sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Democracia x Extrema Direita. Algo que não combina.

 A extrema-direita (ou ultradireita) é um espectro político situado à direita da direita tradicional (mainstream), caracterizado por forte nacionalismo, ultraconservadorismo, autoritarismo e posturas antissistema ou críticas severas às instituições da democracia liberal.

Veja as carcateristicas .

 Nativismo e Xenofobia: Combinação de nacionalismo com rejeição à imigração e ao multiculturalismo, muitas vezes associada a teorias de conspiração como o "globalismo".

 Autoritarismo e Ordem: Defesa de uma sociedade estritamente hierarquizada, com foco em segurança pública rígida, endurecimento de penas e valorização da autoridade.

 Populismo Antissistema: Divisão maniqueísta da sociedade entre um "povo puro" e uma "elite corrupta" ou estabelecida, desacreditando a imprensa tradicional, a Justiça e o sistema político vigente.

 Economia: Frequentemente mescla discursos de defesa do livre-mercado ou neoliberalismo com medidas protecionistas e o chamado "chauvinismo do bem-estar social" (benefícios sociais restritos apenas aos nacionais nativos).

 Fatores Impulsionadores: Cientistas políticos apontam que a expansão global da extrema-direita no século 21 foi catalisada por eventos como os ataques de 11 de setembro de 2001, a crise financeira de 2008 e a crise de refugiados de 2015.

Estratégia Digital: O movimento contemporâneo utiliza redes sociais, comunidades online (como a alt-right) e táticas de guerra cultural para mobilizar eleitores fora dos canais tradicionais de imprensa e de partidos clássicos.

 Exemplos Globais: Partidos e figuras associadas a essa vertente incluem o Reagrupamento Nacional na França (Marine Le Pen), a Alternativa para a Alemanha (AfD), Viktor Orbán na Hungria, além de movimentos e lideranças nas Américas, como o bolsonarismo no Brasil e o trumpismo nos Estados Unidos.

A ascensão da extrema direita e os desafios 

ao estado democrático de direito no Brasil 

(2018-2022) 

Francisco Alencar Mota  

Universidade Estadual Vale do Acaraú, Brasil 

https://orcid.org/0000-0001-9246-9292 

alencarmota@uol.com.br 

Joannes Paulus Silva Forte 

Universidade Estadual Vale do Acaraú, Brasil 

https://orcid.org/0000-0003-3585-7066 

joannespaulus@virtual.ufc.br 

Introdução 

O objetivo deste artigo é analisar a ascensão de uma extrema direita política no 

Brasil, a partir do bolsonarismo1 e da eleição de Bolsonaro, em 2018, destacando as 

suas evidências empíricas e os impactos sobre o estado democrático de direito. Di

ante disso, o trabalho foi orientado pela seguinte pergunta-síntese: quais os impactos 

1Levando em conta as reflexões de Adriano de Freixo e Rosana Pinheiro-Machado (2019), 

Leonardo Avritzer (2021) e Camila Rocha e Esther Solano (2021), entendemos por 

bolsonarismo o movimento político-ideológico engendrado em torno da figura de Jair 

Bolsonaro – embora ele o tenha apenas como representação emblemática –, constituído por 

elementos culturais da extrema direita, que se reproduz com o suporte das redes sociais 

virtuais, relacionando bandeiras conservadoras reacionárias e neoliberais em confronto com 

os princípios republicanos e com o estado democrático de direito.  

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A ascensão da extrema direita... 

da ascensão da extrema direita, a partir do bolsonarismo e da eleição de Bolsonaro, 

no estado democrático de direito no Brasil? Na busca de respostas, debruçamo-nos, 

teórica e conceitualmente, sobre a categoria “extrema direita”, recorrendo a auto

res/as que tão direta e oportunamente trataram do tema, motivo pelo qual integram 

a base teórica da reflexão sobre a atual realidade política brasileira. 

Com uma abordagem dialética (GAMBOA, 2013), a metodologia adotada foi a 

análise teórico-descritiva para a compreensão dos fatos, tomados como fenômenos 

histórico-sociais e devidamente selecionados a partir de dados extraídos de jornais, 

revistas, websites, canais da internet, documentação de órgãos e entidades públicas 

e judiciais, matérias veiculadas em telejornais, confrontando-os com as análises 

dos/as autores/as citados/as ao longo do trabalho. Perseguimos o que significou essa 

ascensão em termos de reconfiguração das relações de poder entre Estado e socie

dade, sob o governo Bolsonaro, com foco nos resultados para o estado democrático 

de direito, em que pesem os riscos a que estão submetidas suas instituições, a segu

rança jurídica e a própria agenda de inclusão social, que cedera lugar a um discurso 

ideologicamente moralista, religioso e patriótico, típico do populismo autoritário de 

governos de extrema direita, como demonstramos adiante.  

Na segunda seção, mostramos que a categoria “extrema direita” preserva, ainda, 

bastante de sua força teórica e elucidativa dos processos sociopolíticos que atraves

samos, como variação da díade “direita-esquerda” (BOBBIO, 2011) que povoa a 

topografia política no imaginário coletivo. Com essa discussão, evidenciamos o po

tencial heurístico da categoria extrema direita à qual se associa o bolsonarismo, o 

populismo autoritário (TORMEY, 2019) à brasileira que se confronta com o estado 

democrático de direito. 

Adentramos a terceira seção do trabalho reconstruindo os fatos observados da 

realidade política brasileira, em termos empíricos, perquirindo sempre a resposta à 

pergunta que propomos de início. Considerando que nosso recorte temporal se inicia 

em 2018, ano em que a “extrema direita” ascende aos poderes legislativo e executivo 

federais brasileiros, via bolsonarismo, a reconstrução dos fatos por nós empreendida 

demandou que retrocedêssemos até o marco histórico da mais recente redemocrati

zação – meados dos anos 1980, para vermos, na origem, como cada momento que 

destacaremos se configurou a partir de sua relação com a democracia, a julgar pela 

inserção do país na ordem internacional que assim a requeria, com aparente descon

tinuidade, principalmente a partir de 2016, e sob o atual governo, de matriz popu

lista-autoritária, o que tem animado o debate sobre a chamada “nova direita”2, no 

Brasil. 

Assim, ao longo do texto, desenvolvemos nossa análise da ascensão da extrema 

direita, marcada pelo “populismo autoritário” (TORMEY, 2019; MOUNK; 2019; 

AVRITZER, 2021), sob o governo Bolsonaro, com suas devidas especificidades, e 

2De acordo com Vera Cepêda (2018), não é possível falar de uma nova direita como um bloco 

monolítico, mas como uma constelação de “famílias”, ou parafraseando a autora, 

“prateleiras” de um armário em que se distingue diferentes concepções, ideias e valores. Com 

isso, entre as novas direitas, destacamos o bolsonarismo no centro de nossa análise.    

Revista de Ciências Sociais — Fortaleza, v. 54, n. 1, mar./jun. 2023, p. 259–287. 

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seus impactos negativos sobre as principais instituições do estado democrático de 

direito no país, a cargo das classes sociais dominantes, com ameaças à ordem jurí

dica, ataques aos direitos humanos e à cidadania, com efeitos deletérios da agenda 

de inclusão social, fenômeno intimamente ligado à crise da democracia brasileira.  

Fundamentos teóricos para uma topografia 

política: a atualidade da categoria “extrema 

direita” 

Os resultados das eleições majoritárias de 2018 à presidência da República, no 

Brasil, causaram, sob determinado aspecto, relativa “surpresa” a uma parcela signi

ficativa da população, mesmo as pesquisas ao longo da campanha eleitoral tendo 

apontado, desde o início, o favoritismo do então candidato Jair Messias Bolsonaro, 

vitorioso nesse pleito pelo Partido Social Liberal (PSL). Cientistas políticos, jorna

listas, os próprios candidatos concorrentes, analistas, em geral, dentre outros, se sen

tiram como que tomados de sobressalto, tanto com os resultados do primeiro quanto 

do segundo turno das eleições, e parte significativa da sociedade brasileira se que

dava diante do desfecho final.3 Afinal, ganhou o candidato tipo “bufão”, aventureiro, 

tachado de despreparado, agressivo contra mulheres, pessoas LGBTQIA+, movi

mentos sociais progressistas, imprensa, adversários, e ainda, tendo estado ausente a 

todos os debates políticos programados, não hesitando em responder, diante de per

guntas cuja matéria não escondia ignorar (principalmente em se tratando de temas 

de natureza econômica), que não tinha a obrigação de saber de tudo, e que, por isso, 

perguntassem ao “Posto Ipiranga”, alusão comparativa a quem, mais tarde, tornar

se-ia o ministro da área econômica do novo governo, o senhor Paulo Guedes, con

siderado inicialmente o “homem forte” ou o “super ministro” do presidente.  

Corroboravam a descrença na candidatura de Bolsonaro fatos concernentes à sua 

própria biografia, quando então deputado federal, condição em que permaneceu du

rante sete mandatos consecutivos, antes de se candidatar à Presidência da República, 

tendo sempre se manifestado de forma jocosa, agressiva, desdenhosa e por vezes 

ameaçadora às instituições do estado democrático de direito e aos direitos das pes

soas, defendendo publicamente ideias tais como a tortura, a sonegação de impostos, 

a ditadura militar, o fechamento do Congresso Nacional, a guerra civil, a posse de 

3A rigor, nada ou pouca coisa acontece de “surpresa” em se tratando de realidade histórica. O 

surgimento de uma “nova direita” no Brasil, assim como a própria vitória de Bolsonaro nas 

eleições de 2018, é o resultado de processos e contradições históricas que se vinham 

descortinando já há vários anos. Rocha e Solano (2021), por exemplo, remontam às origens 

da nova direita no Brasil já pelo início do segundo período do governo Lula (2006), assim 

como o “bolsonarismo”, enquanto fenômeno populista, ao ano de 2014 e seguintes (ROCHA; 

SOLANO, 2021). 

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armas e a pena de morte. Assim como o período de quinze anos em que Bolsonaro 

serviu ao Exército Brasileiro, cuja carreira foi interrompida em função de sua ida 

precoce para a reserva, após imbróglios decorrentes de seu envolvimento em atos 

indisciplinares que lhe custaram a condenação perante um conselho de justificação 

do Exército, ainda que, posteriormente, absolvido perante o Superior Tribunal Mi

litar (STM), cuja decisão se tornou, na versão de um biógrafo, controversa (CAR

VALHO, 2019).   

Bolsonaro elegera-se com maioria absoluta de votos, em segundo turno, 

como requer a legislação eleitoral, atingindo um total de mais de 57 milhões de 

votos, assumindo o poder no início do ano seguinte (2019), reafirmando as princi

pais promessas de campanha.4 A despeito da “surpresa” que a vitória de Bolsonaro 

causou a diversos segmentos sociais e políticos, fato é que candidatos com caracte

rísticas e propostas semelhantes às dele, de perfil populista-autoritário e ideologia 

nacionalista, ganharam eleições em outras partes do globo – Duterte, nas Filipinas, 

em 2016; Trump, nos EUA, em 2016; Orbán, na Hungria, em 2018 (reeleição); 

Johnson, no Reino Unido, em 2019; Duda, na Polônia, em 2020 (reeleição), dentre 

outros –, sugerindo que, no mínimo, no Brasil não seria algo assim tão improvável 

de se repetir (TORMEY, 2019). 

