O Brexit foi a saída oficial do Reino Unido da União Europeia, concluída em 31 de janeiro de 2020 após um referendo em 2016.
O que foi o Brexit
Nome formado por British (britânico) e exit (saída).
Aprovado por 51,9% dos eleitores em junho de 2016.
Fim definitivo do período de transição em 31 de dezembro de 2020.
Principais Motivações
Controle de fronteiras: Restrição à livre circulação de cidadãos europeus.
Soberania nacional: Fim da supremacia das leis de Bruxelas sobre o Reino Unido.
Economia: Desejo de fechar acordos comerciais independentes pelo mundo.
Impactos e Consequências
Economia: Quedas de investimento e encolhimento gradual do PIB britânico.
Imigração: Mudança na origem dos imigrantes, com alta vinda de fora da UE.
Relações Internacionais: Retomada recente de diálogos para aproximação mútua.
As principais consequências do Brexit englobam impactos econômicos, burocráticos e sociais profundos no Reino Unido.
Impactos Econômicos e no Comércio
Redução do crescimento e comércio: A saída do mercado único e da união aduaneira gerou barreiras alfandegárias, burocracia e custos extras, fazendo a economia britânica encolher estimadas taxas de 6% a 8% ao longo dos anos.
Inflação e custos: O aumento no valor das importações vindas da União Europeia elevou os preços para os consumidores.
Queda de investimentos: A incerteza regulatória reduziu o apetite de investidores estrangeiros e travou parte da produtividade.
Imigração e Fronteiras
Mudança no perfil migratório: Contrariando a promessa inicial de forte redução nos fluxos migratórios, a imigração total aumentou, mas com uma mudança de eixo: diminuiu a entrada de cidadãos europeus e cresceu a de países de fora da Europa (como Índia e Nigéria) para suprir vagas em setores essenciais.
Controle soberano: O Reino Unido recuperou a autonomia total para definir suas próprias leis de imigração por meio de um sistema baseado em pontos.
Instabilidade Política e Opinião Pública
Turbulência governamental: O processo intensificou crises políticas internas e trocas frequentes de primeiros-ministros na última década.
Arrependimento popular: Pesquisas recentes mostram que a maioria dos britânicos passou a considerar a saída um erro e apoia uma reaproximação com o bloco europeu.
REXIT: COMO A SAÍDA DO REINO UNIDO DA UNIÃO
EUROPEIA AFETA AS RELAÇÕES DE COMÉRCIO
INTERNACIONAL
Autores
Joaquim Carlos Racy é economista, cientista social, mestre e doutor em História (área de
concentração: relações exteriores do Brasil) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Atualmente é professor de graduação e pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo e da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Álvaro Alves de Moura Júnior é economista pela
Universidade Presbiteriana Mackenzie, Mestre em Economia e Doutor em Ciências Sociais (Área de
Concentração: Política) pela PUC-SP. Professor dos cursos de graduação em Ciências Econômicas e
pós-graduação stricto sensu em Economia e Mercados da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e
de graduação da Escola Nacional de Seguros (ENS/FUNENSEG). Vitória Batista Santos Silva é
estudante do Mestrado Profissional em Economia e Mercados da Universidade Presbiteriana
Mackenzie, Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2018).
Bruno Tercete de Vasconcelos possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade
Presbiteriana Mackenzie (2008), é mestrando em Economia e Mercados na Universidade
Presbiteriana Mackenzie.
Resumo
O objetivo deste trabalho é analisar as consequências do Brexit para as relações de comércio
internacional, sob a lente da Economia Política Internacional. Foram considerados argumentos de
autores que já investigaram as relações entre Reino Unido e União Europeia, mesmo em momentos
anteriores à entrada do país no bloco econômico. A análise baseou-se nas teorias básicas das relações
internacionais – liberalismo e nacionalismo – comparando seus diferentes fundamentos para melhor
compreensão das consequências do Brexit. Os resultados contribuem à ideia de que o Brexit pode
trazer desvantagens econômicas ao Reino Unido, sobretudo no que se refere às relações comerciais
internacionais.
Palavras-chave Brexit. Reino Unido. União Europeia. Relações Internacionais.
ABSTRACT
This study aims to analyze the consequences of Brexit to the international trade relations, under the
lens international political economy. There is a reunion of views from other authors that had already
investigated the relations between the United Kingdom and the European Union, even before the
entrance of the country in the trade bloc. The analysis was based on the basic theories of international
relations – liberalism and nationalism – comparing its different foundations to help in understanding
the consequences of Brexit. The results contribute to the idea that Brexit can bring economic
disadvantages to the United Kingdom, especially regarding to international trade relations.
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Revista Pesquisa e Debate | v. 32, n. 1(57) (2020)
KEYWORDS Brexit. United Kingdom. European Union. International Relations.
JEL-CODE: F13; F53; F59.
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INTRODUÇÃO
Em 2016 foi realizado um plebiscito para averiguar a percepção dos britânicos sobre a saída
do Reino Unido da União Europeia, bloco econômico e político do qual é membro desde 1973, quando
ainda havia a Comunidade Econômica Europeia (CEE). A resposta oferecida pela população revelou
uma divisão significativa de opiniões e a opção de sair da União Europeia foi a alternativa vencedora.
Mais de três anos após o plebiscito, ainda não houve uma resolução quanto ao destino do Reino
Unido, porém muita discussão existe em torno do assunto.
