domingo, 20 de setembro de 2026

Muito Triste .

            A expressão "negação dos poderes da República nas eleições de 2018" contextualiza um período de forte tensionamento institucional no Brasil, caracterizado pelo questionamento da legitimidade e das funções das autoridades que compõem os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.Esse fenômeno manifestou-se de três formas principais durante o pleito de 2018:1. Crise de Legitimidade e Ataques ao JudiciárioO Poder Judiciário — especialmente o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — foi o principal alvo de contestações.O veto à candidatura de Lula: A decisão do TSE de barrar o registro de candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com base na Lei da Ficha Limpa foi classificada por seus apoiadores como uma interferência política indevida do Judiciário sobre o processo democrático.Discurso antissistema e urnas eletrônicas: Candidatos da ala mais conservadora e à direita, notadamente a campanha de Jair Bolsonaro, iniciaram uma retórica pública de desconfiança em relação à neutralidade da Justiça Eleitoral e à confiabilidade das urnas eletrônicas. Declarações de que o sistema poderia ser fraudado infloraram uma postura de negação à autoridade do TSE.2. Discurso "Antissistema" contra o Legislativo e ExecutivoAs eleições de 2018 foram marcadas pela rejeição à política tradicional. Abalados pelas revelações da Operação Lava Jato e pelo impeachment de 2016, os poderes Legislativo (Congresso Nacional) e Executivo enfrentaram uma profunda crise de representatividade.Discursos de campanha frequentemente retratavam o funcionamento do Congresso e os acordos partidários como inerentemente corruptos.Essa negação da política institucional gerou uma forte onda de renovação parlamentar e impulsionou candidatos que se posicionavam "fora do sistema".3. Escalada da Violência e Alerta ConstitucionalA polarização extremada e a negação mútua da legitimidade entre espectros políticos resultaram em uma escalada de violência física e verbal. Na reta final daquele outubro, o então presidente do STF, ministro Dias Toffoli, veio a público afirmar que "atacar o Poder Judiciário é atacar a democracia", reagindo ao clima de ameaças direcionadas à integridade da Corte e dos ministros.DesdobramentosHistoriadores e cientistas políticos apontam que a negação e o desgaste dos Poderes da República observados em 2018 não se encerraram no pleito. Eles funcionaram como a base retórica para os conflitos institucionais dos anos seguintes, culminando em episódios de hostilidade democrática mais severos ao longo das gestões subsequentes.

O Governo Bolsonaro e a  

Conjuntura Política Pré-Eleitoral

Fernando Guarnieri 

Argelina Figueiredo

Resumo

Nas eleições presidenciais de 2018, o espaço político brasileiro se 

tornou bidimensional. Menos por conta de mudanças nas preferências 

do eleitorado e mais por uma estratégia de campanha bem-sucedida de 

Jair Bolsonaro. Sua campanha deu saliência à dimensão sociocultural, 

que agrega temas como identidade de gênero, igualdade racial, “lei e or

dem”, entre outros, que passou a ter o mesmo peso na decisão do voto 

que a dimensão econômica, que dominou o debate durante as déca

das de 1990 e 2000. Se a introdução de uma nova dimensão favoreceu 

Bolsonaro nas eleições, ela fez com que entrasse em conflito com um 

legislativo institucionalmente unidimensional. Neste artigo mostramos 

como esse conflito levou à configuração de forças que disputarão as elei

ções de 2022.

Abstract

In the 2018 presidential elections, the Brazilian political space has 

become two-dimensional. Less because of changes in voter preferences 

and more because of a successful campaign strategy by Jair Bolsonaro. 

His campaign gave salience to the sociocultural dimension, which ag

gregates themes such as gender identity, racial equality, “law and order,” 

9

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

among others, which now has the same weight in the voting decision as 

the economic dimension, which dominated the debate during the 1990s 

and 2000s. If the introduction of a new dimension favored Bolsonaro in 

the election, it brought him into conflict with an institutionally unidi

mensional legislature. In this article we show how this conflict led to the 

configuration of forces that will contest the 2022 elections.

Introdução

Em seu discurso de posse, o presidente recém-eleito Jair Bolsonaro 

pregava “um verdadeiro pacto nacional entre a sociedade e os 

Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário”, ao mesmo tempo afirma

va que se pautaria pela “vontade soberana” daquele “movimento cívi

co, [que] cobriu-se de verde e amarelo, tornou-se espontâne[o], forte e 

indestrutível, e nos trouxe até aqui”1. Falava em contar com o apoio do 

Congresso Nacional à sua agenda e prometia valorizar o parlamento, 

mas também falava no “chamado das ruas” e em colocar “o Brasil acima 

de tudo e Deus acima de todos”. 

Esse discurso, contrapondo as “ruas” ao sistema político, revelava a 

tensão básica que marcaria sua gestão, tensão essa que o levou a oscilar 

entre o conflito e a cooperação com os demais poderes durante todo seu 

governo, predominando o conflito com recuos estratégicos que lhe per

mitiam ganhar fôlego para uma nova agressão e cuja solução desenhou 

o cenário em que se desenrolarão as próximas eleições.

Bolsonaro se elegeu atacando a política e os políticos tradicionais e 

defendendo uma pauta ultraconservadora, mas para aprovar sua agen

da dependia do apoio do Congresso majoritariamente formado por po

líticos tradicionais que, embora de perfil conservador, não eram, na mé

dia, tão conservadores quanto ele e sua base.

O discurso de posse pode ser acessado em https://www1.folha.uol.com.br/poder/ 

2019/01/leia-a-integra-do-discurso-de-bolsonaro-na-cerimonia-de-posse-no

congresso.shtml (último acesso em 14/04/2022).

10

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

Para governar e aprovar sua agenda de alteração do status quo, 

Bolsonaro, como outros governantes minoritários, deveria formar uma 

coalizão legislativa ou uma coalizão de governo2. No primeiro caso ele 

buscaria o apoio de outros partidos sem que estes viessem a fazer parte 

do governo ou então, o que está mais próximo do que se passou, busca

ria conseguir o apoio de parlamentares individualmente à sua agenda, 

apoio este que dependeria totalmente da distribuição de preferências 

no legislativo. Isso permitiria que ele montasse sua equipe “de forma 

técnica, sem o tradicional viés político que tornou o Estado ineficiente e 

corrupto”3. Para conseguir esse apoio, Bolsonaro teria que modificar sua 

agenda, tornando-a mais palatável aos partidos e congressistas corteja

dos. Em outras palavras, para evitar o “viés político”, Bolsonaro deveria 

flexibilizar sua agenda ultraconservadora. 

Para preservar sua agenda e conseguir alterar o status quo, Bolsonaro 

poderia formar uma coalizão de governo, oferecendo pastas ministeriais 

aos partidos aliados. Esses partidos aceitariam políticas mais próximas 

ao ponto ideal do presidente em troca de poder participar da gestão. A 

base bolsonarista veria sua agenda sendo implementada em parte, mas 

teria que aceitar a coabitação com políticos tradicionais.

Uma terceira alternativa seria abrir mão de alterar o status quo, 

isto é, Bolsonaro poderia limitar sua agenda radical à atuação interna 

de seus ministérios, governando por decreto. Poderia culpar o sistema 

por abrir mão da “missão de restaurar e de reerguer nossa pátria”. Deste 

modo, Bolsonaro poderia manter seu discurso antissistema, colocar a 

A diferença entre coalizões legislativas e de governo é apontada, entre outros, por 

José Cheibub (2007:17) que chama atenção para o fato de que a ausência de uma 

coalizão de governo, isto é, a participação dos membros da coalizão no ministé

rio, não implica automaticamente a falta de cooperação entre executivo e legisla

tivo. Diferentes partidos, de acordo com suas posições, podem apoiar agenda do 

governo sem coordenação entre eles, o que configura uma coalizão legislativa. 

Por ex. o FHC não precisou incorporar na coalizão os pequenos partidos de di

reita, porque eles já votavam favoravelmente os principais pontos da agenda do 

governo. O que não ocorreu com Lula e Dilma.

Discurso de posse, ver nota 1.

11

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

culpa nos outros poderes por suas omissões e contentar sua base ao li

vrar o país das “amarras ideológicas” no âmbito da administração pú

blica. Por outro lado, correria o risco de se isolar e entrar em conflito 

com as demais forças políticas, o que poderia custar sua própria sobre

vivência política.

Nas próximas seções pretendemos mostrar que Bolsonaro adotou 

estas três estratégias em diferentes momentos de seu mandato e que es

sas estratégias definiram as alianças políticas em torno das quais a dis

puta eleitoral de 2022 se dará. A ênfase na atuação do presidente como 

fator explicativo da dinâmica eleitoral se deve à premissa de que a corri

da presidencial estrutura as demais disputas4. Veremos que os protago

nistas dessa disputa surgem da reação às estratégias de Bolsonaro, vere

mos como, uma vez definidos os protagonistas, as alianças nos estados 

foram forjadas e, por fim, o que esperar das próximas eleições.

Antecedentes: Agenda governamental  

e competição eleitoral

A competição eleitoral no Brasil obedece de forma rigorosa a Lei 

de Duverger (DUVERGER,1980[1951], GUARNIERI, 2015). As dispu

tas majoritárias têm um efeito redutor no número de competidores e 

temos quase sempre entre dois e três candidatos viáveis. Nas disputas 

proporcionais, a fragmentação partidária é favorecida pela combinação 

de distritos com magnitude alta, a proximidade com as eleições majori

tárias e um território vasto e heterogêneo5. A esses fatores, soma-se a 

possibilidade de coligações eleitorais6. 

A ideia de que a disputa nacional no Brasil estrutura as demais pode ser encon

trada em autores como Melo (2010), Limongi (2010) e Borges (2015). Fora do 

Brasil, essa ideia já estava presente em trabalhos como o de Schlessinger (1965).

Sobre os efeitos do sistema eleitoral no sistema partidário ver Odershook e Shve

tsova (1994), Amorim Neto e Cox (1997) e Cox (1997).

Sobre o impacto das coligações na fragmentação ver Calvo et al. (2015) e Limongi 

e Vasselai (2018).

12

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

As disputas majoritárias, em todos os níveis da federação, se dão sem

pre entre dois blocos. Os protagonistas são aqueles que, por motivos his

tóricos, possuem uma massa de eleitores fiéis e/ou que oferecem políticas 

mais próximas à preferência da maioria dos eleitores. Partidos desprovi

dos destes dotes se dividem no apoio a um ou outro destes protagonistas.

Se as regras eleitorais levam a disputas bipartidárias, um espaço 

ideológico unidimensional gera um equilíbrio com os dois partidos pro

pondo políticas próximas ao ponto ideal do eleitor que ocupa a posição 

mediana neste espaço (DOWNS, 2013[1957]). No Brasil, até as eleições de 

2018, essa dimensão única dizia respeito ao papel do Estado como indu

tor do desenvolvimento, com o PSDB como defensor de políticas fiscais 

mais contracionistas e o PT com políticas mais expansionistas.

Enquanto a disputa no Brasil se manteve unidimensional, esses dois 

partidos dominaram o cenário e as alianças se davam em torno deles. O 

PT dominou a esquerda desta dimensão, enquanto a direita foi domina

da pelo PSDB. Os dois partidos se alteraram no poder adotando políticas 

que se diferenciavam mais em grau.

Em política, todo equilíbrio é instável7. Esta instabilidade cria opor

tunidades estratégicas para os atores. Para um desafiante quebrar um 

duopólio uma estratégia é a introdução de uma nova dimensão no es

paço da competição política8. Nas eleições de 2018, Bolsonaro fez exata

mente isso ao ativar no eleitorado a saliência da dimensão sociocultural9. 

William Riker (1980) defendia que o desequilíbrio era inerente ao sistema eleito

ral majoritário. Esse desequilíbrio seria explorado por políticos hábeis. A análise 

das estratégias empregues por esses políticos ficou conhecida com herestética. 

Elmer Schattschneider (1975), mostrou a vantagem estratégica da introdução de 

novas questões, ou dimensões, na política. A saliência destas questões e seu im

pacto no voto é objeto de estudo na ciência política desde o clássico Voting de 

Bereslson et al. (1986[1954]). O impacto da introdução de novas dimensões na 

competição entre partidos é explorada por Roemer (2009).

O caráter multidimensional da política e, mais especificamente, a emergência de 

uma dimensão “sociocultural”, que combina a pauta conservadora com um nati

vismo e a valorização da ordem, é objeto de estudo principalmente na Europa 

que tem isto o crescimento de partidos, principalmente de extrema direita, que 

salientam esta dimensão. Ver a respeito Evans et al (2013).

13

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

Isso pode ser visto ao se examinar o voto dos evangélicos. Enquanto 

nas eleições de 2010 e 2014 não havia diferença estatisticamente sig

nificativa em como esse segmento se dividia entre PT e PSDB, em 2018 

o grosso do voto evangélico foi para Bolsonaro. Em outras palavras, 

se nas eleições de 2010 e 2014 a religião não era tão bom preditor de 

voto, em 2018 ela passou a ser, o que indica a relevância da dimensão 

sociocultural.

Bolsonaro vence as eleições de 2018 roubando votos do PSDB, com 

uma pauta liberal na economia e conservadora nos costumes. No seu 

discurso de posse termos como “ideologia de gênero”, “ordem”, “mé

rito”, “crise moral” apareciam com tanta frequência quanto “sustenta

bilidade das contas públicas”, “reformas estruturantes”, “confiança” e 

“produtividade”. 

O aumento da saliência da dimensão sociocultural também mexeu 

com o equilíbrio das eleições estaduais, tanto para governador quando 

para o Senado. Treze partidos elegeram governadores contra nove em 

2014, com partidos outrora nanicos, como PSL e PSC, conquistando cin

co estados. No Senado, dos 32 candidatos a reeleição apenas oito foram 

eleitos e o número de partidos com cadeiras na casa saltou de 18 em 2014 

para 22 em 2018.

Nas eleições para a Câmara dos Deputados a renovação também 

foi alta com 244 candidatos reeleitos, o que significa 47,56% do to

tal de deputados. Destes, 141 eram estreantes. Os partidos que mais 

cresceram foram aqueles com políticas na dimensão sociocultural, 

como o PSL, que passou de 8 para 52 deputados e o PRB que subiu de 

21 para 30.

As eleições de 2018 premiaram a estratégia bolsonarista de dar 

saliência à dimensão sociocultural. O Brasil teria dobrado à direita 

(NICOLAU, 2020). Um novo equilíbrio em torno de um eleitor/legisla

dor mediano conservador/liberal em um espaço bidimensional teria se 

imposto. Para governar, bastaria a Bolsonaro adotar políticas no ponto 

ideal deste eleitor/legislador. Mas, não custa lembrar, na política todo 

equilíbrio é instável.

14

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

O Governo minoritário e os superministros

Eleito, Bolsonaro nomeia 22 ministros sem negociar com partidos. 

