quarta-feira, 3 de junho de 2026

Todos perdem

 

As políticas tarifárias agressivas adotadas pelo governo de Donald Trump geram profundos debates globais, e analistas avaliam que elas correm o risco de isolar os Estados Unidos economicamente ao afastar parceiros históricos e incentivar a criação de blocos de comércio alternativos. A aplicação de um "paredão" de taxas contra mais de 60 nações e blocos econômicos — incluindo potências como a União Europeia, China, Canadá, México e Brasil — redesenha as cadeias globais de suprimentos e desgasta a diplomacia comercial de Washington. 

O Impacto das Novas Tarifas da Gestão Trump

Paredão Tarifário Global: O Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) propôs novas sobretaxas alegando a ineficácia de parceiros em fiscalizar a proibição de produtos feitos com trabalho forçado. 


Alvos Amplos: A lista engloba mercados essenciais para os americanos, como Reino Unido, Austrália, Japão, Coreia do Sul e economias latino-americanas. 


Pressão contra o Brasil: O governo Trump anunciou investigações sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, sugerindo uma taxação de 25% com base em críticas à segurança jurídica (decisões sobre redes sociais), atuação do Banco Central sobre o Pix, desmatamento ilegal e barreiras ao etanol. 


Conflito com Vizinhos: Barreiras quase universais foram assinadas logo no início do mandato contra o Canadá e o México, as principais fronteiras de abastecimento dos EUA. 


Argumentos de que a Estratégia Isolará os EUA

Retaliação em Cadeia: Nações atingidas tendem a impor barreiras de resposta aos produtos agrícolas e industriais americanos, reduzindo o mercado global para as empresas dos EUA.


Aceleração de Blocos Alternativos: Entidades como a FecomercioSP apontam que a agressividade americana acelera a união de outros mercados, estimulando a conclusão rápida de acordos comerciais sem a participação de Washington, como o tratado entre o Mercosul e a União Europeia.


Insegurança de Investimentos: O uso de sanções e pressões tarifárias para interferir em políticas soberanas locais — como o Pix no Brasil — gera desconfiança sobre a estabilidade de manter relações diretas com o mercado estadunidense.


Inflação Interna: O encarecimento de insumos importados força indústrias e consumidores americanos a pagarem mais caro, reduzindo a competitividade global das próprias fábricas dos EUA. 


Visão Defendida pelo Governo Americano

Proteção do Trabalhador: O governo Trump afirma que as tarifas não visam o isolamento, mas sim o estabelecimento de um "campo de jogo nivelado", alegando que os trabalhadores americanos não podem competir com países que toleram disparidades ou práticas laborais desleais.


Uso como Moeda de Troca: A Casa Branca enxerga o tarifaço como uma ferramenta legítima de pressão geopolítica. A estratégia prevê a abertura de consultas públicas e prazos de negociação para forçar os outros países a realizarem concessões de mercado.


Isenções Estratégicas: Para evitar o desabastecimento completo e conter danos internos diretos, o diário oficial americano incluiu uma extensa lista de exceções para poupar itens essenciais que não são produzidos nos EUA, como carnes, café, celulose, fertilizantes e peças aeroespaciais. 


As tarifas de importação implementadas pelo governo de Donald Trump aumentam a inflação e o custo de vida nos Estados Unidos porque funcionam como um imposto direto pago pelas empresas americanas importadoras, que gradualmente repassam esse custo adicional para o preço final cobrado dos consumidores. 

O mecanismo desse impacto econômico ocorre por meio dos seguintes fatores:

Repasse direto de custos ao consumidor 

Embora o discurso político sugira que os países estrangeiros pagam as tarifas, quem recolhe a taxa na alfândega são as empresas sediadas nos EUA. Quando os estoques antigos comprados antes das taxas se esgotam, as empresas perdem a capacidade de absorver os custos em suas margens de lucro e aumentam os preços. Gigantes do varejo como a Walmart e a Amazon confirmaram a necessidade de repassar essa diferença, elevando os preços de itens cotidianos como roupas, calçados e eletrodomésticos. 

Encarecimento de insumos e produtos básicos

Bens de consumo: Alimentos e produtos importados essenciais sofrem reajustes significativos. Estudos de preço indicam altas em itens como o café, pescados e vestuário. 


Matérias-primas: Tarifas sobre aço, alumínio e componentes automotivos aumentam o custo de produção de indústrias locais. Por exemplo, o custo de construção de novas moradias sobe devido ao encarecimento de materiais importados, pressionando o setor imobiliário. 


Redução da concorrência interna

Ao taxar e encarecer os produtos estrangeiros, os fabricantes domésticos dos EUA ganham espaço para também aumentar seus próprios preços. Sem a pressão competitiva de concorrentes internacionais mais baratos, a indústria local ajusta suas tabelas para cima, eliminando opções de baixo custo para o consumidor. 

Impacto desproporcional nas famílias de menor renda 

O tarifaço funciona como um imposto regressivo. Famílias de classe média e baixa gastam uma porcentagem muito maior de seus rendimentos mensais em bens de consumo afetados pelas tarifas (como alimentos e vestuário) do que as famílias ricas. Análises econômicas estimam que as tarifas adicionam um custo extra médio que varia de US$ 1.000 a US$ 2.400 por ano por residência americana

Pressão sobre os juros (Federal Reserve)

O aumento da inflação decorrente das tarifas obriga o Banco Central dos EUA (Federal Reserve ) a manter as taxas de juros elevadas por mais tempo para tentar frear o consumo. Juros altos encarecem o crédito, financiamentos imobiliários e parcelamentos de cartões de dívida, elevando ainda mais o custo de vida geral da população. 


No espectro político , as distinções entre 

esquerda, direita e centro são essenciais em   visões divergentes sobre igualdade social, economia e o papel do Estado. 

1. Esquerda

Foca na promoção da igualdade social e na redução das desigualdades econômicas por meio da intervenção estatal. 

Economia: Defende o fortalecimento de serviços públicos e programas de bem-estar social.

Pautas: Direitos das minorias, proteção ambiental e regulação do mercado.

Partidos no Brasil (Exemplos): O PT , PSOL e PCdoB. 

2. Direita

Prioriza a liberdade individual, a preservação de tradições e a eficiência do mercado. 

Economia: Apoia o livre mercado, a propriedade privada, o Estado reduzido e privatizações.

Pautas: Segurança pública rigorosa, conservadorismo nos costumes e mérito individual.

Partidos no Brasil (Exemplos): PL, Novo  e Republicanos. 

3. Centro

Posiciona-se como um equilíbrio  entre as esses espectros ,  buscando conciliar o crescimento econômico e constitucionalidade .

Frequentemente atua como uma força de equilíbrio no Congresso, podendo apoiar governos de diferentes ideologias na  governabilidade ou determinadas pautas .

Visa o Pragmatismo político, defesa da democracia liberal e reformas graduais.

Partidos no Brasil (Exemplos): MDB, PSD e União Brasil. 

As articulações para as eleições presidenciais de 2026 mostram uma direita e centro-direita buscando união, enquanto a esquerda mantém sua base . Mas não dialoga fora da sua base social . A polarização acaba empurrando os partidos de centro para a neutralidade e o fisiologismo .



A principal diferença entre a direita e a extrema direita reside na aceitação do pluralismo democrático e na intensidade de certas pautas ideológicas. Enquanto a direita tradicional atua dentro das instituições vigentes, a extrema direita frequentemente adota posturas antissistema ou de exclusão de minorias

Direita Convencional

A direita moderada ou liberal-conservadora foca na manutenção da ordem social e na liberdade econômica, respeitando as regras democráticas. 

Economia: Defesa do livre mercado, privatizações e redução do papel do Estado.

Sociedade: Fomento a valores tradicionais e à hierarquia social, mas convivendo com a diversidade política.

Política: Atuação por meio de partidos tradicionais e respeito às instituições democráticas. 

A extrema direita radicaliza os princípios da direita e pode apresentar traços autoritários. 

Nacionalismo Radical: Defesa de uma identidade nacional "pura", muitas vezes com viés chauvinista ou xenófobo.

Antissistema: Críticas severas às instituições democráticas e ao pluralismo, frequentemente promovendo lideranças fortes que se colocam como "outsiders".

Rejeição de Minorias: Discursos que marginalizam grupos específicos (imigrantes, minorias religiosas ou raciais) sob a justificativa de preservar a cultura nacional.

Exemplos Históricos e Atuais: Inclui desde o fascismo histórico até movimentos contemporâneos que adotam táticas de polarização extrema e contestação da legitimidade de adversários. 

Quando extremistas governam Superpotencias . Como Donald Trump nos Estados Unidos E direita e extrema direita se cacifam politicamente . O mundo fica a beira de recessão global .      Confira a reportagem no UOL .https://noticias.uol.com.br/colunas/janaina-figueiredo/2026/06/03/greer-diz-a-mauro-vieira-que-eua-querem-intensificar-negociacao-com-brasil.htm. E assim caminha a humanidade
Imagem do UOL.

Direito do Comércio Internacional .

  

 Direito do Comércio Internacional 

Delimitação, características, autorregulação, 

harmonização e unificação jurídica e Direito Flexível

Leila Bijos é professora 

do Programa de 

Mestrado stricto 

sensu em Direito 

Internacional, 

Econômico e Tributário 

da Universidade 

Católica de Brasília.

João Rezende Almeida 

Oliveira é professor do 

Programa de Mestrado 

stricto sensu em 

Direito Internacional, 

Econômico e Tributário 

da Universidade 

Católica de Brasília.

Leonardo Garcia 

Barbosa é mestrando 

em Direito pela 

Universidade Católica 

de Brasília.

1. Introdução

O presente artigo trata dos temas introdutórios do Direito do Comércio Internacional. São examinadas: a delimitação do Direito do Comércio Internacional e suas perspectivas de abordagem; as características 

principais do Direito do Comércio Internacional, entre elas a pluralidade 

de participantes; a autorregulação do mercado em relação ao papel do 

Estado; os mecanismos de codificação internacional, de harmonização e 

unificação jurídica, tendo em vista um Direito do Comércio Internacional 

plurinacional; e os diferentes tipos de Direito Flexível.

2. Delimitação do Direito do Comércio Internacional

O Direito Econômico Internacional, do qual o Direito do Comércio 

Internacional é parte, é um ramo recente do Direito e tem-se desenvolvido acentuadamente nas últimas décadas. Ele envolve a organização dos 

intercâmbios econômicos e financeiros entre os Estados, com a presença 

de importantes organismos internacionais de cooperação econômica e 

Sumário

1. Introdução. 2. Delimitação do Direito do Comércio Internacional. 

3. Características principais do Direito do Comércio Internacional. 4. 

Autorregulação do comércio internacional. 5. Codificação internacional, 

harmonização e unificação jurídica. 6. Direito Flexível no âmbito do 

Direito do Comércio Internacional. 7. Conclusão.

