Conservadorismo, progressismo e liberalismo são as três principais correntes de pensamento político e social que moldam o debate público contemporâneo. Cada uma delas possui uma visão distinta sobre a natureza humana, o papel do Estado, a economia e a evolução das tradições sociais.
Resumo das Diferenças
Vertente PolíticaFoco PrincipalPapel do EstadoVisão sobre Mudanças SociaisConservadorismoPreserva
Conservadorismo
O conservadorismo defende a preservação das instituições tradicionais, como a família, a igreja e a comunidade, como pilares de estabilidade social.
Tradição e Prudência: Rejeita rupturas revolucionárias abruptas, preferindo reformas lentas e testadas pelo tempo.
Ceticismo da Razão Pura: Questiona projetos utópicos de engenharia social que tentam refazer a sociedade do zero.
Ordem Moral: Defende a existência de uma ordem ética duradoura e costumes estabelecidos.
Progressismo
O progressismo foca na transformação social e na promoção da igualdade por meio de reformas políticas e econômicas.
Mudança Social: Vê a história como um caminho de avanço contínuo em direção aos direitos humanos e justiça.
Intervenção Estatal: Defende que o Estado deve atuar ativamente para mitigar desigualdades e proteger minorias.
Quebra de Paradigmas: Questiona tradições antigas que possam perpetuar opressões ou privilégios históricos.
Liberalismo
O liberalismo coloca a liberdade individual como o valor supremo e o direito inalienável de cada cidadão.
Direitos Individuais: Prioriza a defesa da vida, da propriedade privada e da liberdade de expressão.
Livre Mercado: Advoga pela livre concorrência econômica e menor interferência estatal na produção.
Comportamento Eleitoral no Estado de São Paulo e os Preditores do Voto
Paulista*
Juliana Moura Bueno**
Mesa
Comportamiento electoral en America Latina
Resumo: A produção acadêmica da Universidade de São Paulo sobre o comportamento
eleitoral no estado de São Paulo entre meados das décadas de 1950 e 1960 identificou a
clivagem “rural versus urbano” como uma importante variável explicativa do voto
paulista. As primeiras análises ressaltaram a importância do processo de urbanização e
ainda levantaram novas questões, como a influência de fatores carismáticos na decisão
do voto, e o populismo. A contribuição para a área do comportamento eleitoral se dá na
tentativa de compreensão de certas questões por meio da releitura de obras que
abordaram o comportamento eleitoral no Estado de São Paulo, desde sua produção
inicial, até sua última produção relevante, que data 1994.
Palavras-Chave: Comportamento Eleitoral, Eleições, Governo do Estado, Estado de
São Paulo, Urbanização, Sociologia Política, USP.
Abstract: The academic production of the University of Sao Paulo on electoral
behavior about the state of São Paulo in the mid-1950s-60s has identified the cleavage
"rural versus urban" as an important explanatory variable of the voters' behavior in the
state. The first assessments on the matter highlighted the relevance of the process of
urbanization and also brought up new questions, identified issues that were just arising.
Examples are the existence of a charismatic factor influencing the voter's decision and
also, the issue of populism. This paper is thus an attempt to contribute to the subfield of
Electoral Behavior, once trying to better comprehend the most relevant studies - from
the early ones, until the last relevant study, dated 1994 - that focused on the
understanding of electoral behavior in São Paulo.
Key Words: Electoral Behavior, Elections, State Govern, São Paulo State, the process
of urbanization, Political Sociology, University of São Paulo
*Trabalho preparado para apresentação no VII Congreso Latinoamericano de Ciencia Política, organizado
pela Associação Latinoamericana de Ciências Política (ALACIP), Bogotá, 25 ao 27 de setembro de 2013.
**Juliana Moura Bueno é aluna de graduação do curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo.
Introdução
Este artigo é resultado da familiarização com a produção acadêmica na área do
comportamento eleitoral e, mais especificamente, com os estudos que abordaram o
comportamento eleitoral no Estado de São Paulo produzidos na Universidade de São
Paulo.
A ocorrência de estudos que abordam o comportamento eleitoral no município
de São Paulo nas eleições para o executivo e legislativo é grande (SIMÃO 1956,
LAMOUNIER 1975, 1980, 1986; PIERUCCI 1993; LIMONGI et alli 2002,
CARREIRÃO E BARBETTA 2004). Com relação aos estudos sobre o Estado de São
Paulo, a situação é um pouco diferente, pois a quantidade de trabalhos com este tema é
bem menor (FERREIRA 1960 e 1964; WEFFORT, 1965, CARDOSO 1975;
GUILHON et alli 1995). A existência de poucos trabalhos conhecidos sobre esse
assunto revela também a necessidade de aprofundamento da investigação sobre
produções secundárias.
Nos primeiros trabalhos que abordaram o comportamento eleitoral paulista, a
principal variável de análise foi a clivagem “rural versus urbano” (SIMÃO, 1954,
FERREIRA, 1960 e 1964; WEFFORT, 1965). Como até 1970 a população rural era
maior do que a população urbana, é possível que essa estrutura tenha influenciado o
comportamento eleitoral, como sugerido pela bibliografia. Segundo Seymour Lipset
(1967), o grau de urbanização influenciaria no comportamento eleitoral, pois, quanto
mais rural, mais isolado estaria o eleitor e esse isolamento produziria mais medo da
mudança.
As obras de comportamento eleitoral que sucedem a onda de estudos uspianos
sob o guarda-chuva da Sociologia Política são poucas e relatam a diminuição da
importância da clivagem “rural versus urbano” na compreensão do comportamento
eleitoral em São Paulo. Cardoso (1975). Tendo isso em mente, este artigo buscará
responder algumas questões: Houve ou não avanço do uso da clivagem “rural versus
urbano” como importante variável explicativa do comportamento eleitoral em São
Paulo? Surgiram novas variáveis explicativas? Se surgiram, quais são elas? São esses
alguns pontos que serão problematizados com a revisão das obras sobre comportamento
eleitoral no Estado de São Paulo de 1954 a 1994.
As primeiras eleições democráticas em São Paulo
Antes de iniciarmos com a análise dos primeiros trabalhos sobre comportamento
eleitoral em São Paulo, consideramos importante resgatar obras que poderiam nos
fornecer um retrato, ainda que não totalmente completo, do contexto da política
paulista. Os episódios relatados a seguir buscam situar o leitor sobre o surgimento de
figuras políticas proeminentes e de partidos em São Paulo, que consideramos serem
importantes para a compreensão dos primeiros trabalhos sobre comportamento eleitoral
desenvolvidos na Universidade de São Paulo, sob a égide da Sociologia Política.
No início da década de 1930, São Paulo passou por um processo revolucionário
que buscara a independência do estado em relação à nação. As tropas nacionais
derrotaram os paulistas, o que os manteve ainda ligados à estrutura federativa da nação,
comandada por Getúlio Vargas, mesmo que a contragosto da aristocracia local.
Sob a égide de uma nova constituição, estabeleceram-se eleições diretas para
todos os cargos executivos - Presidente, Vice-Presidente, Governador e Prefeito - bem
como para os cargos legislativos. As primeiras eleições diretas para governador do
estado de São Paulo após o fim do Estado Novo [1] são datadas de 1947. Isso não
significa, contudo, que a história pregressa da política no estado de São Paulo tenha sido
superada. Muito pelo contrário. As figuras mais proeminentes da política estadual do
período 1930-1945 tiveram grande participação na recém-inaugurada República de
1945.
Durante os “Tempos Tumultuários” [2], como o historiador Alceu Maynard
Araújo denominou o período de 24 de outubro de 1930 a 14 de março de 1947, vinte e
um homens ocuparam o posto mais alto da política estadual. Esses homens eram, em
sua maioria, paulistas, militares ou juristas, maçons, de boa condição sócio-econômica e
bem relacionados com Getúlio Vargas. Foi um período dominado pelo continuísmo –
entendido em sua concepção administrativa - e pelo nepotismo.
Contudo, não foram os eleitores paulistas que os elegeram. Todos aqueles que
ocuparam o cargo mais alto do executivo estadual nesse interim ou foram eleitos
indiretamente pela Assembleia Legislativa ou foram indicados por Vargas. A direção
estadual passou por diversas fases, mas em todas elas “se fez sentir a predominância de
interesses conservadores e de antirrevolução” (MAYNARD, 1960, p. 2) bem como as
tensões intra-elites - que tinham horror ao varguismo – na disputa pelo controle político
do estado.
Nas primeiras eleições para governador pós-Estado Novo, em 1947, o recém
fundado Partido Social Progressista (PSP) com o apoio do Partido Comunista Brasileiro
(PCB) lançara como candidato para concorrer ao cargo de governador do Estado de São
Paulo o médico Adhemar de Barros. Com 35,3% [3] dos votos, Adhemar venceu o
pleito derrotando Hugo Borghi, do Partido Trabalhista Nacional (PTN), Mário Tavares,
pela chapa do Partido Social Democrático (PSD) e do Partido Republicano (PR) e
Antônio de Almeida Prado, da União Democrática Nacional (UDN), tornando-se o
primeiro governador de São Paulo do novo período democrático, e governou até 1950.
Nas eleições seguintes, de 1950, “comemorou como mérito próprio a eleição de
seu sucessor, o professor Lucas Nogueira Garcez, que fora seu secretário de Obras, além
da eleição de 45,5% dos prefeitos do interior pelo PSP” (COTTA, 2008, p. 21). Garcez,
por sua vez, foi constante alvo da tentativa de ingerência de Adhemar de Barros nos
assuntos do governo estadual. Com tal desgaste, rixas internas no partido acabaram
enfraquecendo a liderança de Adhemar no PSP. A derrota de Adhemar de Barros em
1954 para seu principal opositor, Jânio Quadros, poderia ser indicativo da ausência de
articulação interna do PSP, com vistas a fazer a máquina estadual do partido trabalhar
em favor de seu candidato.
Na liderança do PSP, Adhemar nunca escondeu sua cobiça pelo posto de
Presidente da República. Não conseguiu fazer do PSP um partido de projeção nacional,
mas certamente o fez um dos maiores partidos de São Paulo, que superou, em episódios
eleitorais em âmbito estadual, os três maiores partidos nacionais - a UDN, o PSD e PTB
[4].
O Pioneirismo de Azis Simão
A primeira análise das eleições em São Paulo sob a ótica do comportamento
eleitoral foi feita por Azis Simão. O tema do trabalho de Aziz Simão, publicado em
1956, foi a discussão do voto operário na capital e as questões de consciência de classe
nas eleições de 1947, 1949 e 1950. Seu trabalho serviu de referência àqueles que
seguiram a linha da Sociologia Política nos estudos de Comportamento Eleitoral na
própria universidade, como Oliveiros Ferreira e Francisco Weffort.
Como era na capital do estado onde estava a maior concentração do eleitorado
paulista e operário, o autor tentou criar uma tipologia do voto operário na cidade de São
Paulo que levava em conta a alta concentração de operários em certos distritos da
capital. A classe social que se inclinara a votar majoritariamente no PCB e no PTB tinha
dois tipos de comportamento eleitoral. O primeiro deles é comportamento relatado pelo
autor como tendo como base o julgamento a respeito de um candidato ou partido, e que
é característico dos seguidores de um partido ou chefe. E o outro, peculiar aos eleitores
indiferentes à ação partidária nos seus ambientes de trabalho, relaciona-se ao
comportamento daqueles que não estavam organizados em classe ou não tiveram a
proximidade da experiência de classe. O autor verificou ser mais comum nesse grupo a
existência de um voto que se baseava na simpatia por um candidato ou partido.
Simão também identificou as distinções dos grupos sociais nos quais esses dois
tipos de comportamento mais apareceram, bem como suas atitudes com referência às
escolhas para o Executivo e o Legislativo. Com relação ao Executivo, em 1945 e 1947,
o eleitorado operário votou nos candidatos indicados pelos chefes do PCB e do PTB, e
em 1950, já com o PCB na ilegalidade [5], votou no PTB e em seus aliados. Para o
Legislativo, em 1945, o operariado oscilou entre o PCB e o PTB, padrão que se
manteve em 1947 mesmo com certo aumento nos votos do Partido Social Progressista
(PSP) [6]. Em 1950, o PTB explicou e recomendou aos seus eleitores a necessidade de
votar ‘na chapa completa’ (SIMÃO, 1956, p. 138).
Ao examinar os elementos empíricos, Simão propôs algumas conclusões parciais
sobre fatores que poderiam ter interferido no comportamento eleitoral dos operários nas
eleições em 1945, 1947 e 1950. A primeira delas é que a extinção do PCB teria ajudado
a desorganizar o voto da classe trabalhadora. Em um segundo momento, dirigiu-se à
questão da clivagem “rural versus urbano” para constatar que essa variável, com a
intensificação do processo de urbanização, era cada vez menos explicativa do
comportamento eleitoral.
