundo o Ministério de Desenvolvimento Social, no ano de 2018, estão em situação de 

extrema pobreza Famílias que vivem com renda mensal por pessoa de até R$ 85,00. 

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Anais do 16º Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social  

esforço braçal. Estas condições são resultantes também do acesso à educação 

básica precarizada e o limitado acesso ao ensino superior para grande parte da 

população negra. 

Os índices de participação e remuneração recebida no mercado de 

trabalho a partir das especificidades de gênero e raça revelam que ao longo 

dos últimos anos os que mais sofreram com os impactados em períodos de 

crise econômica são os segmentos mais oprimidos, evidentemente as 

mulheres negras, com menos oportunidades de emprego nos setores 

produtivos da sociedade. São as que ocupam em maior número o trabalho 

doméstico - 63% conforme a PNAD 2012, e menor número nos cargos de 

chefia. 

No Brasil, esse abismo entre a população negra e a população branca 

tem, de acordo com Madeira (2013), raízes históricas, com hierarquizações que 

provocam exclusões dos negros e, principalmente, das mulheres negras. Dito 

isto, é importante entendermos que a formação da sociedade brasileira tem o 

patriarcado como uma característica influente nas relações de sexo e raça do 

país. Essa forma de organização da sociedade negava a importância das 

mulheres. Nessa questão, Saffioti (2015, p.33) afirma que as mulheres, em 

especial as negras e as pobres, são consideradas socialmente inferiores “Na 

ordem patriarcal de gênero, o branco encontra sua segunda vantagem. Caso 

seja rico, encontra sua terceira vantagem, o que mostra que o poder é macho, 

branco e, de preferência, heterossexual”. 

Para Del Priore (2013), o “patriarcalismo brasileiro” é resultado da 

tradição portuguesa que trazia a Nossa Senhora como modelo ideal de mulher, 

esta deveria ser submissa ao marido; e da colonização agrária, baseada no 

trabalho escravo implantada na colônia. Assim, no Brasil, a família patriarcal 

possuía, além do pai, da mãe e dos filhos, “os parentes, os filhos ilegítimos ou 

de criação, afilhados, empregados e amigos com quem se nutria uma relação 

de compadrio – isto é, padrinhos ou madrinhas –, além de agregados e 

escravos.” (DEL PRIORE, 2013, p. 13). A principal obrigação feminina era o 

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Anais do 16º Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social  

casamento, que seria a forma ideal de a mulher constituir uma família e realizar 

o papel imposto de ser mãe; 

Pobre ou rica, a mulher possuía, porém, um papel: fazer o trabalho de 

base para todo o edifício familiar: educar os filhos segundo os 

preceitos cristãos, ensinar-lhes as primeiras letras e atividades, cuidar 

do sustento e da saúde física e espiritual deles, obedecer e ajudar o 

marido [...] (DEL PRIORE, 2013, p.13). 

Nessas condições, podemos afirmar que a mulher branca e de classe 

abastada, apesar de sua condição, também era oprimida. A ela eram atribuídas 

características dóceis e frágeis para que ficasse em casa ou, se saísse, tivesse 

seus passos vigiados pelo homem. Já a mulher negra, a mulata e a indígena 

eram atribuídas características que as ligassem a força de trabalho ou a 

servidão sexual, sendo estas vítimas do preconceito duplamente: devido ao 

machismo e ao racismo. Segundo Del Priore (2013, p.36): “os gestos mais 

diretos e a linguagem mais chula eram reservados a negras escravas e forras 

ou mulatas, às brancas se direcionavam galanteios e palavras amorosas”.  

A mulher negra no período colonial não estava isenta da exploração do 

regime escravista, sobre elas recaíam formas de sofrimento ainda mais 

complexas, diferente da realidade da mulher branca as negras trabalharam 

durante séculos, escravizadas nas lavouras ou nas ruas, sendo vendedoras, 

quituteiras ou prostitutas, sua identidade foi sendo construída como se fosse 

um objeto, que deveria servir as sinhazinhas cuidando de suas casas e filhos e 

ser objeto de satisfação sexual dos senhores de engenho, do mesmo modo 

sua cultura foi violada e marginalizada (CARNEIRO, 2003a). A respeito desse 

assunto, Madeira (2013, p.1), sobre o racismo, afirma que 

Passados 124 anos de pós-escravidão, a desigualdade material e 

simbólica da população negra subalternizada se manteve, e a 

desvantagem em relação aos(às) branco(a)s no usufruto de recursos 

benefícios continua a afetar severamente esse grupo. Tal 

desigualdade se inscreve no nível de escolaridade, analfabetismo, 

inserção no mercado de trabalho, parca representação política, 

marginalidade social, discriminação e violência. 

13 

Anais do 16º Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social  

Violência essa que se expressa principalmente contra a mulher 

negra. O Mapa da Violência da ONU (2015), que trouxe dados sobre o ano de 

2013, coloca que o assassinato de mulheres negras aumento 54% em 2013, 

enquanto a morte de mulheres brancas diminuiu 9,8%. Esses números 

demonstram como a mulher negra está mais vulnerável às diversas formas de 

racismo no país.  

4. CONCLUSÃO  

Assim, entendemos que a opressão discutida neste estudo ultrapassa 

o nível cultural e é estrutural, tendo sua raiz no sistema capitalista patriarcal e 

racista. Assim, as desigualdades de sexo e de gênero também estão 

diretamente ligadas à sociabilidade capitalista, que se sustentará não só pela 

opressão de classe.  