250 Revista de Informação Legislativa

comercial, entre eles a Organização Mundial 

do Comércio (OMC), que representa relevante 

mecanismo de solução de controvérsias. Os 

limites à regulação do comércio internacional 

pelos Estados, estabelecidas nos acordos da 

OMC, favorecem as empresas ao garantir a 

previsibilidade e a equidade nos negócios internacionais (TIMM; RIBEIRO; ESTRELLA, 

2009, p. 110). O Direito Econômico Internacional também intervém na regulamentação 

do mercado internacional, institucionalizando 

princípios e diretrizes orientadoras, além de 

regras positivas e concretas. Como se verá, há 

uma dependência relevante entre o Direito do 

Comércio Internacional e o Direito Econômico 

Internacional, ainda que o Direito do Comércio 

Internacional manifeste de forma acentuada seu 

caráter privado.

Entre os setores de especial relevância para 

o Direito do Comércio Internacional, podemos 

destacar a proteção dos direitos de propriedade 

intelectual, a regulação das empresas transnacionais, as regras de contratação internacional 

em geral, especialmente os contratos de compra 

e venda internacional. Para que se compreenda o mercado internacional, é preciso que se 

estudem os seus instrumentos de proteção, 

principalmente as regras de livre concorrência, 

com destaque para as regras de autorregulação, 

que garantem a prevalência da autonomia da 

vontade.

Já existem algumas perspectivas para a abordagem do Direito do Comércio Internacional, 

entre elas a da lex mercatoria, a normativista, 

a do Direito especial em virtude de suas normas, a de codificação do Direito do Comércio 

Internacional e a que dá destaque ao conjunto 

de normas jurídicas que regem o comércio 

internacional.

A perspectiva da lex mercatoria enfatiza 

o caráter histórico do Direito do Comércio 

Internacional, ao destacar que ele é um Direito 

criado e elaborado pelos próprios comerciantes, 

sem a participação do Estado e fundado fortemente no princípio da autonomia da vontade. 

Os comerciantes formulam as regras e preveem 

mecanismos de solução de controvérsias consistentes na arbitragem comercial internacional.1

A lex mercatoria medieval surge num momento 

em que não havia a organização estatal responsável pela estruturação, controle e intervenção 

no comércio internacional, dado seu evidente 

interesse público e social. A lex mercatoria é caracterizada por seu caráter transnacional, pelos 

usos e costumes no comércio, pela utilização de 

tribunais arbitrais do comércio, pela informalidade e rapidez e, sobretudo, pela consideração 

da boa-fé na atividade comercial.

A perspectiva normativa reclama distinção 

entre atos civis e atos de comércio, incluindo a 

resolução de conflitos derivados de atividades 

comerciais no âmbito do Direito do Comércio 

Internacional. A caracterização do Direito do 

Comércio Internacional como uma espécie 

de Direito especial, por sua vez, esbarra na 

insuficiência de suas normas, muitas vezes não 

contando com regulamentação específica para 

diversas realidades.

A perspectiva de codificação do Direito 

do Comércio Internacional, levada a efeito 

por um órgão codificador da Organização das 

Nações Unidas (ONU), denominada United 

Nations Comission on International Trade Law

(Uncitral), responsável pela efetivação de um 

Direito uniforme, encontra dificuldades, pois 

seu desenvolvimento depende da elaboração 

legislativa de um único órgão, esquecendo-se 

dos problemas específicos surgidos nas mais 

diferentes localidades.

1 A Corte Internacional de Arbitragem da Câmara de 

Comércio Internacional possui 92 Comitês Nacionais e 

opera em 127 países (WALD; LEMES, 2011, p. 13).

Ano 50 Número 197 jan./mar. 2013 251

A delimitação do Direito do Comércio Internacional implica considerá-lo um conjunto 

de normas oriundas do Estado, de tratados 

internacionais, de regramentos privados e de 

usos e costumes internacionais, aplicáveis ao 

comércio internacional praticado por entidades 

privadas localizadas em Estados diferentes.

3. Características principais do Direito 

do Comércio Internacional

A pluralidade de participantes é uma característica do Direito do Comércio Internacional. Os participantes da ordem comercial 

internacional são pessoas jurídicas denominadas empresas transnacionais, as empresas 

estatais de forte influência dos governos e as 

sociedades mercantis constituídas por tratados 

internacionais.

Outra característica do Direito do Comércio 

Internacional são os seus procedimentos de produção normativa. Ela é fortemente influenciada 

por fontes internacionais, especialmente as do 

Uncitral e da Câmara de Comércio Internacional de Paris. As regras internas e os usos e 

práticas mercantis são também fontes do Direito 

do Comércio Internacional.

A consolidação de usos e costumes do 

comércio internacional em documentos internacionais colabora para a institucionalização da 

lex mercatoria, de que é exemplo o Convênio 

de Viena de 1980 sobre a venda internacional 

de mercadorias.2

 Os usos e costumes internacionais, muitas vezes, afastam-se das regras 

internas do comércio internacional, evidenciando uma tendência desnacionalizadora 

do Direito do Comércio Internacional, sem 

afastar de todo o papel do Estado, característica da idade medieval. Comparativamente às 

2 A Convenção ainda não foi ratificada pelo Brasil 

(TIMM; RIBEIRO; ESTRELLA, 2009, p. 82).

ordens jurídicas nacionais, as regras de Direito 

do Comércio Internacional ainda apresentam 

muitas lacunas e são menos seguras, porque 

apresentam imperfeições decorrentes do seu 

desenvolvimento recente.

Uma das características do Direito do Comércio Internacional são as técnicas de regulamentação. São modestos ainda os empenhos a 

favor de uma unificação material da regulamentação das transações comerciais internacionais 

que supere a unificação de normas de conflito. 

As normas materiais de determinado tratado 

aplicam-se segundo os critérios de aplicação 

nele estabelecidos. No caso de lacunas, as 

soluções conflituais do Direito Internacional 

Privado desempenham papel relevante.

4. Autorregulação do comércio 

internacional

A autorregulação do comércio internacional 

tem desenvolvido respostas jurídicas concretas para as necessidades do mercado. Há um 

conjunto de normas cada vez mais numeroso 

à margem do Estado. O comércio, contudo, 

requer um marco institucional caso não se 

possa constituir determinado mercado somente 

mediante intrumentos econômicos, além da 

adequação em muitos casos de algumas formas 

de protecionismo. O livre mercado implica 

reorientação dos poderes públicos, que passa a 

ocupar-se de assegurar a livre concorrência e a 

adequada prestação dos serviços públicos por 

empresas privadas.

O equilíbrio entre o Estado e o mercado 

implica um mercado eficaz e produtivo e um 

Estado que não deve perder seu tradicional 

protagonismo. As recentes crises financeiras 

internacionais mostram o colapso de um 

comércio internacional sem Estado. A mundialização e a privatização na economia não 

geraram um sistema mundial autorregulado à 

252 Revista de Informação Legislativa

margem dos Estados. A soberania nacional e o papel do Estado como ator 

das relações internacionais, contudo, têm diminuído progressivamente. 

As agências estatais independentes são criadas sem valoração ideológica 

e não têm legitimidade representativa alguma. As instituições privadas 

de classificação de risco atuam à margem do Estado e têm ganhado 

importância a cada dia. Os órgãos independentes do setor privado, 

como o International Accounting Standards Committee (IASC), tem 

criado normas uniformes para empresas e governos. Cada vez mais, a 

arbitragem comercial internacional é uma alternativa em relação aos 

tribunais estatais.

Os negociadores comerciais reconhecem a importância de incluir o 

setor empresarial, por meio de suas associações, no planejamento das 

negociações no sistema multilateral de comércio. O tempo de impacto 

entre a celebração do acordo internacional e seu impacto nos negócios 

cotidianos tem diminuído. As associações comerciais tomam a iniciativa 

de elaboração de instrumentos reguladores do comércio internacional 

com o objetivo de assegurar segurança em contraposição aos legisladores 

nacionais que dificultam a rapidez, a segurança e a confiança inerentes à 

atividade comercial, além de gerar incertezas.

A Câmara de Comércio Internacional (CCI), criada em 1919, é a 

manifestação mais evidente da sociedade de comerciantes. Ela é uma 

organização não governamental constituída de mais de sete mil membros 

de cento e trinta países. As regras e os procedimentos estabelecidos pela 

CCI são respeitados em milhões de transações efetuadas diariamente 

no comércio internacional, além de contar com uma importante corte 

internacional de arbitragem.

A resolução das disputas comerciais entre as empresas precisa ser 

adequada e rápida, em virtude da globalização da economia, do desenvolvimento do comércio internacional, do incremento dos investidores 

estrangeiros no País e da posição do Brasil no ranking das grandes potências (WALD; LEMES, 2011, p. 9).

A CCI canaliza propostas do setor empresarial perante os governos 

para que estes atuem nos fóruns internacionais, como nas rodadas de 

negociação da Organização Mundial do Comércio (OMC). Há um 

grande número de entidades representativas de setores da sociedade de 

comerciantes em diferentes âmbitos do comércio internacional.

A composição do comércio agrícola estrutura-se de acordo com o 

tipo dos bens envolvidos. Um dos principais mercados é o mercado 

internacional de operações a prazo de Londres. Nos transportes, uma 

associação se destaca: a International Federation of Freight Forwarders 

Associations. Além dela, ganha relevo no transporte aéreo a International 

Air Transport Association (IATA).

Ano 50 Número 197 jan./mar. 2013 253

No ramo industrial, uma das principais 

associações é a Eletronica and Metalworking 

Industries (Orgalime). No setor de construção, 

podemos apontar a Federation of Consulting 

Engineers (Fidic), responsável pela estandardização dos contratos internacionais de construção. As associações do setor financeiro é 

presidida pelo Institute of International Banking 

Law & Practice (Iiblp), ao lado da International 

Financial Services Association (IFSA).

5. Codificação internacional, 

harmonização e unificação jurídica

As leis nacionais necessitam de harmonização e unificação porque são inadequadas para 

os casos internacionais e há grande disparidade 

entre elas. A harmonização é mais flexível e 

comporta aproximação de conceitos jurídicos. 

A unificação requer um texto único para regular 

determinado aspecto do comércio internacional. A unificação garante maior segurança 

jurídica nas relações comerciais.

A realidade mostra que há substanciais 

discrepâncias entre as legislações nacionais. Por 

essa razão, a uniformidade do Direito Mercantil 

Internacional deve ser parcial e fragmentária, 

com a formulação de princípios gerais. É indiscutível a dialética entre as normas internas 

e as normas unificadoras. Ainda que o Direito 

uniforme ingresse em determinado Estado, as 

peculiaridades manifestam-se no momento da 

sua interpretação.