O autor deixou de lado os tipos puros “rurais” e urbanos” e propôs a existência
de um “continuum rural-urbano”; exemplo dessa nova formação são os bairros
suburbanos da cidade de São Paulo que passaram a ter algumas características de
urbanidade. A existência de uma duplicidade da estrutura, ou seja, a impossibilidade de
encontrar comportamentos puramente “rurais” ou “urbanos” deveria ser levada em
conta na análise do comportamento eleitoral na cidade de São Paulo (SIMÃO, 1956).
O processo de urbanização e o surgimento de elementos carismáticos: as eleições
em São Paulo sob o ponto de vista de Oliveiros Ferreira
Em ‘Comportamento Eleitoral em São Paulo’ (1960), Oliveiros Ferreira estudou
o comportamento político do eleitorado paulista nas eleições para Governador,
Senadores e Deputados Federais realizadas em 1954 e 1958. Na introdução, o autor
discutiu a compreensão do comportamento político pelo campo da Sociologia Política e
a relevância da estrutura social e de classes na compreensão do comportamento
eleitoral. Contudo, segundo o autor, era preciso discutir também a existência de
elementos de outra ordem, como fatores psicológicos, na abordagem das pesquisas de
campo sobre comportamento político.
Para o estudo das eleições paulistas de 1954 e 1958, seria ao menos necessário
considerar outros componentes de influência na escolha dos candidatos feita pelo
eleitor. Tais componentes estariam relacionados com duas categorias: o irracional, que
também pode ser entendido como formas sociais ainda não cristalizadas ou a superação
de elementos racionais no processo de decisão do eleitor (FERREIRA, 1960). Outro
elemento de importância é o poder, compreendido a partir de uma referência constante
no texto de Ferreira que é a de ‘máquina eleitoral’.
Uma possível forma de compreensão sobre a superação das estruturas racionais
sugerida pelo autor refere-se à vitória de um candidato para a prefeitura de São Paulo na
eleição de 1954 que poderia estar relacionada a elementos carismáticos (idem). Ao fazer
referência ao surgimento de tais elementos que superariam a racionalidade na decisão
do voto propôs que compreensão dos resultados dos pleitos em análise deveria ser feita
com o uso deste instrumental.
Levando em conta a contribuição de Simão (1956), Oliveiros Ferreira teve o
cuidado de sempre colocar as categorias “rural” e “urbano” entre aspas. Durante o
trabalho, o autor recorrentemente fez notas após o emprego dessas categorias para
relembrar o leitor que elas não deveriam ser entendidas em sua forma pura [7]. Segundo
o autor, nas eleições para governador em 1954, o candidato Jânio Quadros representou a
tendência do eleitorado da área industrializada e a votação de Adhemar de Barros
melhorou conforme diminuíam os índices de industrialização.
Mas há algumas ressalvas quanto ao recrutamento de votos. De um modo mais
geral, os candidatos como Adhemar que recrutaram a maior parte dos seus votos nas
áreas rurais também obtiveram expressivas votações nas áreas industrializadas [8]. Isso
é mais um elemento que corrobora a tese do autor de que não era mais possível
compreender o comportamento eleitoral do cidadão paulista apenas considerando a
clivagem “rural versus urbano”.
Ferreira fez considerações sobre os partidos nesse contexto, mas não entrou no
debate sobre a forma de classificá-los, se seriam “rurais” ou “urbanos”. As justificativas
do autor para não usar classificações dos partidos que envolvam delimitar quais
interesses eles representavam se relacionam ao fato de que Ferreira deu mais
importância à compreensão de que tipo de mentalidade eles poderiam representar.
Justamente porque, para o autor, seriam os elementos de natureza não racional, como a
relação carismática que os candidatos estabeleceram com o eleitorado, que decidiram as
eleições paulistas de 1954 e não a penetração dos partidos em diferentes áreas. O autor,
contudo, nunca negou a relevância da própria variável urbanização no comportamento
eleitoral, e, apesar de não dar centralidade a ela, não a deixou de lado.
Naquele momento, Ferreira não se aprofundou nas questões do surgimento de
uma relação carismática entre eleitorado e candidato, e mais especificamente entre Jânio
e o eleitorado paulista. Contudo, forneceu indicações sobre o que poderia explicar essa
vitória. Algumas suposições foram feitas por Ferreira, principalmente sobre a afinidade
dos partidos que formaram a coligação pela qual Jânio se lançara candidato (PTN e
PDC) com as classes médias. São contribuições que permitem suspeitar que houvesse
no “janismo” o nascimento de um movimento de classes médias, rurais e urbanas - mas
principalmente urbanas. [9]
Sobre o pleito de 1958 para Governador, há algumas novidades. Segundo
Ferreira, houve uma diminuição das forças das máquinas partidárias, verificada pelo
aumento da participação de pequenos partidos na cena política. O autor também fez
menção a herança que Jânio Quadro deixara ao seu sucessor Carvalho Pinto, que
pareceu ter conseguido passar a mensagem ao eleitorado de que ele carregava consigo
os mesmos valores de seu padrinho, ou seja, que levaria a frente as promessas do
“janismo”.
Algumas mudanças relacionadas ao avanço da urbanização também apareceram
no pleito de 1958, segundo a análise de Oliveiros Ferreira. Todos os candidatos
passaram a recrutar mais de 50% dos seus eleitores na área mais industrializada, e
assim, o comportamento eleitoral que antes tinha uma distinção quase espacial, na
clivagem “rural versus urbano” precisaria ser compreendido de outra maneira. De certa
forma, Ferreira anunciava a insuficiência dos critérios de industrialização e urbanização
como preditores do voto paulista.
Apesar da relevância do estudo de 1960 de Oliveiros Ferreira, é em “A Crise de
Poder do ‘Sistema’ e as Eleições Paulistas de 1962” (1964) que o autor fez
considerações que relacionaram a análise das eleições de 1954 e 1958 (FERREIRA,
1960) à conjuntura política da época. Em 1964, Ferreira imprimiu um tom muito mais
político para sua escrita, e passou a abordar questões políticas relativas à década de
1950 que foram deixadas de segundo plano na obra de 1960. Quando se fala da
abordagem de questões relativas à década de 1950, é necessário dirigir especial atenção
ao “janismo”, fenômeno que é mencionado no trabalho publicado em 1960, mas ao qual
o autor não dirigiu atenção especial.
O “janismo”, segundo o autor, poderia representar os anseios reformismo social
paulista porque levavam em conta as necessidades de mudança nas estruturas sociais
aliadas à continuidade de processo de urbanização. Segundo o autor, aqueles que
aderiram a esse movimento (ressalte-se, grande parte da classe média) esboçavam sua
vontade em romper com estruturas de dominação das elites, em prol de reformas na
administração pública e na varredura da corrupção (FERREIRA, 1964, p. 182).
Segundo Oliveiros Ferreira, a vitória de Adhemar de Barros na eleição para o
Executivo estadual em 1962 era um resultado tipo pelos analistas como impossível
(FERREIRA, 1964, p. 180). Primeiramente porque as últimas tendências indicavam a
tendência de permanência de uma ordem “reformista” que teria prosseguimento com
Jânio, representando em pessoa o “janismo” no pleito de 1962. E, em segundo lugar,
porque Adhemar de Barros tinha perdido as eleições para o cargo, ao concorrer nas duas
eleições anteriores (em 1954 e 1958).
Desde 1954, a tendência observada pelo autor no eleitorado paulista era que ele
dava preferência a candidatos que personificassem solução de alteração do status
quo econômico-social e que tivessem propostas de organizar o aparato administrativo
conforme o slogan “mais administração e menos política” (FERREIRA, 1964, p. 183).
Mas essa tendência encontrou, segundo o autor, algumas barreiras, já que o “janismo”
não foi capaz de se identificar com a mentalidade do eleitorado nas áreas rural e urbana
quando Jânio Quadros, não esteve o representando [10].
Em 1962, Adhemar conseguiu em parte pelos ventos a seu favor, em parte pela
inabilidade dos outros candidatos, ampliar sua penetração naquelas camadas antes
ligadas ao projeto de ordem do “janismo” - que anteriormente não vislumbravam em
Adhemar um candidato que poderia garantir-lhes a ordem e a tranquilidade. Apesar de
não ser contra o sistema, segundo Ferreira, Adhemar adquirira circunstancialmente esse
papel, fazendo-se representante das classes médias temerárias com a crise, em busca da
manutenção da ordem e da hierarquia salarial ainda que defendendo a necessidade de
reformas.
As duas publicações aqui apresentadas (FERREIRA, 1960 e 1964), podem ser
entendidas como complementares. O trabalho de Oliveiros Ferreira publicado em 1964
é um desdobramento da obra de 1960 e por isso mesmo foram abordadas conjuntamente
nesta revisão. Ao mesmo tempo em que o autor analisou os pleitos que ocorreram no
Estado de São Paulo em 1954, 1958 e 1962, delineou o panorama da conjuntura política
paulista. Segundo ele, apesar da insuficiência da clivagem “rural versus urbano” como
preditor do voto paulista, propondo-se que estas categorias estariam engendradas em
mentalidades e não na estrutura social, reconheceu, ao mesmo tempo, que o processo de
urbanização era fundamental para a compreensão de como os partidos dividiam o
eleitorado.
Weffort e o Populismo Paulista
Em “Raízes Sociais do Populismo em São Paulo” (1965), Francisco Weffort fez
uma abordagem das eleições estaduais que se focou na interpretação do conteúdo social
e político das manifestações do “janismo” e do “adhemarismo” nas eleições a
Governador em 1962. Para tal, aplicou questionários em bairros da capital paulistana
nos quais os dois candidatos, Jânio Quadros e Adhemar de Barros, somaram votação
nunca inferior a 70% dos votos.
A inclusão deste trabalho nesta síntese bibliográfica se dá pelo fato de que, como
o próprio autor argumenta na introdução do texto, como pano de fundo, há uma
tentativa de contribuir para a compreensão mais geral desse fenômeno: “embora se
atendo a um objeto muito circunscrito [a relação líder-povo] deve, pelo menos in
abstractu, superar estes limites e se propor como explicação totalizante” (WEFFORT,
1965, p. 47).
Já de início é possível perceber a existência de um diálogo entre Weffort e a
interpretação feita por Ferreira (FERREIRA, 1960 e 1964) dos pleitos de 1954, 1958 e
1962 nos quais fenômenos sócio-eleitorais semelhantes apareceram. A novidade contida
na análise de Weffort é a relação carismática entre candidato e eleitor ou o populismo.
Tal como visto por Weffort, a peculiaridade de sua interpretação relacionado o
populismo à negação de um termo que assuma apenas o significado de “superação de
elementos racionais da estrutura social” como entendido pelo senso comum. O conteúdo
do termo se diferenciaria pela existência, segundo Weffort, de conteúdo ideológico e de
posição social nestas manifestações.
Para Weffort, dar novo sentido ao termo populismo é uma tentativa de
compreender como a ideologia e a posição social se expressam nos bairros nos quais
Jânio e Adhemar obtiveram suas maiores votações. O autor propôs a desmistificação de
que não existiam distinções entre o “janismo” e o “adhemarismo” pelo fato de serem
sumariamente categorizados como populistas – conforme argumentou o autor, a palavra
carrega sentido léxico pejorativo do qual ele não compartilha, pois remete à
despolitização e à incapacidade de compreensão da realidade política pelas classes mais
baixas – mas também pelo fato de que o voto nestes candidatos populistas é forma das
classes manifestarem seu descontentamento. E é neste ponto que reside, segundo o
autor, o caráter político do fenômeno.
A consideração do populismo como situação de classe implica em também
considerá-lo como uma forma na qual as massas idealizam a liderança, o poder do
Estado, e estabelecem com ele uma conexão. As hipóteses mais amplas do autor para os
dois casos dizem respeito ao ”janismo” como expressão política dos setores assalariados
(operários e classe média urbana); e o “adhemarismo” como a expressão política de
setores pouco integrados ao desenvolvimento capitalista e urbano (pequenos
proprietários e o lumpen).
A distinção entre as expectativas de quais meios (“urbano” ou “misto”) estes
candidatos representavam esteve presente nos trabalhos de Ferreira (1960 e 1964), que
também considerou a contribuição do trabalho de Simão (1956) em seus estudos. A
suspeita levantada por Weffort é que a distinção entre o conteúdo político e social dos
dois fenômenos residia na observação das diferenças de penetração eleitoral dos dois
candidatos. O autor também observou que a probabilidade da vitória de Jânio crescia
conforme aumentava a importância da cidade enquanto núcleo urbano [11].
Enquanto nas áreas mais urbanizadas, onde Jânio recrutara a maior parte de seu
eleitorado, havia, segundo Weffort, uma classe trabalhadora pequeno-burguesa
assimilava as vicissitudes da urbanização; ao lumpen do meio rural e aos recém
chegados do campo na cidade era muito mais difícil se integrar à vida urbano-industrial.