No entanto, bem mais além das características pessoais e circunstanciais do 

candidato Bolsonaro, ainda que estas não possam ser desprezadas em análise, antes, 

significativas, repousamos nossa ênfase notadamente no que representou a sua vitó

ria eleitoral, em termos da ascensão do que se convencionou denominar de “extrema 

direita”, sob o populismo autoritário. Sobre a noção de “populismo autoritário”, nos 

baseamos em Tormey (2019), Mounk (2019) e Avritzer (2021). Trata-se de uma 

categoria para dar conta de uma nova realidade em que as relações entre governo e 

povo se caracterizam de forma excludente, quando comparada a formas mais tradi

cionais de populismo, inclusive com a resiliência do próprio povo, categoria básica 

do populismo, como bem analisou Mounk (2019), ao explicar o aparente paradoxo 

quando da animosidade do povo contra a própria democracia. E, ainda, para explicar 

processos em que a despeito de o povo se constituir como categoria básica do popu

lismo, na realidade, encontra-se subsumido à dominação dos próprios governos po

pulistas, os quais buscam a destruição de seus direitos. Se em termos tradicionais o 

populismo era pensado em termos de integração do povo, sob as formas mais recen

tes vemos uma espécie de “integração” destrutiva de seus direitos. 

Quanto aos termos “direita” e “esquerda”, assim como suas variantes – “centro”, 

“centro-direita”, “centro-esquerda”, “extrema direita”, “extrema-esquerda”, para 

nos limitarmos a essas combinações,  são representações mentais para conformar ou 

delimitar determinados espectros político-ideológicos, normalmente carregando 

4Dentre as principais promessas de campanha de Bolsonaro estavam a de combater a corrupção; 

acabar com a “velha política”; extirpar o comunismo e as esquerdas do país; acabar com a 

reeleição para presidente e reduzir o número de parlamentares; acabar com as indicações a 

cargos políticos e escolher o ministério por critérios técnicos; diminuir o número de 

servidores comissionados; instituir renda mínima e pagar 13º para quem recebe Bolsa 

Família. 

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também bandeiras programáticas de natureza econômica e social, especialmente 

concernentes ao papel do Estado, às políticas sociais, ao intervencionismo na eco

nomia, às reformas estruturantes dos sistemas trabalhista, previdenciário, tributário, 

educacional, dentre outras, e que têm servido à análise teórica e à compreensão das 

práticas políticas, narrativas e discursos. Compreendê-las requer, em alguma exten

são, nos reportarmos a outros parâmetros ideológicos indicativos de conteúdos pro

gramáticos, servindo-nos de exemplos: comunismo/socialismo, de espectro de es

querda; liberalismo/neoliberalismo, de espectro de direita; e social-democracia, de 

espectro intermediário ou “terceira-via”, respeitada a diversidade de variações, gra

dações e conformações, quer aos contextos históricos, quer à análise semântica, e, 

ainda, os usos pragmáticos das expressões, razão pela qual uma determinada ban

deira programática poderá ser enquadrada, ora como de esquerda, ora como de di

reita, ou alguma variação para um ou outro lado da tradicional díade esquerda-direita 

(BOBBIO, 2011), a depender da conformação ao contexto histórico em análise. 

Tomamos emprestado o termo “díade” a Norberto Bobbio (2011), que, para o 

autor, é um modelo de pensar explicativo por contraste aplicado a diversas discipli

nas – psicológicas, sociológicas, históricas, filosóficas, econômicas, estéticas e bio

lógicas, e na esfera política por meio do par antagônico “direita-esquerda”. Tendo 

em mente que essa díade, como trabalhada por Bobbio (2011), foi pensada a partir 

de contextos históricos europeus, realizamos as devidas adaptações ao contexto bra

sileiro, onde há o fenômeno das alianças entre uma multiplicidade de forças políti

cas, especialmente partidárias. Tais forças se relacionam em um jogo de concessões 

que se materializa pela via jurídico-institucional, na figura das coligações e coali

zões partidárias, de caráter flexível e efêmero, a depender de seus interesses, nos 

pleitos eleitorais e na conformação da governança, envolvendo cargos eletivos e 

comissionados nas esferas municipais, estaduais e federal, bem como parcelas do 

poder político.   

Com base no contexto europeu, temos, originariamente, uma clássica configu

ração topográfica da política, quando da necessidade de dar rumos à Revolução 

Francesa, em função das novas contradições no interior da própria classe revoluci

onária. Trata-se das representações topológicas de direita e esquerda, representadas 

respectivamente por girondinos e jacobinos, em alusão às posições que os parlamen

tares de um e de outro ocupavam na Assembleia Constituinte, ao longo da primeira 

fase da Revolução Francesa – os girondinos à direita, enquanto os jacobinos, à es

querda, mas que rivalizavam a partir de diferentes propostas para o futuro da Revo

lução na França.5  

5Enquanto os girondinos, especialmente formados pela alta e média burguesia, e mesmo nobres, 

mostravam-se moderados e defensores de uma monarquia constitucional que impusesse 

limites ao poder do rei; os jacobinos, formados pela baixa burguesia, artesãos, trabalhadores 

urbanos, defendiam, por outro lado, a Proclamação da República, com o representante 

escolhido pelo povo.   

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O desenvolvimento do marxismo na Europa (e em outras partes do mundo), a 

partir das ideias do próprio Marx, sobretudo quando no âmbito da Associação Inter

nacional dos Trabalhadores (AIT), a primeira das Internacionais Socialistas, em 

1864, resultou na fragmentação de diferentes variações no interior da própria es

querda, opondo, de um lado, os revolucionários (Bakunin, Kautsky, Plekhanov, 

Trotski) aos reformistas (Berstein, Lassalle), abrindo-se uma brecha para que posi

ções intermediárias emergissem no interior dos embates políticos. No campo da di

reita, esta passou a representar a continuidade do próprio modelo econômico capi

talista, seus princípios básicos e o primado do capital transformado em status quo 

predominante ao longo da história.  

A topografia política definida pela díade direita-esquerda atravessou as décadas 

seguintes, à medida que as contradições, principalmente de classe, se fizeram deter

minantes para conformar diferentes matrizes político-ideológicas, ressaltando os in

teresses das classes representantes do capital em oposição ao trabalho, e os métodos 

de se lidar com tais contradições, seja pela via da conciliação, seja pela via da supe

ração revolucionária. 

Em importante trabalho (hoje, considerado clássico), Adam Przeworski (1989) 

analisa o esgotamento do que foi a esquerda revolucionária, ao longo do século XX, 

diante do recrudescimento do que passou a ser denominado de “social-democracia”, 

quando do dilema em que a classe trabalhadora esteve entre as seguintes opções: 

permanecer fiel ao ideário revolucionário, enquanto classe trabalhadora exclusiva, 

abdicando totalmente do capitalismo, ou fazer avançar o socialismo no interior das 

próprias instituições capitalistas, obtendo reformas e progressos parciais, lançando 

mão de alianças com outros partidos. A partir de apurada análise dos resultados 

eleitorais dos principais países europeus, Przeworski (1989) pode concluir ter pre

valecido a abdicação do projeto revolucionário por parte dos mais importantes e 

decisivos partidos socialistas europeus em prol de uma política de alianças com vis

tas ao avanço de bandeiras socialistas, através do sufrágio sob o “capitalismo demo

crático”, destacando-se dois fundamentais partidos políticos europeus de ideologia 

social-democrata (o Partido Trabalhista, da Inglaterra, e o Partido Social-Demo

crata – SPD, da Alemanha), de espectro de centro-esquerda, sob o primado do Wel

fare State. Pontua ainda o autor que não se tratou de mera decisão em face de opções, 

mas que as circunstâncias históricas atravessadas pelo desenvolvimento do capita

lismo estabeleceram condições históricas materiais para que assim o fosse, em con

traposição ao horizonte longínquo e incerto de um processo revolucionário, como 

teoricamente pretendido. Fato é que, na díade direita-esquerda, as representações 

topográficas da política sofrem um embaralhamento, ainda que mantendo sua base 

significativa referencial. Em contrapartida, desenvolveram-se igualmente pela di

reita as ideologias liberais e neoliberais, estas últimas também designadas de “nova

direita”, tendo-se como principais referências os governos dos EUA, com Reagan; 

do Reino Unido, com Tatcher; e do Chile, com Pinochet, inspirados nas teorias eco

nômicas de Hayek e Friedman, que lhes serviram de fundamentos para seus projetos 

políticos.        

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Focando o contexto histórico no qual centralizou seu objeto de análise – a mo

dernidade e suas consequências para a vida social e a política –, Anthony Giddens 

(1996), escrevendo em meados da década de 1990, mostra-se pessimista quanto à 

manutenção dos termos “direita” e “esquerda”, outrora significativos, para referen

ciar a compreensão da política atualmente. Segundo o autor, diante das mudanças 

na sociedade moderna decorrentes do avanço da tecnologia, da competitividade, da 

globalização, da lucratividade, do aumento da pobreza e da desigualdade, da degra

dação ambiental, fenômenos que impuseram graves riscos e incertezas à contempo

raneidade, resultando inclusive na desintegração do socialismo e do conservado

rismo, impõe-se pensar a realidade a partir de novos referenciais, como parte do que 

denominou de “política radical reconstituída”, a saber: a vida coletiva, a própria 

humanidade, a justiça e a ética social, a própria democracia, a qual deverá estar 

atrelada aos valores de autonomia e solidariedade.  

Para isso, Giddens (1996) esboça, a título de alternativa (radical), sua proposta 

de reconstrução da política fundada não mais em torno das referências direita-es

querda, mas em alguns pontos que englobam: a reconstrução da solidariedade social, 

em todos os níveis – individual e social –, sob novas bases que envolvam a autono

mia e interdependência, através da confiança; uma política de vida com base nas 

identidades e escolhas, em que sejam trazidas questões concernentes ao trabalho, à 

ecologia, ao feminismo etc.; uma “política gerativa” que possibilite a tomada de 

decisões por indivíduos e grupos em relação a questões diversas de “política de 

vida”, com base na confiança dos programas por parte do Estado; uma “democracia 

dialógica”, pensada para além da esfera política propriamente dita, mas enquanto 

espaço público e relações interindividuais, grupais e sociais, de uma maneira geral; 

repensar o Welfare State sob um novo acordo – de bases não mais verticais, como 

que distribuídas, mas em termos de solidariedade social. Por fim, o problema da 

violência, não mais baseado na segregação, mas no diálogo, em que o embate de 

valores é uma forma de autoconhecimento. Mister salientar que Giddens, anos após 

a publicação da obra em comento, publicou igualmente A terceira via (1999), con

solidando-se como o pai da “terceira via”, ao propor novos horizontes referenciais 

para se pensar a política em tempos mais recentes.  

