sábado, 29 de agosto de 2026

Capitalismo e suas peculiaridades

O  capitalismo é um sistema econômico e social baseado na propriedade privada dos meios de produção, no trabalho assalariado e na busca pelo lucro por meio de uma economia de mercado guiada pela lei da oferta e da procura. Ele funciona como a estrutura organizacional dominante na maior parte do mundo atual.📌 Pilares FundamentaisPara compreender o funcionamento do capitalismo, destacam-se os seguintes pilares:Propriedade Privada: os bens, terras, indústrias e ferramentas pertencem a indivíduos ou empresas, não ao Estado.Acumulação de Capital: o objetivo central é gerar excedentes financeiros para reinvestimento e geração de mais riqueza.Economia de Mercado: os preços e a distribuição de bens são regulados naturalmente pela concorrência e pela interação entre compradores e vendedores.Trabalho Assalariado: os trabalhadores vendem sua força de trabalho em troca de uma remuneração (salário).Divisão de Classes: estruturado historicamente entre os donos dos meios de produção (burguesia/capitalistas) e os detentores da força de trabalho (proletariado).🗓 Evolução Histórica e FasesO sistema capitalista não é estático; ele surgiu na Baixa Idade Média (século XV) substituindo o feudalismo e evoluiu em quatro fases principais:[Capitalismo Comercial]  [Capitalismo Industrial]  [Capitalismo Financeiro] [Capitalismo Informacional]

Capitalismo Comercial ou Mercantilismo (Séculos XV a XVIII): marcado pelas Grandes Navegações, acúmulo de metais preciosos (metalismo) e forte controle estatal sobre o comércio.Capitalismo Industrial (Séculos XVIII e XIX): impulsionado pela Revolução Industrial, transferiu o eixo econômico do comércio para a produção fabril e consolidou o liberalismo econômico

Piketty e as desigualdades no capitalismo: 

colocando alguns pingos nos is na análise de “O capital no século XXI”  

Fabrício Augusto de Oliveira ** 

Resumo 

Este trabalho faz uma análise do livro de Thomas Piketty, O capital no século XXI, de 2013, sobre a questão da desigualdade 

no capitalismo. Para tanto, ele é desenvolvido em três seções. Na primeira, apresenta as principais ideias do autor sobre a 

evolução da desigualdade desde o século XIX, bem como sobre as causas que têm provocado seu aumento no mundo a 

partir da década de 1970, assim como sua proposta de criação de um imposto anual progressivo incidente sobre o capital 

para reverter essa tendência. Na segunda, busca-se fazer uma interpretação teórica alternativa à de Piketty, à luz das 

transformações conhecidas pelo capitalismo e das mudanças ocorridas no pensamento econômico a partir dessa época, sobre 

as causas deste aumento das desigualdades. Na terceira, tecem-se comentários sobre novidades que seu estudo apresenta na 

análise que realiza, bem como sobre suas deficiências para melhor compreensão dessa questão.  

Palavras-chave: Estado do bem-estar, Capital; Distribuição da renda e da riqueza, Tributação. 

Abstract  

Piketty and the inequalities in capitalism: an analysis of “Capital in the 21st century” 

This paper analyzes the book Capital in the 21st century, written by Thomas Piketty in 2013, on the issue of inequality in 

capitalism. To do so, it is divided into three sections. In the first, it presents the author’s main ideas on the evolution of 

inequality since the nineteenth century, and on the causes of its increase in the world from 1970 onwards, as well as its 

proposal to create a progressive annual tax on capital to reverse this trend. In the second section, it seeks to make an 

alternative theoretical interpretation to that of Piketty, in light of the transformations in capitalism and the changes that 

occurred in economic thought from that time on the causes of this increase in inequality. In the third, contributions of the 

study in terms of the analysis performed are discussed, as well as its limitations that prevent a better understanding of this 

issue.  

Keywords: Welfare state, Capital, Income and wealth distribution, Taxation.  

JEL: I30, E01, D31, E62. 

1 Introdução 

Saudada até mesmo por um prêmio Nobel de economia, Paul Krugman, como uma obra que 

mudaria a maneira de se pensar a sociedade e pela qual concebemos a economia (Krugman, 2014), o 

livro de Thomas Piketty, de 2013, O capital no século XXI, publicado no Brasil, em 2014, ganhou 

grande notoriedade e importância por recolocar o debate sobre a questão da desigualdade no 

capitalismo, que andava meio adormecido, mas, nem por isso, se encontra imune de controvérsias. 

O livro conta com uma Introdução e se encontra distribuído em quatro partes. Na Introdução 

é apresentado o plano geral da obra e antecipado, em linhas gerais, o exame de algumas forças que 

provocam convergência e divergência na estrutura da distribuição de renda. Na primeira parte, 

*Artigo recebido em 10 de dezembro de 2019 e aprovado em 1 de fevereiro de 2020.  

** Professor da Escola de Governo do Legislativo do Estado de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil. E-mail: 

faugusto.bh@terra.com.br. ORCiD: https://orcid.org/0000.0001.7933.1467. 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021.  

Fabrício Augusto de Oliveira 

discutem-se os conceitos de renda e de capital e são apresentadas as etapas do crescimento da 

produção e da renda desde a Revolução Industrial do século XIX, variáveis que têm centralidade em 

sua tese sobre a desigualdade ou, em síntese, definido o marco teórico no qual se apoiará o estudo. 

Na segunda, é feita uma discussão sobre a evolução do estoque de capital e sobre a dinâmica da 

relação capital/renda (C/Y) e como essa determina a distribuição entre o capital acumulado, no 

conceito que utiliza, e o trabalho. Na terceira, analisa a distribuição dentro dos polos do capital e 

trabalho, bem como a influência de cada um sobre a desigualdade total. Na quarta e última parte, 

apresenta uma proposta de cobrança de um imposto progressivo incidente sobre o capital, 

complementar aos impostos cobrados sobre as rendas e as heranças, como forma de deter ou reverter 

o avanço da desigualdade que, a partir da década de 1970, voltou progressivamente a aumentar. 

1.1 A explicação teórica de Piketty para o aumento das desigualdades entre o capital e o 

trabalho 

Na Introdução, Piketty começa constatando que, depois de um longo período em que as 

desigualdades no capitalismo conheceram uma forte queda entre 1914 e 1950, o que levou os arautos 

do sistema a construir várias teorias e modelos para decantar suas virtudes1, as mesmas teriam 

retomado sua trajetória de crescimento a partir da década de 1950 e se acelerado desde a de 1970, 

principalmente nos Estados Unidos, “onde a concentração de renda na primeira década do século XXI 

voltou a atingir – e até excedeu – o nível recorde visto nos anos de 1910-1920” (Piketty, 2014, p. 22). 

Para Piketty, a queda da desigualdade da renda nos países desenvolvidos entre 1914-1950 

explica-se, sobretudo, pelas duas grandes guerras mundiais e pelos violentos choques econômicos e 

políticos que delas resultaram, queimando parte da riqueza acumulada devido principalmente às crises 

econômicas e à deflação nos preços dos ativos em geral, mudando a equação da distribuição de renda 

em prol dos não-proprietários do capital, já que diminuiu sua concentração e, consequentemente, a 

capacidade de apropriação da renda gerada pelos donos da riqueza (2014, p. 27). 

Passado este período de crises, o capital teria retomado sua trajetória de expansão, mas com 

velocidades distintas em dois subperíodos. No primeiro, entre 1950 e 1970, de forma mais moderada, 

com a mesma sendo contida por uma maior taxa de crescimento econômico registrada no pós-guerra 

e por políticas do Estado de cunho mais redistributivo, que nasceram dos infortúnios causados pela 

Grande Depressão da década de 1930 e pela devastação provocada pela guerra, especialmente nos 

países nela envolvidos (Piketty, 2014, p. 27). 

A partir de 1970, no entanto, quando os efeitos provocados pela inflação sobre a economia e 

sobre a riqueza acumulada deslocaram a preocupação dos economistas do objetivo de criação de 

emprego para o de garantir a estabilidade monetária, juntamente com as várias transformações 

conhecidas pelo sistema capitalista nas décadas seguintes – globalização e financeirização da 

economia, avanço de novas tecnologias produtivas com a Terceira e Quarta Revolução Industrial –, 

(1) Ver a este respeito os trabalhos de Kuznets (1955) e de Solow (1956). 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

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Piketty e as desigualdades no capitalismo: colocando alguns pingos nos is na análise de “O capital no século XXI”  

as desigualdades deram um novo salto, praticamente retornando – e até mesmo excedendo – a situação 

vigente antes da Primeira Guerra Mundial2. 

Relacionando o estoque de capital existente num determinado país (C), independentemente 

de ser privado ou público, um conceito bastante elástico na análise que realiza, que não se restringe 

aos elementos materiais necessários ao processo produtivo, mas que inclui imóveis em geral, terras 

agrícolas, ativos corporativos e financeiros, etc., desde que sejam propriedade de alguém e este possa 

vendê-los no mercado, com o fluxo de renda anual que nele é gerada (Y), relação que denomina β, 

ou seja, β = C/Y, Piketty, estabelece, na primeira parte do trabalho, a participação da riqueza existente 

na mesma, por meio da fórmula α = r x β, que considera a primeira lei fundamental do capitalismo, 

onde r é a taxa de remuneração média do capital (2014, p. 57-58). Mas é bom chamar a atenção para 

o fato de Piketty considerar ser essa lei “[...] uma identidade contábil, sempre válida por construção” 

e de apenas espelhar “[...] a participação do capital na renda nacional” (2014, p. 167), o que a torna 

insuficiente para seu propósito teórico de explicar as causas do aumento da desigualdade. 

Assim, de acordo com o exemplo que apresenta, se r = 5% e β = 600% (correspondente, 

portanto, a 6 vezes o fluxo de renda), então a participação do capital na renda gerada é igual a 30% 

(5% x 600%), cabendo 70% aos rendimentos do trabalho. Isso significa que, se mantida a mesma taxa 

de retorno de 5% para o capital, no caso de seu estoque aumentar, digamos, para 8 vezes o fluxo da 

renda, sua participação na mesma deve aumentar para 40% (800% x 5%), enquanto a do trabalho será 

reduzida para 60%. Já no caso de redução do estoque de capital para 4 vezes a renda, a participação 

do capital cairá para 20% (400% x 5%), cabendo ao trabalho 80%. E a condição para esse aumento 

da participação do capital na renda é a de que r (a taxa de retorno do capital) seja superior à taxa de 

crescimento da economia (g), ou seja, de que r > g, para ele uma realidade histórica do sistema. 

Cabe chamar a atenção para o fato de que Pìketty, nessa formulação, comete, de saída, um 

erro fundamental do ponto de vista teórico ao confundir ou tomar como igual o conceito que na 

literatura econômica é considerado como capital com o de riqueza ou patrimônio, nas diversas formas 

que essa assume, e que inclui até mesmo propriedades públicas e religiosas. Como ele diz a este 

respeito (Piketty, 2014, p. 53): “[...] usaremos as palavras ‘capital’, ‘riqueza’ e ‘patrimônio’ de forma 

intercambiável, como se fossem sinônimos perfeitos”. 

Ora, ao não fazer a distinção entre o capital capaz de efetivamente criar e/ou efetivamente 

contribuir para a expansão da riqueza real e o que dela apenas se apropria, ou entre o capital produtivo, 

útil para a sociedade e para o emprego, e as aves de rapina que a consomem, Piketty cria, ele próprio, 

dificuldades para compreender as transformações do capitalismo e também as principais causas do 

aumento das desigualdades a partir da década de 1970, assim como por que g se dissocia de r, com 

(2) Piketty não percorre necessariamente este roteiro na análise, embora alguns flashes dessa trajetória apareçam em seu trabalho, 

por não investigar mais profundamente nem as mudanças mais importantes ocorridas no pensamento econômico com a crise do paradigma 

keynesiano, nem o conteúdo das novas políticas econômicas surgidas com a hegemonia do pensamento neoliberal. Em algumas passagens 

de seu livro até menciona ligeiramente o consenso que se formou a partir da década de 1970 de se contar com uma inflação baixa para 

garantir a estabilidade macroeconômica (p. 135) e também os movimentos de liberalização e desregulamentação dos mercados (p. 139), 

assim como o processo de financeirização da economia em vários momentos, mas não procura organizá-los para explicar sua influência 

sobre o aumento das desigualdades e o crescimento do estoque de capital, no conceito que emprega. Nas deficiências que apontamos em 

seu trabalho sobre essas questões, especialmente na segunda e terceira partes deste estudo, procuramos apresentar, de forma mais 

organizada, como as mesmas se articularam e afetaram a desigualdade, principal objeto de seu estudo. 

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essa tendendo a crescer no tempo. Sem separar o joio do trigo para analisar e compreender, de fato, a 

essência do capital empobrece sua teoria, bem como a explicação dos fatores responsáveis pelo 

aumento da desigualdade na etapa atual de desenvolvimento do sistema capitalista. 

Como falar de criação de riqueza de igrejas e prédios públicos ou de um capital financeiro 

fictício que, apesar de conseguir ser remunerado, apropriando de parte da renda gerada, em nada 

contribui para a produção real? A taxa de retorno do capital (r) que emprega torna-se imprecisa, não 

decorrente da relação capital/trabalho, entendida em seu sentido econômico e, por isso, sem conseguir 

explicar teoricamente como e por que é superior a g, já que não passa de um fato histórico derivado 

da relação capital/renda (C/Y), no conceito com que opera, no qual se mesclam fatores produtivos 

com estéreis e o impede de discernir os que efetivamente contribuem para a geração da renda dos que 

dela apenas se apropriam. 

Enquanto entre os ativos que inclui neste seu conceito elástico de capital, apenas os bens 

requeridos para a produção – os elementos materiais do processo produtivo – contribuem para o 

crescimento econômico, os demais são estéreis para este objetivo, incluindo o capital financeiro na 

sua feição fictícia de alavancar artificialmente os níveis de riqueza, mas sem contribuir efetivamente 

para sua expansão real3.  

