Os movimentos populares históricos na França moldaram a política moderna do país e inspiraram revoluções em todo o mundo.
A Revolução Francesa (1789-1799)
O marco: Começou com a Queda da Bastilha em 14 de julho de 1789.
A causa: O povo se revoltou contra a monarquia absolutista, a fome e os altos impostos da nobreza.
O impacto: Acabou com o absolutismo na França e espalhou o lema "Liberdade, Igualdade e Fraternidade".
A Comuna de Paris (1871)
O marco: Ocorreu entre 18 de março e 28 de maio de 1871.
A causa: Trabalhadores e a Guarda Nacional tomaram o poder em Paris após a derrota na Guerra Franco-Prussiana.
O impacto: Foi o primeiro governo operário da história, criando medidas como ensino público gratuito, mas acabou duramente reprimido com milhares de mortes.
O Maio de 1968
O marco: Uma onda de protestos de estudantes e greves gerais em maio de 1968.
A causa: Insatisfação com o sistema educacional tradicional e o conservadorismo do governo do general Charles de Gaulle.
O impacto: Paralisou o país com milhões de trabalhadores em greve, modernizou os costumes sociais e abriu espaço para reformas trabalhistas e culturai
Zoom automático
Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 201695A REPÚBLICA RADICAL: FORMAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS E SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO NA FRANÇA(1880-1914)A RADICAL REPUBLIC: FORMATION OF SOCIAL MOVEMENTS AND UNIONISM REVOLUTIONARY IN FRANCE (1880-1914)DOI: http://dx.doi.org/10.15448/2178-3748.2016.1.22997Luiz Felipe Cezar MundimDoutorando em História pela UFRGS/Université Paris 1 –Panthéon-Sorbonneluizmundim@gmail.comRESUMO:A ideia de radicalismo político em meio às lutas operárias da França do final do século XIX remete ao anarquismo naquele país, normalmente reduzido à tática da “propaganda pelo ato” empreendida pelos anarquistas individualistas, muito embora conformassem práticas isoladas. A radicalidade no movimento operário, entretanto, pode ser observada a partir de diversas nuanças, em um repertório de ação mais complexo, que vinha sendo construído desde pelo menos 1880. A proposta deste artigo é observar determinados traços do processo de formação das mobilizações coletivas na França, e apontar para as especificidades da evolução do movimento operário para determinadas expressões radicais no final do século XIX e início do século XX, em especial o sindicalismo revolucionário e a ideia de greve geral, formas radicais mais relevantes dos movimentos sociais no período.PALAVRAS-CHAVE:França; Esquerda Radical; Movimentos Sociais.ABSTRACT:The idea of political radicalism among the workers’ struggles in France from the late nineteenth century refers to anarchism in that country, usually reduced to the so called “propaganda by the deed” undertaken by individualist anarchists, even though they were isolated practices. The radicalism in the labor movement can be observed from various nuances in a more complex repertoire of collective action, which had been built since at least 1880. The purpose of this article is to observe certain features of the process of formation of collective mobilizations in France, and point to the specifics of the labor movement evolution to certain radical expressions in the late nineteenth century and early twentieth century, especially the revolutionary syndicalism and the idea of general strike, most important radical forms of social movements in the period..KEYWORDS:France; Radical Left; Social Movements.A estabilização institucional ocorrida na França no período de 1880 a 1930, proporcionada pela vitória dos republicanos, retomou os ideais da revolução de 1789 através da democracia liberal. Garantiu, também, a ordem e a coesão necessárias pela via do nacionalismo, para que assim o país fosse bem-sucedido na guerra, principal problema vivido desde o conflito com a Prússia em 1870. Nesse processo, a chamada III República absorveu e moldou as mobilizações sociais, cada vez mais próximas ao parlamentarismo e à forma institucional pela produção de um estado social. Ao mesmo tempo, formaram-se agrupamentos que procuraram radicalizar a ideia de República, ou combater a democracia liberal que encaminhava sua dominação enquanto forma de governo. Entre esses grupos,
Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 201696destacaram-se os que se identificavam na esquerda radical, como as diversas tendências libertárias do período. Tendo esses problemas em vista, este artigo se concentra no processo de formação dos repertórios de ação das mobilizações coletivas nesse período, e toma como exemplo uma mobilização específica, a que correspondeu ao sindicalismo revolucionário da Conféderation Générale du Travail(CGT). 1Se o sindicalismo revolucionário correspondia a uma mobilização coletiva em meio a uma constelação de movimentos sociais, qual seria o repertório de ação disponível a ele? Em que condições históricas de luta da esquerda francesa essa estratégia de luta se formou? Qual a sua posição em meio aos diferentes movimentos em atuação no período? A sua criação representava um novo elemento ao repertório de ação do movimento operário?Destaca-se, a partir disso, a exposição de algumas especificidades das vertentes políticas mobilizadas no movimento operário francês, em especial as ligadas às posições mais libertárias. Faz parte desse percurso narrativo a observação do uso do repertório de ação que estava disponível a esses movimentos e que, principalmente, se criou mediante as experiências de mobilizações mais (ou menos) radicais. Acreditamos que, assim, podemos construir melhor o cenário do movimento operário a que o sindicalismo estava contido. A intenção é apreender melhor o processo de constituição da experiência da classe trabalhadora francesa e compreender a base de funcionamento dos movimentos sociais nesse período.A III República e as novas formas de lutaA formação do repertório de ação disponível ao sindicalismo do começo do século XX se deu em um processo de evolução das mobilizações políticas desde o início da III República, que buscava colocar aprópria República à prova. Apesar dos eventos que se sucederam em 1871, e o exílio dos communards,as mobilizações coletivas se iniciaram antes de 1880, pois as associações de trabalhadores foram reconstituídas ainda durante a década de 1870. Entretanto, a elaboração das leis democráticas dos anos 1880 abriu um campo de construção de novos repertórios, já que garantiram minimamente a liberdade de imprensa e de 1A categoria “movimento social” que guia a narrativa histórica desse processo pode, de antemão, ser descrita como a ferramenta de compreensão de fenômenos sociais específicos, que reúne as características interpretativas mais adequadas ao estudo dessas mobilizações coletivas.Enquanto fenômeno histórico, em traços gerais os movimentos sociais deram os seus primeiros sinais de constituição na década de 1760 na Inglaterra, para então se firmarem como formas da contestação coletiva durante o século XIX. Diferencia-se de uma petição única, uma declaração ou uma concentração de multidão pela realização de um esforço público organizado para levar às autoridades pertinentes as reivindicações coletivas, o que Tilly chama de campanhas,e se afirma como fenômeno que suscita novos tipos de mobilização contra as autoridades, associado à emergência de repertórios específicos de ação e à construção de consciências coletivas unificadoras. (TILLY, WOOD, 2010, pp. 17-85)
Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 201697reunião pública, além de ter eliminado obstáculos à abertura de estabelecimentos de venda de bebidas, como os cafés e bares, lugares habituais de realização dessas reuniões. Tais reuniões eram permitidas apenas em lugares fechados e cobertos, pois ainda não era possível realizar deslocamentos coletivos pelas vias públicas. (PIGENET; TARTAKOWSKI, 2012-b,p. 182)Com essas limitações, a representação política pelo sufrágio universal se tornou a via de expressão política mais viável. Ganhava força, assim, o individualismo filosófico, enquanto era fortalecida a desconfiança direcionada aos organismos intermediários entre o cidadão e os eleitos. Conforme Pigenet destaca, apesar de preponderante, o individualismo liberal deveria enfrentar uma oposição advinda de outra forte tradição na história de resistências na França, herdada da sans-culotterie e retomada com a Comuna. Essa tradição de radicalismo atraiu diversos trabalhadores adeptos à prática associativista parisiense, críticos da III República impregnada de normas, funções e autoridades descendentes do passado, como o senado, a presidência e a polícia. (Ibid., p. 183) A mobilização coletiva foi a principal estratégia política dessa oposição, mas ao mesmo tempo produziu fenômenos como o boulangismo e a política partidária profissional, com seus carreiristas políticos.Da mesma forma, a República