Contudo, foi Bobbio (2011) quem nos legou uma análise mais pormenorizada 

dos termos “esquerda” e “direita” propriamente ditos, refletindo sobre essas catego

rias no mesmo período em que Giddens também o fez. Segundo o autor, a despeito 

das transformações históricas e sociais ocorridas nas últimas décadas, no interior 

das quais se tem as mudanças na própria política, somadas as críticas de diversos 

autores às representações da política em termos de “esquerda” e “direita”, a díade 

“esquerda-direita” permanece de grande significado para se compreender a dinâ

mica política, ainda que não possa mais estar associada necessariamente aos regimes 

comunista e capitalista, respectivamente.  

Bobbio (2011) não nega a complexidade, as confusões, nem os riscos inerentes 

ao uso dos termos da referida díade, sobretudo quanto ao suposto caráter polissê

mico que esses termos encerram, mas também quanto a noções apregoadas, ora por 

um polo, ora por outro, à sua própria maneira, como a de igualdade e liberdade, 

Revista de Ciências Sociais — Fortaleza, v. 54, n. 1, mar./jun. 2023, p. 259–287. 

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assim como as diversas objeções à utilidade da referida díade, as quais foram relem

bradas pelo autor já no seu primeiro capítulo (A distinção contestada), apresentando 

suas contraobjeções a cada uma das objeções suscitadas.6  

Conforme Bobbio (2011), a díade “esquerda-direita”, a despeito de aparentar 

pressupor tão somente dois polos antitéticos rígidos, admite a flexibilidade, sem mi

tigar sua relevância e significação, podendo-se, nesse sentido, falar-se de um “cen

tro”, enquanto zona intermediária, bem como de outros lugares à medida da movi

mentação do pêndulo para um ou outro polo à distância da extremidade. Nesse sen

tido, expressões como as que já declinamos aqui – “centro-direita”, “centro-es

querda”, e, ainda, “extrema-esquerda” (ou esquerda inicial), “extrema direita” (ou 

direita final) são todas flexibilidades da própria díade e se alimentam desta, sem 

perder seu caráter antitético. Tal abordagem nos serve de fundamento, como desen

volveremos, para concluirmos em favor da possibilidade de podermos nos referir à 

existência, hoje, de uma “extrema direita”, no Brasil, a partir do que Bobbio (2011) 

denominou de “direita final”, definida pela posição mais à direita possível, no par 

antagônico esquerda-direita, conferindo-lhe características fáticas como o faremos 

no presente texto.  

Da mesma forma, quando, por exemplo, um governo originariamente de es

querda ou de direita está no poder, e se desloca mais para o lado oposto à sua posição 

originária, não significa mitigação da díade; ao contrário, se lhe afirma, posto que a 

referência básica terá sempre esse caráter de originalidade. Na experiência política 

brasileira recente, servem de exemplo os governos do Partido dos Trabalhadores 

(PT), que venceu pela primeira vez as eleições presidenciais em outubro de 2002, 

através da candidatura de Luís Inácio Lula da Silva, e que se manteve no poder até 

o ano de 2016, quando a então presidente Dilma Rousseff, do mesmo partido, que 

sucedeu a Lula, sofreu processo de impeachment.  

A despeito de o PT ser histórica e originariamente um partido considerado de 

esquerda, ao longo do seu governo deslocou-se mais para o centro, dada a sua polí

tica de coalizão estabelecida para fins de manutenção da governança, sem que, por 

isso, tenha necessariamente perdido sua caracterização de “partido de esquerda”. 

6De acordo com Bobbio (2011), são as seguintes as principais objeções que aparentemente 

justificariam o suposto caráter anacrônico da díade: a perda de referência em função da 

denominada “crise das ideologias”, contra-argumentando o autor que “não há nada mais 

ideológico do que a afirmação de que as ideologias estão em crise” (BOBBIO, 2011, p. 51); 

o fato de a díade não poder resistir em face da complexidade das sociedades atuais, contra o 

que o autor argumenta que a díade é flexível para dar conta de tais complexidades; e, por fim, 

o surgimento de novos problemas políticos como decorrência das dinâmicas sociais, do que 

serve de exemplo os Verdes, contra o que o autor argumenta apontando a necessidade de se 

levar em consideração o contexto histórico para se afirmar se tal movimento é de direita ou 

esquerda (BOBBIO, 2011). 

Revista de Ciências Sociais — Fortaleza, v. 54, n. 1, mar./jun. 2023, p. 259–287. 

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Francisco Mota e Joannes Forte  

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Não sem motivo, o partido sofreu críticas de seus próprios membros pelo afasta

mento de sua posição originária7, assim como também de adversários, que lhe atri

buíram, como ainda hoje o fazem, até mesmo como forma de deterioração da ima

gem do partido no contexto social mais amplo, a pecha de esquerda extremista8. 

Acresce-se, em continuidade com o autor, que a possibilidade teórica de uma 

“terceira via” originária, posição que Bobbio (2011) denominou de “terceiro inclu

ído”, igualmente em nada mitiga a relevância da díade, mas tão somente a confirma, 

consistindo-se em um mero deslocamento de um de seus polos. Tem-se, assim, duas 

formas na expressão do autor: o “terceiro incluído”, o qual busca um espaço entre 

os dois opostos da díade, sem, no entanto, eliminá-los, antes, afastando-os um do 

outro, colocando-se como uma terceira opção entre ambos; e o que denominou de 

“terceiro inclusivo”, o qual vai além dos dois opostos, englobando-os em uma sín

tese superior, portanto, anulando-os em prol de uma totalidade dialética. A rigor, a 

expressão “terceira via”, pelo menos como proposta por Giddens (1999), se refere 

mais especificamente ao que Bobbio (2011) denominou de “terceiro inclusivo”, se

não vejamos: 

Em termos práticos, uma política de terceira via é uma política de cen

tro, mas idealmente ela se apresenta não como uma forma de compro

misso entre dois extremos, mas como uma superação simultânea de um 

e de outro, e, portanto, como uma simultânea aceitação e supressão de

les (e não, como na posição do terceiro incluído, refutação e separação) 

(BOBBIO, 2011, p. 56). 

A pré-candidatura de Ciro Gomes (Partido Democrático Trabalhista – PDT) à 

presidência da República nas eleições de 2022, tendo o candidato já disputado três 

outras vezes tais eleições, é a que explicitamente se apresenta como uma pretensa 

“terceira via” originária, manifestando o posicionamento “nem, nem” (“nem Lula, 

nem Bolsonaro”), chegando a ser favorecida pelo seu desempenho nas pesquisas 

eleitorais com a terceira colocação, em agosto de 2021, explicando-se, assim, a in

tensificação das críticas de Ciro, ora a um, ora a outro, desses pré-candidatos.9  

7Aqui reside, segundo José de Souza Martins (2016), uma das maiores críticas feitas ao PT, até 

mesmo por integrantes e ex-integrantes do partido, que o acusaram de abandonar pautas 

históricas em troca da governabilidade por si, o que, segundo muitos desses críticos, teria 

sido a causa de sua derrocada, em 2016.  

8Não por acaso, hoje, no Brasil, apoiadores do presidente Jair Messias Bolsonaro, integrantes 

da extrema direita, um dos polos da polarização em que se encontra a disputa política no país, 

se referem aos eleitores e simpatizantes do ex-presidente e potencial candidato nas eleições 

presidenciais de 2022, Luís Inácio Lula da Silva, pelo termo depreciativo “esquerdopatas”, 

ressaltando-se que, na visão dos extremistas, conforme se apresentam, sobretudo nas redes 

sociais e canais na internet, a pecha de “esquerdopatas” se estende a todos que, de uma forma 

ou de outra, exercem algum tipo de crítica ou se opõem às ideias do presidente Bolsonaro, 

incluindo ex-aliados. 

9Ao longo de boa parte do ano de 2021, as pesquisas apontaram para uma polarização entre os 

candidatos Bolsonaro e Lula, visando as eleições de 2022, e, surpreendentemente, enorme 

distanciamento do segundo para o terceiro lugar, este de modo a revezar diferentes nomes, e 

sinalizando falta de perspectivas de rompimento dessa polarização. Por outro lado, 

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A ascensão da extrema direita... 

Sob o pressuposto de que direita e esquerda possam ser igualmente extremistas, 

diferenciando-se tão somente pelo conteúdo de seus programas políticos, Bobbio 

(2011) propôs, como contrapartida da posição extremista, a moderação, de forma a 

sugerir uma espécie de nova díade – “extremismo-moderantismo” para conformar a 

posição extremista à topografia política. Sob tal proposta, impõe-se nova caracteri

zação de cada uma das partes da díade extremismo-moderantismo, seja de direita, 

seja de esquerda, de forma que uma direita extremista se torne tanto parecida com 

uma esquerda extremista, quanto uma direita moderada com uma esquerda igual

mente moderada, ambas se diferenciando de suas próprias posições extremas:  

A díade extremismo-moderantismo não coincide com a díade direita

esquerda e obedece, como veremos, a um critério de contraposição no 

universo político diverso daquele que é indicado pela distinção entre 

direita e esquerda (BOBBIO, 2011, p. 69). 

Sobra-nos, por conseguinte, na esteira estendida pelo autor, caracterizar cada um 

dos polos dessa nova díade – extremismo e moderantismo.  

A democracia é a característica maior do moderantismo, assim como tudo que é 

gradual, prudente, reformista, tolerante e afeito ao compromisso e à solução pacífica 

dos contrastes, de onde concluímos que a democracia não é afeita ao autoritarismo. 

Por outro lado, o polo “extremista”, de direita ou de esquerda, carrega as caracterís

ticas do que é catastrófico, disruptivo, irracional, anti-iluminista e antirrevolucioná

rio, afeitas, portanto, a formas de autoritarismo, que dispensa o diálogo e a solução 

pacífica dos conflitos. 

Ao caracterizar a posição extremista como o fez, Bobbio (2011) não quer 

sucumbir à díade originária “direita-esquerda”, mas, ao contrário, atualizá-la em ter

mos de como ela se manifesta em situações antidemocráticas, fazendo sempre alu

são às correntes fascistas e comunistas, que, segundo o autor, respeitadas suas dife

renças mutualmente excludentes na prática política, se encontram diante de um ini

migo comum – a democracia, “com suas regras que permitem a alternância entre 

direita e esquerda” (BOBBIO, 2011, p. 77).  