Dois deles, o ex-juiz Sérgio Moro e o banqueiro Paulo Guedes, são 

tratados pelo presidente como superministros e demonstrariam o ca

ráter técnico do novo ministério, a ausência de “viés político”. Os dois 

superministros também corporificam o caráter bidimensional da agen

da do presidente ao ficarem responsáveis pelas duas agendas que domi

nariam o primeiro ano de mandato de Bolsonaro, a Lei Anticrime de 

Moro e a Reforma da Previdência de Guedes.

Essas propostas deveriam passar pelo Congresso que, como vimos, 

teve alguma renovação, mas continuava dominado por políticos tradi

cionais. Na Câmara aproximadamente dois terços dos deputados já ha

viam exercido mandatos ou função pública. No Senado a renovação se 

limitou a 24 das 81 cadeiras. Esses políticos mais tradicionais fizeram 

carreira em um espaço político unidimensional apoiando a pauta eco

nômica do superministro à qual ela havia sido terceirizada, e se sentiam 

ameaçados pela nova pauta sociocultural (e também em parte com a 

presença de Sérgio Moro no governo) em que eram vistos com espe

cial desconfiança. Esses políticos elegeram as mesas diretoras da casa 

na nova legislatura que se iniciava junto com o mandato de Bolsonaro.

A Câmara dos Deputados elegeu Rodrigo Maia para exercer pela 

terceira vez o cargo de presidente da casa. Na sua primeira eleição para 

o cargo, Maia disputou a vaga com Rogério Rosso que representava um 

grupo de deputados que se unira em torno do embate do ex-presidente 

da casa, Eduardo Cunha, e a ex-presidente da república, Dilma Roussef, 

embate esse que levou ao impeachment de Dilma. Esse grupo de depu

tados que apoiava Cunha ficou conhecido como “centrão”.

Após derrotar o Centrão em 2016, Maia teve um papel impor

tante na aprovação da pauta econômica do presidente tampão Michel 

Temer10. Maia procurou avançar uma reforma política que propunha 

10 Teto dos Gastos, a Reforma Trabalhista e a renegociação da dívida dos Estados.

15

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

medidas que fortaleciam o poder dos partidos tradicionais e, ao mesmo 

tempo, pautou medidas que limitavam a agenda da “lei e da ordem”, 

sintetizada na operação Lava Jato que atingia cada vez mais lideranças 

políticas tradicionais11, que garantiram a Maia o terceiro mandato em 

2019.

O governo Bolsonaro, assim como não negociou cargos ministeriais 

com os partidos, também não interveio na disputa pela Câmara. Como 

era de se esperar, Rodrigo Maia não bloqueou os projetos do governo 

na área econômica que se alinhavam à preferência dele e da maioria 

dos deputados. A reforma da previdência, principal ponto da agenda 

econômica de Bolsonaro no seu primeiro ano de mandato, ilustra bem 

isso. Maia se tornou o principal articulador da proposta do executivo na 

Câmara e conseguiu bem mais do que os três quintos dos votos da casa 

para aprová-la. O fato da proposta do governo ter sofrido emendas que 

levaram a uma diluição no seu impacto nas contas públicas, o que gerou 

algum atrito entre Maia e o superministro Paulo Guedes, não signifi

cava uma derrota do governo, mas sim a manifestação de um protago

nismo do legislativo que, apenas nos resultados, se assemelhava a uma 

coalizão legislativa.

Também como era de se esperar, a agenda da “lei e da ordem” pro

posta pelo executivo e que tomou forma no chamado “pacote anticri

me”, iniciativa do superministro Sérgio Moro, expoente maior do lava

jatismo, sofreu a resistência de Maia. Usando seu poder de agenda, no 

lugar de enviar a proposta para comissões, Maia formou um grupo de 

trabalho para apreciá-la, o que, na prática, era uma maneira de adiar 

sua tramitação. Esse grupo de trabalho acabou por substituir partes im

portantes do texto por um texto menos “punitivista” de autoria do ex

ministro da justiça e, na época, ministro do Supremo Tribunal Federal, 

11 Ao mesmo tempo que aprovava a cláusula de barreira e o fim das coligações, o 

que prejudicava pequenos partidos que, em geral, também eram os mais ideoló

gicos, Maia foi o maior responsável pelo abrandamento do pacote anticorrupção 

de iniciativa do Ministério Público que tramitou na Câmara em 2016. Essas me

didas favoreciam partidos e políticos dos grandes partidos tradicionais.

16

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

Alexandre de Moraes. Se no caso da reforma da previdência o texto do 

superministro Paulo Guedes foi apresentado na íntegra para que os de

putados pudessem “melhorá-lo”, no caso do pacote anticrime os pontos 

mais importantes para o superministro Sérgio Moro foram retirados 

do texto pelo grupo de trabalho, fora da tramitação normal, com pouca 

possibilidade dos aliados do governo reverterem a situação.

A capacidade do presidente da Câmara de decidir o andamento da 

agenda legislativa do executivo e, em especial, a capacidade de Maia em 

bloquear a pauta sociocultural, fez com que a relação entre os dois po

deres ficasse tensa. Ficava claro para o presidente que ele não consegui

ria construir uma coalizão majoritária no legislativo em torno de toda 

sua agenda. Por mais que o executivo ainda dominasse a produção legis

lativa, sendo responsável por 70% da legislação aprovada, projetos caros 

a Bolsonaro, como a flexibilização do comércio e porte de armas, não 

pareciam ter chance de caminhar no Congresso.

Após 100 dias de governo Bolsonaro mostrou como pretendia re

solver o conflito. Em reunião entre os chefes dos três poderes, disse que, 

apesar de Rodrigo Maia fazer as Leis, ele, Bolsonaro, tinha “com a cane

ta, muito mais poder” pois teria o poder de fazer decretos. Sua solução 

era desistir de vez das negociações com o congresso e executar sua pauta 

mais radical unilateralmente, por meio destes decretos.

Governando por decreto e com as ruas

No evento comemorativo dos 100 dias de governo, no clímax do 

conflito com o presidente da Câmara, Bolsonaro assinaria 18 de

cretos12 relacionados a metas estabelecidas no começo da gestão. Entre 

os temas contemplados estava a limitação da participação da sociedade 

civil em colegiados de monitoramento e controle da gestão pública, o 

12 Nos referimos aos atos normativos do presidente que tem caráter administrativo 

e que não passam pelo Congresso, embora possam ser anulados por decretos le

gislativos. Não confundir com Medidas Provisórias.

17

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

“ensino domiciliar” e a autonomia do banco central. A esses seguiram

se nos dias seguintes, decretos para facilitar a comercialização e porte 

de armas, para permitir maior controle de nomeações para cargos do 

governo, o que daria controle ao presidente sobre a nomeação de di

rigentes das universidades públicas federais, entre mais de 300 outros 

decretos.

Alguns desses decretos foram derrubados pelo Congresso. 

Conforme Rodrigo Maia “alguns decretos derrubamos porque ele 

[Bolsonaro] queria governar por decreto. Derrubamos para mostrar 

para o presidente que Câmara e Senado não admitiriam que ele ocu

passe a nossa função”13. Outros foram derrubados por ações junto ao 

Supremo Tribunal Federal.

Uma estimativa do Observatório do Legislativo Brasileiro14 mostra 

que Bolsonaro, em oito meses de governo, assinou 2,5 vezes mais de

cretos do que Dilma e 1,3 vezes mais decretos do que Lula, no mesmo 

intervalo de tempo. O Congresso, que não questionou nenhum dos de

cretos de Dilma, viu serem propostos 15 vezes mais decretos legislativos, 

instrumento usado para invalidar atos do executivo, durante o governo 

Bolsonaro do que durante o governo Lula.

O número de Ações Diretas de Inconstitucionalidade e Arguições 

de Descumprimento de Preceito Fundamental, propostas por partidos 

políticos contra atos do executivo subiram de 7 em 2017, para 17 em 

2019 e 37 em 2020. De 81 ações desse tipo recebidas pelo STF entre 2000 

e 2020, dois terços foram iniciados durante os dois primeiros anos de 

mandato de Bolsonaro.

O embate entre executivo e demais poderes, que deixara de se dar 

por meio do diálogo e negociação, acabou por ganhar as ruas. Em maio 

de 2019 milhares de pessoas saem às ruas por todo o Brasil contra cortes 

na educação propostos pelo Ministério da Educação. Dias depois mani

13 Ver https://www.metropoles.com/brasil/politica-brasil/rodrigo-maia-ele-bolso

naro-queria-governar-por-decreto, (acessado pela última vez em 15/04/2022)

14 Ver https://olb.org.br/o-que-a-guerra-de-decretos-diz-sobre-a-relacao-entre

congresso-e-executivo/ (acessado pela última vez em 15/04/2022)

18

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

festações pró-Bolsonaro também ganham as ruas, apoiando a reforma 

da previdência, o pacote anticrime, a Lava Jato e o superministro Sérgio 

Moro, além de fortes críticas a Rodrigo Maia, ao “centrão” e a membros 

do STF, como Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.

O embate nas ruas se reflete nas redes sociais onde membros do 

“núcleo duro” do governo, formado pelos filhos do presidente, por as

sessores ligados às forças armadas e pela ala “olavista”15, passam a ata

car diretamente o Congresso, o STF e a flertar com soluções autoritárias 

como a proposta do uso de um “novo AI-5”16 feita pelo deputado fe

deral Eduardo Bolsonaro para combater novas manifestações contra o 

governo.

No final de seu primeiro ano de mandato, Bolsonaro parecia perder 

o embate com os demais poderes. O apoio das ruas não fora tão massivo 

quanto o esperado por ele e, temendo a radicalização, atores importan

tes para a sua chegada ao poder se recusaram a participar das manifes

tações de maio, mostrando divisões na sua base social de apoio. Rachas 

no interior do governo, que levaram à saída de importantes ministros 

se tornaram cada vez mais frequentes. No final do ano Bolsonaro deixa 

o PSL, partido pelo qual se elegeu e fica sem partido. Surgem denúncias 

contra seus filhos e o superministro Sérgio Moro é suspeito de abuso de 

autoridade nos processos da Lava Jato, após áudios de diálogos dele com 

promotores terem se tornado públicos.

Com sua agenda ainda bloqueada, Bolsonaro vê sua militância e a si 

mesmo cada vez mais acuados por ações do judiciário. O STF abrira in

quérito contra ataques à corte e seus ministros feitas por parlamentares, 

empresários e blogueiros ligados a Bolsonaro. A relatoria do inquérito 

15 Ministros indicados por Olavo de Carvalho como Ricardo Vélez e Abraham 

Weintraub, na Educação e Eduardo Araújo nas Relações Exteriores.

16 O Ato Institucional nº 5 foi o mais duro instituído pela ditadura militar, em 1968, 

ao revogar direitos fundamentais e delegar ao presidente da República o direito 

de cassar mandatos de parlamentares, intervir nos municípios e Estados. Tam

bém suspendeu quaisquer garantias constitucionais, como o direito a habeas 

corpus.

19

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

coube ao ministro Alexandre de Moraes, o mesmo cujas propostas de 

reforma à legislação criminal foram usadas pela Câmara dos Deputados 

no lugar do pacote anticrime de Sérgio Moro.

Entre os investigados por Moraes estava membros do chamado 

“gabinete do ódio” estrutura montada no Palácio do Planalto para ata

car opositores ao governo fabricando e disseminando informações fal

sas e caluniosas. O chefe deste gabinete seria Carlos Bolsonaro, verea

dor carioca e filho do presidente. Além de se aproximar da família de 

Bolsonaro, as investigações de Moraes se relacionavam com as investi

gações do Tribunal Superior Eleitoral que poderiam levar à cassação da 

chapa que elegeu Bolsonaro.

O cerco da justiça a Bolsonaro e seus filhos levaram à saída de 

Sérgio Moro do governo. Moro se recusava a interferir nas investiga

ções da Polícia Federal sobre o senador Flávio Bolsonaro17. O presidente 

Bolsonaro passa por cima de seu superministro, primeiro substituin

do o superintendente da PF do Rio de Janeiro, responsável direto pelas 

investigações e, depois, o próprio diretor-geral da PF. Perdeu uma das 

principais estrelas de seu governo e, ainda, não consegue emplacar o 

seu nome preferido para o comando da Polícia Federal, pois o ministro 

Alexandre de Moraes acatou ação do PDT suspendendo a nomeação. Ao 

sair do governo, Moro acusa Bolsonaro de interferência política na PF. A 

acusação fez com que fosse aberta mais uma investigação no STF contra 

o presidente.

Enquanto Bolsonaro se enfraquecia e via a rejeição ao seu gover

no aumentando18, o Congresso se fortalecia. O presidente da Câmara, 

Rodrigo Maia, diante da omissão do executivo toma a inciativa de pau

tar as reformas tributária e administrativa. O congresso também aprova 

17 A PF do Rio de Janeiro investigava movimentações financeiras atípicas de sena

dor Flávio Bolsonaro quando era deputado estadual, suspeitas de serem fruto da 

apropriação de parte do salário de seus assessores à época.

18 Segundo o instituto Datafolha a proporção de pessoas que desaprovavam o go

verno, considerando-o ruim ou péssimo, passou de 30% nos primeiros três meses 

de governo para 48% após a saída de Moro.

20

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

o orçamento impositivo para as emedas parlamentares de bancada, au

mentando a autonomia do legislativo frente ao executivo e engessando 

quase totalmente o orçamento federal.

A este quadro de tensão entre os três poderes veio se somar a chega

da do novo coronavírus ao país. Enquanto a OMS decretava a pandemia 

e aconselhava os países a adotar o distanciamento social, Bolsonaro, te

mendo se enfraquecer ainda mais com os impactos do distanciamento 

na economia, minimizou a gravidade da doença causada pelo vírus di

zendo se tratar de “gripezinha” e caracterizou medidas de governadores 

para conter a disseminação como “histeria”.

Com essas declarações, e com atitudes como aconselhar o uso de 

medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença, Bolsonaro 

entrou em choque com seu ministro da Saúde, que acabou demitido, e 

com diversos governadores. A tentativa de Bolsonaro, de bloquear ações 

dos estados para evitar a disseminação da doença, só não foi bem-suce

dida pela intervenção do STF a favor dos últimos.

Cada vez mais isolado e impopular, Bolsonaro apela a seu núcleo 

mais fiel e participa de mais manifestações contra o distanciamento 

social e a obrigatoriedade do uso de máscaras. Nestas manifestações o 

Congresso e o STF são, mais uma vez, atacados e pede-se a volta do regi

me militar e do AI-5.

O radicalismo da base bolsonarista reflete o radicalismo do próprio 

governo. Em um vídeo de uma reunião do “conselho de governo” da 

Presidência, peça de acusação nas investigações do STF sobre a inter

venção de Bolsonaro na PF, aparecem ministros defendendo o fecha

mento da corte. O mais exaltado era o ministro da educação Abraham 

Weintraub , um dos mais fortes expoentes do “bolsonarismo raiz”, que 

acaba demitido. Em vídeo anunciando sua demissão Weintraub aparece 

ao lado de Bolsonaro que comenta:

É um momento difícil. Todos os meus compromissos de campanha conti

nuam de pé. Busco implementá-lo da melhor forma possível. A confiança 

você não compra, você adquire. Todos que estão nos ouvindo agora são 

21

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

maiores de idade, sabem o que o Brasil está passando. E o momento é de 

confiança. Jamais deixaremos de lutar por liberdade. Eu faço o que o povo 

quiser19.