Este trabalho tem por objetivo analisar os impactos da saída do Reino Unido da União
Europeia sobre as relações de comércio com os demais países. Desse modo, esta pesquisa visa avaliar
a questão sob a lente do conceito de Economia Política Internacional, além de esclarecer quais as
principais consequências dessa decisão para o comércio internacional.
Inicialmente foi feita uma revisão da literatura, contemplando as particularidades da
participação do Reino Unido no bloco econômico, buscando entender como se desenvolveu a relação
entre os britânicos e União Europeia do ponto de vista histórico. Em seguida, foram abordados os
aspectos mais recentes, discutindo quais os fatores que levaram à ideia da saída.
A proposta deste estudo consiste em tentar compreender o fenômeno do Brexit pelas
perspectivas liberal e nacionalista, buscando adequar a discussão à teoria da economia política
internacional e considerando as premissas que distinguem as duas visões, de modo que seja possível
entender os principais motivos que contribuíram para a vitória dos partidários pela saída da União
Europeia, e quais são os principais objetivos econômicos e políticos almejados pelos britânicos com
essa separação.
Por fim, foram apontadas as principais consequências da saída do Reino Unido da União
Europeia para o ambiente econômico internacional a partir da situação comercial do Reino Unido em
caso de saída, com ou sem acordo.
Dada a relevância das respostas buscadas, espera-se que seja possível esclarecer os motivos
do Brexit, visto que uma decisão sobre os rumos dessa questão pode trazer impactos para o comércio
entre diversos países.
1. REINO UNIDO E UNIÃO EUROPEIA
1.1. Entrada do Reino Unido na União Europeia: antecedentes
Algumas questões que podem indicar as diferenças entre o Reino Unido e os demais países
membros da União Europeia têm raízes bem antes da entrada do país naquele bloco. Ao discutir os
antecedentes da entrada, Young (1993) esclarece que desde o final do século XIX o Reino Unido viu
sua superioridade, em termos de indústria e de sua estabilidade política dentro do regime
parlamentarista, ser ameaçada por países como a Alemanha, o Japão e os Estados Unidos. Schutte
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(2017) acrescenta que a criação da Commonwealth e os resultados da Segunda Guerra Mundial
também endossaram o sentimento de potência mundial nutrido pelo Reino Unido, principalmente
pelo fato de o país não ter sido dominado pelos nazistas.
O final da II Guerra suscitou o empenho para reconstrução da Europa, com a intenção de que
um conflito semelhante não se repetisse. Em 1950 foi assinado o Tratado de Paris, por seis países –
França, Bélgica, Alemanha Ocidental, Holanda, Luxemburgo e Itália – e foi por meio dele que foi
fundada a CECA – Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (COSTA, 2017). Essa primeira
organização teve diversas modificações posteriores em sua formação, e sempre buscou aprofundar
a integração econômica e política dos países da Europa. Os primeiros Estados europeus que
formalizaram um acordo comum nos primórdios da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço
(CECA), posteriormente na Comunidade Econômica Europeia (CEE) e, por fim, na União Europeia,
objetivaram áreas de interesse comum. Em um primeiro momento, buscou-se um melhor fluxo
comercial por meio de acordos que reduzissem barreiras tarifárias entre os países. Com o
desenvolvimento do bloco econômico foi estabelecida uma moeda única além de benefícios, direitos
e deveres aos seus membros.
Em 1960 o Reino Unido sugeriu a criação do EFTA – Associação Europeia de Livre Comércio,
ao qual aderiram mais sete países, dentre eles a Áustria e Suíça, sendo uma resposta à criação da CCE – Comunidade Econômica Europeia, que tinha em sua origem a proposta de um mercado comum
europeu. Um Mercado Comum é uma modalidade de União Aduaneira que presume a livre
circulação/comércio dos fatores de produção dentro do mercado da mesma forma que dentro do
território de cada país (CABRAL, 2013). A razão do Reino Unido ter realizado esta proposta era
justamente porque não tinha intenção de participar da integração proposta pela CCE (SZUCKO,
2016).
Entretanto, o sucesso econômico do EFTA não foi o esperado, e o Reino Unido tentou por
duas vezes participar da CCE, mas a participação não foi aceita pela França que, na figura do general
Charles de Gaulle, possuía o receio de que houvesse uma aliança entre o Reino Unido e os Estados
Unidos, em um período que coincidia com a Guerra Fria. Apenas após a saída do general do poder, os
acordos com o Reino Unido começaram a ser viabilizados (SZUCKO, 2016).
O Reino Unido então ingressou em 1973, juntamente com a Irlanda e a Dinamarca, já
deixando claro o seu receio quanto ao aprofundamento da integração (COSTA, 2017). Já em 1975 foi
realizado o primeiro plebiscito para esclarecer se a permanência na CCE era algo desejado. O
resultado foi um percentual de 67,2% a favor da permanência na CCE, considerando o estímulo à
permanência da primeira-ministra britânica à época, Margareth Thatcher. Para Soares (2019), os
resultados do referendo de 1975 e o de 2016 são próximos em números absolutos de votos no que
se refere à permanência no bloco europeu, uma vez que no referendo de 2016, 16,14 milhões de
britânicos votaram a favor da permanência, representando então 48,1% da população votante,
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enquanto em 1975, 17,37 milhões de britânicos votaram em favor da permanência na EU, o que
representava 67,2% da população que votou, conforme é possível verificar no quadro a seguir.
Quadro 1 – Resultado dos Plebiscitos de 1975 e de 2016 para a permanência do Reino Unido na UE
Plebiscito de 1975
Plebiscito de 2016
Sair da UE
8,47 milhões (32,8%)
17,41 milhões (51,9%)
Ficar na UE
17,37 milhões (67,2%)
Fonte: Elaborado com dados de Soares (2019).
