Dsenvolvimentismo
a construção do conceito1
Pedro Cezar Dutra Fonseca
1. Introdução
O que é desenvolvimentismo? A resposta remete à conceituação de um
termo de largo uso entre os economistas e já incorporado pela mídia, mas
que carece de defi nição mais precisa. Como outros termos teóricos ou
categorias utilizados pelos economistas (como “desenvolvimento”, “bem--estar”, “equilíbrio” e “valor”), o sentido pode alterar-se total ou parcial
mente de acordo com o approach teórico em que está inserido ou mesmo
1 Agradeço a Rosa Freire d’Aguiar pelo acesso ao Arquivo das correspondências de Celso
Furtado e por seu depoimento sobre o tema. Mesmo com a total responsabilidade pela ver
são fi nal, devo agradecer a leitura cuidadosa e as sugestões de Jose Gabriel Porcile (CEPAL),
Leda Paulani (USP), Luiz Carlos Bresser-Pereira (FGV-SP), Marcelo Arend (UFSC), Ma
ria de Lourdes Mollo (UnB), Ricardo Bielschowsky (UFRJ) e Pedro Paulo Zahluth Bastos
(UNICAMP), além dos colegas da área de Desenvolvimento Econômico do Programa de
Pós-Graduação em Economia da UFRGS André Moreira Cunha, Marcelo Milan, Octavio
Augusto Camargo Conceição, Ricardo Dathein, Ronaldo Herrlein Jr. e Sérgio Monteiro.
Também colaboraram com sugestões de fontes de pesquisa Andrés Ferrari Haines (UFRJ),
Claudia Wasserman (UFRGS), Gerardo Fujii (UNAM, México), Juan Odisio (AESIAL e
UBA, Argentina), Manuel García Ramos (UNAM, México), Marcelo Rougier (CNICT
e UBA, Argentina), Reto Bertoni (UR, Uruguai) e Vicente Neira Barría (CEPAL). Devo
agradecer, ainda, a colaboração dos orientados de mestrado e doutorado no Programa
de Pós-Graduação em Economia da UFRGS Fabian Domingues, Leonardo Segura, Óliver
Marcel Mora Toscano e Stella Venegas, assim como os bolsistas de Iniciação Científi ca da
UFRGS e do CNPq Daniel de Sales Casula, Francisco do Nascimento Pitthan, Leonardo
Staevie Ayres e Lucas de Oliveira Paes.
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com os objetivos do usuário2. Com exceção dos termos da Contabilidade
Social – geralmente identidades ou tautologias e, portanto, defi nições a
priori as quais, uma vez estabelecidas, levam a controvérsia a centrar-se
mais na mensuração do que na conceituação – os conceitos econômi
cos, a exemplo das demais ciências sociais, muitas vezes não conseguem
escapar de nuances que lhes impingem certa vagueza e ambiguidade3.
Por um lado, tais plasticidade e fl exibilidade podem trazer facilidades ao
usuário, pois “acomodam” fatos novos que os conceitos tentam abarcar,
mas, por outro lado, a dubiedade também difi culta a comunicação den
tro da própria comunidade científi ca. Esse alongamento (ou adaptabi
lidade dos conceitos) vai ao encontro do que Sartori (1970, 1984), em
seus trabalhos clássicos, denominou de “viagem” dos conceitos, ou a vida
própria que os mesmos adquirem ao serem usados. Para a conceituação
de desenvolvimentismo, essa questão está na ordem do dia com a polê
mica sobre se é possível um “retorno” do mesmo em contexto histórico
diferente do qual se associou historicamente na América Latina – a in
dustrialização por substituição de importações. A volta a um “novo de
senvolvimentismo”, ou se governos atuais do subcontinente podem ser
assim denominados, vem sendo objeto de discussão entre profi ssionais e
pesquisadores da área de economia, fato que corrobora a necessidade da
precisão conceitual, como bem ilustra o debate brasileiro.4
2 Alguns autores, como Collier e Mahon (1993, p. 853), utilizam “conceito” e “categoria”
como similares, conquanto Sartori (1970, 1984), como se mostrará adiante, tenha preferi
do falar em conceitos. Para evitar equívocos, aqui se entende categoria como termo teórico,
ou seja, um conceito circunscrito ao trabalho científi co. Por isso, é usual que as categorias
assumam signifi cados e nuances de acordo com os approaches e paradigmas teóricos con
correntes em determinada comunidade de pesquisadores ou profi ssionais. Destarte, ter
mos como “cadeira” ou “biblioteca”, por exemplo, por certo têm seu conceito, mas não são
termos teóricos ou categorias, ao contrário de “produto interno líquido a custo de fatores”,
“renda da terra”, “desenvolvimento” ou “lucro”. Este último bem ilustra os múltiplos usos
em uma mesma comunidade: ora é utilizado para designar a remuneração de um fator de
produção, ora como contrapartida pela espera (tempo), ora como ganho extraordinário
(e daí o adjetivo em “lucro puro”) e ora como trabalho não pago, ou parte da mais-valia.
3 “Um termo é “ambíguo” num determinado contexto quando tem dois signifi cados dis
tintos e o contexto não esclarece em qual dos dois se usa. Por outro lado, um termo é
“vago” quando existem ‘casos limítrofes’ de tal natureza que é impossível determinar se
o termo se aplica ou não a eles” (Copi, 1978, p. 108).
4 Veja-se: Bresser-Pereira (2003, 2006, 2010), Sicsú et al (2005), Paula (2005), Paulani,
(apud SICSÚ, 2005), Paulani e Pato (apud Paula 2005), Paulani (apud Arestis, P.; Saad
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“Desenvolvimentismo” pertence à mesma família de termos como
“ortodoxia”, “neoliberalismo” e “keynesianismo”, os quais servem para
designar alternativamente duas coisas por certo indissociáveis, mas
que não são exatamente o mesmo nem do ponto de vista epistemoló
gico nem, tampouco, na prática cotidiana: (a) um fenômeno do “mun
do material”, ou seja, um conjunto de práticas de “política econômica”5
propostas e/ou executadas pelos policymakers, ou seja, fatos concretos ou
medidas “reais” que compartilham um núcleo comum de atributos que
os caracteriza como tal; e (b) um fenômeno do “mundo do pensamento”,
ou seja, um conjunto de ideias que se propõe a expressar teorias, concep
ções ou visões de mundo. Essas podem ser expressas (I) seja como “dis
curso político”, por aqueles que as defendem ou as criticam (e que mais
usualmente se denomina ideologia – outro termo polissêmico); ou (II)
seja para designar uma “escola” ou “corrente de pensamento”, ao abranger
teorias e estudos segundo cânones reconhecidos como saber científi co.
Embora a ideologia e as experiências históricas desenvolvimentistas te
nham uma longa história, cuja gênese remonta a meados do século XIX,
foi a partir da Grande Depressão da década de 1930 que tomaram vulto
em boa parte dos países latino-americanos, destacadamente Argentina, -Filho, 2007), Belluzzo (2009); Novy (2009a, 2009b), Fonseca e Cunha (2010), Morais
e Saad-Filho (2011), Erber (2011), Herrlein Jr. (2011), Carneiro (2012), Bastos (2012),
Gonçalves (2012), Bielschowsky (2012), Araújo e Gala (2012), Oreiro (2012), Mollo e
Fonseca (2013) e Paulani (2013).
5 A expressão “política econômica”, talvez por infl uência dos manuais de macroeconomia,
vem sendo utilizada em um sentido mais restrito para designar as políticas de estabiliza
ção, estas compreendidas como as políticas monetárias, cambiais e fi scais. Aqui, todavia,
será utilizada latu sensu para abarcar toda ação do Estado que interfi ra ou se proponha a
interferir nas variáveis econômicas. Assim, a política econômica abrange (a) as “políticas--meio”, já referidas, as quais constituem instrumentos manipulados pelo policymakers com
vistas à estabilidade macroeconômica; (b) as “políticas-fi ns”, formuladas ou implantadas
para atingir objetivos conscientemente visados em áreas específi cas, como as políticas in
dustrial, agrária, tecnológica e educacional (quando vinculadas a objetivos econômicos);
e (c) as “políticas institucionais”, as quais compreendem mudanças legais, nos códigos e
nas regulamentações, nas “regras do jogo”, na delimitação dos direitos de propriedade, nos
hábitos, preferências e convenções, bem como na criação de órgãos, agências e empresas
públicas, ou mesmo privadas ou não governamentais, desde que dependam de decisões
estatais. Normalmente se espera que as primeiras impactem a curto prazo, enquanto as
políticas-fi ns e institucionais, e principalmente as últimas, por sua natureza, geralmen
te apresentem resultados a médio e longo prazos, muitas vezes alterando rotas históricas
(associando-se a fenômenos como enforcement e path dependence).
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Brasil, Chile e México, mas também Colômbia, Peru, Uruguai e Vene
zuela, para mencionar os casos mais típicos. Já o pensamento econômi
co teórico só se consolidou nas décadas de 1950 e 1960. Para tanto, foi
fundamental a criação da Comissão Econômica para a América Latina
e o Caribe (CEPAL) e sua capacidade para catalisar e difundir trabalhos
clássicos de nomes como R. Prebisch, C. Furtado, A. Pinto, O. Sunkel, M.
C. Tavares e E. J. Medina, dentre outros.
O propósito deste capítulo – formular um conceito para desenvol
vimentismo – enfrenta o desafi o de conciliar a precisão exigida pela
empreitada sem ignorar, como lembra Koselleck (2006, p. 109), que a
polissemia em si não é um defeito, antes o modo de ser dos conceitos, os
quais reúnem “em si a diversidade da experiência histórica assim como
a soma das características objetivas teóricas e práticas em uma única
circunstância, a qual só pode ser dada como tal e realmente experi
mentada por meio desse mesmo conceito”. Ou, como prefere expressar
Weyland (2001, p. 1), por certo sob a infl uência do pragmatismo me
todológico, se a falta de acordo conceitual pode levar a um “diálogo de
surdos”, por outro lado se os termos são usados é porque são úteis, já
que tanto os economistas quanto o público, como é o caso de “desenvol
vimentismo”, continuam a utilizá-los, depreendendo-se que não con
seguem prescindir deles. Pode-se acrescentar: mais do que úteis, são
necessários, porquanto são instrumentos indispensáveis para nomear
fatos ou fenômenos considerados relevantes por seus usuários – e
principalmente na comunidade acadêmica, a qual cultiva a precisão e
o rigor como virtudes inerentes ao imaginário que faz de si mesma, as
quais colaboram para legitimá-la socialmente.
2. Uma nota metodológica
Como passo inicial da tentativa de conceituar “desenvolvimentis
mo”, registra-se que o termo é geralmente utilizado para designar um
fenômeno relativamente delimitado no tempo – século XX –, embora
espacialmente mais diversifi cado, posto que governos desenvolvimen
tistas são apontados pela literatura em praticamente todos os conti
nentes, conquanto com predominância em países latino-americanos e
asiáticos. Este capítulo, a despeito de alicerçar-se em bibliografi a mais
ampla, terá como referência a experiência latino-americana.
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A forma bastante usual de construir conceitos nas ciências humanas
é através da elaboração de tipos ideais, seguindo a tradição weberiana.
Nesta, como é sabido, cada categoria é defi nida através de um conjunto
de atributos ao qual se chega a partir de um exercício da razão, sem se
esperar, na realidade fática, que se encontrem todos os atributos nas di
ferentes situações concretas ou casos. Os conceitos, então, são constru
tos mentais e a aproximação entre eles e o real é sempre probabilística.
Esse procedimento de construir tipo ideal, como se mostrará adian
te, foi utilizado por vários autores para conceituar não propriamente
desenvolvimentismo, mas “Estado desenvolvimentista”, ou o que Medi
na (apud Rodríguez, 2009, p. 236) denominou “mecanismo essencial”
voltado à superação do subdesenvolvimento. Logo, o conceito foi uti
lizado indiretamente para designar um conjunto de atributos caracte
rizadores, em termos ideais, da política econômica de determinados
governos empenhados na superação do subdesenvolvimento. Retor
nando à dupla acepção do uso do termo, antes mencionada, tais autores
enfatizam o “mundo material” ou “dos fatos” como ponto de partida
para a conceituação, opção metodológica que será também aqui segui
da. No entanto, com a diferença de não se pretender a construção de
um tipo ideal, mas recorrer em parte à estratégia defi nida por Sartori
como conceito “clássico” ou “por redefi nição”, a qual é apropriada para
análise comparativa de cases históricos que apresentam certos atributos
ou características comuns (Sartori, 1970, 1984). Por conseguinte, não
se pretende por ora nem formular um conceito para o desenvolvimen
tismo “desejável” ou “ideal” nem tampouco criticá-lo: embora esses
usos possam ser feitos em um segundo momento, inclusive utilizando
o conceito como ferramenta para tal, a metodologia aqui seguida tem
como ponto de partida construir o conceito partindo da observação de
seu(s) emprego(s) pela própria comunidade que o utiliza6.
6 Essa forma proposta por Sartori de partir do próprio emprego da comunidade não se
afasta, antes parece próxima, da concepção hegeliana/materialista de que o discurso e as
percepções sobre o real podem ser ponto de partida para a reconstrução do próprio real.
Neste referencial metateórico, como fi cará mais claro adiante, supõe-se que a existência
do conceito é parte da determinação do conceito, ou seja, ele é tão real como o que se
propõe a conceituar ou a representar.
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Os cientistas deparam-se no dia a dia com casos novos ou com par
ticularidades que exigem a incorporação de novos atributos. Se julga
rem seus termos teóricos como incapazes de apreendê-los, podem ser
levados a abandonar o conceito ou, se quiserem mantê-lo, sentir-se
tentados a alongá-lo. Na terminologia de Sartori, “viagem do concei
to” (traveling) refere-se a esse movimento para abranger casos novos
e “alongamento” (stretching) refere-se à distorção ocorrida quando se
quer adaptar um conceito para nele encaixar os casos novos. Daí de
corre um trade-off entre extensão e intensão dos conceitos7. A extensão
refere-se ao conjunto de entidades, elementos ou casos abrangidos pelo
conceito; é seu signifi cado denotativo, pois diz respeito a quais objetos
ou fenômenos o conceito é usado para nomear. Já a intensão refere-se
ao conjunto de propriedades ou atributos abarcados pelo conceito; diz
respeito ao seu signifi cado conotativo, a certas características comuns
que permitem objetos serem nomeados como tal.
Todos os casos abarcados na extensão de um conceito devem ter al
guns atributos comuns que permitem enquadrá-los como tal, enquanto
outros fi cam de fora. Existem, ainda, casos limítrofes, às vezes de difícil
decisão, para os quais a conceituação mais precisa auxilia. O pesquisa
dor defronta-se com uma “escada de generalidade”, pois o aumento da
extensão do conceito implica que o mesmo perca em intensão e vice--versa. Para os economistas, lembra uma curva de indiferença, como
mostra a Figura 1. Categorias mais específi cas, como no ponto X, pos
suem forte intensão, mas sua extensão é limitada. Para ampliar seu es
copo, caminha-se para cima ao longo da curva, ganhando em extensão,
mas com perda de intensão, como no ponto Y.
Um conceito muito extenso pode facilitar o pesquisador por permi
tir-lhe a inclusão de inúmeros casos, fatos ou coisas; entretanto, pode
ajudar pouco numa análise comparativa, pois ao abarcar inúmeros ca
sos com poucos atributos sua força explicativa diminui8.
7 Embora se possa também usar o termo “intensidade” em vez do termo “intensão” (in
tension), este último é o mais utilizado como tradução nos livros de Lógica (Copi, 1978).
8 Para fi ns de ilustração, pode-se exemplifi car no ponto Y o termo “institucionalismo”, cujo
conceito possui ampla extensão, capaz de abarcar inúmeras correntes que em seu interior
alimentam fortes controvérsias entre si, a ponto de não lograrem consenso na conceitua
ção do termo teórico que é sua mais preciosa ferramenta de análise: instituição. No caso,
18
Extensão
Y
X
Figura 1. Extensão versus intensão
Intensão
Para melhor clarear a metodologia escolhida e suas razões, pode-se
inicialmente, de forma sintética, esclarecer as três estratégias alternativas
apontadas por Sartori (1970, 1984), as quais são ilustradas na Figura 2,
semelhante à elaborada por Weyland (2001). A primeira, “conceito por
acumulação”, parte de diferentes domínios, através da pesquisa sobre os
diversos atributos caracterizadores do termo e busca identifi car um nú
cleo comum ou core segundo a lógica aditiva da intersecção, através do
conetivo lógico (Λ). Esse procedimento possui a vantagem de minimi
zar falsos positivos, pois apenas casos em que todas as características ou
atributos estão presentes são considerados. O fato de ter pouca extensão,
embora rico em intensão, pode levar a uma intersecção muito estreita,
deixando pouco espaço para a pesquisa. A tendência, então, é o pesqui
sador começar a relaxar o conceito, geralmente criando categorias que
associam um adjetivo ao conceito principal – os “conceitos radiais”9.
pode-se falar de “vários institucionalismos”, o que caracteriza a baixa intensão do concei
to. Já “Nova Economia Institucional” poderia ser representada no ponto X: possui menor
extensão, pois compreende apenas um subtipo de institucionalismo, com atributos bem
determinados e capazes de identifi cá-lo plenamente, ou seja, com maior intensão.
9 Collier e Levitsky (1996) arrolam, por exemplo, dezenas de extensões para democra
cia como estratégia para utilização do conceito: “controlada”, “participativa”, “populista”,
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A segunda, denominada “conceito por adição”, conecta atributos de
diferentes domínios utilizando a lógica da inclusão através do conetivo
lógico “ou” (v). Assim, qualquer caso que apresente uma das caracte
rísticas pode, em tese, ser subsumido ou incluído no conceito. Indo ao
paroxismo, qualquer caso similar pode ser enquadrado, pois permite
incorporar “conceitos radiais” no conceito principal, relaxando o do
mínio para abranger novos casos. Os casos que compartilham todos os
atributos de diferentes domínios são considerados “casos completos”
e os que compreendem apenas algumas características são “subtipos
reduzidos” (diminished subtypes). O conceito ganha em extensão, mas
pode perder muito em intensão. Esse procedimento diminui os falsos
negativos, mas corre o risco de gerar um pseudoconsenso sobre o con
ceito, pois o mesmo pode adquirir vasto número de signifi cados.
Já a estratégia do “conceito clássico” ou “por redefi nição”, que será
aqui utilizada, também busca encontrar um núcleo comum ou core,
mas, ao contrário do conceito por acumulação, não se propõe chegar
a um núcleo que abranja todos os atributos, mas os principais. Estes
devem valer para todos os casos, mas sem a pretensão de abarcar casos
singulares ou específi cos, os quais são incorporados ao adicionarem-se
novos atributos, como ilustra a Figura 2, mas mantendo-se o “núcleo
comum principal” ou core (de ora em diante apenas “núcleo comum”).
Assim, apresenta a vantagem de reconhecer a ocorrência de casos em
píricos com características próprias, ou experiências históricas peculia
res; todavia, ao trilhar outra opção metodológica, busca encontrar defi
nições mínimas através dos atributos mais frequentes e característicos,
de modo que o conceito alcance certo equilíbrio entre extensão e inten
são. Isso pode ser feito através de pesquisa na literatura sobre os usos do
conceito e nas experiências históricas que também a literatura consagra
como exemplos ou cases seus. Destarte, evita-se abandonar o conceito
“formal”, “tutelada”, etc. Para desenvolvimentismo não há tantas, mas podem-se mencio
nar duas subdivisões clássicas: “nacional-desenvolvimentismo” e “desenvolvimentismo
dependente-associado”, conquanto esses não possam ser considerados propriamente
conceitos radiais, como se mostrará adiante. Vale lembrar também a noção de estilos
de desenvolvimento introduzida por Varsavsky (1971), que identifi ca três estilos de de
senvolvimento: o consumista, o autoritário e o criativo, posteriormente retomados por
Aníbal Pinto (1976). Para uma síntese abalizada do debate, ver Rodríguez (2009).
20
ou ampliá-lo demasiadamente em extensão com conceitos radiais, mas
admitem-se subtipos que compartilham um núcleo comum, o qual
abarca todos os atributos tidos como defi nidores, todavia sem deixar
de reconhecer que possam existir outros atributos importantes para ca
sos particulares. Nas palavras de Weyland:
By contrast, classical concepts minimize border confl icts by
relying on minimal defi nitions that focus on one domain
and stipulate as few defi nitional characteristics as possible.
Classical concepts are also likely to have an extension of
reasonable size (a number of empirical referents) because
they do not demand the simultaneous presence of attributes
from diff erent domains, which way have little overlap. [...]
Th ey thus prompt scholars to investigate empirically the
connections between defi nitional characteristics and other
hypothesized attributes, rather than decree them by defi ni
tional fi at, as cumulative concepts do, or leave them open, as
radial concepts do. (Weyland, 2001, p. 3).
Conceito Cumulativo
Conceito Radial
(A B C)
(AVBVC)
Figura 2. Estratégias de conceituação
Conceito Clássico
(A)
O desafi o da construção do conceito clássico ou por redefi nição é
identifi car esse núcleo comum. Como passo metodológico necessário,
cabe começar pela investigação sobre as acepções com que é usado, em
quais sentidos é empregado, ou seja, o que dá razão a sua existência e o
torna útil e necessário. Não se trata de buscar os atributos “desejáveis”
para desenvolvimentismo, ou defi nir qual seria hoje uma política eco
nômica desenvolvimentista “ideal” – tarefa já realizada por inúmeros
autores e que, por certo, exige reatualização permanente. O procedi
mento aqui adotado será o de se valer tanto do uso feito do termo por
21
autores reconhecidos como das experiências históricas normalmente
apontadas como exemplos de desenvolvimentismo.
Assim, a metodologia empregada será de inicialmente pesquisar os
atributos utilizados por diversos autores que expressaram seu entendi
mento sobre o que seja desenvolvimentismo, em busca de um núcleo
comum, e com isso identifi car se há um domínio que concentre atribu
tos mínimos principais. Como passo seguinte, entendeu-se que daria
mais rigor à formulação conceitual caso se procedesse um teste de tais
atributos em algumas experiências históricas normalmente arroladas
pela bibliografi a como exemplos de desenvolvimentismo (como se fos
se um “grupo de controle”). A inquietude vem da dúvida expressa na
questão: será que os governos latino-americanos comumente citados
pela literatura como exemplos de desenvolvimentismo apresentam, to
tal ou parcialmente, os atributos arrolados pelos autores anteriormente
pesquisados em suas conceituações? Esse exercício adicional facilita e
dá mais segurança para, em passo posterior, chegar-se à abstração ine
rente a qualquer exercício de conceituação. Possui, ademais, a vantagem
de superar a multiplicidade caótica da empiria sem, todavia, cair em uma
defi nição axiomática exclusiva, unívoca e fechada a ela. Destarte, abre
espaço à viagem de ida e volta do conceito à multiplicidade do real, sem
reduzir a complexidade do objeto a ser conceituado. Por isso, como se
verá adiante, permitirá a agregação de subtipos que não negam o núcleo
do conceito, mas o afi rmam concretamente em um contexto histórico
por certo complexo e diversifi cado, síntese de múltiplas determinações.
Antes de tipo ideal, por conseguinte, o conceito de desenvolvimentismo
a ser formulado tem como ponto de partida o uso feito dele, portanto o(s)
signifi cado(s) que a comunidade que o utiliza e lhe dá vida quer através
dele designar e, de outro lado, a sua dimensão histórica – posto que seja
um fenômeno histórico o que ele pretende expressar por seus atributos,
além de ele mesmo ser uma construção histórica.
3. Desenvolvimentismo e Estado desenvolvimentista
Já foi mencionado que o termo “desenvolvimentismo” aparece na
literatura tanto para referir-se a um fenômeno da esfera do pensamento
(ideologia ou teorias) quanto para nomear práticas históricas de polí
22
tica econômica, estas geralmente associadas a “Estado desenvolvimen
tista”. Essa duplicidade será importante para construção do conceito e
nesta seção vem à liça no relato sobre o uso do termo por autores que se
preocuparam com sua conceituação ou defi nição de atributos.
Schneider (Woo-Cumings, 1999, p. 38-39) relata ter encontrado a
primeira referência de “Estado desenvolvimentista” em Cardoso e Fa
letto (1970), a qual, portanto, teria ocorrido ao fi nal da década de 1960/
início da década de 1970. Todavia, a caracterização de Estado desenvol
vimentista já aparecera antes no Brasil – e possivelmente em outros paí
ses da América Latina –, como no livro “Desenvolvimento Econômico e
Desenvolvimento Político”, de Hélio Jaguaribe, em 1962. Bresser-Pereira
(1964, p. 16), por sua vez, já falava no “choque do desenvolvimentismo
intervencionista contra o liberalismo econômico” e, em livro posterior,
afi rmava: “por desenvolvimentismo entendemos uma ideologia que co
loque como principal objetivo o desenvolvimento econômico” (Bresser--Pereira, 1968, p. 206). O próprio Cardoso (1971) já usara a expressão
“ideologia nacional-desenvolvimentista” na obra “Política e Desenvolvi
mento em Sociedades Dependentes”, redigida em Paris “entre outubro
de 1967 e março de 1968”. E, pelo que se depreende da ironia a seguir de
Paulo Sá, em artigo crítico à “Formação Econômica do Brasil”, de Furta
do, logo após o lançamento do livro, na Revista “Síntese Política, Econô
mica e Social” (n. 3, jul./set.1959), o termo já desfrutava de largo uso na
década de 1950 no Brasil, e não só na academia:
Quem não for economista, quem não falar em ‘conjuntu
ras’, em ‘renda per capita’, em ‘investimentos’, em ‘demanda
e oferta’, em ‘metas’ e ‘operações’, em ‘desenvolvimentismo’
e ‘produtividade’, quem não for capaz de dizer, em gíria
economista, barbaridades austeras, é tão insignifi cante
como o eram, no século passado, os que não tinham ‘as
sassinado’ pelo menos um soneto. (Sá apud Furtado, 2009,
p. 361, grifos meus).
Embora a referência à “ideologia desenvolvimentista” já conste
em Furtado (1961, p. 216) no início da década de 1960, o termo “de
senvolvimentismo” praticamente não aparece em sua obra, assim como
na de Prebisch. Em carta a Riccardo Campa, datada de 22 de junho de
1970, Furtado esclarece suas razões:
23
O ‘desenvolvimentismo’ é uma forma de conservadoris
mo, pois parte da premissa de que as estruturas econômi
cas e sociais que se formaram na Europa a partir da Re
volução Industrial e que estão indissoluvelmente ligadas
ao capitalismo podem ser transplantadas para a América
Latina. Se não se considera o estruturalismo10, a classifi
cação que me parece corresponder ao meu pensamento é
a de “nacionalismo reformista”, embora meu reformismo
esteja ligado à ideia de sociedade aberta e que meu ponto
de vista seja de que a sociedade brasileira jamais foi aberta
em seu setor rural. Esse ponto de vista o expus em minha
‘Pré-revolução brasileira’. (Furtado, 1961).