No tempo em que o presente texto está sendo escrito, a democracia brasileira 

atravessa talvez sua maior crise, desde a redemocratização, em meados da década 

articulações tem havido com vistas à proposta de uma terceira via diante de um quadro em 

que, ironicamente, os atuais pré-candidatos que polarizam o topo das pesquisas são, 

contraditoriamente, também os que ocupam o topo das pesquisas quando dos índices de 

rejeição. São exemplos também de outros nomes que se ventilam como possíveis alternativas 

de uma terceira via: João Dória e Eduardo Leite (ambos do PSDB), Simone Tebet (Movimento 

Democrático Brasileiro – MDB), Sérgio Moro (Podemos), Luiz Henrique Mandetta 

(Democratas – DEM), ventilando-se também os nomes de pessoas de fora do espectro 

político tradicional, tais como José Luiz Datena, jornalista, e Luciano Huck, apresentador de 

programa televisivo, ainda que não consolidadas. Movimentos identificados com o espectro 

de direita, tais como o Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua (VPR), articularam 

manifestação no dia 12 de setembro de 2021 em prol do impeachment do presidente 

Bolsonaro e em favor de uma candidatura alternativa, também pretensamente de terceira via 

à Bolsonaro e à Lula, sob o slogan “nem, nem” (nem um, nem outro) (TAVARES, 2021).  

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de 1980, sofrendo ameaças e ataques explícitos a partir de grupos que se autopro

clamam orgulhosamente de direita, mas com métodos extremistas, embora evitem 

se identificar como tal, voltados essencialmente para o funcionamento das institui

ções, e apoiados por integrantes do governo e seus aliados. 

Antes, cumpre-nos salientar que a democracia ora em crise é a que historica

mente emergiu com as revoluções burguesas na modernidade, marcadamente as re

voluções inglesa, francesa e americana, na carona do liberalismo moderno, e que 

serviu de modelo ao mundo colonizado, nas formações de seus estados constitucio

nais, não devendo, portanto, ser confundida com os ideais utópicos de democracia 

sob os pilares de uma igualdade material que serviu aos propósitos humanísticos, 

éticos e sociais. Trata-se, portanto, da chamada “democracia burguesa”, associada à 

noção formal de “liberdade”, fortemente marcada pelo individualismo, contra

pondo-se à própria noção de soberania popular em termos rousseaunianos. Segundo 

Bobbio (2017), trata-se da democracia que é o “natural desenvolvimento” do Estado 

liberal, fruto, portanto, de um encontro histórico entre liberalismo e democracia, 

diferenciando-se esta da noção de democracia dos antigos. Tais considerações são 

importantes nesse trabalho para esclarecer que, ao falarmos em crise da democracia, 

não estamos a nos referir à democracia como ideal utópico emancipatório das gen

tes, mas a um determinado modelo em particular, o qual repousa suas origens em 

meio às revoluções burguesas, carregando como decorrência suas próprias contra

dições sociais e econômicas, mas que, por outro lado, se firmou contra os modelos 

totalitários de sociedade e de governos. 

Segundo Yascha Mounk (2019), a crise contemporânea da democracia se con

siste na dissolução do “pacto” entre liberalismo, enquanto esfera das liberdades e 

direitos individuais, e a própria democracia, enquanto esfera da autonomia popu

lar, em que as próprias políticas públicas são expressão popular, ocasionando que 

as liberdades se voltem contra o próprio povo. Este passa a exercitar sua autono

mia, contraditoriamente, abdicando de seus próprios direitos, numa forma iliberal 

de democracia que deságua no “populismo autoritário”, nova modalidade de po

pulismo que se diferencia do populismo tradicional. Segundo o autor, as razões 

pelas quais a democracia (liberal) entra em crise são: que ela teria deixado de tra

zer prosperidade econômica aos indivíduos; que as liberdades e reconhecimento 

étnico e multiculturais passavam a se constituir em ameaças ao direito de outros, 

marcadamente das elites; e que a quebra do monopólio das comunicações pelas 

elites políticas e econômicas, sobretudo com o advento da internet e das redes 

sociais, trouxe à luz as opiniões extremas com a ruptura dos consensos. O resul

tado mais imediato disso foi o “populismo autoritário”, cujas evidências são a per

seguição à liberdade de imprensa, a crítica às instituições da democracia liberal, a 

perseguição à oposição e a deterioração dos “direitos individuais”. 

Da mesma forma em que se faz necessário precisar o sentido no qual nos refe

rimos ao populismo autoritário, Tormey (2019) traçou um quadro tipológico do 

que vem a ser o populismo (ou neopopulismo), no atual cenário político interna

cional, a partir de suas características principais, que muito nos serve à compreen

são da experiência brasileira.   

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A ascensão da extrema direita... - Vê o antagonismo fundamental na sociedade como o que existe entre 

o “povo” (bem) e as “elites” (mal); - Constrói o contexto político em termos de uma “crise” que põe em 

destaque a inadequação do establishment político; - Oferece uma visão redentora, em vez de uma abordagem guiada pela 

política, tecnocrática ou baseada em problemas; - Tem como centro uma figura carismática que afirma possuir poderes 

excepcionais de liderança; - Aplica um uso mais franco, mais voltado para o confronto, mais di

reto da linguagem, o “falando claramente” (TORMEY, 2019). 

Não vemos no autor pelo menos a tônica na distinção comparativa entre popu

lismos passados e contemporâneos, mas, no caso do populismo contemporâneo, 

cujo marco histórico delimitatório é o ano de 2016, com a eleição de Rodrigo Du

terte (o “Rody”), como presidente das Filipinas, o autor se debruçará em uma aná

lise comparativa entre os diversos países que o populismo “explodiu”, como disse 

Tormey (2019), desde aquele ano, traçando características em comum, sem des

prestigiar as especificidades de cada país. 

A descrição das práticas do governo Bolsonaro, presente nesse trabalho, dá

nos uma luz para compreendermos que não se trata de uma experiência isolada, 

mas que cujas causas e processos podem ser mais bem vistos a partir de outras 

causas e processos semelhantes, acontecidos em outros países, o que nos permite 

inclusive chegar à conclusão de a experiência brasileira se constituir um exemplo 

mais rigoroso do populismo recente quando comparado ao de outros países.     

Crise da democracia, governo Bolsonaro e os 

desafios ao estado democrático de direito 

Nossa história política recente, mais especificamente desde a redemocratização, 

em meados da década de 1980, pode ser periodizada em pelo menos três momentos 

principais, não necessariamente definidos por quem esteve na titularidade do Poder 

Executivo ou que inclua todos os mandatos presidenciais.  

O primeiro momento, de base cultural democrático-liberal ou neoliberal, a de

pender do olhar do/a analista, corresponde aos dois mandatos de Fernando Henrique 

Cardoso, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), nos anos 1995 a 

2002, em que as relações entre Estado e sociedade se pautaram por uma determinada 

continuidade em relação às regras democráticas, no que pese o funcionamento e as 

relações entre os partidos políticos, o funcionamento dos órgãos do Estado, inclu

indo o Judiciário; a harmonia entre os poderes, a liberdade de imprensa e o reconhe

cimento das diversas entidades civis, a despeito da permanente relação de conflitos, 

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tanto no âmbito da sociedade como no do Estado, as disputas ideológicas e a liber

dade de oposição, o que sinaliza que a democracia não é algo definitivamente con

solidado, mas se encontra em permanente estado de conflito. A despeito disso, a 

esfera econômica se pautou nos programas de privatização, na austeridade fiscal, na 

abertura do mercado interno ao capital estrangeiro, no arrocho salarial dos trabalha

dores e do funcionalismo público, enquanto o Brasil se tornou membro cooperado e 

signatário de diversos pactos internacionais no âmbito da Organização das Nações 

Unidas (ONU), destacando-se os concernentes aos direitos humanos, às questões 

ambientais, comerciais, dentre outras, inclusive, recepcionando, no âmbito interno, 

convenções e tratados internacionais, desfrutando, dessa forma, de amplo reconhe

cimento internacional como um Estado soberano e social democrático de direito. A 

transmissão da faixa presidencial se fazia sem contestações, e em reconhecimento 

dos resultados do sufrágio universal.  

O segundo momento, marcado especialmente pelo governo do PT, a partir de 

2003, após as eleições de 2002, consequência do agravamento de contradições do 

período anterior, de base cultural democrático liberal-social, prestigiou os progra

mas sociais de melhoria da qualidade de vida da população, notadamente de baixa 

renda, ainda que sem (maiores, diga-se) ameaças ao núcleo do sistema capitalista 

(MARTINS, 2016). O pacto social com segmentos identificados com a direita, ex

pressos na política de coalizão, sobretudo, quando do segundo mandato de Lula 

(2007-2010), embora que de precária estabilidade, rendeu-lhe a sobrevivência 

quando de graves crises políticas, com destaque às decorrentes do “Mensalão” e do 

“Petrolão”, ao longo dos dois mandatos de Lula (2003-2010). Entretanto, no que 

concerne à democracia, ela sofreu diversos revezes na continuidade desse período, 

principalmente quando do mandato da então presidenta Dilma Rousseff (2011

2016) (AVRITZER, 2021). Foi ao longo do governo de Rousseff, no que pese todo 

um conjunto de fatores políticos e econômicos, internos e externos, que teve lugar 

importante acontecimento que serviu de fratura à ordem democrática no país – seu 

impeachment, em 2016. Sob forte coloração de um golpe, o impeachment da presi

denta Rousseff foi batizado de golpe midiático-político-jurídico, financiado pela 

elite econômica brasileira (SOUZA, 2016; PRONER, 2016; JINKINGS; DORIA; 

CLETO, 2016), em função da participação conjunta de diversas instâncias envolvi

das – parlamentares de oposição, judiciário e corporações da classe empresarial, 

dentre as quais estão as que comandam a grande imprensa no país, principais res

ponsáveis por promover na sociedade brasileira uma narrativa que definia a então 

presidenta como “incompetente” e o seu governo como corrupto, envoltos em su

postos crimes de responsabilidade. Vale destacar sobre o governo Dilma que sua 

vitória apertada nas eleições de 2014, garantindo-lhe a reeleição para mais um man

dato, foi contestada pelo candidato derrotado, Aécio Neves (PSDB), que questionou 

os resultados apurados na justiça eleitoral, ainda que sem êxito, mas já sinalizando 

a resistência contra a continuidade do PT na condução do país.   

E, por fim, o terceiro momento, que teve início após a destituição de Rousseff, 

marcado pelos governos de Temer (MDB – 2016-2018) e Bolsonaro (2019), de ma

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A ascensão da extrema direita... 

triz econômica liberal-excludente comum, o qual, diferente dos demais, não se cons

tituiu em um bloco que poderíamos definir como uníssono, sendo no governo de 

Bolsonaro, mais especificamente, que tivemos a ascensão do populismo autoritário, 

de extrema direita, o qual representa uma evidente descontinuidade em relação aos 

períodos anteriores, em que se teve como a maior de suas marcas o agravamento da 

crise da democracia, em proporções até então inéditas, não equiparadas a nenhuma 

crise que o Brasil atravessou desde a redemocratização.10 

Segundo Silva (2021), a eleição de Bolsonaro em 2018 é o resultado mais ime

diato da crise da própria república, que se expressa de forma institucional e ideoló

gica, em perspectiva histórica, como crise de hegemonia, ocasionada pela ruptura 

do pacto democrático e de dominação política, a partir da redemocratização (anos 

1980 e 1990). Trata-se de uma crise “parasitária” ou “mórbida”, consequência de 

uma “nova direita” que o autor denomina de “reinventada”, de onde se explica al

gumas de suas características, dentre as quais o anti-intelectualismo e o antielitismo 

(SILVA, 2021).  