Com isso, sua proposta de criar um novo marco teórico para investigar a questão da 

desigualdade representa, na verdade, até mesmo um retrocesso em relação à escola neoclássica que, 

apesar de tratar o capital como uma massa gelatinosa, restringe-o aos elementos da produção, ao 

mesmo tempo que torna vazias, sem sentido, as críticas que endereça para as distintas escolas de 

economia, inclusive a marxista, considerando as diferenças existentes sobre sua concepção de capital 

com as das demais. Para Harvey (2014, apud Marques; Leite, 2016, p. 686), “a conclusão a que chega 

Piketty de que o capitalismo tende a aumentar a desigualdade entre o capital e o trabalho não é por 

ele explicada” A lei que leva a isso (r > g), simplesmente diz isso. E, “a lei é a lei”. 

Essa concepção particular do capital de Piketty traz implicações para a primeira lei 

fundamental do capitalismo que está representada na equação α = r x β, que associa a participação do 

capital (α) na renda nacional, como sendo função de seu estoque neste conceito elástico (β) com a sua 

taxa de remuneração (r). De acordo com as críticas feitas a essa sua visão, Piketty realizou uma 

inversão da equação da taxa de lucro (r), dada pela relação r = α/β, sendo α a massa de lucro e β a 

composição do capital e, com isso, retirou da lei todo o conteúdo social e histórico presentes nas 

relações sociais de produção, tomando r apenas como um fato histórico, presente no longo prazo, 

naturalizando-a (Husson, 2014 apud Marques; Leite, 2016, p. 687). Como coloca Boyer (2013), 

citado por Marques e Leite (2016, p. 687) essa equação supõe que a participação do lucro na renda é 

dada pela relação capital/renda, como Piketty repisa não poucas vezes no seu trabalho, e não como 

resultado do conflito existente entre o capital e o trabalho. Para ele, isso significaria adotar a hipótese 

de dominação da renda em relação ao conflito distributivo capital/trabalho e à partilha do valor 

adicionado (Husson, 2014 apud Marques; Leite, 2016, p. 688)4. 

(3) Uma lúcida e esclarecedora análise do capital fictício se encontra em Marx (1974, Livro III) e também em Carcanholo e 

Nakatani (1999). 

(4) Para um balanço de algumas críticas feitas ao trabalho de Piketty na perspectiva marxista, ver Marques e Leite (2016). 

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Piketty e as desigualdades no capitalismo: colocando alguns pingos nos is na análise de “O capital no século XXI”  

Como diz Husson (2014), citado por Marques e Leite (2016, p. 686), há uma “pobreza” ou 

falta de teoria no livro de Piketty. Ao inverter a relação, o que diz a lei fundamental? Nada. Pois nela 

o lucro depende da evolução da taxa de lucro e da relação capital/renda. Mas, pergunta Husson: como 

definir a taxa de rendimento do capital senão comparando o lucro ao capital empregado? Arrisca-se 

a andar em círculos: se r se calcula a partir de α, não se pode calcular α a partir de r, e menos ainda 

extrair daí uma lei do capitalismo. A consequência disso, para ele, é “naturalizar r > g” (Marques; 

Leite, 2016, p. 687). 

Vista dessa maneira, não se pode falar que seja propriamente uma lei tal como ele a denomina, 

pois não há nada que a determine, diferentemente das escolas de pensamento que critica. Existe 

apenas a sua convicção de que o capital, ou a riqueza tal como ele o concebe, em suas diversas formas, 

tem direito a uma remuneração, independentemente de se tratar de habitações, propriedades religiosas 

e públicas, bens de capital, capital financeiro em todos os sentidos, enfim do patrimônio em geral, 

que lhes garante apropriar-se de uma parcela do fluxo de renda gerada. 

Se Piketty teve a pretensão de criar uma teoria inovadora para explicar as desigualdades no 

capitalismo, não foi bem-sucedido neste propósito, porque em seu modelo faltam os encadeamentos 

lógicos dos fatores intervenientes neste processo, as relações estabelecidas entre o capital e o trabalho 

para entender e explicar este fenômeno e o mecanismo que garante sua reprodução e ampliação no 

tempo (Boyer, 2013, p. 8, apud Marques; Leite, 2016, p. 686). Ao mesmo tempo, ao tomar r como a 

taxa de retorno deste capital (riqueza, na verdade), sem diferenciar sua composição entre ativos 

produtivos e estéreis, incapacita-se até mesmo em obter elementos para avaliar as relações existentes 

entre a mesma e a taxa de crescimento (g), por incluir no primeiro ativos completamente improdutivos 

que podem até elevar a relação capital/renda (β), mas nada agregar à produção real. Uma r elevada, 

por exemplo, pode não ter nenhuma influência sobre o crescimento econômico, à medida que 

resultante de um aumento da riqueza (ou do capital, como ele a trata) decorrente de uma expansão 

artificial de capital fictício (riqueza financeira), ou do patrimônio, que em nada contribuirá para a 

expansão real da economia.  

Isso não significa que o trabalho de Piketty deixe de ter importância para o objetivo que se 

propõe de investigar a evolução da questão da desigualdade no capitalismo ao longo de mais de três 

séculos – do XVIII ao XXI –, bem como sua situação e tendências na atualidade. A riqueza das 

informações sobre a distribuição e concent–o da riqueza em vários países desenvolvidos – Estados 

Unidos, França, Reino Unido, Alemanha, Suécia, entre outros – representa uma importante 

contribuição para o conhecimento dessa questão e fornece elementos altamente relevantes para sua 

avaliação. Significa, sim, que se deve ter cautela e cuidado para não tomar o seu marco teórico como 

um novo approach para a análise dessa questão, dada a confusão que faz entre capital e riqueza, o 

que prejudica algumas análises que realiza5. E ainda que se deve procurar, mesmo orientando-se por 

seu modelo, contemplar as implicações que essa riqueza acarreta para a distribuição, bem como as 

recomendações que sugere para sua redução, que não se distanciam da visão de algumas escolas e 

economistas sobre o tema. É o que se procura fazer em seguida, não se podendo esquecer, contudo, 

(5) O próprio Piketty (2014, p. 39) sintetiza o que considera sua contribuição relevante para o assunto: “[...] meu trabalho consiste, 

antes de tudo, em juntar fontes e mostrar séries históricas sobre a distribuição de renda e a riqueza”. 

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que, sempre e quando nos referirmos ao conceito de capital de Piketty, estamos nos referindo, na 

verdade, à riqueza em geral. 

Considerando, portanto, de acordo com sua análise, que, se o estoque de capital (ou da 

riqueza), cujas principais formas mudam e variam de importância historicamente, determina a 

participação de seus proprietários na renda, dados os fluxos que gera na forma de aluguéis, lucros 

corporativos, juros, ganhos de capital, etc., é fundamental, nessa investigação, identificar os fatores 

que influenciam ou determinam β, ou seja, a relação capital/renda, considerando que o 

comportamento de ambas variáveis afetam a distribuição de renda. 

Para isso, Piketty apresenta a equação β = s/g, que chama de segunda lei fundamental do 

capitalismo, onde s corresponde à taxa de poupança da comunidade e g à taxa de crescimento da 

economia. Quanto maior s, maior o ritmo de crescimento de β, que, no entanto, poderá ser 

compensado ou até mais do que compensado pelo crescimento do produto (g). Mas, se o produto (g) 

crescer pouco ou mesmo não crescer em relação a s, então β inevitavelmente aumentará, piorando 

progressivamente a distribuição de renda. Como ele afirma: “uma sociedade que poupa muito e cresce 

pouco, acumula, no longo prazo, um enorme estoque de capital [e] em uma sociedade que enfrenta 

uma quase estagnação, a riqueza acumulada ganha uma importância desmedida”. Concluindo que “se 

a relação capital/renda está aumentando, isso significa um retorno a um regime de baixo crescimento. 

[Por ser] a queda do crescimento que conduz ao retorno do capital” (Piketty, 2014, p. 165). 

Embora faça uma longa discussão sobre as forças que contribuem para garantir uma melhor 

distribuição de renda, caso da difusão do conhecimento com consequente aumento da produtividade 

(Piketty, 2014, p. 27-29; 75) e das forças que operam em sentido contrário, Piketty dá destaque, entre 

as últimas, ao comportamento de r, ou seja, da taxa de remuneração do capital, em relação a g, a taxa 

de crescimento do produto. Para ele, “quando a taxa de remuneração do capital excede 

substancialmente a taxa de crescimento da economia [ou seja, r > g), então, pela lógica, a riqueza 

herdada aumenta mais rápido do que a renda e a produção” (2014, p. 33), atuando como fator de 

aumento das desigualdades. Não é difícil entender a razão disso pelas razões já expostas: dada a maior 

poupança propiciada por uma mais expressiva remuneração do capital aos seus detentores, seu 

estoque só tenderá a aumentar de forma mais rápida que o fluxo de renda, diante, inclusive, da menor 

propensão ao consumo de seus proprietários, acentuando as desigualdades ao aumentar sua 

participação na renda. Devido, no entanto, à imprecisão, como visto, na determinação de r, seu 

esquema não consegue explicar teoricamente como e porque ela é superior a g. 

Parece claro que nenhum dos extremos da fórmula será atingido porque, supondo a 

acumulação infinita, uma condição que equivocadamente ele atribui a Marx, o aumento exagerado da 

relação capital/renda (β) terminaria levando o capital a se apropriar de todo o fluxo de renda, para o 

que teria de prescindir do trabalho, enquanto, ao contrário, a redução da taxa de remuneração do 

capital para 0%, com o fluxo de renda sendo apropriado inteiramente pelo trabalho, retiraria a 

motivação de existência do capital, interrompendo o processo de acumulação. Existiria, no entanto, 

entre estes extremos, vários pontos possíveis de serem alcançados e que expressariam os níveis de 

maior ou menor igualdade ou de desigualdade na distribuição de renda numa dada sociedade. Como 

diz Piketty (2014, p. 223), “[...] se a taxa g é baixa e se aproxima de zero, a relação capital/renda de 

longo prazo, β, tende ao infinito. E, com uma relação capital/renda infinitamente elevada, o 

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Piketty e as desigualdades no capitalismo: colocando alguns pingos nos is na análise de “O capital no século XXI”  

rendimento do capital deve necessariamente se reduzir até chegar perto de zero, o que fará com que 

a participação do capital α = r x β devore a totalidade da renda nacional”. 

Piketty dedica um bom espaço em seu trabalho para discutir, diante disso, como se determina 

r. Demonstra, com clareza, que os ativos de diversas naturezas que compõem o capital (a riqueza) 

recebem diferentes remunerações – as pequenas aplicações bancárias em conta corrente, os aluguéis, 

os lucros das empresas, os juros -, alguns com remuneração inclusive negativa em termos reais, como 

os pequenos depósitos em bancos e as cadernetas de poupança, sendo também essa remuneração 

influenciada por problemas conjunturais, crises econômicas ou por outros eventos que provocam 

mudanças em seus preços. Importante, para ele, diante disso, é identificar a rentabilidade média de 

seu conjunto (2014, p. 204). 

Para isso faz um mergulho na história para avaliar a evolução dessa remuneração, analisando 

o rendimento da dívida pública e das terras públicas em períodos anteriores, situando a mesma em 

torno de 4 a 5% e examina as teorias econômicas que procuraram avaliá-la pela produtividade 

marginal do capital (escola neoclássica), mas não chega a uma conclusão satisfatória sobre essa 

questão por estar trabalhando, na verdade, com outro conceito e sem contar com um marco teórico 

consistente, como visto. De qualquer maneira, essa parece ser uma questão irrelevante na lógica de 

sua argumentação, desde que se considere a hipótese de ser r > 0, pois caso contrário o capital perderia 

qualquer motivação para sua existência, e a de que o aumento de β cresça provocando divergência na 

distribuição. Mas uma de suas conclusões, nessa análise de que “o excesso de capital mata o capital 

[porque] sua produtividade marginal diminui à medida que seu estoque aumenta” (Piketty, 2014,  

p. 211), é importante para a trajetória que traça sobre a evolução da relação capital/renda (β) e da 

remuneração do capital no tempo. 

Embora faça também uma longa discussão, apresentando estatísticas sobre essas variáveis 

para os principais países desenvolvidos (França, Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, por 

exemplo) na evolução do capitalismo, as conclusões de Piketty podem ser resumidas, para nossos 

propósitos, em quatro grandes períodos: 1) nos séculos XVIII e XIX até o início do século XX, a 

relação capital/renda tendeu a aumentar, ampliando as desigualdades, mas com r tendendo a cair; 2) 

no período que se seguiu de 1913 a 1950, registrou-se uma queda expressiva de β, com as 

desigualdades diminuindo, mas r tendeu a aumentar; 3) de 1950 a 1970, β retomou moderadamente 

seu crescimento, provocando efeitos mais modestos sobre o aumento do nível de desigualdade e de 

r; 4) a partir de 1970 até os dias atuais, a velocidade de crescimento de β se acelerou, acentuando o 

aumento das desigualdades, mas com r em trajetória declinante. Como ele afirma a respeito dessa 

questão: “[...] a remuneração do capital é mais alta nos períodos em que a quantidade β é mais baixa, 

e vice-versa, o que parece natural” (2014, p. 196). 

Até a segunda parte, o estudo de Piketty pode ser resumido da seguinte maneira: 1) por 

contribuir, independentemente da forma que assume, para a geração de fluxos de renda, o capital 

adquire o direito de se apropriar de uma parcela da mesma; 2) essa participação, por sua vez, depende: 

a) do montante do capital que é aportado na geração deste fluxo de renda; b) da taxa de remuneração 

do capital; 3) à medida que a relação capital/renda, β, se eleva no tempo, tende a aumentar a 

participação do capital neste fluxo, reduzindo a participação do trabalho e piorando a distribuição de 

renda, o mesmo ocorrendo em sentido contrário, caso β diminua; 4) β, por sua vez, é influenciada 

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pela taxa de poupança (s) e pela taxa de crescimento da economia (g); 5) taxas elevadas de poupança 

conjugadas com baixas taxas de crescimento aumentam β, enquanto taxas menores de poupanças com 

taxas mais robustas de crescimento a reduzem, sendo benéfico para a diminuição das desigualdades. 

