O negacionismo científico é a recusa irracional em aceitar fatos, evidências e consensos comprovados pelo método científico, muitas vezes por motivos políticos, ideológicos ou financeiros.
O que caracteriza o negacuonsimo ?
Criação de falsas controvérsias: Tenta fazer o público acreditar que um tema com total acordo na ciência ainda é uma dúvida em aberto.
Seleção de dados tendenciosos: Usa estudos isolados, falsos ou de baixa qualidade para tentar anular pesquisas sólidas.
Uso de teorias da conspiração: Acusa a comunidade científica de agir em conjunto para enganar a sociedade.
Ataque à reputação: Tenta desmerecer o trabalho de cientistas e de instituições de pesquisa confiáveis.
As areas afetadas são :
Saúde pública: Movimentos antivacina e a negação da eficácia de tratamentos e doenças (como visto na pandemia da COVID-19).
Meio ambiente: A negação das mudanças climáticas e do aquecimento global gerado pela ação humana.
História e sociedade: A negação de fatos históricos documentados, como o Holocausto.
O negacionismo científico na extrema direita contemporânea é uma estratégia política deliberada para enfraquecer a autoridade de instituições democráticas e promover agendas nacionalistas, ultraliberais ou reacionárias.
Negacionismo Climático: Apresenta as políticas globais de redução de carbono como uma conspiração internacional para limitar a soberania nacional e a liberdade econômica.
Rejeição à Saúde Pública: Manifesta-se na oposição a vacinas e na desconfiança de agências sanitárias, frequentemente sob o discurso distorcido de defesa das liberdades individuais.
Ataque à Epistemologia Científica: Utiliza a fabricação de falsas polêmicas, a escolha seletiva de dados (cherry-picking) e a desqualificação de pesquisadores para corroer consensos consolidados.
Estratégia de Poder: O negacionismo deixa de ser um erro cognitivo isolado e passa a funcionar como elemento coeso de mobilização de base e alinhamento politico .
Consequências Globais e Locais: Prejudica a cooperação transnacional no enfrentamento de crises, enfraquece políticas de imunização coletiva e destrói o meio ambiente.
Ascensão da extrema-direita
e do negacionismo científico
(e climático): reflexos
na ordem internacional
Déborah Barros Leal Farias
Resumo: Um dos impactos da ascensão da extrema-direita no mundo tem sido o
crescimento do negacionismo científico e climático. Este artigo explora as principais
razões da correlação entre os princípios ideológicos da extrema-direita e o negacio
nismo científico/climático e as implicações de tal movimento na ordem internacio
nal. O artigo começa definindo o negacionismo científico, depois explica a conexão
da extrema-direita com o negacionismo científico e climático, e finaliza com impli
cações para a ordem mundial.
Palavras-chave: extrema-direita; negacionismo científico; negacionismo climá
tico; mudanças climáticas.
Rise of the Far-Right and Scientific (and Climate) Denialism:
Repercussions on the International Order
Abstract: The expansions of science denial and climate change denial are reflec
tive of the far-right rise globally. This article explores the main reasons behind the
correlation between far-right’s principles and science/climate change denialism,
and implications of the ideology for the international order. The article starts by
defining science denial, then explains the link between the far-right and science/
climate change denialism and finishes with implications of this phenomenon to the
international system.
Keywords: far-right; science denial; climate change denial; climate change.
52 · CEBRI-Revista
Ascensão da extrema-direita e do negacionismo científico (e climático): reflexos na ordem internacional
Nas últimas décadas, partidos e forças da extrema-direita têm crescido de
forma inegável. Diferentemente da direita “tradicional”, ancorada na
democracia liberal, a extrema-direita pode ser definida como um movi
mento que se apresenta como antissistema, abertamente hostil a elementos tradicio
nais da democracia liberal e, em certos casos, hostil até mesmo à própria democracia
(Bobbio 1994; Mudde 2019; Pirro 2021). Movimentos antidemocráticos, indepen
dentemente de uma associação política à direita ou à esquerda não são novos e nem
desapareceram após os horrores da Segunda Guerra Mundial (Saull et al. 2015).
Entretanto, com o fim da Guerra Fria, o “fim da História” foi anunciado por Fran
cis Fukuyama (1989; 1992): um mundo marcado pelo fim das batalhas ideológicas
e pela vitória do sistema de democracia liberal ocidental. O entendimento à época
era que partidos de extrema-direita, expressando opiniões abertamente antissemitas
e racistas, não conseguiam chegar ao poder (Ignazi 1992). Porém, menos de três
décadas mais tarde, a extrema-direita emergiu como a grande força de contestação.
