O bolsonarismo é um fenômeno político de extrema-direita e populista, centrado na figura do ex-presidente Jair Bolsonaro, e que se mantém relevante mesmo após o fim de seu mandato. É considerado por analistas uma versão brasileira de uma onda internacional reacionária. O movimento é caracterizado pela combinação de diversos elementos, como conservadorismo social, militarismo e o uso intenso das mídias digitais.
Características principais
Valores conservadores: A plataforma bolsonarista se baseia em valores tradicionais, com ênfase na defesa da família, da religião e da ordem moral.
Militarismo e ordem: Promove a militarização da segurança pública e do comportamento social, valorizando a disciplina e a autoridade militar.
Populismo: O discurso bolsonarista é antiestablishment e se dirige diretamente aos eleitores, criando uma conexão forte com sua base de apoio. A retórica costuma explorar a polarização e a crítica a supostos inimigos, como a "velha política" e o "comunismo".
Uso de mídias digitais: O movimento utiliza intensivamente as redes sociais e aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, para mobilizar apoiadores, disseminar notícias e informações (muitas vezes falsas ou distorcidas), e contornar a mídia tradicional.
Nacionalismo e "cidadão de bem": O bolsonarismo se apropria de símbolos nacionais e constrói uma narrativa identitária em torno do "cidadão de bem" para se contrapor a grupos sociais considerados "fora do padrão", como a esquerda, movimentos antirracistas e a população LGBTQIAPN+.
Americanização da política: O movimento reproduz práticas e performances de grupos de extrema-direita internacionais, como o trumpismo nos Estados Unidos, utilizando estratégias de comunicação e narrativas compartilhadas.
Após o fim do mandato de Bolsonaro e sua inelegibilidade, o movimento continua a se manifestar no cenário político brasileiro, mas enfrenta desafios:
Enfraquecimento: Analistas indicam que a "onda bolsonarista" tem se enfraquecido, especialmente após condenações de Bolsonaro na Justiça. Há questionamento sobre a capacidade do ex-presidente de manter a liderança de seu campo político.
Divisões internas: Reportagens recentes sugerem rachas dentro do bolsonarismo, com a ala mais radical questionando a liderança de Bolsonaro e figuras como o governador Tarcísio de Freitas sendo vistas como potenciais substitutos para a direita em 2026.
Apoio duradouro: Apesar das dificuldades, o bolsonarismo ainda mantém uma base de apoiadores significativa, que continua a se mobilizar em torno de suas pautas.
Cenário eleitoral: Embora seja considerado enfraquecido, o bolsonarismo continua a ser um fator relevante nas próximas eleições, com candidatos da direita buscando associar-se ou distanciar-se da figura do ex-presidente.
[Artigos Originais]
O Que É o Bolsonarismo? Muito
Além da Abordagem Sociológica
João Feres Júnior1
1Professor titular de Ciência Política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ). Rio de Janeiro, RJ. Brasil.
E-mail: jferes@iesp.uerj.br Orcid: https://orcid.org/0000-0002-5830-0458
Carolina Almeida de Paula2
2Doutora em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ). Rio de Janeiro, RJ. Brasil.
E-mail: carolina.almeidapaula@gmail.com Orcid: https://orcid.org/0000-0001-9559-6799
DOI: https://doi.org/10.1590/dados.2025.68.4.401
Disponibilidade de Dados – Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste
estudo foi publicado no próprio artigo.
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
1 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
Resumo
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
O artigo parte de uma crítica às contribuições da abordagem sociológica, que
concebem o bolsonarismo como produto de novas subjetividades conservadoras
ou mesmo como um movimento social. A partir da análise dos resultados de
uma pesquisa qualitativa nacional com bolsonaristas renitentes e arrependidos,
exploramos vários aspectos de sua adesão a temas como corrupção, segurança
pública, família, gênero e valores tradicionais, além da formação de suas pre
ferências políticas e hábitos de consumo de informação. Argumentamos que é
necessário ir além da constatação das adesões substantivas dos bolsonaristas a
valores, e olhar para a maneira como obtêm informação. A hipótese principal é
que o nexo maior do bolsonarismo é sua esfera comunicacional, que permite aos
aderentes fácil acesso a versões alternativas de fatos e narrativas. Concluímos o
texto refletindo sobre as limitações das teses sociológicas para o entendimento
do bolsonarismo e apontando para deficiências metodológicas dos trabalhos
qualitativos desse campo.
Palavras-chave: bolsonarismo; Brasil; movimentos sociais; pesquisa qualitativa;
consumo de mídia
Abstract
What is Bolsonarism? Far Beyond the Sociological Approach
The article begins with a critique of the contributions of the sociological approach,
which conceives Bolsonarism as a product of new conservative subjectivities
or even as a social movement. Based on the analysis of the results of a national
qualitative survey with staunch and repentant Bolsonaristas, we explore various
aspects of their adherence to issues such as corruption, public security, family,
gender, and traditional values, as well as the formation of their political prefe
rences and information consumption habits. We argue that it is necessary to go
beyond the observation of Bolsonaristas’ substantive adherence to values and
look at how they obtain information. The main hypothesis is that the strongest
link in Bolsonarism is its communication sphere, which allows supporters easy
access to alternative versions of facts and narratives. We conclude by reflecting
on the limitations of sociological theories in understanding Bolsonarism and
highlighting methodological shortcomings in qualitative research in this field.
Keywords: Bolsonarism; Brazil; social movements; qualitative research; media
consumption
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
2 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
Résumé
Qu’est-ce que le Bolsonarisme ? Bien Au-delà
de l’Approche Sociologique
L’article part d’une critique des contributions de l’approche sociologique, qui conçoi
vent le bolsonarisme comme produit de nouvelles subjectivités conservatrices ou
même comme un mouvement social. À partir de l’analyse des résultats d’une recher
che qualitative nationale menée auprès de bolsonaristes récalcitrants et repentis,
nous explorons divers aspects de leur adhésion à des sujets tels que la corruption, la
sécurité publique, la famille, le genre et les valeurs traditionnelles, en plus de la for
mation de leurs préférences politiques et habitudes de consommation d’information.
Nous soutenons qu’il est nécessaire d’aller au-delà de la constatation des adhésions
substantielles des bolsonaristes aux valeurs, et de regarder la façon dont ils obtien
nent l’information. L’hypothèse principale est que le plus grand lien du bolsonarisme
est sa sphère communicationnelle, qui permet aux adhérents un accès facile à des
versions alternatives de faits et de récits. Nous concluons le texte en réfléchissant sur
les limitations des thèses sociologiques pour la compréhension du bolsonarisme et
en pointant sur les lacunes méthodologiques des travaux qualitatifs de ce domaine.
Mots-clés : bolsonarisme ; Brésil ; mouvements sociaux ; recherche qualitative ;
consommation des médias
Resumen
¿Qué es el Bolsonarismo? Mucho más Allá del Enfoque Sociológico
El artículo parte de una crítica a las contribuciones del enfoque sociológico, que
conciben el bolsonarismo como producto de nuevas subjetividades conservadoras
o incluso como un movimiento social. A partir del análisis de los resultados de
una investigación cualitativa nacional con bolsonaristas renuentes y arrepentidos,
exploramos varios aspectos de su adhesión a temas como la corrupción, la seguridad
pública, la familia, el género y los valores tradicionales, además de la formación de
sus preferencias políticas y hábitos de consumo de información. Argumentamos
que es necesario ir más allá de la constatación de la adhesión sustantiva de los
bolsonaristas a ciertos valores y fijarse en la forma en que obtienen la informa
ción. La hipótesis principal es que el nexo más importante del bolsonarismo es su
esfera comunicativa, que permite a sus seguidores acceder fácilmente a versiones
alternativas de los hechos y narrativas. Concluimos el texto reflexionando sobre las
limitaciones de las tesis sociológicas para comprender el bolsonarismo y señalando
las deficiencias metodológicas de los trabajos cualitativos en este campo.
Palabras clave: bolsonarismo; Brasil; movimientos sociales; investigación cua
litativa; consumo de medios de comunicación
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
3 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
Introdução
A recente ascensão de políticos e partidos de extrema-direita mundo
afora se refletiu rapidamente na produção acadêmica, particularmente
a da ciência política, que já vinha há alguns anos estudando processos
de retrocesso democrático (Bermeo, 2016; Greskovits, 2015; Mainwa
ring, Pérez-Liñán, 2014). O Brasil passou a figurar na lista de casos de
estudo após a crise política que se instaurou a partir de junho de 2013
e se intensificou com o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e a
vitória de Jair Bolsonaro na eleição presidencial de 2018. Referências
bibliográficas a Bolsonaro e ao bolsonarismo têm experimentado um
crescimento forte a partir do final da década passada. Uma pesquisa
rápida que conduzimos pela ferramenta Google Books Ngram Viewer
revela crescimento praticamente constante da ordem de quase 30% ao
ano de instâncias de emprego da palavra “Bolsonaro” – e suas possíveis
derivações – em livros, a partir de 2016.1
A fim de mapear a literatura acadêmica sobre o tema, fizemos uma
pesquisa bibliográfica com o auxílio do programa Publish or Perish na
base do Google Acadêmico.2 Uma vez obtidos os resultados, seleciona
mos os 50 textos com maior fator de impacto (índice h) e que tratavam
da compreensão do bolsonarismo – descartando falso-positivos. Em
seguida, classificamos os textos selecionados de acordo com a maneira
como definem o bolsonarismo. Infelizmente, tal questão de ordem onto
lógica não é discutida explicitamente pela maior parte dos trabalhos
sobre o tema. Ainda assim, o critério se mostrou bastante produtivo
no trabalho de classificação dos textos, pois, entre outras coisas, ele
nos permite discutir a natureza do fenômeno ao qual nomeamos “bol
sonarismo”. Após uma leitura rápida dos 50 textos com maior fator de
impacto, encontramos três abordagens principais, distintas entre si
pela maneira como concebem o fenômeno do bolsonarismo: discursiva,
sociológica e de opinião pública.
A abordagem discursiva toma o bolsonarismo como um fenômeno
cujo nexo deve ser buscado no âmbito da linguagem, ou seja, ela o
concebe como uma combinação de discursos (Nunes, 2021; Baptista,
Hauber, Orlandini, 2022; Lynch, Cassimiro, 2022). A tarefa do ana
lista, então, estaria em identificar os componentes discursivos do
bolsonarismo (autoritário, militarista, misógino, necropolítico etc.)
e suas imbricações. Do ponto de vista metodológico, ela é fortemente
dominada pelo ensaísmo, ou seja, por um estilo de prosa acadêmica
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
4 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
que não lança mão do exame sistemático de dados empíricos. Ade
mais, essa abordagem privilegia a emissão do discurso por parte de
Bolsonaro e seus seguidores, e não a recepção por parte de apoiadores
e do eleitorado.
A abordagem de opinião pública concebe o bolsonarismo como fenô
meno de formação de preferências, processo estudado também sob o
rótulo epistêmico do “comportamento político”. Em grande medida,
está preocupada em capturar o aspecto eleitoral do bolsonarismo, isto
é, as interações entre o voto em Bolsonaro e posições socioeconômicas,
e preferências por valores e políticas públicas dos cidadãos (Rennó,
2020; Amaral, 2020; Almeida, Guarnieri, 2020). É uma abordagem que
lança mão de métodos estatísticos para a análise sistemática de dados
empíricos e é focada quase que exclusivamente na recepção, ou seja, na
formação de opiniões, comportamentos e preferências do eleitorado,
e não na oferta de discursos por parte de líderes políticos.
A terceira abordagem identificada em nossa análise trata o bolsona
rismo como um fenômeno sociológico, daí seu nome. Escolhemos tal
abordagem como principal interlocutora neste artigo por algumas
razões. Primeiramente, ela partilha com o presente estudo a opção
pela adoção de métodos qualitativos. A técnica adotada aqui, grupos
focais on-line síncronos, nos permite obter informações sobre a ope
ração do bolsonarismo que colocam em questão aspectos importantes
da abordagem sociológica. Pretendemos mostrar que parte das defi
ciências substantivas identificadas nessa literatura advém de proble
mas metodológicos. Segundo, porque, assim como a abordagem de
opinião pública, a abordagem sociológica também foca na recepção
do bolsonarismo, avaliando a formação de opiniões e preferências
por parte dos cidadãos comuns. Cremos ser o estudo do processo de
recepção mais produtivo para o entendimento do sucesso eleitoral
do bolsonarismo.
O texto que segue está dividido nas seguintes seções: revisão das
principais contribuições à literatura do bolsonarismo como fenômeno
sociológico, que termina com a identificação de suas deficiências;
apresentação da metodologia do presente estudo; apresentação dos
principais resultados da pesquisa nacional qualitativa; discussão dos
resultados à luz da literatura; e uma conclusão que retoma as deficiên
cias apontadas, agora discutidas a partir dos resultados substantivos
de nossa pesquisa.
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
5 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
Abordagem Sociológica
Os trabalhos que adotam essa abordagem tomam o bolsonarismo como um
fenômeno sociológico, frequentemente como um movimento social. Por
exemplo, o artigo de Gabriel Feltran (2020) carrega a palavra já em seu sub
título: “A Totalitarian Movement in Contemporary Brazil”. Segundo o autor:
O movimento de massa que fez Bolsonaro é impulsionado pela promessa
redentora de resolver os conflitos sociais do Brasil e acabar com suas
diferenças sociais... O movimento não é, como às vezes se pensa, um de
elites contra os pobres. Dentro do mundo urbano popular, há muitos bol
sonaristas, entre os quais o caráter totalitário do movimento é claramente
compreendido. (Feltran, 2020:95-6)3
Feltran parece se mover contra um argumento-espantalho de que o bolso
narismo seria uma trama de elites, e tenta provar que, pelo contrário, se
trata de um movimento de massas. Mas nunca ficamos sabendo ao certo
como essa teoria do bolsonarismo de elite é articulada, e nem quem a
articula, pois o artigo não contém diálogo com a literatura sobre o tema.
Ele também carece de referências empíricas sistemáticas, permanecendo
o tempo todo no plano do ensaísmo. O autor declara, no início do texto,
que observou o crescimento do movimento bolsonarista em 2013, quando
fez trabalho de campo etnográfico na periferia da cidade de São Paulo
(Feltran, 2020:95), mas nenhum outro dado empírico é de fato analisado.
Classificamos também sob o guarda-chuva da abordagem sociológica
trabalhos que flertam com a psicologia social, como a contribuição de
Rosana Pinheiro-Machado, que enxerga o bolsonarismo como produto de
uma nova subjetividade conservadora no Brasil, vinda à tona devido às
crises políticas e econômicas que têm assolado o país nos últimos anos,
bem como ao crescimento das redes sociais e à disseminação de notícias
falsas (Pinheiro-Machado, Scalco, 2020). A metodologia adotada é uma
“etnografia longitudinal” para entender o surgimento dessa subjetividade
conservadora no Brasil, mas, de fato, são estudados os apoiadores de
Bolsonaro no Morro da Cruz, uma região de baixa renda localizada na
periferia de Porto Alegre.
Outra contribuição que fica sob o guarda-chuva da abordagem sociológica
é a de Isabela Oliveira Kalil (2018), que trata o bolsonarismo como uma
coleção de identidades sociais. Em sua pesquisa, Kalil enumera 16 tipos
de apoiadores, eleitores e potenciais eleitores de Bolsonaro, com base em
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
6 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
marcadores de classe social, raça/etnia, identidade de gênero, religião,
formas de engajamento e crenças. A autora hierarquiza diferentes fatores
que motivam o voto em Bolsonaro, associando vários deles a sentimen
tos de medo e repulsa, que seriam oportunisticamente mobilizados pelo
discurso bolsonarista. Segundo relata Kalil (2018:5), a coleta de dados foi
realizada em protestos, manifestações e atos políticos ocorridos em São
Paulo entre 2013 e 2018, com ênfase em eventos como o acampamento da
FIESP, em 2016, e o evento contra Judith Butler, em 2017. Ou seja, como nas
outras contribuições examinadas acima, a base empírica é de baixíssima
representatividade e a amostragem é carente de qualquer sistematicidade.