16,14 milhões (48,1%)
1.2. Relações Comerciais entre Reino Unido e União Europeia
Um ponto pertinente nesta discussão é o entendimento a respeito das relações comerciais
entre o Reino Unido e a União Europeia, procurando esclarecer quais as principais mercadorias que
são trocadas, e de que forma o suporte mútuo é visível, trazendo benefícios para os dois lados. Ao
considerar essa visão será possível entender alguns dos motivos econômicos que culminaram no
Brexit.
Em termos de exportação, a Alemanha é o segundo país que mais importa mercadorias do
Reino Unido, ficando atrás somente dos Estados Unidos. Do terceiro lugar em diante é possível
observar a Holanda, a França, a China, a Irlanda, a Bélgica e Luxemburgo e a Suíça (OEC, 2017). Esses
dados indicam que grande parte dos principais parceiros que importam do Reino Unido são países
da União Europeia.
Já do ponto de vista da importação, o Reino Unido tem como principal parceiro a Alemanha,
seguida pela China, Holanda, Estados Unidos, França, Bélgica/Luxemburgo e Itália (OEC, 2017).
Novamente, é possível perceber que do ponto de vista da importação, o Reino Unido tem nos países
membros da União Europeia seus mais relevantes parceiros comerciais.
Pode-se pontuar, portanto, se a existência de algumas condições de comércio comuns para
esses países não facilita essa troca de mercadorias. Certamente há menor burocracia no processo de
trocas, além de taxas específicas para quem é membro da UE.
No que se refere aos produtos que são comercializados, a mercadoria que o Reino Unido
mais importa e exporta são os automóveis (OEC, 2017), sendo conhecidas mundialmente suas marcas
de luxo tais como a Land Rover e a Jaguar. Mais adiante, será discutido o impacto para as transações
de automóveis e peças de veículos caso o Reino Unido decida sair da União Europeia sem acordo,
uma vez que a UE importava em 2017 cerca de 54% dos automóveis exportados pelo Reino Unido
(ACEA, 2017).
Do ponto de vista histórico, o Reino Unido possui um déficit comercial de bens e serviços
com a União Europeia, que atingiu -3,7% em 2015, sendo que ocorre o contrário com os valores
referentes ao comércio com países de fora da UE. Entretanto, em 2018, 77% do aumento das
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exportações do Reino Unido foi resultado de trocas comerciais com a UE (HOUSE OF COMMONS,
2019; ONS, 2019a).
Além disso, também merecem menção na categoria de bens, os produtos farmacêuticos e
medicamentos, que são o segundo segmento de bens que o Reino Unido mais exporta. Os principais
parceiros que importam essas mercadorias são os Estados Unidos, a Alemanha e o Japão. Em seguida,
aparece a commodity petróleo, e os países que mais importam esta mercadoria do Reino Unido são
a Holanda, a China, a Coreia do Sul e a Alemanha (OEC, 2017).
Em termos de serviços transacionáveis, a Europa constitui o maior destino do Reino Unido
(ONS, 2017). O segmento de Outros Serviços de Negócios foi o responsável por 32,13%1 do volume
total das exportações de serviços no ano de 2018. A segunda categoria que mais contribuiu para o
montante total foi a de serviços financeiros, que no mesmo período correspondeu a 21% do valor
arrecadado na balança de serviços (ONS, 2019b).
No que se refere às importações, conforme já mencionado, o produto que é mais importado
pelo Reino Unido são os automóveis, e para esse caso a Alemanha era responsável em 2017 pelo
fornecimento de 45% do total importado, aparecendo a Bélgica e Luxemburgo em segundo lugar,
com 15% deste total (OEC, 2017). Já no caso dos serviços, a categoria de Outros Serviços de Negócios
é que tem maior participação no montante de serviços importados, correspondendo em 2018 a
34,57%2 no total.
De maneira geral, é possível notar que os maiores parceiros comerciais do Reino Unido fora
da União Europeia são os Estados Unidos e a China. No que diz respeito à UE, esta é responsável por
receber 53% das exportações e por contribuir com 47% do montante de importações do Reino Unido
(UNIÃO EUROPEIA, 2019). Além disso, vale lembrar das condições presentes em um mercado
comum, que incluem a livre circulação de pessoas, bens, serviços e capitais entre os países membros
da União, de forma que nas trocas comerciais entre os países membros da União Europeia não estão
presentes uma série de tarifas, que passarão a ser cobradas tanto para o Reino Unido em relação ao
bloco, quanto para o bloco com relação ao Reino Unido, caso o Brexit se concretize.
1.3. Motivos que contribuíram para o Brexit
O que é possível dizer é que a relação entre o Reino Unido e a União Europeia sempre foi
conturbada, pois o Reino Unido nunca mostrou claramente intenção de aprofundar sua participação
nas políticas da UE. Szucko (2018) buscou compreender as percepções identitárias britânicas de
diferentes grupos etários com relação ao sentimento europeu ou apenas nacional e concluiu que os
mais idosos foram os que menos demonstraram sentimento de pertencimento à Europa, e afirma que
“A vitória, na consulta popular, da opção pela saída do bloco comunitário [em 2016] reflete essa fraca
identidade europeia no país” (SZUCKO, 2018, p. 221).