Para nossos propósitos, a conclusão mais importante a retirar de seu trabalho, pelo menos até 

essa segunda parte, é a relevância por ele atribuída ao crescimento econômico para diminuir as 

desigualdades e permitir a reprodução do sistema com menos conflitos sociais e maior harmonia 

social. 

1.2 As desigualdades dentro dos polos do capital e do trabalho 

Na terceira parte do livro, Piketty se dedica a investigar a estrutura da desigualdade e a sua 

evolução ao longo dos séculos, à luz não somente do polo capital/trabalho, como analisado na segunda 

parte, mas também no interior de cada um destes polos, ou seja, a desigualdade existente dentro do 

capital e dentro do trabalho, visando colher melhores elementos para identificar os determinantes da 

desigualdade total. 

Geralmente, de acordo com as estatísticas que apresenta, o capital se apropria de algo em 

torno de 1/4 a 1/3 do fluxo de renda gerada, cabendo o restante ao trabalho, ou seja, entre 3/4 e 2/3 

(Piketty, 2014, p. 250). Isso não significa que esse fluxo de renda seja distribuído uniformemente 

entre os proprietários, de um lado, e os trabalhadores, de outro, porque essa distribuição irá depender, 

no caso dos detentores do capital, do tamanho, qualidade e do setor em que se insere, que determinam 

seu grau de lucratividade; do lado do trabalho, do seu nível de qualificação, do setor econômico em 

que opera (indústria, setor serviços, com maior ou menor produtividade, valor agregado, etc.) e 

também de sua organização em sindicatos e órgãos representativos do trabalho. Essa diferenciação 

de fatores indica haver desigualdade na distribuição dos rendimentos dentro de cada um destes polos 

que afeta a desigualdade total. 

Para medir essas desigualdades, Piketty lança mão do método da estatística descritiva básica 

da participação dos décimos, centésimos e milésimos da população na apropriação do fluxo de renda, 

tanto na parte que cabe aos proprietários como na dos trabalhadores, em função do tamanho do 

patrimônio e do nível dos salários (2014, p. 247-250), considerando que este método retrata melhor 

essa realidade, sendo superior aos indicadores sintéticos que procuram mensurá-las, como o Índice 

de Gini, por exemplo, ao mesmo tempo que facilita a comparação das estruturas da desigualdade em 

períodos bem distintos no tempo (p. 260-261). Conclui, com a apresentação de abundantes estatísticas 

que atravessam os séculos analisados, ser a desigualdade mais forte dentro do polo do capital do que 

na do trabalho, ou seja, de que os grandes patrimônios tendem a se apropriar bem mais 

expressivamente das rendas obtidas pelo capital vis-à-vis os pequenos e médios, às vezes com os 10% 

da população detendo 90% do patrimônio total e os 1% cerca de 50%, do que os maiores salários em 

relação aos demais, ambos contribuindo, no entanto, para a desigualdade total. 

Piketty faz uma longa análise avaliando a importância das riquezas herdadas (heranças) na 

geração dos rendimentos do capital, que seriam a expressão de uma “sociedade de rentistas” e que 

foi predominante até a Primeira Guerra Mundial e como essa realidade foi se transformando após os 

choques de 1914-1945, bem como os fatores que impediram que a concentração do patrimônio 

retornasse aos níveis existentes antes dessa guerra e reconstituísse essa sociedade (a dos rentistas), tal 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

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Piketty e as desigualdades no capitalismo: colocando alguns pingos nos is na análise de “O capital no século XXI”  

como existia anteriormente. Entre os fatores que discute deve-se destacar, de um lado, a inflação que 

teria queimado parcela considerável da dívida pública, reduzindo o paraíso dos rentistas, as “bolhas” 

que se formaram na economia, destruindo parte da riqueza financeira, e, de outro, o arcabouço fiscal 

progressivo incidente sobre as rendas, as riquezas e as heranças que, inexistente no século XIX e até 

1920, ganharia extrema importância, de forma permanente, a partir das propostas keynesianas e da 

emergência do Estado do bem-estar (Piketty, 2014, p. 272). 

Se isso representou um golpe para as riquezas herdadas, aparentemente reduzindo o poder 

dos mortos sobre a geração de rendas futuras para o capital, não significa que os maiores patrimônios 

formados de diversas maneiras tenham sido significativamente afetados, mas apenas que sua posse e 

a composição de seus proprietários conheceram uma mudança qualitativa nas transformações 

conhecidas pelo capitalismo a partir dessa época. Um movimento em geral que ocorre especialmente 

a partir da década de 1970, pôs em marcha a formação de uma “sociedade de executivos” (Piketty, 

2014, p. 270-272), com o aumento exagerado dos salários dos altos executivos de empresas, 

especialmente, mas não somente nos Estados Unidos, não explicado pela sua “produtividade 

marginal”, nem pelo nível educacional, ampliando as desigualdades no polo do trabalho. Isso, levaria 

à criação, segundo ele, de uma “classe média patrimonial”, após os choques de 1914-1945, à medida 

que estes grupos de trabalhadores mais especializados passaram a ter condições de aumentar sua 

poupança e aumentar sua participação no estoque de capital, passando a deter cerca de 1/3 da riqueza 

nacional e a integrar o grupo dos 40% intermediários na hierarquia das fortunas (Piketty, 2014,  

p. 338). 

Piketty detecta este fenômeno de ascensão dos supersalários dos executivos, mas descarta de 

sua explicação tanto a produtividade marginal do trabalho quanto o nível de educação na sua 

determinação. Considera ser um fenômeno mais tipicamente dos Estados Unidos, ou anglo-saxão, 

embora não restrito a este conjunto de países e quantifica-o para vários deles com uma profusão de 

dados, visando demonstrar sua influência no aumento das desigualdades, especialmente a partir das 

décadas de 1970 e 1980. Mas, depois de anunciar várias vezes ao longo de sua exposição sobre a 

evolução dos rendimentos do trabalho em diversos períodos (Piketty, 2014, p. 297-327) que 

apresentará sua explicação, contenta-se em atribuí-la a normas sociais vigentes no capitalismo 

contemporâneo “[...] que dependem do sistema de crenças em relação à contribuição de cada um na 

produção da empresa e no crescimento do país” (p. 324). Como se trata de temas que envolvem muitas 

incertezas e que, por isso, considerando os argumentos que apresenta, demandam o conhecimento de 

especialistas, os superexecutivos, a sociedade teria se tornado mais tolerante às remunerações 

altíssimas destes grupos, a partir dos anos 1970-1980 (inicialmente nos Estados Unidos e Reino Unido 

e, posteriormente, na Europa e no Japão (Piketty, 2014, p. 324)). Atribuir às normas sociais a 

explicação deste fenômeno significa, na verdade, renunciar a uma explicação que o vincule às 

necessidades do capital na etapa atual de desenvolvimento do sistema capitalista. 

Duménil e Lévy (2007; 2011), numa perspectiva marxista, dão outra explicação para essa 

questão. Para eles, o fenômeno dos altos salários dos executivos deve ser entendido no contexto da 

atual etapa de desenvolvimento do capitalismo, onde uma nova ordem social, o neoliberalismo, 

passou a predominar a partir dos anos 1970, sob a hegemonia norte-americana, quando o capital em 

geral e as camadas de mais alta renda se uniram para recuperar o espaço anterior que tinham no 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

423 

Fabrício Augusto de Oliveira 

sistema de obtenção de maiores lucros, prejudicados pelo compromisso firmado no pós-guerra, no 

embalo das políticas keynesianas, de maior solidariedade. 

Para isso, aliaram-se a uma classe de administradores profissionais, integrantes da classe 

trabalhadora, mas que dela se diferenciam por seus conhecimentos sobre os negócios do capital, sendo 

sua função a de gerir o empreendimento capitalista e garantir a obtenção dos maiores ganhos 

possíveis, independentemente de onde os seus recursos sejam aplicados. Embora essa classe gerencial 

de trabalhadores não constitua uma novidade no capitalismo desde a emergência da grande empresa 

e a difusão das sociedades por ações no final do século XIX, que terminaram levando à substituição 

da posse direta dos meios de produção pelo capitalista pelo seu controle, por meio de títulos 

financeiros, em particular por ações das empresas, essa fração da classe trabalhadora, chamada “classe 

gerencial”, passou a ocupar um lugar privilegiado no sistema, destacando-se do que eles chamam de 

“classe popular” (o restante dos trabalhadores), mas com seu papel se acentuando no atual processo 

de globalização e de financeirização da economia. 

Isso porque, como a ordem que emana deste pensamento é a da busca incessante por 

rendimentos elevados, ao contrário do que teria ocorrido na vigência do compromisso firmado no 

pós-guerra da busca pelo crescimento econômico e a criação de emprego, combinados com políticas 

tributárias progressivas, a criatividade dessa classe gerencial de “fazer dinheiro” num mundo 

financeiramente globalizado e desregulamentado, tornou-se essencial e transformou estes 

funcionários do capital em sócios destes ganhos, com elevados salários e merecedores de bônus 

extravagantes de acordo com as metas estabelecidas e atingidas. Com o voo alegre do capital, livre 

de amarras e controles, em busca de rentabilidade financeira, o crescimento econômico perdeu 

importância, a criação de emprego deixou de ser uma preocupação da ciência econômica, e o sistema 

se tornou mais vulnerável às crises, dadas as bases artificiais em que a criação da riqueza passou a 

ocorrer6.  

Ou seja, a queda da herança dos ricos no conjunto das fortunas provocada por estes fatores 

teria sido substituída, ou compensada, pelo ingresso nessa hierarquia dos trabalhadores bem 

remunerados, superexecutivos e supercelebridades que, com salários extraordinariamente elevados, 

um fenômeno do capitalismo contemporâneo, que poderia estar indicando o nascimento de uma 

sociedade hipermeritocrática (Piketty, 2014, p. 259), passaram a figurar na hierarquia das grandes 

fortunas, repondo as condições de progressivo aumento das desigualdades. Isso teria levado, no início 

dos anos 2010, a desigualdade na distribuição das riquezas mundiais, a comparar-se, em sua 

magnitude, à observada nas sociedades europeias nos anos 1900-1910: enquanto o milésimo superior 

(0,1%) da população detinha 20% do patrimônio, a do centésimo (1%) correspondia a 50% e a do 

décimo (10%) entre 80% e 90%, com a metade inferior da população (os 50% mais pobres) ficando 

(6) A análise efetuada por Duménil e Levy (2011) é mais complexa do que a apresentada aqui, onde priorizamos sua explicação 

para os altos salários dos executivos no capitalismo atual. Nela, os autores discorrem sobre a nova configuração das classes sociais no 

mundo capitalista globalizado e financeirizado, identificam este estágio de seu desenvolvimento depois do surgimento das sociedades por 

ações no final do século XIX como uma terceira etapa deste processo, que denominam de “segunda hegemonia financeira”, bem como a 

aliança que se forma entre a classe capitalista e a classe gerencial (os trabalhadores especiais), designando essa etapa com o termo de 

Finanças para caracterizar essa nova fase do sistema que se torna predominante a partir dos anos 1970-1980. Uma boa síntese de sua análise 

e ideias se encontra em Palludeto e Andrade (2017). 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

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Piketty e as desigualdades no capitalismo: colocando alguns pingos nos is na análise de “O capital no século XXI”  

com apenas 5% do total (Piketty, 2014, p. 427). É muita desigualdade no sistema e, mais preocupante, 

crescente. 

Isso significa ter havido uma mudança na composição dos fatores responsáveis pela geração 

das riquezas, com os rendimentos mais elevados do trabalho, permitindo a este grupo privilegiado de 

trabalhadores aumentar sua participação no seu estoque e, com isso, passar a drenar maior fatia da 

renda gerada em detrimento das riquezas herdadas, embora os grandes patrimônios continuem 

predominantes. Na sua visão, com essa mudança, mesclaram-se as fontes de renda para este grupo 

mais privilegiado de trabalhadores, com seus principais rendimentos continuando a ser gerados pelos 

salários, mas complementados por rendimentos do capital, passando eles a integrar o grupo do décimo 

(10%) da população que recebe mais renda, enquanto no grupo que representa o centésimo (o do 1%), 

as rendas principais continuaram tendo como fonte o capital e apenas complementarmente o trabalho 

(Piketty, 2014, p. 272-275; 363). 

Essas mudanças não são, contudo, suficientes para explicar por que depois dos choques de 

1914-1945 a concentração da riqueza, embora tenha retomado sua trajetória de aumento, ainda não 

conseguiu voltar aos níveis anteriores à Primeira Guerra, dada a lógica da desigual relação r > g, 

apesar de estar se acelerando desde a década de 1970. 

Para ele, a mudança estrutural que pode explicar este quadro teria sido a criação, ao longo do 

século passado, “[...] de impostos fiscais significativos sobre o capital e seus rendimentos” (Piketty, 

2014, p. 364). Praticamente inexistentes até 1914, ou cobrados com alíquotas muito baixas, próximas 

de 0%, o imposto de renda começou a ser criado em vários países nas primeiras décadas deste século, 

avançou depois da crise de 1930 no embalo da teoria keynesiana sobre a importância do papel do 

Estado e se tornou um dos impostos mais importantes das estruturas tributárias, aumentando a 

capacidade de financiamento do Estado, operando, ao mesmo tempo, como um poderoso antídoto do 

aumento da concentração da renda e da riqueza (p. 364-365). 