Entre os autores da abordagem sociológica que tratam o bolsonarismo
como um movimento social, destacam-se Camilla Rocha, Esther Solano
e Jonas Medeiros, por terem publicado muitos artigos e um livro sobre o
assunto (Rocha, Solano, Medeiros, 2021). Sua contribuição é, assim nos
parece, a mais laboriosa e teoricamente sofisticada produzida até agora
dentro do subgênero da abordagem sociológica, e por isso merece especial
atenção. Segundo Rocha et alii, o processo de redemocratização, tendo
como marco a Constituição de 1988, levou à formação, no Brasil, de uma
esfera pública pós-burguesa, termo emprestado de Nancy Fraser (1997),
que é caracterizada pela expansão do sistema de direitos e da inclusão
social de grupos marginalizados produzida pelo ativismo dos movimen
tos sociais. Essa expansão, na narrativa dos autores, também serviu de
gatilho para o cultural backlash da direita. O bolsonarismo seria, então,
um movimento de reação a essa esfera pública pós-burguesa, capaz de
integrar demandas dos grupos subalternos (p. 144). Mais especificamente,
o bolsonarismo é caracterizado como um movimento de contrapublici
dade dominante que, utilizando-se das redes sociais e da internet, visou
a desmantelar a esfera pública pós-burguesa no Brasil e estabelecer uma
nova autocracia burguesa inspirada pela ditadura militar (p. 160).
A contrapublicidade como tática de movimentos sociais teria irrompido
no espaço público a partir do ciclo de protestos iniciado em junho de 2013,
colocando em xeque o sistema político representativo. Bolsonaro e a nova
direita, em meio à qual ganhou centralidade a figura de Olavo de Carva
lho, aproveitaram-se dessa janela de oportunidade para tentar atender ao
descontentamento popular amplificado pelo ciclo de protestos. Fazendo
uso de uma estratégia de apresentação pessoal histriônica e disruptiva,
Bolsonaro aproveitou-se desse estado de coisas para vencer as eleições de
2018. Uma vez no poder, o núcleo central do bolsonarismo continuou a
usar a contrapublicidade como uma estratégia radical contra-hegemônica.
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
7 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
Na abordagem sociológica de Rocha et alii, o bolsonarismo é também
explicado como um movimento social a partir de um arcabouço fornecido
pela teoria deliberativa, mais especificamente, pela teoria da ação comu
nicativa reformulada para aplicação à esfera pública pós-burguesa. Mas a
explicação para por aqui, pois não ficamos sabendo como se organiza de
fato esse “movimento social”, a não ser que por meio das redes sociais, em
grupos nos quais abunda o discurso disruptivo, o que é uma descrição bas
tante genérica. Na verdade, não se vê um esforço dos autores de explorar
os diferentes aspectos do movimento bolsonarista, particularmente no
que toca à mobilização de recursos (Edwards, McCarthy, 1996; McCarthy,
Zald, 1977) e ao processo político (McAdam, 1996; Tarrow, 1994). Ademais,
a política institucional em si, inclusive em seu aspecto eleitoral, é tratada
como um epifenômeno de fatores sociais mais profundos.
Assim, não há uma explicação clara de como esse “movimento social” pro
duziu o fenômeno de opinião que permitiu a Bolsonaro vencer em 2018 e
quase repetir o feito em 2022. Ou, melhor dizendo: poderia esse fenômeno
de opinião, que mobilizou mais de 50 milhões de eleitores em duas eleições
presidenciais seguidas, ser explicado como um movimento social?
As opções metodológicas do trabalho de Rocha, Medeiros e Solano são dig
nas de nota. Na maioria dos capítulos, a análise é baseada em informações
provenientes de outros trabalhos dos autores e em fontes de terceiros. No
capítulo 4, contudo, há um esforço de se apresentar a metodologia de pes
quisa produzida pelos próprios autores, antes da discussão dos resultados.
Trata-se de entrevistas com sete moradores de São Paulo, escolhidos para
representar uma variedade de situações econômicas, profissões, idades
e gêneros, e conversas colhidas ao longo de atividades com grupos de
alunos de uma escola pública do 1º e 3º anos do ensino médio situada em
São Miguel Paulista, um bairro carente na periferia de São Paulo. Ainda
segundo o relato dos autores, participaram da pesquisa 40 estudantes do
último ano e 20 do primeiro ano. Por fim, adicionam a informação de
que boa parte desses alunos podem ser considerados eleitores fiéis de
Bolsonaro, dado um pouco exótico, pois muitos estudantes do 1º ano do
ensino médio sequer teriam idade suficiente para tirar o título de eleitor.
Seguindo a tradição dos trabalhos da abordagem sociológica ao estudo
do bolsonarismo, a preocupação com metodologia é aqui bastante tênue.
Em outros trabalhos sobre o tema do bolsonarismo, as autoras empregam
a metodologia do “minigrupo focal etnográfico”, cada um formado por três
pessoas que se conhecem previamente e “têm uma composição homogênea
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
8 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
em termos de faixa etária, renda, sexo ou outras características” (Solano,
2021; Rocha, Solano, 2019). Segundo sua interpretação, essa conformação
aumentaria a empatia entre o entrevistador e os entrevistados. Novamente,
aqui nos deparamos com uma falta de preocupação com a representativi
dade amostral e com os detalhes metodológicos da pesquisa. Ora, o fato
de serem somente três pessoas e elas se conhecerem reduz drasticamente
a representatividade da amostra. Nesses trabalhos, diferentes recortes
populacionais são estudados, sempre bastante restritos: uma das pesquisas
utiliza dados de minigrupos realizados em um número reduzido de cida
des – Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro (Solano, 2021); na outra, as
autoras focam somente nas pessoas de rendimento médio (Rocha, Solano,
2019). Ou seja, a combinação de grupos de três com restrições nos recortes
demográficos prejudica muito a representatividade da amostra.
Em suma, os trabalhos analisados acima mostram a tendência de os auto
res da abordagem sociológica reduzirem o bolsonarismo a um movimento
social ou mesmo a um conjunto de identidades. Não haveria problema
nessa redução se ela fosse tomada somente como hipótese a ser testada
pela análise de dados. O problema surge quando verificamos que as meto
dologias adotadas para dar conta da tarefa de confirmar essa hipótese
sobre a natureza do fenômeno carecem de sistematicidade, pois traba
lham com amostras de exígua representatividade, que geram dados tra
tados de maneira anedótica, quando não puramente ensaística.
A hipótese que guia o presente trabalho é que a melhor explicação para a
formação de preferências em favor de Bolsonaro não é a atuação de um
suposto movimento social bolsonarista – nunca exaustivamente descrito
pela literatura –, mas a estrutura comunicativa montada em torno de sua
figura, que permite a seus seguidores habitarem uma esfera comunicacio
nal própria, na qual circulam as narrativas e versões de fatos bolsonaristas.
A maneira como diferentes pessoas adentram essa esfera comunicativa
varia, pois ela parece ser bastante heterogênea e descentralizada, mas o
contato cotidiano com essa esfera comunicacional parece ser uma marca
comum dos integrantes do bolsonarismo, como iremos demonstrar.
A Pesquisa
Organizamos uma pesquisa qualitativa de escopo nacional cujo objetivo
principal foi produzir conhecimento substancial e preciso acerca do bol
sonarismo, tomando-o prima facie como um fenômeno de opinião pública.
Em outras palavras, suspendemos as premissas fundamentais da aborda
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
9 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
gem sociológica, que o consideram como um movimento social ou um
conjunto de novas subjetividades, e das abordagens que o tomam como
discurso. Do ponto de vista teórico e metodológico, isso nos parece ser
um passo prudente. Ora, o dado mais imediatamente disponível quando
escutamos um participante de pesquisa, seja utilizando a metodologia de
entrevistas em profundidade ou a de grupos focais, são suas falas, que,
por seu turno, expressam opiniões sobre o mundo, ou, mais especifica
mente, sobre os assuntos que lhe são apresentados. Se todas essas falas,
uma vez coletadas, codificadas e interpretadas, conseguem sustentar
uma concepção do bolsonarismo como movimento social, discurso etc.,
isso é algo que só podemos concluir ex post, e não assumir ex ante, como
premissa ontológica que estrutura a pesquisa.
O desenho de nossa pesquisa se beneficiou da análise de dados quantita
tivos sobre o bolsonarismo, produzidos por pesquisas de opinião frequen
temente publicadas em jornais e na internet, e dos trabalhos acadêmicos
da área dos estudos do comportamento político (Amaral, 2020; Rennó,
2020; Russo, Pimentel Junior, Avelino, 2022).
No momento em que fomos a campo, maio de 2021, a série de pesquisas
quantitativas (surveys), feitas por institutos como DataFolha, IPESPE e
Quaest, mostrava uma certa movimentação dos grupos demográficos que
apoiavam Bolsonaro, em relação à eleição de 2018. O Brasil enfrentava o
segundo ano da pandemia de COVID-19, sob o governo de Bolsonaro, e o
clima político era bastante conflituoso. A CPI da COVID fora instalada pelo
Senado Federal para investigar as ações e omissões do governo durante
a pandemia, especialmente as relacionadas à compra de vacinas e ao
colapso do sistema de saúde em Manaus. O Ministro da Saúde, o gene
ral Eduardo Pazuello, alvo de muitas acusações de negligência e má-fé
no trato da pandemia, foi substituído por Marcelo Queiroga. As tensões
entre o presidente e governadores e prefeitos sobre medidas de restrição
e lockdown para conter a pandemia continuavam altas. Enquanto isso, a
vacinação estava atrasada e envolta em polêmicas relativas à compra de
vacinas, incluindo denúncias sobre a Covaxin. De quebra, tínhamos um
elevado grau de tensão entre o Executivo e o STF, causado pelas frequentes
bravatas do presidente contra as decisões da Corte.
Bolsonaro parecia ter perdido um pouco do apoio entre os brasileiros
mais escolarizados e de maior renda, mas ganhado apoio entre os setores
de menor escolarização e renda da nossa população; perdido apoio na
região Sudeste, região fundamental para sua vitória eleitoral em 2018, mas
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
10 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
ganhado outras regiões do Brasil. Algumas dessas tendências viriam a se
confirmar no resultado do pleito de 2022, particularmente a perda de apoio
relativo nos grandes estados do Sudeste. Ao mesmo tempo, os relatórios
dessas pesquisas também mostravam que o ex-capitão conseguia manter
forte apoio do eleitorado evangélico. De qualquer maneira, a despeito des
sas movimentações, o dado mais relevante revelado pelas pesquisas era a
impressionante manutenção, por parte de Bolsonaro, de um público de
apoiadores numericamente expressivo, mesmo em um cenário adverso
que combinava forte crise econômica, os efeitos da pandemia da Covid-19 – com os quais sua administração lidava com extrema incompetência – e
denúncias de corrupção envolvendo seus familiares e aliados no governo.
Um apanhado de 45 pesquisas de aprovação do governo Bolsonaro, feitas
ao longo de seu mandato pelos institutos Datafolha, PoderData, CNT/MDA e
CNI/Ibope, mostra que no período em que a pesquisa foi feita, maio de 2021,
sua taxa de aprovação média, desde o começo do mandado, era de 31%.4
É de conhecimento público, além de ser ratificado pela literatura aca
dêmica, que o debate sobre valores é um elemento fundamental da pro
paganda/comunicação de Jair Bolsonaro, seja como candidato em 2018,
ou presidente, a partir de 2019. Assim, reservamos parte da pesquisa à
exploração da adesão dos respondentes a valores e posturas adotadas pelo
então presidente. É verdade que algumas pesquisas quantitativas eventual
mente incluem perguntas sobre valores e políticas públicas. Contudo, sua
metodologia baseada em questionários rígidos não permite o exame de
assuntos complexos de maneira conjunta e integrada, particularmente no
que diz respeito a seus aspectos narrativos, algo que a pesquisa qualitativa
está mais bem equipada para fazer.
Os tópicos selecionados para a pesquisa foram valores tradicionais, segu
rança, corrupção, militares no governo e na política, e pandemia. A adesão
a valores tradicionais foi testada pela indução de discussões sobre as ques
tões de gênero e da família. O tema da segurança foi abordado por meio de
discussões acerca da posse e do porte de armas e sua regulação. Utilizamos
os exemplos concretos da Operação Lava Jato e das “rachadinhas” atribuídas
a Flávio Bolsonaro para iniciar a discussão sobre corrupção. O tópico dos
militares no governo foi discutido diretamente, dando particular atenção à
imagem que os respondentes têm dessa categoria do funcionalismo público,
além de suas percepções acerca da Ditadura Militar. Já o tema da pande
mia serviu para que pudéssemos explorar a força da desinformação e do
negacionismo entre os eleitores de Bolsonaro, dando especial atenção à
vacinação, tópico muito quente no período em que a pesquisa foi realizada.
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
11 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
Metodologia
A técnica dos grupos focais nos pareceu ideal por suprir uma lacuna na
literatura, pois ou temos trabalhos que empregam técnicas qualitativas
de N muito pequeno – como as contribuições da abordagem sociológica,
quase todas adeptas da técnica da etnografia e de entrevistas com um
número bastante limitado de pessoas –, ou análises quantitativas de N
muito grande. Como veremos abaixo, nossa pesquisa incluiu um número
significativo de participantes (≅ 240), recrutados de maneira estruturada a
fim de cobrir uma grande parte do território nacional, aumentando assim
a representatividade da amostra. Esse “meio do caminho” em termos
amostrais possibilita a combinação da vantagem do aprofundamento de
temas, tipicamente produzido por metodologias qualitativas, com uma
representatividade amostral maior, possibilitada pelo número generoso
de grupos focais (Boydell et al., 2014:24). Conduzimos os grupos focais
por meio on-line, utilizando o programa Google Meet.
Para a determinação dos perfis demográficos dos grupos, partimos das
tradicionais variáveis socioeconômicas dos estudos de opinião pública,
a saber: sexo, renda, escolaridade, idade e local de residência (região).
Baseados nos dados das sondagens quantitativas acerca do apoio a Bol
sonaro, adotamos também o filtro de designação religiosa “evangélico/
não evangélico” para o recrutamento de entrevistados.
Como o objetivo maior era o estudo do bolsonarismo, escolhemos como
primeira variável-filtro o voto em Bolsonaro no segundo turno da eleição
de 2018. Em seguida, aplicamos a segunda variável-filtro, o arrependi
mento do voto, a fim de capturar as razões por trás desse arrependimento
e as diferenças específicas entre aqueles que ainda o apoiavam e os que
desistiram da escolha feita no pleito. Ou seja, produzimos algo análogo a
uma variável dependente binária em um modelo estatístico quantitativo.
Fizemos ainda uma segmentação dos grupos utilizando as variáveis classe
(níveis de renda), escolaridade, idade e religião, além de região de moradia – essas seriam, por analogia, as variáveis independentes. Outra variável,
a distribuição geográfica dos grupos, cobriu as cinco regiões do país. O
recrutamento de participantes ocorreu nas seguintes capitais: São Paulo,
Rio de Janeiro, Curitiba, Goiânia, Belém e Recife. O critério utilizado para
a escolha das capitais estaduais foi o fato de serem as mais populosas em
suas respectivas regiões. A região Sudeste foi a única agraciada com duas
capitais estaduais, por se tratar das cidades mais importantes do país em
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
12 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
termos populacionais, econômicos e de poder simbólico. A escolha das
capitais tem o sentido geral de aumentar a representatividade da amostra,
pois a centralidade dessas aglomerações humanas, mesmo quando se trata
de uma capital regional, permite que projetem sua influência cultural
sobre o restante da população, inclusive por concentrarem os meios de
comunicação mais poderosos. Esse dado é relevante para uma pesquisa
que investiga valores culturais, posições políticas e hábitos.