É necessário atender os diferentes de modo diferente, destarte o 

atendimento as mulheres negras deve levar em consideração os processos de 

socialização do masculino e do feminino, entender a natureza dos conflitos e as 

estratégias de superação, deve ser considerada ainda a dimensão racial a 

partir do conhecimento sobre a realidade vivida pela população negra 

brasileira, compreender que as pessoas de diferentes grupos raciais vivenciam 

diferentes situações ao longo de sua vida, ocasionadas pela formação histórica 

das relações raciais brasileiras. 

5. REFERÊNCIAS 

CARNEIRO, Suely. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na 

América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. In: RACISMOS 

contemporâneos. Rio de Janeiro: Takano, 2003. 

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______. Feminismo, Luta de Classes e Consciência Militante Feminista no 

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14 

Anais do 16º Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social  

______. Feminismo, Luta de Classes e Consciência Militante Feminista no 

Brasil. Tese (Doutorado em Serviço Social) – Universidade do Estado do Rio 

de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013. 

DEL PRIORE, Mary. Histórias e Conversas de Mulher. São Paulo: Planeta 

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Acesso em: fev. 2016. 

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são 

subnotificados. 

Disponível 

em: 

https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/noticia/cresce-n-de-mulheres-vitimas

de-homicidio-no-brasil-dados-de-feminicidio-sao-subnotificados.ghtml . Acesso 

em julho de 2018. 

HIRATA, Helena; KERGOAT, Danièle. Novas configurações da divisão sexual 

do trabalho. Cadernos de pesquisa. v. 37, n. 132, set/dez. 2007. Disponível 

em: <http://scielo.br/pdf/cp/v37n132/a0537132>. Acesso em: 15 set. 2015. 

HIRATA, Helena. Novas configurações da divisão sexual do trabalho? Um 

olhar voltado para a empresa e a sociedade. São Paulo. 2002. Boitempo 

Editorial 

HIRATA, Helena; KERGOAT, Daniele. Novas configurações da divisão 

sexual do trabalho. In: Cadernos de pesquisa, v. 37, n. 132, p. 595-609, 

set/dez 

2007. 

Disponível 

em:< 

http://www.scielo.br/pdf/cp/v37n132/a0537132.pdf> Acesso em: 08 fev 2015. 

NETTO, J.P. Pequena História da Ditadura Brasileira. Editora CORTEZ . 

Edição: 1. 2014 

CPMI-VCM, 2013. COMISSÃO PARLAMENTAR MISTA DE INQUÉRITO: 

RELATÓRIO FINAL. Disponível em: http://www.compromissoeatitude.org.br/wp 

content/uploads/2013/07/CPMI_RelatorioFinal_julho2013.pdf. 

Acesso em: 

junho de 2018. 

SAFFIOTI, H.I.B. A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e Realidade. 3. 

ed. São Paulo: Expressão Popular, 2013 

_______. Gênero patriarcado violência. 2.ed. São Paulo: Expressão Popular, 

Fundação Perseu Abramo, 2015. 160p. O artigo das autoras ELANE MENDONÇA CONDE CARNEIRO1  e DAIANE DAINE DE OLIVEIRA GOMES2 

   



Misoginia e patriarcado são conceitos interligados, mas distintos. A misoginia, o ódio e a aversão às mulheres, é a atitude individual e ideológica, enquanto o patriarcado é o sistema social e estrutural que sustenta essa aversão. 

O que é patriarcado?

O patriarcado é um sistema social e cultural de dominação masculina que se manifesta em diferentes níveis da sociedade. 

Autoridade masculina: Historicamente, a figura masculina, principalmente a mais velha, exerce autoridade sobre a família e a sociedade.

Estruturas sociais: A dominação masculina se estende às instituições políticas, econômicas, religiosas e culturais.

Desigualdade de gênero: O sistema patriarcal perpetua a noção de que os papéis de gênero são biológicos e imutáveis, essencializando a diferença entre homens e mulheres para justificar a desigualdade.

Violência estrutural: A manutenção do patriarcado depende da violência, que pode se manifestar em diferentes formas de opressão contra as mulheres e outros grupos vulneráveis. 

O que é misoginia?

A misoginia é a aversão, o ódio ou o desprezo pelas mulheres, que se manifesta em comportamentos, discursos e práticas que as desvalorizam. 

Consequências práticas: A misoginia leva a consequências destrutivas, como feminicídios, humilhações, objetificação e outras formas de violência.

Atitude e ideologia: Diferente do patriarcado, que é uma estrutura social, a misoginia é a atitude específica de ódio. Enquanto o machismo promove a superioridade masculina, a misoginia é a aversão às mulheres.

Discurso de ódio: A misoginia também se manifesta em discursos de ódio contra mulheres, como os encontrados na internet.

Caráter social: A misoginia é um comportamento social, não se limitando a ações individuais, e é alimentada pela estrutura patriarcal. 

A relação entre misoginia e patriarcado

O patriarcado e a misoginia estão intrinsecamente ligados, com o primeiro sendo o sistema que sustenta a segunda. 

O sistema e a prática: O patriarcado é o sistema de poder que cria e normaliza a misoginia, que, por sua vez, é a prática desse ódio às mulheres.

Perpetuação da dominação: O sistema patriarcal naturaliza a desvalorização feminina ao longo da história, criando as condições para que o ódio às mulheres seja socialmente aceito e reproduzido.