Assim como na leitura da segunda parte explicitamos a importância que o modelo de Piketty 

confere ao crescimento econômico como elemento redutor da desigualdade, o principal destaque 

dessa terceira parte diz respeito ao papel que os impostos progressivos incidentes sobre a renda e o 

patrimônio podem desempenhar neste processo. Não representa, na verdade, nenhuma novidade 

teórica, considerando que Keynes, em sua obra-prima de 1936, A teoria geral do emprego, do juro e 

da moeda (1983) deu ênfase ao papel destes impostos não somente para diminuir as desigualdades 

geradas no capitalismo, mas também para atenuar suas flutuações cíclicas. Mas, apoiado num 

conjunto impressionante de dados, que praticamente afoga o leitor, o trabalho de Piketty adquire 

grande importância para confirmar sua teoria. 

2 A importância dos impostos progressivos para redução das desigualdades e a proposta de 

criação de um imposto mundial progressivo sobre o capital 

Na quarta e última parte, Piketty aprofunda a tese que defende sobre a importância dos 

impostos progressivos para a redução das desigualdades, do imposto sobre as rendas e do imposto 

sobre as heranças, considerando que o primeiro incide sobre o fluxo de renda gerada e o segundo 

sobre o patrimônio transmitido aos herdeiros (estoque de capital) que dá direito a uma parcela dessa 

renda, mas adiciona como desejável para deter o avanço inexorável dessas desigualdades um outro 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

425 

Fabrício Augusto de Oliveira 

imposto, um imposto anual progressivo incidente sobre o capital, com limite de isenção e alíquotas 

que progrediriam de acordo com o tamanho da fortuna. 

Piketty faz uma defesa enfática do imposto de renda e do imposto sobre heranças, 

considerando-os filhos do século XX, que ganharam relevância nas estruturas tributárias, 

principalmente para atender às necessidades de recursos do Estado colocadas pela guerra e, a partir 

da Grande Depressão da década de 1930 e da Segunda Grande Guerra, pelos infortúnios por elas 

causados, para o financiamento do Estado do bem-estar, instituição que emergiu deste processo com 

o objetivo de criar as condições para aquele atuar, reduzindo as desigualdades com o objetivo de 

garantir maior harmonia social, essencial para a reprodução do sistema. 

Praticamente inexistentes até a Primeira Guerra ou cobrados com taxas irrisórias, garantindo 

a reprodução da desigualdade em escala crescente, tanto os impostos sobre a renda como sobre as 

heranças começaram a ser criados e/ou ampliados no início do século principalmente nos países 

desenvolvidos, como analisa Piketty (2014, p. 492-494). 

Na França, a alíquota-teto do imposto de renda da pessoa física deu um salto de 2% antes da 

guerra para 50%, em 1920, 60%, em 1924, e 75%, em 1925, alíquota que se manteve em torno de 

50% a 70% entre 1940 e 1980, praticamente o mesmo nível registrado na Alemanha; no Reino Unido, 

essa alíquota foi aumentada de 8%, em 1909, para mais de 40% após a guerra, sendo depois elevada 

para 98% na Segunda Guerra, nível reeditado nos anos 1970 e mantido até o início da década de 1980; 

nos Estados Unidos, onde a alíquota-teto havia sido reduzida para 25% em 1923, depois de chegar a 

70% entre 1919-1922, Roosevelt a elevou para 63%, em 1933, e para 79%, em 1937, 88%, em 1942, 

e 94%, em 1944, estabilizando-se em torno de 90% até a metade de 1960, quando foi reduzida para 

70%, nível em que permaneceu até o início da década de 1980. Em relação às heranças, as taxas 

máximas nos Estados Unidos oscilaram entre 50% e 80% de 1930 a 1980 e na Alemanha e França 

entre 30% e 40% neste período, todos superados pelo Reino Unido no gravame tributário imposto às 

mesmas (Piketty, 2014, p. 486-494). 

Sua justificativa para a defesa dos impostos progressivos como instrumento eficaz para a 

redução das desigualdades e para que não o confundam com um autor anticapitalista é a de que: “o 

imposto progressivo constituiu sempre um método mais ou menos liberal para reduzir as 

desigualdades, pois respeita a livre concorrência e a propriedade privada enquanto modifica os 

incentivos privados, às vezes radicalmente, mas sempre de modo previsível e contínuo, segundo as 

regras fixadas com antecedência e debatidas de maneira democrática, no contexto de um Estado de 

direito. O imposto progressivo exprime de certa forma um compromisso ideal entre justiça social e 

liberdade individual” (Piketty, 2014, p. 492)7. 

Mas, como ele observa, o movimento feito pelos Estados Unidos e Reino Unido dos anos 

1920-1930 até os anos 1970 em direção a uma maior igualdade com a cobrança de impostos 

(7) Como Keynes fez no artigo “Soy un liberal?”, de 1925 (Keynes, 1978), Piketty (2014, p. 37) deixa claro seu compromisso com 

a doutrina liberal e sua oposição ao socialismo e comunismo, e de também ser, seu objetivo, contribuir para “salvar” o capitalismo: “Fui 

vacinado bem cedo contra os discursos anticapitalistas convencionais e preguiçosos, que parecem às vezes ignorar o fracasso histórico 

fundamental do comunismo e que se recusam a se render aos argumentos intelectuais que permitiriam deixar a retórica gasta para trás”. 

Para ele, o que de fato interessa, “[...] é contribuir para [...] o debate sobre a organização social, as instituições e as políticas públicas que 

ajudam a promover uma sociedade mais justa”. 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

426  

Piketty e as desigualdades no capitalismo: colocando alguns pingos nos is na análise de “O capital no século XXI”  

progressivos mudou para uma direção oposta a partir da década de 1980, quando o pensamento 

neoliberal recuperou sua hegemonia na ciência econômica e passou a orientar as políticas econômicas 

e tributárias. As taxas máximas do imposto de renda cobradas das pessoas físicas caíram, nestes 

países, de 80-90% entre 1930-1980 para 30-40% nos anos 1980-2010, assim como também se 

observaria para o imposto de renda cobrado sobre os lucros das empresas, embora o mesmo não se 

tenha verificado nessa dimensão para os demais países desenvolvidos da Europa, como na França e 

na Alemanha, e no Japão e também no imposto sobre heranças.8 

Piketty procura relacionar essa redução do imposto a um fenômeno do capitalismo moderno, 

que consiste na concorrência fiscal que passou a ser travada entre os países no mundo globalizado e, 

principalmente nos Estados Unidos, ao surgimento dos superexecutivos que passaram a receber 

salários extremamente elevados, aumentando a desigualdade dentro do polo do trabalho e, 

consequentemente a desigualdade total, e que se integraram ao núcleo do centésimo da população, os 

10% mais bem remunerados. Pelo que pode se depreender de sua análise, que não se pode considerar 

convincente, essa redução do imposto teria levado os superexecutivos a pressionarem por maiores 

salários cujos aumentos deixariam de ser confiscados tributariamente e as empresas a concordarem 

com esses aumentos para evitar ou impedir que esse corpo técnico altamente qualificado migrasse 

para outros países que oferecessem tratamento tributário mais favorável em termos da cobrança do 

imposto de renda sobre os supersalários, o que, ele próprio, considera que vai contra o bom senso 

(2014, p. 497-499). Tal explicação, defendida pelos que querem livrar o capital e as altas rendas da 

tributação, não parece dar conta das profundas transformações que estavam ocorrendo no sistema 

capitalista e no pensamento econômico a partir da década de 1970, e que, iniciadas exatamente nos 

Estados Unidos e Reino Unido, se propagaram especialmente a partir das décadas de 1980-1990 para 

o restante do mundo capitalista. 

De qualquer maneira, este não pode ser visto como um movimento que contribui para a 

redução da desigualdade e para o controle mais democrático do capitalismo. Porque, segundo ele, 

“[...] a utilização de taxas confiscatórias no topo da pirâmide das rendas é não somente possível, mas 

ainda a única maneira de conter os grandes aumentos de salários observados no topo das grandes 

empresas. Segundo nossas estimativas, o nível ótimo da taxa superior nos países desenvolvidos seria 

superior a 80%” (Piketty, 2014, p. 499). Não se pode dizer que seja uma proposta, por mais que ele 

procure vinculá-la a um capitalismo mais justo, democrático e com maior estabilidade, que agrade as 

classes mais ricas e nem os economistas que defendem seus interesses. 

Piketty considera, contudo, que para que a democracia possa retomar o controle do 

capitalismo, neste século XXI de grandes transformações, em que o capital financeiro se tornou 

(8) No Brasil, país campeão em termos de desigualdade tributária, a alíquota-teto do imposto de renda das pessoas físicas foi 

reduzida de 65%, vigente até a década de 1960, para 25% em 1988, uma iniciativa do então ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, sob 

o argumento de estar acompanhando as mudanças internacionais que vinham sendo feitas neste imposto. Em 1995 uma nova “revolução 

tributária”, comandada pelo então secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, cuidaria de ampliar os benefícios do mesmo para o 

capital e as camadas mais ricas da sociedade. Pela Lei 9.249, de 26 de setembro de 1995, não somente os lucros das empresas distribuídos 

na forma de dividendos foram isentos de sua incidência como passou-se a subtaxar, com uma alíquota de 15%, sua distribuição na forma 

de Juros sobre o Capital Próprio (JCP), abaixo, portanto, da tabela progressiva. Além disso, a alíquota do imposto de renda incidente sobre 

o lucro tributável das empresas foi reduzida de 25% para 15%, bem como os adicionais cobrados sobre as faixas de lucros superiores a 

determinados limites. Para uma análise mais detalhada dessas mudanças, consultar Hickman e Salvador (2006, p. 57-69) e também o 

trabalho da Anfip/Fenafisco (2018). 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

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Fabrício Augusto de Oliveira 

dominante e inúmeros arranjos surgiram para ocultar os ganhos do capital em geral  para que este 

drible ou fuja da tributação, o desenho fiscal do século XX não parece mais suficiente para conter o 

avanço das desigualdades, sendo necessário inventar novos instrumentos para dar conta dessa questão 

na realidade atual do capitalismo. Com este objetivo propõe a criação de um imposto mundial 

progressivo anual sobre o capital, cobrado sobre o total dos ativos, imobiliários, financeiros, 

corporativos, acompanhado de uma grande transparência internacional, o qual seria complementar 

aos impostos sobre as rendas e as heranças (Piketty, 2014, p. 501) 

Para ele, este imposto, embora pareça utópico, teria o mérito de preservar a abertura 

econômica e a globalização e regular com eficiência o capitalismo, contendo sua insensatez na busca 

de lucros crescentes e distribuindo os recursos de maneira justa dentro de cada país e entre os países 

(Piketty, 2014, p. 502). Este imposto seria estabelecido com taxas relativamente moderadas, com um 

limite de isenção para patrimônios inferiores a 1 milhão de euros, 1% para patrimônios entre 1 e 5 

milhões de euros, e 2% para patrimônios superiores a 5 milhões, sem se correr o risco de se decretar 

a morte do capital, já que sua taxa de retorno (r) representa, como visto em sua análise, em média, 

algo em torno de 4 a 5%, em função de sua dimensão e do setor em que se encontra aplicado. Por 

isso, como ainda argumenta, não se pode descartar até mesmo a cobrança de taxas superiores a 2% 

para os patrimônios superiores a 5 milhões de euros por obterem rendas mais altas que a média 

(Piketty, 2014, p. 503; 515). 

Piketty deixa claro que sua proposta não tem o objetivo de substituir os demais impostos 

diretos, não passando de “um complemento relativamente modesto na escala do Estado social 

moderno: alguns pontos da renda nacional (três a quatro pontos, o que não é nada desprezível”, mas 

que seu principal objetivo “[...] é evitar uma espiral desigualadora sem fim e uma divergência 

ilimitada de desigualdades patrimoniais, além de possibilitar um controle eficaz das crises financeiras 

e bancárias “ (2014, p. 504). 

Para um imposto dessa natureza é indispensável, em um sistema financeiro globalizado, em 

que o capital encontra portos seguros, verdadeiros paraísos fiscais, para ficar oculto e escapar da 

tributação, contar com a cooperação internacional, por meio de convênios entre os diversos países 

para revelar o patrimônio real do cidadão que será taxado, sendo, assim, a transparência internacional 

dos negócios, essencial. A falta de transparência nos negócios na atualidade no cenário internacional, 

que permite a uma parcela considerável dos rendimentos não ser taxada pelo imposto de renda 

justificaria a cobrança deste imposto, visto apenas como um complemento dos impostos diretos sobre 

a renda e o patrimônio que não conseguem alcançar a totalidade dos ganhos do capital, porque estes 

apenas se incorporam ao seu estoque, aumentando-o sem serem tributados nas declarações anuais de 

rendimentos. Por isso, seu caráter complementar (Piketty, 2014, p. 510-511). 

Enfim, resumindo sua proposta de criação deste imposto: “[essa] é uma ideia nova, que deve 

ser inteiramente repensada no contexto do capitalismo financeiro globalizado do século XXI, tanto 

em termos de taxas de tributação como de modalidades jurídicas, por meio de uma lógica de troca 

automática de informações bancárias internacionais, de declarações pré-preenchidas e de valores de 

mercado” (Piketty, 2014, p. 520). 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

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Piketty e as desigualdades no capitalismo: colocando alguns pingos nos is na análise de “O capital no século XXI”  

Piketty realiza, ainda, no capítulo 16, uma discussão sobre a melhor solução que pode ser 

dada para resolver o problema do elevado nível da dívida pública do século XXI resultante das 

intervenções que principalmente os Estados dos países mais desenvolvidos tiveram de fazer na 

economia para salvar o sistema econômico do colapso com as tormentas desencadeadas, 

primeiramente pela crise do subprime de 2007-2009 e, a partir de 2010, pela crise da dívida soberana 

europeia. 

Para ele, existem três métodos principais que podem ser combinados em diversas proporções 

para dar conta deste problema: i) a criação de um imposto extraordinário sobre o capital; ii) a inflação; 

e iii) a política de austeridade. Considera a melhor solução o imposto extraordinário, principalmente 

na ausência da inflação, responsável por vencer as grandes dívidas ao longo da história, e, a pior e de 

maior injustiça social, a política de austeridade, embora essa seja a opção que tem sido adotada na 

Europa na atualidade e também em outros países do mundo capitalista (Piketty, 2014, p. 527). 

