O capitalismo é um sistema econômico, social e político predominante na maioria do mundo, que se baseia em princípios como a propriedade privada, a economia de mercado, a busca pelo lucro e o acúmulo de capital.
Princípios Fundamentais
Propriedade Privada: Os meios de produção (fábricas, terras, ferramentas) são de propriedade de indivíduos ou empresas privadas, e não do Estado.
Busca pelo Lucro: O principal objetivo da atividade econômica é a geração de lucro, que é o capital que excede os custos de produção.
Economia de Mercado (Livre Concorrência): A produção e a distribuição de bens e serviços são reguladas pela lei da oferta e da procura. A concorrência entre produtores ajuda a regular os preços e a oferta.
Acúmulo de Capital: A riqueza (capital) é acumulada na forma de bens e dinheiro por indivíduos e empresas.
Divisão de Classes: A sociedade é estratificada em classes sociais, principalmente a burguesia (donos dos meios de produção) e o proletariado (trabalhadores que vendem sua mão de obra por um salário).
Não Intervenção Estatal (em teoria): Propõe-se que o Estado não deve intervir diretamente na economia, permitindo que o mercado se autorregule, embora na prática o grau de intervenção varie entre os países.
O sistema capitalista passou por diversas fases ao longo da história, adaptando-se às realidades de cada época:
Capitalismo Comercial (ou Mercantilismo): (Séculos XIV ao XVI) Focado no acúmulo de riquezas através do comércio, com forte intervenção do Estado e busca por balanças comerciais favoráveis (metalismo).
Capitalismo Industrial: Impulsionado pelas Revoluções Industriais, a produção em massa e a indústria tornaram-se o centro da economia.
Capitalismo Financeiro: Caracterizado pela predominância do capital financeiro (bancos, investimentos, bolsas de valores) sobre o capital produtivo, especialmente a partir do século 20.
O capitalismo se opõe historicamente ao socialismo, que defende a coletividade e a distribuição igualitária da riqueza.
Confira a dissetração dos autores Valdir Damázio Júnior1
Hanen Sarkis Kanaan2
Juliana Niesborski
NEGACIONISMO CLIMÁTICO E
OS INTERESSES DO CAPITAL
reflexões sobre o projeto
obscurantista e a atuação
dos intelectuais
Valdir Damázio Júnior1
Hanen Sarkis Kanaan2
Juliana Niesborski3
1 Doutorando em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Mestre em Educação
Científica e Tecnológica pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor do
departamento de Matemática da Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC). E-mail:
valdir.damazio@udesc.br
2 Doutora em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Professora da rede pública
estadual de educação de Santa Catarina no curso de magistério e ensino médio. E-mail:
hanensc@gmail.com
3 Doutoranda em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Mestre pelo Programa
de Pós-Graduação em Rede Nacional para o Ensino das Ciências Ambientais pela
Universidade Federal do Paraná Setor Litoral (UFPR). Professora da Prefeitura Municipal
de Matinhos (PR). E-mail: juliana.niesborski@gmail.com
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Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, edição especial
ResUMO:
O presente trabalho analisa como as mudanças climáticas antropogênicas estão
diretamente relacionadas às contradições presentes no modo de produção capitalista,
destacando o papel da ideologia neoliberal e dos intelectuais orgânicos ao capital na
ocultação dessa problemática. Argumenta-se que um projeto obscurantista, sustentado
por pseudociências e falta de rigor ético e científico, busca minar a credibilidade do
conhecimento científico contribuindo para a inércia social frente à crise ambiental. Com
base nos escritos e estratégias de atuação de Gramsci, discute-se a função dos intelectuais
na disputa pela hegemonia. Conclui-se que o enfrentamento ao obscurantismo exige
uma crítica estrutural ao capitalismo e a formação de intelectuais orgânicos às classes
subalternas capazes de iniciar um processo de transformação intelectual e moral da
sociedade.
Palavras-chave: Crise climática; Obscurantismo;
Neoliberalismo; Intelectuais orgânicos.
aBsTRacT:
This paper analyzes how anthropogenic climate change is directly related to the
contradictions present in the capitalist mode of production, highlighting the role of
neoliberal ideology and organic intellectuals aligned with capital in concealing this
problem. It is argued that an obscurantist project, supported by pseudosciences and
a lack of ethical and scientific rigor, seeks to undermine the credibility of scientific
knowledge, contributing to social inertia in the face of the environmental crisis. Based
on Gramsci’s writings and strategies of action, the role of intellectuals in the dispute
for hegemony is discussed. It is concluded that confronting obscurantism requires a
structural critique of capitalism and the formation of organic intellectuals from the
subaltern classes, capable of initiating a process of intellectual and moral transformation
of society.
Keywords: Climate crisis; Obscurantism; Neoliberalism; Organic intellectuals.
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Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, edição especial
inTROdUçãO
Nesse trabalho destacamos que as mudanças climáticas
antropogênicas não são apenas fruto de problemas de
gestão ou descaso, mas estão diretamente relacionadas
às contradições do modo de produção capitalista e aos interesses de
classe. Dado as diretrizes de crescimento exponencial e de acumu
lação infinita de capital, capitalismo e degradação ambiental
constituem dois polos de uma contradição insuperável internamente
ao modo de produção capitalista.
Diante disso, buscamos analisar algumas condições necessárias
para que essa contradição seja ocultada enquanto raiz do problema,
levando a letargia e inércia da população frente a tão relevante temá
tica. Consideramos que, na disputa pela hegemonia, a ideologia
neoliberal necessita se valer de um projeto obscurantista que visa
minar a credibilidade dos conhecimentos sistematicamente produ
zidos, essenciais para a atuação política no que diz respeito aos atuais
desafios de nosso momento histórico.
Um dos fatores indispensáveis para que o projeto em questão obscu
rantista tenha se desenvolvido nas últimas décadas é a constante
atuação de intelectuais ligados aos interesses do capital. De acordo
com Gramsci (2001), a atuação dos intelectuais é um elemento
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Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial
fundamental na captação do consenso das classes subalternas e na
disputa pela hegemonia.
Ainda que para Gramsci (2001), poderíamos dizer que “todos
os homens são intelectuais”, uma vez que não é possível separar
claramente atividade física e atividade intelectual, “[...] nem
todos os homens têm na sociedade a função de intelectuais”
(GRAMSCI, 2001, p. 18).
No que diz respeito ao nosso tema em questão, a ocultação das contra
dições do capitalismo que levam ao aprofundamento dos problemas
ambientais por meio de um projeto obscurantista, a atuação dos inte
lectuais nesse processo também exerce um papel fundamental. Nesse
caso, os intelectuais que contribuem continuamente para o forta
lecimento do obscurantismo vão desde jornalistas, influenciadores
digitais, políticos, cientistas, professores etc.
O que chama a atenção nesse ponto específico é que dada a natureza
da questão climática, a atuação de intelectuais atrelados aos inte
resses do capital só é possível mediante a falsificação e deturpação
de conhecimentos científicos consolidados. Não raro, esse projeto
obscurantista flerta com o negacionismo científico, com pseudo
ciências, com a perseguição a intelectuais comprometidos com o
rigor científico e preceitos éticos, com perseguição às universidades
e demais instituições produtoras de conhecimento e dados etc.
Diante das características peculiares da atuação desses intelectuais
e das dinâmicas contemporâneas de difusão de concepções obscu
rantistas, as contribuições de Gramsci sobre o papel dos intelectuais
na desestabilização da classe trabalhadora tornam-se especialmente
relevantes. Sua análise e denúncia do papel exercido por intelectuais
na manipulação teórica como mecanismo para induzir letargia e
ofuscar os antagonismos de classe oferecem um instrumental valioso
para compreensão e combate ao projeto obscurantista em curso.
É o caso, por exemplo, das análises de Gramsci referentes aos inte
lectuais lorianistas4, que se caracterizavam principalmente pela
4 O termo lorianismo foi criado por Gramsci tendo como referência o pensador italiano
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Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial
“[...] falta de organicidade, ausência de espírito crítico sistemático,
negligência no desenvolvimento da atividade científica, ausência
de centralização cultural, frouxidão e indulgência ética no campo
da atividade científico-cultural, etc.” (GRAMSCI, 2001, p. 257). Ou
seja, um grupo de “[...]. intelectuais que não são rigorosos em suas
pesquisas e em seus argumentos, nem quanto ao método e nem
quanto à ética” (SCHLESENER, 2024, p. 131).
Diante da atual necessidade de enfrentamento ao obscurantismo e
aos intelectuais que contribuem para a hegemonia do capitalismo
e de todo o desequilíbrio e destruição ambiental indissociável a
esse modo de produção, acreditamos que as proposições feitas por
Gramsci para combater os intelectuais lorianistas podem contribuir
para pensarmos em formas de enfrentar o obscurantismo atual. Sua
perspectiva, que passa em grande medida pela função social dos
intelectuais, auxilia na reflexão sobre a formação de dirigentes e
intelectuais organicamente ligados à construção de uma sociedade
mais justa, igualitária e ambientalmente sustentável.
a eMeRgência cliMáTica e a cOnTRadiçãO capiTal-naTUReza
Os atuais problemas que envolvem a crise climática e seus desdo
bramentos políticos, econômicos, culturais e educacionais em suas
múltiplas dimensões não podem ser vistos apenas como efeitos cola
terais e solucionáveis dentro da ordem estabelecida. Não se trata
apenas de um processo que se desencadeia com o aumento das
emissões de gases do efeito estufa que se iniciam com o processo de
industrialização. Tal análise determinística desconsidera as dimen
sões econômicas, políticas e ideológicas envolvidas.
Esse processo se intensifica ao longo do século XX e resiste
em ter sua ordem alterada no século XXI, apesar do vasto
Achille Loria (1857 - 1943). Gramsci foi bastante crítico da influência de Loria sobre os
operários e sobre o partido socialista italiano, denunciando constantemente a falta de
rigor metodológico e ético de Lori.
23
Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial
conhecimento científico das causas dos problemas e da urgente
necessidade de tomadas de decisões que revertam as causas mate
riais (aparentes) do problema.
O sistema capitalista, completamente baseado, desde a
Revolução Industrial, em combustíveis fósseis, é o respon
sável pela crise ecológica atual, e, em particular, pela
mudança climática. Sua lógica irracional de expansão e
acumulação infinitas, desperdício de recursos, consumo
ostentatório, obsolescência programada, produtivismo
obcecado com a busca do lucro a qualquer preço, está
levando o planeta à beira do abismo (LÖWY, 2021, p. 478).