Adaptando a famosa frase do escritor Mark Twain, as notícias da morte de ideolo
gias contrárias à democracia liberal parecem ter sido exageradas.
Este artigo foca em um reflexo específico do crescimento da extrema-direita
com repercussão internacional sistêmica: a expansão do negacionismo científico, de
forma geral, e o negacionismo climático, em particular. Pela lógica do negacionismo,
no caso de choque entre uma ideologia ou visão de mundo preexistente e fatos científi
cos, estes últimos saem perdendo. Negacionismo científico não é um fenômeno exclu
sivo da extrema-direita e pode ser encontrado em indivíduos e grupos de qualquer
posição ideológica (Washburn & Skitka 2017)1. Mas um elemento-chave que diferencia
o negacionismo científico ligado à ascensão da extrema-direita (em relação ao advindo
de outras ideologias) é sua atual visibilidade e capacidade de influência em larga escala.
Nas últimas décadas, a extrema-direita passou da marginalidade política para uma
posição proeminente e “normalizada”, e trouxe consigo visões específicas de mundo
e uma “identidade” atrelada a elas. Ou seja, o negacionismo científico conectado aos
valores da extrema-direita tem sido cada vez mais visível e influente no sistema interna
cional, justificando a necessidade de entender a relação entre esses elementos.
Visando entender melhor esse fenômeno, este artigo está dividido em quatro
seções analíticas: 1) definição do negacionismo científico; 2) ligação entre a extre
ma-direita e o negacionismo científico de forma geral; 3) caso específico da conexão
1. Por exemplo, movimentos considerados “alternativos” e contracultura têm um histórico de abraçarem o negacionismo, principalmente em
relação a medicamentos e tratamentos alopáticos.
Déborah Barros Leal Farias é professora (Senior Lecturer) de Política e Relações Internacionais na
Escola de Ciências Sociais da Universidade de New South Wales (UNSW) em Sydney, Austrália.
Ano 3 / Nº 11 / Jul-Set 2024 · 53
Farias
entre a extrema-direita e o negacionismo climático; e 4) implicações da ascensão da
extrema-direita e seu negacionismo científico para a ordem mundial.
O QUE É O NEGACIONISMO CIENTÍFICO
O negacionismo científico não é novo e nem limitado a poucos assuntos. Esse
fenômeno já se fez presente em relação a vários temas, como a negação da relação
do câncer com o cigarro e da causalidade entre o vírus do HIV e a AIDS; a falsa
crença de que certas vacinas causariam o autismo, sem contar com o terraplanismo,
que em pleno século XXI ainda atrai seguidores.
É necessário ressaltar que o questionamento de fatos ditos científicos não é,
por si só, uma coisa negativa. Pelo contrário, questionar premissas ontológicas e
epistemológicas, métodos, resultados, evidências e relações de causalidade é parte
de um processo inerente ao método
científico. A evolução do conhecimento
humano depende desse tipo de perguntas
e desafios. Afinal, várias certezas ditas
científicas já foram utilizadas para justificar
a pretensa inferioridade “natural” de
negros e mulheres, e novas evidências
rechaçadas por egos feridos ou risco de
perdas financeiras. Na visão crítica de
Robert Cox (1981, 128), “teoria é sempre
para alguém e para um propósito”.
Questionar o que é apresentado como
fato científico é, de forma geral, normal e
positivo, e não implica, necessariamente,
em negacionismo científico. Dito isso,
são as ressalvas dessa frase que separam
o questionamento científico “normal” do
negacionismo científico.
Questionar o que é
apresentado como fato
científico é, de forma geral,
normal e positivo, e não
implica, necessariamente,
em negacionismo científico.
Dito isso, são as ressalvas
dessa frase que separam
o questionamento
científico “normal” do
negacionismo científico.
O negacionismo científico é marcado, acima de tudo, pela rejeição de fatos
que não se encaixam com uma visão de mundo preexistente. Ao invés de a falta
de aceitação de algo ser baseada em elementos propriamente científicos, como os
métodos escolhidos ou a interpretação dos dados, o “não” vem a priori e baseado em
valores individuais. O negacionismo é, antes de qualquer coisa, movido pela prote
ção de uma identidade e, portanto, não pode ser compreendido sem a consideração
de um contexto social e político (Lewandosky & Oberauer 2016).