Coalizão de Governo e a “velha política”

Cada vez mais isolado após ter decidido governar por decretos, 

Bolsonaro resolve dar uma guinada na sua estratégia política, so

mando às suas diatribes, negociações com os partidos do “centrão”, 

principalmente o PP, PL e Republicanos.

Em um primeiro momento, Bolsonaro abre o governo para a parti

cipação destes partidos no segundo e terceiro escalões, mas, em março de 

2021, a coalizão se concretiza com três ministros indicados pelo “centrão”, 

entre eles dois ministros do “núcleo duro”: Ciro Nogueira para a Casa 

Civil e Flávia Arruda para a Secretaria-Geral da Presidência, ambos do PP.

Bolsonaro também decide, desta vez, interferir na eleição da mesa 

da Câmara. Com o comando das articulações políticas nas mãos de um 

partido tradicional e utilizando métodos tradicionais, como a liberação 

de emendas, Bolsonaro enfim vence, ajudando a eleger, para a presidên

cia da Câmara, seu candidato preferido, o deputado Arthur Lira do PP, e 

derrotando o candidato de Rodrigo Maia, Baleia Rossi, do MDB.

A entrada do “centrão” no governo, com o necessário afrouxamen

to da política fiscal para acomodá-lo, afastou boa parte da ala liberal do 

governo, lotada no ministério da economia, enfraquecendo o último 

dos superministros, Paulo Guedes. Também enfraqueceu a ala “bolso

narista raiz” com a saída do contencioso ministro das relações exteriores 

Eduardo Araújo. 

O enfraquecimento dos expoentes das dimensões sociocultural e 

econômica e o recurso a políticos e políticas tradicionais, mostra que 

19 Recuperado de https://extra.globo.com/noticias/brasil/sem-citar-caso-queiroz-bolsonaro-diz-em-video-de-saida-de-weintraub-que-momento-difi

cil-24486454.html (último acesso em 15/04/2022)

22

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

não se tratava de uma coalizão para implementar a pauta do governo, 

mas sim para evitar que Bolsonaro, isolado, acabasse vítima de um dos 

vários pedidos de impeachment que deram entrada na Câmara.

O custo da “coalizão de sobrevivência” se fez sentir na proporção 

de pessoas que avaliavam o governo Bolsonaro como ruim ou péssimo 

que atinge seu pico no final de 2021 como consequência das denún

cias de omissão e suspeitas de corrupção na compra de vacinas con

tra o coronavírus, feitas pela CPI da Covid. Nem renovados ataques de 

Bolsonaro ao STF e à urna eletrônica, que beiram a ruptura institucio

nal, e nem a criação do “Auxílio Brasil” atenuam a péssima avaliação, 

embora mantenham uma substancial proporção de apoiadores em tor

no de 30%.

Ao mesmo tempo, graças às revelações das conversas de Sérgio 

Moro com os procuradores da Lava Jato, o maior líder do PT, Lula, que 

havia sido preso por Moro e libertado pelo STF em 2019, quando a corte 

considerou inconstitucional prisões após condenação em segunda ins

tância, vê as acusações contra ele retiradas pelo Supremo, o que permi

tiu sua candidatura à Presidência.

Temos assim, após três anos de caos político, um certo equilíbrio 

político. De um lado o PT que, em todas as eleições desde 1989, conta 

com o apoio de cerca de 40% de eleitores, e do outro Bolsonaro, que 

apesar de bater recordes de rejeição ao seu governo, mantém desde o 

início de seu governo um grupo de cerca de 30% de pessoas que acham 

o governo bom ou ótimo. É em torno desse equilíbrio que vai se mon

tando o cenário no qual as eleições de 2022 vão se desenrolar.

Coalizão de governo, coligações eleitorais, as disputas 

nos estados e cenários possíveis para as eleições de 2022

Vimos que Bolsonaro utilizou diferentes estratégias para se manter 

no poder. Em um primeiro momento tentou uma coalizão legis

lativa, acreditando que sua agenda coincidia com a preferência do le

gislador mediano. Mas, além de se equivocar quanto à distribuição de 

23

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

preferências na Câmara, Bolsonaro ignorou o fato de que o que impor

ta é a preferência do presidente e das lideranças do Congresso, que são 

quem detém o poder de agenda no legislativo e que ainda operavam em 

um espaço político unidimensional. Fracassada sua coalizão legislati

va, Bolsonaro passa a tentar executar sua agenda unilateralmente por 

decreto, decretos esses que são bloqueados tanto no Congresso quanto 

no STF. A dificuldade de Bolsonaro em negociar faz com que entrasse 

em conflito com os outros poderes e acabasse acuado. Abrindo mão 

de sua agenda principal e visando a sobrevivência política, Bolsonaro 

acaba por fazer uma coalizão integrando partidos no governo visando a 

construir um apoio mais sólido.

Cada uma destas estratégias acabou por delimitar o quadro de for

ças que participarão das próximas eleições. Das urnas de 2018 emergiu 

um cenário polarizado, com o PT como partido dominante à esquerda, e 

uma direita sem uma força dominante, mas unida em torno do sucesso 

eleitoral de Bolsonaro. Com o desenrolar do governo essa direita iria 

se dividir. Do conflito com a Câmara resultaria a primeira divisão com 

políticos da direita liberal se opondo à pauta de costumes e da “lei e da 

ordem”. A fase de governo por decreto (e alijamento dos partidos) cria 

um racha nas hostes bolsonaristas e contrapõe uma direita radical de 

tendência autoritária a uma direita antissistema, mas democrática. Por 

fim, a coalizão de governo com o “centrão” fortalece a direita pragmáti

ca. Hoje, portanto temos uma esquerda unida que se contrapõe a uma 

direita dividida.

A direita liberal, após o rompimento com Bolsonaro, viu com es

perança o protagonismo do governador, João Doria, no auge da pan

demia. Doria garantiu a vacinação da população contra o coronavírus 

apesar da inação do governo Federal, mas não conseguiu conver

ter este trunfo em ganho eleitoral. Abalado pelos seus embates com 

Bolsonaro, viu seu capital político diminuir ainda mais após conflitos 

em seu próprio partido, o PSDB. Pesquisas em abril de 2022 mostravam 

que menos de 3% do eleitorado tinha a intenção de votar em Doria 

para presidente.

24

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

A direita antissistema vai se unir em torno da candidatura do ex

juiz Sérgio Moro. O próprio caráter antissistema desse grupo, que reú

ne, além dos lavajatistas, membros de movimentos sociais que atuaram 

pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, fez com que Moro, 

sem espaço em partidos tradicionais se filiasse, em um primeiro mo

mento, a um partido sem muita relevância, o Podemos. Ao atribuir seu 

fraco desempenho nas pesquisas (não passando dos 10% de intenção 

de voto) à pouca estrutura do Podemos, filia-se ao recém-criado União 

Brasil, fusão dos Democratas com o PSL, mas, diante de embates com 

importantes lideranças partidárias em torno da conveniência de sua 

candidatura à presidência, acaba desistindo de se lançar. 

No momento de escrita deste texto a direita liberal e a direita an

tissistema ainda procuravam uma candidatura viável para o que ficou 

conhecido como a “terceira via”. O problema da viabilidade de uma ter

ceira via não está só na possibilidade de ela ficar espremida no centro do 

espaço político quando os polos adotam as estratégias corretas confor

me seus objetivos eleitorais. 

Todos os candidatos e seus partidos enfrentam um problema co

mum. O fato óbvio é de que para se chegar à presidência precisa-se de 

votos em todo território nacional e, para isso, dependem da construção 

de uma rede de apoio por todo o país. 

Para se montar uma rede de apoio os participantes devem ter recur

sos intercambiáveis. Recursos financeiros para a campanha, capacidade 

de inserção nas mídias, a “valência” dos candidatos20, entre outros, são 

trocados pelos candidatos nos diversos níveis. As alianças eleitorais se 

dão em torno desse intercâmbio de recursos e tem como característica a 

conexão preferencial, isto é, a tendência de que novos apoios se dão em 

proporção aos apoios já recebidos. Em outras palavras, alianças maiores 

tendem a receber cada vez mais apoios.

20 Por valência entende-se a associação de um candidato com temas unânimes 

como combate à pobreza, combate à corrupção, honestidade etc. (STOKES, 1963)

25

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

O presidente Bolsonaro, com seus fiéis 30% de apoiadores e sua ca

neta presidencial, se filia ao PL, partido do “centrão” e recebe apoio dos 

outros integrantes da direita pragmática como o PP, Republicanos, o PTB 

e o PSC. Com a migração de deputados da direita radical para esses par

tidos essa aliança se torna a maior força no Congresso, com 188 depu

tados e 19 senadores, e conta ainda com 5 governadores e 1502 prefeitos 

espalhados pelo país para garantir capilaridade à campanha presiden

cial. Esses apoios ajudam a nacionalizar a campanha de Bolsonaro e a 

estruturar, pelo lado da direita, a competição nos estados.

O ex-presidente Lula, se aliou aos principais partidos de esquerda, 

com exceção do PDT, que manteve a candidatura de Ciro Gomes, hoje 

isolado, espremido entre a esquerda unida e sem condições de um aceno 

para qualquer grupo da direita. Fazem parte da aliança o PSB, PCdoB, PV, 

Solidariedade, PSOL e Rede. Juntos essas legendas possuem 109 depu

tados federais, 8 senadores, 7 governadores e 620 prefeitos. Com esses 

apoios a campanha de Lula também se nacionaliza e os palanques esta

duais da esquerda começam a se montar em torno dela.

Se os partidos dos candidatos da “terceira via” se unissem poderiam 

conseguir a mesma capilaridade. PSDB, União Brasil e MDB juntos con

tariam com 122 deputados federais, 26 senadores, 9 governadores e 1858 

prefeitos eleitos em 2020. No entanto, sem nenhum candidato despon

tando nas pesquisas, esses partidos se defrontariam com um problema 

de escolha social. Sem uma decisão unânime, para qualquer maioria que 

se forme em torno de uma candidatura seria possível a formação de uma 

maioria alternativa pelos candidatos que se sentirem rejeitados. Mesmo 

se resolvido o problema de coordenação, haveria o problema de garan

tir a cooperação dos candidatos nos estados que poderiam se beneficiar 

mais da associação com as candidaturas de Lula e Bolsonaro. Os partidos 

da “terceira via” são partidos com força regional e mesmo encontrando 

um candidato, sem apoio em todo país esse candidato não se viabilizaria.

O tempo também joga contra a “terceira via”. Lula e Bolsonaro, já 

partem de um patamar alto de apoio eleitoral e, dado o fenômeno da 

conexão preferencial, o problema de deserções na “terceira via” já se faz 

26

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

sentir quando os jornais noticiam que o MDB de nove estados apoiarão o 

candidato do PT em detrimento da pré-candidata do partido, a senadora 

Simone Tebet21. Divisões internas também ocorreram no PSDB, onde a 

candidatura de João Doria sofria resistência mesmo após ter vencido as 

prévias do partido, e no União Brasil, onde as alas demista e pesselista 

se desentendem quanto à candidatura se Sérgio Moro à presidência22.

Sem uma coordenação entre a direita liberal e a direita antissistema, 

a disputa deve se consolidar entre Lula e Bolsonaro. A aliança da direita 

radical e da direita pragmática em torno de Bolsonaro mostra que este 

vai, mais uma vez, tentar fazer com que a dimensão sociocultural domi

ne os debates, ainda mais diante de um desempenho ruim da economia. 

O desempenho de Lula depende, ao contrário, de fazer com que a di

mensão econômica, que agora não se limita apenas à política fiscal, mas 

também à pauta econômico-social (crise, aumento da inflação, desem

prego e desigualdade) seja a mais saliente.

Nos estados onde as eleições são mais competitivas, ou seja, onde 

não há um candidato dominando as pesquisas, há a tendência de nacio

nalização da disputa com os candidatos de Lula e Bolsonaro se digla

diando. Essa é hoje a situação em alguns dos estados mais populosos, 

como São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Isso indica que a 

polarização política continuará forte23. 

Se em 2018 a surpreendente vitória de Bolsonaro introduziu no

vos partidos no cenário político brasileiro, contribuindo ainda mais 

para a fragmentação de seu sistema partidário, a aliança do presiden

te com partidos tradicionais como o PP e o PL indica que nas eleições 

de 2022 poderemos ter um movimento contrário. A volta do protago

21 https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/04/bolsonaro-e-lula-duelam-por

novos-aliados-e-buscam-cristalizar-polarizacao.shtml

22 Nem Moro e nem seu partido haviam decidido sobre a candidatura à presidência 

até a conclusão deste artigo.

23 Eleição polarizada entre dois candidatos não significa radicalização à esquerda e 

à direita; na verdade, o que coloca uma dificuldade a mais para a terceira via é o 

movimento de Lula para o centro.

27

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

nismo de partidos tradicionais indica, também, que a renovação na 

Câmara e no Senado deve ficar perto da média dos anos anteriores ao 

fenômeno Bolsonaro, 45% dos 513 deputados e 27% dos 81 senadores. 

Apesar disso e das novas regras proibindo coligações eleitorais nas 

eleições proporcionais, a redução do número de partidos não deve ser 

tão grande e emergirá das urnas um Congresso ainda fragmentado, 

dado que os deputados são eleitos nos estados e em nem todos os es

tados a disputa será nacionalizada. Mais uma vez o Congresso deve se 

dividir entre esquerda, uma aliança liberal/antissistema e uma aliança 

radical/pragmática. Mais uma vez a necessidade de uma coalizão de 

governo irá se impor.

Antes de concluirmos é necessário uma nota de alerta. Nossa aná

lise considera como o cenário mais provável aquele em que a competi

ção se dará “dentro das quatro linhas” do jogo democrático, como diria 

Bolsonaro, mas a beligerância da direita radical, o desrespeito às insti

tuições, demonstrado pelo presidente, seus ataques ao processo eleitoral 

e àqueles que o conduz, sugerem que a probabilidade de ruptura insti

tucional, embora hoje pequena, não é negligenciável.

Considerações finais

O espaço político brasileiro se tornou bidimensional. A dimensão 

sociocultural que agrega temas como identidade de gênero, igual

dade racial, “lei e ordem”, entre outros, passou a ter o mesmo peso que 

a dimensão econômica, que dominou o debate durante as décadas de 

1990 e 2000. O aumento da saliência da dimensão sociocultural não se 

deve a mudanças nas “crenças e valores” do eleitor (BORGES e VIDIGAL, 

2018), mas sim à bem-sucedida estratégia eleitoral de Bolsonaro e seus 

apoiadores em 2018.

