A polarização política é a divisão da sociedade ou do sistema político em dois campos ideológicos ou partidários opostos e antagônicos, com pouca ou nenhuma sobreposição ou diálogo entre eles. Esse fenômeno é marcado por uma intensa rivalidade e, muitas vezes, pela transformação de adversários políticos em inimigos.
Características Principais
Divisão em Polos: A sociedade se divide em dois grupos com visões de mundo distintas e fechadas, como a dicotomia esquerda versus direita no Brasil atual.
Falta de Diálogo: Há uma relutância em ouvir ou considerar perspectivas opostas, o que prejudica o debate público e a busca por soluções consensuais.
Identidade e Emoção: A afiliação política torna-se parte da identidade pessoal, levando a um engajamento emocional intenso (amor pelo próprio grupo, ódio/repulsa pelo oposto). A opinião sobre um fato pode depender mais de quem o diz do que do seu conteúdo lógico.
Causas
Tendências Humanas: A formação de grupos para autopreservação é uma tendência histórica, onde a lealdade ao grupo se sobrepõe à análise crítica individual.
Redes Sociais: Os algoritmos das redes sociais criam "bolhas" e reforçam visões preexistentes, facilitando a radicalização das posições e a disseminação de desinformaçã
Onde está a Polarização Política no Brasil?
Danilo Medeiros
Resumo
A política brasileira contemporânea é frequentemente definida por
acadêmicos, jornalistas, comentaristas e público geral como “polariza
d a”. A associação com algum tipo de crise e disfuncionalidade é clara
e também está presente na descrição de outras democracias. Mas do
que exatamente se trata a polarização política? Está acontecendo ape
nas com o eleitorado ou também com partidos e parlamentares? Como
esse fenômeno se desenvolveu no Brasil e em outros países? Este ensaio
visa justamente oferecer respostas a essas perguntas e contribuir para a
discussão sobre a interação entre as preferências e os interesses de repre
sentantes e representados. Para tanto, traço um panorama da literatura
e trago dados do caso brasileiro. Por fim, discorro sobre os possíveis im
pactos da polarização para as eleições de 2022 e o futuro da democracia.
Abstract
Contemporary Brazilian politics is often defined by academics, jour
nalists, commentators and the general public as “polarized”. The associ
ation with some kind of crisis and dysfunctionality is clear and is also
present in the description of other democracies. But what exactly is po
litical polarization about? Is it happening only with the electorate or also
with parties and parliamentarians? How did this phenomenon develop
in Brazil and in other countries? This essay aims precisely to offer an
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Onde está a Polarização Política no Brasil?
swers to these questions and contribute to the discussion about the inter
action between the preferences and interests of representatives and those
represented. To this end, I outline an overview of the literature and pres
ent data from the Brazilian case. Finally, I discuss the possible impacts of
polarization for the 2022 elections and the future of democracy.
Introdução
A crescente polarização política em diversos países tem sido aponta
da como uma das causas das crises democráticas por todo o mun
do (LEVITSKY, 2018; LEVITSKY & ZIBLATT, 2018; SVOLIK, 2019). Por que a
polarização está em crescimento em contextos democráticos? Por que
ela leva a maior risco de crises políticas e, no limite, a rupturas? Em
outras palavras, quais são as causas e consequências da polarização po
lítica? Ainda que não pretenda exaurir as inúmeras respostas que vêm
sendo amplamente oferecidas e debatidas na literatura internacional,
este ensaio tece um panorama da literatura sobre polarização política,
em seguida apresenta dados sobre o Brasil e, por fim, discorre sobre seus
possíveis impactos para as eleições de 2022 e o futuro da democracia.
Polarização é uma palavra usada costumeiramente no debate públi
co para descrever uma situação política onde há um conflito disfuncio
nal (McCARTY, 2019, p. 19). Uma expressão frequentemente utilizada por
acadêmicos, jornalistas, comentaristas e público geral para definir a po
lítica brasileira contemporânea é “polarizada”. Mas ao que estamos nos
referindo quando falamos de polarização política? O dicionário Houaiss
define polarização como “atração à volta de, ou em direção a um ou mais
polos, pontos, temas, opiniões etc.; fig. centralização de pensamentos ou
energias ou esforços em torno de um ou mais pontos (p. ex., de atenções);
fig. contraposição, oposição antinômica ou antitética; concentração em
extremos opostos (de grupos, interesses, atenções, atividades, influências
etc. antes alinhados entre si); fig. divisão em antípodas”. Polarização po
lítica é nada mais do que essa definição aplicada à política, isto é, a exis
tência de dois sistemas de crenças dominantes e contraditórias.
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Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1
Para que possamos dizer que há um processo de polarização em
curso, é preciso que haja dois blocos com ideologias ou preferências so
bre políticas claramente distintas e que esses blocos estejam continua
mente se distanciando (em direção às extremidades de uma linha ideo
lógica imaginária). Os Estados Unidos, por exemplo, foram marcados
pelo distanciamento entre liberais e conservadores – e por partidos que
representavam cada um desses polos – por décadas, mas só quando as
visões de mundo e as preferências políticas de ambos os blocos se dis
tanciaram da moderação – ou do centro – é que se passou a dizer que a
política americana era polarizada ou estava em processo de polarização
(McCARTY et al., 2006; POOLE & ROSENTHAL, 1997). Já em alguns países
da Europa, argumenta-se que atualmente há um processo de “despola
rização”, uma vez que, com a chegada da nova (extrema-) direita, as de
mais forças políticas passaram a advogar propostas e posições políticas
mais moderadas (ADAMS et al., 2012; FENZL, 2018; HAN, 2015).
O primeiro ponto a se destacar é a diferença entre polarização das
massas e polarização da elite política. A primeira diz respeito a visões
contrastantes entre eleitores ou simplesmente cidadãos. Já a segunda
dá conta das divisões entre aqueles que ocupam cargos eletivos e/ou
ocupam a militância e as estruturas partidárias. Não há nada que obri
gue os dois tipos de polarização a coexistirem ou a se influenciarem
mutuamente. Eleitores podem estar amplamente divididos enquanto a
elite política está concentrada em uma posição moderada, ou vice-versa.
Quando incluímos a variável tempo, cada tipo de polarização pode ter
sua própria trajetória e a relação entre as duas vai variar a depender do
recorte espacial que traçamos – por exemplo, em um país a polarização
da elite pode vir antes (e até causar) da polarização das massas, enquan
to em outro país a situação pode ser inversa.