54 · CEBRI-Revista
Ascensão da extrema-direita e do negacionismo científico (e climático): reflexos na ordem internacional
Paradoxalmente, negacionismo científico não é sinônimo de anticiência. Esta
envolve a rejeição do método científico por completo, como, por exemplo, advogam
os criacionistas, que acreditam que somente a Bíblia explica literalmente a existên
cia do ser humano e de toda a vida na Terra. Já os negacionistas, esses rejeitam os
resultados científicos contrários à sua visão de mundo e contra-argumentam usando
outros dados supostamente científicos (Diethelm & McKee 2009; Rosenau 2012;
Sinatra & Hofer 2021). Como resultado, o negacionismo científico traz consigo o
verniz de um embate científico. Esse ponto é importante porque ajuda a separar o
negacionismo da simples ignorância científica, em que um indivíduo reconhece que
não sabe o que a ciência diz sobre um tema, ou quando acredita erroneamente
em algo por conta da falta de conheci
mento sobre um assunto. Nesse caso, a
aceitação de novas ideias não está con
dicionada a ideologia ou valores indivi
duais preexistentes, cuja solução envolve
alfabetização científica (scientific literacy)
(Miller 1983; Laugksch 2000; Chassot
2003; Sasseron & Carvalho 2011).
O negacionismo científico pos
sui quatro características epistemoló
gicas (Hansson 2017, 40-43; Diethelm
& McKee 2009; Cook 2020). A pri
meira é cherry-picking, uma expressão
No caso do negacionismo,
quaisquer informações
que reforcem sua visão
de mundo são aceitas
imediatamente, enquanto
aquelas que refutam são
automaticamente colocadas
sob o mais rígido escrutínio.
que se refere a uma escolha seletiva de fatos convenientes, como que à la carte,
quando se levam em consideração apenas os dados que (re)afirmam a crença
preexistente. A segunda, a negligência em refutar informações comprovada
mente ultrapassadas, como alguém que continuasse a acreditar na sangria como
forma de cura de doenças por “limpar” o sangue de impurezas. A fabricação
de controvérsias falsas é a terceira característica: o objetivo é criar a ilusão de
que existe uma controvérsia científica real e que a comunidade científica “séria”
estaria tratando uma questão como ainda em aberto, sem consenso formado. O
elemento final levantado é: critérios distorcidos do que é necessário para tornar
uma nova teoria ou descoberta aceita pela comunidade científica. Na ciência
“normal”, aceitar de forma apressada pode ser perigoso, assim como exigir cer
teza absoluta é uma barreira praticamente impossível para qualquer descoberta.
No caso do negacionismo, quaisquer informações que reforcem sua visão de
mundo são aceitas imediatamente, enquanto aquelas que refutam são automati
camente colocadas sob o mais rígido escrutínio.
Ano 3 / Nº 11 / Jul-Set 2024 · 55
Farias
EXTREMA-DIREITA E O NEGACIONISMO CIENTÍFICO
Antes de discutir a relação entre a extrema-direita e o negacionismo cientí
fico, é necessário estabelecer o que é extrema-direita2. Não existe uma definição
precisa do que seriam os valores da extrema-direita. Como já mencionado na intro
dução, de forma geral, a extrema-direita é marcada pela rejeição da democracia
liberal – e defesa da democracia iliberal – e, em alguns casos, a rejeição à democracia
como um todo – ou seja, a defesa da antidemocracia. Porém, é necessário começar por
detalhar esse fenômeno com mais especificidade. Existe um forte vínculo entre a
extrema-direita e valores socialmente conservadores (Pelinka 2013; Anievas & Saull
2023). Ser socialmente conservador não
significa ser ou apoiar a extrema-direita.
A diferença está no fato de a extrema--direita abraçar o conservadorismo de
uma posição radical, fundamentalista
e intransigente. Na base dos valores
da extrema-direita está a primazia da
defesa das bases tradicionais da socie
dade, como família e religião, vistas de
Ser socialmente conservador
não significa ser ou apoiar
forma exclusionária e hierárquica. Ou
seja, apenas um tipo de família e uma
religião são (ou deveriam ser) válidos.
Mesmo que outras configurações ou
crenças sejam “toleradas”, existe um
desenho familiar específico (patriarcal)
e uma religião superiores. Em vários
casos, a xenofobia e o racismo também
são abertamente defendidos dentro da
mesma lógica: existe um grupo social
mente “superior” e que, consequente
mente e naturalmente, deveria ter mais
voz e poder político do que os outros. O
apelo ao passado também faz parte do
discurso da extrema-direita, retratado
como um tempo em que os valores do grupo “superior” eram os que guiavam a
nação e que teria sido perdido/roubado/abandonado com a degeneração da socie
dade, resumido por Zygmunt Bauman (2017) com o conceito “retrotopia”.
a extrema-direita. A
diferença está no fato de
a extrema-direita abraçar
o conservadorismo de
uma posição radical,
fundamentalista e
intransigente. Na base dos
valores da extrema-direita
está a primazia da defesa
das bases tradicionais da
sociedade, como família e
religião, vistas de forma
exclusionária e hierárquica.