Pagar a dívida com a cobrança de um imposto extraordinário sobre o capital privado de uma 

só vez, com uma alíquota de 15% é, assim, para ele, a melhor opção, porque evita que o Estado tenha 

de vender seu capital para essa finalidade (escolas, hospitais, universidades, quartéis de polícia, etc.) 

e de perder a capacidade de operar como Estado social, ofertando políticas públicas, ao mesmo tempo 

que libertaria o setor público deste fardo para injetar oxigênio na economia. Mas não deixaria de ser 

razoável estabelecer uma alíquota menor para vencer resistências à sua cobrança e, com o montante 

arrecadado, abater uma parcela da dívida, que pode ser de 20%, 30%, 40%, o que também 

representaria um grande alívio para as contas do governo. 

A inflação, instrumento clássico de queima do estoque da dívida pública, embora tentadora, 

esbarra atualmente na obsessão predominante no pensamento ortodoxo sobre a necessidade da 

estabilidade monetária para o sistema operar com maior eficiência, além de poder gerar efeitos 

secundários adversos, caso da possibilidade de ocorrer seu descontrole ou de a mesma perder sua 

eficácia para este propósito se começar a ser antecipada pelos agentes econômicos. 

Ora, sem o imposto sobre o capital e sem o mecanismo da inflação, todo o ajuste da dívida 

teria de ser feito por meio da implementação de políticas de austeridade, como tem recomendado o 

pensamento econômico dominante desde as décadas de 1970 e 1980, com este ajuste podendo levar 

anos e até décadas para ser concluído, gerando prejuízos sociais e econômicos consideráveis para a 

sociedade, principalmente para os não detentores do capital e para os que se posicionam nas fileiras 

inferiores das camadas da população que mais necessitam de emprego e de serviços ofertados pelo 

Estado. 

Como a dívida pública, pelo tamanho que assumiu no século XXI, custa globalmente muito 

caro e “amarra” o Estado social, torna-se necessário reduzi-la o quanto antes, “[...] idealmente por 

meio de uma arrecadação progressiva e excepcional sobre o capital privado e, se não for possível, 

pela inflação. Em todo caso, essas decisões devem vir de um parlamento soberano e de um debate 

democrático” (Piketty, 2014, p. 551). Como recomenda o pensamento liberal mais esclarecido no 

capitalismo moderno. 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

429 

Fabrício Augusto de Oliveira 

2 Reinterpretando as origens do aumento das desigualdades no final do século XX e início do 

XXI 

Embora com pontos de partida e objetivos bem diferentes na análise do sistema capitalista, 

tanto Marx (1971 e 1974) como Keynes (1983) chegaram à mesma conclusão de ser o mesmo 

produtor de desigualdades, incapaz de gerar empregos para a população e de estar sujeito a fortes e 

recorrentes ondas de instabilidade, dada a natureza do capital. O maior mérito do trabalho de Piketty 

é, sem sombra de dúvidas, que ele confirma, com abundância de dados para mais de três séculos de 

existência do sistema, ser a questão da desigualdade e sua tendência de aumento no tempo uma de 

suas principais características. Por isso, como já propunha Keynes, com o objetivo de “salvar o 

sistema”, a importância dos impostos progressivos para deter a escalada crescente da desigualdade 

que pode decretar seu colapso, e, ao mesmo tempo, para amortecer suas flutuações cíclicas. 

Além da importância do volume considerável de dados que apresenta sobre essa questão, uma 

das principais lições contidas no trabalho de Piketty é a de que políticas redistributivas eficientes 

exigem a combinação, de um lado, do crescimento econômico, e, de outro, do papel do Estado na 

redistribuição da riqueza produzida para, complementarmente, reduzir as desigualdades e dar fôlego, 

inclusive econômico, ao sistema para continuar se reproduzindo. Quando essas condições não se 

verificam, torna-se inevitável o aumento das desigualdades, enfraquecendo a demanda efetiva, com 

a crise econômica se instalando no sistema. 

O trabalho de Piketty peca na compreensão das causas deste processo, talvez por não estar 

fundado numa base teórica sólida, como apontamos, e por não desvendar com profundidade as 

mudanças que ocorrem no sistema capitalista em todas as suas dimensões, especialmente a partir das 

décadas de 1970 e 1980, nem como o pensamento econômico deslocou sua preocupação do objetivo 

de criação de emprego para o da estabilização macroeconômica, diante da instabilidade e aceleração 

dos preços que marcaram a primeira metade da década de 1970. Assim como, diante deste quadro, 

passou a conferir ao Estado o papel de luxo de restringir-se a ser o avalista dessa estabilidade, 

considerando prejudiciais suas ações no campo econômico e social para o sistema, alterando, dessa 

maneira, novamente a equação da prosperidade. Por essas razões, não consegue explicar, de forma 

convincente, nem por que o crescimento se enfraqueceu, a partir dessa época, nem por que o Estado 

perdeu força como agente redutor das desigualdades, tendência que só tem crescido no tempo. 

De fato, não é preciso lançar mão de muitas estatísticas para comprovar que a partir da década 

de 1970, a taxa de crescimento recuou consideravelmente nos países desenvolvidos, acompanhada de 

um forte aumento da taxa de desemprego, como mostra a Tabela 1. E ainda que, a partir da década de 

1990, o crescimento econômico passou a ser alimentado quase que invariavelmente pela formação de 

“bolhas” (bolhas da internet, do crédito subprime, dos preços do petróleo, dos juros reais negativos 

nestes países), diante, inclusive, do aumento das desigualdades, as quais, quando estouram, provocam 

crises e recessões que se prolongam por muito tempo, com prejuízos para a economia e a sociedade, 

especialmente para as camadas mais pobres da população para as quais costuma-se mandar a conta 

dos ajustes que são realizados. 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

430  

Piketty e as desigualdades no capitalismo: colocando alguns pingos nos is na análise de “O capital no século XXI”  

Países 

Tabela 1 

Taxa de crescimento e taxa de desemprego em alguns países e conjuntos de países desenvolvidos 

Variação anual do PIB 

1960-69 

Taxa de desemprego 

1969-79 

1979-90 

1960-69 

1970-79 

1979-90 

Estados Unidos 

Japão 

Alemanha 

Euro-12 

G-7 

4,6 

10,2 

4,4 

5,3 

5,1 

3,3 

5,2 

3,6 

5,3 

5,1 

2,9 

4,6 

2,2 

2,4 

3,0 

Fonte: Brenner (2003, p. 93). 

4,8 

1,4 

0,8 

2,3 

3,1 

6,2 

1,7 

2,1 

4,6 

4,9 

7,1 

2,5 

5,8 

9,1 

6,8 

Também não há necessidade de muitas estatísticas para comprovar que um dos subprodutos 

deste quadro tem sido, desde essa época, a proposta de redução, ou de encolhimento, do Estado do 

bem-estar9, acompanhado de alterações na composição da carga tributária, com a substituição dos 

impostos diretos progressivos pela tributação indireta, fenômeno que Piketty constata, mas não 

aprofunda em sua análise e compreensão (Piketty, 2014, p. 546). E que, por essa razão, o sistema 

tributário, ao lado da fraqueza do crescimento econômico, tornou-se também uma força que contribui 

para impulsionar o aumento das desigualdades no sistema. São essas questões que se procura discutir 

em seguida. 

2.1 A mudança na equação da prosperidade 

Para os economistas clássicos e neoclássicos, o crescimento econômico era fundamental para 

garantir a expansão da riqueza da sociedade e o emprego para a população. Este representava, bem 

como a distribuição da produção, o principal objeto da Economia Política ou da ciência econômica. 

Para Adam Smith, por exemplo, os principais objetivos da Economia Política seriam: i) o de 

prover uma renda ou sua manutenção farta para a população ou, mais adequadamente, dar-lhe a 

possibilidade de conseguir ela mesma tal renda ou manutenção, por meio do emprego; e ii) prover o 

Estado ou a comunidade de uma renda suficiente para ofertar os serviços públicos (Smith, 1983, Livro 

IV, v. I, p. 357). A preocupação com a importância do crescimento econômico para a criação de 

emprego sempre esteve presente em todos os trabalhos destes economistas, embora com algumas 

variações sobre métodos empregados de análise e da ênfase atribuída aos objetivos da ciência 

econômica. 

Se definirmos a equação da prosperidade para esses economistas, poderíamos resumi-la na 

seguinte função: P (Y)10 = f (K, E, RN), onde P é o produto gerado, Y, a renda, K, o capital empregado 

(9) Chama-se a atenção para o fato de que, apesar dessa proposta ter-se tornado consenso no pensamento neoliberal que nasce 

neste período, o desmonte do Estado do bem-estar tem, ainda hoje, encontrado fortes resistências, especialmente nos países, como os da 

Europa, onde ele já se encontrava em estágio bem avançado e consolidado e se incorporara à estrutura da sociedade. Mesmo nos Estados 

Unidos, com um Estado do bem-estar bem mais magro, as políticas neoliberais comandadas por Ronald Reagan com este propósito, na 

década de 1980, não conseguiram se revelar bem-sucedidas como se esperava.   

(10) Embora diferentes em termos de magnitude, considera-se aqui P = Y para facilitar a exposição, mesmo por não serem 

expressivas as diferenças entre as duas variáveis. 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

431 

Fabrício Augusto de Oliveira 

no processo produtivo, E o trabalho que aciona e coloca em movimento o capital, e RN os recursos 

naturais que entram na produção dos bens. A fórmula pode ser simplificada para P (Y) – f (K, E) por 

se tratar dos dois fatores produtivos que transformam os bens da natureza em produtos que serão 

ofertados no mercado e que, ao fim e ao cabo, serão os que se apropriarão da renda gerada. Note-se 

que, nessa equação, o capital (K) e o trabalho (E) são combinados para a produção, sendo o trabalho 

elemento central neste processo para pôr em movimento o capital e que, quanto maior K, maior será 

E e, portanto, P, com o que o Estado também se beneficiará com a expansão das receitas públicas. 

Por isso, a importância do crescimento econômico para essas escolas de economia. 

Considerando, no entanto, que para essas escolas os gastos do Estado são improdutivos, com 

este operando como um mero agente consumidor da riqueza produzida, essa equação pode ser 

modificada se nela introduzirmos a riqueza que se esvai com a sua participação no processo, 

diminuindo-a. Neste caso, a equação pode ser alterada para P (Y) = f (K, E,  [-S]), sendo -S a parte 

da riqueza que se perde no processo com sua participação, o que as leva, de uma maneira geral, a 

propor um série de limites e restrições à sua atuação. Nessa perspectiva teórica, quanto menor o peso 

do Estado na economia, mais a sociedade será beneficiada com maior riqueza e emprego. 

Smith, por exemplo (Livro I, 1983, p. 286), no que foi seguido por Ricardo, que endossou 

sua posição sobre os conceitos de trabalho produtivo e improdutivo, exclui na medição da riqueza, na 

sua concepção, o trabalho improdutivo, no qual inclui todas as atividades do setor de serviços, 

incluindo as atividades do governo, que considera prejudiciais para o processo de acumulação e a 

expansão do capital. Mesmo que a escola neoclássica tenha revisto esse conceito, passando a 

considerar produtivo o trabalho que gera coisas “úteis”, coerente com sua visão sobre a origem do 

valor, o valor-utilidade, manteve intacta, em seu arcabouço teórico, a visão do Estado como mero 

dissipador da riqueza produzida. 

Essa equação conheceria, no entanto, uma transformação radical com a obra-prima de 

Keynes, A teoria geral do emprego, do juro e da moeda, de 1936. Keynes demonstraria, na mesma, 

que, ao contrário do que preconizavam essas escolas, serem os gastos públicos produtivos e 

importantes não somente para impulsionar a atividade econômica e para promover a expansão do 

emprego, como também, por meio de políticas tributárias progressivas, amortecer as flutuações 

cíclicas do sistema e reduzir as desigualdades, essencial para o fortalecimento da demanda efetiva e, 

consequentemente, para o próprio crescimento. Os três defeitos congênitos do sistema por ele 

apontados – incapacidade de gerar emprego para a população, produzir desigualdades e estar sujeito 

a ondas de instabilidade, dada a natureza do capital – só poderiam, como defendia, ser corrigidos pela 

ação do Estado. 

Na perspectiva keynesiana, nossa equação da prosperidade pode, portanto, ser reescrita da 

seguinte maneira: P (Y) = f (K, E, S (T – G), com o Estado passando a contribuir para sua expansão, 

em função do resultado líquido que obtém com a cobrança de tributos (T), que reduz a renda privada, 

e com os gastos que realiza (G), que expande P (Y). Para Keynes, com a participação do Estado se 

tornaria possível, por meio da implementação das políticas tributárias e de gastos, atingir o objetivo 

do pleno emprego da população, que deveria ser a principal missão da ciência econômica, o que não 

seria possível se o sistema operasse sem restrições, dado tratar-se de um de seus defeitos congênitos. 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

432  

Piketty e as desigualdades no capitalismo: colocando alguns pingos nos is na análise de “O capital no século XXI”  

A fórmula keynesiana inaugurou um período de grande prosperidade para a economia, 

registrando taxas robustas de crescimento e elevados níveis de emprego, que se prolongaram por 

cerca de 30 anos até os primeiros anos da década de 1970, período que ficou conhecido como “os 

anos dourados do capitalismo” ou, na Europa, como os “Trinta Gloriosos”, como a ele Piketty se 

refere em várias partes do livro (2014, p. 18 e 22, por exemplo). Ao mesmo tempo, com a nova teoria 

e com as políticas econômicas dela derivadas, as flutuações dos ciclos econômicos pareciam ter ficado 

para trás, assim como se caminhou, com a implementação de uma política tributária progressiva, 

como Piketty analisa, para um quadro em que o aumento da desigualdade perdeu velocidade reforçado 

pelo avanço e consolidação do Estado do bem-estar. 