O processo de unificação internacional do 

Direito do Comércio Internacional apresenta 

características dos movimentos de mundialização e regionalização: a unificação coexiste 

com uma forte tendência em direção ao particularismo; a seleção de matérias para unificar 

é importante para evitar o fracasso de projetos 

ambiciosos de unificação; nem sempre é necessária a edição de um normativo modelo 

internacional, dada a tendência ao particularismo; e a unificação não é um valor abstrato, 

mas serve para oferecer solução adequada para 

os problemas.

A Resolução da ONU no

 2.102, de 20 de dezembro de 1965, define o Direito do Comércio 

Internacional considerando três elementos: os 

textos emanados da ONU contêm uma série 

fixa de operações, entre elas a compra e venda 

internacional de mercadorias; as normas são 

consideradas de Direito privado, dando-se 

ênfase ao caráter privatístico; e a uniformidade 

jurídica busca evitar o conflito de leis.

A harmonização e a uniformização podem ser um método eficaz de regulação das 

transações comerciais internacionais, mas 

elas não são suficientes, forçando a existência 

de dispositivos conflituais. A unificação do 

Direito do Comércio Internacional utiliza o 

método de contar com a autoridade do Estado, 

como a recepção de tratados internacionais 

ou a aceitação de leis-modelos, ou depender 

da vontade das partes, como o uso de termos 

de comércio.

Na atualidade, a codificação de leis utiliza 

a técnica do Direito Flexível, materializada em 

leis-modelos, recomendações ou resoluções 

dirigidas ao legislador interno. O Direito uniforme garante, como nenhum outro, a segurança 

jurídica e a previsibilidade dos operadores 

econômicos. O grau de coordenação pretendido 

define a escolha entre a harmonização normativa por meio de princípios reguladores ou a 

unificação propriamente dita.

É decisiva a distinção entre a unificação 

que abranja as relações de comércio internas 

e internacionais ou somente as internacionais, 

para fins de delimitação normativa. A técnica de 

codificação implica uma hábil seleção do tema e 

o estudo dos Direitos que se pretende unificar, 

acompanhado de um método apropriado para 

examinar as causas da diversidade legislativa. 

254 Revista de Informação Legislativa

Depois de finalizada a minuta da codificação, aprova-se o texto em uma 

conferência internacional.

O Direito uniforme tem utilizado preferencialmente o tratado internacional de caráter multilateral. A vantagem é proporcionar certeza 

sobre a matéria unificada; a desvantagem é a rigidez intrínseca de toda 

codificação e a dificuldade de adaptação a cada sistema jurídico nacional.

A uniformização por tratado internacional apresenta os seguintes 

problemas: um déficit democrático dos negociadores na conferência 

internacional; a unificação por tratado internacional prejudica a flexibilidade da lex mercatoria, pois permite aos Estados um maior controle 

sobre a criação do Direito; os interesses antagônicos resultam em textos 

ambíguos; a rigidez do texto pode convertê-lo em obsoleto em pouco 

tempo; a aplicação do texto em Estados federais é dificultada; os juízes 

têm dificuldades em assimilar o Direito unificado; e a sucessão de tratados dá lugar a conflitos de difícil solução quando há silêncio sobre como 

resolver conflitos entre os tratados.

A uniformização legislativa não supõe a uniformização de interpretação. No momento da elaboração do texto, nem sempre é possível eliminar 

problemas interpretativos, os quais aparecem na hora de aplicar a norma. 

A solução para os problemas interpretativos é a atribuição de competência 

a uma jurisdição internacional que decidiria sobre o sentido e o alcance 

dos termos do tratado. Essa jurisdição existe apenas em determinados 

círculos jurídicos, como a Comunidade Europeia. O remédio habitual 

tem sido a submissão da questão interpretativa à jurisdição do Estado 

que aplica o tratado. Há ainda a possibilidade de se recorrer a uma norma 

de conflito do tratado para que ela designe o ordenamento sob o qual se 

fará a interpretação.

6. Direito Flexível no âmbito do Direito do Comércio 

Internacional

O Direito Flexível é um conjunto normativo que carece de força vinculante e que exerce uma influência nos operadores jurídicos mediante 

normas de caráter dispositivo. Ele é composto de recomendações, códigos 

de conduta e princípios, influindo no desenvolvimento legislativo futuro 

e na atuação judicial. Ele também configura, perante o legislador, uma 

diretriz habilitante para a edição de uma norma e persegue um efeito 

dinamizador, abrindo novas áreas de expansão normativa. Além disso, os 

juízes podem utilizar o Direito Flexível para fundamentar uma decisão.

Um exemplo de utilização do Direito Flexível é a edição de lei-modelo. 

A lei-modelo é a norma adotada em uma conferência internacional que 

é recomendada para ser incorporada ao Direito interno. Ela não tem 

Ano 50 Número 197 jan./mar. 2013 255

um caráter obrigatório, nem mesmo há o dever de comunicar ao órgão 

codificador ou a outros Estados a sua incorporação, mas tem a função 

de inspirar a legislação interna.

A flexibilidade da lei-modelo permite aos Estados adaptar a norma a 

suas peculiaridades internas, sem a necessidade de aplicar as tradicionais 

reservas ao texto. Após a criação da lei-modelo, os Estados adaptam suas 

normas internas paulatinamente, sem sobressaltos. A Uncitral adotou 

exemplos bem sucedidos de leis-modelos no caso das leis-modelos sobre 

comércio eletrônico de 1996 e sobre assinaturas eletrônicas de 2001.

As empresas têm interesse em promover uma adequada política de 

proteção do consumidor, por meio de códigos de valores éticos e de códigos voluntários de autorregulação elaborados por organizações consumeristas e do setor empresarial. Os códigos de conduta geralmente contêm 

normas de caráter programático para regular a conduta de determinados 

sujeitos do comércio internacional. A característica principal do código 

de conduta é a sua flexibilidade, pois seu cumprimento não é obrigatório.

O código de conduta procura preencher as lacunas constantes do 

regramento nacional. Seu fundamento é semelhante ao da lei-modelo, 

mas a diferença é que o código de conduta é dirigido aos particulares. 

Um exemplo de código de conduta é a prevista na Recomendação 77/524/

CE, de 25 de julho de 1977, a respeito de um código de conduta europeu 

relativo às transações de valores mobiliários.

A guia legislativa é um texto indicativo elaborado por uma organização internacional. A guia tem por objetivo facilitar a consulta ao texto 

legal por juízes e doutrinadores, constituindo importante mecanismo de 

harmonização de regras do comércio internacional.

7. Conclusão

considerá-lo como um Direito de caráter manifestamente privado, desenvolvido 

pelos comerciantes a partir dos usos e costumes, cujas controvérsias são 

dirimidas mediante arbitragem comercial internacional. Os principais 

participantes do Direito do Comércio Internacional são as empresas 

transnacionais fornecedoras de mercadorias e de serviços. A produção 

normativa exige flexibilidade e rapidez por meio de fontes internacionais, notadamente as regras produzidas por organizações empresariais 

de natureza privada, pois as normas jurídicas dos Estados soberanos não 

conseguem acompanhar a velocidade dos negócios. A autorregulação 

desempenha importante papel no comércio internacional ao dar ênfase 

às regras produzidas pelas próprias partes em seus documentos normativos, atenta aos usos e costumes declarados pelas entidades privadas e que colabora para a uniformização do Direito do Comércio Internacional. 

A complexidade das relações jurídicas no comércio internacional e a sua 

imprevisibilidade demandam a cooperação para a utilização de mecanismos de harmonização e unificação jurídica, bem como uma codificação 

internacional em diversos temas. A liberdade contratual e a autonomia 

da vontade encontram ressonância no Direito Flexível, haja vista que não 

são editadas normas obrigatórias para os comerciantes, mas somente 

leis-modelos, códigos de conduta e guias legislativas. Segundo as Normas de Direito do Comércio Internacional. No Site Oficial do Senado Federal.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) estabelece um conjunto de regras e acordos que visam promover o comércio internacional livre e justo entre seus membros. Esses acordos são baseados em princípios como não discriminação, previsibilidade, concorrência leal e tratamento especial para países em desenvolvimento. 

Cláusula da Nação Mais Favorecida (NMF): Um país membro não pode discriminar outros membros, concedendo vantagens comerciais a um país, mas não a outros.

Tratamento Nacional: Produtos importados devem receber o mesmo tratamento dos produtos nacionais em termos de impostos e regulamentações.

As regras e compromissos comerciais devem ser claros e estáveis, promovendo a segurança e a confiança nas relações comerciais internacionais.

A OMC busca evitar práticas comerciais desleais, como subsídios e dumping, que possam prejudicar a concorrência justa.

Geralmente, são proibidas restrições quantitativas (como cotas) às importações, com exceção de certas situações específicas.


A OMC reconhece as necessidades especiais dos países em desenvolvimento, oferecendo flexibilidade e tratamento preferencial para esses países. 

A OMC gerencia uma variedade de acordos comerciais multilaterais, como o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) para bens, o Acordo Geral sobre Comércio de Serviços (GATS) e o Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual relacionados ao Comércio (TRIPS). 

A OMC possui um sistema para a resolução de disputas comerciais entre seus membros, buscando soluções pacíficas e evitando guerras comerciais. 

A OMC desempenha um papel crucial na promoção do comércio internacional, contribuindo para o crescimento econômico, o desenvolvimento e a redução da pobreza em todo o mundo. 

Embora a OMC estabeleça princípios gerais, ela também permite exceções e flexibilidades, como acordos de livre comércio e blocos econômicos, além de reconhecer a necessidade de tratamento especial para países em desenvolvimento. Segundo os Jornalistas e Mestres Carla de Oliveira Tozo e Edson Rossi. no Sexto e Sétimo Períodos da Habilitação em Jornalismo na Comunicação Social. Pelas Faculdades Integradas Alcântara Machado (FIAAM FAAM). .                                          No  espectro político, originadas na Revolução Francesa pela disposição dos deputados na Assembleia: os que queriam mudanças sentavam-se à esquerda, e os que queriam conservar o sistema, à direita. 

Esquerda

Foca na igualdade social e no coletivo. 

Papel do Estado: Defende uma maior intervenção do governo na economia para reduzir desigualdades e garantir serviços públicos (saúde, educação).


Pautas: Direitos das minorias, programas de bem-estar social e regulação do mercado.


Vertentes: Inclui progressistas, social-democratas e socialistas. 


Direita

Foca na liberdade individual e na tradição. 

Papel do Estado: Defende um Estado menor, com menos impostos e menos burocracia, deixando que o mercado se autorregule.