Violência e controle: O patriarcado depende da violência para se sustentar, e a misoginia é a manifestação direta dessa violência contra as mulheres, que são alvos por serem mulheres.


E seguem as raízes de um país patriarcal e machista.

Confira a noticia na TV ON Line .https://tnonline.uol.com.br/noticias/parana/advogado-suspeito-de-matar-medica-no-parana-fugiu-e-deixou-o-filho-bebe-na-cena-do-crime-1143945

E assim caminha a humanidade. 

Imagem do Site Editora Dialética.

 



Alemanha. Europa .

 

O conservadorismo é uma filosofia política e social que defende a preservação das instituições, tradições e costumes acumulados ao longo das gerações, priorizando a estabilidade e a continuidade social em oposição a mudanças radicais ou revolucionárias. Formulada em sua base moderna pelo pensador político Edmund Burke , durante a Revolução Francesa, essa corrente propõe que a sociedade deve evoluir de forma gradual e prudente. 

Pilares Fundamentais do Conservadorismo

Ceticismo político: Desconfiança em relação a projetos utópicos de engenharia social que tentam reconstruir a sociedade do zero.


Defesa de instituições tradicionais: Valorização da família, da religião e das comunidades locais como pilares de coesão e ordem social.


Prudência e gradualismo: Entendimento de que reformas sociais devem ser lentas e testadas para evitar o caos e a tirania.


Ordem moral duradoura: Crença em valores éticos permanentes que guiam a conduta humana através dos tempos.


Precedente da experiência: Preferência pelo conhecimento prático e histórico acumulado em vez de teorias puramente abstratas. 


O Conservadorismo em relação  Mudanças

Diferente do reacionarismo (que busca retornar a um passado idealizado), o conservadorismo aceita transformações. Ele opera sob a lógica de que é preciso mudar para conservar, desde que essas mudanças corrijam falhas pontuais sem destruir as fundações da civilização. Para os adeptos desse pensamento, a sabedoria coletiva do passado possui maior autoridade do que a vontade momentânea de uma única geração. 

No Brasil

No cenário brasileiro, o pensamento conservador possui raízes históricas profundas que remontam ao período colonial e ao Império, misturando-se fortemente com a tradição jurídica luso-ibérica e valores religiosos. Atualmente, o conservadorismo no país manifesta-se de forma plural, frequentemente associado a pautas morais tradicionais e, no aspecto econômico, ao liberalismo econômico .  Segundo o Sociólogo , Mestre e Doutor Cesar Portantiolo Maia , no quarto Período da habilitação em Jornismo  na Comunicação Social , nas faculdades Integradas Alcântara Machado (FIAAM FAAM).

O movimento conservador na Alemanha possui uma longa trajetória intelectual e política, destacando-se no século 19 pela chamada Revolução Conservadora (Konservative Revolution) após a Primeira Guerra Mundial. Para compreender a amplitude dessa ideologia, consulte a página sobre Conservadorismo na Alemanha. 

O que foi a Revolução Conservadora Alemã

Contexto: Surgiu no período da República de Weimar (1919–1933), marcado pela derrota alemã na Primeira Guerra Mundial e pela crise socioeconômica. 

Oposição: Rejeitava o liberalismo, a democracia parlamentar, o marxismo e o comunismo. 

Características: Misturava nacionalismo intenso, rejeição aos valores burgueses tradicionais e desejo por uma renovação autoritária do Estado.
Principais Autores: Pensadores como Oswald Spengler, Ernst Jünger e Carl Schmitt formularam bases críticas influentes desse período. 


A forma de governo da Alemanha é a república. O país adota especificamente o sistema de república parlamentar federal, o que significa que o poder político é compartilhado entre a federação e os estados, e a condução do governo depende do Parlamento.

Estrutura do Poder Executivo

Chefe de Governo: O chanceler federal exerce o poder executivo real e define as diretrizes políticas do país.


Chefe de Estado: O presidente federal desempenha uma função majoritariamente representativa, diplomática e institucional, sem liderança política direta.


Divisão Legislativa e Territorial

O Parlamento (Bundestag): Os cidadãos elegem os deputados federais diretamente a cada quatro anos. O Bundestag é o órgão responsável por eleger o chanceler e votar as leis federais.


O Conselho Federal (Bundesrat): Esta câmara representa os governos dos 16 estados federados (Länder). Ela garante que as regiões participem ativamente na criação das leis nacionais.


Estado Federal: Os 16 estados possuem ampla autonomia interna. Cada um conta com sua própria constituição, parlamento e competências exclusivas em áreas como educação, cultura e segurança interna.

Conservadorismo e extrema-direita  

na Europa e no Brasil*

Conservatism and far-right forces in Europe and Brazil

Michael Löwy

Diretor de Pesquisas emérito do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS)/Paris.

michael.lowy1@gmail.com

Resumo: Temos assistido, na Europa dos últimos 

anos, a um espetacular ascenso político e eleitoral 

de forças de extrema-direita, racistas, xenófobas, 

fascistas ou semifascistas. Um fenômeno que não 

pode ser unicamente explicado pela crise econô

mica, já que em dois dos países mais atingidos por 

ela, Portugal e Espanha, a extrema-direita é pouco 

presente no cenário político, enquanto tem um 

papel muito significativo em países que pouco 

sofreram com essa crise (Suíça, Áustria). No 

Brasil não temos partidos racistas, a extrema-di

reita se manifesta no chamado a um golpe militar.