1 Valor considerando o ajuste de sazonalidade para o segundo trimestre de 2019.
2 Valor considerando o ajuste de sazonalidade para o segundo trimestre de 2019.
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Outros aspectos, como o fato de o Reino Unido não ter adotado o euro, preferindo manter a
libra esterlina como sua moeda, indica também que sempre houve a tentativa de conservar certa
autonomia em relação ao bloco, sem a intenção de aprofundar a integração (MENABB, s.d.).
Renni e Santos (2016) ressaltam que, além de motivos geográficos, que colocam o Reino
Unido em uma posição mais isolada em relação aos demais países da Europa, sempre existiu um
sentimento de ceticismo por parte dos britânicos para com a União Europeia com base na ideia de
que seria mais difícil administrar a economia do país caso houvesse restrições geradas por um
acordo.
Adicionalmente, Colantone e Stanig (2016), em seu estudo empírico, mostraram que a
globalização teve uma influência decisiva na contabilização a favor daqueles que queriam deixar a
União Europeia. O sucesso do “Deixar” no referendo de 23 de junho de 2016 pode ter sido decorrente
da maior exposição do Reino Unido à economia global via União Europeia nos últimos anos. São de
responsabilidade da União Europeia as decisões sobre a política comercial sendo que, desse modo,
as tarifas aplicadas pelo Reino Unido sobre os produtos chineses são de competência das instituições
da União Europeia.
O que se verificou é que nos últimos 30 anos a China tornou-se um dos mais importantes
agentes na economia global, e como consequência o comércio entre a China e os demais país do
mundo cresceu consideravelmente, não sendo diferente com o Reino Unido desde o final dos anos
1980 até 2007. A importação de produtos chineses pelo Reino Unido mais que do que dobrou em
termos absolutos. Nesse sentido, o rápido crescimento das importações da China mostrou-se um
choque e um dos possíveis motivos para a saída do Reino Unido da União Europeia. Esse choque de
importações levou as manufaturas em diferentes regiões do país a entrarem em crise, levando a
pressões a favor do Brexit. Ademais, a falta de uma política compensatória parte do governo britânico
para as partes que mais sofreram com a globalização, fez com que emergissem movimentos como
isolacionismo, protecionismo e nacionalismo baseado na identidade e, naturalmente, à uma crise do
liberalismo.
Com relação à imigração, Colantone e Stanig (2016) não encontraram evidências de que um
aumento da imigração em determinada região fosse um fator relevante para o voto a favor do Brexit,
embora tenha sido um ponto muito explorado pelos defensores do movimento a favor da saída do
bloco. Entretanto, os resultados sugerem que preocupações com relação à imigração podem atuar
como um fator gerador do aumento da opinião favorável por parte das pessoas que queriam a saída
do Reino Unido da União Europeia.
Desse modo, com o aumento da globalização e do conseguinte colapso nas manufaturas
locais, os trabalhadores associam a ideia de que um maior número de imigrantes ocasionaria uma
maior competição por empregos, mesmo não havendo evidências empíricas de que os trabalhadores
locais perderiam os seus empregos em decorrência de um aumento da imigração. Ao votar a favor do
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Brexit, os trabalhadores, preocupados com um maior número de imigrantes no mercado de trabalho,
estariam apenas tentando defender o seu próprio emprego.
Além disso, essa situação incita a preocupação de que os serviços públicos não estejam aptos a
atender as demandas de todo o contingente de pessoas – locais e imigrantes – reforçando
movimentos anti-imigração, com caráter radical, fortalecendo os partidos extremistas de direita
como foi o caso do UKIP (Partido da Independência do Reino Unido), um dos principais articuladores
do Brexit.
2. O BREXIT E A ECONOMIA POLÍTICA INTERNACIONAL
A análise dessa realidade pode ser bem encaminhada ao considerar alguns estudiosos das teorias
originais de economia política internacional. Nesse sentido, destacam-se as concepções nacionalista
e liberais das relações econômicas internacionais que serão brevemente abordadas para um juízo
sobre o Brexit.
No que se refere ao nacionalismo, pode-se afirmar que é um pensamento/ideologia que presume
que as metas de crescimento econômico devem estar aliadas ao objetivo de fortalecimento do Estado,
isto é, os interesses do Estado devem estar acima dos demais, sendo este o principal aspecto de união
entre o povo e os membros do governo (GILPIN, 2002). Bresser-Pereira (2018, p. 855) complementa
essa ideia, acrescentando que “O nacionalismo implica uma associação básica, mas sempre
contraditória, da elite com seu povo, com o qual ela vive uma relação permanente de conflito e
cooperação”.
Do ponto de vista histórico, considera-se que a doutrina do nacionalismo surgiu com a Revolução
Francesa, na tentativa de redução do poder econômico da nobreza pela burguesia e as classes menos
favorecidas, embora já tenham sido identificadas economias nacionalistas muito antes dessa época
(o mercantilismo é um exemplo anterior). Dessa maneira, o nacionalismo foi utilizado em muitos
países com a finalidade de manter regimes políticos autoritários (BRANCO, 2009; MAGNOLI, 2009).
O termo nacionalismo foi criado no final do século XIX para descrever um movimento de guinada
à direita mais radical, de classe média e classe baixa, em alguns países da Europa. Porém, ao longo da
história, nem sempre identificado um regime nacionalista pode ser considerado de direita
(HOBSBAWN, 1995; 1990). Hobsbawm (1990) destaca a evolução do conceito de nacionalismo ao
longo da história, sendo muitas vezes utilizado para caracterizar movimentos linguísticos, étnicos,
ganhando espaço em contextos de antipatia para com estrangeiros. O autor destaca três motivos
pelos quais o nacionalismo foi ficando cada vez mais presente em algumas comunidades:
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(...) a resistência de grupos tradicionais ameaçados pelo rápido progresso
da modernidade, as novas classes e estratos, não tradicionais, que
rapidamente cresciam nas sociedades urbanizadas dos países
desenvolvidos e as migrações sem precedentes que distribuíram uma
diáspora múltipla de povos através do planeta, cada um estranho tanto
aos nativos quanto aos outros grupos de migrantes e nenhum, ainda, com
os hábitos e convenções da coexistência (HOBSBAWN, 1990, p. 132-133).