Pautas: Valorização da propriedade privada, ordem pública, valores tradicionais e mérito individual.


Vertentes: Inclui liberais econômicos e conservadores. 


Centro

Busca um equilíbrio entre as duas posições anteriores. 

Abordagem: Tende a ser pragmática, aceitando tanto a eficiência do mercado quanto a necessidade de políticas sociais.


Papel: Frequentemente atua como mediador em democracias, evitando mudanças radicais de qualquer um dos lados.


Nota importante: Não deve ser confundido apenas com o "Centrão" brasileiro, que muitas vezes refere-se a um grupo de partidos que apoiam o governo vigente em troca de benefícios, independentemente de espectro político . Quando Superpotencias . Com seus governos de extrema direita . Não cumprem os aspectos do direito do comércio internacional . Todos os países sofrem com aumento excessivo do custo de vida . E não se deve culpar o Presidente da República . Ou um primeiro ministro ,  Independentemente de ser de direita , esquerda ou centro. .      Confira a notícia no UOL.https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/06/03/eua-propoem-tarifa-extra-de-125-e-citam-brasil-por-trabalho-forcado.ghtm

E assim caminha a humanidade.

Imagem ; UOL.




 

E assim caminha a humanidade.


terça-feira, 2 de junho de 2026

Trumpismo .

  O trumpismo é o termo usado para descrever o conjunto de ideologias, estilo de governo, estratégias de comunicação e fenômenos sociais associados ao ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump. É frequentemente associado aos movimentos "Make America Great Again" (MAGA) e "America First". 

As características do trumpismo incluem: 

Populismo e nacionalismo: Baseia-se na identificação com a nação e em um discurso que estabelece um contraste entre "o povo" e "a elite corrupta".

Autoritarismo: Apresenta inclinações autoritárias, desafiando normas democráticas e, em alguns casos, o próprio Estado de Direito.

Antiliberalismo e protecionismo: Abandona o liberalismo econômico clássico em favor de políticas protecionistas e menos preocupadas com a austeridade fiscal, questionando acordos comerciais e alianças internacionais.

Polarização e desconfiança institucional: Fortalece a polarização política, alimentando a desconfiança nas instituições democráticas, como a imprensa e o judiciário, e se baseia na ideia de ruptura com o establishment.

Estilo de comunicação: Caracteriza-se por um estilo de comunicação direta, muitas vezes agressiva e provocativa, que se utiliza intensamente das redes sociais para propagar sua mensagem e desinformação. 

Contexto e atualidade

Embora o termo tenha surgido com a ascensão de Donald Trump, o trumpismo transcendeu a figura do ex-presidente, tornando-se um fenômeno político global com ramificações em diversos países. No Brasil, por exemplo, é frequentemente associado ao bolsonarismo, com o qual compartilha estratégias e retóricas. Segundo cientistas políticos  nos veículos de imprensa no Brasil.


Confira  abaixo o artigo o dos autores Ubirajara de None Caputoa e Henrique Araujo Aragusukua 


Donald Trump e o fascismo: uma análise inspirada na teoria crítica

 Ubirajara de None Caputoa * 

Henrique Araujo Aragusukua 

a Universidade de São Paulo, Instituto de Psicologia, Departamento de Psicologia Social, São Paulo, SP, Brasil

 Resumo: A atuação de Donald Trump durante o período em que esteve na presidência dos Estados Unidos 

suscita a investigação de possíveis semelhanças entre ele e líderes fascistas do passado. A proposta deste 

ensaio é apresentar reflexões sobre a atuação política de Trump, inspiradas pelas discussões sobre a psicologia 

e a propaganda fascista na teoria crítica. Embora pareça impossível tomar Trump por um líder fascista clássico, 

principalmente em razão de contextos históricos muito diferentes, também é impossível desconsiderar o nexo 

entre suas estratégias políticas e o modus operandi de agitadores fascistas no século XX. Além disso, é inegável que 

sua política mobiliza elementos sociopsicológicos que remontam às análises da emergência do fascismo histórico, 

como a identificação com uma figura idealizada e transcendente, a submissão a uma autoridade ou causa superior 

e a agressividade direcionada às ameaças do out-group.

 Palavras-chave: fascismo, teoria crítica, fascismo digital, psicologia social.

 Introdução

 regimes fascistas das primeiras décadas do século XX –  

que passaremos a chamar de fascismo histórico (Mann, 

O termo “fascista” costuma ser usado para 

desqualificar desafetos localizados em qualquer ponto 

do amplo espectro político-ideológico. Recuperando a 

história do fascismo, é preciso lembrar que “a direita é 

o gênero de que o fascismo é espécie” e “a ideologia de 

direita representa sempre a existência de forças sociais 

empenhadas em conservar determinados privilégios . . .  

de que tais forças são beneficiárias” (Konder, 2009, p. 27). 

O fascismo, contrapondo-se à influência das ideias liberais 

na própria direita, promove um Estado-nação transcendente 

e totalizante (Mann, 2008; Paxton, 2008). No entanto, não 

é raro encontrar o adjetivo “fascista” associado a ideias 

progressistas, o que seria suficiente para implodir o termo, 

necessariamente associado, em sua origem, a um tipo de 

conservadorismo de direita.

 Verifica-se que o senso comum atribui ao termo 

“fascismo” sentidos diversos que o afastam de sua 

configuração original. Mesmo que as múltiplas acepções 

insultuosas do significante “fascismo” não sejam 

nítidas, nota-se tendência de associá-lo ao autoritarismo,  

à rigidez e à negação do humano. Tais associações são 

compreensíveis, ao considerar que os movimentos fascistas 

originais se tornaram regimes políticos conhecidos por 

eliminarem seus oponentes pelo uso “justificado” da 

violência, excluírem os que consideravam indesejáveis 

e submeterem todos/as ao regime. O uso comum da 

palavra “fascismo” para denunciar ações contra grupos 

vulneráveis e posicionamentos políticos autoritários 

e inflexíveis demonstra que os modos de agir dos 

*Endereço para correspondência: biracaputo@gmail.com

 2008) para melhor orientar a leitura – permanecem na 

memória coletiva e nos discursos do presente.

 O fascismo histórico foi um movimento político 

emergente no início do século XX, marcado pelas 

seguintes características: nacionalismo, chauvinismo 

étnico e racial, estatismo, paramilitarismo, conteúdo social 

conservador, uso de mitos irracionais para a justificação 

de sua prática política, antiliberalismo, antidemocracia 

e antissocialismo (e.g. Bianchi & Melo, 2018; Konder, 

2009; Mann, 2008). Torna-se possível, em acordo com 

Freud, porque “a dicotomia entre in-group e out-group é 

de uma natureza tão profundamente enraizada que afeta 

até mesmo aqueles grupos cujas ideias aparentemente 

excluem tais reações” (Adorno, 2015a, p. 174). Sendo 

assim, Freud livra-se da “ilusão liberal de que o progresso 

da civilização iria produzir automaticamente um aumento 

de tolerância e uma diminuição da violência contra os 

out-groups” (Adorno, 2015a, p. 174). Por isso o fascismo, 

enquanto uma tendência política, permanece nos dias 

atuais. Atualiza-se de acordo com condições históricas 

objetivas, mas permanece.

 Problema e método

 Neste ensaio, buscamos levantar algumas 

reflexões sobre a atuação política de Donald Trump, 

inspirados pelas discussões sobre psicologia e propaganda 

fascista a partir da teoria crítica (Adorno, 2015a, 2015b; 

Carone, 2002; Fromm, 1980), em conexão com outros 

estudos sobre o fascismo histórico (e.g. Mann, 2008; 

Paxton, 2008) e sobre as tendências fascistas na política 

http://dx.doi.org/10.1590/0103-6564e220050

Ubirajara de None Caputo   & Henrique Araujo Aragusuku

 (MAGA), em que se evidenciam dois elementos:  

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 contemporânea (e.g. Fielitz & Marcks, 2019; Neiwert, 

2017). Nosso problema é lançar luz sobre como uma 

questão do presente – a emergência da extrema direita 

no cenário político estadunidense – pode ter confluências 

com análises de um fenômeno político do passado.

 Anteriormente um outsider da elite política 

norte-americana, Trump foi eleito 45º presidente dos 

Estados Unidos, em 2017 – cargo que exerceu até 

janeiro de 2021 –, através de uma campanha permeada 

por polêmicas e conflitos, amparando-se em uma 

agenda radicalmente neoliberal no campo econômico 

(avessa a direitos trabalhistas, políticas sociais etc.) 

e conservadora no campo cultural (xenófoba, contra 

as lutas dos movimentos LGBTI+, feminista e negro 

etc.). Embora pareça impossível tomar Trump por 

um líder fascista clássico, principalmente em razão 

de contextos históricos muito diferentes, também é 

impossível desconsiderar o nexo entre suas estratégias 

políticas e o modus operandi de líderes fascistas no 

século XX. Além disso, é inegável que sua política 

mobiliza elementos sociopsicológicos que remontam 

às análises da emergência do fascismo histórico.

 Nosso objetivo neste ensaio não é discutir 

exaustivamente os conceitos envolvidos em nossa análise, 

mas sim traçar, de forma ampla, reflexões que produzam o 

debate acadêmico e possam ser reaproveitadas no futuro, 

inspirando novos estudos. Por meio dos fundamentos 

da teoria crítica, compreendemos que os fenômenos 

políticos estão intrinsecamente conectados a elementos 

sociopsicológicos responsáveis por constituir a vida humana 

em sociedade (Azevedo & Menin, 1995). Paralelamente, 

tais fenômenos estão permeados por relações e estruturas 

de poder, sendo um dos fins do pensamento crítico o 

desvelamento das desigualdades e opressões que tornam 

a vida em sociedade miserável para a maioria das pessoas. 

Como definido por Max Horkheimer (2002), a teoria crítica 

é “uma teoria dominada em todos os aspectos por uma 

preocupação com condições razoáveis de vida” (p. 1999), 

por um compromisso teórico com a justiça social e a 

emancipação humana.

 Consonâncias e dissonâncias

 A discussão sobre a medida em que Trump e seu 

projeto de poder se assemelham ao fascismo histórico e, 

portanto, podem ser caracterizados como neofascistas, 

requer urgência, uma vez que projetos análogos, os quais 

propõem retrocessos sociais e políticos – ameaças às 

liberdade civis, proposições etnonacionalistas, negacionismo 

científico e afrouxamento de regras ambientais –, podem 

ser identificados em diferentes países, como Hungria,  

com Orbán; Turquia, com Erdogan; Filipinas, com Duterte; 

Rússia, com Putin; e Brasil, com Bolsonaro (Löwy, 2019).