As hipóteses mais amplas do autor para os dois casos são as seguintes: o “janismo”
expressaria politicamente setores assalariados (operários e classe média urbana)
enquanto o “adhemarismo” expressaria politicamente setores pouco integrados ao
desenvolvimento capitalista e urbano (pequenos proprietários e lumpen).
Para Weffort, a forma como cada uma dessas classes representava suas
necessidades manifestou-se também na maneira como idealizaram suas lideranças. No
entanto, para que pudesse existir distinção na imagem dessas lideranças, seria preciso
que houvesse, nessas duas manifestações, um conteúdo que fosse passível de ser
assimilado de modo distinto pelos eleitores. A especificidade do “janismo” das classes
médias trabalhadoras é que o ressentimento que tinham com a sua situação social não se
refletia na busca por um Estado que os protegesse - pensemos no Adhemar “pai dos
pobres” - mas um Estado moralizado, que tivesse conteúdo anticorrupção - lembremo
nos da “vassoura” de Jânio.
Ao dialogar criticamente com o marxismo nas suas conclusões sobre o
“janismo”, Weffort apresentou a análise de Marx em 18 Brumário [12] do campesinato
francês e utilizou-a para fazer uma alusão às classes médias massificadas:
“[...] na medida em que [os setores janistas] não possuem
tradições classistas[...], ou seja, enquanto aparecem como massa, - só encontram meios de expressar-se através do reconhecimento
de um carisma, isto é, através da mais irracional forma de
liderança política” (WEFFORT, 1965, p. 60).
É possível dizer que o diálogo entre as categorias “rural” e “urbano” e os
fenômenos socio-políticos lapidados por Weffort estaria em seus conteúdos políticos e
também nas distinções de comportamentos. O “janismo” e o “adhemarismo” não
poderiam ser encarados como fenômenos iguais. A sua distinção estava não só no seu
conteúdo político, mas nos ambientes que se manifestavam. O “janismo” era o
comportamento das classes médias urbanas [com algumas especificidades, já destacadas
no texto] e o “adhemarismo” mais identificado com o comportamento “rural”. Assim,
estabeleceu diálogo com Aziz Simão, ao falar sobre o recorte rural-urbano do voto, mas
também com Oliveiros Ferreira, ao sugerir que o voto paulista, mesmo quando dirigido
a figuras populistas, não adquiriu característica de ser um voto de simpatizantes, mas
um voto dotado de conteúdo político – que seria até um conteúdo de classe, como
também sugerira Aziz Simão (1956).
O texto de Ferreira que está sob análise texto foi publicado em 1965, o que
significa que o Golpe Militar de 1964 já tinha ocorrido. Pelos dos relatos da época,
sabe-se ainda que as classes médias apoiaram amplamente o golpe. Há, na última
passagem, uma menção à possível existência de um fator no comportamento político
das classes médias que esteja associado ao apreço que teriam por um “poder ilimitado”.
Como não se pode afirmar categoricamente a existência de um componente autoritário
associado ao voto das classes médias “janistas”, convém ainda não descartarmos essa
hipótese.
O Comportamento Eleitoral pós-1970 e o surgimento de novas variáveis
Em “Partidos e deputados em São Paulo: O Voto e a Representação
Política” (1975), Fernando Henrique Cardoso remonta a história do desenvolvimento
político-partidário no Estado de São Paulo até o pré-golpe Militar de 1964, na tentativa
de explicar o porquê da vitória do MDB (Movimento Democrático Brasileiro) nas
eleições de 1974 não ter sido tão surpreendente. Faz, então, o que nenhum dos autores
que analisaram anteriormente o comportamento politico em São Paulo fez: trouxe para o
eixo central do debate o papel desempenhado pelos partidos políticos nessa dinâmica.
Os estudos disponíveis na época relatavam a política no Estado como uma
disputa entre personalidades. De fato, apesar de existirem análises sobre o desempenho
dos partidos políticos nas eleições de 1954, 1958 e 1962 que foram até discutidas aqui,
as abordagens dão mais atenção ao papel de lideranças políticas nesse processo do que
aos partidos.
A questão central é que no estado mais urbanizado da nação, não existiu partido
que durante o regime democrático de 1945 conseguisse organizar a classe trabalhadora
urbana. Segundo Cardoso, esse é o motivo principal pelo qual estivessem atuando
livremente em “formas degradadas de representação” (CARDOSO, 1975, p. 47) como o
populismo, o falso trabalhismo e o oportunismo. Este “contexto de marginalização dos
setores ideológicos” (ibidem), teria resultado da fragmentação dos partidos aliada a
fragmentação da própria estrutura social. Ademais, com a declaração de
inconstitucionalidade do Partido Comunista em 1947, a classe operária perdeu
sua referência de organização política.
Como outro fator importante, a fragilidade do PTB no estado e sua debilidade
em fincar as raízes do trabalhismo getulista em solo paulista. O partido estava muito
fragilizado. Disputas internas e o clientelismo oportunista de suas lideranças coibiram o
desenvolvimento partidário da sigla. Nesse período, surgiram novas legendas que se
aliavam, quando era conveniente, ao trabalhismo para arregimentar votos das massas,
travando disputa direta pelas mesmas bases sociais.
Em 1º de abril de 1964, uma conspiração arquitetada pelos militares com apoio
formal dos setores mais conservadores da sociedade toma os contornos de Golpe de
Estado. Instala-se a Ditadura Militar no Brasil, e o primeiro presidente, escolhido por
uma junta militar, foi o General Castello Branco. Uma característica particular do
regime ditatorial brasileiro é que não rompeu totalmente a institucionalidade.
Extinguiram-se todos os partidos políticos e a ditadura criou duas siglas artificiais -
ARENA e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) - mas manteve eleições diretas
para os cargos legislativos.
Fernando Henrique Cardoso argumenta que o bipartidarismo forçou a massa a
escolher entre duas opções: ou mostrava seu alheamento ao sistema votando
NULO/BRANCO, ou dava apoio ao partido de oposição, o MDB. Mas era
compreensível que não manifestasse apoio ao partido de oposição; O MDB não
simbolizava oposição. Assim, para explicar a nem tão surpreendente vitória do MDB
em 1974, o autor resgata em parte o argumento de Weffort (1965) da associação de um
conteúdo político de representação de classe ao voto.
A ditadura brasileira civil-militar ficou conhecida pela aceleração do processo de
urbanização e do falseado crescimento econômico. E por isso mesmo, um período no
qual as altas taxas de crescimento e de industrialização refletiram, inicialmente, de
forma positiva no dia a dia da população mais vulnerável. Mas o início da década de
1970 foi o início do fim do milagre econômico: aumento nas taxas de juros, aumento
dos preços dos alimentos, congelamento de salários e o próprio arroxo salarial, fizeram
com que as manifestações de insatisfação com o regime começassem a ser mais
frequentes e até mais aparentes.
Mas as vitórias acachapantes da ARENA nos pleitos de 1966 e 1970 deram ao
regime a confiança e legitimidade de que precisavam para não precisarem alterar a
estrutura eleitoral, mesmo com o advento da abertura “lenta, gradual e segura”
prometida pelo General Ernesto Geisel. É possível que em 10 anos de ditadura, a derrota
da ARENA para o MDB em 1974, pela primeira vez, tenha sido o maior revés público
sofrido pelo regime.
Fernando Henrique Cardoso analisou sistematicamente alguns fatores essenciais
na diferenciação do voto no MDB e na ARENA. É justamente nessa diferenciação que
residia, segundo o autor, o importante componente de politização do voto e que é
fundamental para explicar o resultado do MDB nas eleições em questão (CARDOSO,
1974). Assim, Cardoso tentou verificar se existiam de fato diferenças entre os deputados
da ARENA e do MDB que pudessem justificar a escolha majoritária dos eleitores
paulistas pelos candidatos oposicionistas.
Com relação às características dos deputados, em geral, verificou-se que o MDB
abrigava mais deputados que tinham origem na classe média baixa e também aqueles
vinculados a entidades de base e associações (religiosas, voluntariado, representantes de
minorias sindicatos e associações de categorias profissionais etc.). Mesmo que o
mecanismo de mobilização política desses deputados eleitos estivesse baseado em
prestígio pessoal, não bastou apenas uma identificação pessoal sem identificação de
interesses para que fossem eleitos.
Os políticos que não foram caçados quando da dissolução dos partidos com o
Ato Institucional No. 1, puderam reingressar nas disputas políticas escolhendo a
ARENA ou o MDB. Os trabalhistas se agregaram no MDB, os Udenistas e
Progressistas do PSP agregaram-se na ARENA. Mas, de forma geral, o MDB era mais
heterogêneo do que seu opositor.
Como a mobilização das massas ocorreu nas bases do oposicionismo, o
oposicionismo funcionou como preditor do voto. Nesse sentido, mesmo que houvesse
identificação do voto, se não havia o compartilhamento do valor “oposicionismo”,
provavelmente não era estabelecida relação de representatividade. E isso, de certa
maneira, cristalizou-se nos mecanismos do eleitorado de diferenciação dos deputados
emedebistas.
Fernando Henrique Cardoso fez também um balanço do desenvolvimento do
sistema partidário-eleitoral em São Paulo e lançou apontamentos sobre seu
desenvolvimento, e, mais especificamente sobre o futuro do MDB. Para o sociólogo,
existiam chances de o MDB fazer a passagem de legenda a partido, mas, para tal,
precisaria seguir certo caminho. O que quer dizer com isso é que para virar partido,
precisa passar a representar estavelmente o interesse político de suas bases. O autor não
descartava essa possibilidade, com tom até otimista, mas destaca alguns desafios que o
MDB teria para conseguir cumprir essa passagem com sucesso.
Para virar partido, e mais especificamente um partido que consiga angariar base
social na massa popular que está voltando a atuar politicamente, o MDB precisaria
aumentar participação popular em seus quadros, fazer trabalho de base, atualizar
perspectiva e conteúdo oposicionista constantemente e elevar o grau de democracia
interna.
Por fim, Cardoso fez um alerta à possibilidade de complicação da cena estadual
pela fragmentação interna dos partidos – são muitos interesses aglutinados em apenas
duas siglas (CARDOSO, 1975, p. 74) - e ao ressurgimento de figuras “adormecidas”
(vide: Jânio Quadros) que poderiam influir no controle da bancada estadual,
complicando a cena para a legenda e até desconstruindo o status de oposição ao regime
que o MDB conquistou.
Desde a análise de Fernando Henrique Cardoso até o trabalho de Limongi
(1994), houve três eleições diretas para governador do estado, e duas delas ainda sob o
regime ditatorial. A ausência de estudos que abordaram este período mostra que há uma
grande lacuna na produção bibliográfica, principalmente no campo da Ciência Política.
É bem verdade, contudo, que neste mesmo ínterim – fim da década de 1970 e início da
década de 1990 – brotaram inúmeros trabalhos sobre as eleições na capital do Estado de
São Paulo, que utilizaram diferentes abordagens das que vinham sendo feitas até então.
Os novos trabalhos incluíam análises quantitativas mais sofisticas (i.e. LAMOUNIER,
1986), mas também trabalhos qualitativos de extrema importância para a compreensão
de certo nicho do eleitorado (i.e. PIERUCCI, 1987, PIERUCCI e LIMA 1991 e 1993).
Em 1994, em um relatório de atividades para a FAPESP, Fernando Limongi
trabalhou com o tema da estabilidade eleitoral em São Paulo, no período de 1989 a
1994. O principal argumento do autor referia-se às recentes eleições poderem ser
explicadas com base na suposição de que o eleitor se manteria fiel a certo campo
ideológico ao longo do tempo. De isso, deriva uma segunda tese, que diz respeito ao
padrão do comportamento eleitoral dos indivíduos, entendido pelo autor como dado
pelo posicionamento ideológico dos eleitores e candidatos e das acomodações e ajustes
entre estas partes.
Segundo Limongi, os dados obtidos por meio da aplicação de um survey em
todo o Estado de São Paulo mostraram a existência de uma estrutura ideológica no
eleitorado paulista. O que o autor conseguiu verificar é que a escolha dos candidatos
feita pelos eleitores se movimentou de acordo com as opções de candidaturas que
apareceram, e, na maioria das vezes, inclinaram-se à direita.
Conclusão
Ao fazer a análise da bibliografia que aborda o tema do Comportamento
Eleitoral no Estado de São Paulo e os preditores do voto paulista conseguimos extrair
algumas questões. A primeira delas diz respeito à própria limitação dessa bibliografia
existente, uma vez que aborda as eleições desde o fim da década de 40 até o início dos
anos 90. Desde então, nada de relevante foi escrito sobre o tema. Outra questão que
podemos ressaltar são as variáveis de análise que a bibliografia identificou/utilizou.