Assim, no modo de produção capitalista, a relação do capital com a
natureza representa dois polos de uma contradição que impossibilita
qualquer solução sustentável no que diz respeito à questão climática.
Isto porque “[...] esse sistema impõe o crescimento exponencial, incita
a destruição ambiental e destrói o tecido social enquanto aumenta a
concentração de poder e riqueza” (HARVEY, 2022, p. 74).
Dada a própria lógica do capital de maximização de lucros e de cres
cimento exponencial do capital, associado ao fato de que vivemos em
um ambiente com uma quantidade finita de recursos, a reprodução
das condições existentes torna-se uma tarefa impossível.
Ou seja,
operando em descompasso com a natureza, promove a
destruição dos recursos naturais e evidencia um dese
quilíbrio entre a crescente necessidade de produção
de mercadorias e a incapacidade do planeta de prover
recursos naturais no mesmo ritmo para atender a essa
demanda. (ARAÚJO; SILVA, 2021, p. 156).
Assim, qualquer ação séria que colocasse o equilíbrio ambiental e
o bem-estar das pessoas como prioridade seria uma real ameaça
à reprodução do modo de produção capitalista. Por outro lado,
enquanto as diretrizes de crescimento exponencial, maximização
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Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial
de lucros e a manutenção do poder e privilégios de uma minoria
em detrimento do planeta e demais seres humanos permanecerem
como hegemônicas, a degradação ambiental e humana seguirá seu
curso como sacrifícios necessários à lógica do capital.
A contradição entre capital e preservação ambiental nos coloca
diante de uma importante questão: trata-se de uma contradição
que, embora relevante, não compromete estruturalmente a dinâ
mica capitalista, permitindo sua continuidade; ou os problemas
provocados pelas mudanças climáticas podem chegar ao ponto de
inviabilizar a própria lógica de reprodução capitalista?
Mesmo que exista a possibilidade (e os prognósticos científicos
não são nada animadores) de que os problemas ambientais levem
a uma desestruturação produtiva e social do que conhecemos, não
podemos contar com o bom senso das elites (e do conjunto de inte
lectuais que representam os seus interesses) para que abram mão
de seus privilégios.
O atual estágio dos conhecimentos produzidos sobre a crise climá
tica já seriam mais do que suficientes para engendrar ações efetivas
em um mundo em que a racionalidade e o bem comum fossem
as diretrizes principais. Porém, por mais contraditório que possa
parecer, racionalidade, bom senso e preceitos éticos não são os
únicos elementos que influenciam a atuação de intelectuais em
uma sociedade marcada pela divisão de classes e em constante
disputa pela hegemonia.
Em um modelo de produção onde o crescimento infinito e a maxi
mização de lucros são as diretrizes principais, mesmo ações ditas
ecológicas e “preocupadas” com a preservação ambiental, oriundas
de concepções teóricas e de intelectuais bem intencionados, mas não
detentores do devido rigor científico, ético e metodológico, são postas
a serviço da maximização de lucros no curto prazo e na manutenção
dos interesses de classe. Isso porque “[...] todos os projetos ecoló
gicos e ambientais são projetos socioeconômicos (e vice-versa). Sendo
assim, tudo depende do propósito dos projetos socioeconômicos e
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Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial
ecológicos: bem-estar das pessoas ou taxa de lucro?” (HARVEY,
2022, p. 323). Portanto, qualquer movimento ecológico que pretenda
ir “[...] além de uma política meramente cosmética ou de melhoria,
deve ser anticapitalista” (HARVEY, 2022, p. 328).
Löwy (2020, não paginado) destaca que ações como
[...] ‘capitalismo verde’, ‘mercados de crédito de emissões’,
‘mecanismos de compensação’ e outras manipulações da
chamada ‘economia de mercado sustentável’ provaram ser
completamente ineficazes. Enquanto a ‘ecologização’ está
sendo feita a cada curva, as emissões estão disparando e a
catástrofe está se aproximando rapidamente.
Vivenciamos um cenário distópico em que, ao mesmo tempo em
que preparam bunkers (MELLO, 2023) (ou sonham com fugas para
Marte) para se protegerem de um possível colapso climático, as elites
mundiais buscam formas de obter ainda mais lucros com as opor
tunidades abertas pelo colapso. Isto é um indício de que o capital
[...] pode perfeitamente continuar a circular e se acumular
sob condições de catástrofe ambiental. Desastres
ambientais criam oportunidades abundantes para um
‘capitalismo do desastre’ lucrar com prodigalidade. Não
necessariamente a morte por inanição de pessoas expostas
e vulneráveis e a destruição generalizada de habitats
prejudicarão o capital (a não ser que provoquem rebelião
e revolução), justamente porque grande parte da popu
lação mundial já se tornou redundante e descartável
(HARVEY, 2022, p. 324).
O aproveitamento das oportunidades pelo grande capital muitas
vezes aparece travestido de uma “louvável” roupagem de anseio por
mudança, como, defesa de uma economia verde, transição energética
sustentável, utilização de produtos menos poluentes etc. Ou, então,
se aproveitando diretamente dos efeitos do colapso ambiental como
forma de destruição de capital fixo (com vidas humanas incluídas
26
Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial
no processo) e início de novos ciclos de extração de valor na subs
tituição de tal capital.
Com esse intuito, toda uma indústria da tragédia (ou capitalismo
de desastre) começa a se estruturar. É o caso de empresas como a
Alvarez & Marsal, que atuou, por exemplo, na recuperação de desas
tres como o furacão Katrina em New Orleans nos Estados Unidos
no ano de 2005, Brumadinho (2019) em Minas Gerais e que firmou
parcerias com a prefeitura de Porto Alegre após as cheias que asso
laram o estado do Rio Grande do Sul em 2024 (DIAS, 2024). Essa
lógica de reconstrução traz junto a necessidade do aprofundamento
das sempre infalíveis práticas neoliberais.
Alves (2024) destaca que, entre as medidas de recuperação propostas
pela Alvarez & Marsal na reconstrução de New Orleans, constam
medidas de gestão alinhadas às diretrizes neoliberais, cortando
gastos com serviços públicos como educação. Apenas em New
Orleans foram demitidos mais de 7 mil professores com o intuito
de tornar a gestão pública mais eficiente e abrir caminho para a
privatização do sistema público.
Ou seja, “[...] cidades onde há descontrole de serviços públicos ou
devastação por tragédias naturais, viram laboratório para empresas
privadas lucrarem com planos de recuperação” (ALVES, 2024, não
paginado). Permitem a instalação de condições favoráveis para “[...]
os urubus da crise criarem novas fronteiras de acumulação de capital – e implantarem as reformas e medidas antipopulares que tanto
desejam” (DIAS, 2024, não paginado).
Isto significa dizer que
[...] o capital prospera e evolui por meio da volatilidade dos
desastres ambientais localizados, que não só criam novas
oportunidades de negócios, como também fornecem um
disfarce conveniente para esconder as falhas do capital: a
‘mãe natureza’, caprichosa, imprevisível e teimosa, é quem
leva a culpa pelas desgraças que em boa parte são causadas
pelo capital (HARVEY, 2022, p. 331).
27
Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial
Se por um lado a negação, inação ou a busca por vantagens diante
dos problemas desencadeados pela crise climática que vivenciamos
sejam totalmente compreensíveis como ações necessárias para a
manutenção dos privilégios de classe e aos interesses do capital, o
mesmo não ocorre na perspectiva das classes subalternas, as prin
cipais vítimas da degradação ambiental.
Diante disso, existe uma necessidade em se negar as condições que
possibilitem uma compreensão da atual situação, bem como o acesso
aos conhecimentos que permitam uma avaliação do problema pelas
massas subalternas. Tal ofensiva se dá por meio de um processo de
difusão ideológica que se vale de ideias obscurantistas, descrédito
sistemático do conhecimento científico, sucateamento das institui
ções científicas que estejam minimamente fora do controle direto
dos interesses do capital e toda uma rede de desinformação estru
turada em torno das redes sociais digitais.
É com o objetivo de pôr em circulação esse projeto obscurantista
que uma rede de intelectuais dos mais variados setores busca operar
junto às classes subalternas causando confusão e tentando impedir a
tomada de consciência necessária para perceber as contradições do
capitalismo no que diz respeito à sustentabilidade social e ambiental.
OBscURanTisMO e desinfORMaçãO cOMO pROjeTO
Se, como buscamos argumentar anteriormente, os interesses de
classe e as diretrizes da lógica do capital são os responsáveis prin
cipais para a negação da realidade material e para a inação frente às
mudanças necessárias, o que justifica a apatia das massas perante
uma tragédia anunciada na qual serão os maiores afetados?
Tal questionamento se torna ainda mais incompreensível quando
presenciamos que ao invés de precisar recorrer a estruturas repres
sivas para conter as pressões populares por mudanças significativas,
as elites contam com o consentimento popular. Tal consentimento
se dá por meio da adoção de argumentos que implicam na negação
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Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial
dos problemas que nos afligem ou com um completo desconheci
mento do tema, independente da sua relevância.
Retomamos o argumento apresentado anteriormente de que, caso
medidas efetivas de mitigação e superação dos problemas climáticos
fossem adotadas, isso implicaria em superar as próprias estruturas
do capitalismo, dada a impossibilidade da resolução da contradição
capital/preservação ambiental sem a superação das próprias condi
ções estruturais que levam a atual relação metabólica produção/
natureza. Como aponta Schlesner (2024, p. 223),
a violência contra as classes subalternas lançadas no
desemprego e na miséria e na destruição do meio
ambiente, o desprezo pelo conhecimento científico, a
apologia à violência e a disseminação do ódio, são alguns
dos problemas sociais a serem enfrentados.
Diante disso, restam apenas medidas que não alterem as estru
turas do problema. Para isso, é necessário a criação de estratégias
que não permitam que a contradição fundamental seja exposta e
compreendida pelos bilhões de homens e mulheres interessados na
manutenção de condições planetárias favoráveis à vida da espécie
humana no planeta.
É nesse sentido que a busca pelo consentimento passivo das massas
passa pela instituição de um senso comum que busca materializar
elementos da ideologia hegemônica e, para isso, a atuação dos inte
lectuais é essencial. Para Gramsci (1999), o senso comum trata-se de
“[...] uma concepção do mundo absorvida acriticamente pelos vários
ambientes sociais e culturais nos quais se desenvolve a individuali
dade moral do homem médio” (GRAMSCI, 1999, p. 114).