 Inspirado em certa redução da influência dos 

Estados Unidos no cenário internacional e na ameaça 

econômica representada pela China, o mote da campanha 

presidencial de Trump foi “Make America Great Again” 

o nacionalismo e a necessidade de reerguer a pátria. 

Tais elementos são amplamente reconhecidos como 

características fulcrais e indispensáveis ao fascismo 

(e.g. Griffin, 1991; Turner, 2019). É razoável que o líder 

de uma nação a tenha em alta conta, mas o que se viu 

na campanha de Trump e ao longo de seu mandato foi a 

exacerbação da ideia de nação como um mito, exatamente 

como Mussolini havia feito no século anterior: “Criamos 

o nosso mito. O mito é uma fé, uma paixão. . . . O nosso 

mito é a nação, o nosso mito é a grandeza da nação!”1 

(Konder, 2009, p. 36).

 Embora espere-se que um projeto de governo 

inclua políticas que zelem pelos interesses do país, Trump 

baseou o seu governo na afirmação de que os Estados 

Unidos são uma nação ameaçada que deve ser defendida 

ardorosamente, bem ao gosto de líderes fascistas do 

passado. Em um discurso realizado no dia 3 de julho 

de 2020, num evento comemorativo da independência 

dos Estados Unidos, em meio a aplausos e um acalorado 

público, Trump anunciou que:

 Nossos fundadores declararam ousadamente que nós 

somos todos dotados dos mesmos direitos divinos – 

dados a nós por nosso Criador no Céu. E o que Deus 

nos deu, não permitiremos a ninguém, nunca, tomar 

de nós – nunca . . . Nossa nação está testemunhando 

uma campanha impiedosa para varrer nossa história, 

difamar nossos heróis, apagar nossos valores e 

doutrinar nossas crianças. . . . Eles pensam que o povo 

americano é fraco e brando e submisso. Mas não,  

o povo americano é forte e orgulhoso, e ele não permitirá  

que nosso país, e todos os seus valores, história e 

cultura, sejam tomados dele (“Remarks…”, 2020).

 É importante diferenciar o uso da “nação” como 

mito capaz de unir uma coletividade a serviço de algo maior 

do que si mesma do conceito de “Estado”. As concepções 

do fascismo histórico e de Trump quanto ao Estado, como 

ente político organizativo de uma sociedade, são muito 

diferentes. Mussolini chegou a declarar que nada deveria 

haver fora do Estado. É claro que o Duce não se referia a 

um Estado popular, democrático ou socialista, mas sim 

a um Estado capitalista-corporativista e intervencionista 

que deveria se submeter a seus desígnios ditatoriais.  

O estatismo é um elemento primordial do fascismo 

histórico (Mann, 2008), sendo o Estado autoritário, avesso 

às premissas do liberalismo, um meio de consolidação 

do imaginário de nação.

 Na Europa do século passado, os movimentos 

fascistas surgiram em contraposição aos governos liberais, 

nos quais “esperava-se que a intervenção governamental 

se limitasse às poucas funções que os indivíduos não 

podiam desempenhar para si próprios” e que “os assuntos 

1 Tradução da fala original de Mussolini citada em Opera omnia 

(Vol. XVIII, p. 457).

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 Psicologia USP   I   www.scielo.br/pusp

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 Donald Trump e o fascismo: uma análise inspirada na teoria crítica

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 econômicos e sociais fossem entregues ao livre jogo das 

escolhas individuais no âmbito do mercado” (Paxton, 

2008, p. 135). Trump não preconizou a interferência do 

Estado na economia de seu país. Ao contrário, defendeu o 

modelo neoliberal ao trabalhar para reduzir a participação 

do Estado em programas de saúde implementados pelo 

seu antecessor, reforçando a ideia de autorregulação dos 

mercados e de supressão de políticas sociais (Bianchi 

& Melo, 2018). Enquanto as lideranças do fascismo 

histórico são frutos da crise dos regimes liberais do 

início do século XX (Fromm, 1980; Mann, 2008), Trump 

surge no contexto de hegemonia neoliberal existente no 

mundo globalizado, reafirmando as premissas basilares 

do capitalismo financeiro em plano geopolítico, a despeito 

de algumas medidas protecionistas para favorecer o 

mercado estadunidense contra a concorrência externa.

 O ideário liberal, contra o qual o fascismo 

histórico se lançou, não repercute apenas nos modos 

de funcionamento das economias. Ele se assenta na 

ideia de liberdade individual como direito fundamental 

dos/as integrantes de uma dada sociedade. O fascismo 

histórico, ao contrário, preconiza a subordinação de 

cada homem e mulher ao “bem comum”, com estreita 

margem para escolhas livres e pessoais – o que o torna 

essencialmente antidemocrático. Trump não ameaçou 

abertamente as liberdades individuais e nem propôs 

institucionalmente restrições democráticas, mas 

buscou apagar a estrutura multicultural da sociedade 

estadunidense. Ao desqualificar as pessoas latinas, 

muçulmanas, asiáticas, negras e de outros segmentos 

populacionais vulneráveis, por contraste, acabou por 

delinear um modelo de cidadão/ã ideal, baseado em raça/

 cultura, acentuando o imaginário de poder da população 

branca e cristã, revitalizando as políticas segregacionistas 

que marcaram a história dos Estados Unidos.

 Outro inimigo do fascismo histórico foi o 

comunismo. Também nos Estados Unidos, durante a 

guerra fria, a retórica da ameaça comunista foi mobilizada 

por grupos de direita. Expoentes da política institucional, 

como o senador McCarthy, precedidos por religiosos, 

como Martin Luther Thomas, entre outros ativistas de 

extrema direita, tratavam os comunistas como “inimigos 

do povo” (Carone, 2002, p. 198), justificando políticas 

que suspendiam liberdades e direitos civis. Em seu 

período como presidente, no qual o comunismo não 

mais se configurava como ameaça, Trump elegeu as 

pessoas imigrantes, em especial muçulmanas e latinas, 

como inimigas dos valores de sua nação. E o fez de 

forma muito semelhante a seus antecessores de extrema 

direita, conforme se nota ao comparar sua retórica anti

imigração ao padrão da propaganda norte-americana 

do início do século XX (Adorno, 2015a; Carone, 2002). 

Ao alertar para os riscos de permitir a permanência 

de imigrantes indesejados/as no país, Trump inverteu 

os papéis de agressor e vítima. Segundo Iray Carone 

(2002), “o aspecto psicológico imanente à construção 

ideológica que converte o agressor em vítima ameaçada 

e a vítima em agressor, consiste em estimular e justificar 

a violência contra os out-groups, neles projetando o que 

deles se imagina” (p. 202).

 A respeito do vazio de argumentos que justificassem 

uma cruzada pró-americana nos discursos da extrema 

direita norte-americana do passado, Carone (2002) 

acrescenta: “a argumentação era substituída pelo artifício 

de nomear grupos, pessoas e raças como alvo de suas 

diatribes” (p. 205), exatamente como fez Trump em diversos 

discursos sobre imigrantes (e.g. Lind, 2019). Não é por acaso 

que o público-alvo desses discursos – “pessoas de baixa 

classe média, com pouca escolaridade, sujeitos de meia

idade ou idosos com profundas convicções religiosas de 

caráter fundamentalista ou sectário” (p. 199) – se assemelha 

ao público de seguidores/as mais fanáticos/as de Trump.

 Esses/as eleitores/as foram convencidos/as, como 

se deu no fascismo alemão e italiano do século passado, 

de que se tornaram “vítimas de um sistema de exploração 

internacional” (Konder, 2009, p. 37), e se sentiram impelidos/

 as a lutar contra o inimigo para buscar “uma restauração de 

algo do passado – uma revolução conservadora, a volta aos 

bons velhos tempos” (Carone, 2002, p. 208). Sendo assim, 

intencionalmente ou não, Trump agiu como um herdeiro 

genuíno da retórica e das tendências fascistas existentes 

em grupos da extrema direita estadunidense do século 

XX, ressentidos com os processos de democratização e 

o avanço dos movimentos por direitos civis para grupos 

historicamente excluídos e perseguidos.

 O personagem

 O fascismo é indissociável da figura de um líder 

capaz de sensibilizar uma massa de seguidores a cultuá-lo 

e apoiá-lo em suas pretensões. Foi isso que Trump fez 

ao incitar seguidores a invadirem o Capitólio em 6 de 

janeiro de 2021. Nesse dia, ele discursou para milhares de 

pessoas na capital estadunidense e insuflou uma multidão 

a marchar e, posteriormente, invadir violentamente o 

Congresso para tentar impedir o término da sessão que 

formalizaria a vitória de seu sucessor à presidência da 

república. Repetindo o slogan “Stop the Steal”, Trump 

enfatizou que as eleições foram fraudadas para “impedir 

sua esmagadora vitória”, mesmo sem qualquer evidência 

ou compromisso em provar essas graves acusações 

(“Trump’s…”, 2021).

 Theodor Adorno tratou sobre a retórica de líderes 

fascistas com maestria. Ele nos fala de uma atmosfera de 

agressividade emocional propositadamente promovida 

pelo líder, de uma reiteração constante de ideias, da 

necessidade de o líder atuar narcisicamente para permitir a 

identificação narcísica de seus seguidores (Adorno, 2015a). 

Tais características são frequentemente identificadas nos 

discursos de Trump e em suas constantes postagens nas 

redes sociais. Conforme enfatizado por Ruth Wodak 

(Jackson, 2021), foram 34 mil tweets disparados por 

Trump entre junho de 2015 e janeiro de 2021, nos quais 

circulou grande parte de sua propaganda – que privilegiou 

Psicologia USP, 2024, volume 35, e220050

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Ubirajara de None Caputo   & Henrique Araujo Aragusuku

 ambiente televisivo, o que prevaleceu foi a excelência 

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 a escandalização, a provocação, a violação de normas 

e a incitação ao ódio como formas de mobilização de 

seus apoiadores/as. Sobre isso, Adorno (2015a) afirma:

 O líder pode adivinhar os desejos e necessidades 

psicológicas daqueles suscetíveis à sua propaganda, 

porque os reflete psicologicamente e deles se 

distingue por uma capacidade de exprimir, sem 

inibições, o que é latente . . . a própria linguagem, 

desprovida de seu significado racional, funciona de 

uma forma mágica e favorece aquelas regressões 

arcaicas que reduzem os indivíduos a membros de 

multidões (p. 181).

 Assim como as massas do entreguerras elegeram 

líderes fortes, potencialmente capazes de restaurar a 

ordem, nos dias atuais, quase metade do eleitorado 

estadunidense tentou eleger Trump para um segundo 

mandato, cuja campanha baseou-se em um suposto 

mito da “restauração nacional” diante das ameaças 

de inimigos internos e externos, presumidos como 

sabotadores de valores verdadeiramente americanos. 