Assim, embora pouco utilizado pelos teóricos precursores do desen
volvimentismo cepalino, o termo teve seu uso difundido na década de
1970, principalmente por aqueles que se dedicaram ao seu estudo, para
os quais passou a designar o objeto de pesquisa. Indo a esses analistas,
menciona-se inicialmente Bielschowsky (1988), a quem se deve a formu
lação mais precisa do conceito de desenvolvimentismo como ideologia:
Entendemos por desenvolvimentismo, neste trabalho, a
ideologia de transformação da sociedade brasileira defi nida
pelo projeto econômico que se compõe dos seguintes pon
tos fundamentais: (a) a industrialização integral é a via de
10 Na mesma carta, Furtado explica sua concepção sobre o que seja o estruturalismo lati
no-americano: “A classifi cação que o senhor faz do pensamento político latino-america
no contemporâneo me parece europeia demais, quer dizer, é um esforço para identifi car
afi nidades com as escolas de pensamento deste continente. Parece-me importante que se
considere à parte o “estruturalismo” latino-americano, que é uma escola de pensamento
que tem grande afi nidade com o marxismo, do ponto de vista da análise, mas não aceita
a teoria cataclísmica da história de Marx. O estruturalismo tanto pode ser reformis
ta quanto revolucionário, em função do contexto histórico. No capítulo fi nal de meu
‘Dialética do desenvolvimento’, tentei demonstrar como no Nordeste brasileiro a solução
revolucionária parecia um imperativo do próprio processo histórico”. Na mesma direção,
segundo depoimento de Rosa Freire d’Aguiar, viúva de Celso Furtado, em 04/07/2013:
“Na verdade Celso sempre preferia o termo ‘desenvolvimento’ a ‘desenvolvimentismo’.
Não me lembro de vê-lo falar ou escrever (e eu lia tudo o que ele escrevia) sobre ‘desen
volvimentismo’, senão com uma leve distância, e fi cou-me a impressão de que para ele
‘desenvolvimentismo’ era um termo que nos anos 50 acabou como sinônimo da corrente
isebiana, que ele estava longe de apreciar in totum”.
24
superação da pobreza e do subdesenvolvimento brasileiro;
(b) não há meios de alcançar uma industrialização efi ciente
e racional através da espontaneidade das forças de mercado,
e por isso, é necessário que o Estado a planeje; (c) o plane
jamento deve defi nir a expansão desejada dos setores eco
nômicos e os instrumentos de promoção dessa expansão: e
(d) o estado deve ordenar também a execução da expansão,
captando e orientando recursos fi nanceiros e promovendo
investimentos diretos naqueles setores em que a iniciativa
privada for insufi ciente. (Bielschowsky, 1988, p. 7).
A opção por conceituar partindo da ideologia por certo decorre de
seu objeto de pesquisa, qual seja, o pensamento econômico brasileiro
do período; o próprio título do trabalho refere-se a “ciclo ideológico
do desenvolvimentismo”, delimitado entre 1930 e 1964. Sem embargo,
ao prosseguir arrola os atributos que devem ser associados ao projeto
que se materializará em políticas de intervenção capitaneadas pelo Es
tado. O autor, todavia, reconhece a inexistência de um pensamento de
senvolvimentista único e, por isso, estabeleceu uma tipologia criando
conceitos radiais para captar a diversidade dentro do mesmo conceito:
(a) desenvolvimentismo do setor privado; (b) desenvolvimentismo do
setor público não nacionalista; (c) desenvolvimentismo do setor pú
blico nacionalista. Lembra, ainda, os socialistas, “que eram em certo
sentido ‘desenvolvimentistas’, porque defendiam a industrialização e a
intervenção estatal” (Bielschowsky, 1988, p. 40)11. Todavia, é sintomáti
co o autor ter excluído essa corrente das três abrangidas pelo conceito,
11 Jaguaribe (1972) elabora outra tipologia, na qual inclui países como Rússia e China como
“socialismo desenvolvimentista”. A elaboração de Bielschowsky (1988), todavia, parece
mais apropriada, pois não requer ampliar tanto a extensão do conceito no afã de incluir
os países socialistas. Cabe, ainda, ressaltar que Bielschowsky referia-se a correntes de pen
samento econômico, e sem dúvida havia intelectuais latino-americanos na época simpati
zantes ao mesmo tempo do desenvolvimentismo e do socialismo (embora não fosse con
senso entre os marxistas essa aproximação). Já para abarcar experiências históricas, como
é o enfoque de Jaguaribe, a extensão do conceito é mais problemática, pois na América
Latina não se encontra experiência que possa ser tipifi cada como tal. O possível caso seria
o de Cuba, mas que difere tanto do que a literatura normalmente entende por desenvolvi
mentismo que resulta inapropriado enquadrá-lo como tal: além de perder sua particulari
dade, cabe lembrar não só a literatura, pois nem mesmo o governo cubano se autointitula
“desenvolvimentista”; a preferência nítida é pelo adjetivo “socialista”.
25
deixando subentendido que este se referia a uma ideologia em defesa de
um projeto dentro dos marcos de uma sociedade capitalista.
Schneider (Woo-Cumings, 1999, p. 282), partindo da experiência
histórica do Brasil e do México, também conceitua o desenvolvimentis
mo como ideologia, ou como visão de mundo para a qual a industriali
zação é o objetivo maior e cabe ao Estado a tarefa de promovê-la. Para
tanto, o Estado desenvolvimentista se caracteriza por: (a) capitalismo
político, já que investimentos e lucros dependem de decisões estatais;
(b) discurso na defesa do desenvolvimento e da necessidade do Estado
para promovê-lo; (c) exclusão política da maioria da população adulta;
e (d) burocracia fl uida e fracamente institucionalizada.
Vejam-se a seguir, em ordem cronológica, outros trabalhos cujos
autores centram-se menos na conceituação do desenvolvimentismo
como ideologia e mais na defi nição do que denominam “Estado de
senvolvimentista” e a política econômica a ele associada, sem, todavia,
deixarem de admitir que uma ideologia também se fez presente para
nortear e justifi car as medidas tomadas pelos governantes.
Medina (Gurrieri, 1980; Rodríguez, 2009, p. 237), em trabalho pio
neiro, considera que três aspectos se sobressaem para desencadear e dar
continuidade a políticas desenvolvimentistas: (a) atores, grupos sociais
e organizações que os representam, como empresários, intelectuais, bu
rocracia estatal, elite política, operários e classes médias, dentre outros;
(b) adoção por parte deles de comportamento ou conduta voltados à
racionalidade e à visão de mundo (“ideário do desenvolvimento”) re
queridas pelo processo de mudança; e (c) a articulação para se expres
sarem por meio do Estado, ou seja, com força política para canaliza
rem seus anseios e os verem materializados como política econômica,
expressando-os como se fossem do conjunto da Nação.
Johnson (1982 apud Woo-Cumings, 1999) por sua vez, a partir da
experiência histórica japonesa no Pós-guerra – a qual percebeu como
diferente tanto dos modelos dos Estados Unidos e do Reino Unido,
mais liberais, e da União Soviética, de planejamento centralizado –
adotou o termo “estado desenvolvimentista” para caracterizá-la, abrin
do espaço para consagrar o uso da expressão. Segundo ele, o Estado
desenvolvimentista se caracteriza por (a) intervenção estatal através de
políticas conscientes e consistentes que consagram o desenvolvimento
econômico como primeira prioridade; (b) existência de uma burocra
26
cia estatal voltada a escolher os setores a serem priorizados e a execução
dos programas de estímulo, com margem de atuação assegurada pelo
sistema político; (c) criação de instituições fi nanceiras e outras volta
das a viabilizar incentivos, como fi scais e orçamentários; (d) criação de
agência (como o MITI – Ministery of International Trade and Industry
do Japão) para planejar e implantar as políticas voltadas a incrementar
a industrialização acelerada (apud Woo-Cumings, 1999, p. 38-39).
Já Wade (1990) elabora uma tipologia com vistas às tarefas ideais
atinentes ao Estado desenvolvimentista. Essas preenchem três níveis
de profundidade, em ordem crescente: (a) o nível da observação, com
a combinação de investimentos produtivos, responsáveis pela trans
ferência de tecnologia para a produção, investimentos em indústrias--chave e regulação da competição internacional; (b) o nível causal,
onde se encontram a acumulação de capital em setores estratégicos e
os mecanismos que serão utilizados para fomentá-la; e (c) o nível da
explicação, onde aparecem as características mais típicas do estado de
senvolvimentista, como seu caráter corporativo e capacidade de orien
tar o mercado. Herrlein Jr. (2012), em tentativa de síntese da visão de
Wade, assinala que, para o autor, os atributos caracterizadores do Es
tado desenvolvimentista são os seguintes: (a) formulação e legitimação
da estratégia de desenvolvimento produtivo e do projeto nacional; (b)
promoção da acumulação de capital no território nacional, com se
letividade setorial e tecnologias de ponta, visando a maior agregação
de valor no país; (c) fomento à formação de empresas competitivas no
mercado mundial; (d) promoção do progresso científi co e tecnológico
vinculado à produção do país e sob controle nacional; (e) regulação do
comércio exterior e das relações fi nanceiras externas; e (f) promoção
da estabilidade macroeconômica em sentido amplo (moeda e preços,
juros, câmbio, contas públicas e contas externas).
Evans (1992), por sua vez, inicialmente estabelece uma tipologia na
qual contrasta como extremos os estados predatórios (cujo exemplo
é Zaire) e os desenvolvimentistas (Japão, Coreia e Taiwan), admitin
do que entre os dois tipos ideais aparecem casos intermediários (Bra
sil e Índia), historicamente bem-sucedidos em implantar o projeto de
industrialização, mas não em promover estruturas mais efi cientes de
gestão pública. O Estado desenvolvimentista caracteriza-se por (a) im
pulso à industrialização através de política intervencionista deliberada;
27
(b) burocracia forte e meritocrática, com força para implantar a estraté
gia de mudanças; e (c) canais institucionalizados para negociar metas e
políticas com atores privados e segmentos sociais (dos quais as políticas
dependem para ser implantadas), canais estes que conferem ao Estado
ao mesmo tempo autonomia e inserção na sociedade, fenômeno deno
minado pelo autor de “autonomia inserida” (embedded autonomy).
Já Chang (apud Woo-Cumings, 1999) defende que o Estado desen
volvimentista deve cumprir quatro funções especiais: (a) coordenação,
principalmente das ações dos agentes privados, como para viabilizar fi
nanciamento e realizar investimentos; (b) visão de futuro, ou estratégia
de desenvolvimento nacional, a qual envolve atores, segmentos e classes
que se fazem representar no Estado para direcioná-lo nesse sentido; (c)
construção de instituições voltadas a fomentar um ambiente propício
ao desenvolvimento e a sua continuidade (“veículos institucionais”); e
(d) administração de confl itos, já que o processo de desenvolvimen
to é inerentemente confl ituoso, pois envolve ganhadores e perdedores,
mesmo que seus fi ns sejam sempre considerados desejáveis.
Amsden (2001, cap. 6), por sua vez, assinala que dois princípios nor
teiam o desenvolvimentismo: tornar as indústrias lucrativas para atrair
capitais privados e induzir as empresas a compartilharem seus lucros
com parte da população (é o único autor a mencionar algo como redistri
buição de renda ao referir-se a Estado desenvolvimentista; Bielschowsky
também o faz, mas no campo da ideologia). Enumera, ainda, quatro fun
ções inerentes ao Estado desenvolvimentista: (a) criação de bancos de de
senvolvimento; (b) administração de conteúdo local; (c) “exclusão sele
tiva”, ou seja, abertura de mercados para alguns setores mantendo outros
fechados; e (d) formação de empresas nacionais, função frisada ao longo
de sua obra. Nota-se que todas essas funções dizem respeito ao interven
cionismo estatal como fator fundamental para a industrialização, pois o
desenvolvimentismo é a estratégia seguida pelos países “do resto” (como
a autora denomina os “não desenvolvidos”) que despontaram com cres
cimento acelerado na segunda metade do século XX.
Finalmente, Bresser-Pereira (2006, 2010), com olhos mais voltados às
experiências latino-americanas do século XX, menciona explicitamen
te o termo “desenvolvimentismo” (às vezes, alternativamente, nacional
desenvolvimentismo ou “antigo desenvolvimentismo”), o qual defi ne
como uma estratégia deliberada de política econômica para promover
28
o desenvolvimento econômico através do impulso à indústria nacional.
Como características dessa política econômica são arroladas: (a) o nacio
nalismo como ideologia, uma vez que a estratégia signifi ca a afi rmação
do Estado nacional e de suas instituições; (b) aglutinação em sua defesa
de segmentos sociais, como empresários, trabalhadores, classes médias e
burocracia estatal, esta última recrutada por critérios meritocráticos; (c)
industrialização orientada pelo Estado através da substituição de impor
tações, que lançava mão de instrumentos como poupança forçada para
realizar investimentos e de política industrial, muitas vezes com caráter
protecionista; e (d) ambiguidade em relação aos défi cits públicos e em
conta corrente, bem como complacência em relação à infl ação.
Da literatura consultada, constata-se que, apesar de os autores terem
partido de diferentes approaches teóricos e fundamentarem suas aná
lises em base empírica de variadas experiências históricas, há variáveis
comuns ou com alta frequência em seus trabalhos, sugerindo a conver
gência para um possível “núcleo comum principal” ou core do conceito,
como mostra a Figura 3. Estas são:
(a) a existência de um projeto deliberado ou estratégia tendo como
objeto a Nação e seu futuro. Essa pode ser associada, com certa licencio
sidade, a projeto nacional, desde que não se entenda, por isso, repulsa
ao capital estrangeiro nem rompimento com a ordem internacional,
mas simplesmente a Nação como epicentro e destinatária do projeto;
(b) a intervenção consciente e determinada do Estado com o pro
pósito de viabilizar o projeto, o que supõe atores aptos e capazes para
executá-lo no aparelho do Estado, com respaldo social e político de
segmentos e classes no conjunto da sociedade;
(c) a industrialização, como caminho para acelerar o crescimento
econômico, a produtividade e a difusão do progresso técnico, inclusive
para o setor primário.
29
Projeto Nacional
Industrialização
Intervencionismo
ATRIBUTOS SUPOSTOS: intencionalidade; capitalismo.
Figura 3. Desenvolvimentismo: núcleo comum principal
Deve-se assinalar que todos os autores concebem o desenvolvimen
tismo como fenômeno circunscrito a economias capitalistas e vários
deles salientam que os governos precisaram constituir base social e
política para executar o projeto, embora tais segmentos variem de um
autor para outro. O ponto comum é que o projeto sempre passa por
aumento da produção e da produtividade (o qual, às vezes, é tratado
eufemisticamente como modernização), trazendo-o à centralidade da
formulação da política econômica, no que se afasta da ortodoxia, cuja
prioridade, via de regra, é a estabilização. Percebe-se, ainda, que uma
variável contextual perpassa ou está subentendida em todas elas, e por
isso será explorada com mais acuidade na seção a seguir: a consciência
ou ato deliberado de alterar o status quo12.
12 O núcleo comum vai ao encontro da proposição de trabalho anterior (Fonseca, 2004)
segundo a qual para a formação histórica do desenvolvimentismo no Brasil contribu
íram, em sua gênese, quatro correntes que vinham se desenvolvendo separadamente,
mas que se amalgamaram para a formação do pensamento e na formulação da política
econômica do desenvolvimentismo: o positivismo, o nacionalismo, o intervencionismo
econômico e a defesa da industrialização. O artigo mostra que os positivistas, por exem
plo, não necessariamente defendiam a industrialização ou poderiam ser considerados
“nacionalistas”, da mesma forma que havia pensadores com forte cunho nacionalista
30
Finalmente, faz-se mister arrolar outros atributos também menciona
dos, embora com menor frequência, mas que às vezes receberam ênfase
por parte de seus formuladores: (a) burocracia ou grupo técnico recru
tado por mérito para formular e/ou executar o projeto; (b) planejamento
econômico; (c) redistribuição de renda; (d) reforma agrária; e (e) banco
de desenvolvimento ou instituição de fomento. Alguns deles remetem aos
segmentos ou classes sociais de sustentação do projeto, como os empre
sários industriais, a burocracia e os trabalhadores. Com relação a outros
atributos, como redistribuição de renda, a maior parte dos autores nem
menciona, enquanto outros o fazem em posição oposta: Bielschowsky e
Amsden, como já se mencionou, associam desenvolvimentismo à pro
posta de renda mais igualmente distribuída, enquanto Schneider e Evans
sinalizam em sentido oposto. Da mesma forma, Wade e Chang mencio
nam a estabilidade como um dos atributos do estado desenvolvimentista,
enquanto Bresser-Pereira, ao contrário, frisa a indisciplina fi scal e mone
tária das experiências históricas latino-americanas. Em decorrência, es
ses atributos não integram o núcleo comum do conceito, embora possam
ser importantes para caracterizar casos específi cos ou subtipos.
4. Desenvolvimentismo e consciência do subdesenvolvimento
Como termo cognato, desenvolvimentismo remete a desenvolvi
mento. Este último, todavia, apareceu muito antes do primeiro. Já na
primeira escola econômica, a Fisiocracia francesa, a pretensão do “Ta
bleau Economique”, de Quesnay, não se restringia a mostrar como a
defensores da vocação agrária do país e contrários à industrialização. Em vários países
latino-americanos, houve já no século XIX críticos ao liberalismo econômico e defenso
res do intervencionismo estatal, não para fomentar a industrialização, mas para proteger
o setor agrário. As três últimas correntes virão a integrar o núcleo comum do conceito
de desenvolvimentismo, como atributos mínimos sugeridos pela estratégia de constru
ção de conceitos clássicos. Já o positivismo foi superado historicamente como ideologia
política (embora não como metodologia), mas sua contribuição à gênese deve-se a um
atributo que necessariamente também integra o núcleo comum: a consciência da neces
sidade da mudança para um estágio superior ou desejável, a qual exigiria e justifi caria
ações e medidas voltadas para alcançar determinado fi m – a práxis. Os autores aqui ana
lisados unanimemente convergem neste aspecto, como se mostrará adiante.
31
riqueza circulava, mas como crescia a partir do excedente criado pela
produção primária. O processo de produção como criação de riqueza
fi rmou-se a partir de A. Smith, e a ele se associou, em meados do século
XIX, o termo desenvolvimento ou progresso econômico. Por este se
denotava o caráter progressivo do sistema econômico e buscava-se
entender as leis e tendências explicativas dos impulsos e barreiras a
sua expansão. Em certo apelo à lógica hegeliana, pode-se dizer que
desenvolvimento, para se afi rmar como categoria teórica, pressupunha
seu termo antitético: o não desenvolvimento, ou seja, a interrupção do
crescimento e as crises. A possível existência de leis inerentes ao auto
equilíbrio do sistema e seu oposto e as teorias de ciclo e crise perme
aram o debate econômico do século XIX. Nesse período não se falava
propriamente em desenvolvimentismo, na acepção tomada mais tar
de na América Latina. Nesta, seja como retórica governamental ou na
construção teórica do estruturalismo cepalino, a preocupação era, em
certo sentido, inversa: por que, em uma situação histórica específi ca,
as leis ou variáveis que impulsionavam o desenvolvimento dos “países
centrais” não se faziam presentes na América Latina, ou só ocorriam
de forma parcial, fragmentária ou problemática – o que resultava, por
exemplo, em baixas taxas de crescimento do produto e de formação
bruta de capital? A pergunta já subentendia uma visão crítica à univer
salidade da Ciência Econômica. O “não desenvolvimento”, então, não
mais se opunha antiteticamente apenas a crises cíclicas que conviviam
com uma lógica de expansão e de progressividade, mas à ausência, nos
países latino-americanos, deste caráter de progressividade, a sugerir
uma diferença marcante ou estrutural na ordem econômica internacio
nal. O “não desenvolvimento” passou inicialmente a ser visto como um
problema associado a “atraso”; mais tarde, na década de 1950, no pen
samento cepalino, como um fenômeno histórico e estrutural, o subde
senvolvimento. Coube a Furtado (1961), nesse processo de construção
conceitual, formular de forma mais acabada o subdesenvolvimento
como uma forma específi ca de desenvolvimento capitalista. Desenvol
vimentismo, numa primeira aproximação conceitual, é uma resposta
para superar o subdesenvolvimento.
Tal percepção do desenvolvimentismo como programa ou guia de
ação aparece em todos os autores analisados na seção anterior, embora
com diferentes terminologias (projeto, estratégia, racionalidade, fun
32
ções a desempenhar). Trata-se, portanto, de política econômica im
plantada deliberadamente, pois supõe ato volitivo, portador de cons
ciência e vontade para alterar certa situação existente e dar-lhe outro
rumo. Em vários países latino-americanos, tal consciência começou a se
formar já no século XIX, mormente em sua segunda metade. Sem pre
tensão de generalizar ou subestimar particularidades locais, observa-se
que as elites dirigentes ou econômicas, civis e militares, que emergiram
como protagonistas à frente dos estados nacionais nascentes após suas
independências políticas, com o fi m do antigo sistema colonial, gradu
almente começaram a perceber o vulto dos problemas com os quais se
defrontavam e as difi culdades para superá-los. A noção corriqueira de
“país jovem” – cujo imaginário acenava a um futuro promissor, mais
ou menos “natural” com o passar do tempo – servia para justifi car o
status quo e ao mesmo tempo já subentendia a necessidade de mudan
ça. De forma embrionária, admitia-se estar em uma “idade”, “fase”, ou
“etapa” anterior aos “países centrais” utilizados como modelo (basica
mente França e Inglaterra, posteriormente Estados Unidos). Embora
aparecessem propostas revolucionárias, às vezes materializadas, como
no México em 1910, o imaginário geralmente acenava para uma mu
dança “natural” ou gradual, compatível com a manutenção da ordem.
Não por acaso, o positivismo de Comte, cujo aparecimento se dera
na França pós-revolucionária visando a consolidar as conquistas bur
guesas, mas dando por encerrado o ciclo insurrecional e ao apregoar a
ordem como pré-requisito ao progresso, em oposição aos socialistas e
anarquistas, caiu como uma luva para as elites latino-americanas como
ideologia alternativa ao liberalismo – mesmo que, ao contrário deste,
quase nunca tenha sido hegemônico como ideologia das elites de um
estado nacional latino-americano. Todavia, sua infl uência é fato não
desprezível, o qual só razões históricas muito peculiares podem expli
car – posto ser o liberalismo a ideologia ofi cial dos países mais ricos
e infl uentes, bem como a referência cultural do mundo ocidental em
matéria de economia. Sob a infl uência do cientifi cismo e do evolucio
nismo, Comte, que teve como mestre o “socialista utópico” St. Simon,
entendia o laissez-faire como ultrapassado: a sociedade deveria ser go
vernada por regras científi cas, em uma república laica, que substituiria
o jogo partidário da política pela administração meritocrática e profi s
sional – a “ditadura científi ca”.
33
As recomendações de Comte (somadas a contribuições de outros
pensadores, como St. Simon, Stuart Mill e Spencer) foram adaptadas
por seus seguidores ao contexto latino-americano, com variantes de
país para país, às vezes com relativo afastamento das propostas origi
nais. Todavia, dentre as suas teses mais difundidas e inspiradoras para
a formação do desenvolvimentismo latino-americano em sua gênese,
podem-se ressaltar:
a) a história como um processo evolutivo, com etapas progressivas a
serem percorridas. Daí decorria a concepção de passado e de futuro
entrelaçados, ou seja, os problemas coevos passaram a ser percebi
dos como “atraso”, não eram fatalidade ou tampouco inalteráveis. O
futuro deveria ser construído e a evolução, embora gradual, poderia
ser acelerada. A aceleração do crescimento econômico e da produ
tividade será uma bandeira das mais caras dos governos desenvolvi
mentistas (Lautert, 2010);
b) o intervencionismo, porquanto caberia aos governantes a tarefa
de enfrentar as barreiras que se antepunham ao progresso. Daí a am
pliação da agenda do estado, ao qual se delegava papel ativo, muito
além de políticas anticíclicas em conjunturas de crise, mas de forma
mais abrangente e duradoura; na retórica comtiana, “quando hou
vesse necessidade social”;
c) a noção, decorrente das duas anteriores, de que a política deveria
preceder a economia, posto que a ação humana poderia (e deveria)
alterar o curso da história, além de acelerá-lo. Ao contrário do pa
radigma hegemônico, de cunho liberal, cujo programa de pesquisa
procurava descobrir leis inerentes ao mercado ou ao sistema eco
nômico na ausência de intervenção, aqui o mercado era entendido
como instituição e, como tal, regulado ou subordinado a decisões
prévias. Indo ao limite, o futuro desenvolvimentismo em suas expe
riências mais maduras defenderá o planejamento, isto é, um conjun
to consciente e racional de ações a ser implantado de forma concate
nada e acompanhada, com a explicitação de objetivos, metas, meios
e instrumentos para alcançá-los.
Observa-se, portanto, que, embora toda política econômica seja a ri
gor interventora, o intervencionismo do Estado desenvolvimentista não
é para reforçar os mecanismos de mercado, mas para propiciar mudanças
em direção a uma rota considerada desejável por seus formuladores e
34
executores. Não obstante, cabe aqui deixar claro que “projeto” ou “estra
tégia” para o país não signifi ca planejamento, e nas experiências históri
cas latino-americanas os primeiros antecedem o último. Já na década de
1930, vários governos latino-americanos começaram de forma delibera
da a incentivar a industrialização e a executar políticas econômicas que
evidenciam um projeto desenvolvimentista sem, todavia, existir ainda
planejamento, ou seja, um conjunto de ações resultante de um plano ou
documento a anteriori, que expressasse objetivos, estabelecesse crono
grama, quantifi casse metas e os meios e recursos para alcançá-las. Plane
jamento no sentido pleno da palavra só se verifi ca após a Segunda Guer
ra, e principalmente na década de 1950, com a importante contribuição
da CEPAL na formação de quadros para sua elaboração e execução.
Certa confusão nesse sentido levou muitos autores a denomi
narem a industrialização nas duas primeiras décadas após 1930 de
“fase espontânea” da substituição de importações, como se a mesma
fosse mera decorrência do “choque adverso” da Grande Depressão
(Rodríguez, 2009, p. 82; Lessa, 1982). Trata-se de evidente equívoco.
