terça-feira, 8 de setembro de 2026

Muito triste .

           A expressão "negação dos poderes da República nas eleições de 2018" contextualiza um período de forte tensionamento institucional no Brasil, caracterizado pelo questionamento da legitimidade e das funções das autoridades que compõem os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.Esse fenômeno manifestou-se de três formas principais durante o pleito de 2018:1. Crise de Legitimidade e Ataques ao JudiciárioO Poder Judiciário — especialmente o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — foi o principal alvo de contestações.O veto à candidatura de Lula: A decisão do TSE de barrar o registro de candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com base na Lei da Ficha Limpa foi classificada por seus apoiadores como uma interferência política indevida do Judiciário sobre o processo democrático.Discurso antissistema e urnas eletrônicas: Candidatos da ala mais conservadora e à direita, notadamente a campanha de Jair Bolsonaro, iniciaram uma retórica pública de desconfiança em relação à neutralidade da Justiça Eleitoral e à confiabilidade das urnas eletrônicas. Declarações de que o sistema poderia ser fraudado infloraram uma postura de negação à autoridade do TSE.2. Discurso "Antissistema" contra o Legislativo e ExecutivoAs eleições de 2018 foram marcadas pela rejeição à política tradicional. Abalados pelas revelações da Operação Lava Jato e pelo impeachment de 2016, os poderes Legislativo (Congresso Nacional) e Executivo enfrentaram uma profunda crise de representatividade.Discursos de campanha frequentemente retratavam o funcionamento do Congresso e os acordos partidários como inerentemente corruptos.Essa negação da política institucional gerou uma forte onda de renovação parlamentar e impulsionou candidatos que se posicionavam "fora do sistema".3. Escalada da Violência e Alerta ConstitucionalA polarização extremada e a negação mútua da legitimidade entre espectros políticos resultaram em uma escalada de violência física e verbal. Na reta final daquele outubro, o então presidente do STF, ministro Dias Toffoli, veio a público afirmar que "atacar o Poder Judiciário é atacar a democracia", reagindo ao clima de ameaças direcionadas à integridade da Corte e dos ministros.DesdobramentosHistoriadores e cientistas políticos apontam que a negação e o desgaste dos Poderes da República observados em 2018 não se encerraram no pleito. Eles funcionaram como a base retórica para os conflitos institucionais dos anos seguintes, culminando em episódios de hostilidade democrática mais severos ao longo das gestões subsequentes.

O Governo Bolsonaro e a  

Conjuntura Política Pré-Eleitoral

Fernando Guarnieri 

Argelina Figueiredo

Resumo

Nas eleições presidenciais de 2018, o espaço político brasileiro se 

tornou bidimensional. Menos por conta de mudanças nas preferências 

do eleitorado e mais por uma estratégia de campanha bem-sucedida de 

Jair Bolsonaro. Sua campanha deu saliência à dimensão sociocultural, 

que agrega temas como identidade de gênero, igualdade racial, “lei e or

dem”, entre outros, que passou a ter o mesmo peso na decisão do voto 

que a dimensão econômica, que dominou o debate durante as déca

das de 1990 e 2000. Se a introdução de uma nova dimensão favoreceu 

Bolsonaro nas eleições, ela fez com que entrasse em conflito com um 

legislativo institucionalmente unidimensional. Neste artigo mostramos 

como esse conflito levou à configuração de forças que disputarão as elei

ções de 2022.

Abstract

In the 2018 presidential elections, the Brazilian political space has 

become two-dimensional. Less because of changes in voter preferences 

and more because of a successful campaign strategy by Jair Bolsonaro. 

His campaign gave salience to the sociocultural dimension, which ag

gregates themes such as gender identity, racial equality, “law and order,” 

9

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

among others, which now has the same weight in the voting decision as 

the economic dimension, which dominated the debate during the 1990s 

and 2000s. If the introduction of a new dimension favored Bolsonaro in 

the election, it brought him into conflict with an institutionally unidi

mensional legislature. In this article we show how this conflict led to the 

configuration of forces that will contest the 2022 elections.

Introdução

Em seu discurso de posse, o presidente recém-eleito Jair Bolsonaro 

pregava “um verdadeiro pacto nacional entre a sociedade e os 

Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário”, ao mesmo tempo afirma

va que se pautaria pela “vontade soberana” daquele “movimento cívi

co, [que] cobriu-se de verde e amarelo, tornou-se espontâne[o], forte e 

indestrutível, e nos trouxe até aqui”1. Falava em contar com o apoio do 

Congresso Nacional à sua agenda e prometia valorizar o parlamento, 

mas também falava no “chamado das ruas” e em colocar “o Brasil acima 

de tudo e Deus acima de todos”. 

Esse discurso, contrapondo as “ruas” ao sistema político, revelava a 

tensão básica que marcaria sua gestão, tensão essa que o levou a oscilar 

entre o conflito e a cooperação com os demais poderes durante todo seu 

governo, predominando o conflito com recuos estratégicos que lhe per

mitiam ganhar fôlego para uma nova agressão e cuja solução desenhou 

o cenário em que se desenrolarão as próximas eleições.

Bolsonaro se elegeu atacando a política e os políticos tradicionais e 

defendendo uma pauta ultraconservadora, mas para aprovar sua agen

da dependia do apoio do Congresso majoritariamente formado por po

líticos tradicionais que, embora de perfil conservador, não eram, na mé

dia, tão conservadores quanto ele e sua base.

O discurso de posse pode ser acessado em https://www1.folha.uol.com.br/poder/ 

2019/01/leia-a-integra-do-discurso-de-bolsonaro-na-cerimonia-de-posse-no

congresso.shtml (último acesso em 14/04/2022).

10

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

Para governar e aprovar sua agenda de alteração do status quo, 

Bolsonaro, como outros governantes minoritários, deveria formar uma 

coalizão legislativa ou uma coalizão de governo2. No primeiro caso ele 

buscaria o apoio de outros partidos sem que estes viessem a fazer parte 

do governo ou então, o que está mais próximo do que se passou, busca

ria conseguir o apoio de parlamentares individualmente à sua agenda, 

apoio este que dependeria totalmente da distribuição de preferências 

no legislativo. Isso permitiria que ele montasse sua equipe “de forma 

técnica, sem o tradicional viés político que tornou o Estado ineficiente e 

corrupto”3. Para conseguir esse apoio, Bolsonaro teria que modificar sua 

agenda, tornando-a mais palatável aos partidos e congressistas corteja

dos. Em outras palavras, para evitar o “viés político”, Bolsonaro deveria 

flexibilizar sua agenda ultraconservadora. 