2. Neste artigo, os conceitos usados por Mudde (2019) – extreme right, far-right e radical right – serão condensados na expressão “extrema-direita”.
56 · CEBRI-Revista
Ascensão da extrema-direita e do negacionismo científico (e climático): reflexos na ordem internacional
Um outro fenômeno frequente da extrema-direita – e com forte conexão com
o negacionismo – é a tendência a abraçar teorias conspiratórias (frequentemente
apocalípticas) com implicações para o cenário internacional, objeto de discussão
mais à frente. As pessoas que acreditam em teorias conspiratórias procuram explicar
grandes eventos políticos ou sociais como decorrentes de planos secretos, organiza
dos por um pequeno grupo de indivíduos e/ou organizações (Keelye 1999; Sunstein
& Vermeule 2009; Douglas et al. 2017; 2019). Uma das principais características
da “lógica” conspiratória é ser imune à falsificação. Ou seja, qualquer evidência
contrária à certeza conspiratória é racionalizada como mais um exemplo da força e
do alcance da conspiração, em uma visão paranoica do mundo (Lewandowsky et al.
2013; 2015). Três princípios guiam a visão de mundo conspiracionista: nada acon
tece por acidente, nada é o que parece ser e tudo está interligado (Barkun 2013).
Segundo Douglas et al. (2017, 538), indivíduos são atraídos por teorias conspirató
rias (comparadas com explicações não conspiracionistas) motivados pela promessa
de satisfação psicológica epistêmica (desejo de entender, busca de certeza), existen
cial (desejo por controle e segurança) ou social (desejo de manter uma imagem posi
tiva de si mesmo ou do grupo). A ideia de uma elite global controlando o mundo
é uma narrativa frequente entre aqueles que abraçam teorias conspiratórias (Cam
pion-Vincent 2017; Castanho Silva et al. 2017; Douglas et al. 2019). A princípio,
essa posição não parece ser tão destoante da visão de acadêmicos realistas ou mar
xistas no campo das relações internacionais, focados nas grandes potências ou na
elite capitalista. A grande diferença é que, na visão conspiratória, a elite costuma ser
bem mais seleta, secreta e estaria “acima” do Estado e dos interesses capitalistas. Ou
seja, esses atores seriam controlados por essa dita “elite”. Em narrativas mais extre
mas, adicionam-se acusações de antissemitismo, satanismo e até mesmo a presença
de alienígenas como parte desse grupo misterioso.
Como já dito, o negacionismo científico é baseado não em questões cientí
ficas, mas sim em questões identitárias. Consequentemente, é grande a probabi
lidade de rejeição (backlash) a fatos/descobertas científicas tidos como contrários
aos “valores” defendidos pela extrema-direita. Um exemplo óbvio: a concepção de
gênero binária e absolutista não aceita a complexidade biológica – muito menos a
social – do conceito de gênero ou orientação sexual. O binário homem/mulher, a
heteronormatividade e a identificação cisgênero não são vistos como comuns, mas,
sim, “normais”. Portanto, qualquer possível variação é “anormal”. Divergências do
padrão são tidas como aberrações à ordem “natural” das coisas, não importa o que
especialistas digam. Uma tática comum para desacreditar expertise em casos como
esse é apelar para o dito “bom senso popular” – uma reinterpretação do espírito vox
populi, vox Dei – em que este teria mais valor e falaria mais alto do que a ciência (“todo
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Farias
mundo sabe o que é certo”). Um outro caminho usado para deslegitimar cientistas,
usado principalmente pelo populismo de extrema-direita, é o anti-intelectualismo.
Esse movimento classifica experts como membros da elite e, portanto, seguidores de
uma agenda política contrária aos valores do povo “verdadeiro” (Mudde 2004; Ylä--Anttila 2018; Mede & Schäfer 2020), e frequentemente acusados de fazerem parte
de movimentos conspiratórios de uma suposta “elite global”.
Tendo em vista os valores conservadores fundamentalistas abraçados pela
extrema-direita, é fácil entender o desafio cognitivo de aceitar variações relativas a
gênero e sexualidade. Porém, a agenda negacionista da extrema-direita tem pontos
que não teriam por que ser abraçados, muito menos de forma tão contundente. Um
dos exemplos foi a reação da extrema-direita (especialmente nos EUA e no Brasil)
à pandemia Covid-19, marcada pelo negacionismo – negação do vírus, da eficácia
e importância de vacinas, do uso de máscaras, do distanciamento social etc. –, por
ataques a especialistas e teorias conspiratórias (Casarões & Magalhães 2021; Kalil
et al. 2021; Stecula & Pickup 2021; Morelock & Narita 2022; Recuero et al. 2022;
Wondreys & Mudde 2022; Chen et al. 2023). A princípio, não há nada que direta
mente predispusesse valores conservadores propriamente ditos à reação ferozmente
negacionista. Porém, uma vez que essa posição foi atrelada à identidade e pertenci
mento de grupo, a lógica da correlação é irrelevante. A próxima seção explora com
mais detalhes um outro exemplo de negacionismo que é presente em praticamente
todo discurso da extrema-direita mundial e com impacto direto na ordem interna
cional: o negacionismo climático.