Robert Gilpin (2002) ressalta a forte relação entre o conceito de nacionalismo e a
industrialização, explanando que, dentre os motivos mais relevantes, estão aspectos relacionados ao
transbordamento de conhecimento, por meio do qual acredita-se que a economia como um todo pode
se beneficiar. Além disso, são mencionadas as questões de fortalecimento da indústria nacional como
sinônimo de maior independência frente aos produtos oriundos de outros países, e do poderio militar
que pode surgir como consequência deste processo industrial, agregando valor à segurança nacional.
Sob esse aspecto, no que se refere as consequências do nacionalismo, Bresser-Pereira (2008)
destaca que se o país possui um regime nacionalista radical, pode gerar resultados mais violentos ao
se comparar com os demais regimes com características capitalistas. Entretanto, o autor pontua que
a ideologia nacionalista é um dos fatores que impulsionam a competição entre os países, do ponto de
vista de econômico e político, mantendo-se como algo central e fortemente presente nos estados
nação.
No que tange ao liberalismo, de acordo com Gilpin (2002), pode ser conceituado como a
reunião de alguns princípios que visam gerir uma economia de mercado, sempre buscando
maximizar a eficiência, o bem-estar dos indivíduos, e mantendo foco no crescimento econômico. A
divisão do trabalho, por exemplo, é um dos aspectos presentes nessa teoria, por meio da ideia de que
a especialização no exercício das atividades pode gerar vantagens comparativas na produção das
mercadorias, uma vez que cada empresa/país irá produzir aquilo que possui mais conhecimento,
matérias-primas, manufaturas, entre outros.
Stewart Jr. (1995) coloca que o liberalismo presume liberdade política e liberdade
econômica, listando como alguns de seus aspectos a igualdade de tratamento dos indivíduos perante
a lei, além do princípio de que não se deve privilegiar um agente da economia em detrimento de
outro. Um exemplo atual desses princípios é o pressuposto da Organização Mundial do Comércio
(OMC): o da não-discriminação – que presume que uma nação não deve ter condições diferentes de
comércio quando comparada a outras – e que abrange ainda o princípio da nação mais favorecida,
isto é, o de que quaisquer vantagens comerciais concedidas a um país devem ser aplicadas a todos os
demais países membros da organização (MDIC, 2019).
Na teoria liberal também está presente a ideia de que o mercado não necessariamente
precisa da intervenção do Estado para resolver questões econômicas, pois existe uma “mão invisível”
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(SMITH, 2009) que guia as decisões dos agentes de uma economia em direção a uma harmonia, de
forma que o pensamento individual gera benefícios para a sociedade como um todo (RACY et al.,
2015).
Gilpin (2002) ressalta então que o mercado pode ser interpretado como uma relação
interdependência econômica, sendo justamente uma consequência da especialização na produção
das mercadorias.
Cenci, Bedin e Fischer (2011) pontuam que a teoria liberal possui definições diferentes
levando em consideração o período histórico em que elas são aplicadas. Não existe, desse modo, um
consenso sobre a partir de qual grau de intervenção estatal uma economia pode ser considerada
liberal, mas há sim a crença no Estado Mínimo, que intervenha o mínimo possível na economia,
arcando apenas com funções essenciais para o bom funcionamento da economia.
Do ponto de vista da economia política internacional, o comércio é um ponto central nessa
discussão, pois há distinções na forma como ocorrem as trocas entre os países, caso sejam mais ou
menos liberais em seus regimes políticos e econômicos, relacionadas à quantidade e intensidade de
barreiras e tarifas empregadas nas transações, entre outros aspectos. Nesta linha de raciocínio, o
liberalismo supõe que as transações entre os países devem ocorrer da maneira mais fácil possível,
prezando pela redução de tarifas e da burocracia na realização de negócios internacionais.
Gilpin (2002) ressalta, nessa medida, que no liberalismo o comércio deve funcionar como um fator
que impulsiona o crescimento econômico, pois as relações de comércio internacional são vistas como
um meio de proporcionar melhores condições econômicas aos países de uma forma geral, dado que
não é possível que produzam internamente todos as mercadorias necessárias para a sobrevivência
de sua população.
Portanto, vale considerar que, quanto melhores as relações diplomáticas com os demais países,
melhores os resultados das trocas comerciais realizadas. Com base nisso, e com o objetivo de evitar
maiores conflitos como os já ocorridos na história – como foi o caso das grandes guerras – alguns
países se uniram para formar blocos econômicos, como no caso dos países da União Europeia. Ao
pertencer a blocos econômicos como esse, salvas as particularidades de cada uma das modalidades,
presume-se que as relações de comércio são facilitadas entre os países-membros.
3. UMA ANÁLISE SOBRE A SAÍDA DO REINO UNIDO DA UNIÃO EUROPEIA
3.1. Interpretação do Brexit à luz de algumas importantes questões
concernentes à teoria da economia política internacional
Dentre as teorias expostas, e considerando os aspectos comerciais observados acerca da
economia do Reino Unido, é possível identificar uma tendência nacionalista no Brexit. Fica evidente
que boa parte dos britânicos possui dificuldades em se perceber como membro de um bloco de
países, do ponto de vista da identidade, conservando ressalvas com relação à integração.