Para preservar sua agenda e conseguir alterar o status quo, Bolsonaro 

poderia formar uma coalizão de governo, oferecendo pastas ministeriais 

aos partidos aliados. Esses partidos aceitariam políticas mais próximas 

ao ponto ideal do presidente em troca de poder participar da gestão. A 

base bolsonarista veria sua agenda sendo implementada em parte, mas 

teria que aceitar a coabitação com políticos tradicionais.

Uma terceira alternativa seria abrir mão de alterar o status quo, 

isto é, Bolsonaro poderia limitar sua agenda radical à atuação interna 

de seus ministérios, governando por decreto. Poderia culpar o sistema 

por abrir mão da “missão de restaurar e de reerguer nossa pátria”. Deste 

modo, Bolsonaro poderia manter seu discurso antissistema, colocar a 

A diferença entre coalizões legislativas e de governo é apontada, entre outros, por 

José Cheibub (2007:17) que chama atenção para o fato de que a ausência de uma 

coalizão de governo, isto é, a participação dos membros da coalizão no ministé

rio, não implica automaticamente a falta de cooperação entre executivo e legisla

tivo. Diferentes partidos, de acordo com suas posições, podem apoiar agenda do 

governo sem coordenação entre eles, o que configura uma coalizão legislativa. 

Por ex. o FHC não precisou incorporar na coalizão os pequenos partidos de di

reita, porque eles já votavam favoravelmente os principais pontos da agenda do 

governo. O que não ocorreu com Lula e Dilma.

Discurso de posse, ver nota 1.

11

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

culpa nos outros poderes por suas omissões e contentar sua base ao li

vrar o país das “amarras ideológicas” no âmbito da administração pú

blica. Por outro lado, correria o risco de se isolar e entrar em conflito 

com as demais forças políticas, o que poderia custar sua própria sobre

vivência política.

Nas próximas seções pretendemos mostrar que Bolsonaro adotou 

estas três estratégias em diferentes momentos de seu mandato e que es

sas estratégias definiram as alianças políticas em torno das quais a dis

puta eleitoral de 2022 se dará. A ênfase na atuação do presidente como 

fator explicativo da dinâmica eleitoral se deve à premissa de que a corri

da presidencial estrutura as demais disputas4. Veremos que os protago

nistas dessa disputa surgem da reação às estratégias de Bolsonaro, vere

mos como, uma vez definidos os protagonistas, as alianças nos estados 

foram forjadas e, por fim, o que esperar das próximas eleições.

Antecedentes: Agenda governamental  

e competição eleitoral

A competição eleitoral no Brasil obedece de forma rigorosa a Lei 

de Duverger (DUVERGER,1980[1951], GUARNIERI, 2015). As dispu

tas majoritárias têm um efeito redutor no número de competidores e 

temos quase sempre entre dois e três candidatos viáveis. Nas disputas 

proporcionais, a fragmentação partidária é favorecida pela combinação 

de distritos com magnitude alta, a proximidade com as eleições majori

tárias e um território vasto e heterogêneo5. A esses fatores, soma-se a 

possibilidade de coligações eleitorais6. 

A ideia de que a disputa nacional no Brasil estrutura as demais pode ser encon

trada em autores como Melo (2010), Limongi (2010) e Borges (2015). Fora do 

Brasil, essa ideia já estava presente em trabalhos como o de Schlessinger (1965).

Sobre os efeitos do sistema eleitoral no sistema partidário ver Odershook e Shve

tsova (1994), Amorim Neto e Cox (1997) e Cox (1997).

Sobre o impacto das coligações na fragmentação ver Calvo et al. (2015) e Limongi 

e Vasselai (2018).

12

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

As disputas majoritárias, em todos os níveis da federação, se dão sem

pre entre dois blocos. Os protagonistas são aqueles que, por motivos his

tóricos, possuem uma massa de eleitores fiéis e/ou que oferecem políticas 

mais próximas à preferência da maioria dos eleitores. Partidos desprovi

dos destes dotes se dividem no apoio a um ou outro destes protagonistas.

Se as regras eleitorais levam a disputas bipartidárias, um espaço 

ideológico unidimensional gera um equilíbrio com os dois partidos pro

pondo políticas próximas ao ponto ideal do eleitor que ocupa a posição 

mediana neste espaço (DOWNS, 2013[1957]). No Brasil, até as eleições de 

2018, essa dimensão única dizia respeito ao papel do Estado como indu

tor do desenvolvimento, com o PSDB como defensor de políticas fiscais 

mais contracionistas e o PT com políticas mais expansionistas.

Enquanto a disputa no Brasil se manteve unidimensional, esses dois 

partidos dominaram o cenário e as alianças se davam em torno deles. O 

PT dominou a esquerda desta dimensão, enquanto a direita foi domina

da pelo PSDB. Os dois partidos se alteraram no poder adotando políticas 

que se diferenciavam mais em grau.

Em política, todo equilíbrio é instável7. Esta instabilidade cria opor

tunidades estratégicas para os atores. Para um desafiante quebrar um 

duopólio uma estratégia é a introdução de uma nova dimensão no es

paço da competição política8. Nas eleições de 2018, Bolsonaro fez exata

mente isso ao ativar no eleitorado a saliência da dimensão sociocultural9. 

William Riker (1980) defendia que o desequilíbrio era inerente ao sistema eleito

ral majoritário. Esse desequilíbrio seria explorado por políticos hábeis. A análise 

das estratégias empregues por esses políticos ficou conhecida com herestética. 

Elmer Schattschneider (1975), mostrou a vantagem estratégica da introdução de 

novas questões, ou dimensões, na política. A saliência destas questões e seu im

pacto no voto é objeto de estudo na ciência política desde o clássico Voting de 

Bereslson et al. (1986[1954]). O impacto da introdução de novas dimensões na 

competição entre partidos é explorada por Roemer (2009).

O caráter multidimensional da política e, mais especificamente, a emergência de 

uma dimensão “sociocultural”, que combina a pauta conservadora com um nati

vismo e a valorização da ordem, é objeto de estudo principalmente na Europa 

que tem isto o crescimento de partidos, principalmente de extrema direita, que 

salientam esta dimensão. Ver a respeito Evans et al (2013).

13

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

Isso pode ser visto ao se examinar o voto dos evangélicos. Enquanto 

nas eleições de 2010 e 2014 não havia diferença estatisticamente sig

nificativa em como esse segmento se dividia entre PT e PSDB, em 2018 

o grosso do voto evangélico foi para Bolsonaro. Em outras palavras, 

se nas eleições de 2010 e 2014 a religião não era tão bom preditor de 

voto, em 2018 ela passou a ser, o que indica a relevância da dimensão 

sociocultural.