Enquanto as obras mais antigas pensavam sobre a influência da transformação
do meio rural e o processo de urbanização no estado – que então já era o mais
industrializado do país - e de como essas transformações poderiam influenciar o voto do
eleitor paulista, Weffort (1962) e Cardoso (1975) trabalharam o componente de classe
na análise do comportamento eleitoral e Limongi (1994), duas décadas depois,
identificou a relevância da identificação partidária na análise uma vez verificando que o
eleitorado paulista fazia suas escolhas de forma coerente a certa estrutura, na qual os
eleitores que se reconhecem como “de direita” votaram em candidatos de partidos da
direita, e eleitores que se reconhecem como “de esquerda” votaram em candidatos à
esquerda, chamada pelo autor de estrutura ideológica.
O estudo do comportamento eleitoral paulista, até então, também imprimiu
esforços na tentativa de sinalizar a relevância do componente socioeconômico no
comportamento eleitoral, em meio ao processo de desenvolvimento econômico e
industrial das terras paulistas. As dimensões do comportamento eleitoral expostas nos
trabalhos revisados buscaram algo além de apenas explicar como os eleitores paulistas
votam. Tais ensaios propuseram-se a entender mais profundamente os processos sociais
e políticos que se desenvolviam tendo como palco o estado de São Paulo e, assim,
conjecturar sobre como essas questões refletiam no comportamento eleitoral e vice
versa.
Desde a última obra relevante sobre o tema, ocorreram cinco eleições para
governador do Estado de São Paulo. Em todas essas, os candidatos da esquerda nunca
obtiveram sucesso e, algumas vezes nem foram ao segundo turno. Outra característica
importante desse período eleitoral de quase duas décadas é que um mesmo partido saiu
vitorioso em todos os pleitos. O Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB) teve 3
candidatos diferentes nas últimas 5 eleições e, por duas vezes (2006 e 2010), venceu as
eleições para governador ainda no primeiro turno.
As discussões pertinentes à análise das últimas duas décadas de eleições para
Governador em São Paulo são diversas. É possível discutir a continuidade do PSDB no
governo, a trajetória do PT, a polarização das eleições como algo mais recente, ou seja,
construído historicamente neste intervalo de tempo 1994-2010, etc. Tais questões
devem fazer parte de uma discussão mais ampla sobre o tema e deve ser futuramente
desenvolvida pela Ciência Política. Assim, também buscamos esclarecer que há uma
lacuna na produção da Ciência Política que ainda resta ser preenchida, que é o estudo
das últimas eleições para governador que ocorreram no estado.
Notas Finais
[1]
Dados
do
TSE
disponíveis
em
http://www.tse.gov.br/internet/eleicoes/cronologia.htm
[2] Inspirado em LEITE, Aureliano. História da Civilização Paulista. Editôra Livraria
Martins. São Paulo, 1946, p.7.
[3] Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – Departamento de Imprensa Nacional.
[4] Segundo Vasselai (2011) o “Estado de São Paulo foi a única unidade federativa em
que, simultaneamente, os três grandes partidos [UDN, PSD e PTB] do Brasil [no
período democrático 45-64] foram pouco significativos” (VASSELAI, 2011). Para não
perdermos o foco da questão, é necessário que nos questionemos sobre a atuação das
elites paulistas (tanto a urbana em formação quanto a agrária em decadência), pois, se
elas não estavam inseridas de forma mais profunda no quadro nacional, ou se eram
outsiders na cena nacional, certamente estavam defendendo seus interesses na cena
estadual.
[5] Em 1947, o PCB de Luis Carlos Prestes apoiou Adhemar de Barros como candidato
a governo do Estado também na esperança de que, caso eleito, Adhemar firmasse seu
compromisso de defender a existência legal de todos os partidos (COTTA, 2008, p.57).
Mesmo com a vitória de Adhemar, o PCB que se mostrara uma “uma segunda força,
capaz, senão de vencer, pelo menos manter a competição” (BRANDÃO, 1997) bem
como de organizar a classe operária paulista, foi declarado ilegal. O motivo declarado
de sua cassação seria o fato de o PCB não ser um Partido nacional, mas um braço de um
órgão internacional.
[6] Para consultar os números dos votos obtidos por Adhemar nas referidas eleições ver
FERREIRA, 1960, p. 172.
[7] Segundo ele, “O ‘urbano’ [...] define-se muito mais em função do gênero de vida e
da relativa abertura de suas estruturas às influências inovadoras que tanto vêm de fora,
quanto são oriundas das transformações que se processam naqueles extratos da
sociedade que Marx chamaria de ‘forças produtivas materiais’ e ‘estrutura social’” e o
rural, é a antítese do urbano mesmo em sua ausência de pureza. (FERREIRA, 1960, p.
167).
[8] Sobre isso, ainda disse: “Esta cautela em não classificar os partidos em função dos
setores da produção justifica-se também pela circunstância do processo de
industrialização no Estado de São Paulo estar permitindo que a mentalidade urbana
penetre, por um processo de difusão, em setores predominantemente rurais, ao mesmo
tempo em que traços da mentalidade rural penetrem em setores caracteristicamente
urbanos” (FERREIRA, 1960, p. 184). A decisão de usar os termos “misto” e “urbano”
se dá pelo fato do autor ter averiguado que mesmo os partidos que obtém a maior
parcela da sua votação na área rural também conquistaram relevante número de votos
nas áreas mais urbanizadas. E, uma vez que decidiu adotar os critérios de menos ou
mais industrialização para verificar o quão ‘rural’ ou o quão ‘urbanas’ eram certas áreas
no Estado de São Paulo, é coerente com suas escolhas metodológicas que não fizesse
diferente quando da categorização.
[9] Ao se referir ao PTN e ao PDC como partidos “dos níveis médios” se referia tanto à
composição social dos quadros do partido quanto à dimensão na cena política. Na
verdade, foram os partidos que mais se beneficiaram do movimento janista para
alavancar seus votos, pois para Jânio foi de pouca valia ter estas legendas como
referencia.
[10] O outro representante do movimento “janista” foi Carvalho Pinto que venceu as
eleições para governador em 1958. Essa passagem da obra de Oliveiros Ferreira merece
destaque, pois como será apresentado mais à frente nesta revisão bibliográfica,
Francisco Weffort (1965) dialogaria com tais proposições, ao estudar essas
manifestações sócio-políticas (o “janismo” e o “adhemarismo”) as quais chamou de
populismo, bem como a penetração dessas manifestações em ambientes sociais
específicos.
[11] A importância dos municípios enquanto núcleos urbanos relacionam-se ao
“aumento no grau de concentração dos assalariados urbanos em geral, particularmente
dos operários” (WEFFORT, 1965, p.50).
[12] O próprio Francisco Weffort (1965, p. 47) faz referência à análise de Marx sobre os
camponeses franceses, contida na obra 18 Brumário, ao falar sobre a alusão entre massa
e classe e o porquê das classes médias proletárias serem consideradas massas.
BIBLIOGRAFIA
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Departamento de Ciência Política, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas,
Universidade de São Paulo, 2009.
WEFFORT, . O artigo da autora Juliana Moura Bueno**
A DIREITA QUE FLUTUA
O VOTO CONSERVADOR NA ELEIÇÃO DE 1990 EM SÃO PAULO
Nossa cabeça é redonda
pra permitir ao pensamento
mudar de direção.
(Francis Picabia, 1924)
Antônio Flávio Pierucci
Marcelo Coutinho de Lima
Os resultados das urnas de 1990 em São Paulo, no interior, na capi-
tal ou no total do estado, podem ser analisados de diversos pontos de vis-
ta. Um deles poderia ser, por exemplo, a consideração mais detida das
razões e dos modos (para não falar dos tempos) nos quais pela segunda
vez se praticou o voto em dois turnos. O próprio governador eleito reco-
nheceu pública e enfaticamente que a vitória do PMDB deveu-se em boa
medida à aliança espontânea dos eleitores de esquerda e centro-esquerda
no segundo turno. A eleição de 1990 oferece assim boa oportunidade de
observação e análise desse mecanismo espontâneo de coligação partidá-
ria desde abajo, essa quase irresistível bússola ideológica que a mecânica
do jogo eleitoral em dois turnos pode fazer operar e que, este ano em São
Paulo, funcionou à revelia das desrazões das direções partidárias do PT
e do PSDB. Seus eleitores fizeram, numa espécie de disciplina republica-
na, a crítica prática da disciplina partidária.
Outro aspecto que mereceria atenção: esta é a segunda vez que o
resultado do interior se mostra decisivo para que o PMDB continue à frente
do Palácio dos Bandeirantes por mais quatro anos. Se na reta final do se-
gundo turno foi o voto dos socialistas e social-democratas, petistas e tuca-
nos, que garantiu a apertada vitória do candidato do PMDB, Luiz Antônio
Fleury Filho — com apenas 3% de vantagem sobre o adversário —, o cha-
mado basic vote do PMDB quercista reafirmou-se em 1990 como vasta-
mente interiorano.
O ângulo de observação mais apropriado para o caso da capital, no
entanto, parece ser o que focaliza o eleitorado que nela mais cresceu rela-
tivamente à última eleição. Deste ângulo pode-se espreitar muita coisa se
movendo, muita coisa sólida se volatilizando, ou, se líquida, evaporando.
Ele permite avaliar a densidade de um certo estado de espírito e de uma
certa sensibilidade "política" que passaram a vigorar nesta cidade e que
nada garante sejam apenas conjunturais. Paulo Maluf, o candidato omni-
10
NOVOS ESTUDOS Nº 29 - MARÇO DE 1991
bus forjado por competentes estrategistas de marketing eleitoral ("eu mu-
dei!"), o maior beneficiário desse clima cultural neoconservador de elas-
ticíssima boa vontade com as direitas ("por que não?", "o que há de erra-
do nisso?"), citou por diversas vezes nesta campanha, de modo confian-
te, aquela condensação verbal do fatalismo árabe que todo menino leitor
de Malba Tahan conhece: Maktub, "estava escrito". Abertas as urnas do
segundo turno, estava escrito que, mais uma vez, não seria ele o eleito.
Por outro lado, um primeiro exame da sequência de suas votações nos
últimos cinco anos levanta a seguinte suspeita: também não está escrito
que o crescimento do eleitorado conservador na cidade de São Paulo seja
um fenômeno passageiro, um surto apenas.
Pôr em observação o voto malufista de 1990 oferece um triplo in-
teresse para a sociologia eleitoral. Antes de mais nada, trata-se de um elei-
torado que cresceu. E não foi pouco, cresceu muito. E isto já no primeiro
turno, quando por definição a estrutura de oferta de candidatos e parti-
dos é mais elástica. Em segundo lugar, é um eleitorado que subiu na esca-
la social à medida que cresceu. Este é talvez o dado mais sério de toda
essa história, pois aponta no sentido de uma dessolidarização aguda das
várias camadas médias em relação aos setores populares, de um desinte-
resse — agora desrecalcado — em relação às necessidades, demandas, in-
teresses e "issues" próprios das classes trabalhadoras pobres e das cor-
rentes trabalhistas e socialistas. Tudo se passa como se todo tipo de ideo-
logia redistributivista e toda interpelação à solidariedade com os mais fra-
cos e materialmente mais necessitados, toda generosidade ideológica en-
fim, não tivessem mais cabimento hoje em dia. E, em terceiro lugar, esta
expansão paulistana do voto conservador, expansão que é de fato uma
escalada sociológica em direção às camadas de classe média mais aburgue-
sadas, vale dizer, mais endinheiradas e mais escolarizadas, está a apontar
para o fenômeno — novo por sua amplitude demográfica, por sua locali-
zação sociológica entre os eleitores mais informados e interessados em po-
lítica, bem como pela extensão das distâncias ideológicas percorridas em
curtíssimo lapso de tempo — do eleitor volátil.
Dos três aspectos que procuraremos desenvolver e demonstrar neste
artigo, o segundo vem atravessado de um certo pasmo. Ainda não há re-
pouso aí. É nele, por isto, que vamos, em atenção ao leitor, nos deter mais
paciente e detalhadamente, é nele que vamos jogar mais informações, con-
centrando aí as tabelas que, infelizmente por questão de espaço, tivemos
de selecionar.
Um eleitorado que cresce
Até que enfim. Em sua já longa carreira de candidato perdedor, a
votação de 3 de outubro de 1990, primeiro turno da eleição para o gover-
no do Estado de São Paulo, deu o primeiro lugar a Paulo Salim Maluf, do
11
A DIREITA QUE FLUTUA
PDS. No leque de oferta de nomes desse ano em São Paulo, o mais votado
pelos paulistas no primeiro turno e pelos paulistanos no primeiro e no
segundo turnos foi o candidato mais reconhecidamente à direita por seu
passado político, quer devido às suas propostas de governo nas campa-
nhas eleitorais anteriores (Pierucci, 1987), que giraram em torno da marca
registrada da nova direita mundial — a questão da segurança —, quer de-
vido a seu currículo de político biônico gestado pelo antigo regime mili-
tar e identificado com suas sombras, e ossadas.