Essa trajetória mais virtuosa do capitalismo, em que a questão da solidariedade e da maior 

justiça social pareciam estar finalmente passando a ocupar um lugar mais privilegiado no sistema, 

começou a perder força no início dos anos 1970, quando a inflação se acelerou, acompanhada por um 

aumento do desemprego e de redução do ritmo de crescimento. Nesse quadro, operou-se, novamente, 

uma mudança na equação da prosperidade com o objetivo de se dar resposta ao fenômeno da alta de 

preços combinada com o baixo crescimento ou com a estagnação da economia, o fenômeno da 

estagflação, que não encontrava suporte no arcabouçou teórico keynesiano. 

Diante da crise da teoria keynesiana, a escola de economia do pensamento conservador, que 

havia perdido a hegemonia na ciência econômica e na condução da política econômica, ressurgiu 

vigorosa pelas mãos – e mentes – dos economistas que enxergam os problemas da economia com 

lentes monetaristas e o Estado como fonte de instabilidade do sistema, devido aos seus gastos 

elevados e aos déficits em que incorre na promoção de políticas expansionistas, o que, para essa 

corrente, liderada por Milton Friedman, da Escola de Chicago, eram inócuas, no longo prazo, para 

expandir o emprego e a renda, acarretando, ao contrário, inflação e instabilidade. 

Para essa escola, a preocupação de Keynes com o pleno emprego era prejudicial para o bom 

e eficiente funcionamento do sistema econômico, devendo, portanto, este objetivo ser relativizado na 

equação da prosperidade, devendo-se apenas procurar garanti-lo até o ponto em que não provocasse 

pressões inflacionárias, existindo, assim, um limite para o crescimento do produto (chamado de 

“produto potencial”), para o que seria necessário levar em conta a necessidade de se contar com uma 

taxa natural de desemprego (NAIRU)11, uma taxa capaz de manter a neutralidade da moeda no longo 

prazo. E, como o Estado se encontrava na raiz deste fenômeno, pelos déficits que gerava com a 

implementação de políticas fiscais expansivas, este deveria renunciar às mesmas e passar a se ocupar 

apenas com o controle efetivo da oferta de moeda necessária para o sistema funcionar sem essas 

pressões. 

O crescimento, que designaremos por P* (produto potencial) passaria, com isso, a subordinar

se, nessa nova formulação, à estabilidade monetária, assim como o trabalho (E) sofreria restrições 

caso fosse além da taxa natural de desemprego, enquanto o Estado seria retirado novamente da 

equação. Podemos definir a nova equação da prosperidade que nasce com a corrente monetarista com 

a seguinte fórmula: P* = f (K, E*), sendo P* o produto potencial da economia, cujo limite não pode 

ser ultrapassado para não provocar pressões inflacionárias, e E* o emprego, mas limitado pela taxa 

(11) Acrônimo, em inglês, de Non-Acelerating Inflation Rate of Unemployment, o que significa, em português, Taxa de 

Desemprego não Aceleradora da Inflação. 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

433 

Fabrício Augusto de Oliveira 

natural de desemprego (NAIRU), uma variável que depende da conjuntura econômica e das pressões 

exercidas sobre o nível de preços,  sendo o principal papel do Estado – e da ciência econômica – 

cuidar para exercer um rígido controle sobre a oferta de moeda e manter a estabilidade monetária, 

mesmo que, para isso, tenha de sacrificar o crescimento e o emprego. 

Às políticas restritivas ao crescimento e ao emprego que passaram a ser implementadas à essa 

época, sob a influência do pensamento monetarista, somou-se, também, uma teoria exótica, filha 

dessa mesma escola, a teoria econômica pelo lado da oferta (supply side economics), que atribuiu a 

fraqueza da atividade econômica ao excesso de impostos cobrados pelo Estado, propondo sua redução 

para o capital e as camadas mais ricas da sociedade para impulsionar os investimentos e o 

crescimento. 

O fato é que teve início, nessa época, como consequência da adoção das medidas políticas 

recomendadas por essas teorias, um período de implementação de políticas altamente restritivas ao 

crescimento e ao emprego, acompanhadas de redução dos impostos incidentes sobre a renda, os lucros 

e o patrimônio, as quais se acentuariam nas décadas de 1980, comandadas pelos governos de 

Margareth Thatcher, na Inglaterra, e por Ronald Reagan, nos Estados Unidos, cujas experiências 

viriam a compor o cardápio das políticas neoliberais que seriam consolidadas, em 1989, no 

documento conhecido como Consenso de Washington. Elaborado para orientar principalmente os 

países em desenvolvimento que se encontravam com fortes desequilíbrios macroeconômicos, o lema 

deste documento e a ordem predominante dele emanada era a de “menos Estado e mais mercado”, 

ou, em síntese, do Estado mínimo ou de desmonte do Estado do bem-estar. 

Ora, se os dois principais instrumentos que contribuem para imprimir um ritmo mais lento ao 

aumento das desigualdades, podendo até mesmo reduzi-las – o crescimento econômico e o arcabouço 

fiscal com impostos progressivos -, como aponta Piketty em sua análise, perdem força nessa equação, 

torna-se inevitável que aquelas devem retornar inexoravelmente a uma trajetória de elevação. Embora 

a nova fórmula monetarista que passou a orientar as políticas econômicas a partir da década de 1970, 

especialmente nos Estados Unidos e no Reino Unido, tenha minado as forças da atividade econômica, 

determinando uma trajetória de lento crescimento para a economia mundial, ela representou apenas 

o início de uma completa reviravolta na equação da prosperidade tal como passaram a entendê-la os 

economistas dessa escola de pensamento. 

Apesar de ter passado a desfrutar de um grande prestígio nessa época, o monetarismo não 

teve vida longa, passando a receber não poucas críticas pelas simples razões: i) sua explicação para a 

aceleração de preços neste período estava centrado basicamente no movimento de alta dos salários 

devido às políticas expansionistas implementadas pelo Estado, num suposto quadro de plena 

utilização dos fatores produtivos, quando outros fatores a eles não relacionados começavam a afetar 

a dinâmica dos preços; ii) Friedman e Phelps, em seu modelo, supunham que, no curto prazo, as 

variáveis reais da economia poderiam ser afetadas pela ação do governo, como o emprego e a renda, 

e que somente no longo prazo se tornariam inócuas, diante da revisão das expectativas da inflação 

por parte dos agentes econômicos, neutralizando os resultados que haviam sido colhidos. Não era 

vista, assim, como uma teoria capaz de condenar, de vez, a intervenção do Estado na economia. 

A crítica desfechada à teoria monetarista pelos teóricos das expectativas racionais, liderados 

por Robert Lucas, abriria uma nova avenida para a revisão da equação da prosperidade na ciência 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

434  

Piketty e as desigualdades no capitalismo: colocando alguns pingos nos is na análise de “O capital no século XXI”  

econômica, num mundo capitalista que passava a conhecer uma série de transformações a partir dessa 

época, como o avanço do processo de financeirização da economia, da globalização dos mercados – 

de produtos e financeiros – e das novas tecnologias de produção nascidas com a Terceira e, 

posteriormente, Quarta revolução industrial, fenômenos que Piketty, apesar de a eles se referir em sua 

análise, não trata com o devido cuidado e profundidade para melhor entender sua influência no 

processo de aumento da desigualdade, especialmente a partir dessa nova realidade do sistema. É o 

que se discute em seguida. 

2.2 O pensamento neoliberal: avançando na mudança da equação da prosperidade 

Os teóricos das expectativas racionais plantaram as raízes para que o pensamento neoliberal 

começasse e consolidasse sua hegemonia na ciência e na condução da política econômica em oposição 

ao ideário neokeynesiano da doutrina da Síntese Neoclássica. A base da crítica por eles feita à teoria 

monetarista era de que os seus agentes econômicos não eram assim tão racionais em sua estrutura, já 

que se deixavam enganar pela ação do governo no curto prazo e, por isso, o sistema se via submetido 

a recorrentes ondas de instabilidade, o que estava ocorrendo nos primeiros anos da década de 1970. 

Para eles, que adotam os mesmos pressupostos teóricos da economia neoclássica, os agentes 

econômicos possuem racionalidade suficiente para se antecipar às ações do governo e, prevendo suas 

consequências, para neutralizá-las, impedindo que, mesmo no curto prazo, essas prosperem, evitando

se as disfunções que geram para o bom funcionamento do sistema. Isso garantiria a neutralidade da 

moeda mesmo no curto prazo e ainda que os movimentos e turbulência do mundo das finanças não 

afetem o lado real da economia, tornando inócuas e nocivas as ações do governo para este objetivo, 

sendo necessário criar as condições necessárias para manter o Estado comprometido apenas com a 

preservação da estabilidade macroeconômica. 

O debate que se desencadeou a partir dessa visão entre as escolas que passaram a ser 

conhecidas como as dos novos-clássicos e dos novos-keynesianos, terminou conduzindo ao que é 

conhecido como Novo Consenso Macroeconômico (NCM), no qual acabou predominando a tese de 

que apenas o controle da oferta de moeda (a tese monetarista) não é suficiente para garantir a 

estabilidade, caso a política econômica seja contaminada por uma situação de dominância fiscal no 

governo, pois neste caso, em algum momento as autoridades monetárias terão de sancionar os déficits 

do Tesouro, acarretando prejuízos para a mesma.   

Para evitar essa situação e que a perda de controle da oferta de moeda contaminasse a 

estabilidade, caminhou-se no sentido de considerar a necessidade de introduzir, nessa equação, a taxa 

de juros (i), em substituição à oferta de moeda, como variável-chave para garantir que, uma vez 

estabelecida uma meta inflacionária pela autoridade monetária, supostamente uma meta que manteria 

estável o nível de preços, de acordo com a regra de Taylor (1993), essa será atingida, cabendo à 

política monetária única e exclusivamente estar comprometida com este objetivo. Caso a inflação real 

se mostre superior a essa meta, a taxa de juros, i, independente dos fatores que estiverem pressionando 

o nível de preços, deve ser elevada com o objetivo de contrair a demanda agregada; se inferior, 

reduzida para injetar oxigênio na demanda e permitir à economia avançar na direção do “produto 

potencial” (P*), de equilíbrio geral do sistema.  Aparentemente, essa proposta nasceu com o objetivo 

de garantir a estabilidade, mas o fato é que, nas transformações conhecidas pelo capitalismo a partir 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

435 

Fabrício Augusto de Oliveira 

dessa época, ela seria essencial para proteger o capital e garantir a remuneração da riqueza financeira. 

Explica-se a razão. 

Na década de 1970, os “anos dourados do capitalismo”, produtores de elevadas e gigantescas 

taxas de lucro para o setor produtivo, começavam a ficar para trás devido ao excesso de acumulação 

de capital dos períodos anteriores (o abarrotamento do capital previsto pelos economistas clássicos e 

por Keynes) e à instabilidade que marcou este período, com as mesmas ingressando numa trajetória 

de forte declínio. Segundo Brenner (2003, p. 57-58) a taxa de lucro das empresas do setor 

manufatureiro dos Estados Unidos foi de 24,3% no período de 1950-1970, um nível que pode ser 

considerado elevado para qualquer época e que explica muito o crescimento registrado neste período 

por atuar como estímulo para a expansão dos investimentos. Estes, no entanto, teriam se revelado 

excessivos quando, concluído o processo de reconstrução da Europa e do Japão, a demanda externa 

para as empresas americanas diminuiu e, mais grave, com algumas dessas economias operando com 

técnicas relativamente mais avançadas e custos de produção mais reduzidos e, portanto, com preços 

mais baixos de produtos comerciáveis, que lhes permitiam concorrer com as empresas americanas no 

comércio internacional.  

Diante da incapacidade dessas empresas de elevarem os preços acima dos custos (de capital 

e de mão de obra) em face da concorrência internacional, a taxa de lucro do setor manufatureiro norte

americano, diante da queda dos preços, experimentou uma queda de 43,5% entre 1965 e 1973, caindo 

para pouco mais de 14%. Com a competitividade em declínio, a balança comercial e a de transações 

correntes dos Estados Unidos despencaram, agravando o problema do dólar e aumentando a pressão 

sobre a moeda americana, ao mesmo tempo em que, com o desestímulo ao investimento, dado o 

excesso de capacidade produtiva, a economia foi colocada numa rota de declínio após o longo boom 

de 1950-1970. Não havia como escapar da turbulência e da crise que se anunciava, a não ser por meio 

de uma política que empurrasse a solução do problema para a frente. 

E mais importante, ainda segundo a análise de Brenner (2003, p. 63-4), essa “[...] queda da 

lucratividade na economia dos Estados Unidos não foi causada – como se argumenta amplamente – 

nem por um esgotamento da tecnologia [ou seja, por um declínio no crescimento da produtividade], 

nem por um aumento do poder de compra dos trabalhadores [...], por meio de salários reais em 

crescimento mais rápido”. O crescimento da produtividade até se acelerou neste período de queda dos 

lucros, atingindo 3,3% entre 1965 e 1973, comparado aos 2,9% registrado entre 1950 e 1965. Já o 

crescimento médio anual do salário real foi de 1,9%, comparado aos 2,2% registrado entre 1958 e 

1965 e aos 3,5% entre 1950 e 1958, enquanto os preços dos manufaturados subiram 2,3% entre 1965

1973. Ou seja, tratava-se de uma crise nascida do ventre do sistema e não provocada por algum evento 

a ele exógeno como aparece na análise da ortodoxia que, à procura de bodes expiatórios, via de regra 

responsabiliza, por essa situação, o aumento dos salários. 