Como afirmado no início deste artigo, Bolsonaro venceu as eleições presidenci

ais de 2018 surpreendendo a própria “classe política”, enquanto um candidato “in

cidental” (ABRANCHES, 2020), mesmo as pesquisas eleitorais tendo apontado a 

liderança do capitão reformado desde o início da campanha. Aliás, essas eleições 

estavam como que “prometidas” aos líderes do golpe midiático-político-jurídico que 

destituiu a então presidenta Dilma Rousseff, em 2016, sob o falso pretexto de um 

processo legal de impeachment, tese que se evidenciou cada vez mais insustentável, 

principalmente a partir das matérias impactantes da “Vaza Jato”11.  

O golpe de 2016 (PRONER, 2016; SOUZA, 2016) visava, mais à frente, impedir 

que o PT retornasse ao poder, o que seria facilitado com os líderes do golpe no 

poder, quando das eleições presidenciais de 2018, completando-se ao afastar Lula 

da candidatura às eleições daquele ano, como de fato se sucedeu, vez que ele foi 

condenado em processos judiciais, que, na origem, foram presididos pelo então juiz 

Sérgio Moro.  

As revelações divulgadas pelo site The Intercept Brasil sobre a parcialidade do 

juízo que condenou Lula por supostos crimes de corrupção, afastando-o das eleições 

de 2018, só corroboraram a existência de um esquema golpista que se vestia de 

combate à corrupção, sob a operação Lava Jato, tese que veio posteriormente a ser 

10 Sobre a crise da democracia no Brasil e no mundo, apoiamo-nos em especializada literatura 

(MOUNK, 2019; SANTOS, 2016; LEVITSKY E ZIBLATT, 2018; LIJPHART, 2019), que, 

respeitadas as especificidades de cada autor, a situa em meio ao ressurgimento de forças 

políticas conservadoras, de matriz neopopulista e autoritária, cujos métodos para a aquisição 

e/ou perpetuação do poder se assemelham, unindo-se no que concerne às ameaças e ataques 

a pessoas e instituições do estado democrático de direito.   

11 Refere-se às revelações decorrentes da publicização pelo site The Intercept Brasil de fatos que 

atestaram evidências de conspirações que comprometiam a imparcialidade do julgamento 

que condenou Lula em supostos crimes, quando da operação Lava Jato a cargo do juiz Sérgio 

Moro, e que impediu o ex-presidente de participar das eleições de 2018, embora ele liderasse 

as pesquisas eleitorais, pavimentando o caminho para a vitória de Jair Messias Bolsonaro.  

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reconhecida e acatada pelo STF, no julgamento da suspeição do ex-juiz Moro, con

cluído em meados de 2021, devolvendo a Lula seu retorno à vida política, bem como 

sua provável candidatura nas eleições de 2022, em que já aparece como o primeiro 

colocado nas pesquisas eleitorais.12  

Na trama que desembocou no golpe de 2016, todos os esforços empreendidos 

para tirar o PT da Presidência da República, impedindo-o de retornar a ela e abrindo 

espaço para que a velha direita voltasse ao comando central do país, nas eleições de 

2018, resultaram em uma ironia marcante na história política brasileira. Sobressaiu

se aqui a máxima popular de que “o tiro saiu pela culatra”. Ou seja, toda a onda de 

desqualificação do PT e da reputação de Lula, especialmente na grande imprensa e 

nas redes sociais, advinda já das mobilizações contestatórias de junho de 2013 (NO

BRE, 2020), acabaram produzindo um sentimento de insatisfação generalizado não 

somente contra os pretensos alvos originários, mas contra a própria classe política, 

como um todo, em um primeiro momento, e a grande imprensa e o próprio judiciá

rio, como decorrência. Tal foi o resultado a que chegou o repertório de insatisfação 

que se vinha desde o ano de 2013, através de amplas manifestações de rua, oportu

nizando a entrada em cena de um candidato que se vendia como um outsider, com 

a promessa de acabar com a “velha política” e a corrupção, em nome de “Deus”, da 

“família” e da “pátria”, sob o lema de campanha: “Brasil acima de tudo. Deus acima 

de todos”, “habilitando-se” a enfrentar, como o faz até o presente momento, o Poder 

Judiciário e os maiores veículos de imprensa.  

Sobre a crítica de Bolsonaro à política, Di Carlo e Kamradt (2018) a abordaram 

com a tese do “politicamente incorreto”, expressão que os autores obtiveram a partir 

das próprias palavras de Bolsonaro, quando de sua crítica ao que denominou de 

“política correta”, dirigida a todo o status quo existente, bem como aos adversários 

políticos, angariando notório apoio popular. Tal crítica consistiu, segundo os autores 

supramencionados, em uma das marcas características da “nova direita”, represen

tada no Brasil pelo bolsonarismo.    

Nesse sentido, nutrindo o ódio à política e aos políticos, Bolsonaro foi mais um 

“governante incidental” (ABRANCHES, 2020), tendo chegado ao poder como que 

de improviso, sem qualquer garantia de continuidade, mas que soubera capitalizar 

frustrações generalizadas em favor de sua ascensão política, representando sérios 

riscos à institucionalidade democrática. 

A controversa facada que Bolsonaro sofreu em suposto atentado, quando ainda 

em campanha eleitoral, o manteve cada vez mais vivo nas pesquisas, soando como 

que o sobrevivente escatológico que estava messianicamente destinado a governar 

o Brasil, não se podendo, obviamente, sequer imaginar, à época, o desenrolar dos 

anos seguintes até o momento em que nos encontramos agora, em meio à maior crise 

12 No período em que esse trabalho se encontra em processo de revisão para publicação, deu-se 

a filiação do Ex-Juiz Sérgio Moro ao Podemos, mais especificamente no dia 10 de novembro 

de 2021, com a clara sinalização de que ele seria o pré-candidato à Presidência da República, 

chegando a figurar em terceiro lugar nas pesquisas eleitorais, e embaralhando o jogo político 

voltado para as eleições presidenciais de 2022.  

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A ascensão da extrema direita... 

institucional, além de social, política e econômica, nas três últimas décadas, em que 

o próprio estado social democrático de direito se encontra sob fortes ameaças e ris

cos. Estamos a falar de um governo, de perfil político populista e autoritário (TOR

MEY, 2019; MOUNK, 2019; AVRITZER, 2021), que se tornou herdeiro incidental 

exclusivo de uma herança política para o que não contribuiu diretamente, mas que 

se encontrava como que no caminho do recrudescimento do movimento conserva

dor, reacionário, moralista e autoritário que se visibilizava no Brasil já há alguns 

anos (SCHWARCZ, 2019), associando-se à “memória fraca”13 e ao revisionismo 

histórico, como analisado por Di Carlo e Kamradt (2018). 

A base de apoio de Bolsonaro, como estendida até o presente momento, tem sido 

formada por parlamentares e políticos remanescentes, que não sucumbiram ao rom

pimento com o presidente, inclusive, representantes da denominada “velha política”, 

que Bolsonaro havia prometido acabar, se fosse eleito. Aqui, chamamos atenção 

para uma contradição digna de nota. Segundo Couto (2021), em sua composição 

ministerial, o governo Bolsonaro contou com cinco grupos de apoio: economistas, 

militares, ideólogos, burocratas e políticos incorporados pelo critério de lealdade 

pessoal, em vez de representação partidária. Este último grupo é formado por inte

grantes da “velha política”, da qual vários parlamentares passaram a constituir a 

base do governo, o que comprova uma contradição patente na crítica de Bolsonaro 

ao sistema político.  

Na base do governo Bolsonaro também estão os militares, destacando-se gene

rais graduados das Forças Armadas e parte considerada de integrantes das polícias 

militar e civil no âmbito dos estados. Alguns empresários dos ramos de alimentos, 

agronegócio, ruralistas, setores minoritários da imprensa, incluindo blogueiros e 

youtubers suspeitos de serem financiados pelo próprio governo para promoverem 

suas ideias e difamarem oposicionistas. Setores majoritários do segmento evangé

lico, que emergiram das inseguranças e crises econômicas que estão na base do re

crudescimento da “onda conservadora” (BURITY, 2018), coincidentemente, locali

zados entre os maiores devedores da previdência social, os quais têm conseguido 

benesses governamentais concernentes ao arrolamento de suas dívidas previdenciá

rias, trabalhistas, de imposto de renda, dentre outras14. Os ideólogos, sob o condão 

13 Por “memória fraca” Di Carlo e Kamradt (2018) entendem o esquecimento, por parte da 

maioria dos brasileiros, dos processos de violência econômica, social e política que marcam 

o país, assim como os movimentos de emancipação social e de reconhecimento de direitos.  

14 Segundo dados da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, obtidos e divulgados pelo portal 

Uol, em 28 de setembro de 2021, somente um grupo de 16 entidades religiosas, de um total 

de 9.230, incluindo diversas denominações, com destaque às evangélicas, deve 1,6 bilhão em 

impostos diversos, valor correspondente a 80% do total das dívidas, sobretudo 

previdenciárias, trabalhistas, de imposto de renda, dentre outras, ressaltando-se que nenhuma 

dessas 16 entidades deve menos que 20 milhões (MILITÃO, 2021). Segundo a reportagem 

do Uol, as entidades religiosas que lideram o ranking das principais devedoras junto à 

Fazenda Nacional são: Instituto Geral Evangélico; Igreja Ação e Distribuição; Igreja Mundial 

do Poder de Deus; Igreja Internacional da Graça de Deus; Igreja da Unificação; Igreja 

Renascer em Cristo, dentre outras. Ressalta-se, com base na matéria, que parte dessas dívidas 

foi achada pela Receita Federal como decorrente de formas fraudulentas de sonegação de 

impostos, com as quais as entidades que assim agiram se aproveitaram da condição de 

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radicalmente negacionista e revisionista de Olavo de Carvalho, o chamado “guru” 

do presidente, de seus filhos parlamentares e de parte de agentes políticos que inte

graram seus ministérios, especialmente da Educação e das Relações Exteriores. E, 

finalmente, um segmento de seus eleitores, considerados os mais fiéis, os quais não 

poupam oportunidade de promover movimentos de apoio ao presidente, bem como 

ameaças às instituições do Estado, defendendo bandeiras tais como o fechamento 

do Congresso Nacional e do STF, a volta do Ato Institucional nº 5 (AI 5), o Golpe 

Militar, com a permanência de Bolsonaro no poder, dentre outras que chegam até a 

expulsão dos considerados “inimigos” do Brasil, ou os “comunistas”, como se refe

rem a todos os demais que se oponham ao presidente, na defesa da democracia, das 

instituições do Estado e dos direitos.  