A vitória de Paulo Maluf no estado como um todo foi de 34,3%
dos votos no primeiro turno, contra 22,2% dados ao segundo colocado,
Luiz Antônio Fleury Filho (PMDB), 23,3% para os outros candidatos e
21,2% de brancos e nulos. Os números do primeiro turno relativos ape-
nas à capital foram ainda mais sorridentes para Maluf: 37,9% contra 17,8%
para o segundo colocado (que na capital foi Mário Covas, PSDB), 16,5%
para Luiz Antônio Fleury Filho (PMDB), 10,1% para o candidato do PT,
Plínio de Arruda Sampaio, e 16,9% de brancos e nulos. Maluf conseguiu
no Município de São Paulo a enorme vantagem de vinte pontos percen-
tuais sobre o segundo colocado, quase que a mesma e larga diferença em
relação à sua própria performance nas urnas da capital na eleição de 1986,
quando concorreu para o mesmo cargo de governador do estado, dispu-
tando pela primeira vez no voto direto a escolha para um cargo executi-
vo. Naquele ano o favorito do eleitorado da capital foi o superempresário
Antônio Ermírio de Morais, que concorria pelo PTB. Paulo Maluf teve en-
tão uma votação muito menor do que esperava a maioria dos observado-
res, os quais, não custa lembrar, durante a campanha de 1986 andavam
muito descrentes das pesquisas de intenção de voto. Em 1986 Maluf bei-
rou mas não atingiu a marca de um quinto das escolhas: com 19,4% dos
votos da capital classificou-se em terceiro lugar, posição em que aparecia
nas pesquisas desde meados de outubro (tendo chegado a ocupar o pri-
meiro posto por dois meses, junho e julho).
Comparado apenas a si mesmo, portanto, na disputa para o mesmo
cargo, numa distância de quatro anos, o eleitorado malufista na cidade de
São Paulo praticamente dobrou de tamanho (ver Figura 1). Sem falar no
segundo turno, que lhe assegurou uma vantagem de quase sete pontos
percentuais sobre seu concorrente do PMDB (45,9% contra 39,3% res-
pectivamente). Os números a favor de Maluf nesta cidade são hoje muito
expressivos, realmente.
12
NOVOS ESTUDOS Nº 29 - MARÇO DE 1991
Figura 1 — Votações de Paulo Maluf na capital (em % sobre o total de votos)
Bem mais de um terço do eleitorado da capital foram os eleitores
que já no primeiro turno de 1990 queriam Paulo Maluf para governar o
Estado de São Paulo, garantindo-lhe pela primeira vez, em sua persistente
carreira de candidato perdedor a cargos executivos (a governador do es-
tado em 1986, a prefeito da capital em 1988, a presidente da República
em 1989), se não o cargo que pleiteava, ao menos o primeiro lugar nas
urnas da capital nos dois turnos. Todos se lembram do trocadilho de Lu-
la, o candidato petista a presidente da República em 1989, num debate
entre os concorrentes daquele pleito, ironizando a insistência com que
Maluf falava em competência: "é que o Maluf compete, compete, e não
ganha nunca". Se isto foi verdade mais uma vez em 1990, não é verdade
por outro lado que estamos diante de uma trajetória eleitoral descenden-
te. De maneira alguma.
13
A DIREITA QUE FLUTUA
Mesmo quando perdedor, Maluf tem-se mostrado um líder políti-
co com um basic vote numericamente significativo na capital. São bases
estabilizadas no tempo e muito bem recortadas no mapa, as quais lhe têm
conferido até agora, se não a vitória, seguramente a estatura de um forte
competidor. E de fato, em todas as campanhas há sempre um momento
em que ele consegue permanecer alguns meses em primeiro lugar nas pes-
quisas. Em todas elas Maluf consegue, num momento ou noutro, repre-
sentar uma ameaça real para seus concorrentes, provocando calafrios na
vasta parcela de eleitores que o rejeitam, desde 1986. Quem não se lem-
bra, por exemplo, da eleição para a prefeitura de São Paulo em 1988, a
última realizada na sistemática de um turno só, quando Maluf esteve em
primeiro lugar nas pesquisas até o penúltimo dia, momento em que a can-
didata do PT, Luiza Erundina, passou a atrair milhares de eleitores de últi-
ma hora em toda a cidade e conseguiu, na reta final, arrebatar uma vitória
que já era de Maluf?
Mesmo derrotado na hora H, Maluf e seus partidários puderam cons-
tatar que seu cacife eleitoral na cidade de São Paulo havia crescido. Relati-
vamente a 1986, quando seu percentual de votos na capital não atingira
um quinto do total de votantes (19,4%), Maluf avançou em 1988 mais cinco
pontos percentuais, raspando a marca de um quarto dos eleitores da cida-
de, 24,4% contra os 29,8% que entregaram o governo municipal à nor-
destina Luiza Erundina do Partido dos Trabalhadores. Foi a primeira men-
suração censitária do crescimento de seu eleitorado, no que se respalda-
ria sua postulação à presidência da República no ano seguinte.
Entre a eleição para prefeito de São Paulo em 1988 e as presiden-
ciais de 1989, o eleitorado malufista no município não aumentou de ta-
manho, ao contrário, chegou a cair um ponto percentual. Mas esta peque-
na queda, que se deveu em grande parte à existência de mais dois candi-
datos correndo pela direita, Afif Domingos (do PL e, além disso, malufista
histórico) e Fernando Collor (do PRN que, nada-nada, abocanhou já no
primeiro turno 17% do eleitorado da capital), pode ser considerada agora
oscilação insignificante. Não esquecer que no primeiro turno das eleições
presidenciais de 1989 Paulo Maluf foi o segundo mais votado na cidade
de São Paulo (23,4%), só perdendo para o tucano Mário Covas, o preferi-
do dos paulistanos em 1989, que saiu das urnas locais com 31,9% dos
votos.
Mas foi na campanha eleitoral de 1990 que se acelerou a tendência
de crescimento da aceitação do nome de Maluf, sempre melhor na capital
do que no interior. E o mais curioso é que desde o início desta campanha
Maluf saiu muito à frente dos outros competidores. Sempre em torno dos
40% das intenções de voto, aí permaneceu até o final do primeiro turno,
quando registrou, na apuração da capital, uma votação de 37,9%. Foi um
crescimento considerável em relação ao ano anterior, de nada mais nada
menos que 14,5 pontos percentuais no total do município. Ora, é eviden-
te que um aumento desse porte no cacife eleitoral de um político ou par-
tido não se dá sem que seu eleitorado também se espalhe pelo território,
n
14
NOVOS ESTUDOS Nº 29 - MARÇO DE 1991
no caso, sem que a mancha malufista se espraie pelo mapa da cidade al-
cançando novos arraiais, incorporando novos bairros nesse movimento
de expansão de bases eleitorais.
É o que pretendemos dissecar no próximo segmento. Convém des-
de logo deixar explicitado que, na gama de fatores capazes de explicar
um crescimento como este, que aponta no sentido de uma mudança con-
siderável de escolhas eleitorais, a tradição francesa de sociologia eleitoral
já demonstrou que alguns fatores vêm mais facilmente à tona quando se
procede a uma análise da distribuição do voto no espaço geográfico em
perspectiva comparada no tempo. A geografia do voto ao longo de uma
série de eleições tem o grande condão de funcionar como um abridor de
portas ou canais explicativos, perfurador de veios interpretativos.
A geografia do conservadorismo
Desde a primeira eleição pluripartidária de 1982, para não recuar
demais no tempo, graças aos trabalhos de Bolivar Lamounier e Maria Te-
reza Sadek de Souza ficamos sabendo que o voto conservador represen-
tado pelo janismo pós-64 tinha uma localização geográfica muito precisa
no espaço da metrópole paulistana. Em artigo publicado no hoje desati-
vado Folhetim e estampando no título a idéia de geografia do voto, La-
mounier foi o primeiro a atentar para esta valiosa pista de decifração so-
ciológica dos votos dados em São Paulo a uma velha liderança que muitos
julgavam politicamente liquidada e que em 1982 fazia sua rentrée na cena
eleitoral sem muito alarde (Lamounier, 1983). Os votos de Jânio Quadros
em 1982 apresentaram seus percentuais mais altos nas "áreas médias", nas
quais se localizavam os bairros tradicionais do janismo. Os quais, ficaría-
mos sabendo depois através de um artigo de 1986 de Maria Tereza Sadek
de Souza, eram, numa surpreendente permanência e lealdade, os mesmos
desde os anos 50 (Souza, 1986). As mais altas votações de Jânio Quadros
em 1953 ocorreram na zona Norte, nos distritos eleitorais de Vila Maria,
Vila Guilherme e Tucuruvi, e na zona Leste, nos distritos da Moóca, Alto
da Moóca, Belém, Tatuapé e Vila Prudente. O lado Sul e o lado Oeste da
cidade ficavam fora disso. Esse padrão geográfico se repetiria até 1962 e,
vinte anos de militarismo-com-bipartidarismo depois, voltaria a se revelar
praticamente intacto. Um hábito entranhado. Às vezes somos tentados a
concluir que as forças políticas de direita em São Paulo tiveram muita sor-
te em se re-apresentar e se representar, já na primeira eleição pluripartidá-
ria do Brasil da "distensão" golberiana, mediante a figura carismática e
veterana de um político de eleitorado básico tão fiel como Jânio Quadros.
Graças a essas bases logísticas estrategicamente situadas na classe
média baixa (Pierucci, 1986), Jânio Quadros se elegeria prefeito de São
Paulo em 1985, solapando desde então o terreno do PMDB na capital, co-
mendo esse mingau não pelas bordas mas pelo meio, e alijando-o cada
15
A DIREITA QUE FLUTUA
vez mais para o interior do estado, onde se encontra encantoado até hoje.
Em 1982 o PMDB conseguiu com Franco Montoro a maioria dos votos
da capital (42,1 %); começou a ser passado pra trás em 1985, com Fernan-
do Henrique Cardoso, que alcançou pouco mais de um terço do eleitora-
do (34,2%) e perdeu a prefeitura para o candidato único da direita, Jânio
Quadros; em 1986, o candidato a governador Orestes Quércia, que aca-
bou eleito pelo interior, teve que encarar diminuição ainda maior da acei-
tação eleitoral do PMDB na capital, conseguindo pouco mais de um quar-
to dos votos (26,6%); em 1988, continuando a descida da ladeira, João
Leiva ficou com apenas 14,2%, mais ou menos o mesmo patamar que Luiz
Antônio Fleury Filho alcançou no primeiro turno de 1990: 16,5%. Olhando
do ângulo peemedebista, portanto, os eleitores da capital estão o tempo
todo "saindo", como diria Albert Hirschman, escolhendo a porta de saí-
da (exit) desde 1982 (Hirschman, 1973). O contrário vem ocorrendo com
o malufismo: suas bases eleitorais na capital não só parecem "não sair",
como cada vez chega mais gente. Resta saber se esses que estão chegando
vieram para ficar ou se estão apenas de passagem.
O eleitorado malufista na cidade de São Paulo não apenas cresce
de modo constante ao longo das eleições de 86, 88, 89 e 90 (Figura 1),
como também altera sua composição social. E o mais característico neste
processo de expansão e complexificação de bases eleitorais é que o malu-
fismo caminha não tanto para os bairros mais pobres e periféricos quanto
em direção aos mais ricos. É um eleitorado que, à medida que cresce, "sobe
na vida". Para demonstrar este ponto, vamos nos valer da distribuição dos
resultados oficiais das sucessivas eleições pela divisão do Município de São
Paulo em Áreas Homogêneas (AH)1 e indicar também, quando necessário,
sua posição no mapa relativamente aos pontos cardeais.