Uma parte desse eleitorado se identificou de forma tão 

absoluta com seu líder político que chegou a crer nas 

afirmações de Trump, mesmo sem qualquer tipo de 

evidência, de que a eleição havia sido fraudada e que 

isso justificaria uma insurreição violenta.

 É notável que o lema “Stop the Steal” tenha sido 

empregado de forma instrumental, como uma propaganda 

política sem qualquer compromisso com a verdade, tendo 

como objetivo final a mobilização de uma base social. 

Evidencia-se, assim, mais um elemento estruturante da 

ideologia fascista: a mentira como estratégia para construir 

uma realidade planejada (Arendt, 2012). Ao submeter a 

própria verdade a seu poder, o líder fascista pretende atingir 

os limites da dominação, e isso se torna possível, segundo 

Federico Finchelstein (2020), porque o que o líder diz ou 

faz torna-se mais importante do que os fatos. Conforme 

Jason Stanley (2018), “a política fascista troca a realidade 

pelos pronunciamentos de um único indivíduo. . . . Mentiras 

óbvias e repetidas fazem parte do processo pelo qual a 

política fascista destrói o espaço da informação” (p. 66).

 A personalidade e a história de vida de Trump 

estão longe de serem compatíveis com o exigido para 

um líder responsável por combater a corrupção e pela 

regeneração dos valores da nação. Enquanto ele dizia 

defender valores conservadores do povo americano 

oprimido pelo corrupto establishment, sua história era 

permeada por contradições. Como um bilionário do ramo 

da construção e celebridade televisiva, Trump faz parte 

da elite econômica dos Estados Unidos. Sua história é 

permeada por polêmicas, dentre elas, diversos casos 

de corrupção e más práticas empresariais, infidelidade 

conjugal e escândalos sexuais (e.g. Dickinson, 2018; 

Prokop, 2016). No entanto, tais incoerências não 

abalaram a sua influência política e sua capacidade de 

convencimento de milhões de pessoas. Assim como no 

na execução de um personagem, pois sua liderança não 

se sustentou na coerência de suas práticas, mas sim 

em sua performance como agitador e propagador de 

uma narrativa política. Em acordo com as reflexões 

de Adorno, esse elemento se assemelha à retórica de 

agitadores fascistas do início do século XX.

 Este caráter fictício é o elemento vital das 

performances da propaganda fascista. . . . O caráter 

fictício da oratória propagandista, o hiato entre a 

personalidade do locutor e o conteúdo e caráter de 

suas afirmações são atribuíveis ao papel cerimonial 

que ele assume e que dele se espera. Essa cerimônia, 

entretanto, é meramente uma revelação simbólica da 

identidade que ele verbaliza, uma identidade que os 

ouvintes sentem e pensam, mas não podem exprimir. 

A gratificação que eles obtêm da propaganda 

consiste muito provavelmente na demonstração dessa 

identidade. . . . Certamente podemos chamar este ato 

de identificação um fenômeno de regressão coletiva 

(Adorno, 2015b, p. 146).

 Desse modo, destacamos, a retórica fascista 

se sustenta em processos primários de identificação – já discutidos por Freud (2011) em seu texto sobre a 

psicologia das massas, retomado por Adorno (2015a) – em que a racionalidade das ações e a autonomia dos 

sujeitos é suspensa pelo culto à liderança que encarna 

valores e ideais superiores. Dentro dessa lógica, mentiras 

e afirmações não baseadas em evidências, sempre imersas 

em provocações e agitações, tornam-se práticas cotidianas 

no jogo político, pois a coerência da narrativa política 

não se dá por meio da racionalidade de suas proposições, 

mas através de processos de identificação. Isto é, pela 

evocação de uma identidade étnico-nacional idealizada 

e sempre em perigo.

 Inúmeras vezes Trump utilizou a expressão 

“we, the american people” ao mesmo tempo que se 

apresentava como o único e legítimo representante dos 

interesses desse coletivo (que se entende como um povo

nação). Em seus pronunciamentos, ele constantemente 

utilizou a estratégia retórica de afirmação de si – o amor 

a si próprio do narcisismo (Freud, 2011) – novamente 

recorrendo a declarações inverificáveis. Já em 2015, 

quando se lançou candidato à presidência, Trump 

afirmou: “eu sou o único que pode fazer a América 

verdadeiramente grande novamente”. Ao longo dos 

seus quatro anos de presidência, declarações como 

“eu sou o único”, “sou o melhor” e “ninguém sabe 

mais do que eu” foram utilizadas com frequência em 

seus discursos, como uma forma de autoafirmação 

de sua autoridade (NowThis News, 2019; Vice News, 

2020). Mesmo as afirmações mais absurdas, como 

“ninguém sabe mais sobre o Estado Islâmico que eu” e 

“sou o melhor presidente para as pessoas negras desde 

Abraham Lincoln [que aprovou o fim da escravidão em 

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 Psicologia USP   I   www.scielo.br/pusp

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 Donald Trump e o fascismo: uma análise inspirada na teoria crítica

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 1863]”, eram ouvidas com naturalidade e concordância 

por seus/suas eleitores/as.

 Como evidenciado por Adorno (2015b), “o agitador 

fascista é usualmente um exímio vendedor de seus próprios 

defeitos psicológicos. Isso somente é possível devido a 

uma similaridade estrutural geral entre seguidores e 

líder” (p. 144). Em uma espécie de narcisismo coletivo, 

Trump corporificou a grandeza e infalibilidade da “nação 

americana”, angariando fervorosos/as seguidores/as que 

entregaram suas vidas e suas individualidades para uma 

causa maior e para a defesa da nação.

 O movimento MAGA

 O fascismo não se constitui apenas por uma retórica 

promovida por lideranças, agitadores e propagandistas, 

mas também por um movimento que mobiliza pessoas 

em ações políticas. Como agitadores fascistas convencem 

uma parcela significativa da população de que suas ideias 

políticas, geralmente incoerentes e irracionais, devem ser 

seguidas? Quais os mecanismos sociais e psicológicos 

que tornam possível a emergência de um movimento 

fascista de massas?

 Existem diferenças importantes entre o contexto 

sociopolítico em que Trump presidiu os EUA e o da Europa 

do entreguerras, o que dificulta qualquer tipo de analogia 

direta e explícita (Bianchi & Melo, 2018). Entretanto, 

existem notáveis semelhanças entre as estratégias 

retóricas utilizadas por Trump enquanto líder político e 

as propagandas fascistas do século XX. Em relação ao 

caráter de seus/suas seguidores/as, também é possível 

traçar alguns paralelos a partir das discussões sobre os 

aspectos sociopsicológicos do fascismo histórico (Adorno, 

2015a; Fromm, 1980).

 Desde que se lançou como candidato à 

presidência dos Estados Unidos, Trump organizou em 

torno de si um potente movimento comprometido com 

sua eleição – e, posteriormente, reeleição – e com a 

defesa intransigente de sua liderança: o “Make America 

Great Again (MAGA)”. Slogans desse movimento 

foram estampados em camisetas, bonés e bandeiras, 

os quais se tornaram importantes elementos de 

autoidentificação e unificação de seus/suas seguidores/

 as. A lealdade intransigente a esse movimento foi 

enfatizada por diversos meios de comunicação e pelo 

próprio Trump em um comício de campanha, em 2016, 

quando afirmou que “eu poderia parar no meio da 

Fifth Avenue [movimentada via de Nova York] e atirar 

em alguém, e eu não perderia nenhum eleitor” (CNN, 

2016), seguido por risadas e ovações do público que 

lhe assistia. De fato, a lealdade a esse movimento foi 

testada nas eleições de 2020, quando Trump recebeu 

74 milhões de votos (em torno de 47% do total de 

votos) graças à mobilização de suas bases eleitorais.

 No entanto, há muitas diferenças entre o movimento 

pró-Trump e o fascismo histórico. De modo distinto aos 

movimentos fascistas do século XX, não existiu unidade 

política e nem estrutura centralizadora no MAGA. 

Trump atuou por meio do Partido Republicano, porém 

não se ateve às decisões de seus organismos de direção. 

Ao contrário, procurou sempre impor suas decisões ao 

partido, recorrendo constantemente ao conflito direto com 

as principais lideranças partidárias quando contrariado. 

Diferentemente do fascismo histórico (Mann, 2008; 

Paxton, 2008), não houve unidade entre movimento, 

partido e liderança e, principalmente, não houve organismo 

paramilitar responsável pela operação da violência política. 

Apesar da existência de diversos grupos paramilitares pró

Trump – muitos responsáveis pela organização da invasão 

do Capitólio –, estes atuaram de forma independente às 

estruturas do Partido Republicano e à liderança de Trump. 

Sendo assim, o modo de operar do movimento político 

que sustentou Trump difere significativamente de seu 

correspondente no fascismo histórico.

 Por outro lado, quando analisamos os mecanismos 

sociopsicológicos e as motivações que unificaram os/as 

seguidores/as de Trump em um movimento, algumas 

analogias são possíveis. Em suas teses sobre a psicologia 

do fascismo, Erich Fromm (1980) defendeu que fatores 

sociológicos relacionados à emergência do capitalismo –  

em especial, a expansão da liberdade individual e a 

desestruturação da ordem e da autoridade tradicional – 

produziram efeitos em nível psicológico, como o aumento 

da percepção da insegurança existencial e do desamparo 

social, que modificaram a relação dos sujeitos com o 

mundo. Atuante no plano político, o fascismo histórico 

surgiu em reação às incertezas e inseguranças do mundo 

moderno, tratando-se de uma resposta à universalização 

do individualismo (desagregador e desamparador) 

promovida pelo capitalismo e pelo liberalismo.

 Fromm (1980) descreve dois mecanismos 

psicológicos que atuam como recursos para a fuga das 

incertezas geradas pela modernidade, podendo fazer as 

pessoas aderirem aos movimentos fascistas. O primeiro 

mecanismo é a renúncia do próprio ego individual e a sua 

fusão a algo maior (uma liderança ou uma causa), suprindo 

a impotência do eu perante o mundo. Trata-se de uma 

forma de controle das ansiedades por meio da submissão 

a uma autoridade ou identidade que promove estabilidade, 

ordem e controle. O segundo é o da destrutividade, 

isto é, a busca pela destruição dos objetos (podem ser 

grupos, pessoas, ideias etc.) considerados responsáveis 

pela insegurança e impotência perante o mundo.  

A destruição das ameaças produziria assim um mundo 

mais seguro e menos incerto. Ambos os mecanismos 

atuaram em conjunto no caso do fascismo histórico: 

“o indivíduo sobrepuja o sentimento de insignificância 

em comparação com o poder esmagador do mundo 

exterior, seja renunciando à sua integridade individual, 

seja destruindo outros de maneira que o mundo deixe 

de ameaçá-lo” (p. 150).