EXTREMA-DIREITA E O NEGACIONISMO CLIMATICO3
O negacionismo climático (climate change denial) é, “sem dúvida, a forma
mais coordenada e bem financiada de negacionismo científico” (Björnberg et al.
2017, 235). Ele pode ser definido como a não aceitação de que: 1) o fenômeno
do aquecimento global existe; e/ou 2) que ele é antrópico, ou seja, decorrente de
causas humanas (e não simplesmente “natural”). Estratégias negacionistas – inde
pendentemente do tópico discutido – podem ser separadas em três categorias:
negacionismo literal, interpretativo e implicatório (Cohen 2001). O literal, como
antecipa o próprio nome, representa a negação completa do fenômeno climático:
ele simplesmente não existe. Ele seria apenas uma fabricação, uma farsa (hoax)4.
Com o passar dos anos, tem ficado cada vez mais difícil sustentar essa posição, o
3. O tópico do negacionismo climático é explorado em mais detalhes no capítulo “Climate Change Denialism”, escrito pela mesma autora deste
artigo, a ser publicado em 2025 no livro Oxford Handbook of Climate Action.
4. No Brasil, um dos primeiros nomes a levantar essa bandeira foi o “filósofo” da extrema-direita nacional, Olavo de Carvalho (Carvalho 2007).
58 · CEBRI-Revista
Ascensão da extrema-direita e do negacionismo científico (e climático): reflexos na ordem internacional
que tem levado ao crescimento das outras formas de negacionismo (Fischer 2019;
Shue 2022). O negacionismo interpretativo aceita que o aquecimento global está
acontecendo e é causado por atividades humanas, porém suas consequências e a
urgência em ações para mitigar o fenômeno estariam sendo exageradas. O nega
cionismo implicatório foca na responsabilidade: se aceita a realidade do aqueci
mento global antropogênico, mas não há nada que possa ser feito a respeito do
problema – ou seja, “não é minha responsabilidade” (Cohen 2001; Wullenkord &
Reese 2021). Esses dois últimos tipos de negacionismo são, hoje em dia, os mais
prevalentes. Mais do que dizer que os cientistas estão simplesmente errados, o
mais comum é ressaltar a existência de (supostas) dúvidas ou controvérsias entre
os cientistas, ou seja, uma forma mais “moderada” de negacionismo que tem tido
mais “sucesso” do que o negacionismo climático literal (Cann & Raymond 2018).
Assim como o negacionismo científico, o negacionismo climático também
não é um fenômeno exclusivo da extrema-direita. Uma pesquisa conduzida por
Hornsey et al. (2018) em 24 países encontrou uma série de correlações – e nuances – importantes. Em três-quartos dos casos analisados, não havia relacionamento
significativo entre negacionismo climático e o conjunto das cinco variáveis de
ideologia analisadas: posição política mais à direita/esquerda, ideologia política
liberal/conservadora, crença em teorias conspiratórias, nível de individualismo e
valores hierárquicos/igualitários. Mas, em praticamente todos os países, achou-se
uma correlação positiva entre ideologia conservadora e negacionismo climático,
embora com relativa baixa intensidade na Europa Ocidental. Os Estados Unidos
e, de forma um pouco menos contundente, Brasil, Austrália e Canadá se desta
caram como os países onde foram registradas as correlações mais fortes entre
negacionismo climático e orientação política à direita, valores conservadores, altos
níveis de crença em teorias conspiratórias, preferência pelo individualismo e posi
cionamento contrário à redução de desigualdades sociais. Ou seja, nem todos os
negacionistas climáticos são de extrema-direita, e nem todos aqueles que abra
çam a extrema-direita são negacionistas climáticos. Porém, existe uma correlação
positiva entre esses dois pontos, seja ela mais ou menos forte dependendo do caso
específico. Essa pesquisa reafirmou os resultados de uma meta-análise também
conduzida por Hornsey et al. (2016), que concluiu que filiação e ideologias polí
ticas eram as duas variáveis mais fortemente relacionadas com negacionismo cli
mático – significativamente mais do que nível educacional ou de renda (ver tam
bém Lockwood 2018; McCright & Dunlap 2011a; 2011b). Nessa visão de mundo,
cientistas e ativistas ambientais são vistos como sendo “agentes” ideológicos da
esquerda – se não, comunistas – e, muitas vezes, como parte de atores fomentadores
de uma agenda “globalista” e socialmente “lacradora” (woke).