No atual contexto social, o senso comum almejado e ideologica
mente construído para a manutenção do consenso passa por alguns
pontos-chave. 1) A naturalização da ideologia neoliberal como única
forma possível, inclusive interiorizando elementos neoliberais para
a gestão da vida privada tais como, empreendedorismo de si, defesa
29
Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial
da meritocracia etc.; 2) A utilização de fragmentos desconexos de
questões científicas e técnicas, de modo a permitir a manipulação de
ideias e conceitos, mas impedindo uma real apropriação dos funda
mentos necessários para a compreensão do conhecimento produzido;
e 3) A utilização de pautas morais que sustentem maniqueísmos como
bem e mal, nós e eles, amigos e inimigos etc.
Com esse intuito se recorre à ação de intelectuais que contribuam
para a manutenção de um permanente pânico moral, de funda
mentalismos religiosos, de elogios à segurança propiciada pela
militarização da vida e, até mesmo, de concepções neofascistas,
misóginas, machistas, entre outros.
Como condição para a manutenção destes elementos ideológicos no
senso comum, é necessário negar o acesso a um conjunto de saberes,
práticas e conhecimentos que possibilitem a população a passagem
do senso comum (conjunto de conhecimentos fragmentados e desco
nexos) para o bom senso5. Ou seja, impedir que se desenvolvam
condições que possibilitem a percepção crítica dos problemas natu
rais e sociais e das possíveis soluções para os mesmos. Isso porque
superar o senso comum significa superar uma visão de
mundo fragmentária que, por suas condições, nos mantém
vinculados ao saber dominante; implica, por suposto,
compreender e criticar o instituído, elaborando um modo
de pensar autônomo (SCHLESENER, 2024, p. 204).
Ao negar o acesso a tais conhecimentos, objetiva-se também impedir
que se desenvolvam intelectuais orgânicos que trabalhem em prol
dos interesses das classes subalternas e que possam se tornar diri
gentes em um processo que vise a superação das contradições postas.
A formação desses intelectuais e dirigentes é essencial para que
haja uma mudança significativa nas posturas e ações referentes à
crise climática, uma vez que a inação e a ocultação dos problemas
5 Para Gramsci (1999, p. 98), o bom senso consiste no núcleo sadio do senso comum “[...] e
que merece ser desenvolvido e transformado em algo unitário e coerente”.
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Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial
é uma das condições necessárias para que se mantenham as atuais
engrenagens de exploração natural e humana responsáveis pela
reprodução do capitalismo. Nesse cenário, “[...] interesses econô
micos e políticos de uma classe social podem impulsionar ou cercear
ou impedir a busca das verdades sobre a natureza, a sociedade, as
relações entre sociedade e natureza etc” (DUARTE, 2022, p. 56).
Podemos, desta forma, falar em um projeto político que se vale do
obscurantismo para garantir os interesses de classe. Se, por um lado,
temos a hegemonia do neoliberalismo como programa político, o
obscurantismo em suas mais diversas manifestações (econômico,
fundamentalismo religioso, científico etc.) torna-se condição
necessária para a manutenção dessa hegemonia. Isto porque o “[...]
neoliberalismo e o obscurantismo são duas faces da mesma moeda”
(DUARTE; MAZZEU; DUARTE, 2020, p. 717).
O obscurantismo se manifesta quando “[...] há um esforço delibe
rado para que o conhecimento não avance ou para que as pessoas
não tenham acesso aos conhecimentos já existentes, ou seja, um
esforço para a manutenção da ignorância” (DUARTE; MAZZEU;
DUARTE, 2020, p. 731).
Projetos políticos que se valem do obscurantismo buscam
[...] eternizar relações de poder que são favoráveis a deter
minados setores da sociedade e, para isso, precisa difundir
preconceitos sobre qualquer pessoa, grupo ou linha de
pensamento que possa pôr em questão essas relações de
poder (DUARTE; MAZZEU; DUARTE 2020, p. 732).
Assim, a circulação de visões de mundo obscurantistas; o ataque
sistemático ao conhecimento científico; o descrédito de instituições
e intelectuais que fazem ciência; o boicote a uma educação pública
e a manutenção de uma estrutura tecnológica que facilite a disse
minação de desinformação podem ser consideradas um projeto.
Projeto este que tem por finalidade impedir o desenvolvimento das
31
Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial
condições que permitiriam às classes subalternas a compreensão
crítica da realidade em que estão inseridas.
É importante destacar que “[...] a luta do obscurantismo contra o
conhecimento é sempre uma luta política e socialmente reacionária,
é uma reação à possibilidade de mudanças profundas nas estruturas
e nas dinâmicas de uma sociedade” (DUARTE; MAZZEU; DUARTE,
2020, p. 732). Tal ponto fica explícito se voltarmos à questão refe
rente às transformações necessárias ao enfrentamento dos desafios
impostos pelas mudanças climáticas.
Diversas estratégias são postas simultaneamente em ação com o
objetivo de confundir deliberadamente a população e dar margens
às convenientes ideias obscurantistas. São ações que visam desle
gitimar o conhecimento científico, dirigindo ataques às instituições
produtoras de ciência e aos intelectuais comprometidos com o rigor
ético e metodológico necessários à pesquisa científica, sob o argu
mento de que estão dominadas por ideologias que buscam minar as
bases tradicionais da sociedade.
Ou, então, pela tentativa de banalizar a ciência, buscando criar
uma imagem de que o conhecimento científico se trata de uma das
possíveis opiniões, igualando os conhecimentos sistematizados e
rigorosamente desenvolvidos aos que circulam ao nível do senso
comum. Ponto este que a atuação de intelectuais sem comprometi
mento ético e metodológico, “[...] sem preocupação com as evidências
históricas ou mesmo com a veracidade dos fatos” (SCHLESENER,
2024, p. 131), de forma muito similar aos intelectuais lorianistas
combatidos por Gramsci (2001), é fundamental.
Uma outra estratégia na disseminação do obscurantismo social
que aprisiona as massas na ignorância e inércia, que é diretamente
dependente da atuação de “novos lorianistas”, é a parodização do
conhecimento científico. Tal ofensiva busca criar deliberadamente
estratégias para que teorias da conspiração, pseudociências assim
como interesses específicos de grupos sejam apresentados com uma
roupagem científica e acadêmica.
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Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial
Trata-se de uma abordagem que não tem por objetivo incitar as
pessoas a desacreditarem na ciência, mas sim de “[...] provocar a
dúvida e a desconfiança sobre uma certa ciência, restrita a certos
grupos de pesquisadores, em certas instituições que, de forma
proposital, passam a ser associadas a certos ‘interesses escusos’”
(GUIMARÃES, 2022, p. 3).
Ao se aproveitar do contexto artificialmente produzido de polari
zação social que se baseia num constante embate do bem contra o
mal, busca-se mimetizar, campos do conhecimento sistematizado
apresentando o “outro lado” (o bem) da ciência. É o caso de “teorias”
como o Design inteligente, em oposição a teoria da evolução em
biologia (HENTGES; ARAÚJO, 2020, p. 4) e revisionismos histó
ricos como os realizados por plataformas como o Brasil Paralelo,
se contrapondo a história ideológica esquerdista desenvolvida nas
universidades (PICOLI; CHITOLINA; GUIMARÃES, 2020).
Com esse intuito, são utilizados como critério de cientificidade para
a defesa de interesses específicos e propulsão de desinformação, a
seleção de cientistas sem o mínimo rigor e de estudos científicos
específicos que validariam certas ideias ideologicamente conve
nientes. Quase sempre ideias sem nenhuma aceitação dentro da
sistematização do conhecimento e do consenso científico. A margi
nalização destes cientistas se daria por conta de um complô de
cientistas (do mal) em ocultar a verdade da população.
Tal prática foi amplamente utilizada durante a pandemia de Covid-19
com “estudos científicos” e intelectuais a serviço do projeto obscu
rantista (políticos, jornalistas, médicos, cientistas etc.) recomendando
a utilização de medicamentos já amplamente tidos como ineficientes,
como a cloroquina, e mesmo apresentando os perigos das vacinas
enquanto propunham soluções como a “imunidade de rebanho”.
Essa é uma estratégia recorrente também quando o tema são as
mudanças climáticas antropogênicas. Na mídia ou em ações que
buscam questionar a natureza antropogênica das mudanças climá
ticas são frequentes a participação de nomes como Ricardo Felício, da
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Universidade do Estado de São Paulo e Luiz Carlos Baldicero Molion,
da Universidade Federal de Alagoas, ambos sem relevância acadê
mica na área, mas tomados como grandes especialistas em bolhas de
desinformação, conforme apontado por Miguel (2020) e por Pontes,
Soares e Geraque (2023).
Tais intelectuais, inclusive, estão diretamente relacionados a setores
do agronegócio brasileiro (Miguel, 2022), muitas vezes interessados
em negar os problemas ambientais e “passar a boiada” com relação
às legislações ambientais. Ricardo Felício inclusive foi cotado para
ser ministro do meio ambiente do governo Bolsonaro (Matoso, 2018).
Diante do exposto, fica evidente a necessidade do combate aos
intelectuais vinculados ao projeto obscurantista e ao negacio
nismo científico. Tais intelectuais, orgânicos ao neoliberalismo,
são frequentemente alinhados a interesses políticos e econômicos
e distorcem a ciência para promover agendas obscurantistas, colo
cando em risco vidas e o meio ambiente.
cOnsideRações finais
Como podemos inferir da análise precedente, qualquer problema
decorrente das contradições internas ao modo de produção capita
lista não pode ser encarado de forma isolada. Por este motivo, pensar
em soluções para a crise climática antropogênica atual implica
perceber as múltiplas conexões econômicas, sociais, políticas, cultu
rais e ideológicas que permitiram a falha metabólica propiciada pelo
modo de produção capitalista na relação dos seres humanos com o
ambiente natural. Além disso, é fundamental a compreensão das
condições que possibilitam o ocultamento dos problemas e a conse
quente inércia com relação a tomada de atitudes que objetivem suas
resoluções, ponto este que está diretamente relacionado à atuação
dos intelectuais.
Nesse sentido, consideramos que as propostas e ações de Gramsci
no combate aos danosos efeitos dos intelectuais lorianistas sobre
34
Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial
o movimento operário podem servir para pensarmos formas de
enfrentamento ao projeto obscurantista em curso.