Palavras-chave: Extrema-direita. Fascismo. Ra

cismo. Golpismo.

A extrema-direita na Europa

Abstract: Lately in Europe, we have seen a 

spectacular political and electoral increase of the 

far-right forces, which are racist, xenophobic, 

fascist or semi-fascist. Such a phenomenon cannot 

be explained solely by the economic crisis, since 

in two of the most affected countries — Portugal 

and Spain — the far-right force´s presence is little 

in the political scene, while it has a very significant 

role in countries which did not suffer a lot because 

of such a crisis (Switzerland, Austria). In Brazil 

we do not have racist parties, the far-right force 

manifests itself in the calling of a military coup.

Keywords: Far-right. Fascism. Racism. Coup.

As eleições europeias na França confirmaram uma tendência que, há 

alguns anos, já estava aparente: o crescimento do apoio à Frente 

Nacional. Essa evolução não é especificamente francesa: por qua

se todo o continente europeu vemos o espetacular levante da extrema- direita. 

* Tradução de Deni Alfaro Rubbo e Marcelo Netto Rodrigues.

652

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 124, p. 652-664, out./dez. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0101-6628.044

O fenômeno não encontra precedentes desde os anos 1930. Em muitos 

países, a direita xenófoba já havia obtido entre 10% e 20% dos votos duran

te a última década; em 2014, em três países (Reino Unido, Dinamarca, 

França) alcançaram de 25% a 30%. Além disso, sua influência é maior do 

que o seu próprio eleitorado: suas ideias contaminam também a direita 

“clássica” e até parte da esquerda social neoliberal. O caso francês é o mais 

sério deles, com o avanço da Frente Nacional excedendo até mesmo as 

previsões mais pessimistas. Como escreveu em um editorial recente o site 

Mediapart, “são cinco minutos para meia-noite”.

Pode essa situação ser comparada à Europa dos anos 1930? Sim e não. 

É a primeira vez, desde os anos 1930, que a extrema-direita alcança tal in

fluência na política europeia. Mas a história nunca se repete. Há muitas di

ferenças entre as conjunturas do passado e as do presente. A mais óbvia é 

que, depois de 1933, dois dos mais importantes países da Europa, Itália e 

Alemanha, tiveram regimes fascistas totalitários. Afortunadamente, nada 

comparável existe hoje! Uma outra diferença importante é que os interesses 

da burguesia hoje são esmagadoramente favoráveis à globalização capita

lista neoliberal e hostis ao nacionalismo econômico — um conteúdo básico 

de qualquer projeto fascista ou semifascista. Por outro lado, a esquerda 

antifascista, tanto em sua versão mais radical — marxistas e anarquistas 

— quanto em sua forma mais moderada, parlamentar, da Frente Popular, era 

muito mais forte nos anos 1930 do que hoje. Outra diferença é que, parado

xalmente, ao contrário da época atual, a maioria dos movimentos fascistas 

dos anos 1930, com a notável exceção da Alemanha (e, em uma escala 

muito menor, França), não era abertamente racista. Isso se aplica, ao menos 

até antes de 1938, aos movimentos liderados por Mussolini, Franco e Sala

zar na Itália, Espanha e Portugal.

A atual extrema-direita europeia é muito diversa, uma variedade que vai 

de partidos abertamente neonazistas, como o Aurora Dourada na Grécia, a 

forças burguesas perfeitamente bem integradas ao jogo político institucional, 

como o suíço UDC. O que eles têm em comum é o seu nacionalismo chauvi

nista — e, portanto, oposição à globalização “cosmopolita” e a qualquer 

forma de unidade europeia —, xenofobia, racismo, ódio a imigrantes e ciganos 

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 124, p. 652-664, out./dez. 2015

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(o povo mais antigo do continente), islamofobia e anticomunismo. Além 

disso, em sua maioria, se não em sua totalidade, são favoráveis a medidas 

autoritárias contra a “insegurança” (usualmente associada a imigrantes) por 

meio do aumento da repressão policial, penas de prisão e pela reintrodução 

da pena de morte. A orientação reacionária nacionalista, na maioria das vezes, 

é “complementada” com uma retórica “social”, em apoio às pessoas simples 

e à classe trabalhadora (branca) nacional. Em outras questões — por exemplo, 

neoliberalismo, democracia parlamentar, antissemitismo, homofobia, miso

ginia ou secularismo — esses movimentos são mais divididos.

Muitos “especialistas” e comentaristas de mídia anunciam que fascismo 

e antifascismo são fenômenos pertencentes ao passado. Acreditamos que a 

realidade é um tanto mais complexa. É óbvio que hoje não vemos partidos 

fascistas de massa comparáveis ao NSDAP na Alemanha dos anos 1930, 

mas já naquele período o fascismo não se limitava apenas a esse modelo: o 

franquismo espanhol e o salazarismo português eram muito diferentes dos 

modelos italiano e alemão. Até mesmo partidos que tentaram imitar o exem

plo alemão, como o Partido Popular Francês (PPF) fundado por Jacques 

Doriot em 1936 — uma organização claramente fascista que viria a se tornar 

uma das principais forças colaboracionistas durante o regime de Vichy —, 

dificilmente podem ser comparados ao NSDAP alemão. Seria, portanto, um 

erro alegar que não existem partidos fascistas atualmente na Europa, por não 

termos nada equivalente aos nacional-socialistas dos anos 1930.