Na sequência deste artigo, de caráter descritivo, explorarei a relação
entre polarização das massas e da elite política no Brasil. Aponto como
a literatura tem chamado atenção de um lado para o processo de pola
rização das eleições presidenciais entre PT e PSDB (e as alianças que os
mesmos formam e mantém) até 2018 e, de outro lado, da convergência
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Onde está a Polarização Política no Brasil?
ao centro desses partidos/blocos do ponto de vista da ideologia dos seus
apoiadores e da percepção da elite política. Contraponho essa interpre
tação ao sentimento generalizado de polarização que tomou conta do
país (e das democracias ocidentais) e ofereço uma análise do processo
de polarização que ocorre no Poder Legislativo.
Polarização Política das Massas
Sabemos que nos Estados Unidos, onde estudos sobre polarização
política abundam, a elite política está há quatro décadas acirrando
suas divisões em dois blocos que se afastam continuamente do centro do
espectro ideológico (BARBER & MCCARTY, 2013; GARAND, 2010; McCARTY
et al., 2006; POOLE & ROSENTHAL, 1997). Nesse mesmo país, no entan
to, não há o mesmo consenso sobre o fenômeno no nível das massas
(ABRAMOWITZ & SAUNDERS, 2008; FIORINA et al., 2005, 2008; LEVENDUSKY
& POPE, 2011). O eleitorado americano é caracterizado como geralmente
moderado, tendo sua guinada em direção aos extremos do eixo liberal
conservador ocorrido em período mais recente e, muitas vezes, restrita
a alguns tópicos ou políticas públicas específicas. Ainda há incertezas
sobre se decisões e posições da elite partidária influenciaram e ainda
influenciam a polarização do eleitorado americano.
As eleições presidenciais no Brasil entre 1994 e 2014 apontam
para uma disputa entre dois partidos – ou duas alianças, se conside
rarmos que esses partidos eram apoiados por outras legendas que, in
clusive, coordenavam estratégias nos estados – a saber, o Partido dos
Trabalhadores (PT) e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB)
(BRAGA & PIMENTEL JÚNIOR, 2011; LIMONGI & CORTEZ, 2010; LIMONGI &
VASSELAI, 2018; MELO & CÂMARA, 2012; RIBEIRO et al., 2016). Mas seria essa
“polarização” da competição eleitoral – termo utilizado comumente no
debate político pré-2018 – um indicativo da polarização do eleitorado
brasileiro? De um lado, eleitores só podem votar nas candidaturas que
lhes são apresentadas pelos partidos. Como concluem Limongi e Cortez
(2010, p. 36), “[a] coordenação das estratégias partidárias tem levado a
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Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1
uma significativa restrição das opções efetivamente disponíveis nas dis
putas presidenciais e pelos governos estaduais”. De outro lado, eleitores
ainda assim fazem escolhas dadas as opções que lhes são oferecidas. E as
escolhas nas eleições majoritárias no Brasil antes da eleição de 2018 se
concentravam nos polos coordenados por PT e PSDB.
Análises que tomam como base o Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB),
composto por surveys realizados após cada eleição federal no Brasil,
apontam para o fato de que as preferências dos eleitores das duas prin
cipais alianças eleitorais no Brasil são heterogêneas internamente e não
permitem distinções claras entre os blocos. Mais do que isso, a tendên
cia é de convergência das posições ideológicas com o decorrer dos plei
tos (Borges & Vidigal, 2018). Isso não se dá apenas do ponto de vista
das percepções e opiniões dos eleitores, mas pesquisas com a própria
elite política indicam que os grandes partidos brasileiros se movem em
direção ao centro e passam a se diferenciar cada vez menos (LUCAS &
SAMUELS, 2011; T. POWER & ZUCCO JR., 2009).
Samuels e Zucco (2018), por exemplo, concluem que petistas e an
tipetistas – dois blocos que, junto dos não-partidários, organizariam as
preferências do eleitorado brasileiro – não são tão distinguíveis ideo
logicamente como esperaria o senso comum. Como explicar isso? Em
concordância com parte considerável da literatura especializada, Borges
e Vidigal (2018, p. 79–80)procura-se contribuir para a literatura colo
cando em questionamento diagnósticos recentes com respeito à pola
rização do sistema partidário presidencial. De acordo com a hipótese
da polarização, a competição eleitoral entre PT e PSDB levou a uma cres
cente divisão do eleitorado em dois blocos claramente diferenciados e
polarizados. Argumentamos que esta hipótese se apoia em bases teóri
cas e empíricas frágeis. Não obstante a crescente importância dos sen
timentos partidários na determinação do comportamento dos eleitores
no pleito presidencial, os resultados das análises descritivas e modelos
estatísticos multivariados com base nos surveys do Estudo Eleitoral
Brasileiro (Eseb destacam que “a predominância do PT e do PSDB na
arena presidencial resulta provavelmente menos do enraizamento des
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Onde está a Polarização Política no Brasil?
ses partidos no eleitorado e mais da capacidade dessas organizações de
coordenar de forma eficiente alianças nacionais e subnacionais”.
Temos as seguintes evidências: (1) os eleitores brasileiros se dividiam
(até 2018) claramente em blocos de apoio eleitoral – seja entre eleitores de
PT e PSDB, seja entre petistas, antipetistas e não-partidários; (2) os parti
dos e as alianças convergem em direção ao eleitor mediano; (3) os blocos
não são tão distintos quanto se imaginava, isto é, não há uma polarização
ideológica clara no eleitorado brasileiro. Mesmo assim, é impossível pas
sar um dia no Brasil sem ler ou ouvir nos jornais, nos podcasts políticos,
nos canais de notícias, no ponto de ônibus, no almoço com a família ou
no trabalho, que o problema do Brasil é a polarização. E, de fato, vivemos
em um tempo em que visões de mundo conflitam nas grandes arenas e
na vida cotidiana, de forma muitas vezes visceral. Mas não só. O impea
chment da Presidente Dilma Rousseff, as eleições de 2018 e os atos anti e
pró-governo Bolsonaro sugerem que há uma divisão clara na sociedade
brasileira, uma – por que não? – polarização que pode ter consequências
eleitorais e políticas profundas. Isso não implica um sistema de crenças
completamente diferente entre cada bloco de eleitores, mas significa que
em alguma dimensão os eleitores se dividem e se diferenciam.
Onde estará, então, essa polarização? Samuels e Zucco (2014) já de
monstraram que as atitudes e opiniões políticas de partidários de PT e
PSDB são influenciadas justamente por suas afiliações. Ou seja, a identi
ficação partidária afeta o comportamento político e as preferências dos
eleitores brasileiros. Seriam, então, os próprios partidos e a elite política
os definidores da polarização?