Se a introdução de uma nova dimensão favoreceu Bolsonaro nas 

eleições, ela fez com que entrasse em conflito com um legislativo insti

tucionalmente unidimensional. O poder de agenda dos presidentes do 

Senado e, principalmente, da Câmara dos Deputados; o controle das 

28

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

lideranças partidárias no processo de votação, garantindo retorno em 

votos ou vetos a medidas desfavoráveis ao governo; fazem com que a 

pauta, mesmo com origem no executivo, tenha seu equilíbrio determi

nado por compromissos que se dão na dimensão escolhida por eles. A 

falta de capacidade ou de vontade de negociar por parte do executivo fez 

com que a pauta de costumes, outro nome para a dimensão sociocultu

ral, avançasse pouco no legislativo.

Diante do impasse, Bolsonaro apela para o poder da caneta pre

sidencial e, no lugar do diálogo, prefere governar por decreto. Isso faz 

com que não só acentue a crise com o legislativo, como passe a atritar 

também com o judiciário. Isolado e sem forças para reagir, Bolsonaro 

tem que dar uma guinada de 180 graus e fechar acordo com o “centrão” 

para sobreviver politicamente.

As mudanças na estratégia de governo fazem com que surjam divi

sões na direita. Quatro grupos se formam: a direita liberal que busca can

didatos nos tradicionais partidos de centro (PSDB, MDB e União Brasil, 

fusão do DEM com o PSL não-bolsonarista), a direta antissistema (que 

se reúne em torno do ex-juiz Sérgio Moro), a direita pragmática (com

postas pelos partidos do “centrão”) e a direita radical (o “bolsonarismo 

raiz”). As direitas radical e pragmática se juntam quando Bolsonaro se 

filia ao PL, já as direitas antissistema e liberal não conseguem se unir e 

formar uma “terceira via”.

Com a divisão da direita, mais uma vez o cenário é de polarização 

entre PT e Bolsonaro. É em torno deles que as alianças estaduais estão 

sendo traçadas e é alta a probabilidade de que um dos dois venha a ocu

par a presidência em 2023. Apesar da cláusula de barreira, a fragmen

tação partidária no legislativo deve continuar alta o suficiente para que 

o partido do presidente tenha que recorrer a coalizões que se darão em 

um sistema partidário não muito diferente do que temos hoje. A coexis

tência de presidencialismo e multipartidarismo faz com que no Brasil 

o governo seja um governo “da coalizão” (FREITAS, 2016). Não há alter

nativa e quem procurou uma pagou ou esteve próximo a pagar com o 

próprio mandato.

29

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

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Fernando Guarnieri, cientista político, é professor-associado do Instituto de Estudos 

Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). Possui 

doutorado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (2009), atuou como pes

quisador no Centro de Estudos da Metrópole (CEM), no Centro Brasileiro de Análise e 

Planejamento (Cebrap) e como pesquisador visitante na Universidade de Maryland.

Argelina Figueiredo é professora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ) e pesquisadora sênior do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Ce

brap). Faz pesquisas sobre instituições políticas, coalizões de governo e relações execu

tivo legislativo, eleições e políticas públicas. É autora, dentre outros livros, de Democracia 

ou Reformas? Alternativas Democráticas à Crise Política (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 

1993) e, com Fernando Limongi, de Executivo e Legislativo na Nova Ordem Constitu

cional (RJ/SP, Editora FGV/Fapesp) (e-mail: argelina@iesp.uerj.br). o artigo dos autores Fernando Guarnieri e Argelina Figueiredo

Confira no Senado Federal. 

Confira no link a seguir .  https://normas.leg.br/?urn=urn:lex:br:federal:constituicao:1988-10-05;1988!tit4.

A Organização dos Poderes na Constituição Federal de 1988 (Título IV, arts. 44 a 135) estabelece a estrutura e o funcionamento dos órgãos que exercem a soberania estatal, baseando-se no princípio de que os poderes são independentes e harmônicos entre si.

O título está dividido em quatro capítulos principais:

1. Poder Legislativo (Arts. 44 a 75) 

Exerce as funções de legislar (criar normas) e fiscalizar (controle contábil e financeiro). 

Estrutura Bicameral: Composto pelo Congresso Nacional l, que se divide  ente Camara dos Deputados . (representantes do povo) e Senado Federal (representantes dos Estados e do DF).


Processo Legislativo: Define as regras para a criação de emendas à Constituição, leis complementares e ordinárias, medidas provisórias, entre outros.


Fiscalização: Exercida com o auxílio do Tribunal de Contas da União (TCU)


2. Poder Executivo (Arts. 76 a 91)

Chefia: Exercido pelo Presidente da República, auxiliado pelos Ministros de Estado.


Atribuições: Incluem sancionar e vetar leis, manter relações com Estados estrangeiros e exercer o comando supremo das Forças Armadas.


Conselhos: Estabelece o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional como órgãos de consulta do Presidente. 


3. Poder Judiciário (Arts. 92 a 126)

Responsável pela função jurisdicional, aplicando a lei a casos concretos para resolver conflitos. 

Órgãos: Incluem o Supremo Tribunal Federal (STF), o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Superior Tribunal de Justiça (STJ), tribunais regionais federais, além das justiças especializadas (Trabalho, Eleitoral e Militar).


Garantias: Magistrados possuem garantias como vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de subsídio para assegurar imparcialidade. 

A crise de representatividade política no Brasil foi o fator determinante que culminou na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Esse fenômeno refletiu o esgotamento do sistema político tradicional frente aos eleitores, que já não se viam representados pelas lideranças e partidos da época. Origens e Pilares da Crise de Representatividade O colapso da confiança pública nas instituições estruturou-se em três pilares principais: Operação Lava Jato: A investigação expôs esquemas sistêmicos de corrupção envolvendo os maiores partidos do país (PT, PMDB e PSDB), destruindo a reputação da elite política tradicional .Protestos de 2013 e Impeachment de 2016: As manifestações de Junho de 2013 demonstraram uma insatisfação generalizada com os serviços públicos e a classe política. Esse sentimento se intensificou com a crise econômica e o subsequente impeachment de Dilma Rousseff. Recessão Econômica: O país enfrentou uma das piores recessões de sua história entre 2014 e 2016, gerando desemprego em massa e aumentando a percepção de incompetência dos governantes .Como a Crise Viabilizou a Eleição de 2018Jair Bolsonaro soube canalizar o sentimento de "antissistema" que dominava o eleitorado através das seguintes estratégias :Dimensão Cenário de Crise Posicionamento de Bolsonaro Institucional  lRepulsa aos partidos e à política tradicional. Apresentou-se como um outsider (apesar de anos no Congresso), isolado do "centrão" na época. Segurança Pública Altos índices de criminalidade e sensação de impunidade. Discurso de tolerância zero, defesa do armamento e endurecimento penal. Comunicação Desconfiança da mídia profissional e da propaganda de TV.Uso direto das redes sociais (WhatsApp, Facebook) para falar sem intermediários com o eleitor  Ideológica  Desgaste da esquerda (PT) e insatisfação com a centro-direita clássica .Discurso fortemente anticomunista, patriota e de defesa dos valores religiosos e familiares. A eleição de 2018 funcionou como um voto de protesto contra o establishment. A fragmentação dos partidos tradicionais e o desejo de ruptura total abriram caminho para um discurso populista de direita, focado na moralidade, no nacionalismo e na promessa de varrer a velha política. Para aprofundarmos essa análise, você gostaria de focar em como as redes sociais mudaram a dinâmica daquela eleição ou prefere analisar o impacto dessa crise nos partidos tradicionais como o PT e o PSDB.

Vimos aonde isso foi parar com 700.000 brasileiros mortos pelo então presidente Jair Bolsonaro durante a Covid 19

E assim caminha a humanidade.

Imagem da BBC News .





sábado, 19 de setembro de 2026

Algo á se ver .

 CAPÍTULO II

DOS DIREITOS SOCIAIS


Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. (Nova redação dada ao art. 6º pela EC 90/15)

Redação anterior dada pela EC 64/10.

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a Segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.

Redação anterior dada pela EC 26/00.

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.

Redação original.

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.

Parágrafo único. Todo brasileiro em situação de vulnerabilidade social terá direito a uma renda básica familiar, garantida pelo poder público em programa permanente de transferência de renda, cujas normas e requisitos de acesso serão determinados em lei, observada a legislação fiscal e orçamentária. (Acrescentado pela EC 114/21)


Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:

I - relação de emprego protegida contra despedida arbitrária ou sem justa causa, nos termos de lei complementar, que preverá indenização compensatória, dentre outros direitos;

II - seguro-desemprego, em caso de desemprego involuntário;

III - Fundo de Garantia do Tempo de Serviço;

IV - salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender as suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim;

V - piso salarial proporcional à extensão e à complexidade do trabalho;

VI - irredutibilidade do salário, salvo o disposto em convenção ou acordo coletivo;

VII - garantia de salário, nunca inferior ao mínimo, para os que percebem remuneração variável;

VIII - décimo terceiro salário com base na remuneração integral ou no valor da aposentadoria;

IX - remuneração do trabalho noturno superior à do diurno;

X - proteção do salário na forma da lei, constituindo crime sua retenção dolosa;

XI - participação nos lucros, ou resultados, desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, participação na gestão da empresa, conforme definido em lei;

XII - salário-família pago em razão do dependente do trabalhador de baixa renda nos termos da lei; (Nova redação dada ao inciso pela EC 20/98)

Redação original.

XII - salário-família para os seus dependentes;

XIII - duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho;

XIV - jornada de seis horas para o trabalho realizado em turnos ininterruptos de revezamento, salvo negociação coletiva;

XV - repouso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos;

XVI - remuneração do serviço extraordinário superior, no mínimo, em cinqüenta por cento à do normal;

XVII - gozo de férias anuais remuneradas com, pelo menos, um terço a mais do que o salário normal;

XVIII - licença à gestante, sem prejuízo do emprego e do salário, com a duração de cento e vinte dias;

XIX - licença-paternidade, nos termos fixados em lei;

XX - proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei;

XXI - aviso prévio proporcional ao tempo de serviço, sendo no mínimo de trinta dias, nos termos da lei;

XXII - redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança;

XXIII - adicional de remuneração para as atividades penosas, insalubres ou perigosas, na forma da lei;

XXIV - aposentadoria;

XXV - assistência gratuita aos filhos e dependentes desde o nascimento até 5 (cinco) anos de idade em creches e pré-escolas; (Nova redação dada ao inciso pela EC 53/06)

Redação original.

XXV - assistência gratuita aos filhos e dependentes desde o nascimento até seis anos de idade em creches e pré-escolas;

XXVI - reconhecimento das convenções e acordos coletivos de trabalho;

XXVII - proteção em face da automação, na forma da lei;

XXVIII - seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem excluir a indenização a que este está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa;

XXIX - ação, quanto aos créditos resultantes das relações de trabalho, com prazo prescricional de cinco anos para o trabalhadores urbanos e rurais, até o limite de dois anos após a extinção do contrato de trabalho; (Nova redação dada ao inciso pela EC 28/00)

a) (revogada)

b) (revogada)

Redação original.

"XXIX - ação, quanto a créditos resultantes das relações de trabalho, com prazo prescricional de:

a) cinco anos para o trabalhador urbano, até o limite de dois anos após a extinção do contrato;

b) até dois anos após a extinção do contrato, para o trabalhador rural;"

XXX - proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil;

XXXI - proibição de qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência;

XXXII - proibição de distinção entre trabalho manual, técnico e intelectual ou entre os profissionais respectivos;

XXXIII - proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos; (Nova redação dada ao inciso pela EC 20/98)

Redação original.

XXXIII - proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre aos menores de dezoito e de qualquer trabalho a menores de quatorze anos, salvo na condição de aprendiz;

XXXIV - igualdade de direitos entre o trabalhador com vínculo empregatício permanente e o trabalhador avulso.


Parágrafo único São assegurados à categoria dos trabalhadores domésticos os direitos previstos nos incisos IV, VI, VII, VIII, X, XIII, XV, XVI, XVII, XVIII, XIX, XXI, XXII, XXIV, XXVI, XXX, XXXI e XXXIII e, atendidas as condições estabelecidas em lei e observada a simplificação do cumprimento das obrigações tributárias, principais e acessórias, decorrentes da relação de trabalho e suas peculiaridades, os previstos nos incisos I, II, III, IX, XII, XXV e XXVIII, bem como a sua integração à previdência social. (Nova redação dada pela EC 72/13)

Redação original.

Parágrafo único. São assegurados à categoria dos trabalhadores domésticos os direitos previstos nos incisos IV, VI, VIII, XV, XVII, XVIII, XIX, XXI e XXIV, bem como a sua integração à previdência social.


Art. 8º É livre a associação profissional ou sindical, observado o seguinte:

I - a lei não poderá exigir autorização do Estado para a fundação de sindicato, ressalvado o registro no órgão competente, vedadas ao Poder Público a interferência e a intervenção na organização sindical;

II - é vedada a criação de mais de uma organização sindical, em qualquer grau, representativa de categoria profissional ou econômica, na mesma base territorial, que seria definida pelos trabalhadores ou empregadores interessados, não podendo ser inferior à área de um Município;

III - ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas;

IV - a assembléia geral fixará a contribuição que, em se tratando de categoria profissional, será descontada em folha, para custeio do sistema confederativo da representação sindical respectiva, independentemente da contribuição prevista em lei;

V - ninguém será obrigado a filiar-se ou a manter-se filiado a sindicato;

VI - é obrigatória a participação dos sindicatos nas negociações coletivas de trabalho;

VII - o aposentado filiado tem direito a votar e ser votado nas organizações sindicais;

VIII - é vedada a dispensa do empregado sindicalizado a partir do registro da candidatura a cargo de direção ou representação sindical e, se eleito, ainda que suplente, até um ano após o final do mandato, salvo se cometer falta grave nos termos da lei.

Parágrafo único. As disposições deste artigo aplicam-se à organização de sindicatos rurais e de colônias de pescadores, atendidas as condições que a lei estabelecer.


Art. 9º É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender.


§ 1º A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade.


§ 2º Os abusos cometidos sujeitam os responsáveis às penas da lei.


Art. 10. É assegurada a participação dos trabalhadores e empregadores nos colegiados dos órgãos públicos em que seus interesses profissionais ou previdenciários sejam objeto de discussão e deliberação.


Art. 11. Nas empresas de mais de duzentos empregados, é assegurada a eleição de um representante destes com a finalidade exclusiva de promover-lhes o entendimento direto com os empregadores. Segundo o Senado Federal.

Direitos sociais são prerrogativas fundamentais que garantem o bem-estar, a igualdade e uma vida digna a todos os cidadãos, exigindo que o Estado atue de forma ativa (prestações positivas) para fornecer serviços essenciais. Eles fazem parte dos direitos de segunda geração ou dimensão.

No Brasil, os direitos sociais estão expressamente listados no Artigo 6º da Constituição Federal de 1988.

A Constituição Federal prevê 12 direitos sociais básicos

Educação: Acesso ao ensino gratuito e de qualidade. Saúde: Direito a tratamentos, consultas e leitos hospitalares. Alimentação: Garantia de segurança alimentar. Trabalho: Proteção ao emprego, incluindo direitos como FGTS, 13º salário e férias. Moradia: Direito a uma habitação digna e segura. Transporte: Mobilidade urbana e direito de ir e vir com infraestrutura. Lazer: Tempo e espaços voltados ao descanso e à cultura. Segurança: Proteção pública contra o crime e a violência. Previdência Social: Amparo financeiro ao trabalhador na aposentadoria, doença ou invalidez. Proteção à Maternidade: Garantias como a licença-gestante. Proteção à Infância: Cuidados, creches e amparo integral aos menores de idade. Assistência aos Desamparados: Suporte governamental para quem não tem condições de prover o próprio sustento.

