quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Pois é . Né .

 Os movimentos populares históricos na França moldaram a política moderna do país e inspiraram revoluções em todo o mundo.

A Revolução Francesa (1789-1799)

O marco: Começou com a Queda da Bastilha em 14 de julho de 1789.

 A causa: O povo se revoltou contra a monarquia absolutista, a fome e os altos impostos da nobreza.

 O impacto: Acabou com o absolutismo na França e espalhou o lema "Liberdade, Igualdade e Fraternidade".


A Comuna de Paris (1871)

 O marco: Ocorreu entre 18 de março e 28 de maio de 1871.

 A causa: Trabalhadores e a Guarda Nacional tomaram o poder em Paris após a derrota na Guerra Franco-Prussiana.

 O impacto: Foi o primeiro governo operário da história, criando medidas como ensino público gratuito, mas acabou duramente reprimido com milhares de mortes.


O Maio de 1968

 O marco: Uma onda de protestos de estudantes e greves gerais em maio de 1968.

 A causa: Insatisfação com o sistema educacional tradicional e o conservadorismo do governo do general Charles de Gaulle.

 O impacto: Paralisou o país com milhões de trabalhadores em greve, modernizou os costumes sociais e abriu espaço para reformas trabalhistas e culturai


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Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 201695A REPÚBLICA RADICAL: FORMAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS E SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO NA FRANÇA(1880-1914)A RADICAL REPUBLIC: FORMATION OF SOCIAL MOVEMENTS AND UNIONISM REVOLUTIONARY IN FRANCE (1880-1914)DOI: http://dx.doi.org/10.15448/2178-3748.2016.1.22997Luiz Felipe Cezar MundimDoutorando em História pela UFRGS/Université Paris 1 –Panthéon-Sorbonneluizmundim@gmail.comRESUMO:A ideia de radicalismo político em meio às lutas operárias da França do final do século XIX remete ao  anarquismo  naquele  país,  normalmente  reduzido  à  tática  da  “propaganda  pelo  ato”  empreendida  pelos anarquistas  individualistas,  muito  embora  conformassem  práticas  isoladas.  A  radicalidade  no  movimento operário, entretanto, pode ser observada a partir de diversas nuanças, em um repertório de ação mais complexo, que vinha  sendo construído desde pelo menos 1880. A proposta deste artigo é observar determinados traços do processo  de  formação  das  mobilizações  coletivas  na  França,  e  apontar  para  as  especificidades  da  evolução  do movimento  operário  para  determinadas  expressões  radicais  no  final  do  século  XIX  e  início  do  século  XX,  em especial o sindicalismo revolucionário e a ideia de greve geral, formas radicais mais relevantes dos movimentos sociais no período.PALAVRAS-CHAVE:França; Esquerda Radical; Movimentos Sociais.ABSTRACT:The idea of political radicalism among the workers’ struggles in France from the late nineteenth century  refers  to  anarchism  in  that  country,  usually  reduced  to  the  so  called  “propaganda  by  the  deed” undertaken  by  individualist  anarchists,  even  though they  were  isolated  practices.  The  radicalism  in  the  labor movement can be  observed  from  various nuances in a  more  complex repertoire  of collective  action,  which  had been built since at least 1880. The purpose of this article is to observe certain features of the process of formation of  collective  mobilizations  in  France,  and  point  to  the  specifics  of  the  labor  movement  evolution  to  certain radical  expressions  in  the  late  nineteenth  century  and  early  twentieth  century,  especially  the  revolutionary syndicalism and the idea of general strike, most important radical forms of social movements in the period..KEYWORDS:France; Radical Left; Social Movements.A   estabilização   institucional   ocorrida   na   França   no   período   de   1880   a   1930, proporcionada pela vitória dos republicanos, retomou os ideais da revolução de 1789 através da  democracia  liberal.  Garantiu,  também,  a  ordem  e  a  coesão  necessárias  pela  via  do nacionalismo, para que assim o país fosse bem-sucedido na guerra, principal problema vivido desde o conflito com a Prússia em 1870. Nesse processo, a chamada III República absorveu e moldou  as  mobilizações  sociais,  cada  vez  mais  próximas  ao  parlamentarismo  e  à  forma institucional   pela   produção   de   um   estado   social.   Ao   mesmo   tempo,   formaram-se agrupamentos  que  procuraram  radicalizar  a  ideia  de  República,  ou  combater  a  democracia liberal  que  encaminhava  sua  dominação  enquanto  forma  de  governo.  Entre  esses  grupos, 

Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 201696destacaram-se  os  que  se  identificavam  na  esquerda  radical,  como  as  diversas  tendências libertárias  do  período.  Tendo  esses  problemas  em  vista,  este  artigo  se  concentra  no  processo de  formação  dos  repertórios  de  ação  das  mobilizações  coletivas  nesse  período,  e  toma  como exemplo  uma  mobilização  específica,  a  que  correspondeu  ao  sindicalismo  revolucionário  da Conféderation Générale du Travail(CGT). 1Se o sindicalismo revolucionário correspondia a uma mobilização coletiva em meio a uma constelação de movimentos sociais, qual seria o repertório de ação disponível a ele? Em que condições históricas de luta da esquerda francesa essa estratégia de luta se formou? Qual a  sua  posição  em  meio  aos  diferentes  movimentos  em  atuação  no  período?  A  sua  criação representava um novo elemento ao repertório de ação do movimento operário?Destaca-se,  a  partir  disso,  a  exposição  de  algumas  especificidades  das  vertentes políticas mobilizadas no movimento operário francês, em especial as ligadas às posições mais libertárias. Faz parte desse percurso narrativo a observação do uso do repertório de ação que estava   disponível   a   esses movimentos   e   que,   principalmente,   se   criou   mediante   as experiências  de  mobilizações  mais  (ou  menos)  radicais.  Acreditamos  que,  assim,  podemos construir  melhor  o  cenário  do  movimento  operário  a  que  o  sindicalismo  estava  contido.  A intenção é apreender melhor o processo de constituição da experiência da classe trabalhadora francesa e compreender a base de funcionamento dos movimentos sociais nesse período.A III República e as novas formas de lutaA formação do repertório de ação disponível ao sindicalismo do começo do século XX se  deu  em  um  processo  de  evolução  das  mobilizações  políticas  desde  o  início  da  III República,  que  buscava  colocar  aprópria  República  à  prova.  Apesar  dos  eventos  que  se sucederam em 1871, e o exílio dos communards,as mobilizações coletivas se iniciaram antes de 1880, pois as associações de trabalhadores foram reconstituídas ainda durante a década de 1870.  Entretanto,  a  elaboração  das  leis  democráticas  dos  anos  1880  abriu  um  campo  de construção de novos repertórios, já que garantiram minimamente a liberdade de imprensa e de 1A categoria “movimento social” que guia a narrativa histórica desse processo pode, de antemão, ser descrita como a ferramenta de compreensão de fenômenos sociais específicos, que reúne as características interpretativas mais  adequadas  ao  estudo  dessas  mobilizações  coletivas.Enquanto  fenômeno  histórico,  em  traços  gerais  os movimentos sociais deram os seus primeiros sinais de constituição na década de 1760 na Inglaterra, para então se  firmarem  como  formas  da  contestação  coletiva  durante  o  século  XIX.  Diferencia-se  de  uma  petição  única, uma  declaração ou uma  concentração de  multidão pela  realização de  um esforço público organizado para  levar às  autoridades  pertinentes  as  reivindicações  coletivas,  o  que  Tilly  chama  de campanhas,e  se  afirma  como fenômeno  que  suscita  novos  tipos  de  mobilização  contra  as  autoridades,  associado  à  emergência  de  repertórios específicos de ação e à construção de consciências coletivas unificadoras. (TILLY, WOOD, 2010, pp. 17-85)

Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 201697reunião pública, além de ter eliminado obstáculos à abertura de estabelecimentos de venda de bebidas, como os cafés e bares, lugares habituais de realização dessas reuniões. Tais reuniões eram  permitidas  apenas  em  lugares  fechados  e  cobertos,  pois  ainda  não  era  possível  realizar deslocamentos coletivos pelas vias públicas. (PIGENET; TARTAKOWSKI, 2012-b,p. 182)Com essas limitações, a representação política pelo sufrágio universal se tornou a via de   expressão   política   mais   viável.   Ganhava   força,   assim,   o   individualismo   filosófico, enquanto  era  fortalecida  a  desconfiança  direcionada  aos  organismos  intermediários  entre  o cidadão  e  os  eleitos.  Conforme  Pigenet  destaca,  apesar  de  preponderante,  o  individualismo liberal  deveria  enfrentar  uma  oposição  advinda  de  outra  forte  tradição  na  história  de resistências na França, herdada da sans-culotterie e retomada com a Comuna. Essa tradição de radicalismo  atraiu  diversos  trabalhadores  adeptos  à  prática  associativista  parisiense, críticos da  III  República  impregnada  de  normas,  funções  e  autoridades  descendentes  do  passado, como o senado, a presidência e a polícia. (Ibid., p. 183) A mobilização coletiva foi a principal estratégia  política  dessa  oposição,  mas  ao  mesmo  tempo  produziu fenômenos  como  o boulangismo e a política partidária profissional, com seus carreiristas políticos.Da  mesma  forma,  a  República  procurava  se  adequar,  absorvendo  as  formas  de mobilização  coletiva,  tanto  com  a  profissionalização  parlamentar,  quanto  com  a  legalização dos   sindicatos   profissionais,   o   que   se   deu   em   1884,   com   a   chamada Loi   Waldeck-Rousseau.2Buscou,  assim,  enquadrar  as  demandas  dos  trabalhadores  ao  emular  os  exemplos do cooperativismo e mutualismo, já fortemente difundidos entre os trabalhadores.Distantes da influência revolucionária que viria a crescer a partir de 1906 com a CGT, os  sindicatos  não  romperam  com  o  princípio  de  individualização  proporcionado  pela  via institucional, e foram admitidos como um mecanismo republicano de reequilíbrio pacífico da assimetria   entre   os   assalariados   e   seus   empregadores,   papel   que   o   mutualismo   e   o cooperativismo  já  desempenhavam  de  alguma  forma.  Além  disso,  legalmente  os  sindicatos não  poderiam  servir,  ou  ter  influência,  como  ferramenta  de  ação  política  ou  religiosa. (PIGENET; TARTAKOWSKI, 2012-b. p. 183-184)O próprio Ministro do Interior, Waldeck-Rousseau, tranquilizou os Prefeitos Departamentais em uma circular enviada quatro dias após a divulgação da lei. 32Loi  sur  les  Syndicats  professionnels  (du  21  mars  1884):  (...) ART.  2.  Les  Syndicats  ou  Associations professionnelles,  même  de  plus de  vingt personnes,  exerçant la même  profession, des métiers  similaires ou des professions  connexes  concourant  à  l'établissement  de  produits  déterminés,  pourront  se  constituer  librement, sans l'autorisation du gouvernement. (...). In: PELLOUTIER, Fernand. 1921. p. 265.3La  loi  du  21  mars  1884  [...]  n’exige  de  la  part  de  ces  associations  qu’une  seule  condition  pour  leur établissement  régulier,  pour  leur  fondation  légale  la  publicité.  Faire  connaître  leursstatuts,  la  liste  de  leurs sociétaires, justifier en un mot de leur qualité de Syndicats professionnels. [...] Le législateur a fait plus encore. 

Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 201698Com  essa  perspectiva,  embora  as  federações  de  sindicato  tivessem  se  regularizado gradualmente,  o  sindicalismo  não  alcançava  muito  sucesso  no  campo  de  serviços,  papel relegado  ao  mutualismo,  e  nem  no  da  defesa  das  demandas  dos  trabalhadores.  As  bolsas  de trabalho,  criadas  em  1887  para  sanar  as  deficiências  das  federações –e  para  retomar  o  que Pelloutier  descrevia  como  combate  ao  Capital  e  à  República,  pela  via  do  fortalecimento econômico e corporativo de cada categoria diante do mercado capitalista 4–, não foi capaz de superar  de  imediato  as  dificuldades  e nem  de  ultrapassar  o  discurso  radical,  não  podendo, assim, gerar mobilizações coletivas que fossem além do limite imposto pela nova democracia liberal. Da mesma forma, as mobilizações grevistas na rua eram toleradas até o ponto em que não  afetassem  a  ordempública,  o  que  significou  geralmente  duras  repressões.  (PIGENET; TARTAKOWSKI, 2012-b,p. 184)Gérard  Noiriel,  em Les  ouvriers  dans  la  société  française,nota  que  o  equilíbrio instável que  caracterizava a sociedade francesa da primeira fase do século XIX se reafirmou com profundidade durante a Grande Depressão que atingiu a França nos anos de 1880-1890. O  período  foi  decisivo  para  a  história  operária,  pois  foi  em  meio  às  adaptações  econômicas que   se   encerrou   definitivamente   o   mundo   do   trabalho   baseado   na   polivalência   e   na mobilidade, dando lugar ao “proletariado” característico do século XX. Ainda assim, segundo Noiriel, mais do que as mutações sociológicas, que não tiveram tanta importância a não ser no período  que  se  seguiu,  a  emergência  do  movimento  operário  moderno  e  do  sistema  de representações  coletivas  que  conseguiu  impor  é  que  teriam  sido  os  eventos  fundamentais naquele momento. Em toda a história contemporânea da França, foi no espaço de vinte anos entre 1890 e 1910 que a mobilização dos trabalhadores teve a maior intensidade, contribuindo para a profunda desordem das classes dirigentes naquele momento. (NOIRIEL, 2002, p. 83)O  recurso  às  manifestações,  às  petições,  às  barricadas  e  às  greves  diz  mais  respeito, antes  de  tudo,  a  um  determinado  contexto do  que  às  expectativas  e  objetivos  originais  do movimento.  Os  engajamentos,  por  definição,  tinham  origem  no  terreno  social  popular,  e  se voltavam contra os poderes e  as dominações do  momento.  Isso ocorria tanto por perspectiva de  progresso  em  uma  tradição teleológica  da  política  e  da  religião,  quanto  por  uma Pénétré de l’idée que l’association des individus suivant leurs affinités professionnelles  est moins une arme de combat  qu’un  instrument  de  progrès  matériel,  moral  et  intellectuel,  il  a  donné  aux  Syndicats  la  personnalité civile  pour  leur  permettre  de  porter  au  plus  haut  degré  de  puissance  leur  bienfaisante  activité.  Circulaire ministérielle relative aux Syndicats professionnels (25 août 1884). BnF.4Dans  la  société  actuelle,  la  Bourse  du  Travail  doit  être  une  société  de  résistance. (...)Maintenir  le  plus possible l'équilibre entre le prix de location du travail et le prix d'achat des produits, c'est là le rôle présent des Bourses, et, pour le remplir, il leur faut engager avec le Capital une guerre qui ne finira que par la disparition du système économique et politique actuel.(PELLOUTIER, 1921)

Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 201699perspectiva  de  reação  moral  às  mudanças  representadas  na  industrialização,  por  sua  vez encarnadas na laicidade da III República. (PIGENET; TARTAKOWSKI, 2012-b,p. 184-185)No  mesmo  lado  de  reação  à  República,  mas  em  sentido  diverso,  esteve  a  crise  do boulangismo.  Após  a  lei  Waldeck-Rousseau,  numerosas  greves  haviam  sido  deflagradas, sendo a mais retumbante a dos mineiros de Decazeville. Nessa ocasião, o general Boulanger, ministro  da  Guerra  do  governo  Freycinet,  encarregado  de  enviar  a  tropa  para  enfrentar  os grevistas,  fez  o  famoso  discurso  no  dia  13  de  março  de  1886  na  Câmara  dos  Deputados, considerando  uma  calamidade  qualquer  conflito  entre  soldados  e  trabalhadores.  O  delicado contexto social proporcionava uma imagem de impotência e divisão no regime parlamentar, o que  abriu  caminho  para  a  escalada  política  da  unidade  radical  de  caráter  social-populista  em torno  da  candidatura  de  Boulanger  e  seus  partidários,  especialmente  em  Paris  no  campo eleitoral, mas de grande influência política por diversos departamentos entre os anos de 1888 e 1893. (GARRIGUES, 2012, p. 239)De  caráter  nacionalista,  o  boulangismo  se  fez  cultura  de  resistência  à  democracia liberal,  mas  também  de  oposição  ao  socialismo  estrangeirista,  e  se  dotou  de  forte  xenofobia em meio à crise de emprego em decorrência da Grande Depressão. O estado republicano não foi insensível às violentas demandas dessa faixa social, que pedia leis favoráveis ao “trabalho nacional”.  Assim,  as  primeiras  leis  sociais   da   III   República   foram   subordinadas   à nacionalidade, e iniciou a formação de um Estado de bem estar social na França antes mesmo do século XX se iniciar.O destaque para a crise do boulangismo vem da importância que o fenômeno teve na recomposição  e maturação  do  movimento  operário  francês  no  início  dos  anos  1890.  Ela  fez com  que  uma  grande  parte  dos  meios  artesanais  e  operários  se  liberasse  do  radicalismo tradicional,  colocando-os  à  disposição  de  novas  formações,  especialmente  as  que  vieram  a compor  aestruturação  de  um  movimento  socialista  e  suas  correspondentes  divisões,  e  ao crescimento do movimento sindical. Em Bordeaux, por exemplo, o Partido operário dobrou o número de seus aderentes entre 1889 e 1890, e do outro lado, dos socialistas antiboulangistas, a  crise  conduziu  os  militantes  a  revisarem  sua  estratégia  de  luta  de  classes  para  aceitar  a aliança   com   partidos   burgueses.   O   sucesso   de   socialistas   como   Jaurès   e   Millerand, provenientes  desses  partidos  burgueses,  facilitaram  a  integração  do  socialismo  ao  jogo parlamentar,  enquanto  trabalhadores  têxteis  e  metalúrgicos  em  Nancy  se  sindicalizavam  em massa. (GARRIGUES, 2012, p. 246)O  boulangismo  se  caracterizou,  também,  por  uma  ambiguidade  própria  do  social-populismo que contribuiu para a formação das convicções da militância  da esquerda radical. 

Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 2016100Havia  a  corrente  socialista  revolucionária,  encarnada  pelos  então  deputados  Charles-Ange Laisant –mais  tarde  anarquista –e  Ernest  Roche,  e  a  corrente  nacionalista  e  plebiscitária, liderada por Paul Déroulède –notório anti-dreyfusard poucos anos depois –e Jules Delahaye. (Ibid., p. 247) Laisant está entre os que recusaram a via parlamentar reformadora após o fim do  boulangismo,  para  anos  depois  se  tornar  libertário,  militando  pela  pedagogia  racionalista de  Ferrer  e  posteriormente  no  sindicalismo  revolucionário  pelo  importante  jornal  anarquista-comunista La Bataille Syndicaliste.Ao  mesmo  tempo,  a  segunda  industrialização,  que  se  iniciou  nos  anos  1880  e  se prolongou  por  quase  um  século,  estava  associada  à  transição  das  pequenas  oficinas  para  a concentração  de  produções  em  grandes  estabelecimentos.  Foi  intrínseco  a  essa  fase  uma disciplina  baseada  em  regimentos  internos  que  buscavam  condicionar  os  trabalhadores  à presença  e  à  exatidão  para  o  bom  funcionamento  dosequipamentos  caros.  O  advento  da politécnica,  da  ciência  do  trabalho,  que  projetava  no  corpo  humano  a  otimização  dos movimentos,  tais  como  os  de  uma  máquina,  apontam  para  a  superação  da  fase  clássica  de disciplina  fabril,  por  sua  vez  caracterizada  pelas  práticas  do  pagamento  por  peça  e  pela vigilância pelo olhar, além do paternalismo na relação  entre patrão e  empregado. (PERROT, 1988-a. pp. 53-80)A  superação  dessas  características  clássicas  da  disciplina  do  trabalho  envolveram  as vagas grevistas do começodo século XX, apontando para novas estratégias dos trabalhadores. Embora o conflito ocorresse, e estivesse concentrado sobre a questão das horas de trabalho, a vida  fixa  na  forma  salarial  proporcionou  maior  lealdade  entre  trabalhadores  e  patrões.  Isso nãosignificou,  evidentemente,  o  estabelecimento  de  uma  completa  harmonia  entre  patrão  e trabalhador.  Pelo  contrário,  Perrot  também  nos  mostra  que  a  visão  do  trabalhador  nesse período era caracterizada por certo desprezo, alimentado por um “Saint-simonismo” operário. As representações do patrão pelo trabalhador apresentavam em determinados casos, inclusive, o desejo de substituir os patrões por operários militantes exemplares (que se assemelhavam à figura  do  engenheiro  politécnico)  para  se  realizar  a  contento o  potencial  da  industrialização. (PERROT, 1988-b. pp. 81-100)Agência  e  consequência  desse  período  de  grandes  mudanças  econômicas  e  sociais,  o campo  político  produziu  o  chamado  Bloco  de  esquerda,  expressão  da  política  parlamentar radical  entre  1899  e  1905.Resultante  do  impacto  do  boulangismo,  e  nascedouro  de  diversos partidos socialistas que abriram espaço a camadas sociais até então distantes da vida política, o bloco desempenhou importante papel no radicalismo que forçava a República em direção a um  estado  social.  (REBÉRIOUX,  1975,  pp.  43-82).  Entretanto,  mesmo  a  situação  salarial 

Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 2016101tendo  mudado,  fruto  das  lutas  sindicais  potencializadas  pelo  radicalismo  das  Bolsas  de Trabalho e do Bloco de esquerda, a formação social não se alterou substancialmente com esse primeiro momento da segunda industrialização francesa.A  depressão  econômica  que  havia  atingido  a  Europa  inteira,  tendo  o  ponto  alto  entre 1885  e  1886,  fez  evoluir  os  repertórios  de  ação  em  todo  o  continente,  sem  que  pudéssemos discernir  uma  direção  única.  Na  França,  diferente  dos  outros  países,  como  novo  índice  da nacionalização,  a  mudança  de  modalidades  de  ação  coletiva  estava  ligada  a  uma  grande visibilidade das mobilizações rurais e provinciais. O repertório de ação das mobilizações teve certa  continuidade,  com  mobilizações  espontâneas  em  tempos  de  crise  frumentária,  com meetings  em  praça  pública,  e  cortejos  apenas  com  os  antigos communards.  (PIGENET; TARTAKOWSKI,  2012-b,p.  189).  Abriu-seo  tempo  das  organizações,  em  que  se  devia mobilizar pela duração.Nesse período formaram-se também as variações socialistas, que iam do possibilismo, como  o  Partido  Alemanista,  ligado  a  Paul  Brousse,  ao  atomismo,  como  no  caso  do Parti Ouvrier  Français(POF)  de  Jules  Guesde,  que  combatiam  ações  radicais  como  a  greve selvagem  dos  mineiros  de  1892.  Ainda  assim,  a  corrente  internacionalista  e  reformista prevaleceu  entre  os  socialistas,  e  a  SFIO  foi  criada  em  1905  com  a  intenção  de  unir  as principais tendências, encabeçadas por Jean Jaurés, Jules Guesde, e pelo communardEdouard Vaillant. Apesar disso, seria um tanto apressada a afirmação de que o internacionalismo teria dominado  o  movimento  operário  francês,  que  foi  estruturado  em  bases  nacionais,  conforme foi  possível  perceber  na  crise  do  boulangismo  e,  em  1914  novamente, com  a Union  Sacrée, bloco de esquerda que reuniu nada menos que a CGT e a SFIO, até então notórios dissidentes, afirmando a perspectiva patriótica e aliada ao estado na luta contra os alemães.5O  caso  dos  anarquistas  e  sua  contribuição  ao  movimento  operário  constitui  item  a parte  deste  breve  artigo.  As  mobilizações  coletivas  ligadas  a  esse  grupo  político  tiveram impacto  no  mundo  da  militância  de  maneira  decisiva,  não  apenas  no  âmbito  das  lutas  na França, mas, também na evolução da esquerda e de suas vertentes mais libertárias por todo o mundo, especialmente a partir da prática do sindicalismo de ação direta.Um mundo disperso pela multiplicação das tendências anarquistasExpressão  do  dinamismo  da  luta  dos  trabalhadores,  e  motivado  pelo  radicalismo  que alimentou os anos iniciais da III República, o movimento anarquista francês foi agente central na  composição  do  conjunto  das  mobilizações  coletivas  e  de  seus  respectivos  valores  que 5Ver BRON, 1970, pp. 53-78; e PIGENET; TARTAKOWSKI, 2012. p. 191.

Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 2016102deram unidade à classe trabalhadora no período de 1880 a 1914. Ainda que em menor número frente  aos socialistas, foram os anarquistas que, de maneira efetiva e incisiva, organizaram  e colocaram em prática novas modalidades de ação direta, pautadas pela combatividade, que se firmariam  enquanto  repertório  da  luta  operária.  Dentre  essas modalidades,  a  imprensa investigativa e de propaganda revolucionária, o uso sistemático da representação artística (as pinturas,  o  teatro,  a  música)  como  ferramenta  política,  e  a  generalização  da  greve  como estratégia de luta autônoma aos partidos marcaramo repertório de ação no período.A série de atentados anarquistas no final do século XIX, protagonizados por militantes individualistas como Ravachol, Auguste Vaillant e Émile Henri, marcou o fim de um período de crescimento do movimento anarquista na França. Seguiu-se, a partir de então, o apogeu do combate ao movimento, empreendido pelo Estado francês com as chamadas “Leis Céleres” e o “Processo dos Trinta”, iniciado em agosto de 1894, em que trinta militantes anarquistas, dentre  eles  Jean  Grave,  Sébastien  Faure,  Félix  Fénéon  e  Émile  Pouget  foram  presos  e condenados  a  penas  diversas.  Os  relatórios  de  polícia,  assim  como  os  relatos  dos  militantes anarquistas nos anos que se seguiram até as vésperas da primeira Guerra Mundial, denunciam um período de vigilância, perseguição e repressão do Estado que ajudam a compreender não apenas o desmantelamento do movimento, mas, também a grande diversidade de orientações que  o  caracterizava,  muito  embora  as  estratégias,  táticas  e  ações  no  meio  social  e  político estivessem próximas conforme o repertório de ação que lhes era disponível.Em   meio   a   essa   diversidade,   a   polarização   entre   as   posições   individualista   e anarquista-comunista  no  movimento–constantemente  estimulada  pelasegurança  nacional com  o  uso  de  inteligência policiale  agentes  infiltrados –foi  promovida  à  popularização  da imagem  radical  e  inconsequente  acerca  do  anarquismo  francês.  Nos  relatos  policiais,  são várias  as  associações  generalizadas  dos  anarquistas  a  bandidos  comuns,  a  não  ser  em relatórios de síntese, normalmente produzidos por comissários ou investigadores endereçados ao Ministério do Interior, em que os grupos eram tratados com algum grau de profundidade.6O   grande   número   de   informação   gerado   pela   vigilância,   mobilizada   pelos comissariados de polícia após a experiência da Comuna e os atentados do final do século XIX e reunida pela Brigade de Recherches, criou a necessidade de sínteses anuais para controle do Ministério do Interior. Em uma dessas notas de síntese, de 1913, o comissário se esforça por 6Num relatório  de  políciade  julho  de  1907, por  exemplo,jovens  anarquistas  e  libertários são  tratados genericamente  comoladrões  e  golpistas. Que  morariam  no6º  ou  7º  andar(último  andar  nas  construções “haussmanianas”, com habitações normalmente precárias epequenas), roubariam diariamente o leite e o pão de outros apartamentos, assim como frutas e outras coisas nas feiras; e que não pagariam os aluguéis, prolongando a dívida até o último momento possível, quando deixavam furtivamente os apartamentos.PPo BA1499 –Menées Anarchistes.

Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 2016103historicizar  a  evolução  dos  anarquistas  na  França.  Ao  abordar  os  resultados  dos  embates  de Bakunin  e  Marx  na  Internacional,  e  falar  sobre  o  fim  da  década  de  1870,  aponta  para  o surgimento  da  divisão  do  movimento  entre  individualistas  e  anarquistas-comunistas  por autodenominação dos próprios anarquistas:Il est à noter qu’à cette époque les anarchistes s’appelaient soit socialistes anti-autoritaires    soit    collectivistes    anarchistes.    Ils    repoussaient    la qualification  de  communistes  parce  que,  prise  de  préférence  par  Karl  Marx et  les  socialistes  de  l’école  allemande,  elle  impliquait  des  conceptions étatistes  auxquelles  ils  étaient  hostiles.  Ce  n’est  qu’en  1880  que,  sur  la proposition  de  Kropotkine,  ils  abandonnèrent  l’épithète  de Collectivistespour celle decommunistes.O  comissário  continua  a  descrever  o  histórico  do  movimento,  dando  mais  destaque  à atuação dos que eram “coletivistas” e que viriam a ser os “comunistas”, especialmente pelo uso da propaganda escrita, como Jean Grave e o Les Temps Nouveaux, Sébastien Faure e o Le Libertaire,  e  Émile  Pouget  e  o Le  Pére  Peinard. Ao  descrever  os  individualistas,  adota  tom mais grave:Les anarchistes individualistes sont pour la plupart d’anciens communistes ralliés   aux   théories   des   philosophes   allemands   Max   STIRNER   et NIETZSCHE, qu’ils n’ont peut-être pas toujours comprises et qu’en tout cas ils ont amputées  de tout idéalisme.  Pour eux, l’individu à  se libérer des préjugés  qui  font  obstacle  à  son  émancipation  totale  et,  pour  employer  une formule  qui  leur  est  chère,  “à  vivre  sa  vie  dans  la  société  actuelle”. Naturellement une telle doctrine mal comprise ne produit que ce qu’elle doit produire:  de  jeunes  illuminés  finissent  par  se  persuader  qu’ils  sont  droit immédiatement  à  toutes  les  satisfactions  et,  pour  “vivre  leur  vie”, commettent, sous prétexte de “reprise individuelle”, des délits et quelquefois des  crimes.  Les  membres  de  la  bande  BONNOT  étaient  des  adeptes  des théories  individualistes.  En  somme,  dans  ces  milieux  on  trouvera  plutôt  le malfaiteur  de  droit  commun que l’individu décidé à commettre un attentat par passion politique.7O embate entre individualistas e anarquistas-comunistas já havia marcado mais de 15 anos  do  movimento,  e  remontava  ao  final  do  século  XIX.  Após  o  hiato  desencadeado  pelo período dos atentados, as ações anarquistas foram retomadas durante os anos de 1895 a 1900. Depois de praticamente  desaparecerem em 1894, o número de periódicos anarquistas volta  a aumentar,  como  mostrou  Jean  Maitron  a  partir  do  número  de  publicações  anuais.  De  39  no ano de 1894, passa ao máximo de 421 publicações no período, em 1899. (MAITRON, 2007, p. 140)Líderes do movimento como Sébastien Faure, Dhorr, Janvion, Ferrière, Broussouloux, Prost e Ernest Girault percorriam o país para difundir novamente o pensamento anarquista, e 7AN F713053. Notes sur l’anarchisme. 1913.

Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 2016104da mesma forma o ponto de vista deles sobre o caso Dreyfus, além de uma atenção nova aos sindicatos –ambiente  de  mobilizações  que  já  vinha  sendo  ocupado  por  outros  libertários, como   Pelloutier,   Griffuelhes,   Pouget   e   Paul   Delesalle,   empenhados em   destituir   do sindicalismo  a  orientação  socialista  guesdista  dominante.  Apesar  dessas  incursões,  e  dos esforços por difundir o neo-malthusianismo e a educação libertária, a ação anarquista renasce nesse período absorvida pelo caso Dreyfus.(BOUHEY, 2008.Pp. 354-355)Os  maiores  alvos  dos  individualistas  eram  Sébastien  Faure,  Jean  Grave  e  Pouget. Faure,  que  viria  a  se  revelar  durante  o  ano  de  1898  como  um  dos  principais dreyfusardsno meio  libertário,  serviu  de  vetor  para  as  lutas  internas  do  anarquismo.  Os  individualistas  se declaravam francamente anti-dreyfusards, pois eram anti-fauristas  e, portanto, empenhavam-se em sabotar e deslegitimar as manifestações e publicações dreyfusards.8O   caso   Dreyfus   representou   não   apenas   a   demarcação   da   divisão   entre   os individualistas  e  os  anarquistas-comunistas,  mas,  também  a  dispersão  de  tendências  do movimento   que   marcou   os   vinte   anos   anteriores   à   Grande   Guerra.   Temas   como   o cooperativismo,   o   neo-malthusianismo,   a   pedagogia   libertária,   o   anti-militarismo   e   o sindicalismo não apenas motivavam embates internos que tomavam a energia do movimento, mas, também constituíam-se como a própria identidade dos grupos que se formaram ao longo do período.Da  luta  de  Daudé  Bancel  pelo  cooperativismo  de  consumo,  em  detrimento  do  de produção  e  de  crédito,  passando  pela  pedagogia  libertária  de  Paul  Robin  e  Sébastien  Faure, pelos  essencialismos  morais  em  torno  do  anti-alcoolismo  e  do  neo-malthusianismo,  pelas comunidades  libertárias  no  entorno  de  Paris,  ao  antimilitarismo  como  possibilidade  de unidade  revolucionária  no  movimento,  as  ações  se  confundiam  e  conformavam  o  repertório disponível: meetings e  conferências,  que  reuniam  a  propaganda  oral  e  as  intervenções musicais e teatrais; a imprensa libertária  e a produção literária dos militantes, que reuniam a propaganda pela palavra.Por  outro  lado,  motivo  de  grandes  divergências  no  movimento,  a  prática  sindical  dos anarquistas  criou  outras  formas  de  ações –ou  associações –no  repertório  de  luta  dos trabalhadores.  A  ação  direta,  com  sabotagens,  paralisações,  piquetes  e,  finalmente,  a  greve generalizada, considerada pelos anarquistas-comunistas a realização revolucionária em si, era considerada  a  ponta  de  lança  dos  anarquistas  no  movimento  operário.  Isso  pelo  menos  até 1911, quando os anarquistas-comunistas sentiram a sua influência na CGT diminuir, e criaram 8PPo BA1497. Rapport du 12 mars 1899. O artigo do autor Luiz Felipe Cezar MundimDoutorando em História pela UFRGS/Université Paris 1 –Panthéon-Sorbonneluizmundim@gmail.com

Uma observação . Os biliuonários cada vez mais ricos. E as pessoas e os governos cada vez mais pobres.  E em níveis globais . 

Confira meu artigo . Link: https://diariodeumjoranlista.blogspot.com/2019/01/imposto-sobre-as-grandes-fortunas.html

Confira a noticia .https://auditoriacidada.org.br/conteudo/divida-publica-aumenta-riqueza-dos-bilionarios-com-nosso-dinheiro/

Confira a noticia   https://almapreta.com.br/sessao/cotidiano/fortuna-de-bilionarios-do-g20-em-1-ano-supera-custo-para-acabar-com-pobreza-global-diz-estudo/

Confira a noticia no Portal G1 da Rede Globo        https://g1.globo.com/educacao/noticia/2026/10/06/alunos-e-professores-protestam-na-franca-no-maior-dia-da-onda-de-mobilizacao.ghtml

E assim caminha a humanidade

Imagem do Portal G1 da Rede Globo.



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