Polarização da Elite Política
Estudos sobre política americana têm dado grande ênfase para o papel
exercido pelos próprios partidos e suas lideranças no processo de po
larização do sistema, tanto alterando regras do jogo na direção da maior
diferenciação dos partidos e garantindo que os legisladores sigam a linha
definida pelas lideranças, quanto fomentando políticas e agendas divisi
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Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1
vas (BARBER & McCARTY, 2013; McCARTY, 2019), por exemplo, argumentam
que, quando desigualdades econômicas estão em evidência e crescimen
to, partidos de direita tendem a enfatizar questões morais e de valores,
enquanto partidos de esquerda tendem a trazer para os eleitores ques
tões econômicas. Polarização, então, não será o resultado automático, mas
pode ser a consequência de um processo de interação paulatina entre par
tidos e eleitores em que as ações de um dos lados podem pesar mais.
A ciência política brasileira ainda não desbravou essa relação.
Sabemos que o eleitorado flutuou entre dois polos até 2018 nas eleições
que organizam o sistema político e a competição eleitoral no Brasil, mas
sabemos também que esse equilíbrio foi quebrado. Os eleitores, apesar
disso, pouco se diferenciavam ideologicamente, mas a impressão é que
de 2014 em diante há uma transformação em curso. Mas e a elite políti
ca, como se comportou nesse período?
Uma forma de responder a essa pergunta é analisar a posição dos
Deputados Federais desde a promulgação da Constituição Federal de
1988 (mais precisamente a partir de 1989, a metade da 48ª Legislatura)
levando em consideração as votações nominais no plenário da Câmara.
Para tanto, estimo os pontos ideais dos legisladores utilizando um mo
delo dinâmico de teoria de resposta ao item (IMAI et al., 2016). Pontos
ideais estimados a partir de votações nominais refletem as preferências
sobre políticas públicas reveladas por atores políticos. No entanto, nada
garante que, de fato, essas preferências sejam sinceras ou representem a
ideologia dos indivíduos. Os partidos, por exemplo, podem ser capazes
de garantir que sua bancada sempre vote de acordo com a linha parti
dária, mesmo quando o parlamentar possui uma preferência diferente.
Da mesma forma, disciplina partidária nem sempre significa que o líder
partidário coage os membros daquela sigla, mas pode significar que toda
a bancada é ideologicamente homogênea (CAREY, 2009; KREHBIEL, 1993).
Quem define o significado da dimensão extraída com a estimação
dos pontos ideais é o pesquisador (POOLE, 2005). Estudos sobre o caso
brasileiro mostram que os pontos ideais para Deputados e Senadores
refletem de alguma maneira posições ideológicas, mas a divisão entre
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Onde está a Polarização Política no Brasil?
governo e oposição é que define o comportamento legislativo (FREITAS
et al., 2020; IZUMI, 2016; LEONI, 2002; ZUCCO Jr., 2009; ZUCCO JR. &
LAUDERDALE, 2011). No presente artigo a preocupação é apresentar evi
dências de extremismo e polarização dos parlamentares e isto pode
refletir também as disputas que marcam o presidencialismo de coali
zão brasileiro, sobretudo a divisão entre governo e oposição. A Figura
1 apresenta a distribuição das posições estimadas para os Deputados
Federais em mais de 30 anos de democracia no Brasil. Importante no
tar que a esquerda passa por um processo de concentração e depois de
desconcentração, ocupando uma larga faixa entre a extrema esquerda e
o centro. Mas é apenas na última legislatura, a que coincide com o go
verno Bolsonaro, que há o surgimento de algo que indica a formação
(ainda inicial) de dois polos. O centro do espectro é esvaziado e os legis
ladores se aglutinam em blocos de esquerda e direita.
O que explica essa mudança? Note-se que no governo Bolsonaro,
a divisão entre esquerda e direita apenas avançou na direção da pola
rização, mas o processo de polarização legislativa está em voga desde a
legislatura seguinte àquela eleita ainda antes da Assembleia Nacional
Constituinte, quando os parlamentares começam a longa marcha em
direção aos extremos do continuum ideológico. Aqui há um contraste
claro com a conclusão de Zucco (2011) de que na verdade os partidos
políticos reduziram suas distâncias ideológicas pelo menos na Câmara
dos Deputados. Cabe ressaltar que o trabalho de Zucco é baseado num
survey realizado com parlamentares e estes classificam ideologicamente
seus partidos e os demais. Vale frisar também que Zucco analisou os par
tidos de forma agregada, e a Figura 1 a seguir está desagregada. Vejamos,
então, como se dá a evolução da posição dos partidos ao longo do tempo.
A Figura 2 apresenta os mesmos dados, mas agora agregando os parla
mentares por partido.1
1
Devido ao número elevado de partidos que já ocuparam assentos na Câmara dos
Deputados, apenas dez partidos foram arbitrariamente selecionados. Incluir mais
partidos dificultaria a apresentação visual dos dados. O critério adotado foi tama
nho das bancadas ao longo do tempo e relevância para a análise.
39
Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1
FIGURA 1. Distribuição dos Pontos Ideais dos Deputados Federais
por Legislatura
Estimação baseada em votações nominais de janeiro de 1989 a julho de 2021. Linha tracejada
indica a posição mediana.
Fonte: Banco de Dados Legislativos do CEBRAP – https://bancodedadoslegislativos.com.br/
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Onde está a Polarização Política no Brasil?
A Câmara dos Deputados sempre pendeu à direita do espectro
ideológico. O legislador mediano, representado pela linha tracejada,
se desloca para a direita ao longo do tempo. Mas a novidade não está
no caráter majoritariamente conservador do Legislativo brasileiro, e
sim na drástica redução de parlamentares cujas preferências revela
das ocupam o centro do espectro. Em outras palavras, há uma cla
ra mudança no comportamento geral dos parlamentares ao longo de
mais de 30 anos Como destacado anteriormente, o comportamento
legislativo no Brasil sempre foi explicado pela divisão entre governo e
oposição. É este conflito que organiza as preferências no plenário das
casas do Congresso Nacional e o processo decisório de forma geral.
Existe uma alta correlação entre o apoio dado pelos parlamentares ao
governo e seus pontos ideais. Trata-se de parte da operação do presi
dencialismo de coalizão.
A Figura 2 oferece evidências que sustentam esse diagnóstico.