Uma das ações propostas e colocadas em prática por Gramsci é o
enfrentamento direto aos intelectuais que atuam junto às massas
populares para causar confusão e gerar a apatia necessária a manu
tenção da ordem estabelecida. Durante o período que se dedicou à
produção de escritos jornalísticos destinados aos operários, de 1915 a
1926, por diversas vezes Gramsci dirigiu-se à figura de Achille Loria
com o intuito de desmascará-lo perante os trabalhadores. Ou seja,
mostrar a falta de rigor, a bizarrice de suas concepções, a natureza
pseudocientífica de suas teorias etc.
Não raras vezes, Gramsci recorria ao sarcasmo e a ironia para tentar
despertar o bom senso dos operários com uma apropriada alfine
tada, com o intuito “[...] de criar a aversão ‘instintiva’ pela desordem
intelectual, acompanhando-a com o senso do ridículo” (GRAMSCI,
2001, p. 266). A atuação de Gramsci com relação a Loria e demais
intelectuais lorianistas mostra a necessidade de se atuar junto às
classes subalternas buscando desmascarar a falta de rigor, a falta
de comprometimento ético e mesmo mostrar o ridículo que muitas
concepções hoje defendidas representam.
Porém, cabe ressaltar que a atuação de intelectuais orgânicos aos
interesses neoliberais se dá no campo da disputa pela hegemonia e
tem como objetivo conduzir
[...] a grande massa da população a um determinado
nível cultural e moral, nível (ou tipo) que corresponde
às necessidades de desenvolvimento das forças produ
tivas e, portanto, aos interesses das classes dominantes
(GRAMSCI, 2012, p. 288).
Com esse intuito, um dos objetivos do projeto obscurantista é
garantir a hegemonia cultural da ideologia neoliberal necessária
à manutenção de um Estado neoliberal. Essa hegemonia permite
a dominação, por meio de força e consenso, de corpos e mentes de
35
Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial
modo a impor relações sociais e produtivas que sustentem o indi
vidualismo, a meritocracia e a responsabilização individual por
problemas decorrentes das contradições do capitalismo.
Ou seja, relações sociais e culturais que permitem a reprodução de
um imaginário social que impede que as massas populares tomem
consciência das contradições que alimentam a atomização social, a
competitividade entre indivíduos e um eterno desejo irrealizável por
consumo. Elementos essenciais para a reprodução da ordem esta
belecida e o agravamento da crise climática.
Assim, conforme aponta Schlesener (2023, p. 299-300), a “[...] crítica
à sociedade capitalista nas novas dimensões que assume a ideo
logia mostra que a luta pela cultura popular [...]” é um dos pontos
fundamentais “[...] para a organização de movimentos sociais que
proponham um caminho alternativo a esta sociedade”
Por esse motivo, a construção das condições materiais capazes de
fazer frente ao projeto obscurantista a serviço do capital passa pela
formação de intelectuais orgânicos às classes subalternas capazes
tornarem-se dirigentes num processo de reforma intelectual, moral
e cultural da sociedade. Reforma esta que seja capaz de instituir rela
ções sociais solidárias, que rompam com o individualismo neoliberal.
A atuação contra-hegemônica de intelectuais orgânicos ligados aos
mais variados movimentos sociais pode contribuir para a criação de
novas relações ético-políticas no âmbito da sociedade e da cultura,
condição esta, necessárias para “[...] a construção de uma nova
concepção de mundo articulada a uma mudança estrutural da socie
dade” (SCHLESENER, 2024, p. 56).
É nesse ponto que as lutas por justiça social, o combate às causas da
crise climática e a superação das contradições capitalistas revelam
sua profunda interligação. Todas convergem na necessidade de
transformações estruturais que englobam simultaneamente as
esferas econômica, ética e cultural, exigindo um enfrentamento
direto tanto ao projeto obscurantista quanto aos intelectuais que
lhe dão sustentação teórica e política.
36
Pol. Cult. Rev., Salvador, v. 18, p. 19-40, 2025, edição especial
Esse enfrentamento, por sua vez, demanda a formação de dirigentes
e intelectuais orgânicos às classes subalternas, que devem emergir
dos diversos espaços de resistência frutos da organização popular.
A formação destes intelectuais orgânicos
[...] envolve tanto a perspectiva política de organização
dos movimentos sociais pela qual se forma a consciência
crítica e luta por transformações radicais, quanto os meca
nismos de educação que a sociedade oferece, entre eles,
todo o sistema escolar (SCHLESENER, 2017, p. 33).
Porém, é importante não perdermos de vista que não interessa a
atual hegemonia neoliberal a aquisição por parte das massas popu
lares dos conhecimentos que possibilitem uma melhor leitura da
realidade material e social em que estão inseridos. Muito menos
o desenvolvimento de condições que permitam a formação de
indivíduos autônomos e com pensamento livre, capazes de serem
dirigentes num processo radical de transformação da sociedade.
Portanto, a formação de intelectuais orgânicos ligados às classes
populares não só se configura como uma resistência ao projeto
obscurantista e aos intelectuais a ele associados, mas também se
revela fundamental para a construção de alternativas à atual relação
dos seres humanos com o ambiente natural. Essas alternativas
são essenciais para enfrentar de maneira efetiva a crise climática
de origem antropogênica, diretamente derivada das contradições
inerentes ao sistema capitalista.
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escritos de Gramsci. Ponta Grossa, PR: Uepg, 2024. E-Book. O artigo dos autores Valdir Damázio Júnior1
Hanen Sarkis Kanaan2
Juliana Niesborski.
Há elação intrínseca entre o capitalismo e o negacionismo climático, na qual interesses econômicos e a lógica de acumulação de capital impulsionam a negação da ciência climática.
Capitalismo e Crise Climática
Lógica de Lucro e Crescimento: O capitalismo, em sua busca por lucro e crescimento exponencial e ilimitado, baseia-se na exploração intensiva dos recursos naturais e na emissão massiva de gases de efeito estufa, principalmente pela queima de combustíveis fósseis.
Destruição Ambiental como Característica: A degradação ambiental não é um acidente, mas uma característica do modo de produção capitalista, que tende a destruir a natureza da qual a humanidade depende para gerar lucro.
Muitos argumentam que o crescimento econômico sustentado dentro de uma estrutura capitalista é incompatível com as mudanças sociais necessárias para mitigar os impactos climáticos. Soluções capitalistas são vistas como ineficazes para combater a raiz do problema.
Proteção de Interesses Econômicos: O negacionismo climático não é sobre ciência, mas sobre proteção do grande capital . Ele serve como um projeto político e ideológico para proteger os interesses de classes dominantes e setores econômicos (como a indústria de combustíveis fósseis e o agronegócio) que teriam muito a perder com a transição para uma economia de baixo carbono.
O discurso capitalista visa a não compreensão da crise climática, impedindo processos de governamentalização e a implementação de políticas ambientais eficazes que poderiam limitar a lucratividade de certas indústrias.
: O negacionismo busca criar uma falsa controvérsia sobre o consenso científico em torno das mudanças climáticas e seu caráter antropogênico (causado pelo homem), para manter o status quo e evitar a responsabilização do sistema econômico vigente.
O neoliberalismo é uma doutrina político-econômica que defende a mínima intervenção do Estado na economia e a ampla liberdade de mercado. Ele surgiu na segunda metade do século 20 como uma adaptação do liberalismo clássico ao contexto da economia globalizada. Seus defensores argumentam que a liberdade de mercado promove o crescimento econômico e a eficiência.
Características principais
Estado mínimo: Redução da participação estatal na economia, com privatização de empresas e serviços públicos.
Livre mercado: Promoção da livre concorrência, permitindo que as empresas e os consumidores tomem decisões sem intervenção do Estado.
Abertura econômica: Diminuição das barreiras comerciais, como tarifas e restrições, incentivando o comércio internacional e a circulação de capitais.
Flexibilização do trabalho: Redução de regulamentações trabalhistas e dos direitos dos trabalhadores, diminuindo a atuação dos sindicatos.
Disciplina fiscal: Controle rígido dos gastos públicos, geralmente por meio de tetos de gastos, o que pode resultar na redução de investimentos em serviços sociais.
Confira abaixo . A dissertação da autora Sabrina Rodrigues Marques.
Neoliberalismo: Uma fase atual do capitalismo
Resumo
Sabrina Rodrigues Marques1
O neoliberalismo, tornou-se uma nova ordem mundial, a partir dos anos 80 e 90,
primeiro na Europa depois em toda a América, de norte a sul. Assim sendo, as políticas
neoliberais configuram-se hoje atual fase do capitalismo. A abordagem central do
artigo, será compreender a expansão da hegemonia neoliberal, para isto, o trabalho
consistirá de alguns pontos a ser discutido: 1) entender o conceito de hegemonia dentro
de uma concepção gramsciana, 2) compreender as origens do capitalismo, 3) entender o
Imperialismo, 4) compreender os fatores que contribuíram para a expansão neoliberal.
Palavras chaves: Capitalismo- Neoliberalismo- Hegemonia
Introdução
O neoliberalismo, tornou-se uma nova ordem mundial, a partir dos anos 80 e 90,
primeiro na Europa depois em toda a América, de norte a sul. Assim sendo, as políticas
neoliberais configuram-se hoje atual fase do capitalismo, deste modo, buscou-se
entender o neoliberalismo, por meio de um referencial teórico: O Capital, volume I,
escrito por Karl Marx, Imperialismo, Estágio Superior do Capitalismo, escrito por
Vladimir Ilitch Lênin, O Brasil e o Capital Imperialismo, escrito por Virgínia Fontes,
Capitalismo, Origens e Dinâmica Histórica, escrito por Oswaldo Coggiola, O lucro ou
as pessoas? Neoliberalismo e a ordem global, escrito por Noam Chomsky, os Cadernos
do Cárcere, escrito por Antônio Gramsci.
A abordagem central do artigo, será compreender a expansão da hegemonia
neoliberal, para isto, o trabalho consistirá de alguns pontos a ser discutido: 1) entender o
conceito de hegemonia dentro de uma concepção gramsciana, 2) compreender as
origens do capitalismo, 3) entender o Imperialismo, 4) compreender os fatores que
contribuíram para a expansão neoliberal.