Para o caso do Município de São Paulo, desenhar com precisão a
geografia do voto era tarefa mais fácil até a eleição de 1986. Até aquela
data o Tribunal Regional Eleitoral divulgava os resultados das urnas por
distrito eleitoral. A partir de 1988, os dados disponíveis ao público passa-
ram a ser agregados apenas por zona eleitoral. Ora, a informação por dis-
trito eleitoral era uma informação mais fina, na medida em que é uma uni-
dade bem menor e sociologicamente mais bem recortada que a zona elei-
toral, cujas medidas amplas impedem um manuseio condizente com as
fronteiras dos distritos e subdistritos administrativos, a partir dos quais
foram construídas as Áreas Homogêneas. Não obstante, para garantir a com-
parabilidade dos dados de 1986 a 90, foi possível compatibilizar a infor-
mação eleitoral com a divisão por Área Homogênea usando apenas os re-
sultados daquelas zonas eleitorais que se encaixam perfeitamente nos li-
mites de cada Área Homogênea. Foi possível conseguir tranquilamente três
ou mais zonas eleitorais cabíveis dentro das AH 1, 4 e 5, sendo que as AH
2 e 3 foram fundidas a fim de se ajustarem ao mesmo escopo comparati-
vo. Isto resultou na seguinte relação: AH 1, zonas eleitorais do Jardim Pau-
lista, Pinheiros e Indianópolis; AH 2/3, zonas eleitorais de Santa Ifigênia,
Moóca, Tatuapé, Vila Prudente e Ipiranga; AH 4, zonas eleitorais do Tu-
nnnn
16
(1) Os estudos sobre as
eleições na década de 70,
realizados por Bolivar La-
mounier, foram pioneiros
no uso deste instrumental
elaborado pela Secretaria
de Economia e Planeja-
mento de São Paulo e pu-
blicado em 1977. Trata-se
de uma estratificação de
contextos sociais por pa-
drão de vida, construída
a partir das seguintes va-
riáveis: renda familiar, sa-
neamento básico, densi-
dade demográfica, cresci-
mento populacional, uso
residencial do solo urba-
no e mortalidade propor-
cional. Essas áreas foram
numeradas de 1 (área ho-
mogênea mais rica, bem
equipada e privilegiada) a
8 (área homogênea mais
pobre, carente de equipa-
mentos e condições de
vida). Posteriormente, o
DataFolha
reagrupou-as
em cinco AHs, reconstruí-
das a partir dos dados
censais e observações
locais.
NOVOS ESTUDOS Nº 29 - MARÇO DE 1991
curuvi, Ermelino Matarazzo e Vila Formosa; AH 5, zonas eleitorais de São
Miguel Paulista, Itaquera, Capela do Socorro, Itaim Paulista e Guaianases.
Escusado dizer que este é um recurso provisório, embora se tenha demons-
trado utilíssimo e com resultados bastante satisfatórios para os objetivos
deste artigo.
Na eleição para governador do estado em 1986, a votação mais alta
de Paulo Maluf ocorria na AH 2 da zona Leste, a saber, nos subdistritos
administrativos da Moóca e do Belenzinho, e seu segundo melhor desem-
penho se dava na AH 3 da Zona Leste, que engloba os subdistritos do Ta-
tuapé, Alto da Moóca, Penha de França e Vila Prudente. Em 1986, a man-
cha malufista mais intensa no mapa da cidade restringia-se praticamente
à parte mais próxima e mais central da zona Leste, sem avançar para as
periferias mais distantes, e sua presença na zona Norte era menos espalha-
da que a de Jânio em 1985 (Pierucci, 1989). Fazendo o percurso de Norte
a Sudeste, obtém-se a seguinte lista dos subdistritos administrativos onde
se concentrou em 1986 o voto malufista: Vila Guilherme, Vila Maria, Pari,
Brás, Belenzinho, Moóca, Alto da Moóca, Tatuapé, Vila Matilde e Vila Pru-
dente. Tanto Jânio quanto Maluf encontraram dificuldade em expandir suas
bases de voto nas periferias mais afastadas, mais pobres e menos equipa-
das de infra-estrutura urbana. Resistência simétrica à que encontravam nos
bairros mais ricos e no eleitorado mais escolarizado (Pierucci, 1986 e 1989).
Permanências e deslizamentos
Vejamos agora a Tabela 1, referente ao primeiro turno de 1990. Pa-
ra onde apontam os nomes das zonas eleitorais de maior votação malufis-
ta? Em primeiro lugar, como era de esperar, apontam para a parte mais
central da zona Leste e da zona Norte, exatamente como em 1986. Isto
indica que ainda é nesta região da cidade que as forças políticas conserva-
doras mantêm seus mananciais de voto. Entre as zonas eleitorais de mais
alta votação malufista no primeiro turno de 1990 comparecem os nomes
da Moóca (49,0% dos votos em Maluf!), Tatuapé (45,6%), Penha (42,2%)
Vila Formosa (42,1 %) e Vila Prudente (40,1 %), do lado Leste; e, do lado
Norte, os nomes da Vila Maria (44,1%), Santana (42,2%) e Casa Verde
(40,1%). Como se vê, a lealdade aí é impressionante.
17
A DIREITA QUE FLUTUA
Tabela 1 — Eleição de 1990. Resultados do primeiro turno da eleição para gover-
nador do Estado de São Paulo por zona eleitoral do município da Capital (em %)
Zona Eleitoral Maluf Covas Fleury Plínio Br. + Nul. Total*
Moóca 49,0 14,9 13,5 8,6 13,2 100,0
Jardim Paulista 47,6 17,7 18,0 6,6 9,4 100,0
Indianópolis 46,1 18,8 17,2 6,8 10,4 100,0
Tatuapé 45,6 16,5 14,0 9,4 13,9 100,0
Vila Maria 44,1 14,2 15,8 8,0 17,2 100,0
Santa Ifigênia 43,6 14,5 16,8 8,4 15,8 100,0
Santo Amaro 43,6 17,4 15,7 9,0 13,7 100,0
Vila Mariana 43,0 20,2 16,9 8,8 10,5 100,0
Lapa 42,6 17,3 15,9 10,0 13,4 100,0
Perdizes 42,5 19,1 17,1 9,5 11,0 100,0
Santana 42,2 18,6 16,0 8,9 13,5 100,0
Penha de França 42,2 18,4 14,5 9,8 14,4 100,0
Vila Formosa 42,1 16,3 15,4 9,8 15,8 100,0
Pinheiros 41,2 22,4 17,1 10,0 8,6 100,0
Ipiranga 40,2 15,7 15,7 11,3 16,3 100,0
Vila Prudente 40,1 15,3 15,1 12,6 16,1 100,0
Casa Verde 40,1 18,5 15,3 9,1 16,2 100,0
Bela Vista 40,0 18,9 16,9 10,2 13,3 100,0
Tucuruvi 39,5 17,9 17,6 8,9 15,2 100,0
Vila Matilde 38,9 19,0 15,5 9,9 15,9 100,0
Jaçanã 38,7 17,2 17,6 9,3 16,3 100,0
Saúde 38,2 20,4 16,0 10,9 13,8 100,0
Jabaquara 37,5 18,9 16,2 10,3 16,2 100,0
Butantã 38,0 19,5 17,0 10,0 14,8 100,0
Nossa Senhora do Ó 35,0 18,8 15,5 10,1 19,7 100,0
Pirituba 34,7 17,3 16,2 11,0 20,1 100,0
Ermelino Matarazzo 33,5 19,6 17,0 10,6 18,5 100,0
Cidade Ademar 33,0 15,4 17,8 10,4 22,5 100,0
Capela do Socorro 32,5 16,5 16,5 10,4 23,2 100,0
Guaianases 32,4 18,6 16,9 10,0 21,3 100,0
Sapopemba 30,9 14,9 16,6 16,0 20,9 100,0
Itaquera 30,7 18,3 16,3 13,7 20,1 100,0
Campo Limpo 30,1 17,1 18,3 10,0 23,8 100,0
S. Miguel Paulista 28,9 19,1 19,2 10,2 21,8 100,0
Itaim Paulista 24,4 20,8 20,4 9,4 24,2 100,0
Total da Capital 37,9 17,8 16,5 10,1 16,9 100,0
(*) A porcentagem de votos em outros candidatos completa 100%.
Fonte: Prodam, totalização de 98,3% dos votos, in Folha de S. Paulo, 13.10.90.
Mas o que a muitos parecerá mais surpreendente em 1990 é que
a segunda zona eleitoral de maior votação malufista no primeiro turno foi
a do Jardim Paulista (47,6%), que inclui bairros como Jardim Paulista, Jar-
dim Europa, Vila Olímpia, Cerqueira César etc.; e o terceiro lugar coube
à zona eleitoral de Indianópolis (46,1 %), que inclui os bairros de Indianó-
polis, Ibirapuera, Moema, Morumbi, Real Parque, Campo Belo etc., regiões
elegantes de classe alta e classe média alta. São dados que apontam clara-
mente no sentido de uma expansão socialmente ascendente do voto
malufista.
O segundo turno de 1990 viria confirmar esta tendência ascensio-
nal do voto malufista. A Tabela 2 mostra que, juntamente com Moóca,
Tatuapé e Vila Maria, novamente aparecem Jardim Paulista e Indianópolis
18
NOVOS ESTUDOS Nº 29 - MARÇO DE 1991
como zonas eleitorais onde Paulo Maluf obtém seus mais altos percentuais.
Maluf ganhou em 28 das 35 zonas eleitorais da cidade. Suas derrotas nas
sete zonas eleitorais mais pobres e periféricas (Cidade Ademar, Capela do
Socorro, Itaquera, Sapopemba, Campo Limpo, São Miguel Paulista e Itaim
Paulista) possibilitam, por efeito de contraste, confirmar sua maior facili-
dade de penetração nas camadas mais endinheiradas. Aliás, esta parece ser
uma fraqueza crônica, característica do malufismo na cidade de São Pau-
lo: encontrar sempre maior resistência na periferia, ao contrário do que
historicamente tem ocorrido com o (P)MDB desde os anos 70, de modo
mais generalizado, e com o PT desde 1982, este de modo mais localizado.
Tabela 2 — Eleição de 1990. Resultados do segundo turno da eleição para gover-
nador do Estado de São Paulo por zona eleitoral do Município de São Paulo (em %).
Zona Eleitoral Maluf Fleury Br. + Nul. Total
Moóca 56,6 31,2 12,2 100,0
Tatuapé 53,8 32,2 14,0 100,0
Jardim Paulista 53,2 36,3 10,5 100,0
Indianópolis 52,5 36,2 11,3 100,0
Vila Maria 52,0 34,0 14,0 100,0
Santa Ifigênia 51,2 36,1 12,7 100,0
Santo Amaro 51,0 35,8 13,2 100,0
Penha de França 50,8 34,0 15,2 100,0
Vila Formosa 50,5 34,6 14,9 100,0
Santana 50,5 35,7 13,8 100,0
Vila Mariana 49,8 38,0 12,2 100,0
Lapa 49,6 35,7 14,7 100,0
Perdizes 49,2 38,3 12,5 100,0
Casa Verde 48,6 36,4 15,0 100,0
Vila Prudente 47,9 36,5 15,6 100,0
Ipiranga 47,9 38,0 14,1 100,0
Tucuruvi 47,7 38,3 14,0 100,0
Pinheiros 47,6 40,4 12,0 100,0
Bela Vista 47,5 39,1 13,4 100,0
Vila Matilde 47,5 37,0 15,5 100,0
Jaçanã 47,3 37,7 15,0 100,0
Saúde 45,8 39,9 14,3 100,0
Butantã 45,8 40,3 13,9 100,0
Jabaquara 45,5 39,8 14,7 100,0
Nossa Senhora do Ó 44,4 39,1 16,5 100,0
Pirituba 42,6 39,6 17,8 100,0
Ermelino Matarazzo 41,9 41,7 16,4 100,0
Guaianases 41,8 41,7 16,5 100,0
Cidade Ademar 41,4 42,9 15,7 100,0
Capela do Socorro 41,1 42,4 16,5 100,0
Itaquera 39,8 43,3 16,9 100,0
Sapopemba 39,3 43,6 17,1 100,0
Campo Limpo 38,1 45,9 16,0 100,0
S. Miguel Paulista 37,8 46,1 16,1 100,0
Itaim Paulista 33,2 49,8 17,0 100,0
Total da Capital 45,9 39,3 14,8 100,0
Fonte: Prodam, totalização de 99,5% das urnas.
O voto majoritariamente janista ou malufista era apanágio dos bair-
ros intermediários das zonas Norte e Leste, de eleitores de renda média
19
A DIREITA QUE FLUTUA
e pouca escolaridade, tipicamente de classe média baixa. Hoje, ao raiar
da década de 90, Maluf aparece como favorito dos bairros ricos das zonas
Sul e Oeste, dos setores de renda mais alta e maior instrução, moradores
da parte in da capital. Veja-se a Tabela 3, referente ao primeiro turno de
1990, onde as zonas eleitorais aparecem agregadas por Áreas Homogêneas.
O percentual de Maluf na AH 1 é superior ao das AH 2/3, onde estão loca-
lizados os redutos históricos do voto conservador: 45,3% contra 43,7%,
respectivamente. É bem verdade que na Tabela 4 esta precedência dos
bairros ricos sobre as áreas médias se oblitera e as taxas praticamente se
igualam: no segundo turno, 51,4% dos votantes dos bairros ricos (AH 1)
e 51,6% das áreas intermediárias (AH 2/3) queriam Maluf governador do
Estado de São Paulo. Vale notar que, sendo porcentagens sobre o total
de votantes e não apenas sobre os votos válidos, literalmente um em cada
dois eleitores desses bairros mais ricos "malufou".
Tabela 3 — Eleição de 1990. Resultados do primeiro turno da eleição para gover-
nador do Estado de São Paulo por Áreas Homogêneas do Município de São Paulo
(em %).