Mesmo na ausência de planejamento, o Estado fez-se presente em vá
rios países latino-americanos, em menor ou maior grau, com o afã de
imprimir novos rumos à economia, o que fi ca visível com a criação
de instituições, a centralização político-administrativa e a ampliação
do intervencionismo em vários países latino-americanos. Deve-se ter
presente que, se as políticas-meio às vezes não permitem que se de
tecte intencionalidade (a desvalorização cambial nas crises poderia
visar tão somente ao enfrentamento do desequilíbrio emergencial do
balanço de pagamentos, por exemplo), o mesmo não ocorre com as
políticas-fi ns e institucionais. Instituições não brotam espontanea
mente e, muitas vezes, exigem forte determinação política para serem
implantadas. Como explicar, por exemplo, a criação de órgãos, em
presas ou leis voltadas ao fi nanciamento industrial como atos des
providos de intenção? São os casos da Nacional Financiera (Nafi nsa),
no México, em 1934; da Corporação de Fomento à Produção (Corfo)
no Chile, em 1939; da Carteira de Crédito Agrícola e Industrial no
Banco do Brasil, em 1937, bem como a estatal Companhia Siderúr
gica Nacional, nesse país, em 1941; e do Instituto de Financiamento
Industrial (IFI), na Colômbia, em 1940, além da legislação trabalhista
nos maiores países latino-americanos nesse mesmo período.
35
Autores mesmo da tradição cepalina utilizaram a expressão “indus
trialização espontânea” para se referir ao aparecimento de indústrias
nas primeiras décadas do século XX. Para o período anterior à Gran
de Depressão, o adjetivo “espontâneo” parece mais adequado para a
maior parte dos países latino-americanos, quando ainda não se podia
associar o crescimento da indústria a um projeto deliberado, ou seja, a
desenvolvimentismo. Ademais, a utilização do termo industrialização
para se referir ao crescimento industrial desse período não é consen
sual (Mello, 1982; Tavares, 1986,). Autores como Prebisch e Furtado,
por outro lado, em alguns trabalhos associaram desenvolvimentismo à
consciência e à intencionalidade. Para Prebisch, por exemplo, política
de desenvolvimento signifi ca
[...] um esforço deliberado de atuar sobre as forças da econo
mia a fi m de acelerar seu crescimento, não pelo crescimento
mesmo, mas como meio de conseguir um melhoramento
persistente da renda nos grupos sociais de rendas inferiores
e médias e sua participação progressiva na distribuição da
renda global. (Prebisch, 1961, p. 35, grifos meus).
Prebisch (1961, p. 7) assevera que o desenvolvimento dos países pe
riféricos “está intimamente ligado ao curso das exportações”, cujo ritmo
“impõe limites ao desenvolvimento espontâneo da economia”, uma vez
que freia as importações necessárias ao crescimento. Da mesma forma,
Furtado recupera a ideia de progresso como precursora de desenvolvi
mento e a relaciona à consciência e à ação política:
Da mesma maneira que a ideia de progresso transformou-se
em alavanca ideológica para fomentar a consciência da inter
dependência em grupos e classes com interesses antagônicos,
nas sociedades em que a revolução burguesa destruíra as ba
ses tradicionais de legitimação de poder, a ideia de desenvol
vimento serviu para afi ançar a consciência de solidariedade
internacional do processo de difusão da civilização industrial
no quadro da dependência. (Furtado, 1978, p. 67).
Por conseguinte, ou não se pode associar a industrialização dos países
latino-americanos dessas primeiras décadas após a Grande Depressão a
desenvolvimentismo – e assume-se que a mesma foi decorrência “natu
36
ral” da conjuntura internacional e do mercado –, ou se admite a relevân
cia da política econômica (no sentido lato aqui empregado) para alavan
car a substituição de importações. “Desenvolvimentismo espontâneo” é
uma contradição em termos, como permite antever a própria categoria
“Estado desenvolvimentista” adotada pelos autores antes mencionados.
Destarte, positivismo e desenvolvimentismo são frutos (juntamente
com o marxismo) da grande mudança histórica identifi cada por Hegel
como o espírito da “Modernidade”, o qual se inaugura simbolicamente
na Revolução Francesa com a dessacralização do direito divino e a con
denação dos reis à guilhotina, ato que traz em si a pretensão de assun
ção dos cidadãos franceses a sujeitos da história (Furtado, 2000, p. 9).
Amplia-se a abrangência da ação política: a convicção de que se pode
“mudar o mundo” e que tal possibilidade “está em nossas mãos” pres
supõe dialeticamente a negação da Weltanschauung de conservação ou
de passividade, pois traz em seu gérmen o inconformismo e a potência
para a mudança, seja gradual e dirigida por uma elite esclarecida ou, de
forma mais radical, por via revolucionária. Na tradição hegeliano-mar
xista, o agir consciente orientado com vistas a um fi m (teleologia) aparece
como negação da alienação, e remete à noção de práxis. Já outra vertente
do pensamento alemão, a de Max Weber, também ilumina para que se
chegue à conclusão semelhante, pois desenvolvimentismo remete tipica
mente ao que este denomina ação social racional, a qual pode ser (a) refe
rente a fi ns, “ponderados e perseguidos racionalmente” (Zweckrational);
(b) referente a valores (Wertrational). Em ambos os casos, a ação social é
dita racional porque consciente e orientada por objetivos. No primeiro,
estes são mais instrumentais; no segundo, são guiados por convicções de
consciência, de dever ou uma “causa” de qualquer natureza. O próprio
Weber assegura que a coexistência de ambas, embora geralmente con
fl ituosa, é possível, posto que devem ser entendidas como tipos ideais,
pois “muito raramente a ação, e particularmente a ação social, orienta-se
exclusivamente de uma ou de outra maneiras” (Weber, 1999, p. 15-16).
É o que ocorre com o termo “desenvolvimentismo”. De um lado, o
termo remete a uma racionalidade imediata quanto a fi ns: crescimento
da produção e da produtividade. Tal faceta descortina seu caráter “téc
nico”, objeto de planejamento, quantifi cável em metas e taxas desejáveis
a serem buscadas conscientemente, através de meios tidos como mais
adequados – os instrumentos de política econômica. Por outro lado, os
37
valores se manifestam quando o desenvolvimentismo toma a forma de
ideologia de construir um novo mundo “melhor” ou “mais harmônico” – como aparece nas citações anteriores de Prebisch e nos “fi ns sempre
desejáveis” de Chang, mas principalmente no discurso político. A ele
associam-se valores cuja ênfase variou de país para país da América
Latina, e às vezes entre governos de um mesmo país, mas fundamental
mente a busca de uma sociedade mais “equilibrada”, com “harmonia”,
“justiça social”, “soberania nacional” e “equidade”. Nota-se então um
salto: o desenvolvimentismo passa a ser um guia de ação cuja ideologia
concebe o desenvolvimento não mais apenas como meio para atingir
um fi m, mas como fi m em si mesmo, pois incorpora em seu conceito
os próprios valores perseguidos. Na prática, o Estado desenvolvimen
tista típico tenderá a subordinar toda ação estatal a esse propósito, não
se restringindo à área econômica (políticas meio, fi ns e institucionais),
mas estendendo-a à educação, à cultura, à saúde pública, às leis sociais,
ao meio ambiente, etc. Daí o sufi xo “ismo” associado à fi gura hiper
bólica, a qual, adotada por seus críticos, assumiu conotação irônica: o
desenvolvimentismo remete ao exagero ou, no limite, à irracionalida
de, ao sobrepor o objetivo do desenvolvimento a outros também con
siderados legítimos ou até superiores em uma escala de valores. São os
casos, por exemplo, da estabilidade macroeconômica, para a ortodoxia
neoclássica, e da defesa do meio ambiente, para os ecologistas.
Inspirado em Weber, Furtado alerta para o confl ito entre a raciona
lidade instrumental e os valores, passível de ocasionar uma “gama de
ambiguidades”, pois embora haja valores maiores que abrem a porta
para um “vago utopismo”, como o crescimento econômico se apoia na
acumulação corre-se o risco de esta transformar-se em um fi m em si
mesmo e o “processo de criação de novas relações sociais transforma-se
em simples meio para alcançá-la” (Furtado, 1978, p. 39-49). Desprovido
de sua utopia, desenvolvimentismo signifi caria tão somente incentivo
à acumulação acelerada de capital. Esse entendimento pode ser perce
bido na frequente distinção entre “crescimento” e “desenvolvimento”:
o primeiro restringir-se-ia ao crescimento da produção e da produti
vidade, enquanto o segundo incorporaria suas repercussões, como a
melhoria dos indicadores sociais13. A distinção claramente incorpo
13 Na academia norte-americana, com a infl uência do Massachusetts Institute of Techno
logy – MIT, a partir de meados da década de 1950, os termos passaram a ser usados em
38
ra no segundo termo os valores, pois desenvolvimento não seria um
crescimento qualquer: embora o suponha, acrescenta a ele atributos
desejáveis. Em decorrência, o crescimento da produção e da produtivi
dade é condição necessária, mas não sufi ciente para alcançar o desen
volvimento. De outra forma, também aparece, em parte da literatura
marxista, crítica ao desenvolvimentismo, que o considera como ideo
logia justifi cadora da acumulação de capital, cuja retórica acena com
projeto de universalidade para legitimar-se com a promessa da inclusão
dos trabalhadores em seus frutos, ocultando o fato de, ao tratar-se de
um desenvolvimento capitalista, fundar-se na exploração do trabalho,
portanto incompatível com os valores desejáveis expressos na ideolo
gia. Nesse entendimento, haveria uma contradição irreconciliável entre
a racionalidade instrumental e a referente a valores14.
Se não há dúvida de que a “consciência do atraso” é fenômeno his
tórico bastante peculiar e sintomático das transformações pelas quais
passavam os países latino-americanos, e de que é inegável a contribui
ção do positivismo para a difusão de um ideário legitimador da inter
venção estatal ao associá-la a um fi m desejável – o progresso –, daí não
outro sentido. Os modelos de crescimento econômico referem-se aos trabalhos com maior
formalização do Departamento de Economia, seguindo à tradição aberta por Solow (1956),
enquanto o termo “desenvolvimento” passou a ser usado em trabalhos voltados a buscar
as razões das desigualdades entre países e sobre convergência/divergência de trajetórias de
longo prazo. Estes seguiam metodologia diferente, pois mais histórico-sociológicos e sem
preocupação com formalização, como os trabalhos de Rostow e Rosenstein-Rodan realiza
dos no Center for International Studies – CENIS (Boianovsky; Hoover, 2013).
14 Há, todavia, análises com approach marxista, como Paulani (apud Paula, 2005, 2013)
que elaboram uma leitura menos resistente ao desenvolvimentismo, principalmente em
comparação com o “capitalismo fi nanceirizado” e ao “rentismo” da fase que o sucedeu.
Neste aspecto, o contexto internacional ajuda a explicar a ampla difusão de governos
desenvolvimentistas na América Latina após 1930, assim como sua crise nas últimas
décadas do século XX. Não só o impacto da Grande Depressão favoreceu a oportunida
de de as economias voltarem-se “para dentro”, inclusive pela escassez de fi nanciamento
internacional, como pela possibilidade de crescimento industrial em uma onda tecno
lógica aos moldes fordistas. A crise deste estilo de crescimento, associada à hegemonia
fi nanceira e à forte internacionalização das economias a partir dos anos 70 do século
XX, são decisivas para explicar arrefecimento do desenvolvimentismo latino-americano
a partir de então, num mesmo quadro de crise do fordismo, do keynesianismo e do Wel
fare State. Para o desenvolvimentismo, sempre a acumulação se faz primordialmente na
esfera produtiva e não na fi nanceira.
39
se pode inferir que o mesmo se reduza a simples adoção ou adaptação
de suas teses à realidade desses países. A infl uência do positivismo sem
pre contou com versões criativas e instigou o debate intelectual e po
lítico em vários países15. No México, encontra-se possivelmente o pri
meiro divulgador mais infl uente na América Latina, Gabino Barreda,
cuja “Oración Cívica”, discurso proferido em 16 de setembro de 1857,
causou impacto e contribuiu para ser chamado a colaborar no governo
do presidente Benito Juárez Garcia (1867-1872), de caráter republica
no e modernizador. A infl uência do positivismo alastrou-se entre os
republicanos e contribuiu para a separação da Igreja do Estado (1867)
e para a reforma do sistema educacional (Matute, 1984). Segundo Zea
(1993), o positivismo como doutrina chegou ao apogeu no México com
Porfírio Parra (autor de “La reforma en México”, 1906) e seus adeptos
auxiliaram na sustentação da ditadura de Porfírio Díaz (1884-1911).
Dentre eles, podem-se mencionar Justo Sierra, Rosendo Pineda, Jorge
Hammeker Mexia, Pablo Macedo e Francisco Bulnes.
Na Argentina, o positivismo também conquistou adeptos importan
tes no fi nal do século XIX, destacadamente José María Ramos Mejía,
autor de “Las multitudes argentinas” (1899), e José Ingenieros, autor de
“¿Qué es el socialismo?” (1895) e “Sociologia Argentina” (1918). Ao con
trário de outros países latino-americanos mais pobres, a Argentina vivia
sua Belle Époque, e esses autores conviveram com o prolífi co momento
intelectual da “geração dos 80”, da qual participaram Miguel Cané, Lucio
V. Mansilla e Eduardo Wilde. Numa sociedade com forte participação do
imigrante, a refl exão sobre o signifi cado de “ser argentino” e a identidade
nacional trouxe a lume a Nação como objeto. No contexto, o positivismo
assumiu uma conotação mais cientifi cista e voltada ao tema do progresso
e da modernização, embora não dispensasse o tom crítico ao liberalismo
e tampouco a discussão acerca da consciência sobre as razões do atraso,
principalmente em relação os Estados Unidos, país emergente no cenário
15 Além dos países citados a seguir no texto, apenas a título de exemplo para ilustrar a
difusão do positivismo, podem-se ainda citar: no Uruguai, José Pedro Varela, com papel
relevante na formação da instrução pública e universitária; no Peru, Manuel Vicente
Villarán e Mariano H. Cornejo; na Venezuela, onde encontrou campo fértil depois da
Revolução de Abril de 1870, com Rafael Villavicencio, Adolfo Ernest e José Gil Fortoul;
no Chile, José Victorino Lastarria e Juan Serapio Lois, que em 1882 fundou a Sociedad
Escuela Augusto Comte; e na Colômbia, Rafael Nuñes, coautor da Constituição de 1886.
40
internacional e que muitas vezes servia como comparação: ambos ex--colônias, com clima temperado, pouco povoados, oferta elástica de terra
e bom nível educacional: “Entre la admiración y el temor, en toda Hispa
noamérica las clases dirigentes y letradas se preguntan cuál es la causa del
retraso de esta parte del continente” (Terán, 2012, p. 151).
No Brasil, o positivismo teve larga infl uência entre civis e militares,
nos movimentos pela abolição dos escravos (1888) e proclamação da re
pública (1889), a ponto de seus adeptos lograrem força política sufi ciente
para inscrever o lema “Ordem e Progresso” na bandeira nacional, sob
protesto de monarquistas, de liberais e da Igreja. No exército, conseguiu
vários adeptos: além de Benjamin Constant, o intelectual mais infl uente,
o próprio Marechal Floriano Peixoto, segundo presidente (1891-1894),
que embora não perfi lhado identifi cava-se com aspectos da ideologia,
como o antiliberalismo econômico e político. O positivismo, no Brasil,
difundiu-se em vários estados, alguns com infl uência signifi cativa na po
lítica, como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco, Pará e Rio Gran
de do Sul. Neste, ocorreu o caso mais radical, pois foi consagrado como
ideologia norteadora da Constituição Estadual de 1891, elaborada por
Júlio de Castilhos, e do Partido Republicano Rio-grandense, agremiação
na qual o futuro presidente Getúlio Vargas fez sua carreira política antes
de assumir a Presidência da República, em 1930.
A envergadura da “consciência do atraso” como fenômeno histórico,
a qual inclusive transcende ao positivismo que ajudou a respaldá-la,
fi ca evidenciada precocemente na Argentina com a “geração de 1837”,
cujo propósito era discutir a realidade do país e encontrar sua “identi
dade nacional”, embora com infl uência do liberalismo (Terán, 2008, p.
61). Sob a liderança de Esteban Echeverría e no Salón Literario criado
em 1837, o grupo contava, dentre outros, com Domingo Sarmiento,
Juan Bautista Alberdi, Juan María Gutiérrez, Vicente Fidel López, José
Mármol e Félix Frías. Já no Brasil, o fenômeno foi mais intenso nas pri
meiras décadas da República, quando vários intelectuais começaram
a incorporar a Nação como temática central de suas refl exões. Diante
de um país de imenso território e com risco de fragmentação, como
mostram os inúmeros movimentos separatistas da primeira metade do
século XIX, o Império havia respondido com a centralização dos pode
res na Coroa. Já a República trouxera consigo o federalismo – mas havia
uma unidade nacional? A “nação brasileira” parecia inexistir diante da
41
fragmentação econômica e política, marcada pelo poder local das oli
garquias regionais. Os chamados “intérpretes do Brasil” procuraram
responder a questões como essa, as quais trazem à tona visões e per
cepções sobre os problemas do país e de seu atraso. Aparecem, então,
temas desagradáveis como pobreza, desigualdades regionais, produ
ção primária e de baixa produtividade, sofríveis índices de educação,
doenças endêmicas e subnutrição. Cabe ressair que tais interpretações
não se restringiam abstratamente a elaborar uma “visão” no sentido
contemplativo, pois das construções intelectuais decorriam propostas
e alternativas, as quais, repercutindo nas arenas políticas, colaboravam
para a formulação de programas de ação.
Assim como os argentinos Ramos Mejía e José Inginieros, no Brasil
os intelectuais foram infl uenciados pelas teses eugênicas e cientifi cis
tas em voga. Homens como Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Ca
pistrano de Abreu, Oliveira Vianna, Manuel Bonfi m, Pedro Calmon,
Afonso Arinos incorporaram a variável “raça” em suas refl exões, mui
tas vezes associando-a aos problemas da Nação, em tom marcadamen
te pessimista (o negro “involuído”, o índio “indolente”, o português já
“impuro” e fruto de miscigenação). Coube a Gilberto Freyre, em “Casa
Grande e Senzala” (1933), conquanto ainda com corte racial, sugerir
uma interpretação fundada na cultura e, de forma mais sofi sticada,
substituir o fardo que representaria a colonização portuguesa por uma
visão otimista, enaltecedora do pluralismo racial e cultural responsável
por criar nos trópicos uma nação com personalidade própria. Todavia,
ao lado dessas interpretações inspiradas em um determinismo biológi
co, geográfi co ou mesmo cultural, houve autores que começaram a bus
car as raízes dos problemas na formação histórica. Oliveira Vianna, em
“Evolução do Povo Brasileiro” (1923) e “Populações Meridionais do Bra
sil” (1920), com uma visão conservadora, inaugurou este novo estilo de
interpretação, o qual desaguará de forma radical em “Evolução Política
do Brasil” (1933), com o propósito de Caio Prado Jr. de por primeira vez
interpretar a história brasileira à luz “de um método relativamente novo”:
o materialismo histórico (Prado Jr., 1969, p. 9). Mais tarde, já na década
de 1950, sob o impulso de experiências históricas desenvolvimentistas
em vários países da América Latina, com o pensamento cepalino e as
contribuições teóricas de Prebisch, Furtado e Ignacio Rangel, o “atraso” – termo de uso coloquial – daria um salto para a categoria teórica “subde
42
senvolvimento”. Este não seria mais uma etapa nem fatalidade biológica
ou geográfi ca, mas fenômeno histórico e social, que poderia e deveria ser
superado. O caminho a percorrer seria o da industrialização16.
5. Experiências históricas de desenvolvimentismo
Identifi cado o núcleo comum, cabe agora passar ao segundo passo
metodológico da construção do conceito: debruçar-se sobre a histó
ria ou os cases cujos atributos o conceito se propõe contemplar. Se na
primeira etapa buscava-se detectar o que era geral ou comum, nesta
segunda emerge uma vasta gama de experiências históricas cuja di
versidade o conceito deve ao mesmo tempo abarcar e delimitar, o que
remete à abordagem de sua extensão e intensão. Para tanto, selecio
naram-se, dentre as experiências históricas latino-americanas normal
mente tipifi cadas na literatura como exemplos de desenvolvimentismo,
34 governos de 8 países entre 1930 e 1979 – portanto, do período usu
almente associado ao desenvolvimentismo e à substituição de impor
tações. Adotou-se como critério arrolar no máximo 5 governantes de
cada país, de modo que a lista não pretende ser exaustiva, nem esse re
querimento metodológico é exigido: deve ser lida apenas como exem
plos históricos de uma amostra para teste.
Quanto às variáveis escolhidas, as quatro primeiras dizem respeito
ao núcleo comum já explicitado. A cada uma delas formulou-se uma
pergunta, de modo a se focar com acuidade o que se está a investigar em
cada atributo. As perguntas foram formuladas sempre no sentido de
verifi car não só o realizado, mas também a intenção, pois se pretende
detectar projeto ou estratégia e estes nem sempre lograram êxito em
16 Uma das mais marcantes contribuições de Furtado (1961) ao debate foi sua concepção de
que o subdesenvolvimento não pode ser considerado como etapa, o que inovava diante de
outras teses da época, como as de Rostow (1956, 1960). Dois são seus argumentos básicos,
dentre outros: (a) os atuais países desenvolvidos nunca passaram por uma fase de subde
senvolvimento, ou seja, esta categoria deve ser pensada historicamente num quadro de
divisão internacional do trabalho; e (b) a tendência é o subdesenvolvimento se reproduzir,
pois não há forças endógenas que levem a sua superação: num apelo à práxis, admite-se
que, se algo não for feito, a consequência é sua perpetuação. Para uma abordagem da inser
ção internacional de Furtado no debate da época, ver Borja (apud Malta , 2012).
43
sua execução. Assim, as variáveis ex-post (como crescimento do PIB ou
da indústria) podem auxiliar na pesquisa, mas são inapropriadas para
responder se houve ou não projeto identifi cado com desenvolvimen
tismo, podendo levar a um falso positivo (o crescimento ser resultante
de uma variável exógena, como a conjuntura internacional, ou mera
decorrência dos ciclos econômicos) ou a um falso negativo (o governo,
embora identifi cado com desenvolvimentismo, não tenha conseguido
implantar seu projeto devido à conjuntura econômica ou política). São
os casos de governos como Alfonso López Pumarejo (Colômbia) e João
Goulart (Brasil), que propuseram medidas de envergadura francamen
te associadas ao desenvolvimentismo, mas defrontaram-se com enor
mes difi culdades políticas para implantá-las. Tem-se presente, todavia,
que vagas declarações de autoridades sobre temas polêmicos não são
consideradas sufi cientes sem que haja outras evidências ou elementos
para robustecer a intenção. Propostas como reforma agrária e distri
buição de renda mais equânime, por exemplo, exigem medidas efeti
vas além de meras declarações. Só foram aceitas como parte do projeto
quando houve elementos sufi cientes acerca do empenho em realizá--las, de modo a se concluir que sua eventual inviabilidade dependeu
de motivos fora do alcance do governo (forte resistência política, por
exemplo). Ressalta-se, portanto, que embora intenção seja variável ab
solutamente necessária para captar a existência de projeto ou estratégia,
sua comprovação exige extrema cautela, pois é preciso respaldá-la com
atos capazes de evidenciar que não se limita a simples retórica. Vale,
nesse caso, a observação de Conceição (2012):
Crescimento econômico é complexo demais para originar--se de maneira apenas intencional. As mudanças institucio
nais, tecnológicas e sociais devem caminhar simultânea e
articuladamente na direção desse objetivo, o que não é algo
historicamente fácil de obter. (Conceição, 2012, p. 119).
Já as demais variáveis se referem a atributos mencionados por parte
dos autores, embora com menor frequência. A pesquisa nas experiên
cias históricas auxilia na decisão sobre se as mesmas devem ou não ser
incluídas no conceito, se fazem ou não parte do núcleo comum. Além
disso, algumas se referem aos atores e segmentos sociais requeridos
para dar sustentação ou para a execução do projeto. Esse atributo, em
44
bora indispensável para viabilizar qualquer projeto de mudança, como
é o caso do proposto pelo desenvolvimentismo, é de difícil comprova
ção empírica se enunciado em tal grau de abstração, de forma que o
tratamento dado foi de desdobrá-lo em mais variáveis, pois os referidos
atores e segmentos variam de um país para outro, e às vezes em dife
rentes governos de um mesmo país. Assim, as perguntas sobre capital
externo, reforma agrária e redistribuição de renda, por exemplo, fo
ram formuladas de forma a captar a relação do projeto do governo
respectivamente com empresários estrangeiros, proprietários de
terra e trabalhadores urbanos, sem contar a burocracia, cujo atribu
to pode ser revelado em pergunta direta.
O estudo comparativo clássico sobre diferentes arranjos políticos
nos países latino-americanos e sua inter-relação com as trajetórias eco
nômicas de longo prazo é o de Cardoso e Faletto (1970). Ao se construir
o conceito de desenvolvimentismo, não se pode perder de vista que o
crescimento industrial e a mudança de modelo, por sua envergadura,
exigiram alterações institucionais de vulto, maior complexifi cação do
aparelho do Estado e a criação de novas leis, códigos e marcos regulató
rios. Em cada país foi diferente a reação dos setores agrários, até então
hegemônicos, aos governos tidos como desenvolvimentistas, e o arran
jo político possível em cada em deles por certo condicionou trajetórias
de longo prazo, as quais implicaram o êxito maior ou menor da indus
trialização. Como hipótese a ser testada, parece razoável propor que
México e Brasil foram casos bem sucedidos, ao contrário de Argentina
e Colômbia. O primeiro, devido à revolução de 1910, singular na Amé
rica Latina, capaz de limitar a infl uência agrarista e estabelecer novos
marcos institucionais e regulatórios que subordinavam as elites agrárias
ao projeto desenvolvimentista, mesmo com concessões. No Brasil, hou
ve uma aliança entre setores agrários voltados ao mercado interno e os
novos setores emergentes (empresariado industrial, segmentos médios
e trabalhadores urbanos) em oposição aos setores agroexportadores, os
quais foram derrotados em 1930 e, mais defi nitivamente, em 1932. Sem
uma revolução do alcance da mexicana, consolidou-se um pacto que sus
tentava a industrialização sem, todavia, deslocar totalmente os segmen
tos agrários do poder, com a peculiaridade político-institucional de ex
cluir os trabalhadores rurais da legislação trabalhista e de não se propor
reforma agrária, com exceção do governo Goulart (embora mais tarde,
45
na década de 1960). Na Argentina, a força econômica e política do setor
agroexportador difi cultou a implantação de novo modelo; a contradição
entre “mercado interno” versus “exportação de produtos agrários” per
maneceu sem uma solução hegemônica praticamente ao longo de todo o
processo de substituição de importações, implicando maior instabilidade
política e radicalização. Já na Colômbia as tentativas foram frustradas,
pois os setores agrários, mesmo divididos entre os partidos Conservador
e Liberal, conseguiram, em aliança com a Igreja, impedir a aprovação de
propostas reformistas e industrializantes de maior envergadura.
As variáveis a serem testadas e as respectivas perguntas a elas asso
ciadas são as seguintes:
1) Projeto Nacional: o governo explicitou a pretensão de um projeto
de “superação do atraso” para a nação, ou assumiu-se como ator ou
agente relevante para a construção de um futuro desejável para o país?