Bolsonaro vence as eleições de 2018 roubando votos do PSDB, com 

uma pauta liberal na economia e conservadora nos costumes. No seu 

discurso de posse termos como “ideologia de gênero”, “ordem”, “mé

rito”, “crise moral” apareciam com tanta frequência quanto “sustenta

bilidade das contas públicas”, “reformas estruturantes”, “confiança” e 

“produtividade”. 

O aumento da saliência da dimensão sociocultural também mexeu 

com o equilíbrio das eleições estaduais, tanto para governador quando 

para o Senado. Treze partidos elegeram governadores contra nove em 

2014, com partidos outrora nanicos, como PSL e PSC, conquistando cin

co estados. No Senado, dos 32 candidatos a reeleição apenas oito foram 

eleitos e o número de partidos com cadeiras na casa saltou de 18 em 2014 

para 22 em 2018.

Nas eleições para a Câmara dos Deputados a renovação também 

foi alta com 244 candidatos reeleitos, o que significa 47,56% do to

tal de deputados. Destes, 141 eram estreantes. Os partidos que mais 

cresceram foram aqueles com políticas na dimensão sociocultural, 

como o PSL, que passou de 8 para 52 deputados e o PRB que subiu de 

21 para 30.

As eleições de 2018 premiaram a estratégia bolsonarista de dar 

saliência à dimensão sociocultural. O Brasil teria dobrado à direita 

(NICOLAU, 2020). Um novo equilíbrio em torno de um eleitor/legisla

dor mediano conservador/liberal em um espaço bidimensional teria se 

imposto. Para governar, bastaria a Bolsonaro adotar políticas no ponto 

ideal deste eleitor/legislador. Mas, não custa lembrar, na política todo 

equilíbrio é instável.

14

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

O Governo minoritário e os superministros

Eleito, Bolsonaro nomeia 22 ministros sem negociar com partidos. 

Dois deles, o ex-juiz Sérgio Moro e o banqueiro Paulo Guedes, são 

tratados pelo presidente como superministros e demonstrariam o ca

ráter técnico do novo ministério, a ausência de “viés político”. Os dois 

superministros também corporificam o caráter bidimensional da agen

da do presidente ao ficarem responsáveis pelas duas agendas que domi

nariam o primeiro ano de mandato de Bolsonaro, a Lei Anticrime de 

Moro e a Reforma da Previdência de Guedes.

Essas propostas deveriam passar pelo Congresso que, como vimos, 

teve alguma renovação, mas continuava dominado por políticos tradi

cionais. Na Câmara aproximadamente dois terços dos deputados já ha

viam exercido mandatos ou função pública. No Senado a renovação se 

limitou a 24 das 81 cadeiras. Esses políticos mais tradicionais fizeram 

carreira em um espaço político unidimensional apoiando a pauta eco

nômica do superministro à qual ela havia sido terceirizada, e se sentiam 

ameaçados pela nova pauta sociocultural (e também em parte com a 

presença de Sérgio Moro no governo) em que eram vistos com espe

cial desconfiança. Esses políticos elegeram as mesas diretoras da casa 

na nova legislatura que se iniciava junto com o mandato de Bolsonaro.

A Câmara dos Deputados elegeu Rodrigo Maia para exercer pela 

terceira vez o cargo de presidente da casa. Na sua primeira eleição para 

o cargo, Maia disputou a vaga com Rogério Rosso que representava um 

grupo de deputados que se unira em torno do embate do ex-presidente 

da casa, Eduardo Cunha, e a ex-presidente da república, Dilma Roussef, 

embate esse que levou ao impeachment de Dilma. Esse grupo de depu

tados que apoiava Cunha ficou conhecido como “centrão”.

Após derrotar o Centrão em 2016, Maia teve um papel impor

tante na aprovação da pauta econômica do presidente tampão Michel 

Temer10. Maia procurou avançar uma reforma política que propunha 

10 Teto dos Gastos, a Reforma Trabalhista e a renegociação da dívida dos Estados.

15

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

medidas que fortaleciam o poder dos partidos tradicionais e, ao mesmo 

tempo, pautou medidas que limitavam a agenda da “lei e da ordem”, 

sintetizada na operação Lava Jato que atingia cada vez mais lideranças 

políticas tradicionais11, que garantiram a Maia o terceiro mandato em 

2019.

O governo Bolsonaro, assim como não negociou cargos ministeriais 

com os partidos, também não interveio na disputa pela Câmara. Como 

era de se esperar, Rodrigo Maia não bloqueou os projetos do governo 

na área econômica que se alinhavam à preferência dele e da maioria 

dos deputados. A reforma da previdência, principal ponto da agenda 

econômica de Bolsonaro no seu primeiro ano de mandato, ilustra bem 

isso. Maia se tornou o principal articulador da proposta do executivo na 

Câmara e conseguiu bem mais do que os três quintos dos votos da casa 

para aprová-la. O fato da proposta do governo ter sofrido emendas que 

levaram a uma diluição no seu impacto nas contas públicas, o que gerou 

algum atrito entre Maia e o superministro Paulo Guedes, não signifi

cava uma derrota do governo, mas sim a manifestação de um protago

nismo do legislativo que, apenas nos resultados, se assemelhava a uma 

coalizão legislativa.

Também como era de se esperar, a agenda da “lei e da ordem” pro

posta pelo executivo e que tomou forma no chamado “pacote anticri

me”, iniciativa do superministro Sérgio Moro, expoente maior do lava

jatismo, sofreu a resistência de Maia. Usando seu poder de agenda, no 

lugar de enviar a proposta para comissões, Maia formou um grupo de 

trabalho para apreciá-la, o que, na prática, era uma maneira de adiar 

sua tramitação. Esse grupo de trabalho acabou por substituir partes im

portantes do texto por um texto menos “punitivista” de autoria do ex

ministro da justiça e, na época, ministro do Supremo Tribunal Federal, 

11 Ao mesmo tempo que aprovava a cláusula de barreira e o fim das coligações, o 

que prejudicava pequenos partidos que, em geral, também eram os mais ideoló

gicos, Maia foi o maior responsável pelo abrandamento do pacote anticorrupção 

de iniciativa do Ministério Público que tramitou na Câmara em 2016. Essas me

didas favoreciam partidos e políticos dos grandes partidos tradicionais.

16

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

Alexandre de Moraes. Se no caso da reforma da previdência o texto do 

superministro Paulo Guedes foi apresentado na íntegra para que os de

putados pudessem “melhorá-lo”, no caso do pacote anticrime os pontos 

mais importantes para o superministro Sérgio Moro foram retirados 

do texto pelo grupo de trabalho, fora da tramitação normal, com pouca 

possibilidade dos aliados do governo reverterem a situação.