Uma tentativa de tipologia da extrema-direita europeia atual teria de 

distinguir pelo menos três tipos diferentes:

I. Partidos de caráter diretamente fascista e/ou neonazista: por exemplo, 

o Aurora Dourada, da Grécia; o Jobbik, da Hungria; o Setor Direito, da 

Ucrânia; o Partido Nacional Democrata, na Alemanha; e várias outras forças 

menores e menos influentes. Aqui também se incluiria a recente criação 

atípica francesa “nacional-socialista” e antissemita Reconciliação Nacional 

(Alain Soral).

II. Partidos semifascistas, isto é, com raízes e fortes componentes fas

cistas, mas que não podem ser identificados com o padrão fascista clássico. 

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É o caso, em diferentes formas, da Frente Nacional, da França; do FPÖ, da 

Áustria; e do Vlaams Belang, da Bélgica, entre outros. Seus líderes funda

dores tinham ligações estreitas com o fascismo histórico e com as forças que 

colaboraram com o Terceiro Reich, e vários de seus quadros não escondem 

a nostalgia pelo passado fascista. Mas suas lideranças atuais tentam “mo

dernizá-los”, apresentando uma imagem mais “respeitável”, por exemplo, 

substituindo antissemitismo por islamofobia. Por razões que explicaremos 

adiante, consideramos o conceito de “populismo” como totalmente inade

quado para caracterizar esses partidos.

III. Partidos de extrema-direita que não possuem origens fascistas mas 

compartilham do seu racismo, xenofobia, retórica anti-imigrante e islamo

fobia. Exemplos são a italiana Lega Nord, o suíço UDC (União Democrá

tica do Centro), o britânico Ukip (Partido de Independência do Reino Unido), 

o holandês Partido da Liberdade, o norueguês Partido Progressista, o Parti

do dos Verdadeiros Finlandeses (True Finns) e o Partido do Povo Dinamar

quês. Os Democratas Suecos são um caso intermediário, com origens cla

ramente fascistas (e neonazistas), mas que têm feito grandes esforços, desde 

os anos 1990, para apresentar uma imagem mais “moderada”.

Como em todas as tipologias, a realidade é mais complexa, e algumas 

dessas formações políticas parecem tomar parte de vários tipos diferentes. 

É preciso também levar em conta que isso não é uma estrutura estática, mas 

sim em constante movimento. Alguns desses partidos parecem mover de um 

tipo a outro. No momento, há somente um exemplo na Europa de um parti

do fascista tornando-se um partido de direita “normal”: o italiano Aliança 

Nacional, de [Gianfranco] Fini. Não se pode excluir a possibilidade que 

outros partidos similares sigam esse caminho, mas, por ora, não existem 

sinais de tal desenvolvimento.

Embora as ideologias dos partidos de extrema-direita possuam muitas 

similaridades, sua prática política não é homogênea. Enquanto alguns, como 

o francês FN, pretendem ser “antissistêmicos” e permanecem, por ora, fora 

das instituições de poder, outros, como o Partido da Liberdade da Áustria e 

o italiano Lega Nord têm, em anos recentes, participado de governos; os 

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partidos dinamarquês e holandês apoiaram seus governos sem se unir a eles, 

enquanto o suíço UDC e o norueguês Partido Progressista no momento fazem 

parte de coalizões governamentais.

A extrema-direita na Europa Oriental — as antigas “Democracias Po

pulares” — como o partido húngaro Jobbik, o Partido da Grande Romênia 

e o Atak, da Bulgária, assim como partidos similares nas Repúblicas Balcâ

nicas, Ucrânia, ex-Iugoslávia etc., têm algumas características comuns que 

são, em certa medida, distintas dos seus equivalentes no Ocidente: a) o bode 

expiatório é menos o imigrante estrangeiro do que as minorias nacionais 

tradicionais: judeus e ciganos; b) diretamente conectado a esses partidos ou 

tolerado por eles, gangues racistas violentas atacam, e algumas vezes matam, 

o povo Roma [cigano]; c) raivosamente anticomunistas, eles se consideram 

herdeiros dos movimentos nacionalista e/ou fascista dos anos 1930, que 

frequentemente colaboraram com o Terceiro Reich. O fracasso desastroso 

da assim chamada “transição” (para o capitalismo), sob a liderança de par

tidos liberais e/ou social-democratas, criaram condições favoráveis para o 

surgimento de tendências de extrema-direita.1

Qualquer que seja a sua transformação e “modernização”, a extrema--direita ainda representa uma ameça real à democracia. Um dos argumentos 

usados para mostrar que ela mudou e não tem muito mais a ver com o fas

cismo é a aceitação da democracia parlamentar e da via eleitoral para chegar 

ao poder. Bom, podemos lembrar que certo Adolf Hitler chegou a chanceler 

alemão por voto legal no Reichstag e que o marechal Pétain foi eleito chefe 

de Estado pelo Parlamento francês. Se a Frente Nacional chegasse ao poder 

por meios eleitorais — uma hipótese que tristemente não pode mais ser 

descartada —, o que sobraria de democracia na França?

Como explicar esse sucesso crescente da extrema-direita? O primeiro 

elemento de explicação é o processo de globalização capitalista neoliberal 

— também um poderoso processo de homogeneização cultural forçada — 

que produz e reproduz, em escala europeia e planetária, os identity panics 

1. Ver Dominique Vidal, Le ventre est encore fecond. Les nouvelles extrêmes droites européennes. 

Paris: Libertalia, 2012. p. 129-148.