Não cabe, neste trabalho, entrar na discussão do conteúdo das políticas econômicas que 

passaram a ser implementadas a partir dessa época e que deslocaram a preocupação com o 

crescimento econômico e a criação de emprego para o da estabilização macroeconômica. Mas apenas 

reenfatizar o fato de que, com a contrarrevolução monetarista ocorrida, a proteção do valor da moeda 

passou a ocupar o trono das divindades a serem adoradas na teoria econômica, em detrimento do lado 

real da economia, e, com a teoria das expectativas racionais, com a tese de que os movimentos e 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

436  

Piketty e as desigualdades no capitalismo: colocando alguns pingos nos is na análise de “O capital no século XXI”  

turbulências do mundo financeiro não afetam o mesmo e de que, para o bem da sociedade, o Estado 

deve ser retirado da vida econômica, o capital, diante da queda da taxa de lucros no setor produtivo, 

começou a alçar voos em direção a outras esferas, notadamente a financeira, para continuar garantindo 

e colhendo os frutos que encolhiam com a produção, propiciando a taxa de juros, i, ser incluída na 

nossa equação da prosperidade como variável central de proteção e defesa da riqueza em geral. 

Apoiado nessas teorias, o capital encontrou argumentos para intensificar o movimento de 

financeirização da economia e exigir a queda das barreiras (a desregulamentação das regras deste 

controle) que, desde a Grande Depressão da década de 1930, o impediam de se mover livre e 

especulativamente pelo mundo para cumprir sua missão de obtenção do maior lucro possível, 

independentemente das formas que pode assumir. 

Na orgia financeira que se acentuou a partir dessa época, somente com a crise do subprime 

de 2007-2009 que, nascida nos Estados Unidos, rapidamente contaminou o resto do mundo, 

provocando uma Grande Recessão, passou-se a reconhecer e incluir no modelo do Novo Consenso 

Macroeconômico (NCM) as fricções financeiras como uma variável que pode ter impacto 

macroeconômico significativo na economia real (Paula; Saraiva, p. 22; Mishikin, 2011), mas sem se 

abandonar ou rever os demais princípios que o sustentam, principalmente do papel-chave da política 

monetária, por meio da taxa de juros, para garantir a estabilidade macroeconômica. 

É importante ressaltar ter sido a inflação, no passado, o principal instrumento de contenção e 

de corrosão da riqueza financeira, notadamente através da desvalorização da dívida pública, e que, 

tendo o capital financeiro assumido a hegemonia no sistema nessa etapa de desenvolvimento do 

capitalismo, a teoria econômica, por meio dos funcionários do capital e das camadas mais ricas, 

cuidou de adequá-la a essa nova realidade não somente para protegê-la de seus efeitos, mas também 

para garantir sua remuneração, por meio do manejo das taxas de juros. E, também importante, para 

assegurar o seu pagamento, garantindo recursos no orçamento do Estado, exigindo que este deixasse 

de continuar patrocinando políticas de desenvolvimento e de cunho redistributivo, para que aqueles 

não fossem, inutilmente, esterilizados com as mesmas. Este arranjo teórico foi apresentado, por essa 

nova teoria que se tornou dominante, a partir deste período, como se não existisse alternativa (there 

is no alternative) e, defendendo que a especulação financeira não provocava impactos sobre a 

economia real, visão que sofreu um golpe com a crise do subprime, de que a desregulamentação dos 

controles de capitais seria benéfica para o crescimento econômico. 

O fato é que desde a década de 1970, em que essas políticas restritivas passaram a ser 

implementadas, o crescimento econômico tornou-se anêmico, enquanto o emprego passou a funcionar 

como variável de ajuste do processo inflacionário. O enfraquecimento da demanda decorrente deste 

processo, dada a queda no nível de ocupação e na renda do trabalho, praticamente restringiu os ensaios 

de crescimento registrados após este período às forças criadas com a formação de “bolhas” (do 

mercado de ações, gerando efeito-riqueza, da internet, do crédito em excesso, como foi o caso do 

subprime nos Estados Unidos, das baixas taxas de juros reais, entre outras), que terminam estourando, 

produzindo crises, às vezes prolongadas, e submetendo as economias a severos ajustes ainda mais 

recessivos. Esse processo de financeirização da economia foi, no entanto, apenas o prelúdio de uma 

tormenta ainda maior que se aproximava para nublar, de vez, a capacidade do capitalismo de 

funcionar como sistema capaz de irradiar efeitos benéficos para toda a sociedade. 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

437 

Fabrício Augusto de Oliveira 

O processo de reestruturação produtiva deslanchado nos Estados Unidos na década de 1980, 

com o objetivo de recuperar a liderança tecnológica que vinha perdendo para outros países, como a 

Alemanha e o Japão, acelerou o lento processo de avanço da Terceira Revolução Industrial desde os 

anos 1950, baseada em novas tecnologias poupadoras de mão de obra – informática, robótica, 

genética, telecomunicações, eletrônica, entre outras – , dando novo impulso ao sistema capitalista e 

tornando o capital bem menos dependente do trabalho, praticamente supérfluo, inútil, nos setores que 

as absorveram e enfraquecendo seu papel como fator de produção. Com seus efeitos combinados com 

as políticas restritivas de crescimento para debelar ou conter a inflação predominantes a partir de 

década de 1970, o emprego se tornaria, assim, um bem de luxo nestes setores, difícil de ser adquirido, 

com o trabalhador tendo de migrar para outras atividades, geralmente trabalhando por conta própria 

ou ser submetido a trabalhos temporários, precários, com baixa remuneração. Situação que deve 

continuar se agravando com a Quarta Revolução Industrial, baseada entre outras novidades na 

Inteligência Artificial (IA), na qual só parece haver espaço para mentes bem formadas e brilhantes, o 

que não é bem o caso da maioria da população mundial. Não surpreende, assim, que Forrester (1997, 

p. 25) encare com horror este novo mundo para a situação do trabalho: 

Quanto ao modelo inédito que se instala sob o signo da cibernética, da automação, das tecnologias 

revolucionárias, e que agora exerce o poder, este parece ter se desviado, isolado em zonas 

estanques, quase esotéricas. E, bem entendido, sem vínculo verdadeiro com o “mundo do 

trabalho”, que ele não usa mais e que considera, quando consegue entrevê-lo, um parasita irritante 

marcado por suas paixões, suas confusões, seus desastres incômodos, sua irracional obstinação 

em pretender existir. Sua inutilidade. [...] Suas renúncias e sua inocuidade, por estar preso nos 

vestígios de uma sociedade onde suas funções foram abolidas. 

E, no que diz respeito à criação e ao aumento das riquezas, que Piketty, em seu trabalho, 

considera como capital para estabelecer a sua taxa de retorno (Forrester, 1997, p. 88): 

Esses mercados [financeiros] não desembocam em nenhuma “criação de riquezas”, em nenhuma 

produção real. Não necessitam sequer de endereços imobiliários. Não utilizam pessoal, já que 

bastam alguns telefones e computadores para atingir mercados virtuais. Ora, nesses mercados, 

que não implicam o trabalho de outras pessoas, que não são produtores de bens reais, as empresas 

(entre outros) investem, cada vez com mais frequência e, cada vez mais, parcelas de seus ganhos, 

já que o lucro aqui é mais rápido, mais importante que em outros lugares. E é para permitir tais 

jogos financeiros, muito mais rentáveis, que chegam muitas vezes as subvenções, as vantagens 

concedidas a fim de que essas mesmas empresas criem empregos! 

Se, como apontamos, antes o trabalho figurava de forma importante ao lado do capital, e até 

de forma bem mais predominante, como essencial para a produção de bens e serviços, ou da riqueza, 

tal como entendido desde Adam Smith (e não na visão de Piketty), ocupando papel-chave na equação 

P (Y) = f (K, E), ao ter se tornado supérfluo, enquanto o capital financeiro assumiu maior relevância, 

a equação parece ter sido alterada para P* = f (K, i, e), onde K representa o capital investido que vai 

gerar lucros produtivos, i, a taxa de juros necessária para garantir a estabilidade monetária e a 

rentabilidade dos ativos financeiros, ou da riqueza financeira, e e, o trabalho, aqui reduzido a um e 

minúsculo, dada a perda de sua importância na equação. Neste novo mundo em que predominam os 

mercados financeiros e a produção da riqueza deixa de ser real, mas meramente fictícia, não há muito 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

438  

Piketty e as desigualdades no capitalismo: colocando alguns pingos nos is na análise de “O capital no século XXI”  

mais lugar para o trabalho e nem mesmo pode se associar a taxa de crescimento (g) de Piketty aos 

movimentos de r, a taxa de retorno dessa riqueza. Mas não é só. 

Com o avanço das novas tecnologias e a abertura das economias determinadas pelo processo 

de globalização para acomodar essas transformações, a questão da competitividade se tornou 

essencial e, como tal, foi alçada ao trono das grandes conquistas, passando-se a exigir dos países 

integrados à nova ordem internacional, uma remodelação de seus sistemas tributários para não 

afugentar os fatores de maior mobilidade espacial (capital financeiro, produção, investimentos, 

exportações, mão de obra qualificada, etc.) de seus territórios, passando-se a priorizar a cobrança de 

impostos sobre os fatores de menor mobilidade, como o consumo, os trabalhadores não qualificados, 

as propriedades imobiliárias, entre outros. Isso tem significado substituir estruturas progressivas de 

tributação por estruturas regressivas, que penalizam mais a população de menor renda, aumentando 

as desigualdades e estreitando as bases da tributação, limitando, assim, consequentemente, ou 

decretando o fim do Estado do bem-estar, tal como manda o cardápio da ortodoxia, com implicações 

para a reprodução da coesão social12. 

As mudanças que conheceu o capitalismo nas últimas décadas transformaram-no, assim, em 

um grande cassino (o temor manifestado por Keynes em A Teoria Geral), em que o capital percorre 

livremente o planeta para a obtenção de ganhos fáceis, por meio da especulação, ganhos que devem 

ser assegurados pelo Estado no orçamento, e enfraqueceu, de outro, o setor produtivo para operar 

como fonte geradora de emprego para a população, ao mesmo tempo que, em virtude do desmonte 

do Estado do bem-estar, tem lançado nos bolsões da pobreza e da miséria uma massa crescente da 

população, tornando-o também bem mais instável com a orgia financeira que brotou com a 

desregulamentação dos mercados. Para Thurow (1997, p. 287), “a instabilidade financeira é, para o 

capitalismo, aquilo que os problemas sucessórios eram para os reinos medievais ou as ditaduras. 

Ambos colocam em risco seus respectivos sistemas”. Já para Piketty (2014, p. 257) a revolta dos 

despossuídos que pode ocorrer diante de tamanha desigualdade só poderia ser contida se “[...] se 

concebesse um mecanismo repressivo extremamente eficaz”. 

O trabalho de Piketty passa ao largo dessas discussões, embora a elas se refiram de forma 

esparsa e, por isso, não é capaz de explicar convincentemente por que a desigualdade tem aumentado 

a uma velocidade assustadora no capitalismo, especialmente a partir das décadas de 1970 e 1980, bem 

como as forças reais que estão por trás deste fenômeno. Quando muito enxerga mais claramente essa 

causa como uma característica do capitalismo contemporâneo com o surgimento de uma classe de 

trabalhadores muito bem remunerados – os superexecutivos das empresas -, recebendo salários 

exorbitantes, que passaram a incorporar-se às fileiras dos 10% mais ricos e a formar uma classe média 

patrimonial, para a qual o sistema tributário teria sido ajustado, reduzindo os impostos sobre os seus 

rendimentos para evitar sua fuga para outros países. Esse fenômeno estaria contribuindo para 

aumentar as desigualdades dentro do polo do trabalho e a desigualdade total, dada a maior capacidade 

destes trabalhadores privilegiados de poupar e, consequentemente, de aumentar sua participação na 

posse do capital, compensando a queda das heranças na sua composição devido à taxação progressiva 

sobre o patrimônio. 

(12) Uma discussão mais aprofundada dessas questões pode ser vista em Oliveira (2012). 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

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Fabrício Augusto de Oliveira 

Piketty parece não enxergar ser essa uma tendência real do sistema nessa nova marcha de 

insensatez e, por isso, apenas constata que o arcabouço fiscal progressivo do século XX tem se 

tornado, nessas condições, incapaz de contribuir para deter a escalada do crescimento do montante 

do capital e do consequente aumento das desigualdades, mesmo com a aprovação da proposta que 

defende de elevar para 80% ou mais nos países desenvolvidos a alíquota-teto do imposto de renda 

sobre as pessoas físicas, como existente no passado nem tão remoto. Para ele, dado o crescimento 

acelerado do capital, seria necessário, na situação atual, criar novos instrumentos para permitir que r 

(a taxa de retorno) convirja para g (a taxa de crescimento), o que significaria o fim dos rentistas, já 

que estes terão de investir tudo que ganham para manter sua participação na renda, ao invés de se ter 

de ficar esperando o abarrotamento do capital para r declinar, o que pode levar muito tempo (Piketty, 

2014, p. 548). 

Daí, a sua proposta de criação de um imposto mundial progressivo sobre o capital, 

complementar ao imposto de renda e ao imposto sobre as heranças. Uma proposta defensável até 

mesmo pelos liberais mais esclarecidos, que percebem os riscos que desigualdades extremas 

representam para a própria reprodução do sistema, mas que desconhecem, de fato, a natureza do 

capital. Não é muito para um trabalho que foi apontado por Krugman como capaz de mudar a nossa 

forma de encarar a economia. 

3 Uma conclusão sobre o trabalho de Piketty 

O maior mérito do trabalho de Piketty é o de ter revelado, com a metodologia que utiliza para 

analisar as desigualdades no capitalismo, baseada na posição dos milésimos, centésimos e décimos 

da população na apropriação da renda gerada, o peso e a importância dos muito ricos nessa 

distribuição. Até então, como coloca Krugman (2014) em sua resenha sobre o livro, as pesquisas 

sobre disparidades econômicas desconsideravam os muito ricos e focavam a discussão sobre este 

tema entre os pobres da classe trabalhadora com nível mais baixo de educação ou a sorte comparativa 

dos 20% mais prósperos da população ante os 80% menos afortunados. Com o trabalho de Piketty 

essa realidade mudou, retirando os muito ricos (os 0,1%, 1% e 10%) das sombras dessas pesquisas 

que protegiam seu anonimato e revelando seu peso e importância na estrutura das desigualdades. 