2) Intervenção estatal: o governo manifestou que o crescimento/ de
senvolvimento econômico era prioridade para viabilizar seu projeto
e utilizou, ou há evidências de pretender utilizar, instrumentos de
política econômica e/ou medidas institucionais e administrativas
com vistas a implementar seu projeto, como para acelerar o cresci
mento econômico, mesmo que não tenha logrado êxito?
3) Industrialização: o governo manifestou que a industrialização era
prioridade para viabilizar seu projeto e utilizou, ou há evidências
de ter pretendido utilizar, instrumentos de política econômica e/ou
medidas institucionais e administrativas com vistas a acelerar seu
crescimento, mesmo que não tenha logrado êxito?
4) Socialismo: o governo manifestou sua opção pelo socialismo e
propôs e/ou executou medidas visando extinguir a propriedade pri
vada ou substituir o mecanismo de mercado de formação de preços
por planejamento centralizado?
5) Capital estrangeiro: o governo manifestou que a entrada de capi
tal estrangeiro era prioridade para viabilizar seu projeto e utilizou,
ou há evidências de ter pretendido utilizar, instrumentos de política
econômica e/ou medidas institucionais e administrativas com vistas
a atrair capital estrangeiro como estratégia?
6) Burocracia: o governo valeu-se de burocracia estatal como agente
relevante para formular e/ou executar seu projeto?
46
7) Reforma agrária: o governo manifestou que a reforma agrária era
prioridade para viabilizar seu projeto e realizou, ou há evidências de
ter pretendido realizar, medidas voltadas para esse propósito, mes
mo que não tenha logrado êxito?
8) Redistribuição de renda: o governo manifestou que a redistribui
ção de renda era prioridade para viabilizar seu projeto e utilizou,
ou há evidências de ter pretendido utilizar, instrumentos de política
econômica voltados a concretizá-la, como aumento de salários, ou
política fi scal, como através de impostos fortemente progressivos, de
forma a evidenciar que a redistribuição de renda, mais que proposta
para o futuro, foi vista como prioridade imediata para viabilizar seu
projeto, mesmo que não tenha logrado êxito?
9) Planejamento: o governo elaborou um documento de caráter técnico
para expressar seu plano de governo, com setores e metas prioritários,
bem como para permitir acompanhamento ao longo de sua execução?
10) Banco de desenvolvimento: o governo utilizou-se de banco de
desenvolvimento, ou instituição fi nanceira especializada em fomen
to à produção, para executar seu projeto?
O Quadro 1 do Anexo apresenta os resultados da pesquisa, com o
esforço de opção dicotômica (S= sim e N = não). Mesmo em se reco
nhecendo a complexidade da resposta para alguns casos, sempre se pro
curou amparo no que a literatura geralmente ou “em média” registra, de
modo a se captar o atual “estado das artes” sem, todavia, permitir a infe
rência de uma tomada de posição em controvérsias ainda em andamen
to. A pesquisa referenda o núcleo comum dos atributos detectados na
conceituação dos autores, pois as repostas para as quatro primeiras per
guntas foram unânimes17. Assim, conclui-se que há razões sufi cientes
17 O caso mais polêmico foi Perón (1946-1955), pois a literatura é extremamente dividida
quando se refere à existência ou não em seu governo de um projeto de industrialização.
Ver, p.e., Diaz-Alejandro (1981), Dorfman (1983),Haines (2007),Rapaport (2000), Faus
to e Devoto (2004), Loureiro (2009), Rougier (2012), Fonseca e Haines (2012). Resolveu--se, todavia, mantê-lo na amostra da pesquisa, pois se entendeu que a simples exclusão
do mesmo equivaleria a uma tomada de partido prematura no debate, além excluí-lo
da pesquisa quanto a outros atributos. No cômputo do Quadro I do Anexo, optou-se
por considerá-lo como “sim”, com respaldo de parte da literatura. Já para os governos
de Vargas e de López Pumarejo, resolveu-se manter a divisão entre primeiro e segundo
governo, em consonância ao tratamento mais usual na literatura.
47
para incluírem-se como atributos do referido núcleo (a) projeto nacional
deliberado, ou estratégia para a nação; (b) intervenção estatal consciente
para viabilizar o projeto de desenvolvimento; (c) industrialização; e (d)
capitalismo como sistema econômico. Este último pode ser concebido
como um atributo à parte ou, para evitar redundância, como subenten
dido nos três anteriores, posto que ao se mencionar “intervenção estatal”
e “projeto” está suposto que os mesmos referem-se aos marcos de uma
economia capitalista. É o único para o qual a pergunta foi formulada de
forma a esperar resposta negativa para afi rmar o atributo: uma vez que
os termos socialismo e capitalismo são polissêmicos, entendeu-se que a
negatividade é mais reveladora do que a afi rmação “a favor” de um ou
outro sistema econômico. Similarmente, a intencionalidade poderia ser
incluída como um atributo à parte; todavia, da forma como as perguntas
foram formuladas, ela estava embutida nas três primeiras, cujas respostas
positivas a fortalecem como integrante no núcleo.
Já com relação aos demais atributos, o resultado referenda a análise
das conceituações dos autores, pois os mesmos aparecem em alguns
governos, todavia não são encontrados em outros, o que robustece a
decisão de excluí-los do núcleo comum, embora possam ter sido im
portantes em algumas experiências históricas específi cas. Dentre eles,
o atributo com maior frequência foi burocracia como agente relevante
para formular e/ou executar seu projeto, com 79%. Embora não se trate
de amostra aleatória que permita inferir conclusões mais robustas, não
deixa de ser interessante notar que os atributos com menor porcenta
gem e somente observados em menos da metade dos governos pesqui
sados foram os referentes a “aspectos sociais”: reforma agrária (44%) e
redistribuição de renda (41%).
6. O conceito
Como já foi mencionado, o termo teórico “desenvolvimentismo” é
comumente usado para nomear tanto um fenômeno da esfera do pen
samento como um conjunto de políticas econômicas concatenadas
entre si e, segundo a metodologia aqui utilizada, a construção de seu
conceito levou à investigação acerca da existência de um núcleo com
seus atributos comuns principais. Isso foi feito partindo-se dos usos do
48
termo extraídos de trabalhos da própria comunidade científi ca, que por
suposto necessita dele para expressar determinado fenômeno, e, poste
riormente, submeteram-se seus atributos a teste em experiências his
tóricas designadas como tal. Embora as duas acepções se interliguem e
não haja qualquer problema em a comunidade acadêmica lançar mão
do duplo uso, o mesmo não ocorre quando se trata de conceituação.
Para o economista e demais cientistas sociais, os conceitos são também
instrumentos, ou seja, ferramentas necessárias e úteis para formular e
testar hipóteses. Assim, se, de um lado, não há como o conceito ignorar
essa dupla acepção (o contrário seria adotar a metodologia inversa:
conceituar o “ideal”, e não o “real” ou o “materialmente existente”), por
outro lado, sua construção impõe uma escolha. Isso porque o primeiro
vocábulo do defi niens, o qual sucede o verbo de ligação posterior ao
termo a ser conceituado (o defi niendum), remete ao conjunto em que a
busca do mesmo será feita, ou seja, quando se escreve “desenvolvimen
tismo é ...”, a palavra seguinte será ideologia ou política econômica?
A escolha imposta por certo remete à antiga controvérsia epistemoló
gica entre idealismo e materialismo. Se a opção for por ideologia, está-se
implicitamente admitindo que o termo deve ser buscado no mundo do
pensamento, das ideias ou das teorias, as quais, em certas condições his
tóricas (por exemplo, a Grande Depressão) concretizam-se como políti
ca econômica, dando veia aos “estados desenvolvimentistas”. A direção
é do pensamento para a matéria. Já se a conceituação parte da política
econômica, o caminho é inverso: o desenvolvimentismo é entendido pri
mordialmente no campo material da história: trata-se de uma política
econômica efetivamente praticada por governos em determinado tempo
e lugar. Por certo, o desenvolvimentismo desde cedo apareceu também
como pensamento ou ideologia para sugerir ou justifi car um projeto de
mudança, como antes se mencionou. Todavia, essa última opção, embora
contemple, no conceito de “desenvolvimentismo”, as ideologias e as teo
rias, supõe que essas necessariamente estão inseridas em determinada
experiência histórica, e é esta que lhes dá razão de existência e sentido.
A escolha aqui dessa última, conquanto em parte resulte de opção
epistemológica, respalda-se também no fato de que o aparecimento
desses governos, com pouca defasagem de tempo, em vários países la
tino-americanos, nacionais ou subnacionais (em estados, províncias ou
departamentos), sugere que o mesmo não foi um fenômeno aleatório,
49
randômico, ou “importado”18. O desenvolvimentismo por certo, em suas
origens, abeberou-se de infl uências teóricas europeias – já se ressaiu aqui
o positivismo, mas se poderia acrescentar outros autores, como List e
Mihail Manoilescu (Love, 1990). Todavia, de forma alguma pode ser en
tendido como uma ideia de fora que foi transplantada para a América La
tina, mesmo com a ressalva de ter sido adaptada a sua realidade cultural,
econômica ou social: não há caso de desenvolvimentismo, teórico ou
histórico, que tenha servido de modelo para tal cópia ou adaptação.
Diferente do liberalismo, que já existia na Europa seja como práticas
de governos, seja no pensamento de intelectuais, e que, ao ser “trans
plantado”, para usar a expressão consagrada de Schwarz (1973), poderia
sugerir tratar-se de ideia “fora do lugar”, o desenvolvimentismo brotou
como consciência do atraso e como busca de uma estratégia nacional
para superá-lo: fenômeno, portanto, peculiar da própria América La
tina e de outros países “do resto” com problemática semelhante, para
usar a expressão de Amsden (2001), principalmente da Ásia e África,
embora em período posterior, com a possível exceção do Japão. Não
se trata, a rigor, nem mesmo de antropofagia no sentido empregado
por Mário de Andrade, pois esta supõe uma cultura alienígena, da qual
elementos são absorvidos e outros, expelidos. Assim, na ausência de
“desenvolvimentismo francês” ou “inglês” – países tradicionalmente de
maior infl uência na formação intelectual e no imaginário das elites la
tino-americanas –, não havia o que canibalizar. Trata-se aqui, portanto,
de uma sorte de “materialismo idealista”, de corte hegeliano, de acordo
com o qual o conceito só é ele mesmo se a existência for parte de sua
determinação, se ele for também e primordialmente realidade efetiva
(a Wirklichgkeit de Hegel). Se começamos por procurar a defi nição de
desenvolvimentismo de modo endógeno, ou seja, a partir dos trabalhos
dos próprios intelectuais que construíram a história desse conceito (já
em si uma escolha metodológica de matriz hegeliana, mesmo com pon
to de partida na proposta metodológica de Sartori), faz-se forçoso, ao
mesmo tempo, reconhecer que ele já estava inscrito na realidade efetiva
18 Pode-se, a título de ilustração, mencionar, para o caso brasileiro, como experiências
embrionárias de desenvolvimentismo, os governos de João Pinheiro, em Minas Gerais,
1906-1908 (Paula, 2000, 2004; Dulci, 2005; Barbosa, 2012) e de Getúlio Vargas, no Rio
Grande do Sul, 1928-1930 (Fonseca, 1989, 2004).
50
dos países latino-americanos, antes que determinadas atitudes e inicia
tivas de governo passassem a ser adotadas “em seu nome”.
Isso posto, têm-se elementos sufi cientes para a seguinte formu
lação: entende-se por “desenvolvimentismo” a política econômica
formulada e/ou executada, de forma deliberada, por governos (na
cionais ou subnacionais) para, através do crescimento da produção e
da produtividade, sob a liderança do setor industrial, transformar a
sociedade com vistas a alcançar fi ns desejáveis, destacadamente a su
peração de seus problemas econômicos e sociais, dentro dos marcos
institucionais do sistema capitalista.
Atentando para os termos utilizados, que de certa forma represen
tam um esforço de síntese de toda a argumentação realizada até aqui:
a) Política econômica: remete diretamente à experiência histórica
concreta ou material como o conjunto em que se foi buscar a cate
goria conceituada; ademais, lembra o intervencionismo como inte
grante do core do conceito, pois remete à Nação e a Estado, já que
este, por suposto, é a instituição incumbida de formular e executar
a política econômica, esta entendida, como antes foi mencionado,
como políticas meio, fi ns e institucionais;
b) Formulada e/ou executada: remete à estratégia ou projeto, pois a
política econômica às vezes pode não ter tido sucesso em sua execu
ção; reforça, ainda, o caráter “material” da conceituação, posto que
os atributos foram testados em experiências históricas;
c) Deliberada: remete à necessidade da consciência ou intencionali
dade, posto que resulta de um projeto ou estratégia que se materia
liza em um guia de ação para reverter um status quo não desejável;
a economia subordina-se à política, pois é nesse âmbito, e não no
mercado, onde a estratégia ou projeto são formulados; remete,
ainda, à práxis, ou, no approach weberiano, à ação social racional;
d) Governos: remete ao agente formulador e/ou executor do projeto
nacional ou estratégia para a Nação como atributo do core do con
ceito, já que circunscreve a Nação como unidade ou locus de abran
gência do projeto, embora possam existir experiências subnacionais,
como é lembrado a seguir entre parênteses; subentende-se, ainda,
que o grupo dirigente depende de uma correlação de forças políti
cas, sem a qual não se sustentaria como governo;
51
e) Crescimento da produção e da produtividade: remete ao cresci
mento dessas variáveis como condição ou instrumento necessário
da estratégia ou projeto de reversão do status quo (ação social racio
nal referente a fi ns);
f) Liderança do Setor Industrial: remete à industrialização como
variável-chave do núcleo comum do desenvolvimentismo, enfatiza
da por todos os autores analisados e presente também nas experi
ências históricas utilizadas como “teste”; tal liderança não signifi ca
que o desenvolvimento do Setor Primário esteja ausente do projeto,
mas que a industrialização é necessária tanto para superar o antigo
modelo agroexportador e os enclaves, mineiros ou de plantations,
quanto para acelerar a produtividade e a difusão do progresso técni
co, com repercussões nos demais setores da economia;
g) Transformar a sociedade: remete mais uma vez ao projeto de al
terar o status quo e à práxis, ou seja, ação consciente de indivíduos,
grupos e segmentos sociais visando a determinado fi m;
h) Fins desejáveis: remete ao desenvolvimentismo como ideologia,
pois incorpora no conceito os valores maiores que justifi cam a estra
tégia e o projeto para o futuro, a sua utopia em busca de outra socie
dade melhor; embora essa expressão possa parecer um tanto ampla,
faz-se necessária, uma vez que os fi ns variam de um governo para
outro, embora melhor padrão de vida futuro para a população pu
desse ser o objetivo desejável comum de todos eles; tais fi ns, ainda,
podem atualizar-se, como incorporar cidadania, democracia e meio
ambiente, atributos que não aparecem ou pouco destaque mereciam
no período da amostra pesquisada; incorpora-se, portanto, no con
ceito, variável axiológica, a qual se expressa como ideologia ou ideias
que explicitam e justifi cam determinados fi ns ou valores (ação social
racional referente a valores);
i)Problemas econômicos e sociais: remete ao status quo a ser supe
rado; o caráter genérico da expressão deve-se ao fato de que os “pro
blemas” reconhecidos como tal variam conforme o país e, às vezes,
entre governos e períodos históricos de um mesmo país. Dentre eles,
podem-se arrolar: baixa produtividade, concentração de renda, de
sigualdades regionais e baixos indicadores de saúde, educação e po
luição ambiental, dentre outros;
52
j) Sistema capitalista: remete à manutenção da propriedade e da ini
ciativa privada como instituições, e do mecanismo de formação de
preços e de alocação pelo mercado, mesmo que o Estado participe
de forma reguladora ou supletiva.
7. Uma digressão sobre extensão e intensão
Formulado o conceito, pode-se agora retomar o dilema “extensão
versus intensão”, ou seja, sua capacidade de tornar preciso ou delimitar
o objeto conceituado e, ao mesmo tempo, mostrar certa maleabilidade
para incorporar a diversidade histórica e os casos novos, inclusive para
auxiliar na decisão de casos limítrofes. O “bom” conceito não conceitua
em abstrato, metafi sicamente pretendendo apenas expressar o que o de
fi niendum “é”, mas também deve servir como categoria teórica, ou seja,
instrumento válido e útil para respaldar a decisão do cientista social
para nele enquadrar ou não determinado fato ou objeto de investigação.
Dois subtipos de desenvolvimentismo consagrados na literatura são
“nacional-desenvolvimentismo” e “desenvolvimentismo dependente--associado”19. Em uma antinomia, ambos apontam para dois estilos
de desenvolvimento. Mesmo com o risco da simplifi cação demasiada
diante da tentativa de sumariar um complexo de ideias em poucas pala
vras, pode-se sintetizar que o nacional-desenvolvimentismo, de ideolo
gia mais nacionalista, propunha maior papel ao Estado para alavancar
recursos e realizar investimentos tidos como prioritários. A produção
centrava-se nos bens de consumo populares, liderados pelo setor priva
do nacional, e como projeto propunha avançar a industrialização para
os bens de capital e intermediários; politicamente se expressava como
uma aliança entre este empresariado, segmentos das “classes médias”
(nestes incluídos a burocracia) e trabalhadores urbanos, propondo a
“incorporação das massas”, cuja expressão política seria o “populismo”.
Já o segundo assentar-se-ia nos investimentos externos, principalmen
19 Ver, p. e., Cardoso (1971, p. 110). Este autor, ao analisar Brasil e Argentina, aponta os
atributos de ambos e tipifi ca Vargas e Perón como exemplos do nacional-desenvolvi
mentismo e Kubitscheck e Frondizi como de “desenvolvimentismo dependente-associa
do”. Essa visão tornou-se usual na literatura sociológica e econômica latino-americana
das décadas de 1970 e 1980 e será aqui utilizada para ilustrar o corte teórico da tipologia.
53
te de grandes empresas oligopolistas, para alavancar um padrão de “in
dustrialização restritiva”, pois assentado na produção de bens duráveis de
consumo e na indústria pesada, cuja demanda voltava-se às camadas de
rendas mais altas; não excluía de vez o estado nem as burguesias locais, mas
estabelecia entre eles outro tipo de associação, em uma relação de subor
dinação ou dependência ao capital estrangeiro. A rigor, as duas estratégias
ou estilos de desenvolvimento decorriam da incapacidade ou da fragili
dade dos grupos empresariais privados latino-americanos para liderar o
crescimento industrial, seja pela inexistência de conhecimento tecnológico
ou por baixa capitalização. No primeiro modelo, o ator principal seria o
Estado, capaz de captar “poupança forçada” para bancar as necessidades de
investimento ou fi nanciamento; no segundo, o capital estrangeiro, através
de investimentos diretos ou de fi nanciamento – a “poupança externa”.
Convém notar que “nacional-desenvolvimentismo” e “desenvolvi
mentismo dependente-associado” não são conceitos radiais, como já se
alertara anteriormente, pois estes aparecem na estratégia do conceito
por adição quando, diante de novos casos, o cientista adiciona atributos
ao conceito principal e cria nova categoria. Assim, o conceito radial não
necessariamente incorpora todos os atributos integrantes do núcleo do
conceito. Por exemplo, quando se fala em “democracia tutelada”, isto
signifi ca que a democracia “não está completa”, que faltam atributos
para o case em tela ser uma democracia plena ou cheia (full) (Collier;
Levitsky, 1996). Esse critério não se aplica aos casos de “nacional-de
senvolvimentismo” e “desenvolvimentismo dependente-associado”
frente à conceituação aqui formulada para desenvolvimentismo, pois
ambos incorporam todos os atributos principais deste conceito, ou
seja, todos os atributos estão contidos em seu domínio; e, além des
ses, acrescentam-se outros que o caracterizam não como conceito ra
dial, mas como subtipo de um conceito clássico. Veja-se: a opção por
bens de massa ou bens duráveis de consumo tem em comum ambos
serem igualmente setores industriais, atributo incluso no core. Quan
to à diferença entre o papel do Estado e do capital estrangeiro, é mais
uma questão de grau ou de relevância do que de exclusão ou inclusão,
pois nem o “nacional-desenvolvimentismo” exclui o capital estrangei
ro nem o “desenvolvimentismo dependente-associado” prescinde do
Estado como agente estratégico da política econômica (a lembrar, no
caso brasileiro, que a Companhia Siderúrgica Nacional, símbolo do
54
nacional-desenvolvimentismo do Estado Novo de Vargas (1937-1945),
contou com tecnologia e fi nanciamento norte-americanos, enquanto o
BNDES foi grande articulador e fi nanciador do Plano de Metas de Ku
bitscheck, assentado na atração ao capital estrangeiro). Por isso, a per
gunta introduzida para testar o atributo sobre capital estrangeiro para
elaborar o Quadro 1 do Anexo indaga sobre a prioridade do mesmo para
os projetos do governo da amostra: fosse a pergunta formulada para for
çar a opção entre aceitação ou rejeição, ela não discriminaria os governos
(nenhum deles rejeitaria a priori o capital estrangeiro, fato referendado
pela pergunta do quarto atributo, e tampouco auxiliaria para diferenciar
nacional-desenvolvimentismo e desenvolvimento dependente-associa
do). Deve-se atentar ao fato de os dois subtipos integrarem o núcleo co
mum dever-se em parte à própria defi nição de projeto nacional aqui
adotada, associada à estratégia para a Nação, sem qualquer conotação
de xenofobia ou aversão a priori ao capital estrangeiro. Lembra-se que,
pela metodologia aqui empregada, a inclusão deste atributo não foi for
tuita, posto que resultou do uso na literatura e da experiência histórica
latino-americana: se a “projeto nacional” se associasse repulsa ao capital
estrangeiro, simplesmente nenhum caso latino-americano selecionado
poderia ser considerado como “desenvolvimentismo”.
A Figura 4 ilustra, com alguns exemplos, governos latino-america
nos. O círculo A representa o domínio que concentra os atributos prin
cipais. Ele engloba, sob outra forma, o núcleo hachurado da Figura 3.
Para fi ns de ilustração, foram inseridos dois atributos que não constam
no núcleo principal, pois só apareceram em alguns autores e em alguns
governos: reforma agrária (B) e redistribuição de renda (C). Fica cla
ro que tanto governos considerados “nacionais-desenvolvimentistas”
(López Pumarejo, Vargas e Goulart) como os mais próximos do “de
pendente-associado” (Frondizi e Kubitscheck) localizam-se dentro do
mesmo círculo A, pois preenchem todos os atributos do núcleo. Logo:
essa tipologia compreende subtipos de conceito clássico e não concei
tos radiais, pois não alargam o conceito principal com novos atribu
tos: são conceitos “plenos” ou “cheios” de desenvolvimentismo. Perón
aparece duas vezes justamente como ilustração: caso admita-se que o
mesmo assumiu um projeto de industrialização, sua localização seria
dentro do círculo A (Perón*); caso contrário, como advoga outra parte
da literatura, fi caria fora do círculo hachurado (Perón**): não seria um
55
caso de desenvolvimentismo, embora tenha proposto uma política de
redistribuição de renda.
A
.2
.3
B
.1
.7
.4
.5
.8
.9
.10
.6
C
A = Núcleo comum
B = Reforma agrária
C = Redistribuição de renda
1 = Vargas (1º Gov.)
2 = Frondizi
3 = Kubitschek
4 = Perón *
5 = Vargas (2º Gov.)
6 = Perón **
7 = Cárdenas
8 = Goulart
9 = López (1º Gov.)
10 = Castro
Figura 4. Desenvolvimentismo: extensão e intensão do conceito
Uma forma de ilustrar a diferença entre conceitos radiais e subtipos
aqui adotada, além de reforçar a discussão sobre a extensão e a intensão
do conceito aqui formulado, é o exercício de tentar alargar o conceito
com atributos que não estão no core. Por exemplo, redistribuição de
renda ou reforma agrária, atributos que apareceram em vários gover
nos desenvolvimentistas, às vezes até como prioridade, mas em outros
nem foram mencionados (ou simplesmente concebidos retoricamente,
como consequência de longo prazo ou do próprio desenvolvimento,
como no caso de distribuição de renda mais equânime). Na estraté
gia de conceito clássico ou por redefi nição, não se alarga o domínio:
como mostra a Figura 4, este permanece circunscrito ao círculo A,
enquanto os novos atributos são representados por novos círculos: B
56
(reforma agrária) e C (redistribuição de renda). Cárdenas e Goulart
estão contidos em B e em C, na intersecção dos três círculos (A Λ B Λ
C), pois são exemplos de governos desenvolvimentistas que também
propuseram reforma agrária e distribuição de renda mais equitativa.
O caso como o de Fidel, em Cuba (e que em parte talvez seja análogo
a Allende, no Chile) estaria em B e C, mas não em A: apesar de propor
reforma agrária e redistribuição de renda, não preenche os atributos
da esfera A e, portanto, não pode ser entendido como desenvolvimen
tismo (faltariam, por exemplo, industrialização, propriedade privada e
mercado). Só um conceito radial de “desenvolvimentismo socialista”,
como propusera Jaguaribe, permitiria alargar a extensão do conceito,
o qual, todavia, perderia muito em intensão, deslocando-se para um
ponto próximo ao ponto “Y” na Figura 1.
O mesmo ocorre caso se queira atualizar o conceito. De um lado,
deve-se ponderar que os atributos do núcleo podem ser, pelo menos em
parte, atualizados sem alterá-lo. Por exemplo: embora os instrumentos
e a extensão do intervencionismo sejam diferentes nos dias atuais do
que eram nas décadas de 1930 a 1980, o atributo “intervencionismo”
continua presente, mesmo modifi cado. Pode também ser o caso do
atributo “industrialização”, que possuía características muito próprias
no período da substituição de importações, e que por certo deve ser
atualizado frente às mudanças na economia internacional e no paradig
ma tecnológico das últimas décadas.
Por outro lado, há atualizações que podem aparecer como necessá
rias diante de fatos novos sem, todavia, exigir alteração do núcleo. Pelo
menos dois atributos apareceram fortemente nas décadas posteriores
aos governos pesquisados: defesa do meio ambiente e da democracia
(Herrlein Jr., 2011; Cepêda, 2012). Historicamente muitos governos
desenvolvimentistas depredaram o meio ambiente e também se casa
ram muito bem com ditaduras, mas hoje impera a convicção de valores
como defesa da natureza e da cidadania. Eles não fazem parte do núcleo
comum, mas podem ser incorporados como atributos tais como B e C
da Figura 4. Deve-se atentar que esses círculos fora do núcleo comum
podem servir não só para atualizar o conceito frente à emergência de
novos casos, mas também para incorporar atributos que os teóricos
consideram “desejáveis” nele incluir, caracterizando subtipos. Em ou
tras palavras, o círculo A delimita os casos que podem ser considerados
57
desenvolvimentismo, enquanto os outros círculos podem dizer respeito
a atributos adicionais referentes ao subtipo de desenvolvimentismo que
se quer ou se considera preferível ou desejável. Conclui-se, portanto,
que pelo menos para conceitos como desenvolvimentismo, que de
notam um guia de ação ou de intervenção, a inclusão ou exclusão de
atributos é feita pelos cientistas e intelectuais orgânicos não apenas
para “atualizar” o conceito diante de fatos novos, mas também para
nele incluir ou excluir atributos que consideram por algum critério
desejável, ou seja, capazes de expressar suas preferências ou valores.