Os grupos focais on-line ganharam enorme popularidade durante a
pandemia, pois mostraram ser uma solução viável para a continuidade
da atividade de pesquisa científica e de mercado em um contexto de
isolamento social. Há um crescente debate acadêmico acerca das vanta
gens e desvantagens que essa técnica tem em relação aos grupos focais
tradicionais, os presenciais (Forrestal, D’Angelo, Vogel, 2015; Menary
et al., 2021; Richard et al., 2021). De qualquer maneira, como veremos
abaixo, as conversas desenvolvidas nas sessões on-line geraram material
riquíssimo para a análise, de maneira similar ao que seria gerado em
sessões presenciais.
No total, foram realizados 24 grupos focais on-line, com duração média
de 1h15 cada, entre os dias 14 e 29 de maio de 2021.5 Contamos com
uma média de 8 a 9 participantes por grupo. O desenho final dos gru
pos foi o seguinte:
Tabela 1
Perfil sociodemográfico e eleitoral dos grupos focais (maio/2021).
Sexo
Região/cidade
Escolaridade Classe Idade Religião
Arrepen
dimento
do voto
1 Misto Sudeste (Rio de Janeiro)
superior
A/B
> 25
anos
qualquer
religião
sim
2 Misto Sudeste (Rio de Janeiro) fundamental/
médio
C/D
> 25
anos
qualquer
religião
não
3 Misto Sudeste (Rio de Janeiro) fundamental/
médio
C/D
> 25
anos
qualquer
religião
sim
4 Misto Sudeste (Rio de Janeiro) fundamental/
médio
C/D
< 25
anos evangélica
não
5 Misto
Nordeste (Recife)
fundamental/
médio
C/D
> 25
anos evangélica
não
6 Misto
Nordeste (Recife)
fundamental/
médio
C/D
< 25
anos
qualquer
religião
sim
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
13 / 46
14 / 46 , Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
Tabela 1
Perfil sociodemográfico e eleitoral dos grupos focais (maio/2021).
Sexo Região/cidade Escolaridade Classe Idade Religião
Arrepen
dimento
do voto
7 Misto Nordeste (Recife) fundamental/
médio C/D > 25
anos
qualquer
religião não
8 Misto Nordeste (Recife) superior A/B > 25
anos
qualquer
religião sim
9 Misto Sudeste (São Paulo) fundamental/
médio C/D > 25
anos evangélica não
10Misto Sudeste (São Paulo) fundamental/
médio C/D > 25
anos
qualquer
religião não
11Misto Sudeste (São Paulo) fundamental/
médio C/D < 25
anos
qualquer
religião não
12Misto Sudeste (São Paulo) superior A/B > 25
anos
qualquer
religião sim
13Misto Sul (Curitiba) fundamental/
médio C/D > 25
anos evangélica não
14Misto Sul (Curitiba) fundamental/
médio C/D < 25
anos
qualquer
religião não
15Misto Sul (Curitiba) fundamental/
médio C/D > 25
anos
qualquer
religião não
16Misto Sul (Curitiba) superior A/B > 25
anos
qualquer
religião sim
17Misto Centro Oeste (Goiânia) fundamental/
médio C/D < 25
anos
qualquer
religião não
18Misto Centro Oeste (Goiânia) superior A/B > 25
anos
qualquer
religião sim
19Misto Norte (Belém) fundamental/
médio C/D > 25
anos evangélica não
20Misto Norte (Belém) superior A/B > 25
anos
qualquer
religião sim
21Misto Norte (Belém) fundamental/
médio C/D > 25
anos
qualquer
religião não
22Misto Norte (Belém) fundamental/
médio C/D < 25
anos
qualquer
religião não
23Misto Centro Oeste (Goiânia) fundamental/
médio C/D > 25
anos evangélica não
24Misto Centro Oeste (Goiânia) fundamental/
médio C/D > 25
anos
qualquer
religião não
Fonte: Elaboração própria
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
O recrutamento dos participantes foi feito por meio de profissionais do
ramo, que operam nas diferentes praças onde executamos a pesquisa.
Os participantes foram devidamente informados acerca dos autores da
pesquisa, seu conteúdo e propósitos, e assinaram um termo de anuência.
Foram também informados de que os resultados da pesquisa, incluindo
suas falas, só poderiam ser publicados ou divulgados de modo que os
falantes não pudessem ser identificados, ou seja, de forma anônima.
O roteiro foi assim estruturado: após uma breve introdução de apresenta
ção da pesquisa aos participantes e de apresentação de cada participante,
fizemos um aquecimento, discutindo a vida cotidiana e seus problemas e
logo entramos no bloco do roteiro que tratou da adesão a valores e políticas
públicas, que foi estruturado de modo a começar cada discussão com um
vídeo mostrado aos participantes. Os temas foram: família, gênero e valores
tradicionais; segurança pública e armas; corrupção e Lava Jato; relação entre
militares, democracia e administração pública; e pandemia, ciência e desin
formação.6 Todos os vídeos traziam Bolsonaro falando, em entrevistas ou
discursos públicos, sobre os respectivos temas selecionados para a pesquisa.
Em seguida, discutimos as percepções sobre a política, as razões do voto
para presidente em 2018 e as perspectivas para o voto na eleição vindoura,
de 2022. Por fim, conversamos sobre os hábitos de acesso à informação
política utilizados pelos respondentes no seu dia a dia.
Resultados
Nesta seção, analisamos os principais resultados da pesquisa, pontuan
do-os com as falas dos participantes, devidamente anonimizadas.
Percepções sobre a Vida Atual e o
Contexto da Pandemia
Em todas as cidades da pesquisa, foi generalizado o sentimento de piora da
situação financeira, causada pela pandemia, seja dos participantes ou de
seus familiares e amigos. Foram recorrentes as menções ao aumento do
preço dos alimentos essenciais (arroz, carne, óleo) e também dos combustí
veis. Alguns apoiadores de Bolsonaro, em particular aqueles “não arrepen
didos do voto”, “evangélicos” e “acima de 25 anos”, relataram perceber uma
retomada econômica, ainda que de modo tímido. As exceções ocorreram
entre profissionais das áreas da saúde e tecnologia, como enfermeiros e
técnicos em informática, para os quais a pandemia favoreceu a manutenção
do emprego ou até mesmo a conquista de um novo posto.
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
15 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
No que tange aos responsáveis pela situação de piora na economia e renda,
a diferença entre os arrependidos do voto em Bolsonaro e os demais foi
pronunciada. Os “arrependidos” creditam a Bolsonaro a irresponsabili
dade na condução da crise sanitária e a incapacidade de gerir a econo
mia. Já os apoiadores mais enfáticos fazem uma defesa intransigente do
presidente. No seu modo de ver, os problemas econômicos são causados
pela pandemia, que, por seu turno, é uma fatalidade. Em geral, citam os
governadores e prefeitos como os principais responsáveis e, na sequência,
culpam também empresários e comerciantes “gananciosos”. Por outro
lado, Bolsonaro não pouparia esforços para combater a doença, tentando,
ao mesmo tempo, salvar a economia. E isso enquanto é atacado pelos
demais políticos e pela mídia.
Aparece no discurso dos apoiadores mais radicais, em diversas cidades, a
atribuição da crise econômica à “política do fique em casa”. Na visão des
ses participantes, ocorreram fechamentos desnecessários em momentos
em que a pandemia não estaria grave.
A distribuição de percepções sobre o estado da economia deixa antever
forte efeito da posição política dos participantes (apoiador renitente ou
arrependido). Ou seja, enquanto os arrependidos identificavam Bolsonaro
como um dos principais responsáveis pela crise econômica, seus apoiado
res usam um conjunto de argumentos de deflexão: a culpa é dos prefeitos e
governadores, da “política do fica em casa”, da fatalidade da pandemia etc.
Orientação a Valores e Políticas Públicas
Parte central do roteiro dos grupos diz respeito à adesão a valores e a
políticas públicas. Ainda que não de maneira sistemática, procuramos
cobrir os temas mais candentes do momento e/ou mais salientes da ima
gem pública do bolsonarismo.
Família, Gênero e Valores Tradicionais
É um consenso da literatura que o apego aos valores da família tradicio
nal é elemento central no discurso de Bolsonaro (Albernaz, 2019; Lynch,
Cassimiro, 2022; Lacerda, 2022b; Nunes, 2021). Assim, o primeiro vídeo
mostrado aos participantes é uma reportagem da TV Record que traz o
então presidente discursando na Marcha para Jesus, pela Família e pelo
Brasil, em 10 de agosto de 2019. Ele diz:
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
16 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
Se querem que eu acolha [os direitos da população LGBT], apresentem uma
emenda à Constituição e modifiquem o artigo 226, porque lá está escrito
que família é homem e mulher. E mesmo mudando isso, como não dá pra
emendar a Bíblia, eu vou continuar acreditando na família tradicional.
O vídeo então corta para outra parte do discurso, no qual declara:
O presidente que acredita e valoriza a família vai respeitar a inocência
das crianças em sala de aula. Não existe essa conversinha de ideologia de
gênero. Isso é coisa do capeta!
No segmento de bolsonaristas que não se arrependeram do voto, a intensi
dade da defesa da “família tradicional” (composta por homem e mulher),
conforme as palavras de Bolsonaro no vídeo, caminha em paralelo ao
vínculo religioso dos participantes. A menção à Bíblia, que orientaria a
união entre homens e mulheres, faz parte dos argumentos centrais dos
participantes evangélicos. Para os mais moderados, mesmo quando con
cordam com Bolsonaro, acrescentam que o presidente deveria abordar o
tópico de um modo mais leve, pois seu jeito soa agressivo e desrespeitoso.
Radicalmente distinta é a avaliação do segmento que está arrependido
do voto, com ligeira exceção para os grupos de Curitiba. Avaliam que tal
concepção de família é equivocada e não condiz com a postura de um
presidente. Afirmam que a família encontra sua unidade no amor e não
em combinação de gêneros específica de seus membros. Ademais, pon
tuam que a família tradicional, não raro, é palco de todo tipo de violência.
Eu acho muito bonito ele combater essas coisas. Ele não aceita, por isso
que a oposição faz de tudo pra tirar ele. Para mim também casamento tem
que ser entre homem e mulher. É assim que a palavra ensina. (Belém, +25
anos, C/D, evangélico, não arrependido do voto)
O conceito de família está em constante mudança. Nem sempre a família
é formada por pai e mãe. Família é onde tem amor. Ao afirmar isso você
está deslegitimando os outros tipos de família. Não é legal dizer isso. (Rio
de Janeiro, +25 anos, C/D, qualquer religião, arrependido do voto)
O povo brasileiro não está acostumado com o presidente falar do jeito
que ele fala. A mídia então pega no pé. É claro que ele exagera, às vezes
ultrapassa o que deve dizer, e a mídia acaba aproveitando para cair em
cima dele. (Rio de Janeiro, +25 anos, C/D, qualquer religião, não arrepen
dido do voto)
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
17 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
O vídeo trouxe também a discussão sobre a “ideologia de gênero”. O tema
provocou maior unanimidade que o anterior. Quando a expressão foi
introduzida, o apoio a Bolsonaro ganhou força. Foi generalizado o enten
dimento de que durante os governos do PT a educação pública era orien
tada para “ensinar sexo” às crianças e naturalizar a homossexualidade.
As raras exceções apareceram no segmento arrependido, entre pessoas
que reconhecem ser a educação sexual diferente de “ensinar sexo” nas
escolas. Contudo, a maioria dos participantes não possui essa noção,
afirmando que caberia à família, e não à escola, conversar com a criança
e orientá-la dentro do que considera correto.
Vários participantes disseram haver hoje uma “modinha” de estimu
lar crianças e adolescentes a experimentarem contatos amorosos com
pessoas do mesmo sexo. Atribuem tudo isso ao nebuloso conceito de
“ideologia de gênero”, algo que repelem veementemente, pois a tomam
como uma ameaça à família. A cartilha de educação sexual supostamente
adotada pelo MEC e o “kit gay” foram citados mais de uma vez por bolso
naristas aguerridos como fatos incontestes.
Eles querem enfiar goela abaixo. O pessoal que está na frente da ideologia
de gênero, que quer essas leis nessa coisa toda, eles querem que a gente
aceite de qualquer maneira, eu não acho decente isso. (Recife, +25 anos,
C/D, evangélica, não arrependido do voto)
Eu concordo no caso das crianças, tem que saber como falar viu? Tudo
tem um tempo, um tempo certo, como aquela cartilha das crianças que
foi tão falada. (São Paulo, +25 anos, C/D, qualquer religião, não arrepen
dido do voto)
Como vimos, muitas pessoas que votaram em Bolsonaro em 2018 não
aderem ao discurso ultraconservador de defesa dos valores tradicionais
da família. Na verdade, ele não foi consensual nem entre os apoiadores
renitentes de Bolsonaro. Por outro lado, é digno de nota o sucesso da dis
persão de notícias falsas, como o “kit gay” e o ensino de sexo nas escolas,
e de ataques ao espantalho da “ideologia de gênero”.
Segurança Pública e Armas
Outro tópico recorrente no campo bolsonarista é o da segurança pública
e das armas (Solano, 2018; Pinheiro-Machado, Scalco, 2018; Kalil, 2018).
O vídeo sobre o tema, retirado da internet desde sua publicação, traz
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
18 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
Bolsonaro declarando: “irresponsável o governo que desarma o cidadão
de bem e deixa a vagabundagem muito bem armada”. Acrescenta que
deseja dar direito de “legítima defesa” à população, mas com critério
para posse e porte de arma de fogo.
Não houve consenso sobre o tema mesmo no segmento que ainda
apoiava Bolsonaro. Para quem defende a medida, os principais argu
mentos utilizados foram a falta de policiamento em alguns bairros (a
polícia demora para chegar ou sequer comparece), a defesa da família
e da propriedade privada em caso de roubo ou assalto, ou mesmo o
direito da posse de arma, pois “os bandidos já têm”. Quem não concorda
com a medida, no segmento de apoiadores, acreditava que “violência
gera mais violência”.
Já no segmento de arrependidos emergiu o argumento de que a segu
rança é um dever do Estado e não uma tarefa individual, de cada
cidadão. Vale destacar que os participantes oriundos de famílias com
militares e policiais tenderam a ser favoráveis à medida, inclusive as
mulheres. Quando estimulados pela moderação dos grupos a conside
rarem um potencial acidente doméstico com armas, avaliaram se tratar
de uma ameaça contornável, pois os pais podem ensinar e orientar os
filhos a lidarem com elas, além de guardá-las em lugar seguro.
Uma parte que o presidente falou eu concordo, uma parte não. Hoje em
dia, se você tem uma arma, não é só Deus para lhe guardar. Porque o
bandido é astuto. Ele não tem medo de nada. Um cidadão de bem, mesmo
sendo treinado, sendo capacitado, ele não tem a habilidade que o bandido
tem. (Belém, +25 anos, C/D, evangélico, não arrependido do voto)
Eu sou super a favor do armamento, é como vi num vídeo sobre violência
doméstica, se a mulher tiver um armamento, vai poder se defender dos
caras que são violentos. Eu compraria da cor rosa. Acho que essa coisa de
acidente não tem nada a ver. Tem arma branca, a faca. A pessoa quando
quer fazer, pega um pedaço de pau, uma faca... As pessoas gostam de
sempre criticar o presidente. (Rio de Janeiro, até 25 anos, C/D, qualquer
religião, não arrependido do voto)
Outra fala muito recorrente entre aqueles que defendem as armas é que
isso não se dará de maneira fácil, pois os pleiteantes terão que passar por
exames psicológicos, testes e por averiguação conduzida pelo Exército.
Assim, só pessoas responsáveis terão permissão. Muitos também fazem
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
19 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
um paralelo entre o processo de obtenção da Carteira Nacional de Habi
litação (CNH) e aquele que seria implantado para a concessão de posse e
porte de armas de fogo. Em ambos os casos repetem a fala de Bolsonaro.
Os participantes que são favoráveis à disseminação do porte e da posse
aderem à máxima de que quem mata é a pessoa e não a arma. Para eles,
armas brancas, como facas, já estariam à disposição de “quem quer fazer
coisa ruim”. Outros defensores acrescentam que a liberação do acesso às
armas deveria ser acompanhada pelo endurecimento do código penal, a
fim de limitar o abuso eventual pelo medo da punição mais severa.
Eu acho que o bandido pensaria duas vezes antes de entrar na nossa casa.