Ao assumir o governo, Bolsonaro implementou uma reforma administrativa, que 

extinguiu diversos ministérios, enquanto concentrou outros, conforme prometeu em 

campanha nas eleições, mas que, de fato, como pontuou Avritzer (2021), serviu a 

um propósito de desmonte do Estado. Essa reforma desestabilizou áreas fundamen

tais de atuação governamental (trabalho, previdência, educação, saúde, meio ambi

ente, cultura), mas que, tão logo vendo-se em desprestígio e queda de popularidade 

nas pesquisas eleitorais, Bolsonaro recriou ministérios extintos a fim de ampliar as 

relações de troca, comumente denominadas “toma lá, dá cá”, com segmentos con

servadores no Congresso Nacional (o chamado “Centrão”) representantes da “velha 

política”. 

Portanto, recorrer ao apoio de parlamentares do Centrão foi a estratégia de Bol

sonaro, principalmente visando a garantir sua sobrevivência política, afastando a 

possibilidade de impedimento, tendo ele sido o presidente que mais teve pedidos de 

impeachment em toda a história do país, chegando, nesse momento, a um número 

superior a 130 solicitações protocolizadas na Câmara Federal, além de tentar, por 

fora das regras democráticas e da negociação política legítima, obter aprovação de 

projetos de interesse seu e de sua base. 

Em quase três anos de governo, Bolsonaro instrumentalizou, em seu benefício, 

ainda que vedado ao presidente da República fazê-lo, órgãos e demais entidades do 

Estado e da sociedade civil, dos quais destacamos alguns: a Polícia Federal (PF), 

intervindo diretamente na troca imotivada de comando geral do órgão, ao que tudo 

indica, a fim de facilitar seu acesso a informações concernentes a investigações que, 

sobretudo, envolvem a sua família (ele e seus filhos). Tal fato resultou no rompi

mento com seu então ministro da Justiça, o ex-juiz Sérgio Moro, o representante 

maior da operação Lava Jato, que deixou a magistratura para se tornar titular de um 

dos chamados “superministérios” de Bolsonaro, com suposto interesse de, mais 

tarde, vir a ser escolhido pelo presidente para uma vaga no STF. Porém, Moro aca

bou rompendo seus laços com Bolsonaro, denunciando o fato como interferência do 

presidente na PF. Igualmente com relação à Procuradoria Geral da República (PGR), 

Bolsonaro indicando o atual Procurador-Geral do Órgão, Augusto Aras, à revelia da 

isenção tributária, em função de atividades religiosas, para auferirem ganhos ilegais 

decorrentes de atividades econômicas e lucrativas (MILITÃO, 2021).  

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A ascensão da extrema direita... 

lista tríplice proposta pelo próprio Órgão. Mesmo que reconduzido ao cargo, após 

tardia aprovação do Senado Federal, Aras não o foi sem as críticas de omissão, in

clusive de seus próprios pares – os demais procuradores da República –, quanto ao 

encaminhamento de denúncias diversas envolvendo o presidente. Com a Secretaria 

de Comunicação (Secom) da Presidência da República não foi diferente, estando 

nesse momento sob investigação por suposto motivo de financiamento de campa

nhas de difamação por meio de fake news a opositores do governo, com pagamentos 

a blogueiros, a youtubers e a jornalistas. A instrumentalização se estendeu também 

ao próprio Banco Central, que atuou no sentido da retirada do Banco do Brasil e da 

Caixa Econômica Federal da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), pelo fato 

de esta ter realizado um manifesto público em prol da harmonia entre os poderes, 

soando como declaração de insatisfação com o governo, o que deflagrou uma crise 

em meio ao empresariado e ao sistema financeiro. Com relação ao Congresso Naci

onal, destaca-se a forma como as emendas ao orçamento da União foram conduzi

das, mas também de como o governo lançou mão de apoio à aprovação de projetos 

governamentais. De grande repercussão a instrumentalização das polícias militares 

e civis, nos estados, setor em que Bolsonaro tem forte base de apoio, com o fim de 

minar o poder dos governadores sobre as referidas categorias, lembrando, ainda, sua 

tentativa de aprovar de forma quase que clandestina, no Congresso Nacional, a su

bordinação das polícias militares estaduais ao Governo Federal, que resultou fracas

sada, somando-se, ainda, a tentativa de cooptação da categoria por meio de facilita

ções de programas habitacionais. Tal lista pode, ainda, ser acrescida por fundações, 

órgãos ambientais, universidades, conselhos de políticas públicas que foram des

mantelados para nos limitarmos a alguns poucos exemplos, fato que não passou sem 

que redundasse em um estado permanente de crise.  

Desde que assumiu o poder, Bolsonaro, seguido por seus ministros, caracteri

zou-se pela elevada indisponibilidade de desenvolver qualquer canal de diálogo ou 

articulação, quer com a classe política, em geral, o Congresso Nacional, para fins de 

aprovação de seus projetos, quer com as demais instituições do Estado, da sociedade 

civil, em geral, como requer um governo republicano, sob o regime democrático. 

Tal fato se estendeu também às relações internacionais e diplomáticas, servindo de 

exemplo o trato do governo Bolsonaro com a China, a França, a Alemanha, a Ar

gentina, o mesmo se dando com agências internacionais como a ONU, a Organiza

ção Mundial de Saúde (OMS), principalmente em questões multilaterais como meio 

ambiente, pandemia de COVID-19, direitos de indígenas, quilombolas, mulheres, 

LGBTQIA+, dentre outras categorias. Antes, sempre se utilizou do conflito, ele 

mesmo, Bolsonaro, tornando-se um fabricante de crises, não havendo interregno 

sem que não propusesse alguma questão que redundasse em choque ou controvérsia. 

Não sem motivo, Bolsonaro incentiva a população para a compra de armas e a pre

paração como que para uma guerra, aproveitando-se disso para angariar apoio dos 

seus eleitores mais radicais, na qualidade de estratégia política afeita a governos 

populistas, como bem definiu Tormey (2019):  

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Sem crise, há pouca chance de o populismo ganhar força. (...) Políticos 

populistas compreendem que seu jogo só ganhará força se as pessoas 

acreditarem que existe uma crise que requer uma mudança radical de 

curso, uma nova política e uma nova liderança (TORMEY, 2019). 

Sob esse tradicional receituário populista de governo destaque-se que, ao longo 

de todo o seu mandato, Bolsonaro cultivou, no âmbito interno, uma relação direta 

com seus eleitores, servindo de exemplo seus encontros semanais com aqueles, no 

denominado “cercadinho”, sob a cobertura da imprensa, ocasião em que aproveita, 

como já vinha fazendo através das redes sociais, para reforçar suas críticas públicas 

às instituições democráticas, depreciar personalidades, desferir ataques a opositores 

e desafetos, além de realizar incitamentos e convocações para protestos contra ór

gãos do estado democrático de direito, sempre sob a perspectiva populista do “nós 

contra eles”. E assim o faz apresentando-se sempre como vítima de investidas opo

sicionistas que supostamente o impedem de governar a fim de angariar apoio popu

lar às suas ações e omissões, colocando o povo contra o próprio Estado republicano 

e suas instituições democráticas, em tão evidente sintonia com o receituário popu

lista autoritário de governo (TORMEY, 2019). Integra, ainda, esse receituário suas 

permanentes aparições em manifestações promovidas por seus apoiadores e eleito

res, grande parte delas em flagrante ameaça e ataque a pessoas e instituições do 

estado democrático de direito, como, mais recentemente, na forma de “motociatas”, 

promovidas em diversas capitais do país, incluindo as sediadas em unidades da fe

deração governadas por oposicionistas, ocasião em que, intencionalmente, sem usar 

máscara de proteção facial, promove aglomerações de pessoas em contexto pandê

mico, violando normas sanitárias locais de isolamento e não poupando ataques a 

políticos e opositores. E, como já mencionado, o incitamento do próprio presidente 

da República a que a população (ou uma parcela de seus eleitores) se arme, inclusive 

tendo sugerido fuzis para a “defesa da pátria” e supostamente da liberdade, ao 

mesmo tempo que se verifica a disparada dos preços da gasolina, do gás de cozinha, 

da energia elétrica, dos alimentos, para citar apenas alguns exemplos de produtos e 

serviços essenciais que mais desencadearam o descontrole da inflação, corrobo

rando o agravamento da deterioração das condições de vida dos brasileiros e brasi

leiras, sobretudo os mais pobres.15 

Destaque-se também a estratégia de difamação pessoal contra opositores, bem 

como de divulgação de fake news por meio das redes sociais, supostamente envol

vendo uma gama de apoiadores e financiadores, fato que vem sendo investigado no 

âmbito da PF, e que, segundo investigações em andamento, tem sido coordenado de 

dentro do próprio Planalto, sede do governo, doravante conhecido como “gabinete 

do ódio”, de onde supostamente procede toda a inteligência e orquestramento do 

15 Segundo o Cadastro Único do governo federal (CadÚnico), sob o governo Bolsonaro, mais de 

02 (dois) milhões de famílias entraram para a extrema pobreza (renda per capita de até R$ 89 

mensais), representando 41,1 milhões de pessoas, sem mencionar 2,8 milhões de pessoas na 

pobreza (renda per capita de R$ 90 a R$ 178 mensais) (MADEIRO, 2021).  

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A ascensão da extrema direita... 

esquema criminoso de assassinato de reputações individuais e institucionais, envol

vendo órgãos de governo, como a Secom, bem como agentes públicos. A estratégia, 

ao que tudo indica, já foi utilizada por ocasião da campanha eleitoral de 2018, e teria 

influenciado os resultados eleitorais em favor de Bolsonaro, fato que se encontra 

sob investigação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Muito oportunamente, 

Abranches (2020) compara as atitudes equiparadas de Trump e Bolsonaro, enquanto 

replicadores sobretudo por meio das redes sociais, entre estas o Twitter, do que o 

autor denomina de “mentalidade agressiva”, como estratégia política.    

Promovendo conflitos com seus opositores, comportamento característico de seu 

governo, Bolsonaro se voltou contra os governadores dos estados, o que foi agra

vado em razão da pandemia, quando o presidente se opôs publicamente às medidas 

restritivas impostas por aqueles, seguindo as orientações da OMS como forma de 

contenção do novo coronavírus em todos os países. Assim como se aproximou dos 

policiais militares e civis, sob o comando dos governadores, instigando e apoiando 

movimentos de sedição no seio das corporações, em explícita violação aos estatutos 

legais militares e à própria Constituição Federal, ficando emblemáticos os motins 

de policiais ocorridos no estado do Ceará, Pernambuco, além de desconfortos em 

outros estados, como em São Paulo, onde o governador, João Doria (PSDB), passou 

a ser considerado um de seus maiores adversários nas eleições de 2022. 