Finalmente, cabe uma menção, mesmo que breve, ao debate brasi
leiro recente, e que serve para ilustrar como os conceitos retornam e ga
nham vida, mesmo em situações diferentes das quais foram originados.
A proposta de “novo-desenvolvimentismo”, por Bresser-Pereira (2006,
2010) e outros economistas (Sicsú et al, 2005), por exemplo, não difere
da estratégia tradicionalmente adotada na história do pensamento eco
nômico, qual seja, adicionar ao conceito principal o prefi xo grego neo
(“neoclássico”), ou o adaptado latino post (“pós-keynesiano”) ou, ainda,
o vocábulo novo (“novo-clássico”). Assim, chama a si uma tradição a
preservar, não obstante de forma renovada ou adaptada a novas cir
cunstâncias, o que, num exercício de conceituação, signifi ca a exigência
de adição de novos atributos. Isso pode ser feito de duas formas: (a)
com a manutenção do núcleo comum do conceito principal e mediante
a criação de um subtipo; ou (b) com o abandono do núcleo comum,
caso o novo atributo seja incompatível com algum outro já contido no
core, o que pode ser feito com a criação de um conceito radial. No caso
do “novo-desenvolvimentismo”, tal qual foi formulado por seus auto
res, a análise evidencia que o mesmo preserva todos os atributos conti
dos no conceito de desenvolvimentismo aqui formulado. Destarte, não
haveria necessidade de criar um conceito radial, pois, na linguagem de
Collier e Levitsky (1996), o “novo-desenvolvimentismo” é “pleno” ou
“cheio” de desenvolvimentismo. Para simplifi car, supõe-se que o prin
cipal atributo reivindicado para justifi car a adição do adjetivo “novo”
no termo seja o fato de incorporar “disciplina fi scal” (Bresser-Pereira,
2006, p. 16). Este atributo não faz parte do core nem se opõe a qualquer
atributo contido em seu domínio; logo, pode ser acrescentado como
uma esfera no conceito de tipo clássico aqui proposto, não necessitan
do de um conceito radial, caso que implicaria perda de intensão. Se,
58
todavia, entender-se que “indisciplina fi scal” é atributo inerente ao de
senvolvimentismo a ponto de alguém incluí-lo no núcleo principal do
conceito, a solução só poderia vir através de um conceito radial, pois o
referido núcleo precisaria ser alterado20.
Da mesma forma, as propostas do “social-desenvolvimentismo”, tais
como apresentadas por Carneiro (2012), Bielschowsky (2012) e Bastos
(2012), preenchem todos os atributos do core do conceito aqui formu
lado. Ao frisarem a importância de um desenvolvimentismo com redis
tribuição de renda e esta, para fi ns de argumentação, como o atributo
mais reivindicado como marca das propostas desses autores, constata--se que a mesma não precisaria de um conceito radial, pois basta a in
clusão do novo atributo. Na Figura 4, o subtipo ocuparia posição seme
lhante ao Governo Goulart, recuperando a tradição histórica estrutu
ralista de desenvolvimento com redistribuição de renda, como aparece
no Plano Trienal e nas reformas de base sugeridas por Celso Furtado
como seu ministro.
8. Conclusão
O propósito deste capítulo de formular um conceito para desenvol
vimentismo pode parecer pretensiosa por sua envergadura, frente à po
lêmica envolvida pelo termo e seus múltiplos usos. Todavia, a diatribe
pode em parte ser contestada ao lembrar-se o pressuposto epistemoló
gico segundo o qual nenhum conceito é defi nitivo e, como objeto social,
20 A relação entre indisciplina fi scal e desenvolvimentismo é muito forte em parte da
literatura crítica a este último, principalmente de corte ortodoxo, sendo um passo para
identifi cá-lo com populismo econômico. Todavia, a pesquisa empírica sobre a política
econômica de governos tidos tradicionalmente como “populistas” mostra que parte de
les não se furtou de propor políticas de estabilização restritivas para combater a infl ação
como também de buscar equilíbrio no balanço de pagamentos. A tentativa de associar
num mesmo core desenvolvimentismo, nacionalismo e populismo não é apenas ponto
ideológico pétreo da ortodoxia econômica, mas aparece às vezes também em literatura
sociológica de matiz marxista (Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, Francisco
We ff ort e José Luís Fiori). Todavia, a mesma parece não resistir à evidência empírica
quando se analisam com acuidade as políticas econômicas de governos tidos como “po
pulistas”, como Perón, Vargas e Goulart, constituindo-se no mais primário erro de meto
dologia: a generalização apressada. Ver Haines (2007), Loureiro (2009), Rougier (2012),
Monteiro e Fonseca (2012), Fonseca (2010, 2011, 2012), Mollo e Fonseca (2013).
59
está sempre em movimento, assim como o objeto a ser conceituado.
Entretanto, se nenhum conceito é defi nitivo, tampouco deles se pode
prescindir: sem categorias teóricas não é possível o trabalho científi co.
Se um conceito consensual lembra quimera, a necessidade de estabele
cer parâmetros mínimos contribui para evitar polêmicas desnecessá
rias, além de auxiliar no estudo do próprio objeto, pois a construção do
conceito exige lastro empírico antes do salto para a abstração, quando
“separa o joio do trigo” para defi nir o que deve ou não constar de seu
núcleo. Com desenvolvimentismo não é diferente: foram mostrados
sua origem e formação, seus usos na literatura e experiências históricas
que se pretendeu abarcar até chegar-se à conceituação.
Como ferramenta, o conceito de desenvolvimentismo pode servir
não só para estudos históricos, mas também para auxiliar a dirimir dú
vidas sobre casos limítrofes, vindo ao encontro do tema que está na
ordem do dia sobre seu possível retorno em vários países da América
Latina. Há certa convergência no entendimento segundo o qual, após
ter entrado em refl uxo nas duas últimas décadas do século XX, sob o
impulso da globalização e do neoliberalismo, governos mais críticos ou
não totalmente alinhados a estes foram eleitos em vários países latino--americanos. A pergunta sobre o retorno do desenvolvimentismo, as
sim como propostas para um “novo desenvolvimentismo”, sugere que o
mesmo é fenômeno enraizado (embedded) nas sociedades latino-ame
ricanas, arraigado como crença ou conjunto de valores (ou instituição,
no sentido vebleniano), capaz de sobreviver mesmo diante de conjun
turas francamente adversas e adaptar-se a novas circunstâncias – de
forma que seu conceito permanece necessário e útil como ferramenta
de análise e para designar algo que os usuários por certo entendem não
poder nomear tão bem de outra maneira.
A título de ilustração: quando se pergunta se governos como Kir
chner, Chávez ou Lula podem ser tipifi cados como desenvolvimentis
tas, não se está apenas atrás de um rótulo, mas tentando-se entender o
que os mesmos representam e signifi cam. A busca de respostas sugere
como apropriada a análise comparativa, por isso a pergunta se os três
governos podem ser vistos como manifestação de um mesmo fenôme
no (sem perder suas peculiaridades nacionais) ou três coisas completa
mente distintas. Destarte, se esses ou outros governos trazem de volta
protecionismo e controles de comércio exterior, deve-se atentar que,
embora aparentemente lembrem desenvolvimentismo, diante do con
60
ceito aqui formulado certamente isso não bastaria, pois essas políticas
podem ser mera reação à crise do balanço de pagamentos: fi cou esta
belecido que sem intencionalidade ou estratégia de desenvolvimento
não pode haver desenvolvimentismo, pois estes são atributos indispen
sáveis do core. A mesma precaução exige-se ao se analisar as políticas
econômicas implantadas por vários governos após a crise internacional
de 2008, pois a simples manipulação da demanda agregada diante de
adversidades do ciclo econômico é usual por policymakers mesmo afi
nados com o mainstream; o intervencionismo sem estratégia de longo
prazo não é sufi ciente para confi gurar desenvolvimentismo.
Da mesma forma, a melhoria na distribuição de renda e em outros in
dicadores sociais em vários países do subcontinente (CEPAL, 2010) per si
não basta para associá-la a desenvolvimentismo: redistribuição de renda
nem faz parte do core, além de ser atributo comum de governos tipifi
cados pela literatura através de outros conceitos (“socialistas”, “sociais--democratas”, “trabalhistas”). Poderia caracterizar um subtipo mediante
a “técnica do alongamento”, mas a extensão do conceito exige o compar
tilhamento do núcleo comum, como mostra a Figura 4. Assim, se a redis
tribuição de renda não estiver associada a um projeto de industrialização
e a um conjunto de medidas que confi gure uma estratégia para reverter
a estrutura produtiva no longo prazo, pode ser louvável e meritória, mas
difi cilmente se enquadra no conceito de “desenvolvimentismo”.
No caso brasileiro, o gargalo mais visível é a queda absoluta e/ou re
lativa do valor agregado da indústria no PIB, na geração de emprego e
nas exportações, fato que vem sendo nomeado pelos neologismos “de
sindustrialização” e “reprimarização”. O problema torna-se mais com
plexo porque se, por um lado, industrialização faz parte do core, por ou
tro lado, vários autores têm advogado com veemência que tal reversão
é tendência internacional, decorrente do atual padrão tecnológico, e a
exigência de constar do núcleo prendia-se à lógica da substituição de
importações, estando, portanto, historicamente superada. A solução
para isso seria partir para um conceito radial, mas isso exigiria tirar
a industrialização do core. Entretanto, outros autores com o mesmo
ardor têm resistido a isso21. A desindustrialização representa para es
tes uma ameaça de reversão imposta pelo mercado, uma “especializa
21 Embora a bibliografi a sobre o tema seja extensa, podem-se citar Rowthorn e Wells (1987),
Rowthorn e Ramaswany (1999), além dos mais recentes: Tregenna (2009), Palma (2007,
2011), Bresser-Pereira (2010), Medeiros (2011), Gonçalves (2012) e Bacha e Bolle (2013).
61
ção regressiva”, o oposto de um projeto ou estratégia para o país: em
decorrência, a extração da industrialização do core arrastaria consigo
outros atributos “inegociáveis” do conceito, como o projeto nacional
e a estratégia (intencionalidade e práxis). Cabe, ademais, ressaltar que
desindustrialização e reprimarização não podem ser reduzidas a faces
de uma mesma moeda: o crescimento da exportação de minérios e de
produtos agrícolas em atendimento à demanda chinesa em nada fere
o core do conceito, e poderia inclusive ser vista como oportunidade e
não como ameaça caso fosse inserida em um projeto ou estratégia de
desenvolvimento. A reprimarização da pauta de exportações, assim,
não necessariamente signifi ca desindustrialização, mesmo porque o
Brasil possui mercado interno robusto, e o superávit externo gerado
pela exportação de commodities poderia, em eventual projeto, tornar-se
variável relevante para alavancar o crescimento de setores de alta tec
nologia ou com distribuição de renda mais equânime. Deve-se, fi nal
mente, lembrar que essa polêmica em torno da desindustrialização não
é específi ca do caso brasileiro, pois se insere em uma controvérsia mais
ampla sobre o papel da indústria e de sua importância nos dias atuais
em comparação com a que teve no século XX, principalmente até me
ados da década de 1970. Se há certa concordância sobre a existência de
mudanças e de sua relevância, o mesmo não ocorre quando se debate
se o alcance e a envergadura das mesmas são sufi cientes para permitir a
exclusão da indústria do núcleo do conceito. Um desenvolvimentismo
sem incluir o Setor Industrial no projeto sugere para muitos autores
uma contradição (no sentido da lógica formal, e não dialética) ou um
fenômeno novo, acerca do qual não haveria razões sufi cientes para ser
abarcado pelo conceito de “desenvolvimentismo”, sob pena de subme
ter esse último a uma profunda descaracterização, com um ganho de
extensão que comprometeria cabalmente a intensão do conceito.
Para fi nalizar, deve-se enfrentar a pergunta frequente: cabe falar em
desenvolvimentismo hoje, ou a preocupação em conceituá-lo seria só
por razões de pesquisa histórica, uma vez que o mesmo está superado
diante das mudanças substantivas ocorridas na economia internacional
nas últimas décadas, com evidente impacto nas economias latino-ame
ricanas? Da forma como arquitetada, a pergunta espera a resposta nega
tiva, pois parece um truísmo referendado pelo bom-senso o chavão que
a história não volta atrás nem se repete – e é isso o que seu formulador
62
quer ouvir. Todavia, a pergunta soa como descabida e anacrônica dian
te da opção epistemológica e da metodologia aqui empregada. O uso
do termo teórico não constitui opção: encontra-se no debate cotidiano
dos economistas e dos policymakers, na academia, no setor público, nas
agências de fomento e na mídia, inclusive com larga frequência entre
aqueles criticam “a volta do desenvolvimentismo”. Se isso ocorre, é por
que o termo se faz necessário, portanto “historicamente é”. A síntese de
Hegel de que “o real é o que se impõe como tal”, independentemente
de desejos, caprichos ou vontades individuais, impõe-se aqui com toda
a sua força retórica. Condenar seu uso “em nova realidade histórica”
refl ete o mal metafísico de entender os conceitos como fi xados para
sempre, em consonância com a essência imutável aristotélico-tomista,
em esquecer seu movimento, sua vida e sua capacidade de adaptação
para abarcar fatos novos, ou seja, sua historicidade e a criatividade dos
usuários em inovar com subtipos e conceitos radiais. Isso ocorre com
vários conceitos usados pelos economistas e cientistas sociais e não se
ria diferente com desenvolvimentismo. Termos teóricos como “capita
lismo” e “liberalismo”, por exemplo, permanecem em uso há séculos,
por mais que o capitalismo ou o liberalismo de hoje sejam diferentes da
época em que os conceitos começaram a ser usados, mesmo que subti
pos e conceitos radiais tenham proliferado (”capitalismo monopolista”,
“de Estado”, “regulado”; “neoliberalismo”, “social-liberalismo”, etc.).
A pergunta a ser feita, portanto, é outra: por que determinados termos
teóricos persistem, mesmo quando certas condições históricas nas quais
apareceram tenham se alterado? No caso de “desenvolvimentismo”, a res
posta parece simples: as condições históricas que deram ensejo a seu apa
recimento – manifestas sob diferentes formas e com termos diferentes,
como antes se mostrou, como consciência do “atraso”, do “subdesenvol
vimento”, dos “problemas estruturais” ou da “dependência” – não foram
superadas. Enquanto persistirem essas condições parece improvável que
o termo caia em desuso e não granjeie adeptos, embora seu programa
como projeto de superação do status quo exija permanente reatualização.
63
64
Anexo
Quadro 1. Governos desenvolvimentistas: atributos selecionados
Legenda: S= sim, N = não; 1 = projeto nacional; 2 = intervenção estatal; 3 = industrialização; 4 = socialismo;
5 = capital estrangeiro; 6 = burocracia; 7 = reforma agrária; 8 = redistribuição de renda; 9 = planejamento;
10 = banco de desenvolvimento.
Presidentes País, Período 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Juan Domingo Perón AR, 1946-55 S S S/N N N N S S N S
Arturo Frondizi AR, 1958-62 S S S N S N N N S N
Juan Carlos Ongania Carballo AR, 1966-70 S S S N S S N N N N
Roberto Marcelo Levingston AR, 1970-71 S S S N N S N N S S
Getulio Vargas (1o gov.) BR, 1930-45 S S S N N S N N N N
Getulio Vargas (2o gov.) BR, 1951-54 S S S N N S N S N S
Juscelino Kubitschek BR, 1956-61 S S S N S S N N S S
João Goulart BR, 1961-64 S S S N N S S S S S
Emilio Garrastazu Médici BR, 1969-74 S S S N S S N N S S
Ernesto Geisel BR, 1974-79 S S S N S S N N S S
Pedro Aguirre Cerda CH, 1939-41 S S S N N S S N S S
Juan Antonio Rios CH, 1942-46 S S S N N S S N S S
Gabriel González Videla CH, 1947-52 S S S N S S N S S S
Carlos Ibáñes del Campo (2o gov.) CH, 1953-58 S S S N S S N N N S
Eduardo Frei Montalva CH, 1965-70 S S S N S S S S S N
Alfonso López Pumarejo (1o gov.) CO, 1934-38 S S S N N N S S N N
Alfonso López Pumarejo (2o gov.) CO, 1942-45 S S S N N S N S N S
Alberto Lleras Camargo CO, 1958-62 S S S N N S N N S S
Gustavo Rojas Pinilla CO, 1953-57 S S S N N S N N S S
Carlos Lleras Restrepo CO, 1966-70 S S S N N S S S S S
Lázaro Cárdenas del Rio ME, 1934-40 S S S N S S S S S S
Manuel Ávila Camacho ME, 1940-46 S S S N S S S N S S
Miguel Alemán Valdés ME, 1946-52 S S S N S S S N S S
Adolfo Ruiz Cortines ME, 1952-58 S S S N S S S N S S
Adolfo López Mateos ME, 1958-64 S S S N S S N N S S
Óscar Benavides PE, 1933-39 S S S N S N N N N N
Fernando Belaúnde Terry PE, 1963-68 S S S N S S S S S N
Manuel Odría PE, 1948-56 S S S N S N N N N S
Juan Velasco Alvarado PE, 1968-75 S S S N N S S S N S
Luis Batlle Berres UR, 1947-51 S S S N S S N S S N
Conselho Nacional de Governo (1) UR, 1959-63 S S S N S S N N S S
Conselho Nacional de Governo (2) UR, 1963-67 S S S N S S N N S S
Rómulo Betancourt VE, 1959-64 S S S N S N S S N N
Raúl Leoni VE, 1964-69 S S S N S N S S N N
Total de “SIM” (%) 100 100 100 0 62 79 44 41 65 71
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O desenvolvimentismo é uma teoria e política econômica que aposta no crescimento da produção industrial e da infraestrutura por meio da forte atuação do Estado.O que é o Desenvolvimentismo?Papel do Estado: O governo atua como o principal indutor da economia, coordenando setores estratégicos e investindo em infraestrutura.Foco Produtivo: Prioriza a industrialização e a substituição de importações para superar o atraso econômico.Contexto no Brasil: Teve grande força a partir da Revolução de 1930 e marcou o governo de Juscelino Kubitschek (1956–1961).
NSAIO
Pobreza, desigualdade e políticas públicas:
caracterizando e problematizando a realidade
brasileira
Maria Ozanira da Silva e Silva
Universidade Federal do Maranhão (UFMA)
Pobreza, desigualdade e políticas públicas: caracterizando e problematizando a realidade brasileira
Resumo: Este artigo traz reflexões sobre as categorias pobreza, desigualdade e exclusão social como referências teóricas para analisar a
política social. Traz com destaque as categorias pobreza e desigualdade para resgatar a implantação e o desenvolvimento das políticas
públicas de corte social no Brasil. Para tanto, considera o quadro social brasileiro e os programas sociais direcionados, historicamente,
para o enfrentamento da pobreza no país. Nesse contexto, enfatiza a conjuntura recente com indicação do declínio nos índices de pobreza
e desigualdade social e da elevação dos recursos orçamentários para financiamento dos programas sociais, mormente após a Constituição
Federal de 1988. Desenvolve uma problematização sobre os programas sociais implementados no Brasil para enfrentamento da pobreza
e da desigualdade social, apontando seus limites e a centralidade dos programas de transferência de renda para a proteção social.
Palavras-chave: pobreza, desigualdade social, exclusão social, política social.
Poverty, Inequality and Public Policies: Characterizing and Analyzing the Brazilian Reality
Abstract: This article reflects on the categories of poverty, inequality and social exclusion as theoretical references to analyze social
policy. It highlights the issues of poverty and inequality to review the implementation and development of public social policies in
Brazil. It analyzes Brazil’s social situation and social programs historically aimed at confronting poverty in the country. It emphasizes
the recent conjuncture that indicates a decline in rates of poverty and social inequality and increased budget resources for financing social
programs, particularly since enactment of the federal Constitution of 1988. It analyzes social programs implemented in Brazil to
confront poverty and social inequality, indicating their limits and the importance of income transfer programs for social protection.
Key words: poverty, social inequality, social exclusion, social policy.
Recebido em 24.02.2010. Aprovado em 10.06.2010.
Rev. Katál. Florianópolis v. 13 n. 2 p. 155-163 jul./dez. 2010
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Maria Ozanira da Silva e Silva
Introdução
Neste texto desenvolvo uma reflexão sobre as cate
gorias pobreza, desigualdade e exclusão social enquan
to referências teóricas que têm orientado a formulação
e a implementação de políticas públicas de corte social
no Brasil. A reflexão leva-me a optar pela pertinência
da categoria pobreza, para me referir à realidade
socioeconômica da sociedade brasileira. Isso, por con
siderar a indeterminação e a amplitude do conceito de
exclusão social para qualificar as situações de deterio
ração no campo econômico e da proteção social em
países de capitalismo avançado, mormente identificadas
e expandidas no contexto da reestruturação capitalista,
com prevalência nos anos 1980 e 1990.
Como é considerada neste artigo, a pobreza as
sume no Brasil uma dimensão abrangente, evidenci
ando um quadro amplo para intervenção de políticas
públicas de corte social, entendendo que as políticas
sociais, para serem mais eficazes, devem estar arti
culadas a políticas macroeconômicas que garantam
um crescimento econômico sustentado; a geração de
emprego; a elevação da renda proveniente do traba
lho e, sobretudo, a redistribuição de renda ainda alta
mente concentrada no Brasil.
Identifica-se um consenso, tanto no campo aca
dêmico como entre políticos de todas as matizes ide
ológicas e partidárias, que a pobreza no Brasil decor
re, em grande parte, de um quadro de extrema desi
gualdade, marcado por profunda concentração de
renda. Essa situação coloca o Brasil entre os países
de maior concentração de renda no mundo, apesar
do declínio nesse índice que se vem registrando, con
forme é considerado no presente artigo.
O artigo aborda, a seguir, o conceito de exclusão
social e pobreza para referenciar a análise das políti
cas sociais desenvolvidas para a melhoria do quadro
social no Brasil.
1 Exclusão social e pobreza como referências
para as políticas públicas no Brasil
Parto do entendimento de que o pleno emprego é
incompatível com o processo de acumulação gerado
nas formações sociais capitalistas. Nesse sentido, a
produção de acumulação capitalista, baseada na ex
ploração, é estruturalmente excludente (MARX, 1980).
Esse aspecto é demonstrado por Marx em suas aná
lises sobre o processo de produção do capital. Como
admite Sposati (1999), a exclusão não é um fenôme
no novo. Decorre do processo de acumulação capi
talista, apresentando caráter estrutural com agrava
mentos cíclicos, portanto, é próprio da sociedade ca
pitalista incluir e excluir.
Todavia, coloco a pertinência ou não do conceito
de exclusão social para compreensão do quadro so
cial brasileiro. Assim, falar de exclusão social nos
remete ao debate europeu, mais especificamente ao
debate francês, destacando-se Paugan e Castel.
Ambos criticam o conceito de exclusão social por
ser portador de indeterminação e consideram a neces
sidade de recorrência a conceitos como “desfiliação
social” e “desqualificação social” para atribuir uma
dimensão de processo ao conceito de exclusão soci
al.
O ponto central do debate refere-se à amplitude
do conceito de exclusão social, utilizado para desig
nar pessoas e grupos vivenciando as mais diversas
situações, desfiliados para Castel e desqualificados
para Paugan. Assim, exclusão refere-se a minorias,
(negros, homossexuais, pessoas com deficiência),
favelados, meninos de rua, catadores de lixo etc.
(VÉRAS, 1999, p. 14), escamoteando o caráter pro
cessual e dinâmico das situações e sua natureza es
trutural e multidimensional.
Paugan (1999), na sua abordagem sobre a exclu
são social, considera esse conceito o centro do deba
te social e político, principalmente na Europa. Desta
ca o uso variado e impreciso do termo. Ressalta o
uso prevalente da categoria “nova pobreza” nos anos
1980, substituída pela categoria exclusão social nos
anos 1990, em especial, na França. Essa categoria é
utilizada para designar processos que alcançam ca
madas da população, em razão de mudanças que pro
duzem acúmulo progressivo de dificuldades, decor
rentes principalmente do desemprego prolongado e
da precarização do trabalho. Trata-se de um proces
so que desfaz os vínculos sociais, sendo proposto pelo
autor o conceito de “desqualificação social” para
complementar uma compreensão mais adequada do
que vem sendo denominado de exclusão social. O
autor ressalva que o conceito de desqualificação so
cial não pode ser generalizado por referir-se a países
desenvolvidos que apresentam forte degradação do
mercado de trabalho, considerando que as pessoas
já conheceram situações melhores, sentindo-se hu
milhadas por recorrer à assistência. Assim, a partir
de estudos empíricos, Paugan (1999, p. 63) compre
ende a desqualificação social como o “processo de
expulsão do mercado de trabalho e as experiências
vividas em relação com a assistência que os acom
panham em diferentes fases”.
Castel, tratando do que denomina de armadilhas
da exclusão, desenvolve críticas sobre o que consi
dera imposição do conceito de exclusão social para
definir todas as modalidades de miséria do mundo: o
desempregado de longa duração, o jovem da perife
ria, o sem domicílio fixo etc. (CASTEL, 2000). Assim,
o autor propõe uso reservado ou a substituição do
conceito de exclusão pelo que denomina de
“desfiliação social” para designar o desfecho do pro
cesso de transição da integração para a vulne
rabilidade. Portanto, não se trata de “zonas” estáti
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cas, mas de um processo, podendo existir indigência
integrada, no caso das populações assistidas. Assim,
a dimensão econômica não é o diferenciador essen
cial, devendo ser considerada em articulação com a
proteção social (CASTEL, 1999, p. 25).
Portanto, como vem sendo colocado no debate
francês, a exclusão social é uma expressão da reali
dade dos países desenvolvidos, sobretudo, do final do
século 20, com a manifestação de grande elevação
do desemprego, agravada pela progressiva
precarização do trabalho e pelo afrouxamento da pro
teção social, que marcaram uma crise da sociedade
salarial (CASTEL, 1999), com quebra da cidadania,
visto que “não se nasce excluído, não se esteve sem
pre excluído” (CASTEL, 2000, p. 22).