 Adorno (2015a) também descreve alguns 

mecanismos psicológicos capazes de fazer as pessoas 

aderirem a movimentos fascistas; esses mecanismos 

Psicologia USP, 2024, volume 35, e220050

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Ubirajara de None Caputo   & Henrique Araujo Aragusuku

 massa de pessoas aparentemente indiferentes,  

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 estruturam traços de personalidade que os tornam o que o 

autor, ao tratar sobre a personalidade autoritária, chamou 

de indivíduos potencialmente fascistas (Adorno, Frenkel

Brunswik, Levinson, & Sanford, 1950). Para ele, existe 

uma dinâmica entre submissão e agressividade que torna a 

retórica da liderança fascista verdadeiramente eficaz para 

o seu público-alvo, na qual “a imagem do líder satisfaz 

o duplo desejo do seguidor em se submeter à autoridade 

e ser ele mesmo a autoridade” (Adorno, 2015a, p. 172). 

Desse modo, há um ganho narcísico aos/às adeptos/as 

dos movimentos fascistas por meio da identificação de 

si em um coletivo que transcende o eu individual, com a 

elevação da autoestima e a idealização das características 

do in-group. Em contrapartida, intensificam-se as 

hostilidades contra o out-group, com o direcionamento de 

toda a agressividade a ameaças imaginárias (geralmente 

grupos minoritários e oprimidos) que desestabilizam a 

identidade transcendente idealizada.

 No caso do MAGA, é evidente que tais mecanismos 

psicológicos atuaram no processo de mobilização política, 

seja pela intransigente submissão desse movimento à 

autoridade de Trump e à idealização de uma identidade 

nacional pura e transcendente (“os verdadeiros americanos”) 

ou pela agressividade extrema direcionada aos grupos que 

ameaçam essa autoridade e identidade (imigrantes, latinos, 

mulçumanos, negros etc.). Se por questões de estrutura 

organizacional é indevido identificar o movimento pró

Trump com fascismo per se, não é difícil visualizar suas 

tendências fascistas.

 Fascismo no século XXI?

 Respeitados os diferentes contextos econômicos, 

políticos e sociais, analistas sociais de todo o mundo 

(e.g. Bull, 2012; Foster, 2017; Löwy, 2019) apontam 

alguns motivos para o fortalecimento de movimentos 

de extrema direita capazes de pavimentar o caminho 

para a implementação de governos de característica 

fascista. Alguns desses motivos são: enfraquecimento dos 

movimentos de esquerda após a queda do muro de Berlim, 

avanço do neoliberalismo com supressão de políticas 

sociais e aumento da insegurança material, reação 

ao processo de globalização, aumento do sentimento 

de ameaça em razão da ação de grupos extremistas e 

imigração em massa de refugiados de guerras.

 Os eleitores de Trump e de partidos de extrema 

direita fora dos Estados Unidos guardam semelhanças 

entre si e com aqueles que levaram os regimes fascistas 

do início do século XX ao poder. De acordo com Hannah 

Arendt (2012),

 Potencialmente, as massas existem em qualquer 

país e constituem a maioria das pessoas neutras e 

politicamente indiferentes. . . . Em sua ascensão, 

tanto o movimento nazista na Alemanha quanto 

os movimentos comunistas na Europa depois 

de 1930 recrutaram os seus membros entre uma 

que todos os outros partidos haviam abandonado 

por lhes parecerem demasiado apáticas ou estúpidas 

para lhes merecerem a atenção. Isso permitiu a 

introdução de métodos inteiramente novos de 

propaganda política . . . (p. 439).

 Decerto, Arendt referia-se à pesada máquina de 

propaganda nazifascista, a qual se utilizou sobretudo 

da tecnologia radiofônica, ao citar novos métodos 

de propaganda política. Sobre isso, Adorno (2015a) 

escreveu:“[a propaganda fascista] é psicológica por causa 

de seus objetivos irracionais e autoritários, que não 

podem ser alcançados por meio de convicções racionais,  

mas somente através do despertar habilidoso de ‘uma parte 

da herança arcaica do sujeito’” (p. 165). “O que acontece 

quando massas são subjugadas pela propaganda fascista 

[é] uma revitalização quasi-científica de sua psicologia. . . . 

A psicologia das massas foi apropriada por seus líderes e 

transformada em meio para dominação” (p. 186).

 Nos dias atuais, não há dúvidas de que novas 

estruturas têm sido intensamente utilizadas para 

disseminar mensagens de cunho fascista. Aos meios 

de comunicação de massa corporativos, como redes de 

televisão e grande imprensa, junta-se a contribuição 

de recursos telemáticos (sistemas de comunicação 

imediata e de longa distância), que se constituem numa 

importantíssima arena de disputa ideológica. Usuários/

 as das redes sociais disseminam suas próprias versões 

sobre os acontecimentos e opinam obstinadamente sobre 

tudo e todos. A presumida possibilidade de anonimato,  

a sensação de plena liberdade para manifestar-se,  

a busca por reconhecimento, o descomprometimento com 

a verdade e a argumentação incipiente e superficial são 

alguns fatores que tornam as redes sociais ambientes 

propícios ao desmonte da racionalidade. Por meio delas, 

trafega instantaneamente imensurável quantidade de 

informações, dificultando um olhar consequente e 

apurado sobre elas e esmaecendo suas fronteiras com a 

realidade. O quadro se agrava quando as interações entre 

usuários/as são interpeladas por robôs e algoritmos que 

selecionam conteúdos de reforço, evitando a reflexão 

crítica e o contraditório.

 Maik Fielitz e Holger Marcks (2019) descreveram 

a gramática da propagação de ideias da extrema direita 

contemporânea, constituinte do que denominam fascismo 

digital: uma variação do fascismo que não precisa de 

partidos, pois utiliza a estrutura do mundo digital para 

sua dinâmica. Segundo os autores, a internet tornou-se 

um território usado pela extrema direita para minar 

as sociedades democráticas, usando uma concepção 

ampliada de liberdade de expressão. As estruturas 

comunicacionais disponíveis nas redes sociais permitem a 

disseminação de discursos de intolerância, com conteúdos 

misóginos, LGBTfóbicos, racistas, xenófobos etc., cujos/

 as autores/as, quando confrontados/as, alegam ser vítimas 

de intolerância e terem sido alijados de sua liberdade de 

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 Donald Trump e o fascismo: uma análise inspirada na teoria crítica

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 expressão. Trata-se de uma estratégia discursiva à qual 

Fielitz & Marks (2019), recorrendo à formulação liberal 

de Karl Popper, denominam reedição do paradoxo da 

tolerância. Isto é, tais grupos se utilizam da liberdade de 

expressão para serem intolerantes, atacando a liberdade 

de grupos minoritários ou destituídos de poder e, em 

última instância, minando a própria democracia e a 

liberdade geral.

 Outra retórica largamente utilizada pela extrema 

direita por meio das redes sociais é o discurso do medo. 

Segundo Rebecca Lewis (2018), a extrema direita 

desenvolveu um sistema para descontextualizar fatos a 

fim de fazer sua audiência se sentir, em termos pessoais 

ou como sociedade, alvo potencial de um perigo iminente. 

Por exemplo, a notícia de que uma mulher foi atacada 

por um imigrante em um país distante pode basear uma 

mensagem como: “É urgente proteger nossas mulheres 

e crianças dos imigrantes”. Roger Griffin (1991) alerta 

para o fato de quase todos os estudos sobre a extrema 

direita atribuírem a ela o medo como estratégia política 

porque a ideia de uma sociedade ameaçada pode suscitar 

uma solução autoritária.

 As mensagens que consubstanciam os discursos 

utilizados pela extrema direita têm origem em uma 

postagem de um/a líder, ou simplesmente numa fala pública 

que lança um tema a ser “trabalhado”. Os/as apoiadores/as 

fiéis – também chamados ativistas digitais ou influencers – formulam mensagens que serão disseminadas “por 

enxame”, utilizando a estrutura ramificada das redes 

sociais. Para terem maior impacto, essas mensagens são 

concebidas para serem consumidas rapidamente, com 

conteúdo simples e direto, de caráter visual (memes) e 

com apelo dramático (Fielitz & Marks, 2019).

 Como redes sociais são remuneradas por 

publicidade, isto é, proporcionalmente à atenção que 

conseguem captar de seus bilhões de usuários, influencers 

se beneficiam economicamente do alcance de suas 

postagens e têm milhões de seguidores/as, os quais muitas 

vezes não se dão conta de que estão cooperando com 

uma dinâmica fascista. Os algoritmos de aproximação de 

usuários/as das redes sociais auxiliam o recrutamento de 

seguidores/as, pois permitem encontrar quem concorde 

com suas ideias e dão a sensação de que muitas pessoas 

estão ouvindo (Neiwert, 2017). As milhões de replicações 

de uma mensagem falaciosa tendem a fazê-la ser 

aceita como verdade, inibindo que o contraditório seja 

ouvido e confundindo a percepção de quem são seus/

 suas reais emissores/as. Diferentemente das estruturas 

comunicacionais utilizadas pelo fascismo histórico, 

no qual poucos/as emissores/as se dirigiam a muitos/

 as receptores/as, na era do fascismo digital (Fielitz & 

Marks, 2019), as mensagens originárias podem ir sofrendo 

ajustes à medida que são compartilhadas por múltiplos/

 as emissores/as, os quais passam a ser, de certo modo, 

seus/suas coautores/as.

 A manipulação é vital para o fascismo digital. 

Mensagens ambíguas e imprecisas causam confusão 

sobre o que é a realidade, passando a impressão de que 

ela pode ser reinterpretada mesmo sem qualquer tipo de 

evidência (pós-verdade, fake news, realidade alternativa 

etc.). Ficou célebre o risível episódio em que o secretário 

de imprensa estadunidense, Sean Spicer, mentiu ao dizer 

que a tomada de posse de Trump bateu todos os recordes 

de participantes. Ao ser desmentido por inúmeros veículos 

de imprensa por meio de imagens inquestionáveis do 

evento, a porta-voz da Casa Branca, Kellyanne Conway, 

disse que o secretário apenas havia manifestado “fatos 

alternativos” (Jaffe, 2017). A manipulação de informações 

também foi usada pelo fascismo histórico e, por isso, 

foram desenvolvidos mecanismos de controle, tais como 

jornalismo profissional e rigor ético na produção de 

conhecimento (Fielitz & Marks, 2019).