A capacidade do presidente da Câmara de decidir o andamento da 

agenda legislativa do executivo e, em especial, a capacidade de Maia em 

bloquear a pauta sociocultural, fez com que a relação entre os dois po

deres ficasse tensa. Ficava claro para o presidente que ele não consegui

ria construir uma coalizão majoritária no legislativo em torno de toda 

sua agenda. Por mais que o executivo ainda dominasse a produção legis

lativa, sendo responsável por 70% da legislação aprovada, projetos caros 

a Bolsonaro, como a flexibilização do comércio e porte de armas, não 

pareciam ter chance de caminhar no Congresso.

Após 100 dias de governo Bolsonaro mostrou como pretendia re

solver o conflito. Em reunião entre os chefes dos três poderes, disse que, 

apesar de Rodrigo Maia fazer as Leis, ele, Bolsonaro, tinha “com a cane

ta, muito mais poder” pois teria o poder de fazer decretos. Sua solução 

era desistir de vez das negociações com o congresso e executar sua pauta 

mais radical unilateralmente, por meio destes decretos.

Governando por decreto e com as ruas

No evento comemorativo dos 100 dias de governo, no clímax do 

conflito com o presidente da Câmara, Bolsonaro assinaria 18 de

cretos12 relacionados a metas estabelecidas no começo da gestão. Entre 

os temas contemplados estava a limitação da participação da sociedade 

civil em colegiados de monitoramento e controle da gestão pública, o 

12 Nos referimos aos atos normativos do presidente que tem caráter administrativo 

e que não passam pelo Congresso, embora possam ser anulados por decretos le

gislativos. Não confundir com Medidas Provisórias.

17

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

“ensino domiciliar” e a autonomia do banco central. A esses seguiram

se nos dias seguintes, decretos para facilitar a comercialização e porte 

de armas, para permitir maior controle de nomeações para cargos do 

governo, o que daria controle ao presidente sobre a nomeação de di

rigentes das universidades públicas federais, entre mais de 300 outros 

decretos.

Alguns desses decretos foram derrubados pelo Congresso. 

Conforme Rodrigo Maia “alguns decretos derrubamos porque ele 

[Bolsonaro] queria governar por decreto. Derrubamos para mostrar 

para o presidente que Câmara e Senado não admitiriam que ele ocu

passe a nossa função”13. Outros foram derrubados por ações junto ao 

Supremo Tribunal Federal.

Uma estimativa do Observatório do Legislativo Brasileiro14 mostra 

que Bolsonaro, em oito meses de governo, assinou 2,5 vezes mais de

cretos do que Dilma e 1,3 vezes mais decretos do que Lula, no mesmo 

intervalo de tempo. O Congresso, que não questionou nenhum dos de

cretos de Dilma, viu serem propostos 15 vezes mais decretos legislativos, 

instrumento usado para invalidar atos do executivo, durante o governo 

Bolsonaro do que durante o governo Lula.

O número de Ações Diretas de Inconstitucionalidade e Arguições 

de Descumprimento de Preceito Fundamental, propostas por partidos 

políticos contra atos do executivo subiram de 7 em 2017, para 17 em 

2019 e 37 em 2020. De 81 ações desse tipo recebidas pelo STF entre 2000 

e 2020, dois terços foram iniciados durante os dois primeiros anos de 

mandato de Bolsonaro.

O embate entre executivo e demais poderes, que deixara de se dar 

por meio do diálogo e negociação, acabou por ganhar as ruas. Em maio 

de 2019 milhares de pessoas saem às ruas por todo o Brasil contra cortes 

na educação propostos pelo Ministério da Educação. Dias depois mani

13 Ver https://www.metropoles.com/brasil/politica-brasil/rodrigo-maia-ele-bolso

naro-queria-governar-por-decreto, (acessado pela última vez em 15/04/2022)

14 Ver https://olb.org.br/o-que-a-guerra-de-decretos-diz-sobre-a-relacao-entre

congresso-e-executivo/ (acessado pela última vez em 15/04/2022)

18

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

festações pró-Bolsonaro também ganham as ruas, apoiando a reforma 

da previdência, o pacote anticrime, a Lava Jato e o superministro Sérgio 

Moro, além de fortes críticas a Rodrigo Maia, ao “centrão” e a membros 

do STF, como Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.

O embate nas ruas se reflete nas redes sociais onde membros do 

“núcleo duro” do governo, formado pelos filhos do presidente, por as

sessores ligados às forças armadas e pela ala “olavista”15, passam a ata

car diretamente o Congresso, o STF e a flertar com soluções autoritárias 

como a proposta do uso de um “novo AI-5”16 feita pelo deputado fe

deral Eduardo Bolsonaro para combater novas manifestações contra o 

governo.

No final de seu primeiro ano de mandato, Bolsonaro parecia perder 

o embate com os demais poderes. O apoio das ruas não fora tão massivo 

quanto o esperado por ele e, temendo a radicalização, atores importan

tes para a sua chegada ao poder se recusaram a participar das manifes

tações de maio, mostrando divisões na sua base social de apoio. Rachas 

no interior do governo, que levaram à saída de importantes ministros 

se tornaram cada vez mais frequentes. No final do ano Bolsonaro deixa 

o PSL, partido pelo qual se elegeu e fica sem partido. Surgem denúncias 

contra seus filhos e o superministro Sérgio Moro é suspeito de abuso de 

autoridade nos processos da Lava Jato, após áudios de diálogos dele com 

promotores terem se tornado públicos.

Com sua agenda ainda bloqueada, Bolsonaro vê sua militância e a si 

mesmo cada vez mais acuados por ações do judiciário. O STF abrira in

quérito contra ataques à corte e seus ministros feitas por parlamentares, 

empresários e blogueiros ligados a Bolsonaro. A relatoria do inquérito 

15 Ministros indicados por Olavo de Carvalho como Ricardo Vélez e Abraham 

Weintraub, na Educação e Eduardo Araújo nas Relações Exteriores.

16 O Ato Institucional nº 5 foi o mais duro instituído pela ditadura militar, em 1968, 

ao revogar direitos fundamentais e delegar ao presidente da República o direito 

de cassar mandatos de parlamentares, intervir nos municípios e Estados. Tam

bém suspendeu quaisquer garantias constitucionais, como o direito a habeas 

corpus.

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Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

coube ao ministro Alexandre de Moraes, o mesmo cujas propostas de 

reforma à legislação criminal foram usadas pela Câmara dos Deputados 

no lugar do pacote anticrime de Sérgio Moro.

Entre os investigados por Moraes estava membros do chamado 

“gabinete do ódio” estrutura montada no Palácio do Planalto para ata

car opositores ao governo fabricando e disseminando informações fal

sas e caluniosas. O chefe deste gabinete seria Carlos Bolsonaro, verea

dor carioca e filho do presidente. Além de se aproximar da família de 

Bolsonaro, as investigações de Moraes se relacionavam com as investi

gações do Tribunal Superior Eleitoral que poderiam levar à cassação da 

chapa que elegeu Bolsonaro.