Em 2021, o parágrafo único do Artigo 6º foi alterado para incluir o direito de todo brasileiro em situação de vulnerabilidade social a uma renda básica familiar, garantida por programas permanentes de transferência de renda (como o Bolsa Família). Segundo o Senado Federal.

A negação dos direitos sociais pelas elites brasileiras é um tema central na historiografia e na sociologia política do Brasil, frequentemente apontado como uma das raízes da desigualdade estrutural e da cidadania incompleta no país.

Historicamente, esse fenômeno se manifesta por meio de mecanismos econômicos, políticos e culturais que barram a universalização de direitos básicos como educação, saúde, trabalho digno e moradia.

Herança colonial e escravocrata: A transição da escravidão para o trabalho livre no final do século XIX ocorreu sem a inclusão social dos ex-escravizados. Não houve acesso à terra ou à educação básica, consolidando as elites latifundiárias no poder e marginalizando a maior parte da população.

Cidadania regulada (Era Vargas): Os direitos trabalhistas e sociais criados nos anos 1930 e 1940 não foram universais. Eles se limitavam aos trabalhadores urbanos de profissões reconhecidas pelo Estado. O funcionalismo público e as elites econômicas mantiveram privilégios, enquanto trabalhadores rurais e informais continuaram excluídos.

Ditadura Militar (1964-1985): O regime militar priorizou o crescimento econômico baseado na concentração de renda ("fazer o bolo crescer para depois dividir"). Movimentos sociais e sindicatos foram suprimidos pelas elites políticas e militares, congelando conquistas sociais em nome do desenvolvimento industrial.

Resistência à Constituição de 1988: Apelidada de "Constituição Cidadã" por universalizar os direitos sociais, sua implementação enfrentou (e ainda enfrenta) forte oposição de elites econômicas (como o chamado "Centrão" e o empresariado), que argumentam que os direitos sociais tornam o país "ingovernável" ou geram gastos fiscais excessivos.

RESENHAS

REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 27: 211-214 NOV. 2006

CARVALHO, José Murilo de. 2005 (2001). Cidadania no Brasil – o longo caminho. 7ª ed. Rio de Janeiro :

Civilização Brasileira.

DIREITOS NO BRASIL:

NECESSIDADE DE UM CHOQUE DE CIDADANIA

Venceslau Alves de Souza

A questão dos direitos no Brasil parece nunca ter sido tão atual. Quanto mais se avança em direção ao

aprimoramento das instituições democráticas, menos fica evidente o usufruto do tripé dos direitos que lhe dão

sustentação. A pobreza aguda de mais de 25 milhões de brasileiros, segundo dados do IBGE, ratifica nosso gap

irresoluto na consolidação dos direitos sociais. A histérica falta de segurança faz-nos lembrar que o direito civil

de ir e vir está ameaçado a cada vez que nos aventuramos em sair de casa. Os direitos políticos parecem mais

fortemente consolidados, embora tratemos de um país onde a prática endógena do exercício democrático é

coisa nova. Daí a importância e a justificativa de resenhar-se uma obra como esta, cuja importância pode ser

avaliada por seu êxito editorial: lançada em 2001, em 2005 já alcançava sua sétima edição. Em um país em que a

inconclusão da cidadania insiste em se eternizar, parecem revigorar-se a cada momento as concepções de

José Murilo de Carvalho.

Como sugere o título, Cidadania no Brasil – o longo caminho, a obra de Murilo de Carvalho diz respeito

ao avanço da cidadania no Brasil, enquanto fenômeno histórico. O autor inicia seu trabalho desdobrando a

cidadania em três dimensões: direitos civis (direito à liberdade, à propriedade e à igualdade perante a lei);

direitos políticos (direito à participação do cidadão no governo da sociedade – voto) e direitos sociais (direito

à educação, ao trabalho, ao salário justo, à saúde e à aposentadoria). O objetivo geral do autor é demonstrar

que no Brasil não houve um atrelamento dessas três dimensões políticas. O direito a esse ou àquele direito,

digamos à liberdade de pensamento e ao voto, não garantiu o direito a outros direitos, por exemplo, à seguran

ça e ao emprego. No mesmo sentido, a agudização dos problemas sociais no país, nos últimos anos, serve de

apoio para o autor contrastar as dimensões dos direitos políticos, via sufrágio universal, com os direitos

sociais e os direitos civis. A negação desses direitos, vez ou outra no Brasil, é utilizada pelo historiador para dar

sustentação à sua tese de que se tem gerado historicamente neste país uma cidadania inconclusa – como na

Inglaterra nos séculos XVIII e XIX.

Fundamentado nos estudos de T. A. Marshall sobre a conquista dos direitos na Inglaterra, o historiador

mostra que os ingleses introduziram primeiramente os direitos civis, no século XVIII e, somente um século mais

tarde – após o exercício à exaustão desses direitos –, os direitos políticos. Os direitos sociais, entretanto,

tiveram de esperar mais cem anos até que se fizessem ouvidos. O fato é que, adverte Murilo de Carvalho, a

tentativa simplista de analisar esta questão meramente pelo viés cronológico induzir-nos-ia, entrementes, a

simplificações errôneas. Se assim o fizéssemos, seríamos levados a pensar a completude da cidadania no Brasil

como ‘uma questão de tempo’, quando, na verdade, o diferencial entre a nossa cidadania e a dos ingleses está

no fato de que o tripé que compõe a cidadania: direitos políticos, civis e sociais foi por aquele povo conquis

tado, e a nós ele foi doado, segundo os interesses particulares dos governantes de plantão. Na Inglaterra, a

introdução de um direito parecia estar atrelada ao exercício pleno de outro, ou seja, foi exatamente o exercício

dos direitos civis que fez com que os ingleses reivindicassem direitos políticos e, daí, os sociais; mas nem por

isso seguindo uma mera lógica cronológica. No caso brasileiro, o exercício desses direitos parece não ser ainda

uma prática muito freqüente, fazendo-os parecerem distantes da sua plenitude.

O problema central colocado aqui por Murilo de Carvalho – e que parece querer conflitar permanentemente

com tentativa do autor de descaracterizar a ordem cronológica como cerne para a organização de uma dada

sociedade – é que se não se segue a ordem inglesa, dificilmente se tem o povo no comando de suas demandas

políticas. Essa responsabilidade acaba por ficar a cargo de outras instituições. No caso brasileiro, essa tarefa

tem sido desenvolvida pelo Estado. A partir desta premissa, Murilo de Carvalho expõe aquela que será a idéia

central de seu trabalho, argumentando que a lógica da seqüência descrita por Marshall foi invertida no Brasil:

a pirâmide dos direitos foi colocada de cabeça para baixo. Aqui, primeiro vieram os direitos sociais, nos anos

Recebida em 6 de dezembro de 2005

Aprovada em 3 de abril de 2006

Rev. Sociol. Polít., Curitiba, 27, p. 211-214, nov. 2006

211

CIDADANIA NO BRASIL

1930, implantados em período de supressão dos direitos políticos e de redução dos direitos civis por Getúlio

Vargas, um ditador que se tornou popular – o que explicaria, em parte, a origem do Estado clientelista no país.

O autor verifica que a falta de liberdade política sempre foi compensada pelo autoritarismo do Brasil pós-1930,

com o paternalismo social.

Realizando um balanço histórico primoroso, Murilo de Carvalho observa que da passagem do período

colonial à independência brasileira, o conjunto de direitos, civis, sociais e políticos, que poderiam gerar um

Estado de cidadãos, praticamente inexistia. A própria independência não foi capaz de introduzir mudanças

radicais no conjunto desses direitos. Apesar de constituir um avanço no que se refere aos direitos políticos, a

independência, feita com a manutenção da escravidão, trazia em si grandes limitações aos direitos civis.

Houve, inclusive, retrocesso no que concerne aos direitos políticos, 59 após a independência, pois aos anal

fabetos não mais foi concedido o direito ao voto. A partir daí, somente os mais abastados e letrados estariam

aptos a participar do processo político.

A proclamação da República, em 1889 não alteraria o quadro, traria pouca mudança. A Constituição republi

cana de 1891, por sua vez, teria um caráter exclusionista: continuaria a excluir do voto os analfabetos, as

mulheres, os mendigos, os soldados, os membros das ordens religiosas. Do ponto de vista do avanço da

cidadania, naquilo que concerne aos direitos sociais, o mais significativo foi o movimento que pôs fim à

Primeira República, em 1930. Desde a independência até 1930, a única alteração importante que houve quanto

ao avanço da cidadania foi exatamente a abolição da escravidão, em 1888 – ignorada pela Constituição Liberal

de 1824.

Apostando na tese de que somente o exercício pleno de um direito pode redundar na aquisição de outros

direitos, Murilo de Carvalho argumenta que o que obstaculizou a conquista dos direitos sociais no período

pós-libertação dos escravos foi exatamente a extremada limitação dos direitos civis, que perduraria até 1930.

Ainda que o direito (civil) à liberdade, à não-escravidão, estivesse garantido desde 1888, os parcos outros

direitos civis – e políticos –, supostamente garantidos, eram muitíssimo precários, o que teria retardado,

efetivamente, a conquista de direitos sociais.

O argumento de sustentação para a tese do autor é a de que a participação na política nacional, inclusive

nos grandes acontecimentos, era limitada a pequenos grupos, sem a presença das massas. Desde os mais

remotos tempos coloniais até 1930, não havia povo organizado politicamente nem sentimento nacional conso

lidado. A grande maioria do povo tinha com o governo uma relação ou de distância ou de antagonismo. Se

houve ações políticas do povo, estas eram realizadas como reação ao que considerava arbítrio das autorida

des. Era uma “cidadania em negativo”. Até 1930, o povo não tinha lugar no sistema político, seja no Império,

seja na República, daí não haver lugar para a introdução de direitos, tais como os sociais. Por isso mesmo,

sustenta o autor, a queda da Primeira República teria representado um avanço em relação à sua proclamação em

1889. Tal avanço dar-se-ia, se não necessária e imediatamente em direção aos direitos civis e políticos, certa

mente em direção aos direitos sociais.

Murilo de Carvalho, entretanto, fiel à sua tese inicial – ignorando, pois, a possibilidade de existência de

certa ordem cronológica no avanço dos direitos –, define como sendo de baixíssimo impacto o exercício da

cidadania no Brasil, no pós-1930. Isso deu-se, segundo o historiador, pelo fato de os direitos sociais terem sido

introduzidos antes da expansão dos direitos civis. Os avanços trabalhistas, longe de serem conquistados,

foram doados por um governo cooptador – e posteriormente ditatorial – cujos líderes pertenciam às elites

tradicionais, sem vinculação autêntica com causas populares. Se por um lado, a expansão dos direitos traba

lhistas – sociais – significou efetivamente um avanço da cidadania na medida em que trazia as massas para a

política, em contrapartida, criava uma massa de reféns da União e de seus tentáculos regionais. A “doação dos

direitos sociais” ao invés da sua conquista fazia com que os direitos fossem percebidos pela população como

um favor, colocando os cidadãos em posição de dependência perante os líderes.

Que tipo de cidadania poderia daí resultar? – questiona-se o autor, visto a pirâmide de Marshall não ter base

de sustentação no Brasil. Sua resposta é de que o mínimo que se pode esperar é por um enaltecimento do

Executivo, em detrimento dos outros dois poderes. Daí o encantamento da população com o uso do “punho

forte” do Executivo e seu menosprezo aos demais poderes. Além disso, o Estado passa a ganhar certa supre

macia sobre a sociedade civil, o que é terrível, pois, dessa relação é extraída a possibilidade de organização livre

e independente das massas, numa espiral viciosa, para a conquista dos direitos.

212

REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 27: 211-214 NOV. 2006

O grande dilema que Murilo de Carvalho se coloca dentro dessa perspectiva é justamente sobre o tipo de

cidadão e de sociedade que se formam quando a base da pirâmide descrita por Marshall é invertida. A convic

ção democrática, por certo, conclui o autor, está comprometida, pois entre o Judiciário e o Executivo pratica

mente não há separação, e, portanto, nenhuma garantia do exercício das liberdades. Daí, sem o exercício das

liberdades, dificilmente se chegaria à conquista dos direitos políticos plenos.

No Brasil, entretanto, chegou-se – ainda que esdruxulamente. Eles foram implantados, na segunda metade

dos anos 1940, por um militar do exército, o General Eurico Gaspar Dutra, que logo colocaria o Partido Comunis

ta Brasileiro na ilegalidade. Ainda assim, o período democrático entre 1945 e 1964 caracterizara-se pelo oposto

ao governo de Vargas. Houve ali uma ampliação dos direitos políticos e paralisação, ou avanço lento, dos

direitos sociais. Ainda que os direitos civis fossem relegados ao segundo plano, um observador menos atento

ficaria com a impressão de que a lógica da pirâmide de Marshall começava a querer tomar forma. Murilo de

Carvalho, no entanto, elucida essa percepção. No período, um ensaio de construção da cidadania dá-se,

porém, “de cima para baixo”, sem a participação de um povo verdadeiramente organizado. O cidadão em

construção ainda não tivera tempo de aprender a ser cidadão, mas a prezar por líderes fortes, geralmente o

chefe do Executivo. Tanto é verdadeira a assertiva de Murilo de Carvalho que Getúlio Vargas seria eleito

senador por dois Estados, nesse período, e ‘voltaria nos braços do povo’, em 1951, à presidência da República.

Em 1964, 19 anos após a queda da ditadura Vargas, os direitos civis e políticos seriam novamente sufocados

por duras medidas de repressão, admitidas pela apatia popular dos quase cidadãos brasileiros. Dessa vez, a

exemplo da Proclamação da República, tomadas pela cúpula militar. Os governos militares, na interpretação de

Murilo de Carvalho, repetiriam a tática do Estado Novo, ou seja, enquanto cercearam os direitos políticos e

civis, investiram na expansão dos direitos sociais. Dessa vez, no entanto, os órgãos de representação política

foram transformados em meras peças decorativas do regime; eles, na prática, não eram representativos de nada

e de ninguém.

Na passagem de análise do Movimento de 1964, Murilo de Carvalho coloca-se a seguinte pergunta: por que

a democracia foi a pique em 1964, se havia condições tão favoráveis a sua consolidação? O autor sugere que

a resposta possa estar na falta de convicção democrática das elites, tanto de esquerda quanto de direita.