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[pânicos de identidade], a obsessiva procura por fontes e raízes que leva a 

formas chauvinistas de religião, formas religiosas de nacionalismo, além de 

alimentar conflitos étnicos e confessionais.2

Diretamente relacionado a esse processo de hegemonia mundial neo

liberal do capital financeiro há um outro fator importante: a crise econômi

ca que tem despedaçado a Europa desde 2008. Exceto na Grécia e na Espa

nha, essa crise tem em quase todos os lugares favorecido muito mais a 

extrema-direita do que a esquerda radical — diferente da situação europeia 

dos anos 1930, quando em muitos países a esquerda antifascista cresceu 

paralelamente ao fascismo. A extrema-direita atual tem, sem dúvida, se 

beneficiado da crise, particularmente na França. Mas isso não explica tudo: 

na Espanha e em Portugal, dois dos países mais atingidos duramente pela 

crise, a extrema-direita permanece apenas marginal. E na Grécia, apesar de 

a Aurora Dourada ter desfrutado de um crescimento exponencial, ela possui 

muito menos influência do que o Syriza, a coalizão da esquerda radical. Na 

Suíça e na Áustria, dois países em grande parte poupados pela crise, a ex

trema-direita racista muitas vezes fica acima de 20% de apoio. Portanto, 

devemos evitar as explicações exclusivamente economicistas muitas vezes 

apresentadas pela esquerda.

Fatores históricos têm, sem dúvida, jogado algum papel: uma longa 

tradição antissemita espalhada em certos países; a persistência daquelas 

correntes que colaboraram durante a Segunda Guerra Mundial; e a cultura 

colonial que impregna atitudes e comportamentos mesmo muito tempo 

depois da descolonização — não só nos antigos impérios, mas em quase 

todos os países europeus. Todos esses fatores estão muito presentes na  França 

e contribuem para explicar a força do partido de Le Pen, mas são menos 

relevantes em países sem um passado colonial ou fascista, como a Suíça.

A conjuntura internacional, particularmente no Oriente Médio, também 

favorece esse cenário. As agressivas políticas coloniais e expansivas do 

governo israelense nutrem antissemitismo (particularmente entre os jovens 

2. Daniel Bensaïd, Fragments mécréants. Mythes identitaires et République imaginaire. Paris: Lignes, 

2005, passim.

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muçulmanos) mal disfarçado como “antissionismo”, ao passo que o terror 

do Estado islâmico (Daesh) e de outros jihadistas assassinos alimenta a is

lamofobia, pretensamente em nome do “secularismo”. É lógico que não é 

por causa de Netanyahu ou Bin Laden que o racismo e a xenofobia se de

senvolveram na Europa, mas os eventos negativos no Oriente Médio são 

habilmente manipulados pela extrema-direita para promover sua agenda, 

com considerável sucesso. O mesmo se aplica, logicamente, aos ataques 

terroristas na Europa — como os assassinatos recentes dos editores do 

jornal satírico Charlie Hebdo — que são usados como munição pela  direita 

racista para empreender a sua “guerra de civilização” contra os cidadãos 

muçulmanos europeus.

A esquerda como um todo, com apenas algumas exceções, tem severa

mente subestimado esse perigo. Não viu a “onda marrom” vindo e, portanto, 

não viu a necessidade de tomar a iniciativa de uma mobilização antifascista. 

Para algumas correntes da esquerda que veem a extrema-direita como nada 

mais do que um efeito colateral da crise e do desemprego, são essas as causas 

que devem ser atacadas, e não o fenômeno fascista propriamente dito. Tal 

raciocínio tipicamente economicista desarmou a esquerda diante da ofensiva 

ideológica racista, xenofóbica e nacionalista da extrema-direita.

Nenhum grupo social é imune à praga marrom. As ideias da extrema--direita, em particular o racismo, contaminaram uma parte significativa não 

só da pequena burguesia e dos desempregados, mas também da classe tra

balhadora e da juventude. Isto é particularmente notável no caso francês. 

Essas ideias não têm relação nenhuma com a realidade da imigração: o voto 

para a Frente Nacional, por exemplo, foi particularmente alto em certas 

áreas rurais que nunca viram um único imigrante. E os imigrantes ciganos 

[Roma], recentemente objeto de uma campanha racista histérica que deixou 

algumas impressões — com a participação generosa do ministro do Interior 

“socialista” da época, o sr. Manuel Valls — chegam a menos do que 20 mil 

em toda a França.

A análise “clássica” de esquerda sobre o fascismo o explica essencial

mente como um instrumento do grande capital para esmagar a revolução e 

o movimento dos trabalhadores. Com base nessa premissa, algumas pessoas 

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da esquerda argumentam que já que hoje o movimento dos trabalhadores 

está muito enfraquecido e a ameaça revolucionária não existe, o grande 

capital não teria interesse em apoiar movimentos da extrema-direita, de modo 

que o risco de uma ofensiva marrom não existiria. Esta é, uma vez mais, 

uma leitura economicista que não leva em conta a autonomia de nenhum 

fenômeno político. Os eleitores podem, na verdade, escolher um partido que 

não tem o apoio da grande burguesia. Além disso, esse estreito argumento 

econômico parece ignorar o fato de que o grande capital pode acomodar-se 

em todos os tipos de regimes políticos sem muito exame de consciência.