O cerco da justiça a Bolsonaro e seus filhos levaram à saída de 

Sérgio Moro do governo. Moro se recusava a interferir nas investiga

ções da Polícia Federal sobre o senador Flávio Bolsonaro17. O presidente 

Bolsonaro passa por cima de seu superministro, primeiro substituin

do o superintendente da PF do Rio de Janeiro, responsável direto pelas 

investigações e, depois, o próprio diretor-geral da PF. Perdeu uma das 

principais estrelas de seu governo e, ainda, não consegue emplacar o 

seu nome preferido para o comando da Polícia Federal, pois o ministro 

Alexandre de Moraes acatou ação do PDT suspendendo a nomeação. Ao 

sair do governo, Moro acusa Bolsonaro de interferência política na PF. A 

acusação fez com que fosse aberta mais uma investigação no STF contra 

o presidente.

Enquanto Bolsonaro se enfraquecia e via a rejeição ao seu gover

no aumentando18, o Congresso se fortalecia. O presidente da Câmara, 

Rodrigo Maia, diante da omissão do executivo toma a inciativa de pau

tar as reformas tributária e administrativa. O congresso também aprova 

17 A PF do Rio de Janeiro investigava movimentações financeiras atípicas de sena

dor Flávio Bolsonaro quando era deputado estadual, suspeitas de serem fruto da 

apropriação de parte do salário de seus assessores à época.

18 Segundo o instituto Datafolha a proporção de pessoas que desaprovavam o go

verno, considerando-o ruim ou péssimo, passou de 30% nos primeiros três meses 

de governo para 48% após a saída de Moro.

20

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

o orçamento impositivo para as emedas parlamentares de bancada, au

mentando a autonomia do legislativo frente ao executivo e engessando 

quase totalmente o orçamento federal.

A este quadro de tensão entre os três poderes veio se somar a chega

da do novo coronavírus ao país. Enquanto a OMS decretava a pandemia 

e aconselhava os países a adotar o distanciamento social, Bolsonaro, te

mendo se enfraquecer ainda mais com os impactos do distanciamento 

na economia, minimizou a gravidade da doença causada pelo vírus di

zendo se tratar de “gripezinha” e caracterizou medidas de governadores 

para conter a disseminação como “histeria”.

Com essas declarações, e com atitudes como aconselhar o uso de 

medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença, Bolsonaro 

entrou em choque com seu ministro da Saúde, que acabou demitido, e 

com diversos governadores. A tentativa de Bolsonaro, de bloquear ações 

dos estados para evitar a disseminação da doença, só não foi bem-suce

dida pela intervenção do STF a favor dos últimos.

Cada vez mais isolado e impopular, Bolsonaro apela a seu núcleo 

mais fiel e participa de mais manifestações contra o distanciamento 

social e a obrigatoriedade do uso de máscaras. Nestas manifestações o 

Congresso e o STF são, mais uma vez, atacados e pede-se a volta do regi

me militar e do AI-5.

O radicalismo da base bolsonarista reflete o radicalismo do próprio 

governo. Em um vídeo de uma reunião do “conselho de governo” da 

Presidência, peça de acusação nas investigações do STF sobre a inter

venção de Bolsonaro na PF, aparecem ministros defendendo o fecha

mento da corte. O mais exaltado era o ministro da educação Abraham 

Weintraub , um dos mais fortes expoentes do “bolsonarismo raiz”, que 

acaba demitido. Em vídeo anunciando sua demissão Weintraub aparece 

ao lado de Bolsonaro que comenta:

É um momento difícil. Todos os meus compromissos de campanha conti

nuam de pé. Busco implementá-lo da melhor forma possível. A confiança 

você não compra, você adquire. Todos que estão nos ouvindo agora são 

21

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

maiores de idade, sabem o que o Brasil está passando. E o momento é de 

confiança. Jamais deixaremos de lutar por liberdade. Eu faço o que o povo 

quiser19.

Coalizão de Governo e a “velha política”

Cada vez mais isolado após ter decidido governar por decretos, 

Bolsonaro resolve dar uma guinada na sua estratégia política, so

mando às suas diatribes, negociações com os partidos do “centrão”, 

principalmente o PP, PL e Republicanos.

Em um primeiro momento, Bolsonaro abre o governo para a parti

cipação destes partidos no segundo e terceiro escalões, mas, em março de 

2021, a coalizão se concretiza com três ministros indicados pelo “centrão”, 

entre eles dois ministros do “núcleo duro”: Ciro Nogueira para a Casa 

Civil e Flávia Arruda para a Secretaria-Geral da Presidência, ambos do PP.

Bolsonaro também decide, desta vez, interferir na eleição da mesa 

da Câmara. Com o comando das articulações políticas nas mãos de um 

partido tradicional e utilizando métodos tradicionais, como a liberação 

de emendas, Bolsonaro enfim vence, ajudando a eleger, para a presidên

cia da Câmara, seu candidato preferido, o deputado Arthur Lira do PP, e 

derrotando o candidato de Rodrigo Maia, Baleia Rossi, do MDB.

A entrada do “centrão” no governo, com o necessário afrouxamen

to da política fiscal para acomodá-lo, afastou boa parte da ala liberal do 

governo, lotada no ministério da economia, enfraquecendo o último 

dos superministros, Paulo Guedes. Também enfraqueceu a ala “bolso

narista raiz” com a saída do contencioso ministro das relações exteriores 

Eduardo Araújo. 

O enfraquecimento dos expoentes das dimensões sociocultural e 

econômica e o recurso a políticos e políticas tradicionais, mostra que 

19 Recuperado de https://extra.globo.com/noticias/brasil/sem-citar-caso-queiroz-bolsonaro-diz-em-video-de-saida-de-weintraub-que-momento-difi

cil-24486454.html (último acesso em 15/04/2022)

22

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

não se tratava de uma coalizão para implementar a pauta do governo, 

mas sim para evitar que Bolsonaro, isolado, acabasse vítima de um dos 

vários pedidos de impeachment que deram entrada na Câmara.

O custo da “coalizão de sobrevivência” se fez sentir na proporção 

de pessoas que avaliavam o governo Bolsonaro como ruim ou péssimo 

que atinge seu pico no final de 2021 como consequência das denún

cias de omissão e suspeitas de corrupção na compra de vacinas con

tra o coronavírus, feitas pela CPI da Covid. Nem renovados ataques de 

Bolsonaro ao STF e à urna eletrônica, que beiram a ruptura institucio

nal, e nem a criação do “Auxílio Brasil” atenuam a péssima avaliação, 

embora mantenham uma substancial proporção de apoiadores em tor

no de 30%.