Segundo o autor, os dois lados envolveram-se em uma corrida pelo controle do governo que deixava de lado

a prática da democracia. Murilo de Carvalho é, no entanto, cuidadoso com a assertiva. Para não escapar à sua

tese, o historiador afirma que a falta de convicção democrática não bastaria para explicar o comportamento das

lideranças. A resposta mais coerente provavelmente está no fato de o Brasil ainda não contar, no momento do

Golpe, com organizações civis fortes e representativas que pudessem refrear o curso da radicalização – toda a

organização, sindical, estudantil, institucional, não passava de um “castelo de areia” prestes a ruir ao menor

dos sopros. Aqui, o autor mais uma vez ratifica sua crença de que quando os direitos não são plenamente

exercidos podem impedir o avanço em direção a outros direitos.

Após 1985, quando da queda do regime militar, os direitos civis estabelecidos antes do regime militar, tais

como a liberdade de expressão, de imprensa e de organização, foram recuperados, embora muitos deles, a base

da seqüência de Marshall, continuem inacessíveis à maioria da população. Ainda assim, o cerne do problema

longe permanece de ser cronológico. A forma esdrúxula como os direitos – que dão sustentação à idéia de

cidadania – têm sido introduzidos ou suprimidos no Brasil é que faz a diferença. E muito embora os direitos

políticos tenham adquirido amplitude nunca antes atingida a partir de 1988, a democracia política não resolveu

os problemas mais urgentes, como a desigualdade e o desemprego. Permanecem os problemas da área social e

houve agravamento da situação dos direitos civis no que se refere à segurança individual.

Murilo de Carvalho constata que, muito provavelmente em função da inversão da pirâmide de Marshall 

justamente pela falta de exercício dos direitos pela população –, o ciclo dos direitos responsáveis pela aquisi

ção da cidadania no Brasil completou-se, mas não consegue atingir vastas partes da população. Se não

bastasse, no momento em que o ciclo dos direitos parece tomar forma no Brasil, as rápidas transformações da

economia internacional ameaçam essa condição, pois exigem a redução do tamanho do Estado – promotor dos

direitos do cidadão.

A conclusão a que chega Murilo de Carvalho é de que o direito a esse ou àquele direito – suponhamos à

liberdade de pensamento e ao voto – não é garantia de direito a outros direitos – suponhamos segurança e

emprego –, o que tem gerado historicamente, no caso do Brasil, uma cidadania inconclusa. O autor procura

mostrar que a garantia de direitos civis ou políticos no Brasil estiveram e estão longe de representar uma

213

CIDADANIA NO BRASIL

resolução dos muitos problemas sociais aqui presentes – e a recíproca é verdadeira: eles marcham, segundo o

autor, em velocidades díspares. A agudização dos problemas sociais, aliás, tem provado que não há um

atrelamento necessário entre aquelas três dimensões políticas, tornando passível, em muitos casos, o retroces

so ou o avanço de um ou de outro direito, determinado pela conveniência da circunstância.

Venceslau Alves de Souza (venceslaud@yahoo.com) é mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universida

de Católica de São Paulo (PUC) e doutorando em Ciências Sociais na mesma instituição. O artigo do autor Venceslau Alves de Souza.

As elites brasileiras — sejam econômicas, políticas ou burocráticas — são apontadas por historiadores, sociólogos e economistas como peça-chave na manutenção da profunda desigualdade no Brasil devido a fatores históricos, políticos e fiscais. Historicamente, a construção social do país preservou privilégios concentrados no topo, enquanto as decisões de políticas públicas e a estrutura de impostos continuaram a blindar a riqueza dos mais favorecidos.

1. Herança Histórica e Mentalidade Patrimonialista A desigualdade brasileira tem raízes no período colonial e em mais de 350 anos de escravidão institucionalizada. Intelectuais como Darcy Ribeiro apontavam que as classes dominantes herdaram a mentalidade dos antigos senhores de engenho, enxergando a maior parte da população como mera força de trabalho barata. Isso gerou uma falta de empatia estrutural em relação ao bem-estar e à mobilidade social das classes mais baixas.2. Sistema Tributário Regressivo O modelo de impostos do Brasil é um dos principais motores de concentração de renda. As elites econômicas e o poder político mantêm um sistema que:Pesa sobre o consumo: Os impostos incidem fortemente sobre mercadorias e serviços básicos, fazendo com que os mais pobres paguem proporcionalmente muito mais do que os ricos.Isenta ou alivia lucros e grandes fortunas: Rendimentos financeiros, lucros e dividendos historicamente recebem isenções ou taxas baixas. De acordo com análises sobre a desigualdade, os super-ricos brasileiros acumulam patrimônio pagando alíquotas efetivas muito menores do que a classe média assalariada.3. Captura do Estado e Lobby PolíticoAs elites exercem forte influência sobre as decisões do governo e do Congresso Nacional. Esse poder de pressão (lobby) garante a manutenção de subsídios fiscais para grandes empresas, desonerações e regimes especiais de previdência para cargos de alto escalão do funcionalismo público. Esses privilégios desviam recursos que poderiam financiar direitos fundamentais. 4. Negligência na Educação Pública de Base Durante as décadas de grande crescimento demográfico e urbanização no século XX, houve um severo subinvestimento na qualidade do ensino básico público. Enquanto as elites garantiam educação privada de excelência para seus filhos, o sistema público permaneceu precarizado. Isso criou uma barreira invisível: o acesso a cargos de alta liderança e alta remuneração permaneceu restrito ao topo da pirâmide.5. Transferência de Responsabilidade para o Estado Pesquisas sociológicas clássicas realizadas pela cientista política Elisa Reis demonstram um paradoxo nas elites brasileiras: Elas reconhecem que a pobreza extrema e a desigualdade geram custos negativos para todos, como o aumento da violência urbana e a perda de produtividade econômica. No entanto, não se veem como parte da solução. Elas tendem a terceirizar a culpa inteiramente para um "Estado abstrato", resistindo a reformas estruturais que mexam diretamente em sua renda ou patrimônio.6. Ganhos Rentistas e Juros AltosA estrutura macroeconômica do Brasil favorece o rentismo. A manutenção histórica de taxas de juros reais elevadas faz com que investidores e detentores de grandes patrimônios multipliquem sua riqueza simplesmente mantendo o dinheiro em aplicações

As elites brasileiras promovem e mantêm a desigualdade social por meio do controle político, da concentração de privilégios econômicos e da naturalização da pobreza com o apoio de discursos meritocráticos.Mecanismos de Promoção da Desigualdade Concentração de recursos e privilégios: O acesso a serviços públicos de qualidade, como educação superior de excelência, historicamente concentrou-se nas camadas mais ricas, limitando a mobilidade social.Influência na política fiscal: O sistema tributário brasileiro é regressivo (os mais pobres pagam proporcionalmente mais impostos do que os mais ricos), o que protege o patrimônio das elites e desfinancia serviços essenciais.Naturalização e discursos de caridade: A desigualdade é frequentemente tratada como um problema natural ou resolvido pela caridade individual, o que desvia o foco de reformas estruturais e da garantia de direitos.Captura institucional: O sistema político é influenciado para garantir benefícios, isenções fiscais e subsídios a uma minoria, enquanto os investimentos públicos voltados à maioria da população sofrem com escassez de recursos

A influência das elites na

manutenção das desigualdades

sociais no Brasil

Juber MarquesPacífico1

RESUMO:Opresente artigo tem como objetivo central analisar

brevemente a trajetória das desigualdades sociais brasileiras,

pensadas a partir de sua construção histórica e seu processo de

naturalização por mecanismos de poder derivados da

colonização do Brasil, levando em conta a perspectiva da

dominação das elites e as formas com as quais essa classe

conseguiu manter seus privilégios e a manutenção de uma

estrutura social favorável aos seus interesses. A partir das obras

Elite do atraso, de Jessé Souza, Revolução Burguesa no Brasil,

de Florestan Fernandes e Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro,

realizou-se uma revisão e elucidação de fatos históricos e dos

aspectos sociais envolvidos na temática para apresentar o

contexto que evidencia a relação direta entre o poder das elites

e a manutenção das desigualdades sociais.

PALAVRAS-CHAVE: Desigualdade Social; Elites; Jessé Souza;

Florestan Fernandes; Darcy Ribeiro.

The elites and the maintenance of social

inequalities in Brazil

ABSTRACT: The main objective of this article is to briefly analyze the

trajectory of Brazilian social inequalities, thought from its historical

construction and its process of naturalization by mechanisms of

power derived from the colonization of Brazil, taking into account the

perspective of elite domination and the forms with which this class

managed to maintain its privileges and the maintenance of a social

structure favorable to its interests. From the works Elite do atraso, by

Jessé Souza, Revolução Burguesa no Brasil, by Florestan Fernandes

and Povo Brasileiro, by Darcy Ribeiro, a review and elucidation of

historical facts and social aspects involved in the theme was carried

out to present the context that evidences the direct relationship

between the power of elites and the maintenance of social

inequalities.

KEYWORDS: Social Inequality; Elites; Jessé Souza; Florestan

Fernandes; Darcy Ribeiro.

1Mestrando em Ciências Sociais pela UFJF. Bacharel em direito pela UFJF e em Ciências

Humanas/Ciências Sociais pela mesma instituição. Pós-graduado em Direito Constitucional.

COMOCITAR:PACÍFICO, Juber Marques. A influência das elites na manutenção das desigualdades sociais no

Brasil. In: Revista Ensaios, v. 20, jan.-dez., 2022, p. 21-35.

21

1. Introdução

A desigualdade social é tema presente nas grandes discussões das ciências

sociais no Brasil, por ser indispensável na tentativa de se estabelecer balizas que

possam nortear e evidenciar a trajetória social, econômica e cultural do país. O

chamado pensamento social brasileiro, esforço empreendido por diversos autores

como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro, Florestan

Fernandes e, mais recentemente, Jessé de Souza, entre muitos outros, tentam refazer

de maneira crítica a nossa história social.

Notadamente, a partir do final do século XX, predominou a definição de

desigualdade social relacionada à diferença entre as possibilidades de acesso e

obtenção de bens socialmente valorizados. Entretanto, apesar de ser uma definição

mais prática por ser um fator mensurável, não é a mais adequada, nem deve ser a

única forma de encarar a complexa realidade que determina a desigualdade social

como um fenômeno característico das relações da sociedade em todo o mundo.

Segundo Costa (2019), é necessário pensar em quatro dimensões: desigualdade de

quê, entre quem, quando e onde. Partindo dessa premissa, é necessário pensar a

desigualdade social sob vários aspectos, como renda, raça ou acesso às oportunidades,

uma visão multidimensional que envolve diversos ângulos da vida humana e que

devem ser pensados de forma interdependente.

Os diversos atravessamentos presentes na atual conjuntura social, econômica,

cultural e simbólica, que acabam por afetar diretamente o indivíduo, atualmente

ganharam ainda mais importância nas pesquisas sociológicas. Temas que outrora não

ocupavam espaços de relevo nas discussões acadêmicas, hoje possuem

relevância.Vejamos os inúmeros debates acerca das desigualdades ambientais, ou

ainda as discussões sobre desigualdade de gênero em ambiente de trabalho– dois

exemplos que apontam para uma sociologia coerente com as novas realidades.

A compreensão dessas disparidades exige que se explore o contexto histórico

de sua construção, os atores e as instituições que fizeram e fazem parte da estrutura

social daí derivada, bem como analisar os discursos que buscam justificar a

manutenção do status quo. Nesse ponto, pretende-se expor de que forma as elites, ao

longo de uma empreitada histórica, criaram e naturalizaram a estratificação social para

manter privilégios e propagar a ideia de inferioridade das classes vulneráveis, sem

possibilitar que qualquer mecanismo abrisse portas para superar as desigualdades e

modificar a estrutura social.

Para adentrar nessa discussão, utilizou-se da metodologia de revisão

bibliográfica, sendo de destaque as obras de três sociólogos brasileiros que

contribuíram de maneira substancial para a temática e que tentam descortinar as

causas e as possíveis soluções para a desigualdade no país: Jessé Souza, com A elite do

atraso (2019), Darcy Ribeiro, com O povo Brasileiro (1995) e Florestan Fernandes, com

22

A revolução burguesa no Brasil (2006). Tais obras apresentam certa afinidade na ideia

de uma sociedade marcada por diferenças importantes entre as classes que a compõe,

permitindo tal aproximação.

2. Desigualdade social no Brasil

No Brasil, a disparidade social é caracterizada principalmente pela concentração

de riquezas na mão de um seleto grupo, pelo preconceito racial, pela exploração do

trabalho, pela escassa participação de boa parte da população nas decisões políticas,

pela diferença no acesso e no nível educacional, dentre tantos outros aspectos que

causam ou derivam desses fatores. E o resultado dessas disparidades é, de um lado, a

exclusão, a limitação e vulnerabilidade; e, de outro, o oportunismo e o privilégio.

Essas desigualdades sociais não surgiram da noite para o dia: elas refletem,

necessariamente, processos históricos de longo prazo pelos quais a sociedade

brasileira e tantas outras no mundo, ainda que com suas diferenças, já passaram. Sobre

essa perspectiva, importa observar que, apesar de momentos e tentativas de

diminuição e erradicação das desigualdades, existem interesses na sua manutenção e

perpetuação na estrutura social, e não há perspectivas de grandes mudanças nesse

quadro.

Jessé Souza, em seu livro A elite do atraso, destaca que em países europeus, os

quais os brasileiros normalmente admiram, também existe desigualdade social, mas

“ela não é abissal como aqui” (SOUZA, 2019, p. 84). Segundo o autor, a diferença é que

a Europa se preocupou em criar condições sociais mais homogêneas para todas as

classes.

Por outro lado, no Brasil, desde a colonização, tem sido naturalizado o

fenômeno da desigualdade social como forma de manter a relação de distanciamento,

preconceito e dominação das elites sobre as classes populares. Essa herança

escravocrata não perpetuou apenas o preconceito e desigualdade relacionados à cor

da pele, mas serve de pano de fundo para justificar as diferenças de classes daí

decorridas. Porém, como bem pontua Souza (Ibidem), ao contrário da cor da pele, as

classes podem ser modificadas e, por isso, deve-se prestar atenção nas “carências que

reproduzem as misérias”.

A condenação escravocrata, que outrora se relacionava à raça, passa a ser uma

condenação de classe. O escravo brasileiro na atualidade é aquele que forma a classe

trabalhadora, o que Souza (Ibid.) chama de “batalhadores”, os alvos da elite do

dinheiro com suas raízes escravocratas. Nesse sentido, Felix (2017, p. 93) afirma que a

manutenção da ralé, termo utilizado por Souza para se referir às classes mais baixas da

pirâmide social brasileira, será resultado dos esforços das elites do país nos ataques aos

seus direitos.

23

Essencial salientar que, apesar de a escravidão ao longo da nossa história ter

ganhado novas formas e instrumentos, a relação entre elites e classes trabalhadoras

passa necessariamente pela questão racial. As elites brasileiras, detentoras do poder e

do controle dos meios de produção, na visão marxista, ou aqueles que possuem acesso

ao capital cultural, na concepção bourdieusiana, são os brancos. Aos negros sobram os

empregos menos remunerados, limitação no acesso à cultura, e a vulnerabilidade em

todos os sentidos.