Eu concordo com o Bolsonaro. Tem que ter um treinamento. Tem que
instruir antes. É como tirar habilitação, a pessoa passa por um psicólogo.
(Goiânia, +25 anos, C/D, evangélica, não arrependido do voto)
Sou a favor de liberar, mas acho que o Brasil ainda não está nesse patamar de
educação. A gente não tem todo esse desenvolvimento de um país que teria
essa cultura de utilizar da maneira correta. A gente tem muita coisa para tratar – a violência, a pobreza, a miséria –, do que ficar liberando arma para piorar
todo o país. (Curitiba, + 25 anos, A/B, qualquer religião, arrependido do voto)
Ainda mais claramente que os valores tradicionais, o tema da segurança
pública e das armas dividiu os participantes entre apoiadores renitentes
e arrependidos, o que indica ser esse tema importante na formação de
preferências por Bolsonaro.
Corrupção e Lava Jato
Esse tema é central para a presente investigação, como veremos à frente,
e também foi bastante explorado pela literatura sobre Bolsonaro (Rennó,
2022; Albernaz, 2019; Ricci, Izumi, Moreira, 2021). O vídeo sobre corrup
ção tem a Operação Lava Jato como tópico principal. Ele traz Bolsonaro,
na função de presidente da República, discursando em um ato de apoio
à aviação civil, no dia 10 de outubro de 2020, ao lado de Luciano Hang.
Nas palavras de Bolsonaro:
É uma satisfação que eu tenho, dizer para essa imprensa maravilhosa
nossa, que eu não quero acabar com a Lava Jato. Eu acabei com a Lava
Jato. Porque não tem mais corrupção no governo... [palmas esparsas da
plateia]. Eu sei que isso não é virtude, é obrigação.
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
20 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
A fala de Bolsonaro foi avaliada por muitos participantes como exagerada,
mesmo entre seus mais fiéis apoiadores. Esse segmento acredita que o
presidente de fato acabou com a corrupção na Presidência da República,
mas não no seu governo como um todo, pois a corrupção é endêmica à
política. Já os arrependidos avaliam o vídeo de modo extremamente nega
tivo, como uma farsa. Nesse segmento, o caso da “rachadinha” envolvendo
Flávio Bolsonaro surgiu espontaneamente.
Quando estimulados a falar da “rachadinha”, os apoiadores mais reni
tentes disseram que Bolsonaro não teria culpa alguma pelos atos do seu
filho e, portanto, não pode ser considerado corrupto. Contudo, para ser
coerente, ele teria que apoiar as investigações de modo isento. Muitos
têm certeza da total honestidade do presidente e de seu empenho na luta
contra a corrupção.
Dizer que terminou a corrupção no Brasil não é verdade, mas melhorou
bastante. A gente tem uma cultura, isso está no jeitinho brasileiro. A gente
precisa modificar esse jeitinho brasileiro de ser. (Recife, +25 anos, C/D,
evangélica, não arrependido do voto)
[rachadinha] acontece não só no Rio de Janeiro, acontece em todo o Bra
sil, em todas as assembleias legislativas. A maioria dos deputados, 99%
fazem isso. Isso sempre vai acontecer. Está tendo muita evidência com isso
porque ele é filho do Bolsonaro. Se Bolsonaro tivesse alguma coisa muito
suja pessoal, já teriam descoberto. Como não conseguem achar alguma
coisa, começam a fuçar a família toda. (Belém, +25 anos, C/D, evangélico,
não arrependido do voto)
O Bolsonaro sim é um homem íntegro, ele é honestíssimo. Antes de ser
presidente, ele já era honesto. E agora ele é mais honesto ainda. (Goiânia,
+25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)
É engraçado ele dizer isso, porque acabar com a corrupção é impossível
mesmo nos países mais avançados. (Rio de Janeiro, +25 anos, C/D, qualquer
religião, arrependido do voto)
A maioria dos participantes acredita que a Lava Jato não deveria parar,
pois ela funcionaria como um instrumento de controle da corrupção dos
políticos. Com o fim da Lava Jato, prosperaria o sentimento de impuni
dade no mundo da política. Muitos participantes bolsonaristas convictos
criticam o STF por ter interrompido os trabalhos da operação, assim como
por anular as condenações de Lula. Já aqueles mais críticos ao capitão
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
21 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
aposentado afirmam que não foi ele quem acabou com a operação, e que
novamente ele estaria mentindo. Ao mesmo tempo, manifestam ter uma
imagem bastante positiva da Lava Jato.
A maioria dos apoiadores de Bolsonaro acredita que seu filho Flávio, de fato,
está implicado no caso das “rachadinhas”, mas que haveria repercussão
excessiva devido ao empenho da Rede Globo em prejudicar o presidente.
Nessa questão de fiscalização dos políticos deveria ter continuado uma
Lava Jato, mas que acontecesse de uma forma mais ampla. (Curitiba, até
25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)
Dois anos de pandemia e já tem CPI. O Moro conseguiu, a Lava jato deu
toda aquela credibilidade. Aí vem o Bolsonaro. Mais esperança para o povo
brasileiro. Aí vem o Bolsonaro, esperança 100%. Mas eu me senti num
castelo de areia. A esperança e credibilidade, foi jogada água em cima.
(Curitiba, +25 anos, A/B, qualquer religião, arrependido do voto)
Não existe negócio de que roubou, mas fez. Eu acho que cada um é res
ponsável por suas atitudes. Caso ele venha a fazer isso, tem que responder
pelos atos dele. A única coisa que eu não acho justo é meu filho quebrar
um copo e eu ser culpado. O exemplo do pai que tem, está por aí há um
bom tempo, e nunca se sujou com nada. Ele deveria seguir o espelho do
pai dele. Se cometer um erro tem que pagar, como o pai dele diz. (Belém,
+25 anos, C/D, evangélico, não arrependido do voto)
O tema da corrupção mobilizou os respondentes de maneira diferente dos
anteriores. Praticamente todos se mostraram sensíveis a ele, mas muitos
desaprovaram a afirmação bombástica de Bolsonaro, em geral porque
veem a política como atividade irremediavelmente envolta em corrupção.
As referências à Lava Jato, quase sempre positivas, demonstram o efeito
duradouro dessa Operação sobre a opinião pública brasileira, particular
mente no que toca a associação da política com corrupção.
Militares, Democracia e Administração Pública
Devido a questões políticas e mesmo biográficas, o tema dos militares é
indissociável da figura de Bolsonaro (Lacerda, 2022a; Lynch, Cassimiro,
2022; Avritzer, Rennó, 2021). Na pesquisa, aproveitamos para explorá-lo
em conexão à legitimidade de golpes de Estado e à sua participação na
administração pública. Começamos por mostrar um vídeo de Bolsonaro,
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
22 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
já presidente, falando para seu “cercadinho”. Ele começa acusando um
agente indeterminado de querer levar o Brasil para o socialismo usando
a estratégia de “sucatear as forças armadas nos últimos vinte anos”. A
razão dessa estratégia de sucateamento, segundo ele, é porque “nós, mili
tares, somos o último obstáculo contra o socialismo”. O então presidente
emenda: “quem decide se um povo vai virar uma democracia ou uma
ditadura são suas Forças Armadas”. Bolsonaro ainda profere uma ameaça
dizendo que ainda há liberdade no Brasil, mas “se nós não reconhecer
mos o valor dos homens e mulheres que estão lá, tudo pode mudar”. E
termina com a tirada “imagina o Haddad no meu lugar”, que provoca risos
na audiência do “cercadinho”.
A discussão nos grupos se encaminhou para temas como a ocupação de
cargos por militares, no atual governo, e as percepções sobre um potencial
retorno da ditadura militar. É preciso destacar que o apoio ao retorno da
ditadura foi bastante minoritário, mesmo entre os grupos de apoiadores
mais fiéis ao presidente. As falas carregadas de entusiasmo acerca da pers
pectiva da mudança de regime foram limitadas a poucos participantes,
geralmente homens mais velhos e de posicionamento bastante radical
em todos os temas. Contudo, vários bolsonaristas renitentes avaliavam
a ditadura de modo saudosista, pois acreditam ter sido uma época de
segurança e sem corrupção, que foi ruim apenas para “gente da esquerda”.
Há também uma visão de que o regime militar não teria sido de fato uma
ditadura, pois ditaduras “são como a Venezuela ou Cuba”.
Ainda que não tenha sido tema de vídeo, o STF surgiu espontaneamente
na fala de alguns entrevistados neste momento. Em sua visão, Bolsonaro
seria perseguido pela Corte e estaria com dificuldades para promover seu
projeto político. Desse modo, a aproximação com os militares seria uma
estratégia para equilibrar o jogo.
[A ditadura é] inviável para o Brasil nos dias de hoje. Se ele fizesse isso
seria uma grande repercussão mundial, só quem iria perder era o Brasil.
Tem muita coisa que ele fala que é só pra agradar quem votou nele. Ele
falou que não ia comprar vacina da China. Esse é o grande mal dele. Se
tornou presidente, mas continua governando somente para o público
dele, infelizmente é isso. (Belém, +25 anos, A/B, qualquer religião, arre
pendido do voto)
Para mim, voltar ditadura é regredir depois que a gente alcançou a demo
cracia. O problema do militarismo é que o Bolsonaro põe no meio da saúde
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
23 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
quem não é médico. O regime militar deveria ser adaptado para estar na
parte administrativa. Ele pode ser readaptado. Dentro do quartel funciona.
Mas na administração da saúde não. (Curitiba, até 25 anos, C/D, qualquer
religião, não arrependido do voto)
Eu vivi na época do governo militar. Não se ouvia falar de assalto; você
saía na rua e andava na hora que queria; os muros não tinham portão. O
cidadão vive hoje atrás das grades e o bandido está solto na rua. Não sou
a favor da ditadura, fazer uma coisa muito feroz, mas que seja uma coisa
leve e que ponha ordem no galinheiro. (São Paulo, +25 anos, C/D, qualquer
religião, não arrependido do voto)
Pelo que eu pesquisei de história, nós nunca tivemos ditadura. Nós tivemos
governos militares. Ditadura a gente vê na Venezuela, viu na sucessão
do Maduro com Hugo Chávez, o Evo Morales por exemplo no Peru [sic].
Isso se enxerga como ditadura. A pessoa vai falar alguma coisa e morre.
Liberdade de expressão funciona para a esquerda pra atacar o Bolsonaro;
mas se você critica alguém, você é chamado de fascista e de homofóbico.
Nós já estamos numa ditadura. Só umas migalhas servem para dizer que a
gente vive uma democracia... A ditadura que a Globo fala não existe. (São
Paulo, +25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)
Se a volta da ditadura militar é rejeitada pela maioria, o mesmo não pode
ser dito da ocupação de cargos do poder Executivo pelos militares. O
grosso dos apoiadores de Bolsonaro tem uma visão bastante idealizada
dos militares, como pessoas de valores firmes, disciplinadas e obedientes
à hierarquia, fator que muitos enxergam como extremamente positivo
em um país em que tudo vira “bagunça”. A ideia de que os militares são
menos corruptos quando comparados aos políticos também emerge nas
narrativas dos participantes.
Alguns apoiadores, particularmente nos grupos de São Paulo, relataram
aumento da sensação de segurança desde que Bolsonaro foi eleito. Isso
seria um reflexo, na concepção dos entrevistados, de sua proximidade
com a corporação policial.
Em grupos de eleitores arrependidos do voto, foram feitas críticas à falta
de experiência e treinamento dos militares para exercerem alguns cargos
técnicos. Houve diversas menções, inclusive no segmento de apoiadores, à
incompetência do general Pazzuello na condução do ministério da Saúde,
como exemplo disso.
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
24 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
Eu sou de família militar. Inclusive, já fui militar. Eu não sei se é impressão,
mas depois que o Bolsonaro ganhou, eu sinto que – em São Paulo particu
larmente – eu sinto que nossa cidade está mais segura. Eu não sei vocês,
mas eu não moro numa região nobre. Eu acho que está bem mais seguro.
Não sei se é um apoio político dele... Está apoiando bastante os militares e
a polícia, e isso acaba desencadeando um combate maior à criminalidade
(São Paulo, +25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)
Colocar militares em outros tipos de funções que não são de segurança
eu acho incorreto. Você é militar, serviu o exército, tem entendimento de
segurança, eu não acho correto colocar na área de saúde. Em relação à dita
dura, eu acho que o Brasil não consegue viver uma ditadura novamente.
(Goiânia, até 25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)
O apoio a um golpe militar não foi forte, mesmo entre os apoiadores
renitentes. É claro que naquele momento não havia ainda a campanha
sistemática contra as urnas eletrônicas, movida pelos bolsonaristas no
contexto da eleição de 2022. Por outro lado, é notável a imagem posi
tiva que os militares gozam entre muitos respondentes, em sua maioria
apoiadores renitentes.
Pandemia, Ciência e Desinformação
O quinto e último vídeo tratou de um assunto muito importante naquele
contexto, a pandemia da Covid-19, mas ao mesmo tempo explorou ques
tões ligadas à legitimidade do conhecimento científico e à desinformação
(Rennó, 2022; Rocha, Medeiros, 2022; Cesarino, 2021; Cesarino, 2022;
Rocha, Solano, 2019). Bolsonaro abre o vídeo argumentando que não
se deve correr para comprar vacina, pois não há comprovação de sua
eficácia. Em seguida, diz que a vacina que foi criada mais rapidamente
demorou quatro anos e que, portanto, não sabe “por que correr em cima
dessa”. Então, emenda que seria mais fácil investir na cura do que na
vacina, proclamando: “eu, por exemplo, sou um testemunho [sic], eu
tomei hidróxido de cloroquina, outros tomaram ivermectina, outros
Anitta, e deu certo. E pelo que tudo indica, todo mundo que tratou pre
cocemente com essas três alternativas aí, foi curado”.
Os participantes se envolveram em duas discussões principais: a necessidade
e urgência da vacina, e o uso de tratamento precoce com medicamentos sem
comprovação científica. A maioria declarou pretender se vacinar, e avaliou
que esse é o caminho adequado. Contudo, os apoiadores mais fiéis, particu
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
25 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
larmente aqueles de orientação religiosa evangélica, disseram que a demora
na compra da vacina foi produto da cautela do presidente: um “cuidado” de
Bolsonaro para não colocar em risco a saúde da população. Já os arrependidos
do voto demonstraram forte indignação pelo atraso da vacinação.
Emergiram dúvidas sobre a eficácia da vacina. Para alguns participantes,
a China é culpada pelo vírus e, por isso, o desenvolvimento de uma vacina
pelos chineses seria motivo de desconfiança. Haveria interesse comercial
na venda das vacinas por parte daquele país e de outras indústrias far
macêuticas, o que denota má fé. A ANVISA foi também citada por não ter
autorizado a vacina com antecedência, tirando assim a responsabilidade
do presidente pela falta de interesse na compra antecipada.
Foi falado que o Brasil está demorando muito para dar a vacina, pela mídia
dando pancada no governo. Mas a vacina não se faz do dia para o outro. É
muito estudo, muita pesquisa. O governo teve a sua preocupação. O Brasil
é o quarto país do mundo que tem o povo mais vacinado. Estamos acima de
países ricos da Europa. Tem muita gente que já foi vacinada aqui. Se essa
vacina vai funcionar ou não, eu não sei. A China lançou o vírus e agora ela
está lucrando com isso. A China está no topo da economia mundial. (Rio
de Janeiro, até 25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)
Eu acho que ele foi omisso nessa situação. A gente está vendo uma situação
que não dá para esperar quatro anos, como ele disse pra gente. Tem que
meter o pé pelas mãos, tentar de todas as formas. Ele não perdeu parente,
mas muita gente perdeu. Tem muita gente morrendo. É uma coisa que
deixar que daqui a quatro anos a gente resolve, não dá. (São Paulo, +25
anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)
Quanto ao uso de tratamento precoce, não houve consenso. Porém, uma
parcela significativa dos entrevistados concordou com Bolsonaro acerca
de sua eficácia. Muitos declaram ter, eles mesmos, tomado os medica
mentos recomendados pelo presidente. Outros participantes disseram ter
testemunhado amigos e familiares serem curados pelos medicamentos.