Ao mesmo tempo, graças às revelações das conversas de Sérgio 

Moro com os procuradores da Lava Jato, o maior líder do PT, Lula, que 

havia sido preso por Moro e libertado pelo STF em 2019, quando a corte 

considerou inconstitucional prisões após condenação em segunda ins

tância, vê as acusações contra ele retiradas pelo Supremo, o que permi

tiu sua candidatura à Presidência.

Temos assim, após três anos de caos político, um certo equilíbrio 

político. De um lado o PT que, em todas as eleições desde 1989, conta 

com o apoio de cerca de 40% de eleitores, e do outro Bolsonaro, que 

apesar de bater recordes de rejeição ao seu governo, mantém desde o 

início de seu governo um grupo de cerca de 30% de pessoas que acham 

o governo bom ou ótimo. É em torno desse equilíbrio que vai se mon

tando o cenário no qual as eleições de 2022 vão se desenrolar.

Coalizão de governo, coligações eleitorais, as disputas 

nos estados e cenários possíveis para as eleições de 2022

Vimos que Bolsonaro utilizou diferentes estratégias para se manter 

no poder. Em um primeiro momento tentou uma coalizão legis

lativa, acreditando que sua agenda coincidia com a preferência do le

gislador mediano. Mas, além de se equivocar quanto à distribuição de 

23

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

preferências na Câmara, Bolsonaro ignorou o fato de que o que impor

ta é a preferência do presidente e das lideranças do Congresso, que são 

quem detém o poder de agenda no legislativo e que ainda operavam em 

um espaço político unidimensional. Fracassada sua coalizão legislati

va, Bolsonaro passa a tentar executar sua agenda unilateralmente por 

decreto, decretos esses que são bloqueados tanto no Congresso quanto 

no STF. A dificuldade de Bolsonaro em negociar faz com que entrasse 

em conflito com os outros poderes e acabasse acuado. Abrindo mão 

de sua agenda principal e visando a sobrevivência política, Bolsonaro 

acaba por fazer uma coalizão integrando partidos no governo visando a 

construir um apoio mais sólido.

Cada uma destas estratégias acabou por delimitar o quadro de for

ças que participarão das próximas eleições. Das urnas de 2018 emergiu 

um cenário polarizado, com o PT como partido dominante à esquerda, e 

uma direita sem uma força dominante, mas unida em torno do sucesso 

eleitoral de Bolsonaro. Com o desenrolar do governo essa direita iria 

se dividir. Do conflito com a Câmara resultaria a primeira divisão com 

políticos da direita liberal se opondo à pauta de costumes e da “lei e da 

ordem”. A fase de governo por decreto (e alijamento dos partidos) cria 

um racha nas hostes bolsonaristas e contrapõe uma direita radical de 

tendência autoritária a uma direita antissistema, mas democrática. Por 

fim, a coalizão de governo com o “centrão” fortalece a direita pragmáti

ca. Hoje, portanto temos uma esquerda unida que se contrapõe a uma 

direita dividida.

A direita liberal, após o rompimento com Bolsonaro, viu com es

perança o protagonismo do governador, João Doria, no auge da pan

demia. Doria garantiu a vacinação da população contra o coronavírus 

apesar da inação do governo Federal, mas não conseguiu conver

ter este trunfo em ganho eleitoral. Abalado pelos seus embates com 

Bolsonaro, viu seu capital político diminuir ainda mais após conflitos 

em seu próprio partido, o PSDB. Pesquisas em abril de 2022 mostravam 

que menos de 3% do eleitorado tinha a intenção de votar em Doria 

para presidente.

24

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

A direita antissistema vai se unir em torno da candidatura do ex

juiz Sérgio Moro. O próprio caráter antissistema desse grupo, que reú

ne, além dos lavajatistas, membros de movimentos sociais que atuaram 

pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, fez com que Moro, 

sem espaço em partidos tradicionais se filiasse, em um primeiro mo

mento, a um partido sem muita relevância, o Podemos. Ao atribuir seu 

fraco desempenho nas pesquisas (não passando dos 10% de intenção 

de voto) à pouca estrutura do Podemos, filia-se ao recém-criado União 

Brasil, fusão dos Democratas com o PSL, mas, diante de embates com 

importantes lideranças partidárias em torno da conveniência de sua 

candidatura à presidência, acaba desistindo de se lançar. 

No momento de escrita deste texto a direita liberal e a direita an

tissistema ainda procuravam uma candidatura viável para o que ficou 

conhecido como a “terceira via”. O problema da viabilidade de uma ter

ceira via não está só na possibilidade de ela ficar espremida no centro do 

espaço político quando os polos adotam as estratégias corretas confor

me seus objetivos eleitorais. 

Todos os candidatos e seus partidos enfrentam um problema co

mum. O fato óbvio é de que para se chegar à presidência precisa-se de 

votos em todo território nacional e, para isso, dependem da construção 

de uma rede de apoio por todo o país. 

Para se montar uma rede de apoio os participantes devem ter recur

sos intercambiáveis. Recursos financeiros para a campanha, capacidade 

de inserção nas mídias, a “valência” dos candidatos20, entre outros, são 

trocados pelos candidatos nos diversos níveis. As alianças eleitorais se 

dão em torno desse intercâmbio de recursos e tem como característica a 

conexão preferencial, isto é, a tendência de que novos apoios se dão em 

proporção aos apoios já recebidos. Em outras palavras, alianças maiores 

tendem a receber cada vez mais apoios.

20 Por valência entende-se a associação de um candidato com temas unânimes 

como combate à pobreza, combate à corrupção, honestidade etc. (STOKES, 1963)

25

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

O presidente Bolsonaro, com seus fiéis 30% de apoiadores e sua ca

neta presidencial, se filia ao PL, partido do “centrão” e recebe apoio dos 

outros integrantes da direita pragmática como o PP, Republicanos, o PTB 

e o PSC. Com a migração de deputados da direita radical para esses par

tidos essa aliança se torna a maior força no Congresso, com 188 depu

tados e 19 senadores, e conta ainda com 5 governadores e 1502 prefeitos 

espalhados pelo país para garantir capilaridade à campanha presiden

cial. Esses apoios ajudam a nacionalizar a campanha de Bolsonaro e a 

estruturar, pelo lado da direita, a competição nos estados.

O ex-presidente Lula, se aliou aos principais partidos de esquerda, 

com exceção do PDT, que manteve a candidatura de Ciro Gomes, hoje 

isolado, espremido entre a esquerda unida e sem condições de um aceno 

para qualquer grupo da direita. Fazem parte da aliança o PSB, PCdoB, PV, 

Solidariedade, PSOL e Rede. Juntos essas legendas possuem 109 depu

tados federais, 8 senadores, 7 governadores e 620 prefeitos. Com esses 

apoios a campanha de Lula também se nacionaliza e os palanques esta

duais da esquerda começam a se montar em torno dela.