Um dos primeiros conceitos abordados no texto será o conceito de hegemonia, a
partir disso, propõe-se compreender os espaços que o neoliberalismo ocupou dentro da
1 Mestranda na Universidade Oeste do Paraná- UNIOESTE- Mal. Cândido Rondon. E-mail:
proptical@hotmail.com.
2
sociedade e os fatores que contribuíram para sua hegemonia política e econômica.
Assim, dentro de uma concepção gramsciana, hegemonia significa que,
“O fato da hegemonia pressupõe indubitavelmente que sejam levados
em conta os interesses e as tendências dos grupos sobre os quais a
hegemonia será exercida, que se forme um certo equilíbrio de
compromisso, isto é, que o grupo dirigente faça sacrifícios de ordem
econômico-corporativa; mas também é indubitável que tais sacrifícios
e tal compromisso não podem envolver o essencial, dado que, se a
hegemonia é ético-política, não pode deixar de ser também
econômica, não pode deixar de ter seu fundamento na função decisiva
que o grupo dirigente exerce no núcleo decisivo da atividade
econômica”.2
Assim, o neoliberalismo consolidou-se tomando a social-democracia como sua
inimiga central, em países de capitalismo avançado, provocando uma hostilidade
recíproca por parte da social-democracia3. Depois, os governos social-democratas se
mostraram os mais resolutos em aplicar políticas neoliberais. Portanto, não basta apenas
compreender o conceito de hegemonia, precisa- se entender como se constituiu o
capitalismo e suas fases.
O capitalismo é um sistema constituído pela circulação de mercadorias e a
produção de capital (dinheiro), para Marx, a circulação de mercadorias é o ponto de
partida do capital. Produção de mercadorias e circulação desenvolvida de mercadorias – o comércio – formam os pressupostos históricos a partir dos quais o capital emerge4,
configurando-se os primeiros pressupostos do capitalismo. Ainda, Mészáros afirma que,
o capitalismo é uma das formas possíveis da realização do capital, uma de suas
variantes históricas, como ocorre na fase caracterizada pela subsunção real do
trabalho ao capital.5
Além disso, Marx afirmava também que se abstrairmos o conteúdo material da
circulação das mercadorias, isto é, da troca dos diversos valores de uso, e considerar
2GRAMSCI, Antônio, 1891-1937 Cadernos do cárcere. Edição. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira,
2002. Vol 3. Nota §18, p, 48.
3ANDERSON, Perry. In SADER, Emir & GENTILI, Pablo (orgs.) Balanço do neoliberalismo. Pós
neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995, p. 13.
4MARX, Karl. O Capital. Editora Boitempo. 2012, Vol. I, p, 289.
5MÉSZÁROS, István. Para Além do Capital. Editora Boitempo. 2011, p, 15.
3
apenas as formas econômicas que esse processo capitalista engendra6, o seu produto
final, será o dinheiro. Ou seja, o dinheiro tornar-se-ia a primeira forma de manifestação
do capital, deste modo, as formas de manifestação do capital, se adaptaria conforme a
complexificação da relação capital-trabalho. Para Lênin, a transformação do
capitalismo, teve como consequência,
A propriedade privada baseada no trabalho do pequeno patrão, a livre
concorrência, a democracia, todas essas palavras de ordem por meio
das quais os capitalistas e sua imprensa utilizam enganam os operários
e os camponeses, pertencem a um passado distante. O capitalismo se
transformou num sistema universal de subjugação colonial e de
estrangulamento financeiro da imensa maioria da população do
planeta por um punhado de países “avançados”. A partilha desse
espólio efetua-se entre duas ou três potências rapaces, armadas até os
dentes (Estados Unidos, Inglaterra, Japão), que dominam o mundo e
arrastam todo o planeta para a sua guerra pela partilha do seu espólio.7
Ao longo de seu desenvolvimento histórico-social, o capitalismo passou por todo
uma evolução histórica, criando novas relações entre o homem e o capital. Conforme
Lenin afirmava, o imperialismo seria uma etapa superior do capitalismo, seria a
transformação da acumulação do capital, a formação de grandes monopólios, ou seja, o
surgimento do capital-imperialismo. Segundo Fontes,
A expressão capital-imperialismo permite capturar o movimento
peculiar ocorrido após a Segunda Guerra Mundial que aprofundou e
alterou os traços fundamentais do imperialismo tal como formulado
por Lenin. Novas características resultariam exatamente de sua
dilatação em nova escala. A perpetuação da violência de classes se
duplica pela disseminação de envolventes malhas tecidas por
entidades cosmopolitas voltadas para o convencimento, tentando
dissuadir a classe trabalhadora pela repetição ad nauseam de que este
é o único modo de existência possível. Violência e convencimento
seguem conjugados, na disseminação de verdadeiros exércitos
compostos por tanques de pensamento (think tanks).8
A partir deste pensamento think tanks, surgiria o neoliberalismo, como ideologia
econômica-política, que traria a complexificação das lutas de classes, a explosão de
6Marx, Karl. Op. Cit., p,289.
7LÊNIN, Vladimir Ilicht. Imperialismo, Estágio Superior do Capitalismo. Editora Expressão Popular.
2012., p. 27.
8FONTES, Virgínia. O Brasil e o capital-imperialismo. 2. ed. Rio de Janeiro: EPSJV/Editora UFRJ,
2010.
4
crises políticas, econômicas e sociais. Isto é, o neoliberalismo possui uma relação
intrínseca com o capitalismo atual, principalmente, a partir da década de 70.
A hegemonia neoliberal passou a se expandir a partir das falhas das políticas
keynesiana e do fracasso da social democracia. Apresenta-se, o neoliberalismo como
uma retomada do liberalismo clássico, no qual constituiu-se como uma corrente teórica
econômica. A construção da hegemonia neoliberal baseou em obras de teóricos que
defendiam o “Estado mínimo”, assim como, Adam Smith, Hayek, Friedman, Mises
entre outros.
O neoliberalismo significou a ideologia do capitalismo financeiro, no qual as
características centrais seria a propriedade privada e o livre mercado. O Estado terá
como papel apenas de assegurador das práticas neoliberais, cujo, ação será de agente
regulador nas quais tais práticas político-econômicos, funcionassem de maneira
adequada.
Este projeto neoliberal surge como uma política capaz de renovar as novas
formas de acumulação do capital. Sendo assim, o trabalho consistirá na compreensão do
conceito de hegemonia, no estudo sobre as origens do capitalismo, e o desenvolvimento
da hegemonia neoliberal.
Hegemonia: um conceito gramsciano
A noção de hegemonia parte da formulação de dois autores: Lênin e Gramsci,
cujo apresentam um conceito bem elaborado dentro do materialismo dialético. A
hegemonia proposta por Gramsci trouxe uma nova relação entre estrutura e
superestrutura. O conceito hegemonia tem como contexto, o desenvolvimento da
sociedade civil, instituições e Estado, além disso, a ideologia aparece como constitutiva
das relações sociais.
No entanto, existe algumas diferenças entre Lênin e Gramsci no conceito de
hegemonia, enquanto Lênin se refere apenas à ditatura do proletariado ao falar de
hegemonia, enfatizando seu caráter coercitivo, Gramsci destacava a importância de
5
formar uma classe dirigente que se mantenha pelo consentimento das massas e não
apenas pela força coercitiva.
O pensamento de Gramsci estava, obviamente, enraizado em Marx e
Lenin. Ele assumiu todos os pressupostos marxistas a respeito das
origens materiais de classe e do papel da luta e da consciência de
classe na transformação social. Ele também adotou a noção de Marx
sobre a "hegemonia" burguesa na sociedade civil, tal como expressa
por Marx e Engels em A Ideologia Alemã e fez dela um tema central
de sua própria versão do funcionamento do sistema capitalista. Tal
hegemonia, nos termos de Gramsci, significava o predomínio
ideológico dos valores e normas burguesas sobre as classes
subalternas.9
Conforme afirma Gramsci, toda relação de “hegemonia” é necessariamente
uma relação pedagógica, que se verifica não apenas no interior de uma nação, entre
diversas forças que compõem, mas em todo o campo internacional e mundial, entre
conjuntos de civilizações nacionais e continentais”.10
A hegemonia significa a capacidade de uma classe de manter sua dominação
sobre a outra, por meio da coerção e do consenso, da formação intelectual e moral.
Assim, a hegemonia constitui-se na organização e a manutenção de um aparelho estatal,
ou seja, a formação de um tipo de sociedade civil + sociedade política,
Para Gramsci, analiticamente, o espaço da hegemonia é o da
sociedade civil, enquanto o do domínio é a sociedade política ou o
Estado, pois podem-se fixar dois grandes “planos” superestruturais: o
que pode ser chamado de “sociedade civil” (isto é, o conjunto de
organismos designados vulgarmente como “privados”) e o da
“sociedade política ou Estado”, planos que correspondem,
respectivamente, à função de “hegemonia” que o grupo dominante
exerce em toda a sociedade e àquela de “domínio direto” ou de
comando, que se expressa no Estado e no governo “jurídico”.11
A manutenção da hegemonia não depende apenas da constituição do aparelho
estatal, e da formação intelectual e moral, mas da direção do partido. Gramsci afirma
que o partido político é a forma aperfeiçoada da classe dirigente e é por meio do partido
9CARNOY, Martin. Estado e Teoria política. (Equipe de trad. PUCCAMP) 2ª ed. Campinas: Papirus,
1988, p 90.
10 GRAMSCI, Antônio, 1891-1937 Cadernos do cárcere. Edição. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira,
Vol. 1, 2002, p, 399.
11 GRAMSCI, Antônio, 1891-1937 Cadernos do cárcere. Edição. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira,
Vol. 2, 2001, p, 21.
6
que a classe dirigente irá demonstrar sua capacidade de direção. O partido político é a
expressão de um grupo social.
A função da hegemonia tem como pressupostos a sociedade civil + sociedade
política organizada e conectada, além disso, os intelectuais são os “prepostos” do
grupo dominante para o exercício das funções subalternas da hegemonia social e do
governo político, isto é12:
1) do consenso “espontâneo” dado pelas grandes massas da população
à orientação impressa pelo grupo fundamental dominante à vida
social, consenso que nasce “historicamente” do prestígio (e, portanto,
da confiança) obtido pelo grupo dominante por causa de sua posição e
de sua função no mundo da produção; 2) do aparelho de coerção
estatal que assegura “legalmente” a disciplina dos grupos que não
“consentem”, nem ativa nem passivamente, mas que é constituído
para toda a sociedade na previsão dos momentos de crise no comando
e na direção, nos quais desaparece o consenso espontâneo.