Principalmente por essa razão, a pesquisa por ele desenvolvida foge dos padrões 

convencionais e pode ser considerada inovadora por fornecer melhores elementos para a compreensão 

dessa realidade. Lançando mão de registros tributários dos contribuintes nos países que analisa, 

Piketty consegue reconstituir historicamente a evolução da estrutura da desigualdade no mundo 

capitalista desde o século XIX, destacando como a posse do capital, no conceito que emprega, por 

essas camadas privilegiadas, continua, em contextos históricos e políticos distintos, sendo expressiva 

na explicação dessa distribuição.  

E, mais importante, como seu peso nessa distribuição marcou a Belle Époque como um dos 

períodos de maior desigualdade, quando o 1% detinha 20% da renda nacional, tanto nos Estados 

Unidos como no Reino Unido, percentual que oscilava entre 45% e 50% para o décimo superior. Em 

1950, essa participação havia caído para menos da metade para o primeiro grupo e para 35% a 40% 

para o segundo, devido principalmente à queima de capital ocorrida em virtude das duas guerras e 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

440  

Piketty e as desigualdades no capitalismo: colocando alguns pingos nos is na análise de “O capital no século XXI”  

das crises econômicas, especialmente a da década de 1930, com o centésimo perdendo força mais que 

proporcional na explicação da desigualdade.  

A partir da década de 1970 e mais ainda de 1980, essa desigualdade voltou a se acentuar, 

mais especialmente nos Estados Unidos, o que, se bem de acordo com a lógica do sistema, pode 

conduzir a crescentes questionamentos pelos dele excluídos e até gerar rebeliões contra as suas bases. 

Essa, a marcha da insensatez de retorno ao perverso padrão de distribuição do século XIX, podendo 

até ultrapassá-lo, com as políticas econômicas implementadas e com as transformações conhecidas 

pelo capitalismo. 

Não são questões triviais, pois fornecem elementos importantes para a política governamental 

caso se pretenda, de fato, adotar medidas para reduzir essas desigualdades, sabendo-se que residem 

principalmente na camada da população pertencente ao centésimo superior e, em menor grau, ao 

décimo superior, as suas causas. É importante, no entanto, ter clareza se, apesar de contribuir para 

afastar os conflitos sociais que podem resultar dessas disparidades, na qual os 50% dos mais pobres 

quase nada possuem de capital e se apropriam de parcelas insignificantes da renda gerada com o 

trabalho, políticas dessa natureza não sofrerão vetos exatamente do capital na sua ensandecida busca 

e garantia da riqueza e de seus representantes nos governos e parlamentos. Resposta que o trabalho 

de Piketty não fornece.   

Também é importante o fato de que, tendo demonstrado com essas estatísticas, que depois de 

ter visto ser enfraquecido no século XX, devido aos problemas provocados pelas guerras e pelas crises 

econômicas, bem como pelas políticas mais redistributivas com o Estado do bem-estar, o capital 

acumulado dos muito ricos voltou a se expandir mais aceleradamente no capitalismo contemporâneo, 

praticamente retornando à sua posição do século XIX, reconstituindo o que ele chama de “capitalismo 

patrimonial”, no qual o peso das fortunas acumuladas têm forte determinação na distribuição atual e 

futura das rendas, mas com uma composição um pouco diferente de seus membros. 

De acordo com sua análise, enquanto na Belle Époque a riqueza hereditária (as heranças) 

tinha uma importância muito maior para a renda do capital, embora essa tenha diminuído e cedido 

espaço entre os 10% mais ricos para uma camada privilegiada de superexecutivos remunerados com 

supersalários no capitalismo atual, um fenômeno mais característico, embora não somente dos 

Estados Unidos, ela (a riqueza acumulada) continua sendo predominante na garantia de renda do 1% 

mais rico. Disso resulta ser a renda do capital e não a renda do trabalho, o que, se fosse o caso, poderia 

estar indicando uma sociedade mais meritocrática, que predomina no topo da distribuição de renda, 

atuando como maior propulsor das disparidades existentes. Com um agravante: o de que essa 

disparidade está crescendo com o aumento mais acelerado do estoque de capital em relação à renda, 

ou seja, da relação C/Y. 

Na sua investigação deve-se destacar, ainda, a importância que adquire o objetivo do 

crescimento econômico e das políticas redistributivas para deter, diminuir ou até mesmo reverter essa 

tendência de expansão do capital e de aumento da desigualdade. A análise que realiza para o período 

de 1950-1970 deixa claro ter sido principalmente devido à maior taxa de crescimento dessa época, 

combinado com a implementação de políticas de cunho keynesiano e com os benefícios sociais que 

nasceram com o Estado de bem-estar, a diminuição ocorrida no ritmo de aumento da desigualdade. 

Tal conclusão é extremamente relevante para a implementação de políticas que, voltadas para este 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

441 

Fabrício Augusto de Oliveira 

objetivo, privilegiem apenas a distribuição sem a preocupação com a criação de bases para um 

crescimento mais sustentável, capaz de torná-las consistentes no tempo. Isso porque, se o maior 

crescimento propicia, no seu esquema, que r convirja para g, é com ele que o Estado consegue obter 

maiores receitas para implementar políticas de redistribuição. 

O trabalho representa, ainda, uma proposta também altamente relevante para desfazer a 

crença que se formou nos meios governamentais e acadêmicos da ciência oficial – a do mainstream – de que políticas tributárias progressivas em nada contribuem para a redução da desigualdade e de 

que os impostos não devem ser manejados para este objetivo, dadas as distorções que provocam no 

funcionamento do sistema, especialmente por prejudicarem a competitividade do país e estimularem 

a fuga de capitais para outros centros com tratamento tributário mais favorável. Por isso, como se 

constata de sua análise, a tendência das reformas tributárias no mundo de substituírem essas 

estruturas de impostos progressivos por estruturas regressivas, que só tenderão, pela sua natureza, a 

agravar a desigualdade no sistema. 

O tratamento de algumas questões, no entanto, diminui o brilho do trabalho e enfraquece a 

compreensão das forças que estão por trás deste movimento do capitalismo a partir das décadas de 

1970 e 1980, bem como de suas implicações para a reprodução do próprio sistema. 

Além da elasticidade de seu conceito de capital, como visto, igualando-se ao da riqueza, o 

que acarreta problemas para o seu modelo teórico, ao não considerar devidamente a reação que nasceu 

entre os economistas do pensamento conservador com a crise do arcabouço keynesiano, deslocando 

a preocupação da ciência econômica do crescimento e da criação de emprego para o da estabilização 

macroeconômica, bem como as teorias que surgiram deste movimento para proteger o capital e a 

riqueza financeira, alterando a equação da prosperidade, impede-o de compreender as forças reais 

que estão conduzindo a essa situação, bem como a razão de o capital, considerado em seu sistema, 

estar expandindo-se mais aceleradamente. 

Por outro lado, ao não fazer a distinção entre o capital produtivo e as outras formas de riqueza, 

que em nada contribuem para a produção real, mesmo que essas diversas formas que o capital assume 

para obter lucros estejam entranhadas no circuito de valorização financeira, não consegue explicar 

por que r, apesar de estar aumentando, não se traduz em aumento de g, dissociando-se, por ser fruto 

principalmente de um capitalismo financeirizado que não tem no setor produtivo sua principal fonte 

de ganhos, mas no da especulação facilitada pela desregulamentação dos mercados ocorrida desde a 

década de 1970, visando abrir novas fontes de lucratividade para o capital cumprir a sua sina. 

Ora, ao não incluir na sua análise este processo de desregulamentação e a importância que o 

mesmo adquiriu para a expansão de r e da relação capital/renda, β, embora faça várias referências à 

expansão financeira, obscurece sua explicação sobre as causas reais da desigualdade pelo fato de seu 

capital (a riqueza, na verdade) estar expandindo-se ilusoriamente, embora garantindo seu direito à 

apropriação da renda, por meio principalmente das políticas estatais. 

A falta de melhor articulação dos elementos estruturais que moldam o sistema capitalista na 

atualidade, em decorrência das transformações ocorridas a partir das décadas de 1970 e 1980, limita, 

assim, sua análise para entender por que se alterou a equação da prosperidade, na qual o crescimento 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

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Piketty e as desigualdades no capitalismo: colocando alguns pingos nos is na análise de “O capital no século XXI”  

e o emprego perderam espaço para uma forma de riqueza financeira, que se expande sem a 

contrapartida da riqueza real, tornando o sistema mais desigual e mais vulnerável às crises. 

Por isso, a análise do novo papel que passou a ser atribuído ao Estado pela corrente neoliberal, 

o de mero “fiador da estabilização” e de agente protetor dessa riqueza, fica prejudicada em sua análise, 

sem respostas convincentes para o desmonte do Estado do bem-estar em curso e para o abandono da 

política fiscal, incluindo a tributária, como instrumentos de redução das desigualdades para a 

sustentação dessa nova ordem. Atribuir ao surgimento de uma classe de trabalhadores de alto nível, 

que passou a ocupar postos-chave nas grandes empresas, os superexcecutivos, recebendo 

supersalários, significa simplificar em demasia a negação das políticas tributárias progressivas e o 

aumento da regressividade do sistema tributário e, consequentemente, da desigualdade, quando o que 

se objetiva com as mesmas é a proteção e a defesa da riqueza em geral. 

Por último, faltam também a Piketty melhores argumentos para a defesa da redução da 

desigualdade e para torná-la mais convincente para o próprio capital. Para isso, seria necessário fazer 

uma melhor discussão sobre o papel que ao Estado cabe no sistema e as políticas que deve ofertar 

principalmente para as camadas menos favorecidas da população, visando amortecer os conflitos 

sociais e impedir que o sistema entre em ebulição, comprometendo sua reprodução. Se, como ele 

próprio constata, “[...] a redução da desigualdade ao longo do século passado [foi] o produto caótico 

das guerras e dos choques econômicos e políticos por elas provocados e não o resultado de uma 

evolução gradual, consensual e branda” (Piketty, 2014, p. 269) não se pode esperar que apenas com 

os argumentos de justiça social o capital se convença da importância de sua proposta. Mas, reforçar 

a ideia do novo caos que pode se instaurar em nível superior ao daquele período, conduzindo o sistema 

para o colapso, pode contribuir para abrandar as políticas excludentes e insensatas do sistema para 

manter, minimamente, a coesão social e garantir sua reprodução, permitindo aos ricos, embora com 

uma riqueza menor, permanecer no paraíso do prazer, do consumo e da ociosidade. Ou novamente 

esperar por novas catástrofes políticas, econômicas e sociais. Essa, a principal lição que se pode 

extrair do trabalho de Piketty. 

O Relatório de Desigualdade Global de 2018 (Facundo et al., 2018) revela um quadro ainda 

mais dramático dessa situação. Em 2016, nos Estados Unidos e Canadá, a parcela da renda apropriada 

pelos 10% mais ricos havia atingido 47%, contra 34% em 1980 e 42,8% em 2001. Já a do 1% deu um 

salto de 11% em 1980 para 20% em 2016, praticamente dobrando. Na Europa, onde o Estado do bem

estar é mais robusto que o dos Estados Unidos e as políticas tributárias menos regressivas, as 

desigualdades são menos acentuadas, mas ainda assim elevadas, com os 10% dos mais ricos se 

apropriando de 37% da renda e o 1% de 12% em 2016. Em economias emergentes, como a China 

(41% de renda apropriada pelos 10% mais ricos) e Rússia (46%), esses índices têm registrado um 

progressivo aumento no tempo, enquanto em outros países, como Brasil (55%) para os 10% mais 

ricos), África subsaariana (54%) e Oriente Médio (61%), os 50% da população mais pobre estão 

praticamente alijados do acesso ao mercado de bens e serviços, vivendo em condições de pobreza e 

de extrema pobreza. Como se projeta uma progressiva piora dessa situação, caso este quadro não seja 

detido ou revertido com políticas tributárias progressivas e maiores benefícios do Estado para as 

camadas mais pobres, podendo, inclusive nos Estados Unidos, o 1% da população mais rico se 

apropriar de até 28% da renda gerada em 2050, as previsões de uma hecatombe social tornam-se cada 

vez mais reais. 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 30, n. 2 (72), p. 415-445, maio-julho 2021. 

443 

Fabrício Augusto de Oliveira 

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SMITH, Adam [1776]. A Riqueza das Nações; investigação sobre sua natureza e suas causas. São 

Paulo: Abril Cultural, 1983 (Os Economistas). 

SOLOW, Robert. A contribution to the theory of economic growth. The Quartely Journal of 

Economics, n. LXX, fev. 1956. 

TAYLOR, John B. Discretion versus Policy Rules in Practice. Carnegie Rochester Conference Series 

on Public Policy, v. 39, n. 1, p. 195-214, 1993. 

THUROW, Lester C. O futuro do capitalismo – Como as forças econômicas moldam o mundo de 

amanhã. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.. O artigo do autor Fabrício Augusto de Oliveira 

A desigualdade social e a concentração de renda são características estruturais e inerentes ao desenvolvimento do sistema capitalista. Principais Problemas e Desigualdades Concentração de Riqueza: O acúmulo de capital nas mãos de poucos gera uma distância acentuada entre classes sociais. Relação Trabalho e Capital: A busca constante por lucro reduz custos trabalhistas, gerando precarização e desemprego estrutural. Limites Ambientais: A prioridade pelo crescimento contínuo frequentemente esgota recursos naturais e degrada o meio ambiente.

Confira meu artigo para o seu direito sagrado ao contraditório leitor (a).Link: https://diariodeumjoranlista.blogspot.com/2023/06/um-tirano-no-poder.html

Quem  sabe. O capitalismo não entrega o prometido. Nem mesmo nos Estados Unidos.

Confira a noticia no Portal  G1 da Rede Globo. .https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/08/28/trump-anuncia-acordo-que-garante-aos-eua-controle-de-mais-de-65-bilhoes-de-barris-de-petroleo-da-venezuela.ghtml

E assim caminha a humanidade.

Imagem do Site Toda matéria .






 



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