Com relação à pandemia de COVID-19 que, de março de 2020 a agosto de 2021, 

levou à morte mais de meio milhão de brasileiros e brasileiras, o governo Bolsonaro 

se insurgiu contra as medidas sanitárias recomendadas por órgãos e entidades públi

cas de saúde nacional e internacional, dentre as quais o isolamento social, a utiliza

ção de máscaras e álcool em gel etc., promovendo uma patente necropolítica, para 

fazermos referência ao conceito de Achille Mbembe (2018)16.  

O governo federal negligencia o apoio e a coordenação nacional para gerencia

mento da doença, cuja competência, segundo a Constituição Federal, é privativa da 

União, em troca da defesa e propaganda de medicação sem resultados comprobató

rios e não recomendados por órgãos de saúde nacional e internacional, intensifi

cando-se, assim, o acirramento político com os governadores dos estados, o qual 

perdura até o presente momento. O próprio presidente apareceu pessoalmente em 

diversas oportunidades na televisão, fazendo a defesa de medicamentos ineficazes 

ao tratamento da doença, seguido, nesse exemplo, por blogueiros, youtubers, jorna

listas e demais apoiadores do governo, parte deles envolvida em inquérito de inves

tigação por recebimento de verbas públicas federais para tal divulgação. A gravi

dade da omissão culposa do governo, representada pelo próprio presidente, obrigou 

o Senado Federal a deliberar a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito 

(CPI), conhecida como “CPI da COVID” ou “CPI da Pandemia”, para apurar as 

16  Sobre a noção de “necropolítica”, segundo o autor, trata-se de como a morte passa a ser 

também matéria de gestão, em que o Estado passa a gerir como e quem deve morrer. Tem-se, 

assim, a morte como fundamento para a gestão estatal da sociedade, em uma evidente 

subordinação da vida à morte, como paradigma.  

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responsabilidades do governo federal, cuja omissão por parte do presidente ocasio

nou a morte de milhares de pessoas, e possíveis irregularidades na compra de vaci

nas, investigação que foi encerrada com a indicação de condenação de várias pes

soas, incluindo a pessoa do próprio Presidente.17   

Ainda durante a pandemia e em meio aos trabalhos da CPI da COVID-19, até 

mesmo no sentido de desviar a atenção pública dos trabalhos da referida Comissão, 

Bolsonaro protagonizou mais um conflito programático, mobilizando seu exército 

de rua – parte mais extremista de seu eleitorado –, desta feita contra a urna eletrô

nica, afirmando, equivocadamente, que o voto eletrônico não é auditável, e, sem 

nenhuma prova, que este está sujeito a fraudes, incitando, dessa forma, a população 

contra um dos maiores pilares da democracia representativa – o sufrágio universal –, sob falso pretexto de aprimoramento do sistema. Com isso, deflagra ataques con

tra os integrantes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), particularmente à pessoa de 

seu presidente, ministro Luís Roberto Barroso, que se manteve sempre em defesa 

do voto eletrônico, asseverando que as urnas eletrônicas são auditáveis e seguras; 

assim como desfere ataques contra a Câmara dos Deputados, que recentemente vo

tou contra a denominada Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do voto im

presso, a qual propunha a mudança da legislação, na direção que o presidente pre

tendia.  

À guisa de conclusão desta seção, temos que os elementos empíricos trazidos à 

baila neste trabalho apontam para a constatação da existência de uma extrema direita 

de matriz populista e autoritária no Brasil, da qual Bolsonaro e o bolsonarismo são 

sua expressão emblemática, estado de coisas que nos colocou o desafio de compre

ender a sua ascensão e os seus impactos ao estado democrático de direito. Tais ele

mentos se circunscrevem em torno de alguns pontos principais que escolhemos para 

refletir sobre o estado democrático de direito: a relação do governo com os demais 

poderes, os órgãos de Estado e a sociedade; o pacto federativo; o modelo de gestão 

política, visando a reprodução do poder e das políticas sociais. 

O que poderia parecer uma “surpresa” à velha direita, crente de que voltaria ao 

poder em 2018 – para isso tendo tentado canalizar em seu favor a insatisfação po

pular, a partir de junho de 2013, e, principalmente, após ter afastado uma presidenta 

que fora eleita legitimamente por meio de um duvidoso e suspeito processo de im

peachment –, transformou-se na mais drástica realidade, a saber, a entrada em cena 

de um novo protagonista, originado das próprias contradições de uma cultura polí

tica fragmentada, terreno fértil propício para o populismo autoritário, o qual acabou 

vitorioso nas eleições de 2018, sob os auspícios da formalidade democrática contra 

a qual se insurgiu.  

17 Além da responsabilização do Presidente e do governo por omissão, o Relatório Final da CPI 

da COVID-19, lido no dia 19 de outubro de 2021, sob a cobertura da imprensa, solicitou o 

indiciamento de 70 pessoas e empresas por diversos crimes decorrentes da condução da crise 

sanitária causada pela pandemia. 

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Concordamos que tanto esquerda quanto direita, e suas diversas variáveis, não 

atentaram às contradições que poderiam se rebelar contra a ordem política e econô

mica, e que minavam a democracia. Conforme já assinalado, Rocha e Solano (2021) 

apontaram os rudimentos do que denominaram de “bolsonarismo” ainda durante a 

vigência do governo do PT.  

Adorno (2020) há muito nos alertou que a própria democracia favorece a insur

gência do seu mais contrário regime – o autoritarismo –, embora que, pensando em 

termos do fascismo, o qual denominou de nova e extrema direita atual. Segundo 

Adorno (2020), o fascismo nunca deixou de existir no período pós-guerra.  

Tormey (2019), cuja análise do populismo recente no mundo nos ajuda a com

preender melhor a experiência brasileira, afirma ter sido uma maior aproximação 

entre as pautas políticas de direita e esquerda, nas últimas décadas, sob uma agenda 

liberal, esvaziando valores, crenças e ideologias partidárias, que distanciou os elei

tores do voto e da democracia. Por causa desse distanciamento, os partidos políticos 

passaram a carecer de maior sentido junto à sua base de adeptos, simpatizantes e 

eleitores, no que pese os interesses de classe, redundando no desinteresse pelo voto 

e pelos valores da democracia, os quais começaram a definhar, favorecendo o sur

gimento de neopopulismos em diversas partes do mundo.  

Pensando com Tormey (2019), vimos, no caso brasileiro, que a “classe política” 

tornou-se “elite”, enclausurada em suas próprias burocracias, quando muito confor

mada às corporações que lhe dão apoio, distanciando-se dos interesses populares. 

Assim, diante dos momentos de crise, a solução passa a vir de fora da própria classe 

política, que assume o lugar das elites contra as quais o populismo se insurge.  

O populismo emerge, assim, em meio a uma quebra do sistema de confiança. 

Para Tormey (2019), a agenda liberal que prevaleceu, embora também de relativa 

aceitação, na maioria das democracias avançadas, está na base da crise que causou 

a insurreição populista. Foi o mercado, quando presente nos governos, que transfor

mou a política e os partidos em uma tecnocracia, esvaziando as disputas ideológicas 

como o cerne da democracia. Com a redução da esfera política à econômica, as cri

ses nessa esfera acabaram pavimentando o caminho para outsiders e governos inci

dentais (ABRANCHES, 2020), os quais se habilitariam perante a população para 

“salvá-la” da suposta catástrofe, visto que a democracia liberal ou burguesa já não 

mais se credenciava. 

Muito embora Bolsonaro não seja um típico outsider, muito ao contrário, origi

nário do que ele mesmo condenou, quando em campanha às eleições de 2018, como 

a “velha política”, fato é que conseguiu se vender como tal, e, supostamente, só por 

fora do sistema político, e não se identificando como “elite”, poderia angariar apoio 

popular, como de fato conseguiu. Não há discurso em que Bolsonaro não se apre

sente como amigo do povo, precisando de sua ajuda e apoio para enfrentar o “ini

migo” comum – as “elites” –, enquadrando seus adversários como tais – a “classe 

política” –, incluindo parlamentares e governadores de oposição; os membros do 

Poder Judiciário, a grande imprensa, os movimentos sociais e organizações do 

campo progressista e todos que se lhe opunham.  

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A fim de imprimir ao seu governo um caráter messiânico, Bolsonaro recorre ao 

conservadorismo reacionário e moralista, representado por denominações evangéli

cas e grupos católicos neoconservadores, evitando-se falar nas religiões de matriz 

africana, a fim de não sacrificar o apoio dos primeiros. Igualmente, recorre aos mi

litares, apesar de que, com eles, a situação seja de permanente contestação, em fun

ção de seus limites constitucionais, daí se estar forçando uma interpretação do texto 

da Constituição Federal para corroborar a instrumentalização que Bolsonaro quer 

fazer das Forças Armadas, atrelando-as a seus interesses pessoais, destacando-se o 

de se perpetuar no poder. 

Às vésperas de novas eleições, as quais ocorrerão em 2022, Bolsonaro carece do 

que prestar conta à sociedade brasileira como feitos positivos de seu governo. Isso 

se dá não simplesmente por mera incompetência governamental, mas pelo fato da 

omissão, evidenciada em todas as áreas de atuação. Essa omissão, muitas vezes in

tencional, parece ser o objetivo do governo, a fim de minar as instituições da demo

cracia moderna, na tentativa de desacreditá-las junto à opinião pública. Com sua 

conduta omissiva e beligerante, a capacidade do governo Bolsonaro, como bem de

finiu Avritzer (2021), está mesmo em destruir políticas e políticos, a julgar por todos 

os seus atos e omissões diante de questões de educação, saúde, meio ambiente, mu

lheres, indígenas, negros, LGBTQIA+, direitos humanos, dentre outras.    

Considerações Finais 

Nestas considerações finais, retornamos ao nosso ponto de partida: quais os im

pactos da ascensão da extrema direita, a partir do bolsonarismo e da eleição de Bol

sonaro, no estado democrático de direito no Brasil? Tendo esta questão como fio 

condutor de nossa pesquisa, o confronto entre a base teórica mobilizada e a obser

vação sistemática de fatos da realidade política brasileira possibilitou uma atualiza

ção da tradicional díade de compreensão dos processos políticos e sociais – “direita

esquerda” –, a partir de onde constatamos, por meio da análise dos dados empíricos 

auferidos, a variação do pêndulo para o lado mais extremo de um dos polos da refe

rida díade – polo da direita, o que nos habilitou a concluir pela existência de uma 

extrema direita que ascendeu ao poder no Brasil, causando impactos devastadores 

ao estado democrático de direito, mote deste artigo.   

Por todos os lados que direcionamos nossa observação, sobram evidências 

de estarmos vivendo, sobretudo durante o governo Bolsonaro, um inédito momento 

político, ao menos desde a redemocratização do país, em meados da década de 1980, 

ainda que muitas das práticas e discursos que estão diante de nós sejam já, há muito, 

conhecidos, tais como: o discurso anticorrupção e de defesa da moralidade cristã e 

da família tradicional e heteronormativa; a eleição do comunismo como inimigo 

maior do país, associado às esquerdas; o estímulo ao patriotismo verde e amarelo, 

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dentre outros, dando-nos até a impressão de estarmos vivendo uma reprise de mo

mentos passados.  