O tratamento precoce serviria de reforço à imunidade, que pode ou não
funcionar, sem maiores danos, tal como o uso de uma vitamina.
Na visão de muitos participantes, diante das incertezas sobre tudo que cir
cunda a Covid-19, o tratamento precoce é uma alternativa que funcionaria
para algumas pessoas. Portanto, valeria a pena arriscar. Mesmo quando
foram estimulados pela afirmação da mediadora de que estudos científicos
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
26 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
negam a eficácia dos medicamentos, os participantes utilizaram o argu
mento de que alguns médicos dizem o oposto. Ou seja, utilizaram a suposta
autoridade dos médicos sobre a ciência para questionar a legitimidade do
saber científico, adotando um raciocínio do tipo: não há consenso entre os
médicos, logo, esses estudos científicos podem ser questionados.
Houve comparações do tratamento precoce com práticas como a homeo
patia e outras medidas terapêuticas populares. Segundo esse raciocínio,
mesmo não havendo comprovação científica da eficácia do tratamento,
muitas pessoas são de fato curadas por ele. Os mais radicais declararam
existir interesse da indústria farmacêutica de vender vacinas, já que os
medicamentos são muito mais baratos e dariam pouco lucro.
Sou totalmente a favor da ciência. Sou a favor do tratamento precoce e a
favor do antídoto. Quanto mais coisas a gente fizer contra essa doença, acho
melhor. (Recife, +25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)
Por ser cristão, acredito no que o Bolsonaro falou: tem que tratar de várias
formas, tanto com vacina como com medicação. Eu tratei com cloroquina
e tratei com ivermectina. Não tratei com azitromicina. Porque na segunda
vez que eu peguei foi mais elevado. Então entrei com antibiótico mais
forte. De patamar mais alto. Com as medicações que o presidente falou
aí, eu fui ficando cada vez melhor. Eu tenho certeza. (Goiânia, +25 anos,
C/D, evangélica, não arrependido do voto)
Eu tive covid ano passado e fiz tratamento com ivermectina e azitromicina,
comigo funcionou, ponto. Eu sou favorável à vacina, mas acho que nin
guém é obrigado a tomar vacina. Toma quem quer. Eu tomaria. Quando
chegar a minha vez eu vou tomar. (Recife, +25 anos, C/D, evangélica, não
arrependido do voto)
O tema mostrou forte interação com o apoio renitente a Bolsonaro. A
maior parte dos participantes arrependidos rejeitaram a postura do presi
dente e as narrativas por ele propaladas acerca da vacina e do tratamento
precoce, ao passo que os apoiadores renitentes se mostraram altamente
permeáveis a elas, reproduzindo-as com frequência em suas falas. Nesse
tópico notamos claramente a operação da máquina de comunicação bol
sonarista, pois tais versões dos fatos, diferentemente da adesão a valores
tradicionais ou ao militarismo, são muito recentes; foram produzidas
durante o período da pandemia, e não foram disseminadas por grande
parte da imprensa tradicional.
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
27 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
O Voto em 2018 e 2022
Após a discussão sobre valores e políticas públicas, enveredamos para
o tema eleitoral, perguntando aos participantes quais suas motivações
para terem votado em Bolsonaro em 2018, e quais suas expectativas para
a eleição de 2022. Como a pesquisa foi feita no primeiro semestre de 2021,
as pessoas encontravam-se naquele momento praticamente equidistantes
dos dois eventos e não sofriam o efeito direto de campanhas, que sempre
induzem à maior politização.
A literatura que toma o bolsonarismo como um fenômeno de opinião
pública faz uso da análise estatística de microdados de surveys, buscando
testar a interação da preferência eleitoral por Bolsonaro com variáveis
socioeconômicas e de adesão a valores e políticas públicas (Rennó, 2020;
Amaral, 2020; Russo, Pimentel Junior, Avelino, 2022). Nosso objetivo nesta
seção, contudo, não foi testar diretamente essas variáveis propriamente – atividade que já realizamos nas seções anteriores –, mas focar mais
especificamente no aspecto informacional da adesão a Bolsonaro, tópico
raramente estudado pela literatura especializada. Já a abordagem socio
lógica, como vimos, não demonstra interesse pelo fenômeno eleitoral,
tratando-o como uma mera consequência da dinâmica social que acre
ditam animar o bolsonarismo.
A quase totalidade dos participantes da pesquisa, em todas as cidades,
declarou não conhecer Bolsonaro antes da campanha de 2018. A maioria
expressiva dos entrevistados, sejam eles apoiadores ou arrependidos, foi
motivada pelo desejo de ruptura com a classe política tradicional, vista
como corrupta e autointeressada, sentimento que muitas vezes se traduziu
em explícita rejeição ao PT e a Lula. Dentre o segmento de arrependi
dos da classe A/B, foi identificado com maior força esse sentimento de
repulsa à representação política. Já os apoiadores evangélicos, em sua
maioria, declararam adesão ao atual presidente pela defesa de valores
conservadores – especialmente os da “família tradicional” – conforme já
comentamos acima, mas isso veio muitas vezes casado com a percepção
de corrupção disseminada da política.
Eu nunca nem tinha ouvido falar do Bolsonaro. Foi na campanha para
presidente mesmo que eu acompanhei. E achei assim que ele tinha uma
capacidade para governar o país. Não tenho político de estimação. Gostei
das propostas dele de apoio à família tradicional. E as propostas para a
economia também. Acho que melhorou bastante o governo federal. Acho
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
28 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
que melhorou bastante. Estou satisfeita. (Curitiba, +25 anos, C/D, evangé
lica, não arrependido do voto)
Em 2018 todo mundo votou no Bolsonaro para tirar o PT. Pelo que eu estou
vendo aqui todo mundo ou pelo menos uma grande parcela da população
vai votar no PT para tirar o Bolsonaro. Não tem uma terceira via. (Rio de
Janeiro, +25 anos, A/B, qualquer religião, arrependido do voto)
Eu já o conhecia de alguns anos, eu e o meu irmão acompanhávamos ele e
seus projetos de castração química, coisa do tipo. Eu votei nele. Acreditei e
acredito que ele consegue colocar o país nos eixos, abrir mais a economia,
nos libertar desse buraco em que a gente acabou caindo, que os governos
anteriores acabaram deixando. Eu votaria novamente sim no Bolsonaro.
(São Paulo, até 25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)
No tocante ao pleito de 2022, os arrependidos manifestaram alto grau de
rejeição a Bolsonaro, rejeição essa misturada a sentimentos de traição
e decepção. Diversos entrevistados afirmam que se tratava do “maior
arrependimento da vida”. Uma pequena parcela desses eleitores disse
esperar por uma terceira via em 2022, pois também não desejavam votar
em Lula (ou no PT). Contudo, uma expressiva maioria de arrependidos
defendeu de modo convicto o voto no ex-presidente petista (especialmente
no 2º turno). Chama a atenção o fato de que tais eleitores narraram as
conquistas do governo Lula de modo nostálgico. Já os apoiadores mode
rados afirmam que seguem votando em Bolsonaro se a situação continuar
como está, enquanto os mais fiéis – geralmente evangélicos – declararam
que não mudariam o voto em nenhuma circunstância.
Para quem mantém o apoio, o comportamento grosseiro e disruptivo de
Bolsonaro é percebido de modo positivo, pois expressaria “sinceridade” e
“apelo popular”. Os que se arrependeram do voto tinham expectativa que
essas características, já vistas com alguma desconfiança em 2018, fossem
amenizadas devido à seriedade que o cargo exige. Contudo, constataram
que isso não havia ocorrido. A percepção de que Bolsonaro “não age como
presidente” era disseminada, mesmo entre apoiadores renitentes.
Eu acho que a gente só dá valor àquilo que a gente perde. Acredito que
Bolsonaro foi eleito justamente pelo discurso dele de mudança. Eu obvia
mente votaria no Lula. É só a gente olhar a quantidade de pessoas que
faziam faculdade, não tinha faculdade fechando, ao contrário. Agora, 9
hospitais fechando. O dólar era alto, mas era muito mais baixo do que
agora. (São Paulo, + 25 anos, A/B, qualquer religião, arrependido do voto)
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
29 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
Não queria que entrasse o PT. Teve os escândalos enormes de corrupção
na época do PT. Foi isso que me motivou a voltar em Bolsonaro no segundo
turno, mas eu tinha muito medo de que o governo dele ia ser muito radi
cal. Está sendo. Além das muitas bobagens que ele faz e fala, tem muita
coisa que a gente não via. O que o governo faz, o que os ministros estão
fazendo. O governo do PT não foi de todo mal. Na época, a gente tinha
muito emprego, não tinha gente desempregada... Mas aí o campo da cor
rupção piorou de vez. Hoje, se fosse pra escolher entre Bolsonaro e Lula,
talvez até eu cederia de novo por Lula. Pois roubar os dois roubam. Mas
pelo menos a gente estava mais estável no governo do PT... Tomara que
tenha uma terceira opção, para fugir desses dois. (Curitiba, +25 anos, A/B,
qualquer religião, arrependido do voto)
Os resultados desta seção mostram claramente que Bolsonaro foi esco
lhido pelo seu eleitorado por emplacar o papel de outsider da política,
que no momento era fortemente associada à corrupção. E essa escolha
foi feita durante o período da campanha, pois o político até então era
praticamente desconhecido da população.
Mapeamento dos Hábitos de Informação
Finalmente chegamos à seção da pesquisa sobre os hábitos de consumo
de informação dos participantes. Como já comentamos acima, a literatura
acadêmica, inclusive a abordagem sociológica, coloca muita ênfase na
associação entre o fenômeno do bolsonarismo e a ascensão e dissemi
nação das redes sociais (Cesarino, 2019; Cesarino, 2021; Rocha, Solano,
Medeiros, 2021).
Logo de cara tivemos uma surpresa com os dados. Muitos participantes
dos grupos focais revelaram-se consumidores do jornalismo da televisão
aberta. Parece haver um claro fator etário nessa preferência, pois o hábito
de obter informação política de telejornais é diretamente proporcional à
idade do participante: quanto mais jovem, menos consome mídia tradi
cional – entendida aqui como jornais e revistas impressos e telejornais.
Mesmo entre esses eleitores mais jovens, contudo, é grande o número dos
que preferem se informar nos portais de jornalismo da grande imprensa
na internet (G1, UOL e feed de notícias do Google), além das redes sociais.
Um padrão marcante nas conversas foi o dos participantes que empresta
vam apoio mais intenso a Bolsonaro mostrarem-se altamente refratários
à Rede Globo. Avaliavam que a emissora persegue Bolsonaro e distorce
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
30 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
fatos para causar-lhe dano reputacional. O Jornal Nacional foi chamado
por alguns de “Jornal Covid”, pois, segundo essa visão, dedicava grande
parte de sua programação a noticiar as calamidades da pandemia, no
claro intuito de atingir o presidente. Esse segmento preferia acompa
nhar o jornalismo da Record e do SBT. A CNN também foi citada entre
as preferências desse eleitorado – alguns acompanham o conteúdo do
canal via YouTube.
Os participantes fiéis a Bolsonaro, mesmo aqueles que preferiam acom
panhar as notícias da política via televisão e internet, tratavam os canais
próprios de comunicação direta do ex-presidente e de seus filhos e esposa
como “canais oficiais”. Falas sobre o uso desses canais como instrumentos
de verificação de notícias foram recorrentes. É nesses canais que tais
participantes disseram buscar as versões verdadeiras de narrativas e fatos.
Se, por um lado, os bolsonaristas convictos rejeitavam fortemente a Globo,
por outro, vários entrevistados arrependidos declararam consumir o jor
nalismo da emissora, ainda que não deixem de considerá-la tendenciosa.
Eu gostava muito da Globo, mas a Globo só fala mal do Bolsonaro. Agora eu
não quero mais assistir. Quando chega a hora do jornal, eu desligo ou vou
fazer outra coisa. Eu procuro não assistir mais o Jornal Nacional. O Jornal
Nacional só fala mal do Bolsonaro. Eu sigo o Bolsonaro e a esposa dele no
Instagram. (Goiânia, +25 anos, C/D, evangélica, não arrependido do voto)
[...] porque a Globo hoje em dia bota as coisas de ponta-cabeça. Quem não
conhece, termina acreditando. Tem aquela turma do PT que fala: “Olha aí
a Globo falando!” Você já viu o Globo falar? (Recife, +25 anos, C/D, evan
gélica, não arrependido do voto)
Hoje em dia, para assistir televisão é muito complicado porque têm muitas
formas de ocupar seu tempo; cada emissora tem seu ponto de vista e quer
defender o seu lado. Antes, Lula era o rei; depois Lula virou ruim. Apoia
ram o Bolsonaro no início, por conta de Lula, mas como foi cortada uma
“mamatinha” da Globo, hoje Bolsonaro virou o ruim da história. Já em outras
emissoras, as quais Bolsonaro está ajudando, ele já é bom lá. Então depende
muito do meio de comunicação que você procura. Eu sigo Bolsonaro e os
filhos dele. (Recife, +25 anos, C/D, evangélica, não arrependido do voto)
O hábito de seguir influenciadores nas redes sociais não apareceu fre
quentemente, mesmo entre os críticos ao chamado “jornalismo tenden
cioso da Globo”. Dos perfis digitais citados como preferidos por alguns
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
31 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
participantes tivemos Jovem Pan, Alexandre Garcia, Caio Copolla, Gabriel
Monteiro, Arthur do Val, Nando Moura e MBL (com ressalvas). Os arrepen
didos de classe A/B foram os únicos a citar o consumo de podcasts, ainda
que de maneira residual. Foram identificados os podcasts de Leandro
Karnal, Globo News, Gabriela Prioli e Renata Lo Prete. O rádio foi pouco
lembrado, mas os que utilizavam essa mídia declararam ouvir a Jovem
Pan e A Voz do Brasil.
No geral, é possível perceber que as páginas e perfis de jornais nas redes
sociais (especialmente no Instagram) servem de atalho para a obtenção de
informações. O Facebook aparece pouco nas citações dos entrevistados,
assim como o Twitter. A sugestão de vídeos no YouTube é consumida por
alguns participantes, mas poucos declararam “assinar” canais específicos.
Eu sigo alguns políticos das redes sociais, como o capitão Assunção e o
Eduardo Bolsonaro. Jornal Nacional não vejo muito. Eu prefiro ver o Fan
tástico no domingo. No YouTube não vejo nada. (Goiânia, até 25 anos, C/D,
qualquer religião, não arrependido do voto)
Eu acompanho pela Globo e pela Record, mas onde eu me informo mesmo é
pelo canal do Bolsonaro, onde eu me informo do que está acontecendo e do
que ele fez. (São Paulo, +25 anos, C/D, evangélica, não arrependido do voto)
Eu gosto bastante da Rede Massa, do SBT,... Não gosto de assistir à Globo
mais,... Não assisto. Eu não sigo nenhum político, nenhum influenciador,
assim, na internet, (Curitiba, +25 anos, C/D, evangélica, não arrependido
do voto)
Em suma, os padrões de consumo de informação estão muito distantes
da imagem pintada pela literatura que muitas vezes reduz a comunicação
bolsonarista às redes sociais. A mídia tradicional é ainda muito impor
tante, seja quando é consumida diretamente, como nos telejornais da
Record, SBT, Globo, CNN etc., ou quando é acessada via portais noticiosos
na internet ou perfis desses meios nas redes sociais.
Discussão dos Resultados
Os testemunhos acerca da imagem que os apoiadores têm de Bolsonaro
ilustram claramente aquilo que Max Weber denominou “carisma”, ou seja,
o poder obtido por meio da percepção da excepcionalidade do caráter do
líder por parte de seus seguidores (Weber, 1978). Supreendentemente tal
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
32 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
detalhe passou praticamente desapercebido da abordagem sociológica.