Se os intelectuais são os prepostos hegemônicos da classe dominante, a
conservação da unidade ideológica do bloco social faz com que um determinado grupo
social, mesmo que em contradição ao outro grupo, estes adotem a concepção de mundo
daquele grupo. Ou seja, há uma disputa hegemônica dentro das lutas de classes,
segundo Gramsci,
“Todo povo tem sua literatura, mas ela pode vir-lhe de um outro povo,
isto é, o povo em questão pode ser subordinado à hegemonia
intelectual e moral de outros povos. É este, com frequência, o mais
gritante paradoxo de muitas tendências monopolistas de caráter
nacionalista e repressivo: o de que, enquanto se constroem grandiosos
planos de hegemonia, não se percebe que se é objeto de hegemonias
estrangeiras; do mesmo modo como, enquanto se fazem planos
imperialistas, na realidade se é objeto de outros imperialismos, etc. De
resto, não se sabe se o centro político dirigente não entenda muito bem
a situação de fato e não busque superá-la: mas é certo que os literatos,
neste caso, não ajudam o centro dirigente político em tais esforços e
seus cérebros vazios empenham-se na celebração nacionalista para
não sentirem o peso da hegemonia da qual se depende e pela qual se é
oprimido.”13
12 Idem, p, 21.
13 GRAMSCI, Antônio, 1891-1937 Cadernos do cárcere. Edição. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira,
2002, Vol. 6, nota §57, p,127,128.
7
Assim, o neoliberalismo significa dominação “consentida”, a hegemonia
neoliberal, dissemina, a dominação de uma classe social sobre a outra, de uma nação
sobre a outra. Sendo assim, dentro do sistema capitalista as relações sociais são
definidas pela troca de mercadorias, a detenção dos modos de produções e as relações
de forças produtivas, entre capital-trabalho. O grupo dirigente detém a hegemonia
mediante a produção de uma ideologia, quanto mais difundida a ideologia, tanto menos
utilizada a violência explicita.
Com isso, a hegemonia neoliberal significou uma conquista processual dentro
dos espaços, no seio e por meio da sociedade civil, visando à conquista de posições.
Conforme Gramsci, entende-se que, neste caso, impõe-se à luta de classes uma
estratégia de ataque frontal e complexificação das lutas sociais.
Origens do Capitalismo
Marx afirmava, a riqueza das sociedades onde reina o modo de produção
capitalista aparece como uma “enorme coleção de mercadorias”, e a mercadoria
individual como sua forma elementar.14 Para compreender, o capitalismo15 e suas fases,
e a implantação neoliberal mundialmente após o fracasso keynesiano, deve-se entender
a hegemonia capitalista e suas transformações no decorrer do processo histórico da
humanidade.
Segundo Coggiola16, o capitalismo, a sociedade dominada pelo capital17, é um
modo de produção da vida social que, nas suas características gerais (as comuns a todas
14 MARX, Karl. Op. Cit., p, 157.
15 COGGIOLA, Osvaldo. Capitalismo. Origens e Dinâmica histórica. São Paulo. 2014, p, 15. Segundo
Coggiola, o termo e o conceito de “capitalismo” levaram a melhor sobre outras definições que foram
também usadas (liberalismo, sociedade industrial, sociedade livre, sociedade aberta, e um belo etc.), para
definir a sociedade burguesa, por fazer referência à sua relação (oposição) social determinante: a existente
entre capital e trabalho assalariado, e ao polo dominante (Determinante) dessa contradição. A economia
capitalista é um “sistema” (um modo de produção) dividido em unidades de produção independentes e
concorrentes entre si. No interior de cada unidade de produção existe divisão (oposição) entre o
proprietário dos meios de produção e os produtores, isto é, entre capital e trabalho assalariado.
16 Idem, p, 5.
17 MARX, Karl. Grundrisse. Editora Boitempo. 2012, p, 57. Segundo Marx, o capital, entre outras coisas,
é também instrumento de produção, também trabalho passado, objetivado [objektivierte]. Logo, o capital
8
as formações econômico-sociais modernas) se constitui como objeto da análise teórica,
que o caracteriza pelas forças produtivas que ele suscita e mobiliza, e pelas relações de
produção sobre as quais se assenta.
Para Marx, o modo de produção é um conceito que passou a designar as formas
sociais historicamente existentes para produzir e reproduzir as condições materiais de
existência da sociedade. Segundo Mészáros, o sistema de sociometabolismo do capital é
mais poderoso e abrangente, tendo seu núcleo constitutivo formado pelo tripé capital,
trabalho e Estado18. Assim, Coggiola afirma que cada modo de produção corresponde
tanto ao nível de desenvolvimento das forças produtivas da sociedade (meios de
produção, técnicas de organização do trabalho, etc.) quanto às relações sociais que
organizam as relações de trabalho (de produção).19
A origem do capitalismo, parte do pressuposto que a mercadoria é uma forma
social que comporta tanto o valor de troca como o valor de uso, mas essa forma
aparece só como valor de uso, material e “coisificado”20. Deste modo, para Marx, o
capital, historicamente assume invariavelmente a forma do dinheiro, da riqueza
monetária, dos capitais comercial21.
E que toda a gênese do capital, o dinheiro, será sua primeira forma de
manifestação, todo novo capital entra em cena – isto é, no mercado, seja ele de
mercadorias, de trabalho ou de dinheiro – como dinheiro, que deve ser transformado
em capital mediante um processo determinado22.De acordo com Coggiola,
O dinheiro, por sua vez, aparece como portador exclusivo do valor,
como a manifestação da abstração da mercadoria, sendo, porém, só a
forma fenomênica da dimensão de valor da própria mercadoria. A
relações sociais do capitalismo aparecem, assim, fundadas na oposição
entre a abstração monetária do valor e a concretude da natureza
material da produção.23
é uma relação natural, universal e eterna; quer dizer, quando deixo de fora justamente o específico, o que
faz do “instrumento de produção”, do “trabalho acumulado”, capital. Por essa razão, toda a história das
relações de produção aparece em Carey, por exemplo, como uma maliciosa falsificação provocada pelos
governos.
18 Mészáros, István. Op. Cit., p, 15.
19 Coggiola, Osvaldo. Op. Cit., p, 5.
20 Idem, p, 11.
21 Marx, Karl. Op. Cit., p, 289.
22 Idem, p, 289,290
23 Coggiola, Osvaldo. Op. Cit., p,11.
9
Segundo Coggiola, o capitalismo nasceu da apropriação da esfera da produção
pelo capital, substituindo os modos de produção feudais. “A subordinação da produção
ao capital e o aparecimento da relação de classe entre os capitalistas e os produtores
devem ser considerados o divisor de águas entre o velho e o novo modo de
produção”24.
Hobsbawm, afirma que o triunfo global do capitalismo, foi o triunfo de uma
sociedade que acreditou que o crescimento econômico repousava na competição da livre
iniciativa privada. Uma economia assim baseada nas sólidas fundações de uma
burguesia, composta daqueles cuja energia, mérito e inteligência elevou-os a tal posição.
O sistema mundial do capitalismo era uma estrutura de "economias nacionais" rivais.
O triunfo mundial do liberalismo ficava na conversão de todos os povos, pelo menos os
que eram vistos como "civilizados".25
O capitalismo unificou o planeta tanto econômica como politicamente. A
economia mundial como fator histórico determinante, e as relações internacionais como
fator político dominante, se impuseram no século XIX. Coggiola infere que,
A ascensão do capitalismo ensejou a dissolução das relações
comunitárias: “O mundo moderno desconhece a comunidade. O modo
de produção capitalista dá origem à sociedade, cuja marca primeira é a
existência de indivíduos separados uns dos outros por seus interesses e
desejos. Sociedade significa isolamento, fragmentação ou atomização
de seus membros, forçando o pensamento moderno a indagar como
indivíduos isolados podem se relacionar, se tornar sócios [e levando] à
invenção da ideia de pacto ou contrato social firmado entre os
indivíduos, instituindo a sociedade”. A substituição de relações
comunitárias por relações sociais mudou todas as esferas do
pensamento e da ação.26
Significou uma nova burguesia, uma nova classe social, especialmente na
Europa, embora já existisse relações pré-capitalistas no mundo antigo, com aspectos
iniciais do capitalismo mercantil. A burguesia reconfigurou todo o sistema de mercado,
toda a política, o capitalismo desenvolveu-se adaptando-se as novas relações entre
trabalhador e patrão, entre mercado e mercadoria. Conforme Coggiola,
24 Idem, p,13.
25HOBSBAWM, Eric J. A Era do Capital. 3º edição, p, 80.
26 COGGIOLA, Osvaldo. Op. Cit., p, 127.
10
O capitalismo (o modo de produção baseado na hegemonia do capital
sobre todas as outras relações sociais) não é qualquer sistema
econômico dinamizado pela procura de lucro, mas só aquele baseado
nas relações de produção capitalistas, no qual o lucro se origina na
mais-valia extraída (extorquida) na e pela exploração da força de
trabalho livremente contratada e remunerada por um salário.
Diversamente das sociedades que o precederam, no capitalismo o
processo de trabalho se desdobra, ou apresenta uma face dupla e
contraditória: ele é, como em todas as sociedades precedentes,
processo de trabalho (criador de valores de uso) e também,
diversamente dessas sociedades, processo de valorização (criador de
valor).27
Para Lênin, o capitalismo foi se apoderando de sua nova máscara, à medida que
aumentava as operações bancárias e se concentrava um número reduzido de
estabelecimentos, estes convertiam-se, de modestos intermediários em monopolistas
onipotentes, que dispunha de todo o capital dinheiro do conjunto dos capitalistas e
pequenos empresários, bem como da maior parte dos meios de produção e das fontes de
matérias-primas de um ou de muitos países. Esta transformação constituiu-se como um
dos processos fundamentais da transformação do capitalismo em imperialismo.
Imperialismo: Uma concepção Leninista
Dentro de uma concepção leninista, o imperialismo surgiu como
desenvolvimento e continuação direta das características fundamentais do capitalismo.
Mas, segundo Lênin, o capitalismo só se transformou em imperialismo quando chegou a
um determinado grau do seu desenvolvimento, quando algumas das características
fundamentais do sistema capitalista começaram a transformar-se na sua antítese.