Área Homogênea Maluf Covas Fleury Plínio
AH1 45,3 19,4 17,5 7,6
AH 2/3 43,7 15,5 14,8 10,2
AH 4 36,9 18,5 16,9 9,9
AH 5 30,6 18,2 17,4 11,0
Total da Capital 37,9 17,8 16,5 10,1
Fonte: Prodam, totalização de 98,3% dos votos, in Folha de S. Paulo, 13.10.90.
Tabela 4 — Eleição de 1990. Resultados do segundo turno da eleição para gover-
nador do Estado de São Paulo por Áreas Homogêneas do Município de São Paulo
(em %).
Área Homogênea Maluf Fleury Br. + Nul.
AH1 51,4 37,3 11,3
AH 2/3 51,6 34,6 13,8
AH 4 45,2 39,3 15,5
AH 5 39,5 43,9 16,6
Total da Capital 45,9 39,3 14,8
Fonte: Prodam, totalização de 99,5% das urnas.
Em ambas as tabelas pode-se ver, bem desenhada e constante, a cur-
va do voto malufista na capital, que decresce sistematicamente à medida
que se vai dos bairros ricos para os mais pobres e periféricos (da AH 1
à 5). Não era assim (cf. Pierucci, 1989). Mudou, e esta mudança foi no to-
po da escala social. Dar conta das razões desta mudança não é um desafio
fácil de enfrentar. Conseguir iluminar um pouco o terreno e assim contri-
buir para a descoberta dessas razões faz parte das motivações deste artigo.
20
NOVOS ESTUDOS Nº 29 - MARÇO DE 1991
Por que o eleitorado dessas zonas, que já votou maciçamente em nomes
como Fernando Henrique Cardoso, Antônio Ermírio de Morais e Mário
Covas, agora consagra alguém saído das sombras do regime militar?
A gênese do neomalufismo
É na eleição de 1988 que nós vamos encontrar as primeiras pistas
importantes para explicar o crescimento do voto malufista nas camadas
mais abastadas da população paulistana. É sabido que a surpreendente vi-
tória de Luiza Erundina (PT) ocorreu graças a uma ponderável migração
de votos de outros candidatos — principalmente José Serra (PSDB) e João
Leiva (PMDB) — acompanhada da adesão daqueles que sempre se deci-
dem no último momento: os mais pobres, menos escolarizados e do sexo
feminino (Pierucci e Prandi, 1989). A virada petista se deu literalmente na
boca da urna. Pesquisa realizada pelo DataFolha em 19 de novembro, qua-
tro dias depois da eleição, mostra que 25% dos votos de Erundina vieram
de eleitores que se decidiram por ela no próprio dia 15 (Folha de São Pau-
lo, 01.12.1988, p. A-8).
Mas esta virada pró-Erundina não aconteceu de modo igual pela ci-
dade, nem foi somente o voto petista que se expandiu na última hora. O
malufista também. Duas outras pesquisas do DataFolha permitem quase
fotografar este momento final e captar a sofreguidão decisória que o mar-
cou: a última pesquisa domiciliar de intenção de voto, feita no dia 12 de
novembro, e a pesquisa de boca de urna do dia 15. Apenas três dias sepa-
ram uma da outra, justamente os três dias fatais que selaram a sorte de
Maluf e Erundina, representantes bem nítidos, inequívocos, da direita e
Tabela 5 — Eleição de 1988. Migração de votos nos três últimos dias da campanha
para a prefeitura de São Paulo, por Áreas Homogêneas (em %).
Candidatos/ Total da
Partidos Capital AH 1 AH2 AH3 AH4 AH 5
A* B** A* B** A* B** A* B** A* B** A* B**
Erundina
(PT) 20 30 17 26 19 28 21 30 20 32 22 30
Maluf
(PDS) 26 26 26 36 22 27 28 29 27 24 25 20
Leiva
(PMDB) 16 16 12 11 22 14 12 13 19 17 21 21
Serra
(PSDB) 9 5 16 7 3 3 10 6 6 4 7 5
Mellão
(PL) 7 5 11 9 10 9 7 6 6 4 4 3
Outros 2 2 2 1 3 2 2 2 2 2 3
Nenhum/
Não sabe 20 - 16 - 25 - 20 - 20 - 20 -
Br. + Nul. - 15 - 11 - 16 - 14 - 17 - 18
Fonte: (*) Última prévia domiciliar feita pelo DataFolha, em 12.11.88. (**) Pesquisa de boca
de urna feita pelo DataFolha, em 15.11.88.
21
A DIREITA QUE FLUTUA
da esquerda. Ambas as pesquisas oferecem a possibilidade de cruzamento
dos dados por Áreas Homogêneas (ver Tabela 5). E o que aflora deste
cruzamento?
Maluf mantém nesses três dias um total geral inalterado na marca
dos 26%, porém no interior de cada Área Homogênea o tamanho de seu
eleitorado se altera sensivelmente. Na AH 1, a mais rica, ele salta de 26%
para 36% (10 pontos a mais) e sobe de 22% para 27% na AH 2, que en-
globa os bairros do Centro Velho (mais 5 pontos). Permanece estável na
AH 3, solo de predileção do voto direitista. E a partir daí, caminhando
em direção aos bairros da periferia, começa a perder votos: perde 3% do
eleitorado da AH 4, caindo de 27% para 24%, e 5% do eleitorado da AH
5, descendo de 25% para 20%. Aliás, nas duas Áreas Homogêneas mais
pobres, todos os concorrentes perdem votos para Erundina nos instantes
finais da decisão, menos o PMDB de Quércia, que na AH 5 se mantém
com 21%, sua taxa mais alta em toda a cidade na eleição de 1988. Mas,
para o nosso argumento, o importante a reter é que, no momento em que
a disputa já se encontrava bipolarizada ideologicamente nos extremos do
leque partidário — e isto era em si mesmo um fato novo na história eleito-
ral de São Paulo — e os ventos dessa feita pareciam soprar para a extrema
esquerda, o voto útil visando a inchar o cacife do candidato da direita veio
das zonas mais ricas da cidade.
De fato, conforme revela a Tabela 6, os dados oficiais da eleição
de 1988 comprovaram, pela primeira vez depois da volta do pluripartida-
rismo, que havia uma reserva de apoio as forças conservadoras estocada
fora do basic vote tradicional do conservadorismo. Dependendo dos fa-
tores em jogo, da elasticidade da oferta e da intensidade da competição
num final de campanha, o pico eleitoral da direita podia muito bem se
deslocar das áreas médias para os bairros burgueses. Assim, em sua pri-
meira manifestação, o voto neomalufista foi um voto estratégico para im-
pedir a vitória petista que, da penúltima hora até o último minuto, mostrou-
se mais que provável, iminente. Foi nesse clima — que, se não era de pâ-
nico classista, era de susto e preconceito — que um grande número de
eleitores dos bairros mais ricos correu para tentar eleger Paulo Maluf.
Tabela 6 — Eleição de 1988. Resultados da eleição para prefeito do Município de
São Paulo por Áreas Homogêneas (em %).
Área
Homogênea
Erundina
Maluf
Leiva
Serra
Mellão
AH 1
AH 2/3
AH 4
AH 5
Total da Capital
23,1
28,6
31,1
31,4
29,8
35,5
29,2
22,1
17,5
24,5
9,6
11,7
15,6
18,6
14,2
10,3
5,4
4,7
3,9
5,6
8,9
6,3
5,0
2,9
5,4
Fonte: Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo.
22
NOVOS ESTUDOS Nº 29 - MARÇO DE 1991
No geral da cidade, Maluf obteve 24,5%. Votação maior que esta
média ele conseguiria somente nas AH 2/3 (29,2%), mas principalmente
na AH 1 (35,5%), deixando assim claramente indicado que seu voto, ao
se expandir, tende a encontrar acolhida mais imediata nas classes mais fa-
vorecidas. É importante enfatizar este ponto com base nos resultados de
1988 porquanto a expansão do eleitorado malufista em 1990, tendo-se da-
do em proporções consideráveis por toda a cidade, oferece uma resposta
menos específica à pergunta sobre a direção social e o sentido político
desse crescimento. Em 1988, em compensação, as pesquisas deixaram bem
claro que o voto "emergencial" na direita, ante uma esquerda pela pri-
meira vez eleitoralmente viável, aconteceu nos bairros mais ricos das zo-
nas Centro, Sul e Oeste. E, ao mesmo tempo que isto ocorria, por todos
os lados da periferia eleitores abandonavam seus candidatos e suas dúvi-
das, engrossando o coro petista que, pianíssimo, passava cantando de bo-
ca em boca: "o povo na surdina/ elege a Erundina". Para os mais ricos,
era como se soassem as trombetas do Apocalipse.
Esta súbita flutuação de votos assustados provenientes dos bairros
mais ricos, embora em volume insuficiente para conduzir Paulo Maluf ao
governo municipal em 1988, aos olhos dos observadores interessados foi
mais que suficiente para deixar vir à tona uma virtualidade algo descon-
certante desse eleitorado de classe média alta que, em anos recentes, ha-
via sustentado candidaturas progressistas: a de sentir-se convocado a vo-
tar na direita quando o temor lhe avoca a razão. Com efeito, na tarde do
dia 15 de novembro de 1988, estava dado o passo. Foi um passo conjun-
tural, de última hora, dado no susto. Mas o passo foi dado, e não está dito
que um passo movido pelo temor seja desprovido de racionalidade, pelo
contrário.
The trumpets shall sound, again
Na medida em que, além dos componentes fidelidade e afinidade,
o voto conservador na cidade de São Paulo passava claramente a incorpo-
rar um componente estratégico visando à derrota da esquerda represen-
tada pelo PT, agora se pode ler com maior plausibilidade explicativa a ló-
gica subjacente ao voto no segundo turno da eleição presidencial de 1989.
É que, em 1989, a percepção da viabilidade eleitoral da esquerda
viu-se reforçada com a passagem de Lula para o segundo turno. Aquele
dramático fim de campanha acabou por deixar sequelas profundas não
só nas cadernetas de poupança, mas também no equilíbrio psicológico das
classes médias e alta. Passado mais de um ano daqueles acontecimentos,
o leitor pode achar que estamos exagerando. Mas basta relembrar o famo-
so "efeito estrela", que jogou o dólar paralelo na lua e as declarações de
que 800 mil empresários abandonariam o país caso Lula ganhasse. Pode-
ríamos ainda lançar mão de muitas outras declarações e manchetes de jor-
23
A DIREITA QUE FLUTUA
nal para refrescar a memória. É difícil voltar àquele clima. Para avaliar a
dimensão do pânico que tomou conta dessas camadas, nada melhor que
o testemunho de um de seus meninos-prodígio, o jovem empresário Ri-
cardo Semler, em entrevista recente a Isto É/Senhor:
O susto nos dez ou quinze dias anteriores à votação foi uma coisa
dramática. O desespero dos empresários foi imenso ao imaginar que
o Lula poderia ser eleito. [...] A única história de que eu lembro es-
pecificamente foi de uma família amiga da nossa família, que já tinha
remetido, via Metropolitan [empresa de mudanças], todos os seus mó-
veis, tapetes etc. para o exterior. E se era um caso extremo ou não,
eu não sei. Agora, passado aquele momento, todo mundo vê isso co-
mo uma anedota, mas naquela época, naqueles quinze ou vinte dias
anteriores à eleição, o medo dessa parcela da sociedade, que inclui
os empresários, era uma coisa impressionante, e estava aumentando
drasticamente. Quando o Collor assumiu, grande parte dos empre-
sários, muito aliviados, estava disposta a aceitar praticamente qual-
quer coisa, até pancada. (Isto é / Senhor nº 1111,9 de janeiro de 1991)
Isto ajuda a explicar mais um fenômeno interessante na última elei-
ção paulistana: a degringolada do voto tucano nesses setores 2 no curto
espaço de um ano. O fenômeno é intrigante pela sua magnitude. Entre
1989 e 90, Mário Covas viu seu eleitorado encolher em mais de vinte pon-
tos percentuais na AH 1. No primeiro turno da eleição presidencial ele ha-
via recebido o voto de 31,9% dos paulistanos e 39,9% dos eleitores dos
bairros mais ricos (ver Tabela 7). Um ano depois, seu desempenho caía
para 17,8% no total da cidade, mas a queda maior do voto de Covas foi
mesmo na AH 1, onde literalmente despencou de 39,9% para 19,4% (re-
ver Tabela 3).
Tabela 7 — Eleição de 1989. Resultados do primeiro turno da eleição para presi-
dente da República por Áreas Homogêneas do Município de São Paulo (em %).
Área
Homogênea
Covas
Maluf
Collor
Lula
Afif
AH 1
AH 2/3
AH 4
AH 5
Total da Capital
39,9
29,0
32,7
29,3
31,9
21,9
29,8
24,5
19,0
23,4
15,5
14,9
16,5
19,7
17,0
7,9
14,6
14,9
19,9
15,2
7,3
4,1
3,1
2,2
3,9
Fonte: Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo.