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A divisão social que estava em estado latente no Reino Unido começou a eclodir, gerando
divergências de identidade principalmente com relação ao continente europeu. Uma parte dos
britânicos por meio do aspecto intersubjetivo e cognitivo procuraram começar a se identificar mais
entre si, enquanto a União Europeia se tornava mais distante. Prevalecendo o discurso contra a
imigração, objetiva-se um maior controle dos povos vindos do continente justificada por uma
preocupação com a perda da soberania britânica.
Sendo a Inglaterra o país da Europa que mais recebe imigrantes depois da Alemanha
(DUPUY; MORGANTE, 2016), esse sentimento expressa um nacionalismo que contraria o espírito do
bloco que presume a livre circulação de pessoas. Nesse sentido, a ex-primeira-ministra britânica
Theresa May chegou inclusive a anunciar novas políticas de imigração, dando preferência a
profissionais qualificados (Euronews, 2018).
Pode-se aduzir ao problema o fato de que o Reino Unido é composto pela Inglaterra, Escócia,
Irlanda do Norte e pelo País de Gales. Assim, não se pode descartar a possibilidade de futuros
conflitos internos no Reino Unido, de acordo com o advento do Brexit. Como lembra Calhoun (2017),
embora a Inglaterra tenha votado a favor do Brexit, a Irlanda e a Escócia votaram por permanecer na
União Europeia, embora o País de Gales também tenha votado a favor de sair do bloco. A população
mais significativa responsável por essa decisão é inglesa.
Num estudo de Henderson et al. (2016) são encontradas evidências sobre a questão
nacionalista relativamente ao Brexit, retomando a questão identitária. Uma característica
interessante ressaltada é que a parte da população da Inglaterra que se sente mais britânica do que
propriamente inglesa se mostra favorável à integração com a União Europeia, o que está alinhado
como que se indicou no parágrafo anterior. Assim, embora o Reino Unido seja o objeto do Brexit, a
Inglaterra é a responsável central por sua promoção. Ademais, está claro que o sentimento de não
pertencimento à União Europeia tem maior peso nas decisões e nas atitudes da população inglesa no
sentido de deixar a UE do que ocorre no País de Gales e na Escócia.
Outra característica do aspecto nacionalista presente no Reino Unido, destacado por Adler
Nissen, Galpin e Rosamond (2017), é que essa parcela dos britânicos entende que fazer parte da UE
seja algo muito próximo de de aceitar decisões de terceiros, além de manter a esperança histórica de
um império liderado pelo Reino Unido, ressaltando a oposição ao multiculturalismo (CALHOUN,
2016).
Com relação à economia, particularmente no que se refere ao conceito de globalização,
Dupuy e Morgante (2016) afirmam que o Brexit é uma consequência desta, uma vez que a Europa
abriga países com diferentes processos de formação e distintas velocidades de desenvolvimento,
embora possuam um passado histórico semelhante em muitos pontos. Ao mesmo tempo, o Brexit
representa uma reação de rejeição e de ira com relação ao processo de globalização, uma vez que
este encerra qualquer tentativa de retorno ao passado.
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Ainda no que diz respeito ao conceito de globalização, o argumento de Pettifor (2017) é de que esse
é de que este presume certa utopia, principalmente no atual cenário de financeirização e mercados
integrados. No citado estudo é possível identificar o receio quanto à incerteza sobre a posição do
Reino Unido do ponto de vista global. Nesse sentido, Pettifor (2017) compara a situação do Reino
Unido com a proposta nacionalista de Donald Trump nos Estados Unidos, comentando a criação de
um muro que impediria a chegada de imigrantes mexicanos ilegais:
But Britain’s ‘Brexit’ vote is but the latest manifestation of popular
dissatisfaction with the economists’ globalized, marketized society. And if
there should be any doubt that these movements are both nationalistic
and protectionist, consider Donald Trump’s campaign threat to build a
wall between Mexico and the US, to deter migrants, ‘gangs, drug traffickers
and cartels’ (Trump website)3 (PETTIFOR, 2017).
3.2. As relações comerciais do Reino Unido após o Brexit
Para começara essa análise, é preciso identificar quais os impactos do Brexit para as
relações comerciais entre o Reino Unido e a União Europeia. De acordo com Valente, Azevedo e
Leitão (2019), é preciso considerar os impactos negativos da saída do ponto de vista econômico
caso ela se dê sem acordo, ou com um acordo feito às pressas, sem considerar adequadamente
todos os pormenores. Levando em conta a interdependência comercial que entre o Reino Unido e
os demais países da União Europeia, é possível que haja algum tipo de retaliação após a
concretização do Brexit, com países tentado impedir os fluxos comerciais com o Reino Unido, sendo
isso mais prejudicial a este do que a União Europeia.
Além disso, o comércio entre o Reino Unido e a União Europeia seria mais custoso, uma vez
que tarifas alfandegárias iriam aumentar independentemente do acordo feito com a UE (DHINGRA
et al., 2017). O poder de negociação do Reino Unido no comércio com UE iria diminuir, e as trocas
precisariam ser negociadas individualmente com os países da União Europeia, sendo necessário
ainda seguir as regras da UE no que se refere à regulamentação comercial. As trocas com países que
não são parte da UE também levariam mais tempo para serem efetivadas, uma vez que o país
certamente não oferecerá aos parceiros as mesmas vantagens que a UE consegue oferecer como um
bloco econômico (OCDE, 2016).