Partidos que estão no mesmo bloco (coalizão de governo ou oposição)
tendem a estar próximos no espectro. O PDS-PP2 e o PL-PR, por exem
plo, flutuam de acordo com seus status em relação ao governo, sempre
se aproximando dos demais partidos da coalizão quando ocupam al
guma pasta ministerial. Isso fica muito evidente no primeiro manda
to da Presidenta Dilma Rousseff (que praticamente coincide com a 54ª
Legislatura) 3, quando os dois partidos se movem para a esquerda, ado
tando posições muito próximas ao partido formador da coalizão (PT). A
“mudança de lado” do PT quando assume a presidência (em 2002, a 52ª
legislatura) salienta a inclinação da dimensão estimada revelar as divi
sões entre governo e oposição. Nos governos do PT, temos praticamente
um espelhamento do gráfico.
2
3
Partidos que se fundiram ou mudaram de nome são referidos indicando seu
tronco principal e as nomenclaturas iniciais e finais (até julho de 2021).
Os mandatos presidenciais têm início em primeiro de janeiro, enquanto as legis
laturas iniciam em primeiro de fevereiro do mesmo ano. Ambos duram quatro
anos.
41
Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1
FIGURA 2. Médias dos Pontos Ideais na Câmara dos Deputados
por Partido e Legislatura
Estimativa baseada em votações nominais de janeiro de 1989 a julho de 2021. Pontos indicam a
média do partido na legislatura.
Fonte: Banco de Dados Legislativos do CEBRAP – https://bancodedadoslegislativos.com.br/
Estar na coalizão de governo, assim, tem efeitos imediatos sobre
o comportamento partidário na Câmara dos Deputados. O PSDB, por
exemplo, passa a se distanciar mais claramente do bloco de esquerda
assim que encabeça a coalizão de governo no primeiro mandato do
Presidente Fernando Henrique Cardoso (50ª Legislatura). O PMDB-MDB
42
Onde está a Polarização Política no Brasil?
tende a permanecer centralizado, mas próximo da posição do parti
do do presidente quando se junta à coalizão. No primeiro mandato de
Dilma o PMDB se desloca para a esquerda, expressando uma preferência
média praticamente idêntica àquela revelada pelo PT. Já na legislatura
seguinte, marcada pelo impeachment da Presidenta, move-se para a di
reita, rachando drasticamente com o PT, o que não é surpreendente, já
que Michel Temer, então vice-presidente e uma das lideranças do PMDB,
tem papel decisivo no afastamento da Presidenta e depois leva adiante
uma agenda de políticas muito distinta daquela capitaneada pelo gover
no de Dilma.
Vale notar que PSDB e PFL-DEM permanecem destacados na oposi
ção nas legislaturas em que o Partido dos Trabalhadores ocupou inte
gralmente a Presidência da República (52ª, 53ª e 54ª legislaturas). Na
legislatura em que houve o impeachment da Presidenta Dilma, os dois
partidos destoam do PT, mas dão uma guinada em direção ao centro e
se reaproximam do PMDB-MDB, partido de Michel Temer, cujo governo
apoiaram ainda que sem formalmente se juntarem à coalizão.4
O PT se mantém na centro-esquerda desde a promulgação da
Constituição Federal de 1988 até ocupar a presidência, movendo-se no
vamente em direção ao outro lado apenas na 55ª legislatura (marcada
pelo impeachment) e destacando-se na esquerda junto com o PSOL na
atual 56ª legislatura. Interessante notar como outros partidos aproxi
mam-se e distanciam-se do PT. Em alguns momentos o PT é a oposi
ção mais forte e quase isolada entre os grandes partidos na Câmara dos
Deputados (vide a 50ª legislatura, primeiro mandato de FHC), enquanto
em outras legislaturas o partido está acompanhado de outras legendas
comumente associadas à centro-esquerda (como PSB e PDT).
4
Utilizo o critério adotado por Figueiredo (2007), que postula que um partido é
considerado parte da coalizão de governo quando pelo menos uma parta minis
terial é ocupada por um membro do partido e o partido publicamente revela que
aquela indicação é sustentada pelo partido. Há exemplos de ministros cujos par
tidos não reconheceram pertencimento à coalizão e alegaram que se tratava de
decisão pessoal daqueles.
43
Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1
Vale frisar também a relação entre PT e PSOL, partido formado por
ex-integrantes do PT que se recusaram a apoiar algumas medidas con
sideradas neoliberais encampadas pelo governo Lula. O PSOL surge
como oposição à esquerda ao governo do PT, mas na Figura 2 o partido
inicialmente aparece próximo de opositores de direita. Por quê? Nas
votações nominais os parlamentares têm poucas opções: votam “sim”,
votam “não”, abstém-se, ausentam-se ou obstruem a votação. No agre
gado, então, quem deseja opor-se ao governo terá que votar contra a
indicação do governo. Nesse caso há uma grande chance de que dois
parlamentares (ou partidos) votem da mesma forma (em oposição ao
governo) mas por motivos diferentes – por exemplo, em uma votação
sobre o novo valor do salário-mínimo sugerido pelo governo, um par
lamentar de oposição pode votar contra pois acha o novo valor muito
baixo e outro votar contra pois acha muito alto ou entende que salário
mínimo não deveria ser definido pelo Estado, e consequentemente am
bos aparecem em posições similares no gráfico acima em determinadas
legislaturas.
O PSOL, entretanto, distancia-se dos opositores do PT na legislatura
em que Dilma é removida da Presidência da República, posicionando-se
à esquerda tanto de PFL-DEM, PSDB e PMDB quanto do próprio PT. Trata
se de um indício de que o partido fez oposição tanto à agenda política
de Dilma quanto de Temer naquela legislatura. PT e PSOL agora fazem a
oposição mais contundente ao governo Bolsonaro ainda com o último
à esquerda do primeiro, como evidencia a Figura 2 (cf. 56ª legislatura).
O governo Bolsonaro é um caso aparte por ter rompido com a ló
gica de construção de coalizões de governo, pela sua incapacidade de
apresentar uma agenda de políticas públicas e barganhar por elas e por
sua disposição antidemocrática. O Presidente se manteve sem partido
e sem formar uma coalizão de governo por praticamente a maior par
te do mandato. Seu partido na eleição e no início do mandato, o PSL
(atualmente União Brasil após fusão com o PFL-DEM), teve raríssimos
Deputados Federais até a eleição de 2018, quando então fez uma banca
da com mais de 50 integrantes. Essa nova bancada, alavancada pela onda
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Onde está a Polarização Política no Brasil?
bolsonarista de 2018, mostrou-se inicialmente alinhada ao Presidente.