Atacar publicamente as instituições do estado democrático de direito, amea

çando sua própria existência, por meio de atos concretos e expressões de ódio, ainda 

que sob o suposto e mal interpretado direito de liberdade de expressão, tem se tor

nado comum e até motivo de suposto “orgulho patriótico”, e se reproduzido cinica

mente em nome da liberdade e da Constituição Federal, a qual tem sofrido profundos 

reducionismos nesses discursos. 

Neste momento, paira no ar um sentimento de dúvidas e de relativa insegurança 

acerca do futuro próximo da democracia brasileira, e não sem motivos, quando te

mos diante de nós um quadro como o apresentado neste artigo. Ataques à democra

cia como os que apregoam pública e despudoradamente o fechamento de órgãos, 

cujas funções são verdadeiras cláusulas pétreas na Constituição Federal, como o 

Congresso Nacional, o STF. Os ataques avançam com as reivindicações, ainda que 

por um grupo minoritário fiel ao presidente, em prol do retorno do AI 5, da ditadura 

militar, sem falar da conclamação à população para que se engaje em movimentos 

antidemocráticos, desobedeça às leis, rompa com a ordem democrática e adquira 

armas como que para uma guerra civil contra um inimigo criado para fins de mani

pulação das massas. Além disso, os ataques à lisura das urnas eletrônicas só revelam 

que, no mínimo, tem-se um ensaio de ruptura institucional, impondo à democracia 

rever sua legitimidade e estratégias de sobrevivência no Brasil atual. 

Para que as coisas chegassem ao estágio que descrevemos analiticamente neste 

texto, emergiu um modelo de gestão do poder que se coadunou com as característi

cas de um populismo autoritário, que mais facilmente capitalizou a seu favor a sus

cetibilidade popular tão desgastada em seu brio patriótico, como se encontrava sig

nificativa parte da população brasileira. Daí o perfil de uma extrema direita que le

vou a cabo sua radicalidade contra a ordem democrática e os direitos, apelando para 

um discurso de moralidade, de defesa da “família”, da “religião” e do “sentimento 

patriótico”, de forma que a ela se opuseram até importantes segmentos da própria 

direita.  

A suscetibilidade de parte considerável da população é um terreno fértil para o 

surgimento de governos populistas autoritários, aos quais ela se submete, disposta a 

abandonar bandeiras que tradicional e supostamente mais lhe interessariam, concer

nentes a uma agenda social – melhoria concreta de suas condições de vida, o reco

nhecimento de diferenças humanas, de identidades sociais, de direitos etc. E tudo 

isso em prol de uma falsa “paternidade”, que, contraditoriamente, não reconhece 

filhos, posto que não reconhece povo, sem que seja por meio de uma noção vaga, 

abstrata, desprovida de diversidade e categorização efetivamente política, o que fa

cilita a dominação. Eis, portanto, a combinação do populismo com o autoritarismo, 

a qual é incompatível com a ordem democrática, tendo a necessidade de romper com 

a democracia para que se instaure em seu lugar. 

Assim, pelo menos para nós, que analisamos a ascensão da extrema direita po

pulista e autoritária, sob o governo Bolsonaro, fica evidente o caráter de “inedi

tismo” com o qual a “nova” direita política brasileira, notadamente a identificada 

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com o bolsonarismo, levou a cabo seu projeto conservador-reacionário-moralista e 

econômico liberal. E assim o faz por meio de tentativas concretas de ruptura do 

estado social democrático e constitucional de direito, o que evidencia a radicalidade 

dessa “nova” direita, autorizando-nos a pensar tratar-se de uma extrema direita em 

vigor, hoje, no Brasil.  

Por fim, não olvidamos que a ascensão da extrema direita populista e autoritária, 

que levou Bolsonaro à Presidência da República, não ocorre sem resistência, o que 

não nos permite perder de vista a dinâmica dialética do confronto e da mudança de 

rumos, oxalá em sentido muito contrário daquele para o qual o Brasil tem se diri

gido: na continuidade, preservação e aprimoramento do estado democrático de di

reito, para que seja retomada, nas interações entre Estado e sociedade, a construção 

de um país mais justo, fraterno e sem preconceitos.             

Referências 

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ISSN: 2318-4620 

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A ascensão da extrema direita... 

Resumo 

Este artigo tem como objetivo analisar a ascensão de uma extrema 

direita política no Brasil, a partir do bolsonarismo e da eleição de 

Bolsonaro, em 2018, destacando as suas evidências empíricas e os 

impactos sobre o estado democrático de direito. Diante disso, o 

trabalho foi orientado pela seguinte pergunta-síntese: quais os im

pactos da ascensão da extrema direita, a partir do bolsonarismo e 

da eleição de Bolsonaro, no estado democrático de direito no Bra

sil? Na busca de respostas, debruçamo-nos, teórica e conceitual

mente, sobre a categoria “extrema direita”, recorrendo a autores/as 

que tão direta e oportunamente trataram do tema, motivo pelo qual 

integram a base teórica da reflexão sobre a atual realidade política 

brasileira. Com uma abordagem dialética, reunimos um conjunto 

de evidências, baseadas em acontecimentos recentes no cenário 

político brasileiro, fruto do confronto entre nossas observações e 

as diferentes análises que se dedicaram aos estudos das chamadas 

novas direitas no Brasil contemporâneo. O trabalho consiste em 

uma pesquisa descritiva e compreensiva, partindo de uma obser

vação sistemática e análise dos fatos mais recentes da experiência 

política brasileira a partir de dados extraídos de jornais, revistas, 

websites, canais da internet, documentação de órgãos e entidades 

públicas e judiciais, matérias veiculadas em telejornais. A pes

quisa revelou que a ascensão da extrema direita, marcada pelo po

pulismo autoritário, sob o governo Bolsonaro, com suas devidas 

especificidades, impactou negativamente as principais instituições 

do estado democrático de direito no país, a cargo das classes soci

ais dominantes, com ameaças à ordem jurídica, ataques aos direi

tos humanos e à cidadania, com efeitos deletérios da agenda de 

inclusão social.  

Palavras-chave: Extrema direita. Bolsonarismo. Democracia. 

Populismo. Crise política.  

Revista de Ciências Sociais — Fortaleza, v. 54, n. 1, mar./jun. 2023, p. 259–287. 

DOI: 10.36517/rcs.54.1.a06   

ISSN: 2318-4620 

Francisco Mota e Joannes Forte  

287 

Abstract  

This article aims to analyze the rise of a extreme right policy in 

Brazil, from bolsonarism and the election of Bolsonaro in 2018, 

highlighting its empirical evidence and the impacts on the demo

cratic rule of law. In view of this, the work was guided by the fol

lowing synthesis question: what are the impacts of the rise of the 

extreme right, from bolsonarism and the election of Bolsonaro, on 

the democratic state of law in Brazil? In search of answers, we 

focused theoretically and conceptually about the “extreme right” 

category, based on the authors who directly and opportunely dealt 

with the subject, which is why they are part of the theoretical basis 

of reflection on the current Brazilian political reality. From a dia

lectical approach, we bring together evidences from the current 

political scenario, as a result of the confrontation between our ob

servations and the different analyses by authors that dedicate their 

studies on a new right policy in Brazil contemporary. The work 

consists of a descriptive research and political comprehension, 

starting from a systematic observation and analysis of most recent 

data from newspapers, magazines, websites, internet channels, 

broadcast on television news. The research revealed that the rise 

of the extreme right, marked by authoritarian populism, under the 

Bolsonaro government, with its due specificities, negatively im

pacted the main institutions of the democratic rule of law in the 

country, in charge of the dominant social classes, with threats to 

the legal order, attacks on human rights and citizenship, with del

eterious effects on the social inclusion agenda. 

Keywords: Extreme right. Bolsonarism. Democracy. Populism. 

Political crisis.     

Recebido para publicação em 30/09/2021 

Aceito em 07/03/2022 

ACESSO ABERTO 

Copyright: Esta obra está licenciada com uma Licença 

Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional. 

Revista de Ciências Sociais — Fortaleza, v. 54, n. 1, mar./jun. 2023, p. 259–287. 

DOI: 10.36517/rcs.54.1.a06   

ISSN: 2318-4620 . O artigo dos autores Francisco Alencar Mota  

Universidade Estadual Vale do Acaraú, Brasil 

https://orcid.org/0000-0001-9246-9292 

alencarmota@uol.com.br e 

Joannes Paulus Silva Forte 

Universidade Estadual Vale do Acaraú, Brasil 

https://orcid.org/0000-0003-3585-7066 

joannespaulus@virtual.ufc.br.

 democracia é um regime político em que a soberania e o poder de decisão emanam do povo, sendo exercidos em prol de toda a sociedade. Originada na Grécia Antiga (Atenas) no século V a.C., a palavra deriva dos termos gregos demos (povo) e kratos (poder).

Nesse sistema, a governança baseia-se na igualdade de direitos, na garantia de liberdades individuais e coletivas (como a liberdade de expressão, de associação e de religião) e no respeito irrestrito às leis estabelecidas por uma Constituição.

Principais Tipos de Democracia

 Democracia Direta: Os próprios cidadãos debatem e decidem diretamente sobre as leis e políticas públicas, sem intermediários. Esse modelo era praticado na Antiguidade e hoje é considerado inviável para grandes populações.

 Democracia Representativa (Indireta): A população escolhe seus governantes e legisladores por meio de eleições periódicas e competitivas. Os representantes eleitos ganham a legitimidade para tomar decisões em nome do povo. É o formato mais comum no 

Democracia Participativa (Semidireta): Combina elementos dos dois modelos anteriores. O povo elege seus representantes, mas também mantém canais diretos de manifestação e decisão, como plebiscitos, referendos e audiências públicas

Para que um Estado seja considerado efetivamente democrático, ele deve assegurar:

1. Eleições Livres e Periódicas: Votações limpas, secretas e universais para a alternância saudável do poder político.

2. Separação dos Poderes: Divisão das funções do Estado em órgãos independentes e harmônicos entre si — Executivo, Legislativo e Judiciário — para evitar o abuso de autoridade e a centralização do poder.

3. Estado de Direito: Princípio de que ninguém está acima da lei, aplicando-se de forma igualitária a governantes e governados.

4. Pluralismo Político: Coexistência pacífica de diferentes ideias, partidos políticos e visões de mundo, assegurando o direito de livre oposição.

5. Direitos das Minorias: Embora as decisões majoritárias prevaleçam nas urnas, a estrutura democrática e constitucional deve proteger juridicamente os direitos fundamentais dos grupos minoritários.

Democracia e Extrema Direita. Algo que não combina 

Confira a noticia no Portal G1 da Rede Globo. https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/10/22/oposicionista-de-esquerda-e-presa-no-equador.ghtml


 

E assim caminha a humanidade.  Imagem do Site Juruá Editora.




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