Assim, Lênin abordava que o capitalismo ganhou corpo e se manifestou em toda
a linha, os traços da época de transição do capitalismo para uma estrutura econômica e
social mais elevada. O imperialismo significou a substituição da livre concorrência
capitalista pelos monopólios capitalistas. Sendo assim, Lênin afirmava que,
A livre concorrência é a caraterística fundamental do capitalismo e da
produção mercantil em geral; o monopólio é precisamente o contrário
27 Idem, p. 16.
11
da livre concorrência, mas esta começou a transformar-se diante dos
nossos olhos em monopólio, criando a grande produção, eliminando a
pequena, substituindo a grande produção por outra ainda maior, e
concentrando a produção e o capital a tal ponto que do seu seio surgiu
e surge o monopólio: os cartéis, os sindicatos, os trustes e, fundindo-se
com eles, o capital de uma escassa dezena de bancos que manipulam
milhares de milhões.28
Portanto, os monopólios, não eliminava a livre concorrência, existindo lado a
lado com empresas industriais menores, resultando assim nas contradições e conflitos
do sistema. O monopólio é a transição do capitalismo para um regime superior. O
imperialismo, para Lenin significava fase monopolista do capitalismo. Por um lado, o
capital financeiro é o capital bancário de alguns grandes bancos monopolistas fundido
com o capital das associações monopolistas de industriais, e, por outro lado, a partilha
do mundo.
Lenin, definiu cinco traços fundamentais, do imperialismo:
1) a concentração da produção e do capital levada a um grau tão
elevado de desenvolvimento que criou os monopólios, os quais
desempenham um papel decisivo na vida econômica; 2) a fusão do
capital bancário com o capital industrial e a criação, baseada nesse
“capital financeiro” da oligarquia financeira; 3) a exportação de
capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire uma
importância particularmente grande; 4) a formação de associações
internacionais monopolistas de capitalistas, que partilham o mundo
entre si, e 5) o termo da partilha territorial do mundo entre as
potências capitalistas mais importantes.29
Desta Forma, o imperialismo é, pois, o capitalismo na fase de desenvolvimento
em que ganhou corpo a dominação dos monopólios e do capital financeiro, adquiriu
marcada importância a exportação de capitais, começou a partilha do mundo pelos
trustes internacionais e terminou a partilha de toda a terra entre os países capitalistas
mais importantes30. O desenvolvimento do sistema capitalista trouxe novas dinâmicas
sociais e políticas, a partir disso tornou-se imperialista, configurando em sua nova fase
atual: o neoliberalismo.
28 Op. Cit. Lenin. Vladimir. Ilich., p. 123.
29 Idem, p. 124.
30 Idem, p. 124,125.
12
A Hegemonia Neoliberal
O capitalismo, necessitava de novas formas de expansão e de acumulação de
capitais, o neoliberalismo surgiu como uma solução para o capitalismo. Conforme,
Anderson31 afirma, o neoliberalismo foi um fenômeno do liberalismo clássico, do
século passado, nasceu logo depois da II Guerra Mundial, na região da Europa e da
América do Norte onde imperava o capitalismo, foi um projeto político-econômico
contra o Estado intervencionista e de bem-estar social.
De acordo com Chomsky32, o termo neoliberalismo sugere um sistema de
princípios e baseia-se em ideais liberais clássicos. Esse sistema doutrinário é também
conhecido como Consenso de Washington33, expressão que sugere algo a respeito da
ordem global.
Sendo assim, o neoliberalismo significou uma nova ordem mundial do capital,
teve como objetivo ditar políticas a governantes conservadores, de perfil liberal, com o
intuito de fazer as mudanças supostamente necessárias para se modificar o papel do
Estado frente à sociedade, sob o argumento de que elas seriam imprescindíveis para a
inserção de seus respectivos países no mundo contemporâneo globalizado.
Segundo Lênin, o que caracterizava o velho capitalismo, onde reinava
plenamente a livre concorrência, era a exportação de mercadorias. O que caracteriza o
capitalismo moderno, era o monopólio e a exportação de capital. Assim,
O capitalismo é a produção de mercadorias no grau superior do seu
desenvolvimento, quando até a força de trabalho se transforma em
mercadoria. O desenvolvimento da troca, tanto no interior como, em
especial, no campo internacional, é um traço distintivo e caraterístico
31 ANDERSON, Perry. In SADER, Emir & GENTILI, Pablo (orgs.) Balanço do neoliberalismo. Pós
neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995, p. 9-23.
32 CHOMSKY, Noam. O lucro ou as pessoas? Neoliberalismo e a Ordem Global. Bertrand Brasil. 2002.
33 Idem, p. 07. Segundo Chomsky, o Consenso [neoliberal] de Washington é um conjunto de princípios
orientados para o mercado, traçados pelo governo dos Estados Unidos e pelas instituições financeiras
internacionais que ele controla e por eles mesmos implementados de formas diversas – geralmente, nas
sociedades mais vulneráveis, como rígidos programas de ajuste estrutural. Resumidamente, as suas regras
básicas são: liberalização do mercado e do sistema financeiro, fixação dos preços pelo mercado (“ajuste
de preços”), fim da inflação (“estabilidade macroeconômica”) e privatização. Os governos devem “ficar
fora do caminho” – portanto, também a população, se o governo for democrático –, embora essa
conclusão permaneça implícita. As decisões daqueles que impõem o “consenso” têm, é claro, um grande
impacto sobre a ordem global.
13
do capitalismo. O desenvolvimento desigual, por saltos, das diferentes
empresas e ramos da indústria e dos diferentes países é inevitável sob
o capitalismo.34
Chomsky, afirma que essas doutrinas não são novas, e seus pressupostos básicos
estão muito distantes daqueles que animaram a tradição liberal desde o Iluminismo. Isto
é, um dos primeiros filósofos que publicou o primeiro manifesto sobre o neoliberalismo,
na década de 50, foi Friedrich Hayek, no qual publicou o livro intitulado, O Caminho da
Servidão, escrito em 1944.
Em 1947, enquanto as bases do Estado de bem-estar social na Europa do pós
guerra efetivamente se construíam, Hayek convocou aqueles que compartilhavam sua
orientação ideológica para uma reunião na pequena estação de Mont Pèlerin, na Suíça.
Entre os filósofos estavam Milton Friedman, Ludwig Von Mises, Walter Eupken,
Walter Lipman, entre outros. Segundo Perry Anderson,
Fundou-se a Sociedade de Mont Pèlerin, uma espécie de franco
maçonaria neoliberal, altamente dedicada e organizada, com reuniões
internacionais a cada dois anos. Seu propósito era combater o
Keynesianismo e o solidarismo reinantes e preparar as bases de um
outro tipo de capitalismo, duro e livre de regras para o futuro. As
condições para este trabalho não eram de todo favoráveis, uma vez
que o capitalismo avançado estava entrando numa longa fase de auge
sem precedentes – sua idade de ouro –, apresentando o crescimento
mais rápido da história, durante as décadas de 50 e 60.
A fundação da sociedade Mont Pélerin, significou a disseminação dos reais
ideários neoliberais, os “perigos” do Estado intervencionista. Hayek a partir desta
sociedade defendia que o novo igualitarismo, promovido por este Estado de bem-estar
social, destruiria a liberdade dos cidadãos e a vitalidade da concorrência. O
neoliberalismo proclamava o fim de um Estado intervencionista, e defendia o livre
comércio, um mercado sem fronteiras, sem limites. Segundo Anderson,
A chegada da grande crise do modelo econômico do pós-guerra, em
1973, quando todo o mundo capitalista avançado caiu numa longa e
profunda recessão, combinando, pela primeira vez, baixas taxas de
crescimento com altas taxas de inflação, mudou tudo. A partir daí as
ideias neoliberais passaram a ganhar terreno. As raízes da crise,
afirmavam Hayek e seus companheiros, estavam localizadas no poder
excessivo e nefasto dos sindicatos e, de maneira mais geral, do
34 Op. Cit. LÊNIN, Vladimir Ilicht., p. 93.
14
movimento operário, que havia corroído as bases de acumulação
capitalista com suas pressões reivindicativas sobre os salários e com
sua pressão parasitária para que o Estado aumentasse cada vez mais os
gastos sociais.
A partir, da década de 70, o neoliberalismo, surge com capacidade de trazer
novas formas de acumulação de capital. O modelo neoliberal consolidou-se a partir dos
anos 80 em países ocidentais que teve como principal característica o afastamento do
Estado (Estado mínimo) em relação à gestão de diversos setores da economia.
Os primeiros inauguradores do modelo neoliberal na Europa foram os governos
de Margareth Tatcher, na Inglaterra, e Ronald Reagan, nos Estados Unidos, no início
dos anos 80. No Brasil, consolidou-se a partir dos anos 90 com Fernando Collor e teve a
consolidação no governo do Fernando Henrique Cardoso.
A implantação neoliberal teve como característica a formação de intelectuais, a
organização de instituições internacionais, por exemplo: a OCDE (Organização de
Cooperação e de Desenvolvimento Econômico), OMC (Ordem Mundial do Comércio),
o FMI entre outros. Segundo Anderson,
A hegemonia deste programa não se realizou do dia para a noite.
Levou mais ou menos uma década, os anos 70, quando a maioria dos
governos da OCDE – Organização Europeia para o Comércio e
Desenvolvimento – tratava de aplicar remédios keynesianos às crises
econômicas. Mas, ao final da década, em 1979, surgiu a oportunidade.
Na Inglaterra, foi eleito o governo Thatcher, o primeiro regime de um
país de capitalismo avançado publicamente empenhado em pôr em
prática o programa neoliberal. Um ano depois, em 1980, Reagan
chegou à presidência dos Estados Unidos. Em 1982, Kohl derrotou o
regime social liberal de Helmut Schmidt, na Alemanha. Em 1983, a
Dinamarca, estado modelo do bem-estar escandinavo, caiu sob o
controle de uma coalizão clara de direita, o governo de Schluter. Em
seguida, quase todos os países do norte da Europa ocidental, com
exceção da Suécia e da Áustria, também viraram à direita.35
O neoliberalismo foi constituído por uma série de estratégias políticas,
econômicas internacionais, orientado como solução para a crise capitalista de 70. A
difusão deste projeto político-econômico, partiu da construção de uma nova ordem
mundial, reconfigurando uma nova etapa do capitalismo.