Com o decorrer do mandato, muitos membros do PSL romperam com
Bolsonaro e o próprio Presidente da República deixou o partido – a ala
que seguiu apoiando-o trocou de legenda somente com a abertura da
janela de migração partidária em março de 2022. Mas os pontos ideais
estimados mostram como o partido adotou posições à direita do es
pectro, representando um novo paradigma para partidos do presiden
te: buscar os extremos. O novo partido do Presidente Bolsonaro, PL-PR,
tem manifestado posições políticas nas votações nominais quase idênti
cas à da bancada do PSL na câmara baixa do Congresso Nacional.
Um bloco considerável de partidos médios também se deslo
cou para a direita durante o governo Bolsonaro. O apoio de legendas
como PSDB e DEM às reformas constitucionais realizadas no período
pré-pandemia do governo Bolsonaro parece explicar essa movimenta
ção. Esses partidos tiveram papel essencial na formatação, condução e
aprovação de tais medidas – destaca-se ainda a participação essencial
do então Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (PFL
DEM). Importante destacar a atuação dos demais partidos e do Poder
Legislativo durante o governo Bolsonaro, já que este nunca apresentou
uma agenda legislativa clara e nem fez esforços para aprovar aquilo
que enviou para o Congresso Nacional (LIMONGI et al., 2022). Coube
ao Poder Legislativo encabeçar uma série de medidas para lidar com
a pandemia do novo coronavírus que ocupou grande parte da agenda
política (e, logo, das votações nominais aqui analisadas) durante o go
verno Bolsonaro.
Fica evidente que há três blocos entre os grandes partidos na Câmara
dos Deputados durante o governo Bolsonaro: um de oposição ferrenha
(PT e PSOL), um de oposição moderada (PDT e PSB) e um próximo às
posições governistas. Dentro deste último, há um apoio mais irrestrito
ao governo de parte dos partidos – o que pode estar relacionado com
a diferença entre a atuação desses partidos no período pré-pandemia
(maior aproximação) e durante a pandemia (maior distanciamento e
busca por diferenciação).
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Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1
Analisando em conjunto as Figuras 1 e 2, ainda é possível afirmar
que, como muitas vezes foi dito no debate público, as duas últimas le
gislaturas são mais conservadoras que as demais. Mesmo com os pontos
ideais dos parlamentares revelando uma dimensão governo-oposição,
a posição mediana da Câmara se deslocou em direção à direita e sa
bemos que, desde Temer, a agenda de políticas públicas do governo se
deslocou para a direita, distanciando-se das diferentes plataformas (de
centro-direita e centro-esquerda) que levaram à redução da desigual
dade social em governos anteriores. No governo Bolsonaro, esse deslo
camento fica mais evidente e ainda encontramos o surgimento de fato
de dois polos no interior do Legislativo. Isso significa também que há
mais posições representadas na Câmara dos Deputados, à esquerda e
à direita. Exemplos disso são o crescimento da bancada do PSOL – em
parte produzido pela defesa de pautas sociais e identitárias que antes
encontravam apoio secundário mesmo nos partidos de esquerda mais
tradicionais – e a entrada do NOVO com uma bancada inicial significati
va – em parte alavancada pelo sentimento anti-establishment e por uma
agenda neoliberal em que questões econômicas ganham maior peso do
que questões morais-valorativas.
Causas e Consequências da Polarização Política no Brasil
Dado esse cenário, fica a pergunta: qual a relação entre polarização
no eleitorado e nos partidos (no Legislativo)? Os estudos sobre
comportamento político dos eleitores têm destacado que as preferên
cias políticas de eleitores dos dois partidos que antes polarizavam as
eleições majoritárias (PT e PSB) pouco destoam em termos ideológicos,
sobretudo aqueles que não têm vínculos afetivos fortes. Os legisladores
e seus partidos parecem, assim, ter poucas motivações para buscar os
extremos do espectro ideológico. No entanto, isso é exatamente o que
tem acontecido.
Na primeira etapa dessa movimentação, os parlamentares que ado
tavam posições de extrema moderação se deslocaram para a centro-es
46
Onde está a Polarização Política no Brasil?
querda ou para a centro-direita, num movimento que parece uma busca
por diferenciação, quando o tema da transição democrática vai ficando
para trás e alianças são formadas com agendas diferentes a partir do ob
jetivo de conquistar o cargo mais almejado do país, o de Presidente da
República. Partidos médios flutuam ao redor do centro, ora pendendo
para um lado, ora para outro, de acordo com o apoio que oferecem ou
não à coalizão de governo. Na segunda etapa do processo de polarização,
houve a consolidação de blocos mais distantes do centro, que se fixam
nessas posições e cujas estratégias políticas sustentam essa separação.
Tomemos como exemplo a decisão de Aécio Neves e de seu par
tido (PSDB) de levarem a cabo a contestação do resultado eleitoral de
2014. Trata-se de uma posição de ruptura que ainda visa marcar um
distanciamento absoluto do seu principal concorrente, o PT de Dilma
Rousseff. É preciso levar em conta ainda que as eleições presidenciais
organizam o sistema como um todo, influenciando as decisões das lide
ranças partidárias e definindo coligações e alianças nos níveis estaduais.
Mas não apenas. As disputas presidenciais podem influenciar também a
eleição proporcional, como parece ter sido o caso em 2018.
O PSDB também foi fiador do impeachment de Dilma e do governo
Temer. Uma estratégia que, levando em consideração o enxugamento
da sua bancada na atual legislatura e o pífio desempenho de seu candi
dato Geraldo Alckmin nas eleições presidenciais de 2018, se revelou um
fracasso no curto prazo. O PSDB apostou no antipetismo e, com isso, na
polarização da disputa. O cálculo foi mal feito, e o resultado, desastroso
para o próprio partido. Mas isso parece ter servido para, pelo menos,
alimentar o sentimento anti-PT e a sensação de polarização, ainda que
o eleitor tenha abandonado o PSDB em favor de outras candidaturas à
direita do partido.