Ano 3 / Nº 11 / Jul-Set 2024 · 59
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Dentro do contexto dos que abraçam o negacionismo climático, também existe
uma correlação positiva com gênero: várias pesquisas mostram que o negacionismo é,
em geral, um fenômeno mais comum entre homens do que entre mulheres, principal
mente visível no contexto de homens que se identificam como conservadores (Jylhä et
al. 2020; McCright & Dunlap 2011a; Milfont & Sibley 2016; Nelson 2020; Wullenkord
& Reese 2021). Nessa interseção entre negacionismo climático, valores conservadores e
misoginia, ser a favor de pautas de defesa do meio ambiente é ser visto como algo afe
minado, resumido no conceito de “petromasculinidade” (Daggett 2018; Nelson 2020).
Um dos motivos de os EUA se destacarem na ligação entre conservadorismo
e negacionismo climático decorre da força política de think tanks conservadores –
integrantes do grupo chamado por Oreskes e Coway (2011) de “comerciantes da
dúvida” (merchants of doubt). Esses atores são um dos grupos mais fortes a levantar a
bandeira do negacionismo climático, ao criar, disseminar e amplificar informações
pró-negacionistas, e “amarrar” o negacionismo climático à identidade conservadora
(Brulle et al. 2012; Brulle 2014; 2023; Dunalp 2013; Dunalp & Jacques 2013; Busch
& Judick 2021). Organizações como a Heritage Foundation, o Cato Institute e o Ameri
can Enterprise Institute (AEI) fazem parte da “máquina de negacionismo [climático]”
(Dunlap 2013; Dunlap & McCright 2011) e contam com amplo financiamento de
empresas e setores cujos interesses econômicos se alinham com o status quo – i.e.,
continuação na alta emissão de gases estufas –, tais como os setores petrolífero,
petroquímico e de mineração. Esses setores também são responsáveis por um outro
tipo de organização que também trabalha em prol do negacionismo climático, mas
de forma mais insidiosa, usando nomes escolhidos para parecerem científicos – ou
até mesmo pro-meio ambiente – mas cuja função é propagar o negacionismo climá
tico com um verniz de neutralidade (Cho et al. 2011; Byrne 2020). Um exemplo:
a Global Climate Coalition (Coalização Climática Global), que funcionou de 1989 a
2002, com membros como o American Petroleum Institute (Instituto de Petróleo dos
EUA) e a National Association of Manufacturers (Associação Nacional de Fabricantes [de
produtos manufaturados]), cujo objetivo principal era obstruir políticas domésticas e
negociações internacionais voltadas para frear o aquecimento global (Brulle 2023).
EXTREMA-DIREITA, NEGACIONISMO CIENTÍFICO
E A ORDEM MUNDIAL
A ascensão da extrema-direita, que trouxe consigo uma forte propensão ao
negacionismo científico (e climático), já tem repercutido direta e indiretamente na
ordem internacional. Dois casos se destacam nessa repercussão direta. Primeira
mente, o caso do aquecimento global, discutido na seção anterior. O outro exemplo
60 · CEBRI-Revista
Ascensão da extrema-direita e do negacionismo científico (e climático): reflexos na ordem internacional
é a pandemia do vírus Covid-19, que demonstrou o enorme impacto da ligação entre
a extrema-direita e o negacionismo (Ward et al. 2020; Debus & Tosun 2021; Kalil
et al. 2021; Sturm & Albrecht 2021; Albrecht 2022; Stoeckel et al. 2022). O nega
cionismo relativo à Covid-19 não foi –
nem continua sendo – um fenômeno
exclusivo da extrema-direita. Porém o
impacto do negacionismo advindo da
extrema-direita é (mais) significativo por
conta do (maior) poder político atual
dessa ideologia em um número cada vez
maior de países, comparado com aquele
da extrema-esquerda, por exemplo.
[...] o impacto do
negacionismo advindo da
extrema-direita é (mais)
significativo por conta
Se um líder ou partido de extre
ma-direita está no poder e sua base
eleitoral tem um perfil negacionista, é
racional imaginar que existem vanta
gens políticas em dobrar a aposta nega
cionista no contexto interno em detri
mento de compromissos internacionais.
do (maior) poder político
atual dessa ideologia em
um número cada vez maior
de países, comparado
com aquele da extrema-
esquerda, por exemplo.