O conceito de “populismo” empregado por certos cientistas políticos, 

mídia e até mesmo por parte da esquerda é totalmente inadequado para 

explicar a natureza da Frente Nacional (ou seus equivalentes na Europa), 

servindo apenas para semear confusão. Na América Latina dos anos 1930 

até os anos 1960, o termo populismo correspondia a algo bem específico: 

governos nacionais populares ou movimentos ao redor de figuras carismá

ticas — Vargas, Perón, Cárdenas —, com amplo apoio popular e uma retó

rica anti-imperialista. Entretanto, o seu uso francês (ou europeu) a partir dos 

anos 1990 é terrivelmente vago e impreciso. Um dos primeiros a usar o 

termo para caracterizar o movimento de Le Pen foi o cientista político P.-A. 

Taguieff, que definiu populismo como “um estilo retórico que está direta

mente ligado com o apelo ao povo”.3 Outros cientistas sociais se referem ao 

populismo como “uma posição política que toma o lado do povo contra as 

elites” — uma caracterização que serve para quase todo partido político ou 

movimento! Quando aplicado à Frente Nacional ou outros partidos europeus 

da extrema-direita, esse pseudoconceito transforma-se em um eufemismo 

enganoso que ajuda — seja deliberadamente ou não — a legitimá-los, tor

nando-os mais aceitáveis ou mesmo atraentes — quem não é a favor do povo 

contra as elites? — enquanto cuidadosamente se evitam os termos pertur

badores racismo, xenofobia, fascismo ou extrema-direita.4 “Populismo” 

3. P.-A. Taguieff, Le populisme et la science politique, Vingtième siècle, 1997. p. 8.

4. Ver o interessante livro de Annie Collovald. Le “populisme du FN”, un dangereux contresens. 

Broissieux: Editions du Croquant, 2004. p. 53 e 113. (Col. Raisons d’agir.)

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também é usado deliberadamente de uma forma mistificadora por ideologias 

neoliberais e pela mídia na França (assim como na Europa), a fim de fazer 

um amálgama entre a extrema-direita, por exemplo, a Frente Nacional, e a 

esquerda radical, por exemplo a Frente de Esquerda, caracterizadas como 

“populismo de direita” e “populismo de esquerda”, já que ambas se opõem 

a políticas neoliberais, “Europa” etc.

Jean-Yves Camus, respeitado cientista político francês, explicava que 

partidos como a Frente Nacional poderiam ser chamados de “populistas” 

enquanto eles “fingem substituir a democracia representante pela democra

cia direta” e opõem o “senso comum popular” contra as “elites naturalmen

te pervertidas”. Esse é um argumento muito equivocado, já que o apelo à 

democracia direta, a crítica da representação parlamentar e das elites polí

ticas é muito mais presente entre os anarquistas e outras correntes políticas 

de extrema-esquerda do que entre a extrema-direita, cujo projeto político 

enfatiza o autoritarismo. Felizmente, Camus, que é um dos melhores espe

cialistas da extrema-direita francesa e europeia, recentemente corrigiu seu 

ponto de vista, argumentando, em 2014, que se deve evitar o emprego do 

termo “populismo”, que tem sido usado “a fim de desacreditar qualquer 

crítica do consenso ideológico neoliberal, qualquer questionamento sobre a 

bipolarização do debate político europeu entre os liberais conservadores, 

qualquer expressão nas urnas do sentimento popular de desafio do mau 

funcionamento da democracia representativa”.5

A utilização por parte de alguns pesquisadores do termo “pós-fascismo” 

para designar a extrema-direita europeia — notadamente a Frente Nacional 

— parece questionável para nós. O prefixo “pós” — por exemplo, “pós--modernismo” — tem dois significados comuns: a passagem de uma época 

histórica e a ruptura com um modo de pensar.

 No caso da Frente Nacional, “pós-fascismo” refere-se, implícita ou 

explicitamente, a duas hipóteses que nos parecem errôneas:

5. Jean-Yves Camus. Extrêmes droites mutantes en Europe. Le Monde Diplomatique, p. 18-19, mar. 

2014.

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1) O fascismo é uma época histórica ultrapassada, a FN se situa em 

um período posterior. É o que afirma, por exemplo, um pesquisador 

como Philippe Milet (cujos trabalhos são geralmente interessantes) 

de forma explícita: “O FN vem depois do fascismo, seu reformis

mo é pós-fascista — ele é segundo o fascismo”.6 No entanto, 

acreditamos que o fascismo não é (foi) uma época, mas um modo 

de organização e uma ideologia política que se manifestou, por 

diferentes formas e por diferentes momentos, bem depois do fim 

do Terceiro Reich.

2) O FN, por suas ideias e suas práticas, teria operado uma ruptura 

com o fascismo. Essa parece ser uma hipótese bastante arriscada, 

que não leva em conta os elementos muito importantes de conti

nuidade entre o lepenismo e sua matriz fascista (petanismo).

Não há nenhuma receita mágica para combater a extrema-direita. 