Se os partidos dos candidatos da “terceira via” se unissem poderiam 

conseguir a mesma capilaridade. PSDB, União Brasil e MDB juntos con

tariam com 122 deputados federais, 26 senadores, 9 governadores e 1858 

prefeitos eleitos em 2020. No entanto, sem nenhum candidato despon

tando nas pesquisas, esses partidos se defrontariam com um problema 

de escolha social. Sem uma decisão unânime, para qualquer maioria que 

se forme em torno de uma candidatura seria possível a formação de uma 

maioria alternativa pelos candidatos que se sentirem rejeitados. Mesmo 

se resolvido o problema de coordenação, haveria o problema de garan

tir a cooperação dos candidatos nos estados que poderiam se beneficiar 

mais da associação com as candidaturas de Lula e Bolsonaro. Os partidos 

da “terceira via” são partidos com força regional e mesmo encontrando 

um candidato, sem apoio em todo país esse candidato não se viabilizaria.

O tempo também joga contra a “terceira via”. Lula e Bolsonaro, já 

partem de um patamar alto de apoio eleitoral e, dado o fenômeno da 

conexão preferencial, o problema de deserções na “terceira via” já se faz 

26

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

sentir quando os jornais noticiam que o MDB de nove estados apoiarão o 

candidato do PT em detrimento da pré-candidata do partido, a senadora 

Simone Tebet21. Divisões internas também ocorreram no PSDB, onde a 

candidatura de João Doria sofria resistência mesmo após ter vencido as 

prévias do partido, e no União Brasil, onde as alas demista e pesselista 

se desentendem quanto à candidatura se Sérgio Moro à presidência22.

Sem uma coordenação entre a direita liberal e a direita antissistema, 

a disputa deve se consolidar entre Lula e Bolsonaro. A aliança da direita 

radical e da direita pragmática em torno de Bolsonaro mostra que este 

vai, mais uma vez, tentar fazer com que a dimensão sociocultural domi

ne os debates, ainda mais diante de um desempenho ruim da economia. 

O desempenho de Lula depende, ao contrário, de fazer com que a di

mensão econômica, que agora não se limita apenas à política fiscal, mas 

também à pauta econômico-social (crise, aumento da inflação, desem

prego e desigualdade) seja a mais saliente.

Nos estados onde as eleições são mais competitivas, ou seja, onde 

não há um candidato dominando as pesquisas, há a tendência de nacio

nalização da disputa com os candidatos de Lula e Bolsonaro se digla

diando. Essa é hoje a situação em alguns dos estados mais populosos, 

como São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Isso indica que a 

polarização política continuará forte23. 

Se em 2018 a surpreendente vitória de Bolsonaro introduziu no

vos partidos no cenário político brasileiro, contribuindo ainda mais 

para a fragmentação de seu sistema partidário, a aliança do presiden

te com partidos tradicionais como o PP e o PL indica que nas eleições 

de 2022 poderemos ter um movimento contrário. A volta do protago

21 https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/04/bolsonaro-e-lula-duelam-por

novos-aliados-e-buscam-cristalizar-polarizacao.shtml

22 Nem Moro e nem seu partido haviam decidido sobre a candidatura à presidência 

até a conclusão deste artigo.

23 Eleição polarizada entre dois candidatos não significa radicalização à esquerda e 

à direita; na verdade, o que coloca uma dificuldade a mais para a terceira via é o 

movimento de Lula para o centro.

27

Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

nismo de partidos tradicionais indica, também, que a renovação na 

Câmara e no Senado deve ficar perto da média dos anos anteriores ao 

fenômeno Bolsonaro, 45% dos 513 deputados e 27% dos 81 senadores. 

Apesar disso e das novas regras proibindo coligações eleitorais nas 

eleições proporcionais, a redução do número de partidos não deve ser 

tão grande e emergirá das urnas um Congresso ainda fragmentado, 

dado que os deputados são eleitos nos estados e em nem todos os es

tados a disputa será nacionalizada. Mais uma vez o Congresso deve se 

dividir entre esquerda, uma aliança liberal/antissistema e uma aliança 

radical/pragmática. Mais uma vez a necessidade de uma coalizão de 

governo irá se impor.

Antes de concluirmos é necessário uma nota de alerta. Nossa aná

lise considera como o cenário mais provável aquele em que a competi

ção se dará “dentro das quatro linhas” do jogo democrático, como diria 

Bolsonaro, mas a beligerância da direita radical, o desrespeito às insti

tuições, demonstrado pelo presidente, seus ataques ao processo eleitoral 

e àqueles que o conduz, sugerem que a probabilidade de ruptura insti

tucional, embora hoje pequena, não é negligenciável.

Considerações finais

O espaço político brasileiro se tornou bidimensional. A dimensão 

sociocultural que agrega temas como identidade de gênero, igual

dade racial, “lei e ordem”, entre outros, passou a ter o mesmo peso que 

a dimensão econômica, que dominou o debate durante as décadas de 

1990 e 2000. O aumento da saliência da dimensão sociocultural não se 

deve a mudanças nas “crenças e valores” do eleitor (BORGES e VIDIGAL, 

2018), mas sim à bem-sucedida estratégia eleitoral de Bolsonaro e seus 

apoiadores em 2018.

Se a introdução de uma nova dimensão favoreceu Bolsonaro nas 

eleições, ela fez com que entrasse em conflito com um legislativo insti

tucionalmente unidimensional. O poder de agenda dos presidentes do 

Senado e, principalmente, da Câmara dos Deputados; o controle das 

28

O Governo Bolsonaro e a Conjuntura Política Pré-Eleitoral 

lideranças partidárias no processo de votação, garantindo retorno em 

votos ou vetos a medidas desfavoráveis ao governo; fazem com que a 

pauta, mesmo com origem no executivo, tenha seu equilíbrio determi

nado por compromissos que se dão na dimensão escolhida por eles. A 

falta de capacidade ou de vontade de negociar por parte do executivo fez 

com que a pauta de costumes, outro nome para a dimensão sociocultu

ral, avançasse pouco no legislativo.

Diante do impasse, Bolsonaro apela para o poder da caneta pre

sidencial e, no lugar do diálogo, prefere governar por decreto. Isso faz 

com que não só acentue a crise com o legislativo, como passe a atritar 

também com o judiciário. Isolado e sem forças para reagir, Bolsonaro 

tem que dar uma guinada de 180 graus e fechar acordo com o “centrão” 

para sobreviver politicamente.