No Brasil, o que se tem é um grande contingente
populacional que sempre esteve à margem da socie
dade; que nunca teve inserção no trabalho formal
nem participou da sociabilidade ordinária. Não ser
incluído é uma condição estrutural que tem marcado
gerações após gerações. Falar de exclusão social no
Brasil seria admitir uma “perda virtual de uma condi
ção nunca alcançada” (SPOSATI, 1999, p. 133). Tem
se uma sociedade, no dizer de KOWARICK (1999),
extremamente marginalizadora do ponto de vista eco
nômico e social que tem constituído massas de tra
balhadores autônomos ou assalariados com rendimen
tos ínfimos que os levam a uma vida precária e sem
proteção social, considerados potencialmente perigo
sos. De modo que, no Brasil, a pobreza aprofundou
se como consequência de um desenvolvimento
concentrador da riqueza socialmente produzida e dos
espaços territoriais, representados pelos grandes la
tifúndios no meio rural, e pela especulação imobiliá
ria no meio urbano. Tem raízes na formação sócio
histórica e econômica da sociedade brasileira.
Considerando o limite da categoria exclusão soci
al para compreensão do quadro social brasileiro, pro
ponho a categoria pobreza para proceder a análise
das políticas públicas.
A temática da pobreza tem sido objeto de preocu
pação no campo teórico-conceitual e de intervenção
social, verificando-se explicações sobre a emergên
cia, persistência e sua ampliação globalizada. Nesse
processo, sua redução ou regulação é considerada
necessária para permitir a manutenção do sistema
de produção capitalista.
O pressuposto da carência, da escassez de meios
de subsistência é recorrentemente utilizado para qua
lificar a pobreza estrutural e a desvantagem em rela
ção a um padrão ou nível de vida dominante, pobreza
relativa (SILVA, 2003, p. 234). Entrentanto, no campo
teórico-conceitual sobre a pobreza, identificam-se di
ferentes concepções que orientam a construção e a
implementação de alternativas de políticas públicas.
Entre as concepções explicativas e inspiradoras
de políticas de intervenção sobre a pobreza1, têm-se
as abordagens culturalistas que centralizam sua ex
plicação nos comportamentos e valores dos indivídu
os e suas famílias. Orientam-se por valores morais
tradicionais que situam o pobre como diferente e por
tador de uma cultura inferior reprodutora da situação
de pobreza dos adultos e de seus descendentes
(KATZ, 1989).
É, porém, o paradigma de inspiração liberal, nas
suas diferentes variações, o mais recorrente nas ex
plicações e nas orientações de políticas públicas na
sociedade capitalista. Nesse campo, o mercado se
configura como o espaço natural de satisfação das
necessidades econômicas e sociais dos indivíduos,
sendo as políticas públicas reduzidas a ações residu
ais ou marginais, compensatórias, tendo em vista o
alívio de situações de pobreza extrema.
Todavia, entendo que as abordagens estruturais,
que buscam as explicações da pobreza nas determi
nações estruturais, constituem campo mais fértil para
sua explicação. Considero que categorias como clas
ses sociais, exército industrial de reserva, lumpem
proletariado, exploração e desigualdade (SILVA, 2002,
p. 79) são profícuas para explicar a pobreza na
contemporaneidade. O entendimento é de que o sis
tema de produção capitalista, centrado na expropria
ção e na exploração para garantir a mais valia, e a
repartição injusta e desigual da renda nacional entre
as classes sociais são responsáveis pela instituição
de um processo excludente, gerador e reprodutor da
pobreza, entendida enquanto fenômeno estrutural,
complexo, de natureza multidimensional, relativo, não
podendo ser considerada como mera insuficiência de
renda. É também desigualdade na distribuição da ri
queza socialmente produzida; é não acesso a servi
ços básicos; à informação; ao trabalho e a uma ren
da digna; é não participação social e política. Esse
entendimento permite desvelar valores e concepções
inspiradoras das políticas públicas de intervenção nas
situações de pobreza e as possibilidades de sua redu
ção, superação ou apenas regulação.
2 Enfrentamento da pobreza no Brasil:
políticas públicas de corte social
Em estudos anteriores sobre as políticas sociais,
(SILVA, 2001, 2003, 2005; SILVA et al., 2007), oriento
me pelo pressuposto de que no desenvolvimento da
Política Social brasileira tem-se um conjunto amplo e
variado, mas descontínuo e insuficiente, de programas
sociais direcionados para segmentos empobrecidos da
população. Essas medidas de intervenção não são
configuradas como estratégia de caráter global para
enfrentamento da pobreza no país (DRAIBE, 1995),
embora esse quadro venha se modificando a partir,
sobretudo, dos anos 2000. Nesse sentido, a política
social no Brasil tem assumido uma perspectiva margi
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nal e assistencialista, desvinculada das questões
macroeconômicas, servindo mais para regulação ou
administração da pobreza num dado patamar.
Até os anos 1980, no Brasil, a “cidadania” limita
va-se aos trabalhadores inseridos no mercado for
mal de trabalho, “cidadania regulada” (SANTOS,
1987). Esse quadro começa a ser alterado com a
instituição da Seguridade Social, introduzida na Cons
tituição Federal de 1988, em decorrência de lutas
sociais pela ampliação e universalização de direitos
sociais. Contudo, a crise fiscal do Estado nos anos
1980 e a adoção do Projeto Neoliberal, nos anos 1990,
abriram espaço para programas focalizados na po
pulação pobre.
Mesmo com a universalização das atenções pri
márias de saúde e do ensino fundamental, estas não
alcançaram patamar desejável de universalização. A
consequência foi a expansão do ensino privado e de
planos de saúde contratados principalmente por pes
soas da classe média, com recente ampliação entre
segmentos de poderes aquisitivos muito baixos.
No campo da alimentação e da nutrição foram
registradas algumas medidas, direcionadas principal
mente para os trabalhadores do mercado formal, por
terem sido assumidas por empresas privadas e públi
cas que instituíram o cupom alimentação para seus
empregados. Nesse campo, pode ser considerado
exceção o programa da Merenda Escolar, destinado
a crianças que frequentam escolas públicas, impor
tante reforço para a nutrição e a aprendizagem de
milhões de crianças pobres (SILVA et al., 2007).
Chegamos aos anos 1990 com uma política de as
sistência social federal centralizada no então Ministé
rio de Bem-Estar Social, assumida pela Legião Brasi
leira de Assistência (LBA) e pelo Centro Brasileiro
para a Infância e Adolescência (CBIA), extintos em
1995 sob a alegação do vício da máquina administrati
va marcada pela corrupção e o clientelismo.
Com a Constituição Federal de 1988 é que come
çam a se desenvolver, na prática, tendências de
descentralização e de municipalização, colocadas na
agenda política brasileira pela luta dos movimentos
sociais dos anos 1980.
A Assistência Social, política não contributiva, que,
juntamente com a Saúde, política que se propõe uni
versal, e a Previdência Social, política contributiva,
passam a constituir a Seguridade Social preconizada
pela referida Constituição.
No campo das políticas públicas direcionadas ao
enfrentamento da pobreza no Brasil, a ampliação do
benefício mínimo da Previdência Social para traba
lhadores urbanos e rurais para um salário mínimo e a
extensão da aposentadoria para os trabalhadores ru
rais, independentemente de contribuição passada,
representam medidas de significativo impacto na vida
de amplo contingente da população brasileira. A apo
sentadoria social rural constitui-se, na atualidade, na
principal política de enfrentamento à pobreza no cam
po, atendendo a 7,8 milhões de trabalhadores rurais,
em 2008, dos quais apenas cerca de 10% contribuí
ram para a Previdência Social. Ao lado da aposenta
doria social rural, merece destaque o Benefício de
Prestação Continuada (BPC), criado em 1993, no
âmbito da Lei Orgânica de Assistência Social, inici
ando-se sua implementação a partir de 1996. Trata
se de um benefício de caráter não contributivo, para
pessoas idosas a partir de 65 anos de idade e para
pessoas com deficiência, incapacitadas para o traba
lho. Ambos, idosos e pessoas com deficiência, de
vem viver em famílias com uma renda per capita
familiar de até ¼ do salário mínimo (em 2010, R$
127,50). O público atendido por esse programa, em
2008, foi de 3,4 milhões de pessoas, sendo 1,8 milhão
de deficientes e 1,6 milhão de idosos com 65 anos ou
mais (IPEA, 2010).
Em relação ao trabalho, cabe destaque ao seguro
desemprego com 6,9 milhões de trabalhadores aten
didos em 2008 e o abono PIS/PASEP, no mesmo ano,
com 8,4 milhões de trabalhadores atendidos com ren
da de até dois salários mínimos, referente a 2007
(IPEA, 2010).
Nos anos 1990, há que se destacar o Plano de
Combate à Fome e a Miséria (PCFM), criado em
1993, pelo Presidente Itamar Franco (1993-1994),
direcionado ao enfrentamento da fome, da pobreza e
da indigência. Direcionou-se a 32 milhões de indi
gentes diagnosticados pelo Mapa da Fome, desen
volvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Apli
cada (IPEA)2.
O PCFM foi interrompido no início do primeiro
mandato do governo do presidente Fernando
Henrique Cardoso (1995-1998), sendo criado o Pro
grama Comunidade Solidária, a principal estratégia
para enfrentamento da pobreza nesse governo. Se
ria uma nova estratégia para enfrentar a pobreza e a
exclusão social, mediante a articulação de ações já
desenvolvidas por diferentes Ministérios, numa pers
pectiva descentralizada e com a participação e par
ceria da sociedade (SILVA, 2001). Visava incentivar
ações em duas frentes: atribuição de um selo de pri
oridade e gerenciamento de programas de diferentes
Ministérios que tivessem maior potencialidade de
impacto sobre a pobreza e identificação dos municí
pios que apresentassem maior concentração de po
breza, onde os programas seriam desenvolvidos.
Percebida a limitada eficácia do Comunidade Soli
dária no enfrentamento da pobreza no Brasil, foi cria
do, em julho de 1999, o Programa Comunidade Ativa.
A proposta era construir uma agenda local integrada
por programas indicados pela comunidade com poste
rior implementação dos programas agendados, com
parceria dos governos federal, estadual e municipal e
da comunidade. O entendimento dos idealizadores
dessa proposta era de que, com a indução do desen
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volvimento local, integrado e sustentável de municípi
os pobres, seria possível superar o assistencialismo na
política de enfrentamento à pobreza.
Dando prosseguimento às medidas de políticas
públicas de enfrentamento à pobreza, em junho de
2001, foi criado o Fundo de Combate à Pobreza. Esse
Fundo passou a financiar programas de transferên
cia de renda associados à educação e a ações de
saneamento, consideradas áreas de maior impacto
sobre a pobreza. Os programas de transferência de
renda passam a constituir o eixo central da proteção
social no país, com ampliação de programas fede
rais, como o Bolsa Escola3 e o Bolsa Alimentação4.
No mesmo ano foi criado o Programa de Com
bate à Miséria, conhecido como Índice de Desenvol
vimento Humano (IDH-14), que, posteriormente,
passou a ser chamado de Projeto Alvorada. Esse foi
um programa direcionado, prioritariamente, aos
bolsões de miséria das Regiões Norte e Nordeste, as
regiões mais pobres do país, depois estendido para
outros estados com municípios de IDH inferior a 0,500
(SILVA et al., 2007).
A partir de 2001, o governo de Fernando Henrique
Cardoso, que vinha dando pouca atenção a ações de
políticas sociais, priorizando o ajustamento da econo
mia brasileira para inserção do país na economia
globalizada, numa clara opção pelo projeto neoliberal,
passou a se interessar pela organização de uma “Rede
de Proteção Social” formada por 12 programas, todos
situados no campo da transferência de renda para fa
mílias ou indivíduos (SILVA, YAZBEK; GIOVANNI, 2008).
Nesse processo de construção de políticas públi
cas para enfrentamento da pobreza no Brasil, o ano
de 2003, quando se iniciou seu primeiro mandato, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006), no
discurso de posse, comprometeu-se a enfrentar a
fome e a pobreza no país. Para isso, anunciou como
principal estratégia o Fome Zero5. No âmbito dessa
estratégia, os programas de transferência de renda
assumem cada vez mais a centralidade para o
enfrentamento da pobreza, sendo criado o Bolsa Fa
mília, em 2003.
O Bolsa Família é o maior programa de trans
ferência de renda em implementação no Brasil,
com implementação descentralizada em todos os
municípios.
Propõe-se a proteger o grupo familiar, com aten
dimento de famílias extremamente pobres, com ren
da per capita mensal de até R$ 70 com qualquer
composição, e famílias pobres, com renda per capita
mensal entre R$ 70 a R$ 140 desde que tenham ges
tantes, nutrizes, ou crianças e adolescentes entre 0 a
17 anos. As famílias extremamente pobres recebem
um benefício básico de R$ 68 podendo receber um
benefício variável de mais R$ 22 por cada filho de
até 15 anos de idade, até três filhos. As famílias po
bres recebem uma transferência monetária variável
de até R$ 66 ou seja, R$ 22 mensais por cada filho
de até 15 anos de idade, considerando no máximo
três filhos.6 As famílias pobres e extremamente po
bres, com adolescentes de 16 e 17 anos, recebem
um adicional de R$ 33 por até dois adolescentes, desde
que continuem frequentando a escola. As famílias
têm liberdade na aplicação do dinheiro recebido e
podem permanecer no Programa, enquanto houver a
manutenção dos critérios de elegibilidade e forem
cumpridas as condicionalidades de manutenção de
crianças e adolescentes de 7 a 15 anos na escola;
frequência regular de crianças de 0 a 6 anos aos postos
de saúde e realização do pré-natal pelas mulheres
gestantes.
O Bolsa Família propõe articular a transferência
monetária a ações complementares mediante articu
lação com outros programas de natureza estruturante,
com destaque para a educação, saúde e trabalho.
Segundo informações acessadas no site do MDS
(www.mds.gov.br), em 09/06/2010 eram atendidas
12.548.861 famílias pobres ou extremamente pobres
com renda per capita familiar de até R$ 120. O or
çamento do Bolsa Família em 2009 foi de R$ 10,9
bilhões, sendo previsto para 2010 um orçamento de
R$ 12 bilhões, o que representa um crescimento de
10% sobre o orçamento de 2009.
Muitos estudos têm procurado dimensionar o im
pacto do Bolsa Família, evidenciando uma significa
tiva e contínua diminuição da pobreza e da desigual
dade no país desde 2001. Barros et al. (2007a) apon
tam que o Índice de Gini, uma das medidas da desi
gualdade mais usadas no mundo, registrou declínio
de 4,6% no Brasil, passando de 0.594 em 2001 para
0.566 em 2005. Esse foi o maior declínio da desigual
dade nos últimos 30 anos. Barros et al. (2007b), em
outro estudo, identificaram que de 2001 a 2005 a renda
anual no Brasil apresentou um discreto crescimento
de 0,9%, mas beneficiou sobretudo a população po
bre. No mesmo período, o índice de crescimento da
renda dos 10% e dos 20% mais ricos da população
foi negativo (-0,3% e -0,1%, respectivamente), en
quanto o crescimento da renda dos 10% mais pobres
foi de 8% ao ano. Esse aspecto contribuiu para o
declínio do Índice de Gini em 4,6% de 2001 para 2005.
É importante considerar que, pela primeira vez no
Brasil, a pobreza foi reduzida em decorrência, sobre
tudo, da redução da desigualdade, permitindo que os
índices de pobreza e de extrema pobreza diminuís
sem 4,5%, cada um, naquele período.
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
(PNAD) 2006 (IBGE, 2007) identificou que o Índice
de Gini caiu de 0,547 em 2004 para 0,543 em 2005 e
0,540 em 2006, registrando em 2007, 0,528. Todavia,
apesar desse declínio, a renda do trabalho continuou
muito concentrada. Em 2006, os 10% da população
inserida no mercado de trabalho, de renda mais bai
xa, detinham somente 1% do total da renda. Ao mes
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mo tempo, os 10% dos trabalhadores com renda mais
alta detinham 44,4% da renda total do trabalho. Isso
significa que, mesmo com declínio nos índices de
desigualdade e pobreza, o Brasil ainda se situa numa
posição internacional negativa, abaixo dos 5% mais
desiguais num ranking de 74 países, sendo preciso
mais 20 anos para alcançar posição similar se com
parado à média dos países com maior ou menor nível
de desigualdade (BARROS et al., 2007a).
Considerando a PNAD 2007 (IBGE, 2008), os
indicadores do trabalho no Brasil indicavam que a
distribuição percentual por classe de rendimento
mensal familiar per capita nos arranjos familiares
dos domicílios particulares, em salário mínimo, teve o
seguinte comportamento: 23,5% ganhavam até meio
salário mínimo; 27,0%, mais de meio a um salário
mínimo; 24,3%, mais de um a dois salários mínimos;
8,2%, mais de dois a três salários mínimos; 6,2% mais
de três a cinco salários mínimos e 5,5% mais de cin
co salários mínimos. Esses dados demonstram a
disparidade da distribuição do rendimento mensal fa
miliar per capita nos arranjos familiares residentes
em domicílios particulares, se considerados os dois
extremos. Nos rendimentos de até um salário míni
mo, tem-se a metade dos arranjos familiares (50,5%).
A situação relativa se mantém em relação à distri
buição do rendimento mensal familiar per capita nos
arranjos familiares residentes em domicílios particu
lares de mais de cinco salários mínimos (5,5%).
A situação acima reafirma-se quando é consi
derada a distribuição por classe de rendimento mé
dio mensal familiar per capita em salários mínimos:
até meio salário mínimo, 30%; mais de meio a um
salário mínimo, 27%; mais de um a dois salários mí
nimos, 22%; mais de dois a três salários mínimos,
7,1%; mais de três a cinco salários mínimos, 5,2% e
mais de cinco salários mínimos, 4,1%. Esses dados
demonstram que, mesmo em declínio, a situação de
pobreza continuava elevada, apesar de se verificar
que os rendimentos dos indivíduos e das famílias vi
nham acumulando ganhos reais desde 2005 e o salá
rio mínimo vinha sendo reajustado em patamares su
periores à inflação.
Convém ressaltar que são apontadas como cau
sas dos declínios da desigualdade e da pobreza no
Brasil nos anos recentes: a contribuição dos progra
mas de transferência de renda; o crescimento real
do salário mínimo, a estabilidade da economia e os
benefícios da previdência social (BARROS et al.,
2006; SOARES; RIBAS; OSÓRIO, 2007).
Estudo desenvolvido pelo IPEA em 2008 (IPEA,
2008) sobre a pobreza e a riqueza nas seis maiores
metrópoles urbanas no Brasil7 reafirma a tendência
antes indicada, demonstrando que o crescimento pro
dutivo do país foi acompanhado, no período 2003 a
2007, pela melhoria da renda de todas as famílias,
com diminuição do número de pobres, tendência
mantida em 2008. O número de pobres caiu de 35,0%
em 2003 para 24,1%, em 2008. Foi ainda mais signi
ficativa no período a diminuição do número de indi
gentes, de 48,3% para 43,8% de 2003 a 2008. O es
tudo aponta como causas para redução da pobreza e
da indigência o crescimento econômico, ganho real
do salário mínimo e o dinheiro transferido do governo
para os pobres.
Em outro estudo também realizado pelo IPEA,
nas mesmas seis metrópoles, sobre desigualdade e
pobreza metropolitana durante a crise internacional
(IPEA, 2009), verificou-se que o Índice de Gini, entre
janeiro (0,514) a junho de 2009 (0,493) caiu 4,1%.
Em relação à pobreza, o estudo demonstrou que, no
período de março de 2002 (42,5%) a junho de 2009
(31,1%), a taxa de pobreza do Brasil metropolitano
caiu 26,8%. O estudo sustenta que a transferência
monetária do governo aos pobres pode ter contribuí
do para essa realidade.
Complementando a análise acima, a pesquisa rea
lizada pelo IPEA (IPEA, 2010)8 sobre pobreza, desi
gualdade de renda e políticas públicas no mundo e no
Brasil nos anos recentes aponta como causas da dimi
nuição consistente da pobreza e da desigualdade, uma
combinação de fatores: continuidade da estabilidade
monetária, a maior expansão econômica e o reforço
das políticas públicas, com destaque à elevação real
do salário mínimo, a ampliação do crédito popular,
reformulação e alargamento dos programas de trans
ferência de renda aos extratos de menor rendimento.
O estudo considera que o Brasil se destaca no
cenário mundial, apesar de não ser um país que te
nha registrado o mais rápido decréscimo das taxas
de pobreza e de desigualdade de renda até 2005, por
vir conseguindo diminuir, ao mesmo tempo, ambas as
taxas, observando-se maior redução da pobreza do
que da desigualdade. Assim, mantida a tendência, o
Brasil pode superar a pobreza absoluta; reduzir para
4% a taxa nacional de pobreza e o Índice de Geni
poderá ficar em 0,488, até 2016, colocando o Brasil
no patamar dos países desenvolvidos (IPEA, 2010).
O estudo mencionado sustenta a realidade
indicada mediante os seguintes dados: entre 1995 e
2008, a queda média anual da taxa nacional de po
breza absoluta (até meio salário mínimo per capita)
foi -0,8% a. a., sendo que no período mais recente
de 2003/2008, a taxa anual foi de -3,1%. A taxa
nacional de pobreza extrema (até ¼ do salário mí
nimo per capita) foi de -2,1% a. a. Essa situação
se registrou após a aprovação da Constituição Fe
deral de 2008 que permitiu a elevação do gasto so
cial em relação ao PIB, de 13,3% em 1985, para
21,9% em 2005, com destaque à elevação da parti
cipação dos municípios de 10,6% para 16,3%, re
sultante do movimento de descentralização da polí
tica social e da participação social na formulação e
gestão das políticas sociais brasileiras. Todavia, o
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Pobreza, desigualdade e políticas públicas: caracterizando e problematizando a realidade brasileira
161
mesmo estudo aponta alguns aspectos que devem ser
considerados para permitir as perspectivas socioeco
nômicas brasileiras positivas, tais como: sustentabilida
de de uma taxa elevada de
crescimento econômico e de
baixainflação com orientação
do crescimento para produção
de bens e serviços, com mai
or valor agregado e de eleva
do e avançado conteúdo
tecnológico; alteração do pa
drão tributário extremamente
regressivo, onerando mais a
base da pirâmide social; alte
ração no uso do fundo públi
co; incremento de infraes
trutura adequada em todo o
país e elevação da eficácia na
utilização dos recursos públi
cos. Ademais, o estudo des
taca as deficiências relaciona
das à coordenação, integração
e articulação matricial no con
junto das políticas públicas, em
termos horizontais ainda
identificadas no Brasil.
O estudo destaca nas suas considerações finais a
necessidade de consolidar institucionalmente o qua
dro geral das leis sociais no Brasil, para elevar o pa
drão e qualificar a intervenção do Estado no campo
social, de modo a regular a responsabilidade e o com
promisso social com metas, recursos, cronograma e
coordenação de programas.
São políticas e programas que
têm, até, incluído pessoas nos
processos econômicos de
produção e de consumo.
Contudo, é uma integração da
pobreza e da indigência de
modo marginal e precário,
criando um segmento de
indigentes ou de pobres
“integrados”, mantidos na
situação de mera reprodução.
Conclusão
A análise do quadro social brasileiro evidencia sig
nificativa persistência da pobreza e da desigualdade
social, com diminuição nesses índices, com medidas
adotadas a partir da Constituição brasileira de 1988.
Tem-se nos últimos anos a possibilidade de supera
ção da indigência, embora a pobreza, mesmo que di
minuindo de modo mais significativo do que a desi
gualdade social, pareça vir sendo apenas administra
da e controlada.
O desafio é a manutenção de níveis significativos
e sustentáveis de crescimento econômico; o controle
da inflação; o desenvolvimento de serviços de
infraestrutura básica com oferta de serviços básicos
de modo ampliado e democrático para toda a popula
ção brasileira. Os gastos sociais, mesmo se amplian
do, precisam chegar melhor aos mais necessitados, e
as políticas sociais carecem de maior articulação
entre si e com a política macroeconômica de gera
ção de emprego e de distribuição da renda social
mente produzida.
Uma análise das políticas sociais no Brasil revela,
em primeiro plano, a adoção de programas fragmen
tados, descontínuos e insuficientes para produzir im
pactos significativos no qua
dro apresentado. Ademais,
têm-se ciclos de crescimen
to econômico curtos e inter
rompidos. Nesse percurso,
merecem relevância quatro
programas: o de Merenda
Escolar direcionado às crian
ças e aos adolescentes que
frequentam escola pública no
Brasil; a Aposentadoria So
cial Rural direcionada a tra
balhadores do meio rural; o
Benefício de Prestação Con
tinuada para pessoas idosas
a partir de 65 anos e pessoas
com deficiência e o Bolsa
Família. Os três últimos são
programas de transferência
de renda que vêm assumindo
a centralidade da proteção
social no Brasil. Esses pro
gramas situam-se no campo
da Política de Assistência Social por independerem
de contribuição prévia ou de contribuição sistemáti
ca, como o Aposentadoria Social Rural, e por se des
tinarem a populações pobres, que deles necessitam.
Todavia, uma análise mais profunda dos progra
mas ditos de enfrentamento à pobreza, adotados no
Brasil, situa esses programas no âmbito do que Castel
(1999) denomina de “políticas de inserção”, que limi
tam sua atuação sobre os efeitos do disfuncionamento
social, sem considerar as determinações estruturais,
geradoras de pobreza. Tem sido pouco implementadas
as “políticas de integração”, ou seja, aquelas capa
zes de produzir grandes equilíbrios de caráter pre
ventivo e não só reparador. Temos tido a prolifera
ção de políticas de inclusão precárias e marginais,
orientadas pela focalização na população pobre ou
extremamente pobre, incapazes de alcançar as de
terminações mais gerais e estruturais da situação de
pobreza no país. São políticas e programas que têm,
até, incluído pessoas nos processos econômicos de
produção e de consumo. Contudo, é uma integração
da pobreza e da indigência de modo marginal e pre
cário, criando um segmento de indigentes ou de po
bres “integrados”, mantidos na situação de mera re
produção. Pode-se ter, por conseguinte, uma pobre
za regulada ou controlada, mas não superada, ser
vindo para atenuar o caráter “perigoso” que é atribu
ído aos pobres e permitindo o funcionamento da or
dem com o controle social das políticas sociais (SIL
VA, 2008, p. 149). Dessa forma, a pobreza, ao ser
considerada tão somente carência de renda, vem
Rev. Katál. Florianópolis v. 13 n. 2 p. 155-163 jul./dez. 2010
162
Maria Ozanira da Silva e Silva
sendo reduzida, mantendo-se, porém, inalterada a
grande concentração de propriedade que sempre
marcou a sociedade brasileira.
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Pobreza, desigualdade e políticas públicas: caracterizando e problematizando a realidade brasileira
163
Paugan. Por uma sociologia da exclusão social. São Paulo:
EDUC, 1999, p. 13-48.
Notas
1 Um estudo da literatura sobre a pobreza, destacando as
questões teórico-conceituais, encontra-se em Silva, 2002.
2 Considerava-se indigente a população que detinha uma renda
mensal de até um ¼ do salário mínimo, suficiente somente
para a compra de uma cesta básica de alimento.