Ao apoiar a candidatura de Lula (PT) no segundo turno, decisão su-
postamente dentro da lógica dos campos de força da política partidária,
Mário Covas e seu partido, o PSDB, não poderiam imaginar que estavam
24
(2) "O perfil do eleitora-
do de Covas, por sua vez,
é o inverso do de Collor
(em 1989). Embora tenha
vencido a eleição na cida-
de em 1989, inclusive na
periferia, Covas apresen-
ta tendência inversa a de
Collor, ou seja, tem índi-
ces mais altos nos bairros
mais ricos. Naquilo que
foi possível observar dire-
tamente, sem instrumen-
tal analítico como surveys
específicos na cidade,
tendemos a encontrar o
eleitorado típico (...) de
Covas na área 1." (Singer,
1990, pp. 148-149)
NOVOS ESTUDOS Nº 29 - MARÇO DE 1991
dirigindo contra si boa dose da adrenalina que passou a correr nas veias
desses setores médios e de elite, naqueles decisivos dias de 1989 em que
estiveram com o coração na mão. Não tivesse havido essa experiência tão
marcante do pânico de classe nesses ambientes, justo no momento em
que o PSDB se coligava com o PT, certamente teria sido outra a sorte de
Covas um ano depois. E sem sombra de dúvida também seria outra a sor-
te de Maluf nas urnas da capital em 1990 e, por conseguinte, outro que
não este de agora o perfil do eleitorado conservador em São Paulo. Nes-
ses setores da sociedade paulistana, no mesmo intervalo de tempo a traje-
tória de Paulo Maluf foi simetricamente inversa à de Mário Covas: Maluf
pulou dos 21,9% aí obtidos em 1989 para 45,3% no primeiro turno de
1990. O salto é impressionante.
Como, aliás, é impressionante registrar flutuações do eleitorado tão
pronunciadas e em tão breve tempo. Lealdade e consistência, fidelidade
e enraizamento, estabilidade e hábito arraigado, apego e coerência fazem
cada vez menos parte do comportamento eleitoral normal dos estratos mé-
dios superiores, mais bem instalados na cidade e mais bem informados.
Aí, tudo faz crer que a mudança é que passa a ser a norma, a única regra
a vigorar. Os criadores da campanha de Maluf em 90 captaram isto genial-
mente, ao pôr na boca do candidato esta confissão que soava como um
dever-ser: "eu mudei!". Se a prática seguida de eleições diretas com voto
secreto — de 1985 a 90 foram cinco eleições em seis anos — tem servido
para mudar alguma coisa na vida política deste país, é para mudar o pró-
prio comportamento eleitoral, tornando-o mutável para um número cada
vez maior de eleitores. É sobretudo neste sentido que a conjuntura eleito-
ral que encerra a década de 80 se nos afigura uma conjuntura matricial
em termos de conduta eleitoral. Estamos, tudo indica, em franco proces-
so de produção acelerada e ampliada do eleitor volátil.
Isto aumenta a importância da própria campanha eleitoral como fa-
tor explicativo do voto, reforça o peso da conjuntura e "enche a bola"
do marketing político. Neste sentido, valeria a pena, se houvesse espaço
neste artigo, analisar as duas últimas campanhas de Maluf. Porquanto, pa-
ralelamente as tendências mais sociológicas de mudança que procuramos
identificar em seu(s) eleitorado(s), Paulo Maluf empenhou-se numa refor-
mulação de imagem que visava, para falar em jargão marketeiro, "reposi-
cionar seu conceito" na mente do eleitor. Embora sem abandonar a ques-
tão da segurança, sua estratégia de marketing passou, de um lado, a apelar
para sua competência, eficiência, laboriosidade, modernidade e assim por
diante e, de outro, a interpelar a simpatia/compaixão das pessoas com seu
lado humano do tipo "eu mudei", "amo São Paulo", "também sou dis-
criminado", "minha campanha é limpa e bem-educada", "no passado tra-
tei mal os professores, reconheço"... Tudo isso ajudou a diminuir os cus-
tos do voto num político com a imagem tão carregada de fantasmas do
passado como ele. Evitou questões polêmicas, diminuiu sua taxa de rejei-
ção, bem como envolveu num halo de modernidade e legitimidade um
voto até então envergonhado. E, ao encontrar no eleitor a predisposição
25
A DIREITA QUE FLUTUA
a mudar em relação a seu último voto, despertou nele a disposição de ex-
perimentar a nova fórmula de um velho produto. E, além de tudo, a cus-
tos bem menores que antes.
Conclusão: conservador, porém volátil
Nossa primeira hipótese sobre a situação do eleitorado paulistano
no atual momento histórico é a da existência de duas tendências, ambas
encavaladas ou pelo menos "intersectadas". Esta mistura de tendências
é variável, claro. Aparece em proporções diferentes e em diferentes com-
binações nos diversos estratos do eleitorado da metrópole, mas é mais forte
nos setores sociais médios e superiores moradores dos bairros mais ricos.
As duas tendências seriam: (1) uma acentuada (e empiricamente evidente)
tendência à direitização, ao mesmo tempo em que (2) um sério pendor
para a volatilização do voto.
Nossa segunda hipótese é que a volatilização crescente do voto en-
controu na conjuntura pós-89 — e pós-89 aqui significa pós-"queda do
muro de Berlim", pós-"grande medo de 1989" (para nomear à moda de
Georges Lefebvre o medo pânico do "Lula lá" que tomou conta das elites
e do Mittelstand paulista e paulistano no segundo turno da eleição para
presidente), pós-vitória do deslumbrado neopopulismo antiestatista e da
vulgata neoliberal, ao mesmo tempo que, não esquecer, pós-primeiro ano
da difícil gestão petista de Erundina na prefeitura de São Paulo — condi-
ções favoráveis a uma candidatura historicamente de direita junto aos elei-
tores metropolitanos de classe média e alta.
E, por último, nossa terceira hipótese é que a tendência à fruição
do voto volátil, desestruturante das lealdades ideológicas, partidárias, re-
ligiosas, comunitárias etc., sendo mais estrutural sociologicamente, é mais
provável que venha a prevalecer sobre uma eventual fidelidade eleitoral
majoritária e de mais longa duração à(s) direita(s) e a seus avatares. Cabe
lembrar que, quando se está falando de volatilidade do voto, não se está
querendo apenas dar outro nome à idéia de alternância no jogo democrá-
tico; é algo historicamente mais recente que está em formação, algo emer-
gente até mesmo nas democracias mais sólidas do Ocidente. Um fenôme-
no bem novo, que aponta mais no sentido do comportamento do eleitor
e de seu processo individualizado e individualizante de escolha e de for-
mação de preferências, do que no sentido do resultado agregado dessas
escolhas infiéis, resultado que tanto pode ser a alternância como a perma-
nência das mesmas forças políticas nos cargos de governo. Daí nossa se-
gunda hipótese, acima enunciada, que avalia como conjuntural a migra-
ção do voto volátil para a direita. Hoje estão juntas, coligadas, uma direita
tradicional, que permanece, e uma que flutua. De todo modo, porém, a
predominar a tendência à individualização da escolha do eleitor em detri-
mento de quaisquer lealdades grupais — e esta parece ser a lógica inexo-
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de Jânio Quadros". In:
Lamounier, B. (org.).
1985: O Voto em São
Paulo. São Paulo, IDESP,
pp. 66-88.
Flávio Pierucci é coorde-
nador da pós-graduação
em sociologia da FFLCH
da USP e membro do
Conselho Editorial de No-
vos Estudos Cebrap. Já
publicou nesta revista "Ás
Bases da Nova Direita"
(Nº 19).
Marcelo Coutinho de Li-
ma é mestrando em so-
ciologia da FFLCH da
USP.
26
NOVOS ESTUDOS Nº 29 - MARÇO DE 1991
rável de um sistema eleitoral que passa a funcionar crescentemente nos
moldes de um mercado político, no qual o voto se torna a manifestação
de uma preferência de momento entre consumidores vorazes de produ-
tos diferentes — não há nenhuma razão a priori para se pensar que, para
as esquerdas, a guerra travada dentro dos limites institucionais da demo-
cracia representativa esteja perdida.
"Experimente Suplicy", anunciava o PT em 1985. "E por que não
Maluf com Suplicy?", pode ter pensado o descontraído bricoleur e antro-
pofágico eleitor-consumidor dos Jardins e redondezas em 1990, "por que
não?"
RESUMO
Os autores analisam neste artigo o grande crescimento do voto malufista na cidade de São
Paulo entre 1986 e 1990. Tradicionalmente, o basic vote da direita representada por Jânio
e depois Maluf concentrava-se, sociologicamente, nos estratos médios inferiores e, geografi-
camente, nas áreas médias das zonas Leste e Norte, "o outro lado da cidade". Em seu movi-
mento de expansão na capital paulista o eleitorado conservador, ao mesmo tempo em que
se mantém forte em seus redutos históricos, espraia-se pelos bairros elegantes das zonas Centro,
Oeste e Sul, a "área nobre" de São Paulo, incorporando assim nas bases de voto do malufis-
mo uma boa fatia dos setores médios superiores. Os autores privilegiam as eleições de 1988
e 89, que mostraram a viabilidade eleitoral do PT, como catalisadores desta expansão social-
mente ascendente do voto conservador. Levantam a hipótese de que, sendo esse tipo de
voto uma escolha estratégica, não est. O artrigo dos autores Antônio Flávio Pierucci e Marcelo Coutinho de Lima .
O termo liberal conservador (ou liberalismo conservador) refere-se a uma vertente ideológica que combina a defesa da liberdade econômica com a preservação de valores sociais tradicionais. Popularmente, essa posição é sintetizada pela máxima "liberal na economia e conservador nos costumes".
Essa corrente de pensamento equilibra o ceticismo em relação à intervenção do Estado no mercado com o respeito a instituições sociais estabelecidas
Vertente Liberal (Economia): Adota os princípios do liberalismo clássico . Defende o livre mercado, a propriedade privada, a redução de impostos, a desregulamentação e a mínima interferência do Estado na geração de riqueza.
Vertente Conservadora (Social): Apoia a manutenção da ordem social, da moralidade tradicional, das estruturas familiares e dos valores culturais históricos. Diferente do liberal progressista, tende a ver com cautela mudanças comportamentais ou sociais muito abruptas.
Diferença entre Liberalismo Conservador e Conservadorismo Liberal
Embora os termos pareçam idênticos e frequentemente se sobreponham no debate político diário, estudiosos apontam raízes filosóficas ligeiramente distintas:
Principal liberalismo Conservador. O Liberalismo. É uma ala do movimento liberal que adota uma postura ética e cultural mais voltada à tradição.Proteger a liberdade individual e econômica contra o avanço do Estado, usando a moral tradicional como um freio social.Conservadorismo Liberal. O Conservadorismo. É uma vertente do pensamento conservador que assimilou a economia de mercado ao longo do tempo.Preservar a ordem social e o tecido institucional de uma nação, entendendo que o capitalismo de livre mercado é a melhor forma de gerar estabilidade material.
Essa união não é um fenômeno puramente recente. No Brasil do século XIX, durante o Império, o chamado "Regresso" consolidou a atuação dos Saquaremas (Partido Conservador), que defendiam uma estrutura centralizada e institucional forte para manter a unidade nacional, sem abrir mão de uma ordem econômica liberal controlada. Pensadores e políticos como o Visconde de Uruguai e, mais tarde na República, Rui Barbosa, são apontados como referências na conciliação entre instituições estáveis e liberdades civis.
Atualmente, essa junção ganhou nova força e molda o discurso de partidos da nova direita e de correntes econômicas no país, unindo a defesa de privatizações e reformas fiscais a pautas de preservação da família e valores tradicionai
O termo "liberal progressista" (ou liberalismo progressista) define uma corrente política e filosófica que combina a
da economia de mercado e das liberdades individuais com a promoção da justiça social e dos direitos civis de minorias. No cenário político contemporâneo, essa vertente busca equilibrar o capitalismo com a intervenção do Estado para garantir a igualdade de oportunidades.
Abaixo estão os pilares fundamentais, as aplicações institucionais e o contexto histórico desse conceito O Liberalismo Progressista
Direitos civis: Defesa estrita das liberdades individuais, pautas de minorias, feminismo e pluralismo.
Justiça social: Defesa de serviços públicos universais (saúde e educação) financiados por impostos progressivos.
Economia de mercado: Apoio ao capitalismo livre, mas regulado pelo Estado para evitar monopólios e abusos laborais.
Democracia institucional: Valorização da divisão de poderes, do voto e das instituições vigentes para reformas sociais..
Fernando Haddad. Representa o liberalismo progressista do PSDB. Mas o eleitorado paulistano . Especialmente no interior , é um eleitorado liberal conservador .
Confira a noticia no Portal G1 da Rede Globo. https://g1.globo.com/sp/sao-
E assim caminha a humanidade.
Imagem do Portal G1 da Rede Globo.
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