Só encontramos uma referência ao conceito, de passagem, em uma nota
de rodapé (Cesarino, 2021). Por outro lado, os trabalhos da abordagem
discursiva aplicam o conceito mais frequentemente (Lynch, Cassimiro,
2022; Barbosa de Almeida, 2022; Ricci, Izumi, Moreira, 2021). Contudo,
como focam sua análise somente no conteúdo emitido, ou seja, nas falas
do personagem político, esses autores não têm meios para confirmar a
realização do carisma, coisa que pudemos fazer a partir dos resultados
da presente pesquisa.
Como mostram as falas dos apoiadores renitentes, a percepção da excep
cionalidade de Bolsonaro lhe confere uma cobertura de “teflon”: nada de
negativo gruda em sua figura. É recorrente o discurso de que as forças
políticas não deixam Bolsonaro trabalhar, por isso que as coisas não vão
tão bem em seu governo quanto deveriam. Muitos apoiadores disseram
que a culpa pela crise econômica e mesmo pela falta de vacinas é dos
governadores e prefeitos, e não de Bolsonaro, reproduzindo um argu
mento que ele fez publicamente reiteradas vezes.
Foi comum a afirmação peremptória da honestidade de Bolsonaro, ainda
que conjugada à percepção de que as pessoas em volta dele necessaria
mente não o sejam. Isto é, para os apoiadores que confiavam plenamente
na integridade de Bolsonaro, a política continua corrupta, enquanto Bol
sonaro preservava sua essência antipolítica, depois de dois anos e meio
no cargo de presidente da República. Mesmo quando o caso das “rachadi
nhas” que envolveu Flávio Bolsonaro foi citado, os apoiadores renitentes
raramente tentaram defender o filho, optando por contra-argumentar que
o pai não tem nada a ver com o caso. Empregaram até um bordão para
isso: “são CPFs diferentes”.
Os participantes evangélicos frequentemente manifestaram uma identi
dade, como evangélicos ou cristãos, apartada do resto da sociedade. Essa
separação é articulada em termos morais, pois entendem que sua forte
adesão a valores supostamente cristãos oriente suas práticas no mundo
e os diferenciem dos não evangélicos. Vários utilizaram explicitamente a
identidade religiosa como argumento para justificar suas posições: “como
sou cristão, penso assim, ou ajo dessa maneira”. Os evangélicos também
usaram frequentemente a expressão “homem de bem”, dividindo a popu
lação em duas categorias. A categoria complementar é quase sempre
o bandido, mas pode também ser o esquerdista, o petista, aquele que
despreza os valores da família, ou mesmo o corrupto.
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
33 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
Os apoiadores evangélicos fazem repetidas referências a Deus em suas
falas, mostrando uma concepção fortemente teísta do mundo. Para além
da obviedade de expressar forte religiosidade, tais falas denotam pro
pensão alta de receber informações e opiniões daqueles que propagam
a palavra de Deus, ou seja, líderes religiosos e outros evangélicos.
O insulamento moral dos evangélicos corre de mãos dadas com o que
podemos chamar de seu insulamento comunicacional. A metáfora não
é perfeita neste caso, pois a abundância comunicacional do mundo atual
não permite que um grupo fique totalmente ilhado. Contudo, há uma forte
afinidade eletiva dos evangélicos por meios de comunicação e comuni
cadores evangélicos que apoiam Bolsonaro. A forte rejeição à Globo e a
preferência pelos canais Record e SBT, já notadas em outros trabalhos
(Rocha, Solano, 2019), são sinais claros disso. A participação em grupos
do WhatsApp e Telegram formados por pessoas de pensamentos afins,
ou mesmo por membros de uma mesma igreja, também foi relatada com
alguma frequência pelos participantes evangélicos.
As páginas das redes sociais da família Bolsonaro e de alguns de seus
apoiadores foram citadas também como fontes por vários integrantes
evangélicos. Alguns disseram acompanhá-las periodicamente; outros
declararam usá-las com o intuito de checar versões, ou seja, sempre que
recebem uma notícia da qual desconfiam da veracidade, vão às páginas
bolsonaristas para se informar sobre a versão “real” dos fatos.
A maior parte dos hábitos de consumo de informações dos evangélicos
é partilhada pelos apoiadores renitentes não evangélicos. Ou seja, o bol
sonarismo se alimenta de um cenário comunicacional complexo e em
crescente fragmentação, para o qual os evangélicos contribuem, mas
não são o único grupo.
Praticamente todos os jovens participantes, de idade menor que 25 anos,
não utilizam o telejornalismo como fonte de informação política. A maio
ria declara sequer assistir à TV. E muitos participantes maiores de 25
anos disseram que voltam tarde para casa do trabalho e não têm tempo
ou disposição para assistir à TV.
Entre os que veem TV, é comum a manifestação de repúdio e desconfiança
em relação à Rede Globo, também entre os apoiadores renitentes não
evangélicos, que não raro descrevem a emissora como petista. Somente
uma pessoa arrependida declarou que a Globo perseguia também o PT e
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
34 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
Lula, e agora se voltou contra Bolsonaro. Assim como os evangélicos, os
outros renitentes que consomem notícias na TV tendem a optar pela Rede
Record e, em segundo lugar, pelo SBT. A CNN foi muito mais citada que
a GloboNews como fonte de informação entre os participantes em geral.
Nossa hipótese de constituição de uma esfera comunicacional bolsonarista
por meio da ruptura da esfera comunicacional tradicional é, em parte,
baseada na observação reiterada de que os meios de comunicação são
percebidos como politizados, ou seja, como instrumentos de fazer política
utilizados por suas empresas proprietárias. As evidências vão além de ade
sões e rejeições fortes a determinados meios. Há também uma percepção
generalizada de politização da comunicação, manifesta pelo bordão “a
imprensa tem lado”, pronunciado muitas vezes pelos entrevistados.
Vários participantes disseram que, depois de verem as notícias na mídia
tradicional – que eles entendem como sendo os telejornais ou os portais
noticiosos das grandes empresas de mídia –, vão atrás de outras fontes
para checar sua veracidade. Há duas variantes atitudinais aqui, os bolso
naristas mais convictos recorrem diretamente às páginas do presidente e
de seus fiéis influenciadores nas redes sociais. Mas há aqueles que decla
raram buscar por versões dos fatos em diferentes canais, pois nenhum é
inteiramente confiável. O raciocínio é: se “a imprensa tem lado”, não se
pode confiar inteiramente em nenhum canal de comunicação.
Esse aumento da percepção de politização dos meios, ou seja, de que eles
têm lado, mina sua legitimidade como fontes fidedignas de informação – legitimidade essa que era altíssima antes do advento das redes sociais
(SECOM, 2014) – e gera um ambiente de pós-verdade, no qual convivem a
adesão explícita dos consumidores de informação aos meios ideologica
mente mais alinhados a suas próprias convicções – um tipo de paralelismo
político 2.0 (Artero, 2015; Mancini, 2015) – e um alto grau de ceticismo e
desconfiança em relação a todos os outros meios. A esse processo chama
mos de “ruptura da esfera comunicacional tradicional”. Tal ruptura não
ocorreu no passado, durante os governos petistas, por mais que no Brasil
a grande imprensa tenha consistentemente se comportado de modo politi
zado, buscando influenciar resultados eleitorais por meio do enviesamento
da cobertura contra o PT (Azevedo, 2017; Feres Júnior, 2020; Miguel, 1999).
Em outras palavras, a pesquisa mostra que o bolsonarismo foi exitoso
em romper com o status quo anterior da comunicação política em nosso
país, cooptando parte dos meios tradicionais (Record, SBT, Jovem Pan,
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
35 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
CNN e uma miríade de mídias regionais e locais Brasil afora), trazendo
para perto de si as estruturas de comunicação evangélicas e, ao mesmo
tempo, articulando uma rede forte de apoiadores nas plataformas sociais.
Se por um lado o bolsonarismo não teria feito isso se não fosse a ascen
são das redes sociais, por outro, é bastante ingênuo concluir que ele é
basicamente um fenômeno comunicacional das redes sociais, como o
faz boa parte da literatura acadêmica.
Nossos resultados não confirmam a tese de que as redes sociais têm um
papel central na informação dos eleitores de Bolsonaro em 2018. Mui
tos bolsonaristas ainda usam os meios tradicionais como fonte de infor
mação, e mesmo os usuários que privilegiam a internet reportam usar
intensamente portais noticiosos da imprensa tradicional. Pouquíssimos
participantes relataram seguir influencers. Facebook, YouTube e Twitter
não foram muito citados como fontes de informação, mesmo quando a
pergunta foi colocada explicitamente.
A ruptura da esfera comunicacional tradicional gera um clima de pós--verdade e negacionismo. No tema da Covid 19, particularmente no que
toca o tratamento precoce e as vacinas, esse estado de coisas se revelou
com força. Foi comum a percepção de que não há de fato fontes confiá
veis de informações para além do conflito de versões. Muitos declaram
simplesmente não saberem o que dizer sobre esses assuntos polêmicos;
já outros apoiadores renitentes, ao constatar que a politização da infor
mação é bastante alta, tomam partido nessa disputa aderindo às versões
fornecidas pelos meios bolsonaristas de comunicação.
Notícias falsas são abundantes entre os apoiadores renitentes de Bolso
naro: alguns afirmam haver provas de que a cloroquina e a ivermectina
curam o vírus, que as vacinas não são eficazes, que o vírus é uma estra
tégia da China para dominar o mundo e ganhar muito dinheiro etc. Mas
há também evidências de que a aposta na desinformação por parte do
bolsonarismo é bem anterior ao advento da pandemia da Covid 19 e toda
a discussão em torno das vacinas e dos tratamentos curativos. A imensa
maioria dos apoiadores manifestou crença de que os governos do PT de
fato distribuíam o “kit gay” nas escolas públicas.
A percepção da economia também foi influenciada pelo clima geral de
disseminação de notícias falsas e guerra de versões. Vários apoiadores
renitentes disseram que a economia estava melhorando, mostrando-se
otimistas perante o estado de coisas em meados de 2021. Avaliavam que
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
36 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
2021 estava muito melhor que 2020, como se os piores efeitos da pandemia
já tivessem passado. Tal percepção contrasta com os dados da economia
no primeiro semestre de 2021, quando a pesquisa foi feita, pois tanto o PIB
quanto a taxa de desemprego, por exemplo, encontravam-se estagnados,
depois de uma série de flutuações nos trimestres anteriores.7
Conclusão
Os resultados gerados pela pesquisa permitem que ponhamos algumas
teses e percepções comuns sobre o bolsonarismo sob escrutínio. Pri
meiramente, tratemos da tese mais saliente na literatura que toma o
bolsonarismo como fenômeno sociológico, a de que ele deve ser melhor
entendido como um movimento social (Feltran, 2020; Pinheiro-Ma
chado, Scalco, 2020; Rocha, Solano, Medeiros, 2021). Seu problema
central é que ela não identifica a mediação entre o bolsonarismo como
movimento social e o bolsonarismo como fenômeno de opinião, tra
tando as duas coisas de maneira indistinta. Ademais, falta uma aná
lise empiricamente orientada que dê conta de como esse movimento
social se estrutura, quais são suas hierarquias, recursos institucionais,
critérios de membresia etc., e, o mais importante, como ele produz
o fenômeno de opinião. Os autores não se preocuparam sequer em
analisar o funcionamento concreto desses contrapúblicos do ponto de
vista comunicacional, deixando os seus leitores à deriva em um vasto
oceano de conjecturas.
Nossa pesquisa mostrou claramente que nem todos os eleitores de Bol
sonaro, e mesmo seus mais ardentes simpatizantes, são ativos partici
pantes de redes sociais, militantes virtuais, produtores ou dissemina
dores de conteúdo. Apenas uma parcela dos participantes da pesquisa – quase todos eles jovens – declarou dedicar-se mais intensamente a
consumir informação de canais virtuais. Mesmo assim, esse hábito
sequer foi majoritário entre os jovens. No terreno das conjecturas, é
possível que esse padrão de alta mobilização da base, muitas vezes
sugerida pela concepção do bolsonarismo qua movimento social, seja
específico de certos recortes de classes sociais. Como todos os partici
pantes bolsonaristas não arrependidos eram das classes C e D, nossa
amostra pode ter sub-representado tal comportamento. Mas o ônus
de mostrar a existência dessa interação entre classe e ativismo é da
literatura que defende a tese do bolsonarismo como movimento social,
não nosso, e até agora não há sinal de que seus autores tenham feito
isso de maneira satisfatória.
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
37 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
A questão de como esse suposto movimento social gerou o fenômeno
de opinião, na verdade, contém uma forte assimetria, pois um de seus
polos, o fenômeno de opinião, está muito bem documentado por meio de
surveys e resultados eleitorais concretos – é inegável que uma proporção
substancial do eleitorado brasileiro preferiu Bolsonaro no primeiro turno
e uma proporção ainda maior no segundo turno dos pleitos presidenciais
nos quais concorreu: 46% e 55% em 2018, e 43% e 49% em 2022, respecti
vamente. Enquanto isso, o outro polo, o movimento social, é na verdade
uma abstração parcamente definida e estudada.
A tese de que modos de comunicação disruptiva imperam nos contra
públicos bolsonaristas também não foi confirmada por nossa pesquisa.
Pelo contrário, eleitores de Bolsonaro arrependidos e não arrependidos
são capazes de dar razões para suas preferências, baseados nas infor
mações que obtêm e em suas adesões a valores. Não houve sequer um
episódio de performance disruptiva durante as discussões conduzidas
em 24 grupos focais, espalhados por todas as regiões do país. Talvez seja
mais importante ainda frisar que mesmo a adesão declarada a influen
ciadores bolsonaristas que empregam técnicas disruptivas de comuni
cação foi fraca.
Há, de fato, uma percepção generalizada de que o próprio Bolsonaro se
comunica de maneira grosseira e disruptiva. Contudo, seus seguidores
menos inflamados rejeitam tal característica como uma incapacidade de
se portar propriamente como presidente da República, juntamente com
os eleitores arrependidos. E mesmo entre seus adeptos mais renitentes
há quem rejeite esse estilo comunicativo, como impróprio para um pre
sidente. Em suma, é inegável que Bolsonaro e alguns de seus seguidores
utilizam um estilo comunicativo disruptivo, mas tal elemento está longe
de explicar seu sucesso de público e de voto.
O dado mais consistente é a adesão – quase sempre seletiva – dos bolso
naristas a valores, versões de fatos e narrativas afinados com a agenda de
Bolsonaro: defesa da família tradicional e da heteronormatividade; apoio
relativo aos militares; apoio ao porte e posse de armas de fogo; crença em
notícias falsas acerca da pandemia, das vacinas e dos tratamentos supos
tamente curativos; crença de que Bolsonaro mantem-se incorruptível,
a despeito de evidências abundantes em contrário. Ou seja, nos parece
evidente que há um fluxo informacional importante aqui: essas pessoas
estão sendo continuamente alimentadas com esses fatos e narrativas.
Mas como isso se dá? Por quais caminhos isso acontece?
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
38 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
Ora, o módulo da pesquisa sobre hábitos de consumo de informação visou
exatamente a explorar essa questão da mediação. A participação ativa
em contrapúblicos estruturados nas redes sociais não apareceu como
fator preponderante nas respostas dos entrevistados, mas outros meios se
mostraram relevantes. Primeiramente, temos o consumo de informação
provida por telejornais. Uma parte substancial das pessoas mais velhas
(acima de 25 anos) obtém suas informações preferencialmente desses
meios, que são, como mostram surveys de opinião recentes, ainda a forma
preferencial de os cidadãos brasileiros obterem informação política.8
Em segundo lugar, temos as preferências seletivas pelos canais de infor
mação da TV aberta. A Rede Globo aparece como grande referência e, ao
mesmo tempo, divisor de águas: bolsonaristas convictos a rejeitam com
força, enquanto a maior parte dos arrependidos declaram ainda assistir à
emissora. Os muitos consumidores de notícias da TV que rejeitam a Globo
declaram preferir os canais Record e SBT, quando não CNN e Jovem Pan.