3 O Programa Nacional de Renda Mínima Vinculado à Educação- Bolsa Escola foi instituído em 2001 pelo Ministério da
Educação. Destinava-se a famílias com crianças de 7 a 15
anos de idade, sendo o benefício transferido para cada família
no valor de R$ 15 por criança, até o máximo de três filhos,
totalizando até R$ 45. A contrapartida eram a matrícula e a
frequência da criança à escola. A partir de 2003, esse programa
foi incorporado ao Bolsa Família (SILVA et al. 2007).
4 O Bolsa Alimentação, também criado em 2001, pelo Ministério
da Saúde, visava reduzir deficiências nutricionais e a
mortalidade infantil entre as famílias com renda per capita de
até meio salário mínimo. Destinado a famílias com mulheres
gestantes ou que estivessem amamentando os filhos, ou
ainda com crianças de 6 meses a 6 anos de idade. O benefício
era de até três Bolsas Alimentação para cada família, ou seja;
o valor de R$ 15 até R$ 45 por mês. Além da transferência
monetária, era oferecido atendimento básico à saúde da família.
A partir de 2003, esse programa foi também incorporado ao
Bolsa Família (SILVA et al. 2007).
5 A estratégia Fome Zero é representada por um conjunto de
políticas governamentais e não governamentais cujo
propósito maior é erradicar a fome e a desnutrição no país.
Seus principais programas são: Bolsa Família; Programa de
Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA);
Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE); Programa
de Construção de Cisternas; Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf); Restaurantes
Populares e Centros de Referência de Assistência Social
(CRAS).
6 O BF ampliou seu público alvo, incluindo também o
atendimento de famílias sem filhos, como o caso dos
quilombolas, famílias indígenas e moradores de rua.
7 As seis regiões metropolitanas consideradas foram: Recife,
Salvador, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e Rio de
Janeiro.
8 A pesquisa tem como principais fontes de dados, para as
informações internacionais: Nações Unidas (Banco Mundial
e World Income Inequality Databas - WILD) e nacionais, a
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE e
dados dos Ministérios do Planejamento, Orçamento e Gestão
(Sigplan) e da Fazenda (Siafi).
Maria Ozanira da Silva e Silva
maria.ozanira@gmail.com
Pós-Doutorado na Universidade Estadual de Cam
pinas (Unicamp)
Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universi
dade Católica de São Paulo (PUC/SP)
Coordenadora e professora do Programa de Pós
Graduação em Políticas Públicas da Universidade
Federal do Maranhão (PGPP-UFMA)
Coordenadora do Grupo de Avaliação e Estudo da
Pobreza e de Políticas Direcionadas à Pobreza
(Gaepp: <www.gaepp.ufma.br>)
PGPP – UFMA
Campus Universitário do Bacanga
Av. dos Portugueses, S/N
São Luís – Maranhão
CEP: 65085-580
Rev. Katál. Florianópolis v. 13 n. 2 p. 155-163 jul./dez. 201. O artigo da autora Maria Ozanira da Silva e Silva.
A redução da pobreza e da desigualdade em governos progressistas ocorreu na América Latina principalmente por meio da combinação de programas de transferência de renda, valorização do salário mínimo e crescimento do mercado de trabalho formal.Principais Eixos de AtuaçãoTransferência de Renda: Programas como o Bolsa Família no Brasil funcionaram como rede de proteção social básica e estímulo ao consumo local.Valorização do Salário Mínimo: A política de aumentos reais acima da inflação elevou o piso salarial e impactou diretamente a base da pirâmide ocupacional.Formalização do Trabalho: O dinamismo econômico conjugado a incentivos à formalização ampliou o acesso a direitos trabalhistas e previdenciários.
Nos governos progressistas . Sção focados na justiça social e na redução das desigualdades.
O conservadorismo patronal
da grande imprensa brasileira
Francisco Fonseca
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Fundação Getúlio Vargas – SP
Resumo
Através da análise da opinião dos editoriais dos quatro principais periódicos diários da grande
imprensa, isto é, o Jornal do Brasil, O Globo, a Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo – aqui
considerados “aparelhos privados de hegemonia” –, este artigo procura desvendar os posicionamentos
adotados perante a ordem social na Constituinte de 1987/1988, que também contribuem para
compreender a reação à Consolidação das Leis do Trabalho. Observa-se, além do mais, as estratégias
utilizadas para sua consecução.
Conclui-se que, por mecanismos diversos, a grande imprensa contribuiu decisivamente para a
introdução da agenda ideológica neoliberal no país, pois atuou de forma a “divulgar e vulgarizar” as
idéias pertinentes a este ideário e de forma militantemente conservadora e patronal.
Palavras-chave: Conservadorismo, imprensa, hegemonia, neoliberalismo.
Abstract
Through opinion analysis of the editorials of the four main daily newspaper, that is, Jornal do Brasil, O
Globo, Folha de S. Paulo and O Estado de S. Paulo – considered here as “private vehicles of hegemony” – this paper intends to show their positions related to the Constituent’s social order of 1987-88th, as
long as we consider that it contributes to understand the reaction against the Labour’s Laws. We
analyse, besides, the strategies used to accomplish them.
We concluded that through several mechanisms the great press has decisively contributed, in a
combative way, as for the introduction of the neo-liberal ideas in the country – since it has acted so as to
make them known and popular – as for the conservative and patronal ideas.
Key words:Conservantism, press, hegemony, neo-liberalism.
OPINIÃO PÚBLICA, Campinas, Vol. IX, nº 2, Outubro, 2003, pp. 73-92
OPINIÃO PÚBLICA, Campinas, Vol. IX, nº 2, Outubro, 2003, pp. 73-92
Introdução1
A crescente prevalência da agenda neoliberal que, neste início do século XXI,
aprofunda sua oposição aos direitos sociais assegurados historicamente no Brasil
pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) é o que inspira este artigo sobre o
posicionamento da grande imprensa brasileira perante dois temas atinentes à
“ordem social” elaborados durante o Congresso Constituinte em 1987 e 1988,
quais sejam, os direitos sociais e o direito à greve. Esses posicionamentos
antecedem o debate contemporâneo acerca do conservadorismo patronal das elites
brasileiras, expresso através de um de seus importantes representantes, a grande
imprensa2. Para além de expressar interesses sociais, os periódicos intermediam
relações sociais, notadamente as referidas ao conflito de classe; daí a grande
importância de observarmos a posição dos jornais, considerados neste trabalho
como aparelhos privados de hegemonia3.
Um projeto constitucional explicita uma dada visão de mundo em relação a
certos interesses, num contexto em que o embate ideológico torna-se ainda mais
ostensivo. O tema “ordem social” implicou enorme controvérsia e a grande
imprensa posicionou-se vigorosa e militantemente em relação a ele. Assim, através
dos editoriais, que definem, simultaneamente, a linha editorial e ideológica de cada
veículo, veremos como a grande imprensa operou nos debates constituintes,
sobretudo quando os temas referiam-se aos direitos sociais4.
1 Este artigo reflete conclusões de minha tese de doutoramento intitulada Divulgadores e vulgarizadores: a
grande imprensa e a constituição da hegemonia ultraliberal no Brasil, defendida no Depto. de História da
Universidade de São Paulo em junho de 2001. Esta tese foi viabilizada graças a recursos do Núcleo de
Pesquisas e Publicação (NPP) da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo.
2 Considerada aqui pelos jornais Jornal do Brasil (JB), O Globo (OG), a Folha de S. Paulo (FSP), e O Estado de
S. Paulo (OESP).
3 Segundo Gramsci, aparelhos privados de hegemonia são instituições da sociedade civil (distintamente da
sociedade política, o Estado, e autônomas em relação a ele) voltadas à sedimentação de um dado consenso, a
hegemonia, no sentido de vitória de uma visão de mundo sobre outras, a ser conseguida através da ocupação
de espaços ideológicos (GRAMSCI, 2000).
4 Este artigo não organiza os editoriais citados em estrita ordem cronológica, embora haja um sincronismo entre
os mesmos, dado o caráter temático da análise; isto nos permite uma comparação mais sistemática seja (do
conteúdo) das posições seja das “estratégias de convencimento” da grande imprensa.
74
O conservadorismo patronal da grande imprensa brasileira
A ordem social na Constituinte: o projeto da grande imprensa
Um primeiro aspecto importante a ser ressaltado quanto à introdução de
novos direitos sociais na Constituição diz respeito ao seu impacto sobre os
próprios órgãos de comunicação enquanto empresas. Os interesses representados
pelos jornais os opõem a estes novos direitos. O interessante é que se trata, neste
caso, de um argumento “particular”, critério paradoxal e ironicamente tão criticado
pela grande imprensa em relação a seus adversários quanto a temas variados. As
teses da futilidade, e sobretudo da ameaça e da perversidade (HIRSCHMAN, 1985)5,
são aqui fartamente utilizadas, demonstrando todo o conservadorismo da grande
imprensa, expresso por sua baixa propensão ou mesmo reação à introdução de
novos direitos, com vistas à manutenção de seu status quo. Assim, alguns dos
direitos sociais propostos, tais como a diminuição da jornada de trabalho, a
ampliação da licença-maternidade, a licença-paternidade e o aumento do valor da
hora-extra eram tratados como catastróficos à produção. Afirmava-se pois, que
desestimulariam o capital de investimento e, em conseqüência, fariam crescer o
desemprego. Eram, deste modo, o oposto ao que se desejava. Além do mais,
inócuos (estéreis, portanto, fúteis), posto que não seriam respeitados pelo “mundo
real” da economia; e ameaçadores aos direitos anteriormente conquistados, caso do
mercado formal de trabalho. Como esses argumentos/imagens foram utilizados à
exaustão pela grande imprensa no período, apresentamos a seguir uma amostra
dos mesmos através de alguns editoriais6.
5 As três teses (ou construções retóricas) são assim definidas por HIRSCHMAN (1985): - Em relação à tese da perversidade: “Não se afirma apenas que um movimento ou política não alcançará sua
meta, ou ocasionará custos inesperados ou efeitos colaterais negativos: em vez disso, diz o argumento, a
tentativa de empurrar a sociedade em determinada direção fará com que ela, sim, se mova, mas na direção
contrária.” (p. 18, ênfases do autor). - Quanto à tese da futilidade, esta estaria fundada no argumento retórico de que “(...) a tentativa de mudança é
abortiva, que de um modo ou de outro qualquer suposta mudança é, foi ou será, em grande medida, de fachada,
cosmética, e portanto ilusória, pois as estruturas ‘profundas’ da sociedade permanecerão intactas.” (p. 43). - Por fim, no que tange à tese da ameaça: “(...) assevera que a mudança proposta, ainda que talvez desejável
em si, acarreta custos ou conseqüências inaceitáveis de um ou outro tipo.” (p. 73). Além do mais, prossegue o
autor: “As conquistas e realizações mais antigas, alcançadas a duras penas, não podem ser tomadas como
certas, e seriam ameaçadas pela nova reforma.” (p. 75, ênfases nossas).
6 O papel da imprensa enquanto ator político/ideológico central deve ser observado em diversas esferas. Neste
trabalho focamos nossa análise na relação Capital/Trabalho, mas é importante observar como, no que diz
respeito por exemplo ao embate ideológico acerca do modelo de desenvolvimento, a imprensa, notadamente a
sediada nos países de capitalismo central, posicionou-se em relação a um tema que afeta direta e indiretamente
a todos, sobretudo na década de 1990, caso da ascensão do ultraliberalismo. Ao comparar a recepção do
keynesianismo e do monetarismo (e da teoria do supply-side) nos Estados Unidos, Wayne Parsons enfatiza
sobremaneira o papel da grande imprensa, sobretudo dos jornais financeiros, no que tange ao segundo (o
monetarismo), em contraste ao caráter fortemente acadêmico dos adeptos das idéias de Keynes. Portanto, a
capacidade espraiadora da grande imprensa articula-se a iniciativas distintas e complementares, como nos
casos dos EUA e da Inglaterra, lugares de onde partiram o corpus doutrinário e ideológico de teorias ultraliberais,
sobretudo, em termos de teoria econômica, do supply-side. Este papel divulgador e simplificador apontado pelo
75
OPINIÃO PÚBLICA, Campinas, Vol. IX, nº 2, Outubro, 2003, pp. 73-92
Para o JB, haveria uma “obsessão social” por parte dos constituintes: “A
proposta de 40 horas é uma daquelas que criam uma espécie de garantia artificial que, na
prática, quase ninguém vai respeitar (...)” (JB, 13/07/87, ênfases nossas). Trata-se
aqui da tese da futilidade; mas será a tese da perversidade a mais utilizada pela
grande imprensa:
“A Constituinte embarcou em um caminho de distribuição de
benefícios sociais cujo produto só pode ser um e único: redução da taxa de
investimentos, com o conseqüente atraso econômico. (...)” (JB, 28/02/88,
ênfases nossas).
A negação dos novos direitos sociais ocorre por meio de uma retórica
totalizante, com argumentos que afirmam desde a inadequação de se inserir tais
direitos em uma Constituição até seus efeitos deletérios, em franco contraste com o
intuito dos constituintes. Estes não estariam se preocupando com o principal, ou
seja, a produção da riqueza:
“Por esse rumo, nunca se sai do paternalismo; e o povo continua
eternamente dependente. É mais do que tempo de mudar essa
mentalidade, que é a própria definição do atraso. (...) O ‘social’ também
está ligado ao desenvolvimento. (..) Mas a visão primária do ‘social’ não
pensa no desenvolvimento – intimamente ligado à livre iniciativa: pensa
em criar restrições e ônus para a empresa privada.” (JB, 29/02/88,
ênfases nossas).
Infere-se, portanto, que a distribuição da renda far-se-ia única e
exclusivamente em função do desenvolvimento capitalista, isto é, seria tributária
deste, pois dependente dos lucros obtidos pelo Capital. Em termos silogísticos,
seria correto inferir-se também o contrário, caso a produção decrescesse. Expressa
se aqui, claramente, a visão de mundo patronal. Além do mais, o artigo demonstra
ainda como a grande imprensa se opõe aos direitos sociais – com vistas à obtenção
de uma nova hegemonia, ultraliberal – quando afirma que a “mentalidade atrasada”
precisava ser substituída pela visão “moderna” do mundo, que valorizava a
“iniciativa privada” pela via do “mercado livre”.
autor será fartamente desempenhado pela grande imprensa brasileira em relação a diversos temas, entre os
quais o referente à relação Capital/Trabalho (PARSONS, 1990, p.152 e 165).
76
O conservadorismo patronal da grande imprensa brasileira
Já para o jornal O Globo, que apresenta-se como um vigoroso adepto da
“ética do trabalho”7, os direitos sociais estariam:
“(...) na contramão da motivação fundamental e dos interesses do
trabalhador; ou a Constituição ideal, na contramão do Brasil real. (...)
Sorte pior [dados os efeitos negativos previstos] a experiência faz prever
para o aumento (...) da licença remunerada à gestante: a esse aumento
corresponderá uma restrição, a restrição do mercado feminino de trabalho.
(...) Concessões feitas em total descompasso com os efeitos não
prejudicarão apenas os trabalhadores. (...) [mas também a] estabilidade
institucional.” (OG, 15/10/87, ênfases nossas).
A tese da perversidade é, portanto, igualmente defendida pelo jornal O Globo
que, ademais, coloca-se na posição de conhecedor dos interesses dos
trabalhadores. Trata-se aqui de uma antiga estratégia da grande imprensa de auto
nomear-se intérprete da sociedade, inclusive dos trabalhadores, e procurar interferir
diretamente no conflito de classes. A imagem catastrófica é reiterada, à luz do que
nos ensina Hirschman, constituindo-se num verdadeiro bombardeio retórico.
Utilizam-se, para tanto, expedientes ao estilo cassandra, afirmando-se que o futuro
certamente seria sombrio caso os novos direitos fossem introduzidos. Para O Globo:
“(...) A produtividade cairá, inevitavelmente. (...) Será lamentável
que, por falta de informação e análise aprofundada das questões,
venhamos a ter uma Constituição que, na ilusão do avanço, produza o
retrocesso no campo das relações de trabalho.” (OG, 07/88, ênfases
nossas).
Além da perversidade ocasionada pelos direitos sociais, haveria uma
inversão do sentido dos direitos ao considerá-los “retrocesso”. Em outras palavras,
tanto os adeptos da criação de direitos não seriam “progressistas” (consideração
expressa em várias circunstâncias), como os direitos em si não seriam um avanço.
Trata-se de uma sofisticada estratégia de reformular o próprio vocabulário presente
na Constituinte e na sociedade, de tal forma que ideologia (agora ainda mais
vigorosamente) seja apenas e tão-somente as propostas dos grupos à “esquerda” e
7 Embora expresse a adesão à ética do trabalho, o Sistema Globo como um todo, historicamente, beneficiou-se
da aproximação com o poder, a ponto de obter vantagens em diversos aspectos, tais como financiamentos
subsidiados, renegociação favorável de dívidas, dentre inúmeros outros, independentemente, portanto, do mérito
e do esforço, que formam os pressupostos da referida ética. Logo, o que o Sistema Globo professa não é
necessariamente o que pratica.
77
OPINIÃO PÚBLICA, Campinas, Vol. IX, nº 2, Outubro, 2003, pp. 73-92
dos “populistas” que, por motivos diversos, agiriam em razão das “aparências” e
não da “essência” do capitalismo “moderno”.
Como se observa, as diferenças de perfis ideológicos e editoriais não
impedem a similitude de posicionamentos e projetos dos jornais. Assim, o
liberal/conservador OESP, seu similar doutrinário JB, e também o pragmático OG 8
usarão dos mesmos expedientes. Para O Estado de S. Paulo, por exemplo,
“Retrocesso não é avanço”. Esse título de um de seus editoriais sintetiza sua
histórica visão de mundo, e dever-se-ia indagar sobre o emprego da palavra
“avanço”:
“(...) Porque se se cuida de reduzir aquela jornada [de
trabalho] e premiar indistintamente todos os assalariados com uma
estabilidade capaz de atingi-los como autêntico bumerangue, vitimando
os, ocorrerá, sim, autêntico retrocesso; (...) esta (...) palavra (...)
[implica] conferir aos que qualifica[m] o demérito de se oporem a tudo
o que signifique progresso natural da sociedade. Todos sabem que
distribuir a estabilidade com tamanha generosidade nivelaria por baixo
bons e maus funcionários (...)
Está claro que nisso existe condenável contra-senso. Quando se pensa
em abrir a sociedade para facilitar a ascensão dos melhores e mais
capazes, sejam quais forem, venham de onde vierem, procede-se em
sentido inverso àquele trilhado (...) A justiça consiste em dar
desigualmente aos desiguais – e não, evidentemente, em comprimi-los
sob uma forma constrangedora a fim de igualá-los artificial e
imerecidamente. (...) [Tal conjunto de direitos] acarretaria pernicioso
desestímulo aos melhores
.” (OESP, 18/06/87, ênfases do jornal, grifos
nossos)
8 Caracterizamos, neste trabalho, os jornais do seguinte modo: o JB e OESP afirmam filiar-se a uma tradição
doutrinária liberal, em termos políticos e econômicos. Embora aceitemos esta definição, observamos não apenas
uma contradição estrutural em relação à aceitação do jogo de interesses, sobretudo dos trabalhadores, conforme
ilustram as primeiras passagens que analisamos, como entendemos ser o JB um periódico “pouco conseqüente”
em suas posições liberais e OESP um periódico “positivista”. Em relação ao OG e à FSP, os consideramos
“pragmáticos”, isto é, desprovidos de uma doutrina a qual se filiem. OG, além do mais, tem como marca o
“governismo”, isto é, a aproximação umbilical aos governos, e a FSP caracteriza-se por ser, em termos
ideológicos ou doutrinários, “volátil” (FONSECA, 2001).
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O conservadorismo patronal da grande imprensa brasileira
Ora, a introdução de direitos, paralelamente à tese da perversidade (expressa
na imagem do bumerangue) e à tese da ameaça (através da imagem do retrocesso),
conspurcaria alguns dos valores essenciais da sociedade capitalista, vinculados
fundamentalmente ao mérito. O mote “os melhores e mais capazes” sintetiza esta
visão tradicional e hierárquica, mais próxima de um “darwinismo social”9, que
pretende essencialmente estimular a competição entre a força de trabalho. O
caráter conservador desta proposição – defendida há muito por OESP e
compartilhada pelos outros jornais com a relativa exceção da FSP – reforça a
dominação sobre o Trabalho ao incutir-lhe valores vinculados à ascensão social,
meritocrática portanto. A defesa dos interesses vinculados ao Capital é notória,
pois, além de implicar adestramento da força de trabalho10, objetiva principalmente
impingir a imagem de que basta ao trabalhador esforçar-se para melhorar de vida,
versão nacional do “self made man” norte-americano. Embora o conservadorismo
de OESP, enquanto visão de mundo, esteja, de certa forma, na “vanguarda” de seus
pares, as diferenças entre os jornais, quaisquer que sejam, obnubilam-se quando as
questões em jogo referem-se seja aos interesses que os periódicos representam,
seja, principalmente, à representação do Capital Global, seja ainda à reprodução do
sistema capitalista pela qual se empenham11. OESP reforçará o recurso à tese da
perversidade ao afirmar que:
“(...) as novas disposições constitucionais irão chocar-se com
seus interesses [dos operários]. (...) as medidas ‘sociais’ aprovadas (...)
surtirão efeito bastante maléfico, pernicioso, antes de tudo, para a classe
operária. (...) as medidas adotadas não concorrerão para aumentar a
produtividade (...) mas para incrementar a automação. (...) o populismo
é enganador...” (OESP, 01/03/88, ênfases nossas).
O “argumento” oscila entre a tese da perversidade e a “falsa” consciência da
esquerda/populista. Tais justificações do jornal representam variantes de uma
mesma raiz: a preservação do status quo no que diz respeito à relação
Capital/Trabalho.
9 Nesse sentido, a posição conservadora de OESP vai ao encontro da ideologia ultraliberal, pois esta representa
uma “releitura” do liberalismo clássico, na medida em que: “(...) reproduz um conjunto heterogêneo de conceitos
e argumentos, ‘reinventando’ o liberalismo mas introduzindo formulações e propostas muito mais próximas do
conservadorismo político e de uma sorte de darwinismo social distante pelo menos das vertentes liberais do
século XX.” (DRAIBE, 1993, p.86).
10 Para uma análise histórica do adestramento da força de trabalho, ver BRAVERMAN (1981).
11 Entende-se por Capital Global a defesa da reprodução do capital em si, independentemente de sua origem ou
setor. As classes, contudo, relacionam-se com o Estado de maneira complexa. Por mais que a ideologia
ultraliberal pregue a minimização do Estado, é papel do Estado capitalista promover a reprodução da sociedade
capitalista através da existência de classes sociais (OFFE, 1984).
79
OPINIÃO PÚBLICA, Campinas, Vol. IX, nº 2, Outubro, 2003, pp. 73-92
Mesmo a FSP que, dentre todos os jornais, manteve uma alegada
preocupação com os interesses dos trabalhadores – pois seu mote “Menos Governo,
Menos Miséria”, esgrimido pouco antes das eleições de 1989, enfatizava a
necessidade de o Estado priorizar as áreas sociais ao retirar-se das atividades
produtivas12 –, aderirá a esta cantilena, embora talvez com menor vigor. Segundo o
jornal:
“Propostas como a remuneração adicional (...) para o
trabalhador em férias, o aviso prévio proporcional ao tempo de serviço e
o limite de seis horas para a jornada em turnos ininterruptos, que as
lideranças empresariais condenam, inscrevem-se no vasto conjunto de
direitos sociais aprovados (...) sem nenhuma consideração mais séria
sobre os custos que acarretam. (...) [Representam:] novos custos para o
conjunto da população (...) [que] nada mais serão do que o preço que a
sociedade terá de pagar pela demagogia de seus representantes.” (FSP,
08/07/98, ênfases nossas).
Reitere-se que, mesmo tendo mantido um discurso “social” paralelamente à
agenda liberal referente às “reformas do Estado orientadas para o mercado”, a FSP
também segue a estratégia de seus pares tanto ao utilizar a tese da perversidade
como por considerar “demagogia” e “populismo” a adoção de novos direitos sociais
quando afirma que seus propositores não se preocupariam com as conseqüências
(negativas) da sua introdução. Porém, mais relevante ainda, é o fato de a grande
imprensa como um todo, que criticara o Capital nacional por causa de sua baixa
responsabilidade e ausência de visão de longo prazo quando da aplicação dos
Planos de Estabilização (sobretudo o Plano Collor), adotar novamente posições
confluentes às do Capital nacional, como o demonstra a passagem acima. Em
outras palavras, além de atuar em uníssono, a grande imprensa enquanto “partido
do Capital”13 e “aparelho privado de hegemonia” se “reconcilia”, em determinadas
12 A série de reportagens especiais diárias denominadas “Menos Governo, Menos Miséria” procurou vincular
ostensivamente a existência de graves desigualdades sociais no país – expressas no lema “menos miséria” – às
alegadas e supostamente demonstradas mazelas do setor público, identificadas pela expressão “menos
governo”; logo, menos miséria significaria menos governo. Consequentemente, todos os candidatos identificados
com o “aumento” das funções do governo quereriam, mesmo que não soubessem/quisessem, mais miséria.
As reportagens, que foram comentadas diariamente pelos editoriais, versaram sobre inúmeros temas, tais como:
renúncias fiscais, monopólio estatal do Petróleo, índices sociais, burocracia, educação pública, estrutura
tributária, subsídios e patrimonialismo, entre tantos outros. Todos os temas abordados procuraram demonstrar
ostensivamente a inépcia governamental quanto à “questão social” em razão do atendimento privilegiado a
segmentos, especialmente os burocráticos, corporativos e empresariais. É interessante notar que, quando do
início da série, no começo de outubro de 1989, o jornal publicou um editorial na primeira página – com o referido
título da série – como forma de demonstrar a gravidade do assunto. Tal estratégia é um artifício poucas vezes
utilizado pela FSP, o que, por si só, é um indicativo de sua atuação ideológica.
13 Segundo Gramsci, em determinados momentos históricos, certas instituições atuam em nome das classes
sociais, sobretudo das classes dominantes, fazendo o papel de partido político no sentido de conferir
80
O conservadorismo patronal da grande imprensa brasileira
circunstâncias, com o empresariado. E isto não apenas em razão dela própria ser
proprietária do meio de produção jornalístico, mas sobretudo em virtude de que,
neste momento, os interesses dos representantes e dos representados combinam
se. Trata-se de um interessante jogo de acomodações e reposicionamentos da
grande imprensa em relação a determinados pólos de poder, sobretudo o Capital
global que representa, embora, por vezes, de forma complexa e tensa.
O veto radical às greves14
No que tange ao papel da Constituição sobre o direito à greve, uma vez
mais observamos uma incrível similaridade entre os periódicos, conforme as
características acima apontadas, ou seja, a perspectiva patronal e a representação
do Capital Global. Como se trata da ordem legal, é importante analisarmos qual o
projeto acerca de um tema tão crucial em uma sociedade que se requer
democrática, tal como afirmam os próprios jornais em foco. Segundo o JB, a “(...)
liberdade de greve é um abuso conceitual (...)” (JB, 07/07/88, ênfases do jornal).