Parece haver, portanto, uma retroalimentação ou ciclo vicioso que
encadeia a polarização das massas e da elite política. Legisladores e par
tidos políticos descongestionaram aos poucos o centro do espectro e as
próprias dinâmicas do presidencialismo de coalizão e das eleições pre
sidenciais levaram à formação de dois blocos que se opõem mais uns
47
Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1
tantos partidos que flutuam de um lado a outro. Isso implica não apenas
em um determinado tipo de comportamento legislativo, mas também
em estratégias da elite política de atiçar a polarização do eleitorado, seja
enfatizando determinados valores ou jogando com as transformações
sociais pelas quais o país passou. O eleitor responde a partir das op
ções que tem: um cenário ainda desorganizado pelas forças políticas,
mas com mensagens que o empurrava em direções opostas – e aqui vale
lembrar que a Lava Jato sacudiu o sistema político, inviabilizando várias
opções. O voto resultou em um Congresso formado por menos políti
cos moderados, muitos conservadores e uma nova ala mais à esquerda
em diversas pautas.5
Existem outros fatores pressionando o sistema em direção à polari
zação. A literatura internacional tem destacado o efeito do crescimento
da desigualdade econômica nos países ricos (KENWORTHY & PONTUSSON,
2005; McCARTY et al., 2006; PONTUSSON & RUEDA, 2008; POOLE &
ROSENTHAL, 1997). Polarização partidária e desigualdade de renda estão
positivamente correlacionados sobretudo nos EUA. O argumento bási
co, ancorado no trabalho canônico de Meltzer e Richard (1981), é que o
aumento da desigualdade faz com que eleitores de baixa e alta renda de
mandem políticas de taxação e redistribuição cada vez mais diferentes,
o que, de um lado, promoverá a seleção de políticos menos moderados
(pois precisam endossar uma das pontas) e, de outro lado, levará a uma
agenda de políticas públicas menos moderadas e, logo, um comporta
mento geral mais extremista de ambas as partes. Em alguns casos, no
entanto, a percepção da polarização pode ser o efeito da alteração de
comportamento de apenas um dos blocos que migram em direção ao
extremo do continuum.
No Brasil, a desigualdade de renda segue trajetória oposta àquela
vista nos países ricos, isto é, de redução. Polarização partidária, como vi
5
Precisamos ainda de mais pesquisas para saber se em 2018, então, os eleitores se
dividiram em blocos mais homogêneos ideologicamente e com maior divergên
cia de posições inter-blocos.
48
Onde está a Polarização Política no Brasil?
mos, não vem reduzindo. Mas isso não significa que os dois fenômenos
não estejam relacionados. A queda nos níveis de desigualdade também
promove choques de outra magnitude, como por exemplo compartilha
mento de espaços antes exclusivos e, sobretudo, questionamentos quan
to às estruturas de poder e às hierarquias sociais. Conflito é um resul
tado possível desses choques, o que pode contribuir para acirramentos
políticos diversos, como polarização.
Além disso, o contingente de eleitores não-dependentes aumenta.
Isto é, redução da desigualdade associada a outras transformações so
cioeconômicas tende a permitir que eleitores antes dependentes social e
economicamente de empregadores e proprietários de terra, cujos votos
podem ser mais facilmente controlados dado o poder de influência que
esses agentes têm sobre aqueles eleitores, agora possam participar mais
livremente do processo eleitoral. Assim, um resultado possível é que a
redução da desigualdade de renda também promova interesses contra
ditórios, o que pode levar ao atendimento dessas demandas por parte
dos representantes e mesmo à substituição de moderados por extremis
tas. Essa substituição, inclusive, foi diagnosticada nos EUA por Thomsen
(2017), que também destacou que potenciais candidatos moderados
deixam de concorrer (ou são eliminados nas primárias) por entenderem
a ausência de um ambiente capaz de ajudá-los a promover suas agendas
(moderadas) de políticas públicas.
Destaca-se ainda que essa é a visão geral, isto é, agregada, do fenô
meno. No nível individual, legisladores brasileiros cujos eleitores estão
concentrados em regiões com menor nível de desigualdade de renda
têm maior probabilidade de revelarem posições moderadas no plená
rio da Câmara, mas isso dependerá da agenda do governo que é leva
da a cabo no Legislativo e o status do Deputado em relação à coalizão
(MEDEIROS, 2019).
A desigualdade de renda afeta tanto eleitores quanto a elite po
lítica e é capaz de promover um ciclo de transformações sociais, que
também pode originar transformações políticas. Há de se levar em
consideração os choques nos sistemas partidários de diversos países
49
Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1
ricos após a crise de 2008. Novos partidos antissistêmicos surgiram,
além de novas forças à esquerda e à direita. Na Espanha e em outras
democracias europeias, por exemplo, os partidos tradicionais reduzi
ram suas bancadas, mas conseguiram se manter no poder. Os custos
de formar e manter uma coalizão subiram com o aumento da frag
mentação partidária e a entrada de representantes de novas agendas.
Mas também houve um efeito de despolarização a partir do momento
em que as forças mais próximas ao centro buscam barrar a entrada e
o crescimento da extrema-direita e, para tanto, adotam posições mais
moderadas. Tendo esses fenômenos em vista, quais caminhos o Brasil
poderá tomar?
Conclusão: o que esperar das eleições de 2022?
O processo de polarização no Brasil ainda é relativamente novo, em
comparação com a emergência desse fenômeno em outros países,
portanto é difícil prever os caminhos possíveis. Mas as mudanças na
distribuição das posições políticas no interior do Legislativo têm um
fator que pode ser visto como positivo: eleitores agora têm a capacidade
de diferenciar mais claramente entre seus diversos representantes. Essa é
uma preocupação central para a ciência política, que coloca grande peso
na capacidade de os eleitores distinguirem os partidos de um dado sis
tema. Pautas e posições diversas e que antes eram silenciadas no Poder
Legislativo agora contam com representantes eleitos que se fazem ou
vir. Partidos não se distinguem apenas em seus manifestos, campanhas
e promessas, mas também nas posições que assumem e expressam na
Câmara dos Deputados – e também no Senado Federal (cf. IZUMI &
MEDEIROS, 2021). Se antes as principais opções eram no geral modera
das, o eleitor teria dificuldade de discernir um legislador do outro, um
partido do outro. Com o aumento do nível de extremismo, o enxuga
mento do centro e a polarização legislativa e partidária de forma geral, o
eleitor poderia mais facilmente identificar aquilo que o representa. Isto,
obviamente, ainda carece de melhor investigação.
50
Onde está a Polarização Política no Brasil?
Entramos, então, num ciclo em que eleitores preferirão candidatos
menos moderados e os políticos adotarão agendas mais extremistas? No
curto prazo a resposta vai depender sobretudo das estratégias adota
das pela elite política e das opções que serão apresentadas aos eleitores.
Quem entende que ganha com a polarização provavelmente continuará
jogando nos extremos. Quem entende que a moderação trará dividen
dos políticos e eleitorais fará o oposto. Há a possibilidade de moderados
se retirarem do pleito por não acreditarem ter chances, já que há custos
de entrar na disputa, ou ainda por entenderem que não conseguirão
levar adiante suas pautas em um sistema polarizado. A consequência
seria a manutenção ou o crescimento da polarização. Sobre esse assunto
há muitas incertezas ainda e os atores políticos seguem calculando para
tomarem suas decisões. Por enquanto (abril de 2022), o eleitor acompa
nha e espera.