Essa correlação positiva entre rejeição à Globo e adesão a Bolsonaro
coloca uma dúvida de natureza causal: o que vem primeiro? Os resul
tados de nossa pesquisa sugerem que o segundo elemento, a adesão a
Bolsonaro, é de fato a principal causa da rejeição à Globo. Isso porque
muitos apoiadores renitentes declararam o hábito de assistir ao noticiá
rio da Globo no passado e terem deixado de fazê-lo porque a emissora
passou a perseguir o ex-capitão e a focar somente nos aspectos negativos
da pandemia, com o fito de atacá-lo.
Em terceiro lugar, no nexo comunicativo que explica o bolsonarismo,
temos os hábitos de consumo de informação dos evangélicos. Podería
mos até arriscar chamá-los de um contrapúblico, mas não nos parece
haver ganhos analíticos nessa escolha, pois esse público não é nichado
nas redes sociais e tampouco parece adotar preponderantemente estilos
disruptivos de comunicação. A característica mais saliente dos hábitos
de consumo de informação dos evangélicos bolsonaristas é a homofilia:
declaram participar de discussões políticas em grupos de WhatsApp com
outros membros da igreja, família ou outros “cristãos”. Alguns dizem
ouvir as opiniões políticas dos pastores, outros são frequentadores de
canais de figuras de destaque do bolsonarismo nas redes sociais e, por
fim, consistentemente preferem a Record e o SBT à Globo. Aqui nos parece
haver um paralelo entre o insulamento moral explicitado em suas falas e
um insulamento comunicacional, reconstruído a partir das várias pistas
fornecidas durante os debates nos grupos focais.
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
39 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
Na verdade, a ilha dos evangélicos bolsonaristas está localizada dentro
daquilo que chamamos esfera comunicacional bolsonarista, que é mais
extensa. E seu relativo insulamento comunicacional parece se reproduzir
em maior escala nessa esfera, que, a despeito de ser mais diversa, partilha
da forte preferência por meios alinhados ao bolsonarismo, com a Rede
Globo sendo o elemento contrapositivo mais importante.
Do ponto de vista substantivo, nossa pesquisa indica que definir o bolso
narismo como uma nova subjetividade conservadora (Pinheiro-Machado,
Scalco, 2020) é por demais reducionista. Vários participantes apoiadores
renitentes não concordavam com as posições conservadoras de Bolso
naro em relação aos valores da família tradicional e, particularmente,
com sua homofobia mal disfarçada. Pesquisas de opinião mostram que a
maioria dos bolsonaristas é favorável ao Bolsa Família e mesmo às cotas,
e contrários às privatizações – ou seja, não são conservadores no campo
da economia. É fato que os eleitores de Bolsonaro são em média mais
conservadores que os de Lula, mas isso não pode ser tomado como um
sinal inequívoco de novas subjetividades, e, o que é mais importante, isso
não significa que a identificação de diferentes subjetividades dê conta de
explicar o bolsonarismo.
Crítica similar deve ser feita aos trabalhos que tratam o bolsonarismo
como uma coleção de identidades sociais (Kalil, 2018), ainda mais se a
metodologia adotada não permite que seja avaliado o peso relativo de
cada uma dessas identidades. Mesmo em pesquisas de natureza quali
tativa é importante atentar para a intensidade das preferências, ainda
que não possamos conferir significância estatística a elas. A questão não
respondida é a mesma que afeta a tese da nova subjetividade: como foi
operada a produção dessas identidades? Não é suficiente argumentar
que a campanha de Bolsonaro apelou para “sentimentos de ansiedade de
classe, meritocracia e punitivismo entre os homens de baixa renda”. É
preciso tentar explicar como essas narrativas chegaram a essas pessoas,
ou seja, deslindar o aspecto comunicacional do processo.
É importante notar o fato de que todos os trabalhos examinados aqui
adotam métodos qualitativos. Contudo, isso não é necessariamente um
produto da abordagem sociológica per se. Podemos conceber, ainda que
no plano da conjectura, desenhos de pesquisa que empreguem técni
cas quantitativas dentro de uma abordagem sociológica do fenômeno
do bolsonarismo. Na verdade, os trabalhos que tratam o bolsonarismo
como fenômeno de opinião, geralmente classificados na área de com
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
40 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
portamento político, quase sempre chamam a atenção para a relevância
de variáveis demográficas, e não somente politológicas, na descrição
e análise do bolsonarismo (Amaral, 2020; Nicolau, 2020; Rennó, 2020).
O problema de ordem metodológica detectado por nós na abordagem
sociológica ao estudo do bolsonarismo não é o fato de seus trabalhos terem
predileção por metodologias qualitativas, mas sim a pouca importância
que dão ao aspecto metodológico do trabalho em si. Os procedimentos
de pesquisa são descritos de maneira muito ligeira, sem detalhes acerca
dos parâmetros que balizaram o recrutamento, os roteiros das entrevistas
ou mesmo as observações etnográficas. Em meio a essa despreocupação
metodológica se sobressai a falta de empenho em desenhar pesquisas cuja
amostra seja representativa da população brasileira. A periferia da cidade
de São Paulo (Feltran, 2020), o Morro da Cruz na periferia de Porto Alegre
(Pinheiro-Machado, Scalco, 2020), manifestações ocorridas em São Paulo
(Kalil, 2018), uma escola pública de ensino médio de São Miguel Paulista
(Rocha, Solano, Medeiros, 2021), esses são todos lugares válidos pare se
fazer pesquisa, mas estão muito longe de representar minimamente a
população brasileira. O excesso de localidades paulistas só se explica por
uma razão não científica – a localização institucional dos pesquisadores – que, na realidade, parece interferir na representatividade da amostra.
Retomando o debate conceitual, parece-nos ingênuo assumir que há uma,
e somente uma, definição correta de bolsonarismo. A ideia pragmatista
de que a questão ontológica é mais bem respondida pela perspectiva
epistêmica nos parece bastante verdadeira e produtiva (Rorty, 1979)9. As
concepções do bolsonarismo como um emaranhado de discursos, como
um conjunto de subjetividades ou identidades ou como movimento social
não são necessariamente falsas, mas elas são muito mal equipadas para
explicar o sucesso político e eleitoral de Bolsonaro e políticos aliados, pelas
razões teóricas e metodológicas discutidas aqui. A hipótese da existência
de esfera comunicacional bolsonarista – surgida a partir da ruptura da
esfera comunicacional tradicional – como espinha dorsal daquilo que
denominamos “bolsonarismo” foi fartamente confirmada em nossa pes
quisa. Tal esfera comunicacional fornece o nexo que liga adesões a valores
e narrativas a identidades sociais, e sustenta o excepcionalismo tão caro
à figura carismática de Bolsonaro. Por fim, aprendemos também que tal
esfera comunicacional bolsonarista não se reduz aos influenciadores da
extrema-direita ou mesmo às redes sociais. Sua infraestrutura é com
posta, em parte, por perfis de redes sociais, por grupos de discussão de
serviços de mensageria, mas também por portais noticiosos de mídias
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
41 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
tradicionais na internet e pelo consumo direito de informação política
via mídias tradicionais, mormente os canais de televisão Record, SBT e
CNN-Brasil. Mas esse é um tópico para ser detalhado em estudos futuros.
(Recebido para publicação em 01 de novembro de 2024)
(Reapresentado em 18 de janeiro de 2025)
(Aprovado para publicação em 19 de março de 2025)
Notas
1. Utilizamos a string “Bolsonaro_INF”, que permite capturar a palavra Bolsonaro e seus possíveis
derivados, como bolsonarista e bolsonarismo. Busca realizada em 16 de janeiro de 2025. A base
de busca são todos os livros da coleção do Google, ou seja, não somente livros acadêmicos. O
resultado da busca foi uma reta com crescimento constante, ano a ano, de aproximadamente
30%. É razoável supor, contudo, que o crescimento da literatura acadêmica seja pelo menos
igual ou ainda maior do que essa taxa anual.
2.
A pesquisa, realizada no dia 16 de janeiro de 2025, utilizou a string de busca “bolsonaro OR bolsonaris
mo OR bolsonarism” no campo de busca de palavras-chave (keywords) do Google Scholar no Publish
or Perish, e foi limitada a 1.000 resultados de busca, que é o máximo permitido pela ferramenta.
3. Tradução nossa, do original em inglês.
4. Ver https://www.poder360.com.br/governo/leia-o-historico-da-avaliacao-de-bolsonaro--desde-a-posse/.
5. Essa pesquisa foi financiada pelo Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa
(IREE), e seus resultados preliminares publicados na forma de relatório na página da entidade:
https://iree.org.br/iree-e-lemep-uerj-divulgam-pesquisa-sobre-perfil-do-bolsonarismo-no-brasil/.
6. Para o tema “família, gênero e valores tradicionais” mostramos o vídeo acessível no link
https://www.youtube.com/watch?v=HSXjgsicVIQ.
Para o tema “segurança pública e armas” mostramos o vídeo acessível no link https://youtu.
be/fZrTDtlqJPA.
Para o tema “corrupção e Lava Jato” mostramos o vídeo acessível no link https://www.youtube.
com/watch?v=78lz6wnDdkM.
Para o tema “relação entre militares, democracia e administração pública” mostramos o vídeo
acessível no link https://www.youtube.com/watch?v=qbWOV2UCz48.
Para o tema “pandemia, ciência e desinformação” mostramos o vídeo acessível no link https://
www.dropbox.com/s/xp7z5gkeix7hduy/5.%20Pandemia.mp4?dl=0.
7. Ver http://www.ipeadata.gov.br/ExibeSerie.aspx?serid=1136471525.
8. Ver https://nossomeio.com.br/mais-de-60-dos-brasileiros-dizem-consumir-noticias-pela-tv--segundo-yougov/.
9. “We should give up the notion that philosophy can find a set of terms which are naturally
privileged, which define the ‘essence’ of a human being, or the ‘true nature’ of anything else.
[...] We are no closer to discovering what we are ‘really’ made of, or what we ‘really’ are, than
we were when the Greeks talked about being made of fire, air, earth, and water. We should
not seek a single, privileged vocabulary for describing ourselves, but rather see ourselves as
describable in many ways, depending on the purposes of the description.” (p. 360)
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
42 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
Referências
Albernaz, Vinicius. (2019), “Análise das Características do Discurso Populista de Jair Bolsonaro
nas Eleições Brasileiras de 2018”. Political Observer / Revista Portuguesa de Ciência, n. 12,
pp. 131-146. doi: https://doi.org/10.33167/2184-2078.RPCP2019.12/pp.131-146. Disponível
em: http://www.rpcp.pt/index.php/rpcp/article/view/64.
Almeida, Maria Hermínia Tavares de; Guarnieri, Fernando Henrique. (2020), “The Unlikely President:
the Populist Captain and His Voters”. Revista Euro Latinoamericana de Análisis Social y Político
(RELASP), ano 1, v. 1, n. 1, pp. 139-159. doi: https://doi.org/10.35305/rr.v1i1.42. Disponível em:
https://ojs.unsj.edu.ar/index.php/relasp/article/view/510.
Amaral, Oswaldo E. do. (2020), “The Victory of Jair Bolsonaro According to the Brazilian Elec
toral Study of 2018”. Brazilian Political Science Review, v. 14, n. 1, pp. 1-13. doi: https://doi.
org/10.1590/1981-3821202000010004. Disponível em: https://www.scielo.br/j/bpsr/a/Lqxm
Cxx8pX3W448MX6dRcWP/?format=pdf&lang=en.
Artero, Juan. (2015), “Political Parallelism and Media Coalitions in Western Europe”. Reuters
Institute for the Study of Journalism, University of Oxford, pp. 1-18. Disponível em: https://
reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/our-research/political-parallelism-and-media-coalitions--western-europe.
Avritzer, Leonardo; Rennó, Lucio. (2021), “The Pandemic and the Crisis of Democracy in
Brazil”. Journal of Politics in Latin America, v. 13, n. 3, pp. 442-457. doi: https://doi.
org/10.1177/1866802x211022362. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/
full/10.1177/1866802X211022362.
Azevedo, Fernando Antônio. (2017), A Grande Imprensa e o PT (1989-2014). São Carlos, Editora UFSCar.
Baptista, Érica Anita; Hauber, Gabriela; Orlandini, Maiara. (2022), “Despolitização e Populismo: as
Estratégias Discursivas de Trump e Bolsonaro”. Media & Jornalismo, v. 22, n. 40, pp. 105-119.
doi: https://doi.org/10.14195/2183-5462_40_5. Disponível em: https://impactum-journals.
uc.pt/mj/article/view/10279.
Barbosa de Almeida, Thais. (2022), “Estratégias de Visibilidade Populista nos Media On-line: um
Estudo Sobre as Declarações Polêmicas de Jair Bolsonaro na Campanha Presidencial de 2018”.
Media & Jornalismo, v. 22, n. 40, pp. 283-299. doi: https://doi.org/10.14195/2183-5462_40_14.
Disponível em: https://impactum-journals.uc.pt/mj/article/view/10188.
Bermeo, Nancy. (2016), “On Democratic Backsliding”. Journal of Democracy, v. 27, n. 1, pp. 5-19.
Disponível em: https://www.journalofdemocracy.org/articles/on-democratic-backsliding/.
Boydell, Nicola; Fergie, Gillian; McDaid, Lisa; Hilton, Shona. (2014), “Avoiding Pitfalls and Re
alising Opportunities: Reflecting on Issues of Sampling and Recruitment for Online Focus
Groups”. International Journal of Qualitative Methods, v. 13, n. 1, pp. 206-223. doi: https://
doi.org/10.1177/160940691401300109. Disponível em: https://www.researchgate.net/pub
lication/312148727_Avoiding_Pitfalls_and_Realising_Opportunities_Reflecting_on_Issues_
of_Sampling_and_Recruitment_for_Online_Focus_Groups.
Cesarino, Letícia. (2019), “Identidade e Representação no Bolsonarismo. Corpo Digital do
Rei, Bivalência Conservadorismo-Neoliberalismo e Pessoa Fractal”. Revista de Antropo
logia, v. 62, n. 3, pp. 530-557. doi: https://doi.org/10.11606/2179-0892.ra.2019.165232.
Disponível em: https://revistas.usp.br/ra/article/view/165232.
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
43 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
_______. (2021), “As Ideias Voltaram ao Lugar? Temporalidades Não Lineares no Neoliberalismo
Autoritário Brasileiro e Sua Infraestrutura Digital”. Caderno CRH, v. 34, pp. 1-18. doi: https://
doi.org/10.9771/ccrh.v34i0.44377. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/crh/
article/view/44377.
_______. (2022), “Bolsonarismo sem Bolsonaro? Públicos Antiestruturais na Nova Fronteira Ci
bernética”. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, v. 1, n. 82, p. 162-188. doi: https://doi.
org/10.11606/issn.2316-901X.v1i82p162-188. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/
rieb/article/view/201360.
Edwards, Bob; McCarthy, John D. (1996), “Resources and Social Movement Mobilization”, in: Jenkins,
J. Craig; Klandermans, Bert (org.), The Politics of Social Protest: Comparative Perspectives on
States and Social Movements. 2nd ed. Minneapolis, University of Minnesota Press, pp. 116-133.
Feltran, Gabriel. (2020), “Centripetal Force: a Totalitarian Movement in Contemporary Brazil”. Sound
ings: a Journal of Politics and Culture, v. 2020, n. 75, pp. 95-110. doi: 10.3898/SOUN.75.06.2020.
Disponível em: https://journals.lwbooks.co.uk/soundings/vol-2020-issue-75/abstract-7653/.
Feres Júnior, João. (2020), Cerco Midiático: o Lugar da Esquerda na Esfera “Publicada”. Democracia
e Direitos Humanos. São Paulo, Friedrich Ebert Stiftung. Disponível em: https://brasil.fes.de/
detalhe/cerco-midiatico-o-lugar-da-esquerda-na-esfera-publicada.html.
Forrestal, Sarah G.; D’Angelo, Angela Valdovinos; Vogel, Lisa Klein. (2015), “Considerations for and
Lessons Learned from Online, Synchronous Focus Groups”. Survey Practice, v. 8, n. 3, pp. 1-9.
doi: https://doi.org/10.29115/SP-2015-0015. Disponível em: https://www.surveypractice.org/
article/2844-considerations-for-and-lessons-learned-from-online-synchronous-focus-groups.