Consequentemente, um dos principais efeitos do negacionismo em larga escala é o
impacto negativo na cooperação mundial, principalmente em relação aos “proble
mas sem passaportes”, conceito popularizado pelo ex-secretário-geral das Nações
Unidas Kofi Annan (2002). Um elemento em comum desses problemas – desafios
cujas causas e consequências transcendem as limitações políticas e sociais decor
rentes da soberania estatal – é que eles, por sua própria natureza, só podem ser
solucionados por meio de ampla cooperação internacional. Ou seja, eles necessitam
de uma governança global, uma ideia que, apesar de distinta, transita facilmente no
conceito de ordem liberal internacional (Weiss 2015; Zürn 2018).
Governança global pode ser definida como o exercício de autoridade através
de fronteiras nacionais, juntamente com normas e regras consentidas que se esten
dem além do Estado-Nação, justificadas com referência a bens comuns ou problemas
transnacionais (Zürn 2018, 4). De modo geral, a extrema-direita não vê governança
global com bons olhos, já que ela pressupõe o relativo “enfraquecimento” da sobera
nia nacional em nome de valores da democracia liberais aos quais a extrema-direita
se opõe. A natureza difusa da governança global, sem uma liderança clara e visível,
fornece terreno fértil para teorias conspiratórias especularem quem “realmente”
estaria no comando. Mas esse não é o único desafio. A complexidade envolvida na
solução de problemas globais naturalmente gera questionamentos: qual a causa, de
Ano 3 / Nº 11 / Jul-Set 2024 · 61
Farias
quem é a responsabilidade, qual a melhor solução, quem se beneficia do problema
(ou da solução) etc. Essas perguntas são, a princípio, naturais e saudáveis. Porém
essa complexidade também aumenta o espaço para a criação e difusão de narrativas
conspiratórias, ancoradas nos pilares já mencionados (Barkun 2013): nada acontece
por acidente, nada é o que parece ser e tudo está interligado.
No contexto da extrema-direita mundial, o conceito “globalismo”, ou melhor,
anti-globalismo, tem tido destaque. Baseado numa visão conspiratória, haveria um
conluio entre várias forças – grandes capitalistas, partidos de esquerda, mídias tradi
cionais, universidades, cientistas, burocratas de organizações internacionais, ONGs
etc. – para controlar o mundo. O objetivo desse suposto grupo seria eliminar valores
tradicionais e impor valores progressistas (tidos como degenerados), anticristãos e
cosmopolitas do dito “marxismo cultural” – assim como argumentado no Brasil
pelo ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo (Casarões & Farias 2022).
Outra conspiração global propagada pela extrema-direita é a do Great Replacement,
ou “Grande Substituição”, baseada na ideia de que populações etnicamente homo
gêneas (brancas e cristãs) estariam sendo substituídas por estrangeiros (não brancos
e não cristãos, geralmente muçulmanos) (Cosentino 2020; Ekman 2022).
Apesar de a extrema-direita ser essencialmente antiglobal, existem ligações
globais conectando indivíduos e grupos. A internet e as mídias sociais têm tido um
papel fundamental no adensamento dessa network entre indivíduos com visão de
mundo semelhante. Porém, existe um verdadeiro “ecossistema” da extrema-direita
mundial que conta com think tanks e mídias conservadoras, (pseudo) intelectuais e jor
nalistas, celebridades e “influenciadores”, que alimentam e difundem elementos da
extrema-direita pelo mundo (Mudde 2019; Stewart 2020), formando o equivalente
a uma “comunidade epistêmica” (Haas 1992). Em decorrência de avanços tecnoló
gicos, textos e áudios podem ser rapidamente traduzidos e distribuídos, facilitando
ainda mais o alcance de ideias ainda malvistas em ambientes políticos não extremis
tas. Dessa forma, os mesmos discursos e argumentos negacionistas e conspirações da
extrema-direita, apesar de (aparentemente) difusos em sua origem, acabam sendo
reproduzidos de forma global (Ramos & Torres 2020).
Um resultado da relutância da extrema-direita em cooperar para a gover
nança global de problemas mundiais é que ela tende a piorar a desigualdade mun
dial. Por exemplo, os grupos naturalmente mais predispostos a serem afetados
pelo aquecimento global de forma mais dura e imediata são justamente grupos
sociais marginalizados doméstica e internacionalmente, como pobres, imigrantes
e mulheres (Jylhä & Hellmer 2020, 317-8). Ou seja, apesar de o problema ser
universal, os custos da inação climática não são/serão distribuídos igualmente. A
lógica semelhante se aplica à pandemia do Covid-19: o alcance do negacionismo
62 · CEBRI-Revista
Ascensão da extrema-direita e do negacionismo científico (e climático): reflexos na ordem internacional
e das teorias conspiratórias propagadas pela extrema-direita ultrapassaram essa
“bolha” ideológica e atingiram pessoas com menor grau de educação formal
e renda (Romer & Jamieson 2020; Lazarus et al. 2021). Isso fez com que um
número muito maior de pessoas deixasse de se vacinar, usar máscaras, praticar
o distanciamento social e/ou demorassem para procurar atendimento médico
no início de sintomas mais sérios, com efeitos deletérios ainda mais graves para
indivíduos e comunidades dependentes de serviços públicos de saúde já institu
cionalmente fragilizados antes mesmo da pandemia.