A polarização não coloca em questão apenas o resultado eleitoral
e a formação do próximo Congresso, mas também os rumos da demo
cracia. Svolik (2019) demonstrou que, quando há crescente polarização,
eleitores podem abrir mão de seus princípios democráticos em favor
de interesses estritamente partidários. Isso não significa que polariza
ção leva automaticamente à ruptura democrática, afinal são necessários
agentes políticos que mobilizem seus eleitores para deliberadamente
atingir esse objetivo. Ao mesmo tempo, a maior parte das mais recen
tes crises e quedas da democracia tem sido promovidas justamente por
atores político que ocupam cargos. O Presidente Bolsonaro e seus asse
clas têm sinalizado constantemente sua descrença em relação às insti
tuições democráticas e ao processo eleitoral brasileiros. Além disso, ele
segue prometendo questionar o resultado eleitoral, assim como Donald
Trump fez em 2020 nos EUA. Trump apostou que a polarização nos EUA
o ajudaria nessa empreitada, mas ela não foi suficiente – em parte por
que nem todos os membros e eleitores do partido Republicano embar
caram nesse golpe.
Por fim, há uma diferença clara entre eleitores/legisladores/partidos
não-moderados, de um lado, e antidemocráticos, de outro: só os últi
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Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1
mos pretendem aproveitar-se da polarização para alijar seus opositores
do processo político. O Brasil de 2018 mostrou que há uma minoria
disposta a seguir esse caminho, mas há um grande contingente de ato
res políticos e eleitores que fechou os olhos a essas intenções em prol de
alcançar diversos objetivos políticos. O Brasil de 2022 talvez esteja mais
escaldado depois de ver que essa estratégia pode ter consequências ne
fastas, vide o fracasso do governo Bolsonaro em reduzir os impactos sa
nitários e socioeconômicos da pandemia. De toda forma, garantir que a
polarização se mantenha apenas no campo das ideias e das preferências
sobre políticas públicas deve ser a nossa preocupação imediata.
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Danilo Medeiros é Doutor em Ciência Política pela Universidade da Virgínia. Atual
mente é Pesquisador de Pós-Doutorado do Centro Brasileiro de Análise e Planejamen
to (CEBRAP) e Pesquisador Colaborador do Centro de Estudos de Opinião Pública
(CESOP) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), e Professor Convida
do na Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP-FGV). O artigo do autor Danilo Medeiros
Os termos direita, esquerda e centro são as principais referências no espectro político para classificar ideologias, partidos e governos. A divisão surgiu na França, em 1789, onde os defensores do rei sentavam-se à direita e os revolucionários à esquerda. Abaixo estão as características e diferenças fundamentais de cada um:
1. Esquerda
A esquerda foca na igualdade social e no bem-estar coletivo. Para atingir esses objetivos, defende a forte intervenção do Estado na economia e a implementação de políticas públicas de redistribuição de renda e proteção social.
Valores: Justiça social, direitos humanos, igualdade de oportunidades, pautas progressistas e ambientalismo.
Posição sobre o Estado: Ativo e regulador, responsável por corrigir desigualdades geradas pelo mercado.
Espectro: Socialismo, Social-Democracia, Trabalhismo, Comunismo.
2. Direita
A direita prioriza a liberdade individual, a meritocracia e a livre iniciativa. Defende que o mercado deve se autorregular com pouca interferência do governo, valoriza a tradição e a propriedade privada.
Valores: Liberdade econômica, patriotismo, conservadorismo nos costumes, livre mercado e eficiência.
Posição sobre o Estado: Mínimo ou restrito, atuando apenas em áreas essenciais como defesa, segurança e justiça.
Espectro: Liberalismo, Neoliberalismo, Conservadorismo e Libertarismo.
3. Centro
O centro atua como uma ponte ou interseção entre a direita e a esquerda. Quem se identifica com o centro costuma ser moderado, buscando conciliar o crescimento econômico e o livre mercado (pauta de direita) com programas de bem-estar social e justiça (pauta de esquerda).
Valores: Diálogo, equilíbrio, pragmatismo, reformas graduais e direitos civis.
Posição sobre o Estado: Um regulador inteligente, que atua onde a iniciativa privada não consegue suprir as necessidades da população.
Espectro: Social-Liberalismo, Democracia Cristã e a chamada "Terceira Via
Conservadorismo, progressismo e liberalismo são as três principais correntes de pensamento político e social que moldam o debate público contemporâneo. Cada uma delas possui uma visão distinta sobre a natureza humana, o papel do Estado, a economia e a evolução das tradições sociais.
Resumo das Diferenças
Vertente PolíticaFoco PrincipalPapel do EstadoVisão sobre Mudanças SociaisConservadorismoPreserva
Conservadorismo
O conservadorismo defende a preservação das instituições tradicionais, como a família, a igreja e a comunidade, como pilares de estabilidade social.
Tradição e Prudência: Rejeita rupturas revolucionárias abruptas, preferindo reformas lentas e testadas pelo tempo.
Ceticismo da Razão Pura: Questiona projetos utópicos de engenharia social que tentam refazer a sociedade do zero.
Ordem Moral: Defende a existência de uma ordem ética duradoura e costumes estabelecidos.
Progressismo
O progressismo foca na transformação social e na promoção da igualdade por meio de reformas políticas e econômicas.
Mudança Social: Vê a história como um caminho de avanço contínuo em direção aos direitos humanos e justiça.
Intervenção Estatal: Defende que o Estado deve atuar ativamente para mitigar desigualdades e proteger minorias.
Quebra de Paradigmas: Questiona tradições antigas que possam perpetuar opressões ou privilégios históricos.
Liberalismo
O liberalismo coloca a liberdade individual como o valor supremo e o direito inalienável de cada cidadão.
Direitos Individuais: Prioriza a defesa da vida, da propriedade privada e da liberdade de expressão.
Livre Mercado: Advoga pela livre concorrência econômica e menor interferência estatal na produção.
Estado de Direito: Exige leis universais claras que limitem o poder governamental para evitar a tirania.
Interseções e Fusões
Estas correntes não são caixas isoladas e frequentemente se misturam na prática política atual:
Conservadorismo Liberal: Alinha a defesa do livre mercado econômico com a preservação dos valores morais tradicionais nos costumes.
Social-Liberalismo: Combina as liberdades individuais e de mercado com políticas de assistência e inclusão social.