3 Mas o voto britânico para o ‘Brexit’ nada mais é do que a mais recente manifestação da insatisfação popular com a sociedade
globalizada e comercializada dos economistas. E se houver alguma dúvida que esses movimentos são ao mesmo tempo
nacionalistas e protecionistas, considere a ameaça da campanha de Donald Trump de construir um muro entre México e os
Estados Unidos, para deter migrantes, gangues, traficantes de drogas e cartéis (website de Trump) (PETTIFOR, 2017, tradução
nossa).
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Após as considerações anteriores, é preciso identificar o que poderia ser obtido como
vantagem do Brexit para o Reino Unido. Há o argumento de que o Reino Unido estaria mais livre para
reduzir tarifas de importação para outros países, o que traria impacto positivo para o bem-estar
britânico (BUSCH; MATTHES, 2016). Com relação aos Estados Unidos, que é o país que mais recebe
mercadorias do Reino Unido (OEC, 2017), notícias recentes indicam a intenção de um acordo entre
os dois países com disposição para o aumento dos fluxos comerciais (Exame, 2019).
Dhingra et al. (2016; 2017) estimam os custos e os benefícios do Brexit e indicam que, a
despeito da economia feita com a redução da participação financeira do Reino Unido na União
Europeia, é preciso considerar que mesmo com a saída o Reino Unido não deixaria de pagar
determinados montantes para a UE, para continuar tendo acesso ao Mercado Comum. Dessa forma,
os custos em razão da menor integração com a União Europeia em termos de comércio poderiam
superar a economia mencionada. Dhingra et al. (2016; 2017) ressaltam ainda que é preciso levar em
conta quais políticas o Reino Unido irá adotar após saída.
Por outro lado, não se pode deixar de considerar que não apenas o Reino Unido teria perdas
com o Brexit, mas também a União Europeia. Belke e Gros (2017) comparam o impacto da saída do
Reino Unido à magnitude do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP)
com o sinal invertido, uma vez que o fluxo comercial entre UE e Reino Unido é equivalente ao que
ocorre entre UE e Estados Unidos.
Um estudo de Aichele e Felbermayr (2015) estima três cenários para a saída do Reino Unido
da UE. O primeiro deles, soft exit, seria após a saída o Reino Unido passar a ter uma condição
semelhante à da Noruega, que faz parte do Espaço Econômico Europeu (EEE) e da Associação
Europeia de Livre Comércio (EFTA), ou da Suíça, que é também membro da EFTA. Os dois países têm
forte relação comercial com os demais membros da União Europeia, mas não são efetivamente países
membros.
O segundo cenário estimado por Aichele e Felbermayr (2015), deep cut, seria a saída sem
um acordo relativo ao comércio, o que seria sinônimo de dizer que as tarifas em transações poderiam
ser incluídas ou aumentar, o que impactaria diretamente no custo das exportações, cenário no qual
é preciso lembrar que o Reino Unido já possui uma conta de exportação de bens e serviços deficitária
com relação aos países da UE, conforme mencionado na seção 1.2.
E o terceiro cenário estimado, isolation of the UK, seria o mesmo que o Reino Unido perder
todo o acesso ao Mercado Comum Europeu, perdendo ainda benefícios de acordos comerciais entre
a UE e outros países não membros (AICHELE; FELBERMAYR; 2015).
Do ponto de vista econômico, os cenários não se apresentam promissores. Conforme já
indicado, Dhingra et al. (2016) reiteram que a União Europeia é o maior parceiro comercial britânico,
sendo que este corresponde a cerca de 50% do fluxo de mercadorias e bens de serviço. No melhor
dos cenários, a relação comercial entre Reino Unido e União Europeia seria similar ao que a União
Europeia tem com a Noruega, membro do Espaço Econômico Europeu (EEE) e do Mercado Único
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Europeu, o que lhe permitiria adotar políticas e regulamentos para reduzir as barreiras comerciais
não tarifárias e se beneficiar por não haver barreiras comerciais tarifárias. Entretanto, a Noruega não
faz parte da União Aduaneira da União Europeia, o que significa que a Noruega pode enfrentar
barreiras não aduaneiras que não seriam aplicadas aos países membros da União.
Em um cenário mais pessimista, o comércio entre o Reino Unido e a União Europeia seria
regido pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e, nesse caso, os custos comerciais
para o Reino Unido seriam mais elevados, uma vez que a OMC não teve um progresso previsto nas
negociações para reduzir as barreiras não tarifárias entre os países.
Desse modo, o aumento dos custos ao Reino Unido poderia vir de tarifas mais altas de
importações, de um aumento das barreiras não tarifárias, e por não fazer parte da União Europeia o
país não se beneficiaria de uma integração mais profunda com a UE com melhores acordos
comerciais, como os negociados com os Estados Unidos e o Japão.
É preciso pensar também que com a saída do Reino Unido, parte da arrecadação da União
Europeia estaria comprometida. Em 2018, o Reino Unido contribuiu com cerca de 8,5% da receita
total da UE, com contribuição total da ordem de 13.461,9 milhões de euros. Por outro lado, vale
mencionar que a UE também investiu no mesmo ano no Reino Unido um percentual de 4,2% de seu
gasto total, sendo boa parte desses gastos destinados ao segmento da agricultura (EUROPEAN
COMMISSION, 2019; EUROPEAN PARLIAMENT, 2017).