CONCLUSÃO
O negacionismo científico pode se dar em relação a qualquer tema. Porém, ele
tem maior chances de ganhar projeção quando se trata de fenômenos relativamente
novos e/ou naturalmente complexos e multifatoriais, já que a incerteza proporciona
um terreno fértil para a imaginação. Apesar de o negacionismo não ser exclusivo
da extrema-direita, o crescente poder e a “normalização” desse movimento político
têm amplificado o alcance e a força de
narrativas negacionistas – e frequente
mente conspiratórias. A pandemia do
vírus da Covid-19 e a não aceitação da
realidade do aquecimento global têm
mostrado, de forma contundente e ine
gável, a dimensão global do negacio
nismo científico propagado pela extre
ma-direita e os efeitos desse fenômeno
na ordem mundial.
Entretanto, existem alguns gran
des cuidados que todos devem ter ao
lidar com o tema do negacionismo
científico, com dois sendo aqui destaca
dos. Primeiramente, nem todo questio
namento à ciência tida como “certa” e
A pandemia do vírus da
Covid-19 e a não aceitação
da realidade do aquecimento
global têm mostrado,
de forma contundente e
inegável, a dimensão global
do negacionismo científico
propagado pela extrema
direita e os efeitos desse
fenômeno na ordem mundial.
amplamente aceita deve ser equiparado a negacionismo. O método científico tem
como base fundamental a busca pela verdade com base em novas perguntas, dados,
métodos e interpretações. Ou seja, o método científico nunca deve ser subjugado ao
dogma das respostas existentes. O que separa a dúvida científica do negacionismo
é que, nesse caso, a não aceitação do que diz a ciência decorre de juízos de valor
preexistentes – portanto, não importa o que a ciência diz. E como o negacionismo
Ano 3 / Nº 11 / Jul-Set 2024 · 63
Farias
não se entende como anticiência, a rejeição e o preconceito (no sentido original, de
conceito preexistente) são racionalizados usando a linguagem científica. Portanto,
não se combate o negacionismo científico com simplesmente mais dados ou mais
informação científica. Para “abrir a mente” de um negacionista é importante o reco
nhecimento de que a “dúvida” científica está, na verdade, baseada em algo além da
ciência. Em segundo lugar, o negacionismo científico não é exclusivo da ideologia
da extrema-direita – o mesmo sendo válido para teorias conspiratórias. Em um uni
verso político diverso, é fundamental: 1) não esquecer que outros grupos ideológicos
(latu sensu) também podem cultivar seus próprios negacionismos e conspirações, e
que também podem ser problemáticos se tiverem grande alcance; e 2) continuar a
barrar a influência do negacionismo na elaboração de políticas públicas.
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Recebido: 21 de agosto de 2024
Aceito para publicação: 4 de setembro de 2024
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Como citar: Farias, Déborah Barros Leal. 2024.
“Ascensão da extrema-direita e do negacionismo
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internacional ”. CEBRI-Revista Ano 3, Número 11
(Jul-Set): 52-68.
To cite this work: Farias, Déborah Barros Leal.
2024. “Rise of the Far-Right and Scientific (and
Climate) Denialism: Repercussions on the
International Order.” CEBRI-Journal Year 3, No. 11
(Jul-Sep): 52-68.
DOI: https://doi.org/10.54827/issn2764-7897.
cebri2024.11.02.03.52-68.pt. O artigo da autora Déborah Barros Leal Farias
Os Estados Unidos registraram mais de 1 milhão de mortes oficiais por COVID-19 durante a pandemia, marca ultrapassada em maio de 2022.
Total de óbitos: Mais de 1 milhão de mortes confirmadas e prováveis.
Comparações históricas: O total de vítimas superou a soma de americanos mortos na Primeira Guerra Mundial, na Segunda Guerra Mundial e na Guerra do Vietnã juntas. Segundo o Portal G1 da Rede Globo.
Norte americanos que foram assassinados por Donald Trump . E quantos serão mortos por sarampo //?
Confira a noticia no UOL. https://noticias.uol.com.br/
E assim caminha a humanidade.
Imagem do UOL .
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