 Redes sociais são empreendimentos comerciais que 

movimentam trilhões de dólares e congregam bilhões de 

usuários/as. Ao serem questionadas sobre o uso pernicioso 

às sociedades democráticas das estruturas comunicacionais 

das redes sociais, as empresas responsáveis costumam 

argumentar que as redes são territórios livres nos quais 

todos/as podem se expressar em igualdade de condições. 

Entretanto, é preciso considerar que a racionalidade fascista 

não se atém aos limites éticos. No fascismo digital, segundo 

Fielitz e Marks (2019), a verdade não importa. As mensagens 

podem ser manipuladas para se tornarem dramáticas,  

com forte apelo emocional, pois assim se disseminam mais 

facilmente (Soroka, Young, & Balmas, 2015). Segundo 

Zeynep Tufekci (2017), política não se faz só com a razão, 

e o papel do líder de extrema direita é fazer funcionar em 

seu benefício “essa máquina emocional” – as redes sociais.

 Entre os vários elementos envolvidos na psicologia 

das massas e na propaganda fascista – tais como vínculo 

entre os membros da “horda fraterna”, identificação 

narcísica, primazia da forma sobre o conteúdo discursivo, 

gratificação pela rendição à massa e renúncia da 

individualidade, hostilidade ao out-group etc. (Adorno, 

2015a, 2015b; Fromm, 1980) –, há um que se destaca pela 

grande importância: o apelo à violência. De acordo com 

Adorno (2015a), “[há um] potencial atalho de emoções 

violentas a ações violentas enfatizado por todos os 

autores da psicologia de massa” (p. 161). Foi o que se 

viu na violenta invasão do Capitólio, possibilitada pela 

mobilização nas redes sociais, quando foi consumada a 

derrota de Trump para um segundo mandato. Para Robert 

Paxton (2021), reconhecido especialista no fascismo 

histórico europeu, esse episódio foi um importante ponto 

de virada em seu entendimento sobre o fascismo de 

Trump: “Eu hesitei em chamar Donald Trump de fascista. 

Até agora”, escreveu poucos dias após o evento.

 Considerações finais

 O fascismo italiano originário pode ser visto como 

uma ideologia para justificar um projeto de poder tido 

como necessário para defender a nação e reconduzi-la 

a um passado glorioso. Sobre essa ideia seminal, 

Psicologia USP, 2024, volume 35, e220050

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Ubirajara de None Caputo   & Henrique Araujo Aragusuku

 ameaçadores, causa erosão no entendimento intersubjetivo 

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 durante o século passado, outros movimentos políticos 

se desenvolveram, chegaram ao poder e operaram por 

meio de extrema violência. Segundo os autores evocados 

neste ensaio, o fascismo é notadamente fortalecido por 

nossa vocação intrínseca à autopreservação.

 A partir do século XX, o exercício do poder, 

que nos séculos anteriores podia ser discricionário, 

passou a depender de eleições populares e, portanto,  

do convencimento das massas. Para isso, o método 

utilizado pelo fascismo é a propagação do medo para 

agregar multidões e emprestar uma noção ética ao uso 

da força. Neste século XXI, testemunhamos partidos 

conservadores de extrema direita tentando reeditar 

métodos do fascismo, adaptando-os a novos contextos 

socioeconômicos e informacionais. A veiculação maciça 

de tipos de discurso utilizados pela extrema direita, 

muitas vezes simplistas, manipulados, dramáticos e 

sobre o que é a verdade. Por isso, torna-se indispensável 

repensar estruturas que disseminam mentiras, produzem 

intolerância e alimentam as tendências fascistas de 

determinado grupo de pessoas.

 Mas se é possível explorar as disposições 

psicológicas para o fascismo, presentes em todos/as 

nós, seria possível estimular a solidariedade e o respeito 

à diversidade? Se sim, como? Sabe-se que, apesar de 

nossa tendência à autoconservação, é possível acatar as 

necessidades do out-group como legítimas e, em alguma 

medida, sentirmo-nos comprometidos/as coletivamente 

com elas. Essa possibilidade, no sentido oposto ao da 

propaganda fascista, implica evocar o respeito à diferença, 

à justiça social, à razão crítica, ao método científico, 

e a capacidade de mobilizar-se em favor do outro.  

Se efetivada, marcará o futuro de nossa civilização.

 Donald Trump and fascism: an analysis inspired by critical theory

 Abstract: Donald Trump’s actions during his presidency calls for an investigation regarding possible similarities between him 

and fascist leaders of the past. This essay is reflects on Trump’s political actions inspired by discussions on fascist psychology and 

propaganda within Critical Theory. Although Trump may escape the category of a classic fascist leader, mainly due to the different 

historical contexts, the similarities between his political strategies and those of 20th-century fascist agitators is undeniable. 

Moreover, his politics mobilize socio-psychological elements that date back to the emergence of historical fascism, such as 

identification with an idealized and transcendent identity, submission to a superior authority or cause, and aggressiveness 

directed to out-group threats.

 Keywords: fascism, critical theory, digital fascism, social psychology.

 Donald Trump y el fascismo: un análisis inspirado en la teoría crítica

 Resumen: La actuación de Donald Trump durante el período en el que fue presidente de los Estados Unidos plantea la posibilidad 

de investigar posibles similitudes entre los líderes fascistas del pasado y él. El propósito de este ensayo es presentar reflexiones 

sobre la actuación política de Trump inspiradas en discusiones sobre psicología y propaganda fascista en teoría crítica. Si bien 

parece imposible ver a Trump como un líder fascista clásico, principalmente debido a contextos históricos muy diferentes, 

también es imposible ignorar el nexo entre sus estrategias políticas y el modus operandi de los agitadores fascistas en el siglo 

XX. Además, es innegable que su política moviliza elementos sociopsicológicos que se remontan al análisis del surgimiento 

del fascismo histórico, como la identificación con una identidad idealizada y trascendente, la sumisión a una autoridad o causa 

superior, y agresividad dirigida a amenazas del out-group.

 Palabras clave: fascismo, teoría crítica, fascismo digital, psicología social.

 Donald Trump et le fascisme : une analyse inspirée de la théorie critique

 Résumé: Les actions de Donald Trump au cours de sa présidence appellent une enquête sur les similitudes possibles entre lui et 

les leaders fascistes du passé. Cet essai réfléchit aux actions politiques de Trump en s’inspirant des discussions sur la psychologie 

et la propagande fasciste au sein de la Théorie Critique. Bien que Trump puisse échapper à la catégorie de leader fasciste 

classique, principalement en raison de contextes historiques très différents, les similitudes entre ses stratégies politiques et celles 

des agitateurs fascistes du XXe siècle sont indéniable. En outre, sa politique mobilise des éléments socio-psychologiques qui 

remontent à l’émergence du fascisme historique, tels que l’identification à une identité idéalisée et transcendante, la soumission 

à une autorité ou à une cause supérieure, et l’agressivité dirigées vers les menaces du out-group.

 Mots-clés: fascisme, théorie critique, fascisme numérique, psychologie sociale.

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 Donald Trump e o fascismo: uma análise inspirada na teoria crítica

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 Recebido: 22/01/2021

 Revisado: 20/04/2022

 Aprovado: 05/07/202.  o artigo o dos autores Ubirajara de None Caputoa e Henrique Araujo Aragusukua 

As tarifas impostas pelo segundo governo de Donald Trump, iniciadas em 2025, têm o potencial de isolar os Estados Unidos do mundo. A escalada de medidas protecionistas, como a aplicação de uma tarifa geral de 10% e taxas mais elevadas para países específicos, já provoca incertezas e rupturas nas relações comerciais internacionais. 

As tarifas de Trump incluem:

Tarifa universal de 10%: Uma taxa de 10% foi implementada em abril de 2025 para quase todos os parceiros comerciais dos EUA, com o objetivo de aumentar as receitas e o protecionismo.

Tarifas recíprocas: Taxas específicas, como a de 50% para o Brasil, Índia e outros países, são usadas para penalizar nações que, na visão de Trump, "não se dão bem" com os EUA.

Penalidades seletivas: As tarifas de 35% para Canadá e 25% para o México são justificadas como resposta à política migratória desses países. 

Impactos potenciais das tarifas de Trump:

Isolamento dos EUA: A abordagem "América Primeiro" e o protecionismo têm o potencial de alienar aliados e forçar outros países a buscarem alternativas comerciais.

Impacto na economia global: A imposição de tarifas generalizadas e imprevisíveis cria incerteza, o que pode levar a um efeito recessivo na economia mundial e afetar o comércio exterior.

O Consenso de Washington foi um conjunto de dez prescrições económicas, elaboradas pelo economista John Williamson em 1989, que recomendava políticas neoliberais para países em desenvolvimento, especialmente na América Latina, a fim de estabilizar a economia e promover o crescimento. Incluía a disciplina fiscal, a liberalização do comércio e dos mercados financeiros, a privatização de empresas estatais e uma gestão mais eficaz da política cambial. As políticas foram promovidas por instituições financeiras como o FMI e o Banco Mundial, mas seus resultados iniciais foram desastrosos, causando crises e estagnação em alguns países. 

Objetivos

O principal objetivo do Consenso era a estabilização macroeconómica e a promoção do crescimento sustentado em países que enfrentavam crises de endividamento e hiperinflação. 

Principais Recomendações

As recomendações, em geral, incluíam: 

Disciplina Fiscal: Contenção dos gastos públicos e reordenação das finanças públicas para evitar défices. 

Liberalização Económica: Abertura das economias para o comércio internacional e para os investimentos estrangeiros. 

Reforma do Sistema Financeiro: Privatização de empresas estatais, liberalização do mercado financeiro e taxas de juros determinadas pelo mercado. 

Modernização do Sector Público: Aumento da competitividade e desburocratização. 

Origem e Influência

Contexto: As recomendações surgiram num encontro no Institute for International Economics em Washington, D.C., e foram compiladas pelo economista inglês John Williamson em 1989. 

Adesão: No ano seguinte, o modelo foi adotado como política oficial do Fundo Monetário Internacional (FMI), sendo promovido por instituições como o Banco Mundial e o Tesouro dos EUA. 

Críticas e Consequências

Desastrosos Inícios: Os resultados iniciais do Consenso foram desastrosos, com a geração de crise, insolvência e estagnação económica em vários países, começando pelo México em 1995. 

Crises Financeiras: Houve recorrentes crises financeiras na América Latina, Ásia e Turquia, muitas vezes imprevisíveis. 

Crescimento Atrasado: O crescimento da América Latina, em termos per capita, ficou abaixo do período anterior,  mesmo com as reformas neoliberais. 

Ironicamente. O Trumpismo poderia ruir o Consenso de Washington ?

               Confira a notícia no UOL.https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/06/02/eua-propoem-tarifa-de-25-sobre-produtos-do-brasil-apos-investigacao.ghtm.

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E assim caminha a humanidade.

Imagem  UOL