Fraser, Nancy. (1997), Justice Interruptus : Critical Reflections on the “Postsocialist” Condition. New
York, Routledge.
Greskovits, Béla. (2015), “The Hollowing and Backsliding of Democracy in East Central Europe”.
Global Policy, v. 6, n. S1, pp. 28-37. doi: https://doi.org/10.1111/1758-5899.12225. Disponível
em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/1758-5899.12225.
Kalil, Isabela Oliveira. (2018), “Quem São e no Que Acreditam os Eleitores de Bolsonaro”. Núcleo
de Etnografia Urbana e Audiovisual (NEU) da Fundação Escola de Sociologia e Política de
São Paulo. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/wp-content/uploads/2020/03/
Relat%C3%B3rio-para-Site-FESPSP.pdf.
Lacerda, Marina. (2022a), “Contra o Comunismo Demoníaco: o Apoio Evangélico ao Regime Militar
Brasileiro e Seu Paralelo com o Endosso da Direita Cristã ao Governo Bolsonaro”. Religião &
Sociedade, v. 42, n. 1, pp. 153-176. doi: https://doi.org/10.1590/0100-85872021v42n1cap07.
Disponível em: https://www.scielo.br/j/rs/a/Yvgm4T74KWZHN4vYttLrxVB/.
_______. (2022b), “Paleoconservadorismo de Bolsonaro: o Pesadelo Brasileiro”. in Singer,
André; Araujo, Cicero; Rugitsky, Fernando (org.), O Brasil no Inferno Global: Capitalis
mo e Democracia Fora dos Trilhos. São Paulo, FFLCH/USP, pp. 321-375. doi: https://doi.
org/10.11606/9788575064085. Portal de Livros Abertos da USP. Disponível em: https://www.
livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/825.
Lynch, Christian Edward Cyril; Cassimiro, Paulo Henrique Paschoeto. (2022), O Populismo Reacio
nário: Ascensão e Legado do Bolsonarismo. São Paulo, Contracorrente.
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
44 / 46
João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula
Mainwaring, Scott; Pérez-Liñán, Aníbal. (2014), Democracies and Dictatorships in Latin Ameri
ca: Emergence, Survival, and Fall. New York: Cambridge University Press. doi: https://doi.
org/10.1017/CBO9781139047845. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/books/
democracies-and-dictatorships-in-latin-america/9CC511C619C452594287644A905994A1.
Mancini, Paolo. (2015), “Parallelism, Political”, in Mazzoleni, Gianpietro (org.), The International
Encyclopedia of Political Communication. 3 vols. Hoboken, NJ, USA, John Wiley & Sons. doi:
https://doi.org/10.1002/9781118541555.wbiepc068. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.
com/doi/abs/10.1002/9781118541555.wbiepc068.
McAdam, Doug. (1996), “Conceptual Origins, Current Problems, Future Directions”, in: McAdam,
Doug; McCarthy, John D.; Zald, Mayer N. (org.), Comparative Perspectives on Social Movements:
Political Opportunities, Mobilizing Structures, and Cultural Framings. Cambridge, Cambridge
University Press, pp. 23-40.
McCarthy, John D.; Zald, Mayer N. (1977), “Resource Mobilization and Social Movements: a Partial
Theory”. American Journal of Sociology, v. 82, n. 6, pp. 1212-1241.
Menary, Jonathan; Stetkiewicz, S.; Nair, A.; Jorasch, P.; Nanda, A. K.; Guichaoua, A.; Rufino, M.;
Fischer, A. R. H.; Davies, J. A. C. (2021), “Going Virtual: Adapting In-Person Interactive Focus
Groups to the Online Environment [version 2; peer review: 2 approved]”. Emerald Open Re
search, v. 3, n. 6, pp. 1-14. doi: https://doi.org/10.35241/emeraldopenres.14163.2. Disponível
em: https://www.emerald.com/insight/content/doi/10.1108/eor-06-2023-0008/full/html.
Miguel, Luis Felipe. (1999), “Mídia e Manipulação Política no Brasil: a Rede Globo e as Eleições
Presidenciais de 1989 a 1998”. Comunicação & Política, VI (2-3), pp. 119-138.
Nicolau, Jairo Marconi. (2020), O Brasil Dobrou à Direita : uma Radiografia da Eleição de Bolsonaro
em 2018. Rio de Janeiro, Zahar.
Nunes, Rodrigo. (2021), “Of What Is Bolsonaro the Name?” Dossier: Grammars of Bolsonarismo.
Radical Philosophy, 2.09, pp. 3-14. Disponível em: https://www.radicalphilosophy.com/article/
of-what-is-bolsonaro-the-name.
Pinheiro-Machado, Rosana; Scalco, Lucia Mury. (2018), “Da Esperança ao Ódio: Juventude, Política e
Pobreza do Lulismo ao Bolsonarismo”. Cadernos IHU Ideas, ano 16, n. 278, v. 16, pp. 1-13. Disponí
vel em: https://www.ihu.unisinos.br/images/stories/cadernos/ideias/278cadernosihuideias.pdf.
_______.; _______. (2020), “From Hope to Hate: The Rise of Conservative Subjectivity in Brazil”.
HAU: Journal of Ethnographic Theory, v. 10, n. 1, pp. 21-31.
Rennó, Lucio R. (2020), “The Bolsonaro Voter: Issue Positions and Vote Choice in the 2018 Bra
zilian Presidential Elections”. Latin American Politics and Society, v. 62, n. 4, pp. 1-23. doi:
https://doi.org/10.1017/lap.2020.13. Disponível em: https://www.researchgate.net/publica
tion/342978868_The_Bolsonaro_Voter_Issue_Positions_and_Vote_Choice_in_the_2018_Bra
zilian_Presidential_Elections.
_______. (2022), “Bolsonarismo e as Eleições de 2022”. Estudos Avançados, v. 36, n. 106, pp. 147
163. doi: https://doi.org/10.1590/s0103-4014.2022.36106.009. Disponível em: https://www.
scielo.br/j/ea/a/7ydPPygGTwLsR5xSN3RZ5HP/.
Ricci, Paolo; Izumi, Mauricio; Moreira, Davi. (2021), “O Populismo no Brasil (1985-2019): um Velho
Conceito a Partir de uma Nova Abordagem”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 36, n. 107,
, Rio de Janeiro Vol.68 N.4 Ano 2025: e20250132
45 / 46
O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica
pp. 1-22. doi: https://doi.org/10.1590/3610707/2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/
rbcsoc/a/nHwmRRJRkWCv7XJVRc3nWsj/.
Richard, Brendan; Sivo, Stephen A.; Orlowski, Marissa; Ford, Robert C.; Murphy, Jamie; Boote,
David N.; Witta, Eleanor L. (2021), “Qualitative Research via Focus Groups: Will Going Online
Affect the Diversity of Your Findings?” Cornell Hospitality Quarterly, v. 62, n. 1, pp. 32-45. doi:
https://doi.org/10.1177/1938965520967769. Disponível em: https://www.researchgate.net/
publication/344160815_Qualitative_Research_via_Focus_Groups_Will_Going_Online_Affect_
the_Diversity_of_Your_Findings.
Rocha, Camila; Solano, Esther. (2019), “O Conservadorismo e as Questões Sociais”. Fundação
Tide Setubal. Disponível em: https://sinapse.gife.org.br/download/o-conservadorismo-e--as-questoes-sociais.
_______; _______; Medeiros, Jonas. (2021), The Bolsonaro Paradox: the Public Sphere and Right
Wing Counterpublicity in Contemporary Brazil. Cham, Swiss, Springer Nature. doi: https://doi.
org/10.1007/978-3-030-79653-2. Disponível em: https://link.springer.com/book/10.1007/978
3-030-79653-2.
_______; Medeiros, Jonas. (2022), “2022: o Pacto de 1988 sob a Espada de Dâmocles”. Estudos
Avançados, v. 36, n. 105, pp. 65-84. doi: https://doi.org/10.1590/s0103-4014.2022.36105.005.
Disponível em: https://www.revistas.usp.br/eav/article/view/198288.
Rorty, Richard. (1979), Philosophy and the Mirror of Nature. Princeton, NJ, Princeton University
Press. Disponível em: https://sites.pitt.edu/~rbrandom/Courses/Antirepresentationalism%20
(2020)/Texts/Rorty%20PMN.pdf.
Russo, Guilherme Azzi, Pimentel Junior, Jairo; Avelino, George. (2022), “O Crescimento da Direita
e o Voto em Bolsonaro: Causalidade Reversa?” Opinião Pública, v. 28, n. 3, pp. 594-614. doi:
https://doi.org/10.1590/1807-01912022283594. Disponível em: https://www.cesop.unicamp.
br/por/opiniao_publica/artigo/745.
SECOM. (2014), Pesquisa Brasileira de Mídia 2015 : Hábitos de Consumo de Mídia pela População
Brasileira. Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Brasília, Secom.
Disponível em: https://www.gov.br/secom/pt-br/search?origem=form&SearchableText=Pes
quisa%20Brasileira%20de%20M%C3%ADdia%202015.
Solano, Esther. (2018), “Crise da Democracia e Extremismos de Direita”. Friedrich Ebert Stiftung,
n. 42, pp. 1-29. Disponível em: https://library.fes.de/pdf-files/bueros/brasilien/14508.pdf.
_______. (2021), “A Evolução do Bolsonarismo: Análise Qualitativa da Percepção Deste Eleitorado
em 2019 e 2020”. Journal of Democracy em Português, v. 10, n. 1, pp. 50-81. Disponível em:
https://plataformademocratica.org/arquivos/mai-21/03_A_evolucao_do_bolsonarismo.pdf.
Tarrow, Sidney. (1994), Power in Movement: Social Movements, Collective Action and Politics. Cam
bridge, Cambridge University Press.
Weber, Max. (1978), Economy and Society: an Outline of Interpretive Sociology. 2 vols. (org. Guenther
Roth; Claus Wittich). Berkeley, University of California Press. Disponível em: https://archive.
org/details/MaxWeberEconomyAndSociety/page/n3/mode/2up. O artigo dos autores João Feres Júnior1
1Professor titular de Ciência Política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ). Rio de Janeiro, RJ. Brasil.
E-mail: jferes@iesp.uerj.br Orcid: https://orcid.org/0000-0002-5830-0458 e Carolina Almeida de Paula2
2Doutora em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ). Rio de Janeiro, RJ. Brasil.
E-mail: carolina.almeidapaula@gmail.com Orcid: https://orcid.org/0000-0001-9559-6799.
centrismo é um posicionamento político que se situa entre a esquerda e a direita no espectro político. Sua principal característica é a defesa de uma postura moderada e equilibrada, buscando conciliar ideias de diferentes ideologias para encontrar soluções práticas.
Aqui estão os pontos fundamentais para entender o centrismo:
Conciliação de Valores: Centristas buscam equilibrar a justiça social e a igualdade (frequentemente pautas de esquerda) com a liberdade individual e o crescimento econômico pró-mercado (pautas de direita).
Pragmatismo: O foco tende a ser em resultados práticos e evidências, evitando o que consideram "extremismos" ou "pureza ideológica".
Moderação: Defende-se a manutenção da ordem democrática e a realização de reformas graduais, em oposição a mudanças revolucionárias ou reacionárias bruscas.
Variações:
Centro-esquerda: Inclina-se levemente à esquerda, com maior foco em bem-estar social e intervenção estatal moderada.
Centro-direita: Inclina-se à direita, priorizando o livre mercado e o conservadorismo liberal.
Centrismo Radical: Defende mudanças significativas no sistema, mas de forma pragmática e não ideológica.
No contexto brasileiro, é comum a confusão entre o centrismo ideológico e o "Centrão". Enquanto o centrismo é uma filosofia de moderação, o "Centrão" refere-se a um bloco de partidos que se caracteriza mais pelo apoio ao governo vigente em troca de cargos e verbas do que por uma ideologia definida. Esses termos definem o espectro político com base em como diferentes grupos acreditam que a sociedade e a economia devem ser organizadas.
Esquerda: Prioriza a igualdade social e a justiça coletiva. Geralmente defende uma maior intervenção do Estado na economia para garantir serviços públicos (como saúde e educação) e reduzir a desigualdade.
Direita: Foca na liberdade individual, no livre mercado e na preservação de valores tradicionais. Tende a defender um Estado menor, com menos impostos e menos interferência na economia, acreditando que a competição gera crescimento.
Centro: Busca um equilíbrio entre as duas visões. O centro politico ,tenta conciliar a eficiência do mercado com políticas de bem-estar social, adotando posturas moderadas e pragmáticas
Os termos direita, esquerda e centro são as principais referências no espectro político para classificar ideologias, partidos e governos. A divisão surgiu na França, em 1789, onde os defensores do rei sentavam-se à direita e os revolucionários à esquerda. Abaixo estão as características e diferenças fundamentais de cada um:
1. Esquerda
A esquerda foca na igualdade social e no bem-estar coletivo. Para atingir esses objetivos, defende a forte intervenção do Estado na economia e a implementação de políticas públicas de redistribuição de renda e proteção social.
Valores: Justiça social, direitos humanos, igualdade de oportunidades, pautas progressistas e ambientalismo.
Posição sobre o Estado: Ativo e regulador, responsável por corrigir desigualdades geradas pelo mercado.
Espectro: Socialismo, Social-Democracia, Trabalhismo, Comunismo.
A direita prioriza a liberdade individual, a meritocracia e a livre iniciativa. Defende que o mercado deve se autorregular com pouca interferência do governo, valoriza a tradição e a propriedade privada.
Valores: Liberdade econômica, patriotismo, conservadorismo nos costumes, livre mercado e eficiência.
Posição sobre o Estado: Mínimo ou restrito, atuando apenas em áreas essenciais como defesa, segurança e justiça.
Espectro: Liberalismo, Neoliberalismo, Conservadorismo e Libertarismo.
O centro atua como uma ponte ou interseção entre a direita e a esquerda. Quem se identifica com o centro costuma ser moderado, buscando conciliar o crescimento econômico e o livre mercado (pauta de direita) com programas de bem-estar social e justiça (pauta de esquerda).
Valores: Diálogo, equilíbrio, pragmatismo, reformas graduais e direitos civis.
Posição sobre o Estado: Um regulador inteligente, que atua onde a iniciativa privada não consegue suprir as necessidades da população.
Espectro: Social-Liberalismo, Democracia Cristã e a chamada "Terceira Via".
O populismo é uma estratégia política que divide a sociedade entre o "povo virtuoso" e uma "elite corrupta"
. Em 2026, essa distinção continua sendo central no debate global e brasileiro, diferenciando-se pela definição de quem é esse "povo" e quem é o seu inimigo.
Populismo de Esquerda
Definição do "Povo": Foca na classe trabalhadora, nos marginalizados e nos explorados pelo sistema capitalista.
Inimigo Eleito: A elite econômica, o sistema financeiro, as grandes corporações e a desigualdade.
Objetivo: Redirecionar o poder econômico e promover a justiça social através da intervenção estatal e políticas distributivas.
Cenário em 2026: No Brasil, o O Partido dos Trabalhadores continua sendo a principal referência, com o governo buscando resgatar a popularidade através de agendas sociais focadas nas classes populares para a disputa eleitoral em 2026.
Definição do "Povo": Baseia-se em uma identidade cultural, nacional ou religiosa (frequentemente definida como a "maioria silenciosa").
Inimigo Eleito: Elites intelectuais e "cosmopolitas", o "sistema" (establishment) político, instituições como o Judiciário e, por vezes, minorias ou imigrantes.
Objetivo: Restaurar valores tradicionais e a ordem social, muitas vezes com um discurso antissistema e agenda de liberalismo econômico.
Cenário em 2026: A direita brasileira, liderada por figuras associadas ao Partido Liberal (PL), enfrenta o desafio de se reorganizar em meio a divisões internas, buscando uma candidatura competitiva que mantenha a base populista e conservadora forte para as eleições gerais de 2026.
Confira no Nexo Jornal .https://www.nexojornal.com.

Nenhum comentário:
Postar um comentário