35 Op. Cit. CHOMSKY, Noam. p. 11.
15
Ainda, a hegemonia neoliberal assume outras características político
econômicas, por exemplo: a configuração da globalização, um terreno fértil para
expansão neoliberal, difundindo a ruptura total entre os países, por meio do avanço da
tecnologia, da livre concorrência, da exacerbação do consumo, produzindo novos estilos
de vidas, reconfigurando a dominação capitalista.
A globalização tornou-se sinônimo do neoliberalismo apontando para as
transformações ocorridas no âmbito político, econômico e social, sendo assim, um dos
meios para a consolidação da hegemonia neoliberal foram os veículos de comunicação.
De acordo com Chomsky, o neoliberalismo36 caracterizou-se por meio do
crescimento da desigualdade econômica e social, o aumento da pobreza absoluta entre
as nações e povos mais atrasados do mundo, um meio ambiente global catastrófico, uma
economia global instável. Chomsky afirma que a implantação neoliberal foi por meio do
consenso de “Não Há Alternativas”. Ou seja, os defensores neoliberais praticam sua
hegemonia por meio da inexistência de alternativas, criando falsas ideias que o único
caminho viável seria por meio da expansão do capitalismo, do livre comércio. Segundo
Chomsky,
O neoliberalismo, sim, é de fato o “capitalismo sem luvas”, Ele
representa uma época em que as forças empresariais são maiores, mais
agressivas e se defrontam com uma oposição menos organizada do
que nunca. Nesse ambiente político elas tratam de normatizar o seu
poder político em todas as frentes possíveis, razão pela qual fica cada
vez mais difícil contestá-las, tornando complicada – no limite da
impossibilidade – a simples existência de forças extra mercado, não
comerciais e democráticas.37
Para Silva, o neoliberalismo, enquanto forma de gestão do capital, contempla os
interesses dos diferentes setores burgueses, ainda que de forma distinta, ou seja, é
entendido como um processo, que vem sendo construído por meio das modificações na
gestão política, na reestruturação produtiva, na linguagem ideológica e na imposição de
36 Segundo Chomsky. O termo neoliberalismo sugere um sistema de princípios que, ao mesmo tempo em
que é novo, baseia-se em ideias liberais clássicas: Adam Smith é o seu reverenciado santo padroeiro. Esse
sistema doutrinário é também conhecido como Consenso de Washington, expressão que sugere algo a
respeito da ordem global. Essas doutrinas não são novas, e seus pressupostos básicos estão muito
distantes daqueles que animaram a tradição liberal desde o Iluminismo. P.7.
37CHOMSKY, Noam. O lucro ou as pessoas? Neoliberalismo e a Ordem Global. Bertrand Brasil.
2002.P.4.
16
uma cultura única. Em suma, baseia-se em uma acelerada internacionalização da
economia, na financeirização do capital, na desregulamentação de direitos sociais e no
desmantelamento da organização dos trabalhadores.38
As práticas neoliberais trouxeram uma sustentação aos valores cultuados pelo
capitalismo, servindo como um arcabouço teórico para a burguesia clamar,
historicamente, pela não-interferência do Estado nas relações econômicas-políticas.
Mas, na prática, o neoliberalismo, esse sistema político-econômico, trouxe como
consequência uma complexificação na relação capital-trabalho e a acumulação de
capitais
nas
mãos
de
poucos:
a
Burguesia.
38 SILVA, Carla Luciana. VEJA: O indispensável partido neoliberal (1989-2002) UFF. Niterói, RJ. 2005.,
p. 25.
17
Bibliografia
ANDERSON, Perry. In SADER, Emir & GENTILI, Pablo (orgs.) Balanço do
neoliberalismo. Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. Rio
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CARNOY, Martin. Estado e Teoria política. (Equipe de trad. PUCCAMP) 2ª ed.
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GRAMSCI, Antônio, 1891-1937 Cadernos do cárcere, volume 1. Edição. Rio de
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__________________________, Cadernos do cárcere, volume 2. Edição. Rio de
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HOBSBAWM, Eric J. A Era do Capital. 3º ed.
LÊNIN, Vladimir Ilicht. Imperialismo, Estágio Superior do Capitalismo. Editora
Expressão Popular. 2012.
MARX, Karl. O Capital. Volume I. Editora Boitempo. 2012.
MÉSZÁROS, István. Para Além do Capital. Editora Boitempo. 2011.
18
SILVA, Carla Luciana. VEJA: O indispensável partido neoliberal (1989-2002) UFF.
Niterói, RJ. 2005. A dissertação da autora Sabrina Rodrigues Marques.
O liberalismo econômico é uma doutrina que defende a não intervenção do Estado na economia, a livre concorrência, o livre mercado e a propriedade privada. Originado no século 18 com pensadores como Adam Smith, ele sustenta que o mercado se autorregula pelas forças de oferta e demanda, impulsionado pelo interesse individual, o que, em tese, levaria a um maior bem-estar social.
Suas características incluem o livre mercado, onde a oferta e a demanda determinam a alocação de recursos e preços, a livre concorrência para impulsionar inovação, a propriedade privada dos meios de produção, e uma mínima intervenção estatal, focada em proteger a propriedade e evitar monopólios.
O liberalismo econômico surgiu como oposição ao mercantilismo e foi fundamental para a ascensão do capitalismo no século 18 e sua consolidação no século 19.
A Grande Depressão de 1929 expôs a necessidade de maior regulação estatal, levando ao desenvolvimento de abordagens como o neoliberalismo e o liberalismo social, que buscam equilibrar liberdade econômica, justiça social e um papel maior do Estado.
Apesar dos desafios atuais como guerras comerciais e protecionismo, as ideias liberais continuam relevantes e influentes globalmente, adaptando-se às mudanças contemporâneas.O posicionamento da "grande imprensa" (veículos de massa como Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo) pode ser classificado como liberal-conservador ou de centro-direita em análises acadêmicas. Embora esses veículos se apresentem como neutros ou "ao centro", sua atuação histórica e editorial revela nuances específicas: Identidade Liberal-Econômica: A grande imprensa costuma defender pautas econômicas liberais, como o livre mercado, a austeridade fiscal e reformas estruturais. Esse viés foi central na promoção de agendas neoliberais no Brasil desde a década de 1980.Conservadorismo Institucional: Em termos sociais e políticos, tende a um posicionamento conservador no sentido de preservação das instituições e da ordem social vigente, muitas vezes opondo-se a movimentos populares ou de esquerda que buscam mudanças estruturais profundas.Papel de Mediação: Ao se posicionar "ao centro", esses veículos buscam exercer um papel de moderadores do debate público, contrastando com a polarização das redes sociais e com mídias abertamente partidárias.Histórico Político: Pesquisas indicam que, em momentos de crise ou transição (como o golpe de 1964 ou o governo Collor), a grande imprensa atuou mais como colaboradora de agendas específicas do que como uma força puramente opositora ou neutra. O centro" da grande imprensa brasileira é geralmente definido por uma defesa do Estado Democrático de Direito combinada com uma forte inclinação ao liberalismo econômico. Nem sempre o neoliberalismo pregado pela imprensa entrega o prometido .
A pressão de bilionários e grandes empresários sobre chefes do Executivo no Brasil ocorre por meio de mecanismos institucionais, econômicos e políticos consolidados.
Esse fenômeno, frequentemente estudado na ciência política como lobby, captura do Estado ou corporativismo, baseia-se na dependência que governantes têm do setor privado para gerar empregos, investimentos e governabilidade.
Na União
O foco dos grandes conglomerados e bilionários na Presidência da República visa a políticas macroeconômicas, regulações de mercados e grandes contratos públicos.
Financiamento Indireto e Apoio Político: Com a proibição de doações empresariais diretas a campanhas em 2015, o apoio migrou para doações de pessoas físicas (bilionários como CPFs) e o financiamento de think tanks, institutos de pesquisa e frentes parlamentares (como a bancada do agronegócio ou da indústria).
Chantagem de Capital (Greve de Investimentos): Grandes empresários detêm o poder de ditar o ritmo da economia. Se o Executivo adota medidas vistas como desfavoráveis (ex: aumento de impostos sobre grandes fortunas), o setor privado pode retrair investimentos ou ameaçar transferir operações para o exterior.
Articulação via Entidades de Classe: Grupos como a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e a Fiesp negociam diretamente com o presidente e ministros da Economia/Fazenda, pautando reformas trabalhistas, tributárias e a concessão de subsídios ou desonerações fiscais.
Nós Estados
Nos estados, o poder empresarial é altamente concentrado em setores dominantes regionais, como o agronegócio, as indústrias de base e o setor de transportes.
Guerra Fiscal: Grandes empresários barganham com governadores a instalação de fábricas ou complexos logísticos em troca de isenções agressivas de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). O governador cede para mostrar geração de empregos local.
Dependência de Arrecadação: Em muitos estados, poucas e grandes empresas respondem por fatias massivas da arrecadação tributária estadual. Isso dá a essas corporações um poder de veto informal sobre políticas fiscais locais.
No município.
Nas cidades, a pressão empresarial é mais direta, imediata e concentrada em setores que dependem fundamentalmente de concessões e do ordenamento urbano.
Setor de Transporte Público: Empresários de ônibus exercem historicamente enorme influência sobre prefeitos, pressionando por reajustes de tarifas, subsídios municipais e renovações de contratos de concessão sem concorrência real.
Especulação Imobiliária e Empreiteiras: Grandes construtoras e incorporadoras pressionam secretarias de urbanismo e prefeitos para a alteração de Planos Diretores. O objetivo é ampliar o potencial construtivo de determinadas regiões, o que valoriza terrenos e multiplica lucros privados.
Prestadores de Serviços Urbanos: Empresas terceirizadas de coleta de lixo, saúde e segurança privada formam cartéis locais que frequentemente influenciam a formulação de licitações municipais.
Efeitos no Processo Democrático
Dinâmica PráticaResultado para o CidadãoPortas GiratóriasExecutivos do setor privado assumem ministérios ou secretarias (e vice-versa).Conflito de interesses e formulação de leis sob medida para empresas.Monopólio do AcessoBilionários têm agendas exclusivas com governantes, inacessíveis ao cidadão comum.Desigualdade de representação política crônica.Renúncias FiscaisGovernos perdem bilhões em impostos para subsidiar grandes setores.Falta de orçamento para serviços essenciais como saúde e educação.Confira a notícia no UOL.https://noticias.uol.com.
Imagens do UOL.
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