As mudanças na estratégia de governo fazem com que surjam divi

sões na direita. Quatro grupos se formam: a direita liberal que busca can

didatos nos tradicionais partidos de centro (PSDB, MDB e União Brasil, 

fusão do DEM com o PSL não-bolsonarista), a direta antissistema (que 

se reúne em torno do ex-juiz Sérgio Moro), a direita pragmática (com

postas pelos partidos do “centrão”) e a direita radical (o “bolsonarismo 

raiz”). As direitas radical e pragmática se juntam quando Bolsonaro se 

filia ao PL, já as direitas antissistema e liberal não conseguem se unir e 

formar uma “terceira via”.

Com a divisão da direita, mais uma vez o cenário é de polarização 

entre PT e Bolsonaro. É em torno deles que as alianças estaduais estão 

sendo traçadas e é alta a probabilidade de que um dos dois venha a ocu

par a presidência em 2023. Apesar da cláusula de barreira, a fragmen

tação partidária no legislativo deve continuar alta o suficiente para que 

o partido do presidente tenha que recorrer a coalizões que se darão em 

um sistema partidário não muito diferente do que temos hoje. A coexis

tência de presidencialismo e multipartidarismo faz com que no Brasil 

o governo seja um governo “da coalizão” (FREITAS, 2016). Não há alter

nativa e quem procurou uma pagou ou esteve próximo a pagar com o 

próprio mandato.

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Cadernos Adenauer XXIII (2022) nº1

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Fernando Guarnieri, cientista político, é professor-associado do Instituto de Estudos 

Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). Possui 

doutorado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (2009), atuou como pes

quisador no Centro de Estudos da Metrópole (CEM), no Centro Brasileiro de Análise e 

Planejamento (Cebrap) e como pesquisador visitante na Universidade de Maryland.

Argelina Figueiredo é professora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ) e pesquisadora sênior do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Ce

brap). Faz pesquisas sobre instituições políticas, coalizões de governo e relações execu

tivo legislativo, eleições e políticas públicas. É autora, dentre outros livros, de Democracia 

ou Reformas? Alternativas Democráticas à Crise Política (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 

1993) e, com Fernando Limongi, de Executivo e Legislativo na Nova Ordem Constitu

cional (RJ/SP, Editora FGV/Fapesp) (e-mail: argelina@iesp.uerj.br). o artigo dos autores Fernando Guarnieri e Argelina Figueiredo

Confira no Senado Federal. 

Confira no link a seguir .  https://normas.leg.br/?urn=urn:lex:br:federal:constituicao:1988-10-05;1988!tit4.

A Organização dos Poderes na Constituição Federal de 1988 (Título IV, arts. 44 a 135) estabelece a estrutura e o funcionamento dos órgãos que exercem a soberania estatal, baseando-se no princípio de que os poderes são independentes e harmônicos entre si.

O título está dividido em quatro capítulos principais:

1. Poder Legislativo (Arts. 44 a 75) 

Exerce as funções de legislar (criar normas) e fiscalizar (controle contábil e financeiro). 

Estrutura Bicameral: Composto pelo Congresso Nacional l, que se divide  ente Camara dos Deputados . (representantes do povo) e Senado Federal (representantes dos Estados e do DF).


Processo Legislativo: Define as regras para a criação de emendas à Constituição, leis complementares e ordinárias, medidas provisórias, entre outros.


Fiscalização: Exercida com o auxílio do Tribunal de Contas da União (TCU)


2. Poder Executivo (Arts. 76 a 91)

Chefia: Exercido pelo Presidente da República, auxiliado pelos Ministros de Estado.


Atribuições: Incluem sancionar e vetar leis, manter relações com Estados estrangeiros e exercer o comando supremo das Forças Armadas.


Conselhos: Estabelece o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional como órgãos de consulta do Presidente. 


3. Poder Judiciário (Arts. 92 a 126)

Responsável pela função jurisdicional, aplicando a lei a casos concretos para resolver conflitos. 

Órgãos: Incluem o Supremo Tribunal Federal (STF), o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Superior Tribunal de Justiça (STJ), tribunais regionais federais, além das justiças especializadas (Trabalho, Eleitoral e Militar).


Garantias: Magistrados possuem garantias como vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de subsídio para assegurar imparcialidade. 

A crise de representatividade política no Brasil foi o fator determinante que culminou na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Esse fenômeno refletiu o esgotamento do sistema político tradicional frente aos eleitores, que já não se viam representados pelas lideranças e partidos da época. Origens e Pilares da Crise de Representatividade O colapso da confiança pública nas instituições estruturou-se em três pilares principais: Operação Lava Jato: A investigação expôs esquemas sistêmicos de corrupção envolvendo os maiores partidos do país (PT, PMDB e PSDB), destruindo a reputação da elite política tradicional .Protestos de 2013 e Impeachment de 2016: As manifestações de Junho de 2013 demonstraram uma insatisfação generalizada com os serviços públicos e a classe política. Esse sentimento se intensificou com a crise econômica e o subsequente impeachment de Dilma Rousseff. Recessão Econômica: O país enfrentou uma das piores recessões de sua história entre 2014 e 2016, gerando desemprego em massa e aumentando a percepção de incompetência dos governantes .Como a Crise Viabilizou a Eleição de 2018Jair Bolsonaro soube canalizar o sentimento de "antissistema" que dominava o eleitorado através das seguintes estratégias :Dimensão Cenário de Crise Posicionamento de Bolsonaro Institucional  lRepulsa aos partidos e à política tradicional. Apresentou-se como um outsider (apesar de anos no Congresso), isolado do "centrão" na época. Segurança Pública Altos índices de criminalidade e sensação de impunidade. Discurso de tolerância zero, defesa do armamento e endurecimento penal. Comunicação Desconfiança da mídia profissional e da propaganda de TV.Uso direto das redes sociais (WhatsApp, Facebook) para falar sem intermediários com o eleitor  Ideológica  Desgaste da esquerda (PT) e insatisfação com a centro-direita clássica .Discurso fortemente anticomunista, patriota e de defesa dos valores religiosos e familiares. A eleição de 2018 funcionou como um voto de protesto contra o establishment. A fragmentação dos partidos tradicionais e o desejo de ruptura total abriram caminho para um discurso populista de direita, focado na moralidade, no nacionalismo e na promessa de varrer a velha política. Para aprofundarmos essa análise, você gostaria de focar em como as redes sociais mudaram a dinâmica daquela eleição ou prefere analisar o impacto dessa crise nos partidos tradicionais como o PT e o PSDB.

Vimos aonde isso foi parar com 700.000 brasileiros mortos pelo então presidente Jair Bolsonaro durante a Covid 19 .



E assim caminha a humanidade.

Imagem da BBC News .






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