Analisando a obra de Souza, Felix (2017, p. 92) cita o impeachment da

Presidente Dilma Rousseff como exemplo evidente do pacto entre os donos do poder

para perpetuar uma sociedade cruel e forjada na escravidão. A reforma trabalhista que

penalizou os batalhadores, a redução do poder de fiscalização do trabalho escravo e a

limitação na divulgação da lista suja de empresas que praticam trabalho análogo à

escravidão seriam alguns dos vários exemplos de um golpe empreendido pelas elites

para a manutenção de seus privilégios.

O processo de manutenção das desigualdades é longo e constante. Durante o

período de urbanização no Brasil, manteve-se a estrutura de distribuição desigual de

privilégios perpetrada pela aristocracia da época. Mais uma vez, a intenção de manter

a divisão social não seria superada, pois não havia esse interesse, pelo contrário, havia

a “tendência nítida de defesa do desnivelamento dos privilégios daquela aristocracia”

(FERNANDES, 2006, p. 46).

A Revolução Burguesa, que tinha o intuito de modificar a estrutura política e

econômica do país enquanto colônia, também sequer levou em consideração modificar

as condições da população mais vulnerável, mas apenas de uma minoria de

interessados. Segundo Fernandes (2006, p. 50),

as elites nativas não se erguiam contra a estrutura da sociedade colonial.

Mas, contra as implicações econômicas, sociais e políticas do estatuto

colonial, pois este neutralizava sua capacidade de dominação em todos os

níveis da ordem social.

Mais do que isso, era premente para essa elite a “consecução de dois fins

políticos interdependentes: a internalização definitiva dos centros de poder e a

nativização dos círculos sociais que podiam controlar esses centros de poder” (Ibid.).

A industrialização, a implantação e expansão do capitalismo também foram

fatores que contribuíram para manter e ampliar o liame da desigualdade social,

intensificando a formação e divisão da sociedade de classes. É o avanço desses

processos que ajudou a criar o que ainda se vê atualmente, uma “classe trabalhadora

crescentemente precarizada e ameaçada pelo desemprego e por cortes de direitos”

(SOUZA, 2019, p. 100). O discurso que tenta responsabilizar os trabalhadores pelas

problemáticas econômicas do país parece naturalizado, sempre se pensa em cortar

direitos dos trabalhadores quando se quer beneficiar ainda mais aqueles que já

possuem privilégios.

24

Essa crescente distância entre estratos sociais e a forma intencional com que os

processos de avanço das estruturas socioeconômicas perpetuaram as desigualdades

condicionaram as camadas mais altas da sociedade a enxergar a ralé, nas palavras de

Jessé Souza, como uma ferramenta de trabalho para produzir e gerar lucro, oferecendo

o mínimo de direitos para que eles continuem a exercer seu papel,

Nem podia ser de outro modo no caso de um patronato que se formou

lidando com escravos, tidos como coisas e manipulados com objetivos

puramente pecuniários, procurando tirar de cada peça o maior proveito

possível. Quando ao escravo sucede o parceiro, depois o assalariado

agrícola, as relações continuam impregnadas dos mesmos valores, que se

exprimem na desumanização das relações de trabalho (RIBEIRO, 1995, p.

212).

A ideia de naturalização da desigualdade social deriva também da noção de que

essa estratificação construída historicamente é resultado da sua adoção como um

“negócio” que enobrece e privilegia uma elite, tornando-os dominadores, e que

degrada e subjuga os demais, encarados como objeto de enriquecimento. Mesmo com

avanços pontuais na melhora da vida dos mais vulneráveis, o Brasil não tem

conseguido se estruturar para garantir à população condições favoráveis de

sobrevivência e progresso. Pelo contrário, o que se intensifica são os privilégios de uma

pequena camada preocupada exclusivamente com interesses próprios.

A continuidade desse processo de construção e manutenção das desigualdades

sociais ao longo da história do país resulta para a sociedade, como afirma Ribeiro, em

“incompatibilidades insanáveis”, como “a incapacidade de assegurar um padrão de

vida, mesmo modestamente satisfatório, para a maioria da população nacional; a

inaptidão para criar uma cidadania livre” que expõe a fragilidade da base na qual foi

construído o sistema democrático brasileiro (1995, p. 218). Inclusive, isso se reflete na

política, na elegibilidade de representantes que muitas vezes se mostram adversários

das classes populares, mas que conseguem manipular e comprar votos dessa massa de

eleitores.

A perpetuação da desigualdade social e sua consequente naturalização também

derivam da reprodução, da transmissão familiar de ideologias, recursos e perspectivas

dentro das próprias classes sociais, que dificilmente se modificam ao longo da vida dos

indivíduos que as integram. Ou seja, “o privilégio de uns e a carência de outros são

decididos desde o berço” (SOUZA, 2019, p. 85).

Para Jessé Souza (2019), a partir de 1930, a elite passou a utilizar um

mecanismo construído de modo consciente e planejado para manter um “pacto

antipopular” que mistura aspectos racionais, como manutenção dos privilégios, e

irracionais, como ódio e ressentimento de classes. Por conta disso, é como se existisse

uma “lei da desigualdade”, invisível e silenciosa, que dita quem pode e quem não pode

ser rico, quem pode e quem não pode dominar na ordem social.

25

Assim, o Brasil se vê dividido, basicamente, em três estratos sociais: a elite,

composta por um pequeno número de pessoas mais ricas, a classe média, formada por

boa parte da população, e a classe popular, que conta com um número relevante de

indivíduos que vivem à margem da sobrevivência.

Na visão de Ribeiro (1995), existem quatro classes, denominadas “classes

dominantes”, “classe intermediárias”, “classes subalternas” e “classes oprimidas”. Essas

classes não poderiam ser colocadas numa estrutura triangular, mas sim de um losango,

com um topo finíssimo formado pela classe dominante, seguido por um número pouco

maior da classe intermediária, um pescoço que se alarga, representando trabalhadores

regulares e consumidores, e a linha mais ampla com a parte marginalizada da

população, a classe subalterna.

A classe dominante representa a mínima parcela da população e possui

efetivamente o poder sobre a sociedade, inclusive devido ao “apoio” das outras classes

(RIBEIRO, 1995). É aquela que, ao longo do tempo, possui o maior interesse em manter

os traços da desigualdade social.

Já a classe intermediária representa um quantitativo bem maior em relação à

dominante, normalmente tendo o papel de apaziguar ou intensificar tensões sociais, já

que possuem cargos que de alguma forma são relevantes socialmente, mas que,

apesar disso, não se preocupam em mudar o quadro social, e sim manter a ordem

vigente (Ibidem). Além disso, é a classe que mais ajuda a elite a se manter no poder e

perpetuar as desigualdades sociais, inclusive tentando tirar vantagem disso.

A classe subalterna e a oprimida formam a maior parte da população. A

primeira integra a vida social regular, tem empregos estáveis, faz parte do sistema

produtivo e consumerista, preocupando-se em defender o que já possui e obter mais,

sem que isso necessariamente seja uma forma de transformação social. Por fim, a

classe oprimida é o elo mais fraco da desigualdade social. Excluídos, que buscam fazer

parte do sistema produtivo e ter acesso ao mercado, são marginalizados, grande parte

julgados por sua raça (normalmente pretos e mulatos), com trabalhos informais e

recebendo o mínimo para o próprio sustento (Ibidem).

Com este panorama, é possível entender porque o maior enfoque da

desigualdade social brasileira é voltado para as questões socioeconômicas. Como bem

pontua Ribeiro, “a distância social mais espantosa do Brasil é a que separa e opõe os

pobres dos ricos” (1995, p. 219). Isso porque a renda é um fator que automaticamente

coloca os indivíduos como pertencentes a determinada classe e também os imprime o

rótulo de privilegiados ou oprimidos. Daí deriva uma cadeia de processos que mantêm

a “lei da desigualdade” em funcionamento, impossibilitando a ascensão da maioria da

população e ratificando a institucionalização desse sistema desigual.

26

3. Asdimensõesdasdesigualdades sociais no Brasil

É importante compreender os mecanismos de poder presentes na sociedade

brasileira que bloqueiam as formas de reação das classes dominadas e como elas

ocorrem em meio a um país que se diz democrático. A base para a desigualdade social

no Brasil foi formada por uma sucessão de atos e acontecimentos em favor da

naturalização do sistema de dominação e elitização da democracia. Portanto, torna-se

plausível estudar os discursos que buscam justificar e desmascarar a perpetuação das

desigualdades sociais no Brasil.

Dentre as proposições que justificam a desigualdade, cabe o relato daquelas

que se referem à herança deixada pelo passado colonial brasileiro, à que expõe o papel

do Estado e a influência da corrupção política, e a diferença e oportunidade de acesso

à educação de qualidade.

3.1. O passado que condena

A trajetória dos estudos sociológicos no Brasil– notadamente construída ao

longo do século XX por autores criticados por Jessé Souza, entre os quais Gilberto

Freyre, Buarque e Faoro– criou um tipo de culturalismo racista, ancorando um

pensamento sociológico de “vira-lata” e que muito desconhece as verdadeiras raízes

do drama da desigualdade. Para Souza, é na escravidão submetida ao país que se

apoiam as bases fundamentais da desigualdade social atual. A colonização é, portanto,

responsável por estabelecer hierarquia entre colonos e colonizados, exploradores e

explorados.

A cultura colonizadora dos portugueses, a escravidão e a exploração são as

raízes que desencadearam o processo histórico de práticas e princípios que geram a

desigualdade no país. Conforme esclarece Lopez, esse discurso

[...] associa a desigualdade atual à herança institucional e cultural do

passado remoto. A cultura dos colonizadores portugueses ou nascida da

escravidão é a raiz das práticas e valores que, hoje, geram as desigualdades.

É assim que a associação entre conceitos sociológicos como colonização de

exploração e patrimonialismo compõe o léxico das explicações das mazelas

brasileiras atuais, neste caso, herdadas dos portugueses (LOPEZ, 2020, p. 59)

A naturalização das hierarquias sociais derivadas do sistema de escravização do

povo foi determinante para que fosse disseminado a indiferença social em relação aos

pobres, o que Jessé Souza viria a denominar de “ódio ao pobre”. Esse sentimento aos

mais humildes, construído ao longo do tempo pela escravidão, estabeleceu uma

distinção clara entre “nós e eles”. Aos mais pobres cabe a reprodução do trabalho

realizado por seus ascendentes há 500 anos, braçal e menos remunerado, uma

escravidão doméstica. Pode-se concluir, portanto, que a escravidão só prosperou com o

ódio ao escravo, e que o Brasil de hoje é marcado não só pela sua exclusão, mas

também pela sua humilhação (SOUZA, 2017).

27

Ainda que muito dessa desigualdade inicialmente tenha mudado, com parcela

da população marginalizada conseguindo mobilidade social, com o reconhecimento da

dignidade da pessoa humana e dos direitos fundamentais inerentes, as transições

históricas pelas quais o Brasil passou jamais apagaram as desigualdades criadas

anteriormente. Discursos racistas, a estrutura de dominação, humilhação e opressão

escravocrata deixaram claros vestígios de ser a “herança maldita” que até hoje assola a

população mais vulnerável da sociedade brasileira (SOUZA, 2019).

3.2. O Estado e acorrupçãopolítica

Por essa justificativa, o Estado teria a culpa sobre a desigualdade social no país

devido à corrupção política perpetrada por seus agentes, governantes ou políticos. A

administração estatal e as políticas públicas são utilizadas como ferramentas para

desviar recursos públicos que deveriam ser direcionados a atender as necessidades do

povo e, com isso, amenizar as desigualdades.

Além disso, existe outro argumento que integra esse discurso e que está ligado

à distribuição dos recursos para pagar e beneficiar os agentes do Estado. Segundo

Lopez, “a variação do argumento é relacionar a desigualdade às remunerações e aos

benefícios materiais do cargo político, percebido como via complementar para

apropriação indevida de recursos públicos” (2020, p. 59).

Ocorre que esse discurso já foi muito criticado, pelo fato de se considerar que

essa corrupção deriva da herança cultural maldita deixada pelos portugueses, sem se

pensar sobre outros agentes que atuam “silenciosamente” para interferir no Estado. É

nesse ponto que se encaixa o termo justificativo para as mazelas políticas, o famoso

“jeitinho brasileiro” de conseguir as coisas. Jessé Souza esclarece que esse termo se

refere ao “capital social de relações pessoais”, que foi naturalizado devido à sua

repetição e fácil explicação para as práticas sociais vantajosas. Assim, o termo se

tornou tão comum, que passou a ser “pensado como algo generalizável para todos os

brasileiros de todas as classes” (SOUZA, 2019, p. 86-87).

A crítica do autor vem desmascarar justamente esse ponto. Os problemas do

país seriam oriundos de seu processo de colonização que resultou na influência da

elite, do setor privado e do mercado nas instituições. O chamado “jeitinho brasileiro”

acaba por encobrir algo essencial na conclusão do raciocínio: a escravidão é a raiz das

grandes disparidades existentes e responsável por impedir as transformações

necessárias.

Para Darcy Ribeiro, a lentidão dos processos revolucionários no Brasil é por

culpa da resistência das classes dominantes, independente da estrutura arcaica e do

atraso econômico que isso provoca.

28

A mais grave dessas continuidades reside na oposição entre os interesses do

patronato empresarial, de ontem e de hoje, e os interesses do povo

brasileiro. Ela se mantém ao longo de séculos pelo domínio do poder

institucional e do controle da máquina do Estado nas mãos da mesma classe

dominante, que faz prevalecer uma ordenação social e legal resistente a

qualquer progresso generalizável a toda a população. Ela é que regeu a

economia colonial, altamente próspera para uma minoria, mas que

condenava o povo à penúria. Ela é que deforma, agora, o próprio processo

de industrialização, impedindo que desempenhe aqui o papel transformador

que representou em outras sociedades (RIBEIRO, 1995, p. 250).

Florestan Fernandes (2006), com o mesmo pensamento, afirma que, no período

de transição para a independência brasileira, o Estado se mostrou desde o início como

o alvo das elites e como uma entidade que poderia ser manipulável com vista à sua

adaptação aos seus interesses econômicos, inclusive para implantação da política do

liberalismo.

Na fase de transição, as elites nativas encaravam o Estado, naturalmente,

como “meio” e “fim”: “meio”, para realizar a internalização dos centros de

decisão política e promover a nativização dos círculos dominantes; e o “fim”

de ambos os processos, na medida em que ele consubstanciava a

institucionalização do predomínio político daquelas elites e dos “interesses

internos” com que elas se identificavam (FERNANDES, 2006, p. 53).

Por outro lado, não seria possível perpetuar a tese de que essa corrupção do

Estado é devido a uma transmissão cultural dos portugueses. Para Souza, isso é apenas

uma construção fantasiosa do culturalismo racista que supõe uma “continuidade

cultural com Portugal” que é transmitida de forma automática, como “um código

genético”. Na verdade, os indivíduos são formados de acordo com as instituições que

os rodeiam, como família, escola, economia, política e mercado (SOUZA, 2019, p. 39).

É a partir dessa dominação e exploração mascarada do Estado pelas elites que

surge a definição da política nacional como patrimonialista, isto é, o Estado brasileiro

foi montado sob a imagem do homem cordial, que não distingue o público do privado.