Da mesma forma que ocorreria impacto nas exportações, uma saída sem acordo faria com
que importar bens e serviços dos países da UE ficasse mais caro para o Reino Unido. Conforme foi
ressaltado na seção 1.2, os principais parceiros comerciais do Reino Unido são os países da União
Europeia, a China e os Estados Unidos. No tocante ao consumo de alimentos, por exemplo, alguns
estudos (LANG; MCKEE, 2018; MATTHEWS, 2016; LANG et al., 2018) abordam as consequências do
Brexit para a importação de alimentos e para as políticas relativas à agricultura, dado que o Reino
Unido importa cerca de 30% dos alimentos que consome (DEFRA, 2017).
Por fim, ainda é necessário considerar que as relações comerciais do Reino Unido não iriam
sofrer alterações apenas com os países da UE, pois a alteração das regras de comércio do país trará
impacto para o comércio britânico como um todo. O estudo de ABBOTT (2019) aborda, por exemplo,
as relações comerciais do Reino Unido com a Nova Zelândia e a Austrália após o Brexit, e explica que
há a tendência de que elas se intensifiquem após o a saída, principalmente no segmento de alimentos
por meio de redução nas tarifas de importação quando comparadas às da UE. Além disso, é ressaltada
a possibilidade de aprofundamento das relações comerciais de serviços, e do fluxo de investimentos
entre os países mencionados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ainda não estão definidos os rumos finais do Brexit, que deveria ter se concretizado em
2018. O que deveria ter sido apenas uma tentativa do ex-Primeiro Ministro do Reino Unido David
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Cameron de ampliar a sua base de apoio no Parlamento Britânico, acabou gerando uma situação não
apenas aversa para o Reino Unido por causa do referendo de 2016, mas também para a União
Europeia, conjuntura que ficou ainda mais nebulosa com a renúncia da Primeira-Ministra britânica
Theresa May (sucessora de Cameron), após fracassar na terceira tentativa de aprovar um acordo de
saída do Brexit no Parlamento Britânico.
A saída do Reino Unido da União Europeia estava agendada para abril de 2019, com ou sem
acordo. O cenário mais plausível era uma retirada sem acordo. Das condições propostas pela União
Europeia para uma saída sem acordo estavam o pagamento por parte do Reino Unido à União
Europeia no valor de 39 bilhões de libras, a manutenção do “backstop” irlandês, com a manutenção
de grande parte da legislação do mercado único e a aduaneira na Irlanda do Norte, de modo a honrar
o acordo da Sexta Feira Santa (Acordo de Belfast) e a manutenção dos direitos de residência dos
cidadãos e a coordenação de segurança social prevista no acordo de retirada.
Já houve diversas tentativas de adiar a saída da UE, uma vez que as negociações internas no
parlamento britânico estão distantes de um acordo. Após a renúncia de Theresa May, Boris Johnson
assumiu o cargo de primeiro-ministro em julho de 2019, e o governo Britânico conseguiu um novo
adiamento para o dia 31 de outubro de 2019 e, posteriormente, para o dia 31 de janeiro de 2020, a
fim de evitar uma saída sem acordo, o que seria desastroso para o Reino Unido podendo resultar em
problemas de transporte e abastecimento.
As eleições para o Parlamento em dezembro de 2019, revelando a atmosfera conturbada do
país, definiram, entretanto, a opção pela saída, uma vez que o Partido Conservador foi o vencedor
inconteste do pleito. Mas, ainda não se podem delimitar claramente os resultados do Brexit uma vez
que não se tem claro como se dará na realidade e na prática a saída, e uma definição clara de qual
será a trajetória do Reino Unido em termos de relações comerciais com o mundo e com a própria UE.
Tudo isso reforça a perspectiva nacionalista da Economia Política Internacional.
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1993. O artigo dos autores Joaquim Carlos Racy é economista, cientista social, mestre e doutor em História (área de
concentração: relações exteriores do Brasil) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Atualmente é professor de graduação e pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo e da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Álvaro Alves de Moura Júnior é economista pela
Universidade Presbiteriana Mackenzie, Mestre em Economia e Doutor em Ciências Sociais (Área de
Concentração: Política) pela PUC-SP. Professor dos cursos de graduação em Ciências Econômicas e
pós-graduação stricto sensu em Economia e Mercados da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e
de graduação da Escola Nacional de Seguros (ENS/FUNENSEG). Vitória Batista Santos Silva é
estudante do Mestrado Profissional em Economia e Mercados da Universidade Presbiteriana
Mackenzie, Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2018).
Bruno Tercete de Vasconcelos possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade
Presbiteriana Mackenzie (2008), é mestrando em Economia e Mercados na Universidade
Presbiteriana Mackenzie.
As consequências políticas do Brexit incluem a instabilidade governamental no Reino Unido, a polarização partidária e o fortalecimento da coesão na União Europeia.
A crise gerou sucessivas trocas de primeiros-ministros britânicos.
O processo derrubou governos de David Cameron, Theresa May e Boris Johnson.
Houve forte travamento institucional no Parlamento durante as negociações do divórcio.
A participação combinada dos partidos tradicionais caiu de 76% (2019) para 58% (2024).(Segundo o Portal G1 da Rede Globo ).
Partidos populistas e de direita alternativa vem ganhando notoriedade no cenário eleitoral.
Movimentos eurocéticos em outros países perderam força ao observar as dificuldades britânicas.
A União Europeia aumentou sua união interna diante dos custos da separação. O Brexit e suas consequencias.
Confira a noticia no Portal G1 da Rede Globo .https://g1.globo.com/mundo/
E assim caminha a humanidade.
Imagem ; Site Brasil Escola . Portal UOL.