Progressismo Cultural: Foca na liberdade de estilos de vida, direitos civis identitários e autonomia das escolhas pessoais. Segundo o Sociólogo , Mestre e Doutor Cesar Portantiolo Maia , no Quarto Período da Habilitação em Jornalismo na Comunicação Social , pelas Faculdades Integradas Alcântara Machado (FIAAM FAAM).
Eleitores independentes são cidadãos que não se identificam com nenhum partido político tradicional e preferem decidir seu voto com base em candidatos, propostas ou no cenário econômico do momento. Eles atuam como um fiel da balança em eleições majoritárias, pois flutuam entre a esquerda, o centro e a direita dependendo do contexto.
Abaixo, veja em detalhes como esse grupo se define e como ele se movimenta no cenário eleitoral.
O que são Eleitores Independentes
Sem filiação: Não possuem registro ou simpatia fixa por partidos políticos.
Foco no candidato: Avaliam a biografia, a rejeição e o carisma da liderança e não a legenda.
Pragmatismo: Priorizam soluções práticas para problemas cotidianos, como economia, segurança e saúde.
Desilusão: Frequentemente demonstram insatisfação generalizada com a polarização e a classe política tradicional.
Como Eles se Movimentam
O comportamento desse eleitorado é altamente dinâmico e estratégico, seguindo padrões específicos:
Voto de protesto: Migram rapidamente para candidatos "outsiders" ou de terceira via quando rejeitam o governo atual.
Decisão tardia: Costumam definir o voto nos últimos dias da campanha ou até mesmo na urna eletrônica.
Voto útil: Tendem a abandonar candidatos sem chances reais para evitar que o político que mais rejeitam vença.
Pêndulo econômico: Apoiam a continuidade se a economia vai bem, mas votam massivamente pela mudança em tempos de crise.
Influência do debate: Modificam sua intenção de voto com base no desempenho dos candidatos em debates na TV e em campanhas de redes sociais.
Impacto nas Eleições
Como o eleitorado fiel de cada partido costuma ser estável, as campanhas eleitorais modernas — como as analisadas por cientistas políticos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou em estudos da Fundação Getulio Vargas (FGV) — focam quase toda a sua energia e recursos para conquistar o voto dos independentes, pois são eles que definem quem vence a eleição
Base Orgânica do PT (Partido dos Trabalhadores)
A base orgânica do PT possui um caráter histórico, institucionalizado e setorial, intimamente ligado aos movimentos sociais e à esquerda brasileira desde a década de 1980. Suas principais frentes de organização interna e externa incluem:
Movimento Sindical: Historicamente vinculado à Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a grandes sindicatos (como os metalúrgicos e professores), que fornecem quadros políticos e forte capacidade de mobilização de massa.
Movimentos Sociais e Populares: Forte ligação com movimentos de luta por terra e moradia, notadamente o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), além de associações de bairro e periferias.
Movimentos Identitários e Setoriais: Organizações internas estruturadas que debatem e militam por pautas específicas, como os movimentos negro, LGBTQIA+, feminista e de juventude.
Comunidades de Base e Setores Progressistas: Histórica relação com a Teologia da Libertação e com as Comunidades Eclesiais de Base (CEB
s) da Igreja Católica, embora esse espaço venha sofrendo transformações nas últimas décadas.
Núcleos de Base: O partido se organiza internamente por meio de pequenos agrupamentos de filiados organizados por local de moradia, estudo ou trabalho, que debatem as deliberações e rumos da legenda.
Base Orgânica do PL (Partido Liberal)
O PL, originalmente uma legenda do chamado "Centrão" focada no pragmatismo fisiológico, converteu-se em um partido de massas da direita a partir da filiação de Jair Bolsonaro. Sua base orgânica atual é fortemente impulsionada pelo bolsonarismo e por setores conservadores, estruturando-se em torno de:
Setores Religiosos Conservadores: Forte penetração e aliança com lideranças e fiéis das igrejas evangélicas neopentecostais, atuando de forma expressiva através da bancada religiosa.
Policialismo e Militarismo: Forte representação e apoio de membros das forças de segurança, como policiais militares, civis, federais e membros das Forças Armadas, refletindo em candidaturas de forte apelo popular voltadas à segurança pública.
Agronegócio: Apoio financeiro, político e eleitoral de produtores rurais e grandes associações do setor agropecuário, que se identificam com o discurso de direito à propriedade e flexibilização de leis ambientais e de armamento.
Empresariado de Médio e Pequeno Porte: Setores do comércio e serviços alinhados às pautas do liberalismo econômico, desregulamentação do mercado e redução de impostos.
Militância Digital e Redes Sociais: Diferente da estrutura de núcleos físicos do PT, a base do PL se mobiliza e se organiza de forma orgânica em ecossistemas digitais altamente eficientes (grupos de mensagens e redes sociais), o que confere ao partido uma rápida capacidade de reação e engajamento político.
Confira meu artigo .Link: https://diariodeumjoranlista.b
A principal diferença entre a direita e a extrema direita reside na aceitação do pluralismo democrático e na intensidade de certas pautas ideológicas. Enquanto a direita tradicional atua dentro das instituições vigentes, a extrema direita frequentemente adota posturas antissistema ou de exclusão de minorias
Direita Convencional
A direita moderada ou liberal-conservadora foca na manutenção da ordem social e na liberdade econômica, respeitando as regras democráticas.
Economia: Defesa do livre mercado, privatizações e redução do papel do Estado.
Sociedade: Fomento a valores tradicionais e à hierarquia social, mas convivendo com a diversidade política.
Política: Atuação por meio de partidos tradicionais e respeito às instituições democráticas.
A extrema direita radicaliza os princípios da direita e pode apresentar traços autoritários.
Nacionalismo Radical: Defesa de uma identidade nacional "pura", muitas vezes com viés chauvinista ou xenófobo.
Antissistema: Críticas severas às instituições democráticas e ao pluralismo, frequentemente promovendo lideranças fortes que se colocam como "outsiders".
Rejeição de Minorias: Discursos que marginalizam grupos específicos (imigrantes, minorias religiosas ou raciais) sob a justificativa de preservar a cultura nacional.
Exemplos Históricos e Atuais: Inclui desde o fascismo histórico até movimentos contemporâneos que adotam táticas de polarização extrema e contestação da legitimidade de adversários.
As bases orgânicas estão consolidadas. Mas conforme meu artigo . A real polarização se dá entre Social Democracia e Extrema Direita. Uma vez que a velha Direita foi engolida pelo bolsonarismo . .
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