Este é o ponto em que o Estado é demonizado e o mercado poupado, como se deste

nada de mal viria, porém, numa sociedade capitalista, quem detém o poder é

justamente o mercado.

Criticando a visão de Sérgio Buarque sobre esse patrimonialismo de uma elite

derivada da herança portuguesa, Jessé Souza afirma que isso esconde a verdadeira

elite do mercado que controla o aparato estatal, inclusive com poder de colocar sua

chefia sob políticos que protejam seus interesses.

Como a elite que vampiriza a sociedade está, segundo ele, no Estado,

abre-se caminho [...] para uma concepção do mercado que é o oposto do

Estado corrupto. Com isso, não só o poder real, do mercado e dos

endinheirados, é tornado invisível, como o Estado é tornado o suspeito

preferido [...] de todos os malfeitos. Essa ideia favorece os golpes de Estado

baseados no pretexto da corrupção seletiva, mote que sempre é levado à

baila quando o Estado hospeda integrantes não palatáveis pelo mercado

ávido de capturá-lo apenas para si (SOUZA, 2019, p. 33).

29

Nesse ponto, a corrupção do Estado passa a ser a corrupção do e para o

mercado, tornada invisível para não mostrar os verdadeiros culpados, que manipulam

legal e ilegalmente a máquina pública em favor dos seus interesses.

Por outro lado, observa-se também a dificuldade que as classes mais oprimidas

têm de influenciar nas decisões políticas as quais tendem a afetar seu próprio destino e

concepções pessoais. Para Costa, isso se materializa justamente “nas distribuições

assimétricas dos direitos políticos e sociais” (2019, p. 57).

As classes vulneráveis, apesar de muito terem avançado em termos de

conquista de direitos humanos, de cidadania, trabalho, entre outros, ainda

permanecem à mercê de uma posição socioeconômica desigual, que não os permite

uma proteção contra as mazelas que o sistema de poder criou para manter inacessíveis

as oportunidades e privilégios. Esse quadro também é reflexo do sistema de educação

brasileiro e da grande disparidade de qualidade entre o ensino público e privado, como

será discutido no tópico a seguir.

3.3. A disparidade entre níveis e oportunidades

educacionais

Em sua obra mais aclamada, O capital no século XXI, Thomas Piketty afirma que

“No longo prazo, a força que de fato impulsiona o aumento da igualdade é a difusão do

conhecimento e a disseminação da educação de qualidade” (2014, p. 29). As palavras

do autor nos indicam que a educação ocupa lugar importante na determinação da

desigualdade, pois é a partir dela que se vislumbra a possibilidade de mobilidade social

e participação do mercado. Contribuindo com o tema, Lopez entende que a educação é

um fator associado à empregabilidade e poder aquisitivo, pois a “educação é o meio

para ampliar as oportunidades de emprego e renda” (2020, p. 60).

O palco forjado para justificar as disparidades educacionais normalmente é

relacionado à meritocracia, segundo a qual as posições sociais são resultado de

conquistas pessoais dos indivíduos e não de fatores sociais externos. O argumento é

aprimorado quando se diz que as pessoas deixam a escola por futilidades e desleixo,

que não aproveitam as oportunidades que a vida oferece.

Não é preciso ir muito longe para desmascarar esse discurso: veja-se a

diferença entre a classe média e a classe oprimida. Geralmente, a primeira desde cedo

é estimulada pela família a adquirir capital intelectual e focar nos estudos. Todo o seu

tempo é dedicado àquilo que lhe permitirá o sucesso escolar e profissional, mantendo

a cultura da sua classe, já que “todas as vantagens culturais e econômicas se juntam,

mais tarde, para a produção, desde o berço, de um campeão na competição social”

(SOUZA, 2020, p. 91).

Por outro lado, a classe oprimida, em sua maioria constituída por uma família

desestruturada, ainda que insista na educação como forma de escapar à pobreza, não

30

é isso que a criança percebe, afinal, não funcionou para seus pais. Além disso, muitas

dessas crianças ainda novas passam a trabalhar informalmente para complementar a

baixa renda familiar e, consequentemente, não há prioridade para os estudos e para a

formação crítica sobre sua realidade, o que impossibilita enxergar qualquer melhoria

de vida. “São produzidos, nesse contexto, seres humanos com carências cognitivas,

afetivas e morais, advindo daí sua inaptidão para a competição social” (SOUZA, 2019,

p. 93).

Sobre outra perspectiva, a desigualdade atrelada à educação se conecta ao

quadro de corrupção do país, que reduz as oportunidades que poderiam ser criadas a

partir de políticas públicas de qualidade, mas que, ao invés disso, sofrem com os

desvios de recursos públicos e com o sucateamento das escolas e da educação pública.

A disparidade dos níveis e da qualidade educacional entre classes podem explicar a

desigualdade, mas esse problema resulta, em parte, por conta da corrupção política.

Assim, sem conseguir mobilidade social, a classe oprimida continua pobre e

vivendo à margem da sociedade, enquanto as classes mais abastadas podem pensar e

moldar seu futuro, já que vivem se dedicando para obter conhecimento.

À pobreza econômica foi acrescentada a pobreza em todas as outras

dimensões da vida. Se a pobreza econômica, por exemplo, implica foco no

aqui e no agora por conta das urgências da sobrevivência imediata, toda a

atenção se concentra necessariamente no presente e nunca no futuro, posto

que é incerto. Por outro lado, olhar para o futuro é o que constrói o

indivíduo racional moderno, que sopesa suas chances e calcula

constantemente onde deve investir seu tempo e suas habilidades. A prisão

no aqui e no agora tende a reproduzir no tempo, portanto, a carência do

hoje, e não a saída para um futuro melhor (SOUZA, 2019, p. 93).

Isso condiz com a manutenção da desigualdade, pois a educação é um caminho

para sua correção, e criar oportunidades de igualdade educacional seria um passo para

romper com a estrutura social de dominação, distribuindo mais o capital econômico e

cultural, o que não é desejável pelas elites.

3.4. A concentração de riqueza e o sistema econômico

A má distribuição de renda, com a concentração de maior parte das riquezas

nas mãos de pouquíssimos e a maior parte da população tendo o mínimo para

sobreviver, é mais um dos fatores que justificam a desigualdade social brasileira.

Obviamente, mais renda significa melhor moradia, mais acesso à assistência médica,

mais acesso à educação, lazer e tantas outras condições de vida melhores.

Outrossim, o sistema econômico brasileiro foi sendo moldado e naturalizado à

estrutura de classes derivada da sociedade colonial que, ao longo de seu processo

histórico, foi firmando os obstáculos de ordem social, ideológica, política e cultural

para impedir a mobilidade social das classes oprimidas. Isso se perpetuou e

intensificou com a implantação e expansão do sistema capitalista desde a revolução

burguesa que, conforme Fernandes, construiu uma ordem social provinda da opção

31

dessa classe “por um tipo de capitalismo que imola a sociedade brasileira às

iniquidades do desenvolvimento desigual interno e da dominação imperialista externa”

(2006, p. 353).

Esse é o mesmo sistema capitalista que ainda hoje preza pelo lucro acima de

tudo e ao custo de explorar uma mão-de-obra barata, oprimida, miserável e resignada

com seu destino, com a pobreza, com o desrespeito aos direitos e o tratamento

desumano. Como bempontua Florestan Fernandes:

Parece incrível que esse tipo de opressão sistemática possa existir nos dias

atuais; e, mais ainda, que ela e os terríveis mecanismos de repressão a que

precisa recorrer possam ser conciliados com os ideais igualitários, de

respeito à pessoa humana, aos direitos fundamentais do homem e ao estilo

democrático de vida” (FERNANDES, 2006, p. 353).

Outro ponto é que o sistema econômico brasileiro legaliza políticas públicas que

buscam diminuir as disparidades sociais, ao mesmo tempo que cria outras que as

amplifica, tendo como exemplo, principalmente, políticas tributárias regressivas que

pesam excessivamente sobre os pobres, mas que não afetam na mesma medida os

ricos e ainda os beneficia.

Evidentemente, isso pode ser associado ao que foi visto no tópico sobre o

Estado e a corrupção política, pois, mais uma vez, o sistema econômico é corrompido e

utilizado como um mecanismo de controle da estratificação social e da perpetuação da

distribuição desigual da renda pelas classes dominantes que, notadamente, reflete nas

outras esferas da desigualdade social.

4. Aselites e seu papel sobre a desigualdade

Uma coisa pode ser notada a partir do que foi dito até aqui: a elite aparece por

qualquer ângulo que se estude a questão da desigualdade social no Brasil, e, além

disso, consegue se tornar uma manipuladora invisível da “lei da desigualdade”. Sua

denominação variou ao longo do processo histórico de construção da estratificação

social: colonizador, senhorio, burguesia, elite etc., sempre aqueles que pertenciam às

classes sociais mais altas e que detinham algum poder sobre a estrutura social vigente.

É possível notar também que as instituições públicas, com destaque para o

Estado, serviram de panaceia para encobrir as forças das classes dominantes sobre a

estrutura social do país, que atuaram, além de escultoras de sua própria prosperidade,

como “reitora do processo de formação do povo brasileiro. Somos, tal qual somos, pela

fôrma que ela imprimiu em nós, ao nos configurar, segundo correspondia a sua cultura

e a seus interesses” (RIBEIRO, 1995, p. 178). No mesmo sentido é a observação de

Florestan Fernandes:

32

Dessa forma, as classes e os setores de classes burguesas podiam aproveitar,

estrutural e dinamicamente, as vantagens de sua condição de minoria, ou

seja, dos ‘pequenos números’, utilizando tais vantagens de modo consciente,

deliberado e organizado. Essa concentração e essa centralização do poder

real processavam-se, simultaneamente, em dois níveis: o das relações

diretas de classes; e o de dominação de classe mediada pelo Estado nacional

(FERNANDES, 2006, p. 391).

Para Jessé Souza, a elite que habita o Estado, apesar de possuir sua influência

sobre o quadro social brasileiro, não é ainda aquela que dita as regras. Foi dada toda a

atenção sobre o patrimonialismo para que se acobertasse a verdadeira corrupção. A

lógica mercadológica capitalista e a verdadeira elite manipuladora estão fora do

Estado: a mídia. A elite do atraso é, portanto, uma elite que controla as mídias e,

através dela, manipula a classe média, movendo as peças do jogo político de acordo

com seus interesses (SOUZA, 2019).

Cabe ainda mencionar que a dominação da elite, na visão de Jessé de Souza,

ocorreu, durante todo o seu processo, através da criação e propagação de ideias e pela

força das instituições sociais. De umas décadas para cá, a principal ferramenta utilizada

pela elite para manipular e distribuir essas ideias foi a mídia (programas de tv,

imprensa, editoras, jornais etc.). Este seria o poder simbólico que esconde a

responsabilidade da elite e de seus instrumentos, que ficam invisíveis e nunca são

trazidos à luz, assim como deslegitima qualquer ação ou ideia que tenha a ver com

demandas populares (Ibidem).

Além da mídia, há um outro elemento que pode ser visto como mais uma

vítima desse sistema, mas que também possui responsabilidade pela ampliação e

manutenção da desigualdade social: a classe média (Ibid.). Ela que se apresenta como

“capataz” da elite, se organiza, controla e difunde ideias e valores de vida, que também

é manipulada pela mídia, que tem interesse de manter seus privilégios, eleger seus

políticos e se incomoda com ampliação do acesso à cultura, ao lazer, ao ensino, à

política, enfim, com a possibilidade de compartilhar oportunidades com menos

desigualdade.

Dessas conjunções e manipulações sociais, econômicas, culturais e políticas,

derivam o atraso brasileiro em relação aos princípios de uma sociedade democrática,

na qual a maior parte da população não tem, na realidade, a liberdade de ser ou ter o

que quiser, senão indo contra todo um sistema montado para dificultar ou impedir que

o faça. É interessante destacar o que aponta Darcy Ribeiro:

O ruim aqui, e efetivo fator causal do atraso, é o modo de ordenação da

sociedade, estruturada contra os interesses da população, desde sempre

sangrada para servir a desígnios alheios e opostos aos seus. Não há, nunca

houve, aqui um povo livre, regendo seu destino na busca de sua própria

prosperidade. O que houve e o que há é uma massa de trabalhadores

explorada, humilhada e ofendida por uma minoria dominante,

espantosamente eficaz na formulação e manutenção de seu próprio projeto

de prosperidade, sempre pronta a esmagar qualquer ameaça de reforma da

ordem social vigente (RIBEIRO, 1995, p. 452).

Assim, os traços de poder de uma minoria elitizada sempre irradiaram por

todos os níveis de organização da sociedade, dependendo dela o avanço ou o colapso

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do sistema. Essa elite não quer, e não pode, sem se destruir, renunciar aos privilégios e

vantagens do controle social, econômico, cultural e político, e do controle sobre as

classes e instituições.

5. Considerações finais

O surgimento da desigualdade social no Brasil e seu processo de naturalização

iniciou-se com a colonização do país e, consequentemente, com a escravidão. As elites

conseguiram, ao longo da nossa história, fortalecer seus poderes e exercer cada vez

mais influência sobre as instituições, das quais o Estado foi o principal alvo e

ferramenta para manter o controle da ordem social e, mais tarde, para acobertar a elite

em sua empreitada de manipulação da esfera pública em favor de seus próprios

interesses e do mercado.

Observa-se que a naturalização levou séculos, mas tem cumprido seu objetivo

de manter a estratificação social e criar uma cultura de menosprezo sobre as classes

vulneráveis. O desinteresse, e mais do que isso, a necessidade da distribuição desigual

e injusta de educação, cultura, renda, trabalho, oportunidades e tantos outros fatores,

ajudam na manutenção da desigualdade e criam a perspectiva de impossibilidade de

mobilidade social.

A mídia também é usada como ferramenta de propagação de ideias que

atendam ao interesse da minoria dominante. Além disso, há o papel da classe média

de atuar como intermediária entre a classe pobre e a elite, geralmente favorecendo

aos interesses desta para manter os seus distantes daquela.

O que se percebe é que são pouquíssimas as chances de reforma da ordem

social vigente, já que, como demonstrado, a elite sempre esteve pronta para impedir

qualquer ameaça a sua estrutura de poder e dominação sobre as demais classes. Essa

seria a forma como funciona e prospera silenciosamente a evidente e histórica

disparidade de classes que impede a construção de uma sociedade mais justa.

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concedida a Amanda Massuela. Revista Cult (online). São Paulo: Bregantini, 2017.

Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/jesse-souza-a-elite-do-atraso/.

Acesso em: 14 set. 202. O artigo do autor Juber MarquesPacífico1 na Revista Ensaios.

E as elites brasileiras. Por meio de certos candidatos a Presidencia da República. Seguem negando aos brasileiros seus direitos sociais. Previstos na Constiotuição Federal. 

Confira a noticia no Portal G1 da Redev Globo .      https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/09/19/salario-minimo-e-aposentadoria-propostas-candidatos-presidente.ghtml

E assim caminha a humanidade.  

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