Devemos nos inspirar — com uma distância crítica apropriada — nas 

tradições antifascistas do passado, mas também devemos saber como 

inovar, a fim de responder às novas formas desse fenômeno. Devemos 

saber como combinar iniciativas locais com os movimentos culturais e 

sociopolíticos unitários solidamente organizados e estruturados, tanto em 

nível nacional quanto em nível continental. Às vezes é possível unir-se 

com o fantasma do “republicanismo”, mas qualquer movimento antifas

cista só será eficaz e crível se for motivado por forças situadas fora do 

consenso neoliberal dominante. Isso significa uma luta que não pode ser 

limitada dentro das fronteiras de um único país, mas deve ser organizada 

em termos de Europa como um todo. A luta contra o racismo, bem como 

a solidariedade com as suas vítimas, é um dos componentes essenciais 

dessa resistência. Ainda não é tarde demais para impedir “a resistível 

ascensão de Arturo Ui” (para citar a conhecida peça de teatro antifascis

ta por Bertolt Brecht).

6. J. P. Milet. L’extrême droite pour tous. Lignes, p. 55; grifos do autor.

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Conservadorismo e extrema-direita no Brasil

Não vou me estender sobre o conservadorismo e a extrema-direita no 

Brasil porque as colegas que falarão depois de mim o farão, com muito mais 

competência do que eu. Limitar-me-ei a algumas sugestões comparando os 

fenômenos europeus com o Brasil.

1) Enquanto na Europa existe, em vários países, uma continuidade 

política e ideológica entre movimentos neofascistas atuais e o fas

cismo clássico dos anos 1930, isso não ocorre no Brasil. O fascis

mo brasileiro, o integralismo, chegou a ter bastante peso nos anos 

1930, inclusive influenciando o golpe do Estado Novo, em 1938. 

Mas a extrema-direita brasileira atual tem pouca relação com essa 

matriz antiga; grupos neofascistas existem, porém são marginais. 

Nada comparável com a Aurora Dourada grega ou a Frente Nacio

nal francesa.

2) Não existem no Brasil, como no Europa, partidos de massa tendo o 

racismo como sua principal bandeira. Claro, o Brasil está longe de 

ser uma democracia racial, e um racismo difuso está bastante pre

sente na sociedade. Porém, um partido brasileiro que tentasse fazer 

do racismo seu programa principal nunca teria 25% dos votos como 

na França...

3) O tema da luta contra a corrupção não é específico da extrema-di

reita, mas tem sido demagogicamente manipulado, com certo su

cesso, por setores conservadores, na Europa e, sobretudo, no Brasil. 

No Brasil é uma velha tradição, desde os anos 1940, dos conserva

dores: levanta-se a bandeira do combate à corrupção para justificar 

o poder das oligarquias tradicionais e, segundo o caso, legitimar 

golpes militares.

4) O que é comparável na extrema-direita francesa e brasileira são dois 

temas de agitação sociocultural do conservadorismo mais reacionário:

I. A ideologia repressiva, o culto da violência policial, o chamado 

a restabelecer a pena de morte: é o caso na Europa da extrema

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-direita e no Brasil da “bancada da bala”, fortemente representa

da no Congresso.

II. A intolerância com as minorias sexuais, em particular os homos

sexuais. É um tema agitado, com certo sucesso, por setores reli

giosos, com referência católica (Opus Dei, Civitas etc.) na 

França e evangélica neopentecostal no Brasil.

5) O elemento mais preocupante da extrema-direita conservadora no 

Brasil, que não tem um equivalente direto na Europa, é o apelo aos 

militares. O chamado a uma intervenção militar, o saudosismo da 

ditadura militar, é sem dúvida o aspecto mais sinistro e perigoso da 

recente agitação de rua conservadora no Brasil, ativamente promo

vido pelo PIG, o Partido da Imprensa Golpista.

Certo, já não estamos no período da Guerra Fria, em que se sucederam 

os golpes militares na América Latina, patrocinados pelo imperialismo 

americano. Mas não podemos esquecer que houve tentativas golpistas na 

Venezuela, na Bolívia e no Equador. Pior do que isso: muito recentemente, 

golpes de Estado pseudolegais, com cobertura parlamentar, tiveram lugar, 

com sucesso, em Honduras e no Paraguai.

Gostaria de concluir propondo uma pista de reflexão: o sistema capi

talista, sobretudo nos períodos de crise, produz e reproduz fenômenos 

como o fascismo, o racismo, os golpes de Estado e as ditaduras militares. 

A raiz desses fenômenos é sistêmica e a alternativa tem de ser radical, isto 

é, antissistêmica. Em vários países da América Latina está colocada a 

discussão sobre uma alternativa anti-imperialista e anticapitalista: o socia

lismo do século XXI. Isto é um socialismo que supera os limites dos 

movimentos socialistas do século passado — o compromisso social-de

mocrata com o sistema e a degeneração burocrática do chamado “socia

lismo real” —, mas recupera as bandeiras revolucionárias latino-america

nas, de Simón Bolívar a Ernesto Che Guevara, de José Martí a Farabundo 

Martí, de Emiliano Zapata a Augusto César Sandino, de Zumbi dos Pal

mares a Chico Mendes.

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Siglasdu Centre

NSDAP: Partido Nazista (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei)

FPÖ: Partido da Liberdade Austríaco

FN: Frente N. O artigo  do autor Michael Löwy  Diretor de Pesquisas emérito do Centre National de la Recherche SUDC: Union Democratique 


A constituição da Alemanha é chamada oficialmente de Lei Fundamental da República Federal da Alemanha.  Algo que a extrema direita no mundo sempre rejeita .


E assim caminha a humanidade.

Imagem do Portal G1 da Rede Globo.