Pode-se inferir, pois, que tal liberdade deveria ser refreada. O fato dos constituintes
terem permitido a paralisação das atividades nos serviços públicos, mesmo
resguardadas certas condições ao seu funcionamento, seria considerado um absurdo,
conceitual inclusive, posto que denotaria perda de autoridade e mesmo fragilidade
por parte do Estado15, ameaçando assim direitos adquiridos. A FSP afirmaria o
mesmo ao considerar que os constituintes estavam permitindo o “direito irrestrito
de greve”, inclusive nos serviços essenciais, o que, em verdade, era um exagero:
“(...) Um instrumento legítimo de luta se transforma em chantagem
contra toda a população, concentra numa categoria específica de
trabalhadores [os funcionários públicos] um poder absoluto sobre o
conjunto das atividades produtivas do país, com a chancela (...) [da]
constituinte (...) [são] artigos condenáveis (...)” (FSP, 15/07/88, ênfases
nossas).
organicidade aos seus membros e de dirigir suas ações. Este parece ser, neste momento, o papel dos periódicos
aqui analisados (GRAMSCI, 2000).
14 Sobre os papéis de “vetar” e “apoiar”, a mídia como um todo julga-se controladora da sociedade mas rejeita
ser controlada (FONSECA, 2001).
15 Note-se que, mesmo que com uma ênfase um pouco menor por parte da FSP, os outros três jornais, dentre os
quais OG e OESP com ainda mais vigor, valorizam a autoridade do Estado de forma exponencial, sobretudo o
respeito à ordem quando a questão se refere à relação Capital/Trabalho e aos movimentos sociais.
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OPINIÃO PÚBLICA, Campinas, Vol. IX, nº 2, Outubro, 2003, pp. 73-92
O que a FSP diz ser um direito legítimo – a greve – o será apenas em tese,
pois o veto contumaz à mesma será uma marca da grande imprensa como um todo.
Ao vincular as greves ao exercício da chantagem por parte dos trabalhadores, o
jornal expressa um posicionamento típico ao que está referenciado pela tese da
ameaça. Isto implica, em conseqüência, uma crítica às leis, que supostamente
facilitariam a paralisação do trabalho.
Mas serão O Estado de S. Paulo e O Globo os mais pronunciados radicais
opositores das greves, e da organização do trabalho como um todo, estabelecidas
na Constituição. Neste aspecto, evidenciar-se-ão fortemente seus posicionamentos
patronais. Os referidos periódicos pareciam demonstrar uma ojeriza particular às
greves no setor público, dada a ameaça à autoridade que significariam:
“As greves que irromperam em empresas estatais (...)
mostram com clareza o quanto a sociedade é impotente diante dos
resultados da intervenção do Estado na economia.
(...) São exércitos de empregados que agem com todas as regalias, direitos e
mordomias de funcionários públicos, promovendo greves que se iniciaram
com reivindicações salariais e ganham, hoje, aspectos nitidamente políticos
e ideológicos, que levam à violência.
(...) Tudo isso mostra a incompetência do Estado empresário que, ao
centralizar tudo em suas mãos, mostra fragilidade ao negociar com os
trabalhadores que sabem ter um opositor incompetente, politicamente
minado e, acima de tudo, contaminado pela praga do empreguismo.”
(OESP, 19/11/88, ênfases nossas)
A percepção acerca do mundo do trabalho estrutura-se sobre a suspeição
intrínseca de que os trabalhadores são revolucionários e têm por trás de si “grupos
radicais”. Trata-se também de uma construção imagética exagerada, dentre tantas
outras produzidas estrategicamente pelo jornal que, dessa forma, intenta impedir
toda e qualquer possibilidade das greves ocorrerem, sobretudo a partir do Estado,
lugar de onde emana o poder político. Nesse sentido, o poder dos funcionários
públicos significa uma ameaça ainda mais deletéria, em razão dos riscos tanto à
liberdade do Capital como da sociedade.
OG também expressa sua radicalidade contra à aprovação do direito de
greve, que classifica como “A porta da anarquia” (título de um importante editorial).
Ademais, o direito de greve, uma vez que torna-se “irrestrito” “(...) para todas as
categorias de trabalhadores, em todas as circunstâncias, sob quaisquer pretextos (...)
significa a porta aberta à desordem e ao caos. (...) É uma abdicação em favor da
anarquia.” (OG, 17/08/88, ênfases nossas).
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O conservadorismo patronal da grande imprensa brasileira
Cabe ressaltar ainda, retomando, a estratégia de superestimar o poder
conferido aos sindicatos ao formular-se a imagem de que estes estão nas mãos de
“grupos radicais” desestabilizadores16. Além do mais, há a omissão deliberada dos
constrangimentos interpostos à decisão dos trabalhadores quando estes declaram
uma greve, tais como ameaças de demissão, agudizadas pelo desemprego, e a
própria legislação, entre outros aspectos. Com isso, quer-se criar a imagem de que
ao híper-poder dos sindicatos corresponderia a pusilanimidade da lei e a fragilidade
da sociedade, que estariam ameaçadas pela organização dos trabalhadores. A
fronteira entre estratégia retórica e visão de mundo (conservadora, patronal e
autoritária) é indecifrável. Por fim, o mesmo OG revela e sintetiza cabalmente o
conservadorismo autoritário de toda a grande imprensa com a seguinte afirmação:
“No Capítulo ‘Dos Direitos Sociais’ existe duplicidade de
tendências, ambas suficientemente perigosas e capazes de produzir efeitos
desastrosos (...)
(...)
A pretexto de garantir emprego, retroagimos ao paternalismo
intervencionista (...) [caso da] estabilidade no emprego (...) no Art. 6 (...)
bem como o regime de 44 horas [que] são a negação da liberdade de
trabalho e a consagração do intervencionismo no mercado de mão-de-obra.
Já no Art. 10 (...) dispõe-se o contrário, isto é, a não intervenção do Estado,
quando se trata de liberdade de greve. (...)
Tudo é disposto de forma a permitir greves sem restrições (...) Os
dirigentes da greve decidem e fixam a seu livre-arbítrio os limites da ação
de greve. Temos consagrada a contradição do excesso de intervenção do Estado
no Art. 6 e da ausência do poder dos governos, no caso de greve. Vedada pelo
projeto só a greve de iniciativa empresarial. Dois pesos e duas medidas.” (OG,
11/10/87, ênfases nossas).
Sem meias palavras, o jornal propugna o “livre mercado” quanto à força de
trabalho e o Estado repressor em relação às greves. Em nome do “bem comum”,
evidencia-se, na verdade, a defesa dos interesses do Capital, seja pela forma como
os direitos dos trabalhadores (em sentido amplo) eram concebidos, seja pela
demanda de que também o empresariado pudesse, no limite, paralisar a produção
(lockout) – demanda meramente retórica e fictícia, pois os interesses empresariais
opõem-se a qualquer paralisação das atividades produtivas. Portanto, OG – na
verdade, também os demais periódicos, embora com ênfases distintas – quer
antepor limites à organização do trabalho, sendo a greve o alvo mais importante, em
16 A imagem de que pequenos “grupos radicais” invariavelmente comandam e manipulam as greves pretende
desqualificar qualquer movimento grevista, de antemão, pois lhe retira a legitimidade. Seja por razões
estratégicas seja por constituir-se em visão de mundo do jornal, ou ambas, o fato é que tal posicionamento
revela a retórica da ameaça.
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OPINIÃO PÚBLICA, Campinas, Vol. IX, nº 2, Outubro, 2003, pp. 73-92
contraposição a uma espécie de “laissez faire” no mercado de trabalho, o que explica
cabalmente a oposição radical a toda e qualquer greve concreta.
A atuação militante conservadora dos periódicos
Vejamos, agora, um outro aspecto da atuação da grande imprensa como
aparelho privado de hegemonia e como ator político/ideológico na Constituinte, à
medida em que procurava claramente orientar, dirigir os constituintes, no sentido de
conformar os interesses de um capitalismo liberal e conservador. Estes papéis
implicam estratégias diversas, entre as quais opor uma suposta maioria liberal –
existente seja na sociedade, seja na Constituinte, via “Centrão”17, embora tida como
silenciosa e pouco organizada – a uma minoria considerada radical e extremamente
organizada, a minoria de esquerda. Esta, contudo, teria hegemonia na Constituinte,
sobretudo na Comissão de Sistematização, sendo suas ações deletérias à sociedade
brasileira.
Embora jamais tivesse mostrado qualquer dado que mensurasse esta
relação entre maioria e minoria, a grande imprensa como um todo – mesmo
havendo uma menor incidência no caso da FSP – formulou esta imagem com o
objetivo tanto de concitar os parlamentares liberais e conservadores (e suas
respectivas bases de representação) como o de formar a opinião de seus leitores.
Podemos sintetizar esta dicotomia da seguinte forma:
“(...) A maioria quer uma sociedade aberta, com liberdade de
criar e produzir, com menor regulamentação estatal. A maioria não tem
medo de manter e cultivar o relacionamento internacional (...) a maioria
quer um sindicalismo livre, sem paternalismo restritivo do mercado de
trabalho e sem a anarquia do grevismo.” (OG, 14/08/87, ênfases
nossas).
Como se observa, o jornal sabe tanto o que a “maioria” deseja como o que
ela rejeita. A alegada confluência entre os dois movimentos por parte da grande
imprensa – pois a generalização é perfeitamente observável – com esta suposta
“maioria” nada mais era do que um recurso retórico/ideológico. Esta auto-requerida
onisciência e o descompromisso quanto à demonstração de dados que
comprovassem tal dicotomia demonstravam que a contenda político-ideológica
superava a preocupação com qualquer mensuração, pois o que importava era a
obtenção da hegemonia (ultraliberal), ameaçada fortemente com as cláusulas
17 O “Centrão” foi assim denominado por aglutinar forças muito distintas que se intitulavam de “centro”, mas, em
verdade, representava um centro bem expandido, sobretudo à direita.
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O conservadorismo patronal da grande imprensa brasileira
sociais aprovadas. Afinal, o Brasil era: “(...) Uma nação de pensamento centrista e
conservador (...)” (JB, 03/04/87) e este viés teria sido, portanto, desrespeitado pela
esquerda, sobretudo o PMDB, que nomeara “esquerdistas” para as principais
comissões temáticas encarregadas de comandar o processo constituinte. Mais
ainda:
“Entre as duas formas em que se explicita a representação do
PMDB (esquerda e moderada), disfarça-se a grande maioria que (...) é
também a expressão da grande maioria dos brasileiros. É aí que se encontra
o centro de gravidade política brasileira, a grande classe média. A
representação política de centro (...) sente-se incomodamente sem
condições de externar suas convicções (...) [devido ao] patrulhamento
ideológico [da esquerda]” (JB, 05/02/87, ênfases nossas).
Este editorial fecha o círculo, pois a “maioria” é então a classe média, setor
também fortemente representado pela grande imprensa. É claro que a maior parte
desta classe, embora proletarizada, sobretudo desde 1964, possui valores mais
próximos às classes dominantes e por ser leitora de jornais torna-se, portanto, alvo
da grande imprensa.
Por outro lado, o fato dos constituintes à esquerda, e ligados a causas
populares e nacionais, terem conseguido vitórias importantes para seus pontos de
vista fez com que a grande imprensa reagisse de dois modos concomitantes:
procurando desqualificar as idéias, interesses e mesmo as pessoas componentes
destes agrupamentos, e concitando os “liberais” – eufemismo para toda a sorte de
interesses patronais e conservadores – a agirem e a organizarem-se com vistas a
derrotar os adversários18. Não raro os empresários, nacionais e estrangeiros, e o
próprio governo federal foram chamados ao combate, isto é, deveriam exercer todo
o seu poder de influência (em sentido amplo) com vistas a barrar a “esquerdização”
do país, o que significava, portanto, uma clara e aberta contenda. Tal clareza e
ostensividade foram freqüentes e os editoriais são uma síntese desta verdadeira
disputa ideológica. A própria linguagem assumia este caráter belicoso, mesmo no
que respeitava ao chamamento dos aliados. Segundo o JB:
“(...) Ou o pensamento da empresa privada e das tendências
políticas liberais se articulam para produzir um modelo melhor que o
modelo autárquico, ou estaremos abrindo o caminho para o fogo que os
sopradores das brasas isolacionistas querem acender.” (JB, 08/06/87).
18 A beligerância retórica da grande imprensa quanto à organização do Trabalho faz com que a fronteira entre o
jogo democrático e o tratamento dado aos adversários torne-se pouco distinguível.
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Embora esteja se referindo às restrições ao Capital estrangeiro, este
chamamento é extensível a todos os temas-chave identificados pelo jornal.
Indiretamente remete-se aqui à tese da ameaça, agora relacionada ao âmbito
econômico. A articulação entre Capital e liberalismo é reveladora, mesmo que na
grande maioria das vezes o liberalismo esteja genericamente associado à “maioria”.
O “Centrão”, que, na verdade, fora requerido pela grande imprensa, quando surge é
saudado como um verdadeiro acontecimento histórico, pois selaria o encontro do
“Brasil real” com sua representação. Contudo, toda vez que este agrupamento
votou teses próximas aos nacionalistas, por razões diversas, sobretudo
corporativas, fora também criticado pelos jornais, que, desta forma, chamavam-lhe
a atenção, procurando com isso “corrigir seus erros”, isto é, dirigi-lo. A FSP, mesmo
que por vezes tenha criticado o caráter conservador do “Centrão”, o apoiou em
razão da discussão ideológica maior com a esquerda. Além disso, acreditava que
boa parte das medidas aprovada por influência da esquerda, entre as quais as
restrições ao capital estrangeiro, seria nociva ao país:
“A defesa de um desenvolvimento equilibrado se deturpa (...) o
ímpeto nacionalista se distorce numa defesa da estagnação. São estes
os riscos que (...) apresentam-se com especial nitidez. Resta saber se o
Congresso constituinte saberá afastá-los, num clima de consenso e ampla
sustentação da opinião pública, ou se a opção pela xenofobia e pelo
atraso estará (...) consagrada no novo texto constitucional.” (FSP,
24/04/88, ênfases nossas)19.
Portanto, a mesma dicotomia aparecia na auto-requerida “moderna” FSP20.
A própria idéia de que o “consenso” deveria ser alcançado a partir de sua
estruturação na “opinião pública”21 implicava um círculo vicioso, pois tanto o
“consenso” era sinônimo de hegemonia como a opinião “pública” era, em verdade,
privada, ou seja, referente a seus formadores, os aparelhos privados de hegemonia.
19 Ao falar de “riscos” o jornal estava professando, em verdade, mesmo que indiretamente, a tese da ameaça.
20 O termo “modernidade” foi utilizado largamente pela grande imprensa como um todo, e em particular pela FSP
como forma de produzir uma dicotomia com o “atraso”, entendido como a intervenção do Estado e a igualdade
socialmente induzida.
21 A expressão opinião pública é invocada pelos jornais, em inúmeras situações, simplesmente para identificar
sua própria opinião, que, embora privada, pretende passar-se por “pública”. Além do mais, segundo Pierre
Laborie, deve-se repelir o uso indiscriminado (e popularizado) desta expressão, na medida em que representa
uma verdadeira “armadilha”. “Opinião pública” implica movimento, dinamismo, transformação, e não cristalização
de uma dada opinião. Em razão das influências dos grupos que formam a opinião “dominante”, o seu caráter
“público” quer dizer, em verdade, expressão desta dominância, e não discussão descompromissada de temas
com vistas a extrair a “melhor posição”(LABORIE, 1991).
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O conservadorismo patronal da grande imprensa brasileira
Esta equação, embora particularmente cara à FSP, era válida para todos os
periódicos.
Mas a linguagem beligerante encontrava em OG e em OESP seus
representantes máximos. Observemos como as concitações são peremptórias, o
que indica o papel político-ideológico dos jornais: no caso de OG, seu governismo
inveterado imiscuía-se à defesa do caráter patronal/conservador que requeria para
a Constituição, pois tanto o apoio ao presidencialismo como ao mandato de Sarney
(tal como este o pretendia, isto é, 5 anos) foram militantemente pressionados pelas
Organizações Globo. Quando da redução do mandato para 4 anos, apenas
posteriormente mudada, OG assim se posicionou: “Vamos ao plenário; se necessário
contra um golpe de Estado, vamos às urnas.” (OG, 17/11/87, ênfases nossas). Ir às
urnas seria extinguir a Constituinte e buscar uma (supostamente ausente)
legitimação popular dos constituintes via eleições. Para além do casuísmo da
proposta e do governismo histórico do jornal, importa-nos observar sua participação
política, expressa na afirmação através da primeira pessoa do plural, o que, aliás,
lhe é comum em determinadas circunstâncias. Quanto aos temas cruciais das
ordens econômica e social, pôde-se observar o mesmo tom. Por exemplo, quando o
“Centrão” estruturou-se, com a divisão do PMDB, e conseguiu algumas vitórias
importantes, OG o concitou a uma vitória total sobre a esquerda/nacionalistas ao
afirmar que:
“Não cabe aos moderados colocarem panos quentes,
contemporizando em questões da gravidade (...) [como a] concessão de
estabilidade no emprego após três meses (...) A divisão [do PMDB] já
existe (...) Só resta consagrá-la. (...) Que os moderados do PMDB
assumam a divisão para o restabelecimento da Aliança Democrática
(...)” (OG, 07/07/87).
Como se observa, o jornal pressiona, veta, orienta, dirige. Numa palavra,
procurava organizar interesses, funcionando como uma espécie de intelectual
coletivo do establishment. Sobretudo nos momentos de derrota, mesmo que parcial,
assim como nas circunstâncias em que a base governista se dispersou (por motivos
diversos), a linguagem e o clima tornavam-se mais exuberantes e candentes, pois:
“Não há outro caminho senão o de todos nos unirmos pondo acima
de superadas divergências ideológicas ou de futuras disputas eleitorais os
supremos objetivos da Nação.” (OG, 05/05/88, ênfases nossas).
87
OPINIÃO PÚBLICA, Campinas, Vol. IX, nº 2, Outubro, 2003, pp. 73-92
A clareza meridiana desta passagem sintetiza o papel da grande imprensa.
Este editorial não apenas fora publicado em primeira página como ocupou
largamente a sua parte superior (a área mais nobre e visível do periódico), além de
ter sido assinado pelo próprio Roberto Marinho e intitulado justamente “Os
supremos objetivos da Nação”, sinônimo dos interesses defendidos pelos
periódicos. Trata-se da velha estratégia de universalização dos interesses
particulares, perfeitamente possível nas entidades unilaterais como a grande
imprensa. Para além deste aspecto, percebe-se também claramente como OG
chama a atenção dos aliados, cobrando-lhes unidade.
Ora, se este expediente foi utilizado por periódicos pragmáticos, o que dizer
então do tradicionalista OESP ? Este conclamaria os “liberais” à luta com maior
incisividade ainda. A cada passo da Constituinte, a grande imprensa foi se
posicionando, ora recuando, ora avançando, ora abrindo espaços à negociação.
Acompanhar a movimentação dos periódicos nesse momento decisivo da
elaboração da nova Constituição encerra muitas lições, dada a importância dos
temas a serem votados num espaço de tempo relativamente curto.
Para OESP, portanto,“(...) A hora é de os liberais acordarem – porque depois
será tarde.” (OESP, 05/02/87). Afinal, houve inúmeras batalhas no Congresso
Constituinte: a eleição de membros à Comissão de Sistematização, a modificação
do Regimento, as votações nos dois turnos, dentre inúmeras outras. À medida em
que os projetos considerados prejudiciais iam sendo aprovados, sobretudo quanto
aos direitos sociais, o atônito OESP posicionava-se com vistas a reagrupar as forças
aliadas:
“A votação espelha a falta de governo e o caos mental que corroem o
Brasil; a incapacidade de os empresários se articularem, de maneira
ordenada (...) a indecisão de muitos constituintes, que não sabiam
como votar assunto dessa magnitude [os direitos sociais] porque as
lideranças empresariais ou políticas não souberam transmitir instruções
precisas.” (OESP, 11/10/87, ênfases nossas).
De certa forma, este editorial faria uma espécie de mea culpa, pois,
aparentemente, a grande imprensa demonstrara inabilidade para dirigir, orientar os
parlamentares e os empresários. Para além desse aspecto, era clara a postura de
OESP no sentido de cobrar, repreender, instigar, sem jamais “jogar a toalha”, pois,
tal como em uma luta de boxe, por mais que o lutador esteja perdendo, é papel do
treinador orientar-lhe e dar-lhe estímulo. É isso que sobretudo OESP fez
exaustivamente, acompanhado contudo pelos seus pares. Para aquele jornal:
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O conservadorismo patronal da grande imprensa brasileira
“(...) os liberais brasileiros têm diante de si ingente tarefa; se não se
organizarem para combater o populismo estatizante (...) o Brasil corre o
risco de regredir (...)” (OESP, 20/11/87, ênfases nossas).
Aqui, a tese da ameaça apresenta-se em toda a sua dimensão, acompanhada
pela tese da perversidade, em razão dos efeitos deletérios que os novos direitos
trariam à “sociedade brasileira”.
Conclusão
Pode-se concluir, através de um editorial de OESP, como a grande imprensa
compreende seu próprio movimento homogeneizante. Ao comentar os conflitos
entre o empresariado paulista e o Governo Sarney, logo no início do processo
constituinte, em que o presidente fizera críticas à grande imprensa nacional,
afirmava OESP que:
“(...) O que a imprensa faz é assinalar os erros (e devem ser
muitos e tão evidentes para que se note quase unanimidade na
apreciação editorial dos fatos) (...)” (OESP, 21/07/87, ênfases nossas)22.
Ora, embora estivesse se reportando a um episódio específico, esta
passagem expressa em boa medida a atuação da grande imprensa, que em diversas
22 Como os temas da “liberdade de imprensa” e da introdução de eventuais mecanismos de controle da
sociedade sobre os meios de comunicação também estiveram em pauta durante a Constituinte, é interessante
observar como foram retratados pelos jornais. Em uma matéria de OESP sobre o posicionamento das
associações patronais num encontro específico dos representantes dos meios de comunicação para debater a
questão, os presidente da Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), José Antonio do Nascimento
Brito (do Grupo Jornal do Brasil), e da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Roberto Civita (do Grupo Abril),
assim se posicionaram:
[Para o presidente da Aner] “(...) [É] grande engano (...) [os] que pensam que ‘os meios de comunicação dirigidos
por famílias ou pequenos grupos acionistas produzem jornais antidemocráticos, pois o leitor não é burro e é um
erro de qualquer publicação achar que pode enganá-lo por muito tempo.’ (...) [Já] “Para o presidente da ANJ, é
essencial a defesa da liberdade de iniciativa, privilegiando o talento individual e a economia privada, ‘base
verdadeira de uma sociedade que ambicione ser politicamente aberta e materialmente rica.’” (OESP, 29/04/87,
Editorial de Política, seção Constituinte, p.2).
As duas falas expressam, cada qual a seu modo, como a grande imprensa permaneceu requerendo liberdade
mas sem qualquer preocupação quanto à responsabilidade pelo seu exercício. Os proprietários dos meios de
comunicação pretenderam continuar com a prerrogativa de falar em nome do público e desprovidos de qualquer
controle democrático por parte da sociedade, embora fossem órgãos privados.
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circunstâncias, sobretudo as que envolveram os interesses do Capital Global, a
relação Capital/Trabalho e, a partir das crises dos planos de estabilização da “Nova
República”, o papel do Estado, posicionou-se em uníssono. OESP apenas corrobora
esta conclusão. Uma vez mais as diferenças de perfis editoriais/ideológicos não
foram suficientes para que houvesse divergências tanto em relação à forma de
atuação como no que tange ao objetivo do projeto político/constitucional ou, numa
palavra, no teor da democracia brasileira a vigorar a partir do reordenamento do
marco legal, a nova Constituição. Tudo isso apenas confirma o caráter não plural,
autoritário e conservador, voltado à vulgarização e à divulgação de idéias da grande
imprensa em determinados momentos tidos como críticos. Sua visão de
democracia segue historicamente a das elites brasileiras, nas quais a própria
imprensa se insere: a democracia autoritária, no sentido de restrita, parcial23. Os
exemplos analisados neste artigo, sobretudo a relação Capital/Trabalho, são
decisivos para esta conclusão, pois demonstram os limites do projeto democrático
dos grandes periódicos nacionais.
23 Democracia parcial, restrita ou autoritária tem aqui o sentido conferido por ALMINO (1980), isto é, uma
democracia retoricamente universalista, mas efetivamente particularista, pois voltada aos interesses de
determinados grupos ou classes.
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O conservadorismo patronal da grande imprensa brasileira
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O posicionamento político dos grandes veículos de imprensa varia conforme a vertente econômica, editorial e o país em que operam, mas predomina a busca institucional por uma imagem de neutralidade e apartidarismo, embora críticos apontem vieses ideológicos específicos. Ao contrário do modelo dos Estados Unidos, onde jornais tradicionais como o The New York Times ou a emissora Fox News explicitam ou deixam claras suas preferências partidárias, a grande mídia no Brasil raramente declara voto ou apoio aberto a partidos.O panorama das forças que moldam o posicionamento da imprensa divide-se em diferentes frentes:🌐 Vieses Editoriais e EconômicosLiberalismo Econômico: Os grandes conglomerados de mídia (como o Grupo Globo, o Grupo Estado e o Grupo Folha) tendem a adotar uma linha editorial alinhada ao liberalismo econômico. Isso se traduz no apoio histórico a reformas estruturais, privatizações, teto de gastos e responsabilidade fiscal.Progressismo nos Costumes: Paralelamente, há uma inclinação em temas sociais (direitos humanos, diversidade, meio ambiente e pautas identitárias) para posições progressistas, o que atrai críticas de setores conservadores que enxergam um viés de esquerda na cobertura sociocultural.Conflitos de Percepção: O público e analistas políticos divergem constantemente sobre essa balança. Setores de esquerda frequentemente acusam a grande mídia de ser burguesa, de direita ou parcial contra governos progressistas. Por outro lado, setores da direita acusam esses mesmos veículos de promoverem uma agenda progressista e de oposição a líderes conservadores. Perfil dos Profissionais vs. Direção da EmpresaRedações: Pesquisas de perfil profissional (como o levantamento da FENAJ e estudos acadêmicos correlacionados) indicam que a maioria dos jornalistas em nível operacional se autoidentifica no espectro da esquerda ou centro-esquerda.Diretoria e Acionistas: O comando das corporações de mídia, os conselhos editoriais e os grandes anunciantes concentram-se no topo da pirâmide econômica, o que tende a manter a linha editorial institucional firmemente atrelada ao mercado financeiro e à defesa das instituições democráticas tradicionais.
Hisotoriacemte. Os grandes veioculos de imprensa no Brasiul. São adversareios de governos progressistas.
Confira o Editorial do Jornal Estado de São Paulo. https://www.estadao.com.br/
| E assim caminha a humanidade. Imagem do site vermelho |
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