procurava se adequar, absorvendo as formas de mobilização coletiva, tanto com a profissionalização parlamentar, quanto com a legalização dos sindicatos profissionais, o que se deu em 1884, com a chamada Loi Waldeck-Rousseau.2Buscou, assim, enquadrar as demandas dos trabalhadores ao emular os exemplos do cooperativismo e mutualismo, já fortemente difundidos entre os trabalhadores.Distantes da influência revolucionária que viria a crescer a partir de 1906 com a CGT, os sindicatos não romperam com o princípio de individualização proporcionado pela via institucional, e foram admitidos como um mecanismo republicano de reequilíbrio pacífico da assimetria entre os assalariados e seus empregadores, papel que o mutualismo e o cooperativismo já desempenhavam de alguma forma. Além disso, legalmente os sindicatos não poderiam servir, ou ter influência, como ferramenta de ação política ou religiosa. (PIGENET; TARTAKOWSKI, 2012-b. p. 183-184)O próprio Ministro do Interior, Waldeck-Rousseau, tranquilizou os Prefeitos Departamentais em uma circular enviada quatro dias após a divulgação da lei. 32Loi sur les Syndicats professionnels (du 21 mars 1884): (...) ART. 2. Les Syndicats ou Associations professionnelles, même de plus de vingt personnes, exerçant la même profession, des métiers similaires ou des professions connexes concourant à l'établissement de produits déterminés, pourront se constituer librement, sans l'autorisation du gouvernement. (...). In: PELLOUTIER, Fernand. 1921. p. 265.3La loi du 21 mars 1884 [...] n’exige de la part de ces associations qu’une seule condition pour leur établissement régulier, pour leur fondation légale la publicité. Faire connaître leursstatuts, la liste de leurs sociétaires, justifier en un mot de leur qualité de Syndicats professionnels. [...] Le législateur a fait plus encore.
Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 201698Com essa perspectiva, embora as federações de sindicato tivessem se regularizado gradualmente, o sindicalismo não alcançava muito sucesso no campo de serviços, papel relegado ao mutualismo, e nem no da defesa das demandas dos trabalhadores. As bolsas de trabalho, criadas em 1887 para sanar as deficiências das federações –e para retomar o que Pelloutier descrevia como combate ao Capital e à República, pela via do fortalecimento econômico e corporativo de cada categoria diante do mercado capitalista 4–, não foi capaz de superar de imediato as dificuldades e nem de ultrapassar o discurso radical, não podendo, assim, gerar mobilizações coletivas que fossem além do limite imposto pela nova democracia liberal. Da mesma forma, as mobilizações grevistas na rua eram toleradas até o ponto em que não afetassem a ordempública, o que significou geralmente duras repressões. (PIGENET; TARTAKOWSKI, 2012-b,p. 184)Gérard Noiriel, em Les ouvriers dans la société française,nota que o equilíbrio instável que caracterizava a sociedade francesa da primeira fase do século XIX se reafirmou com profundidade durante a Grande Depressão que atingiu a França nos anos de 1880-1890. O período foi decisivo para a história operária, pois foi em meio às adaptações econômicas que se encerrou definitivamente o mundo do trabalho baseado na polivalência e na mobilidade, dando lugar ao “proletariado” característico do século XX. Ainda assim, segundo Noiriel, mais do que as mutações sociológicas, que não tiveram tanta importância a não ser no período que se seguiu, a emergência do movimento operário moderno e do sistema de representações coletivas que conseguiu impor é que teriam sido os eventos fundamentais naquele momento. Em toda a história contemporânea da França, foi no espaço de vinte anos entre 1890 e 1910 que a mobilização dos trabalhadores teve a maior intensidade, contribuindo para a profunda desordem das classes dirigentes naquele momento. (NOIRIEL, 2002, p. 83)O recurso às manifestações, às petições, às barricadas e às greves diz mais respeito, antes de tudo, a um determinado contexto do que às expectativas e objetivos originais do movimento. Os engajamentos, por definição, tinham origem no terreno social popular, e se voltavam contra os poderes e as dominações do momento. Isso ocorria tanto por perspectiva de progresso em uma tradição teleológica da política e da religião, quanto por uma Pénétré de l’idée que l’association des individus suivant leurs affinités professionnelles est moins une arme de combat qu’un instrument de progrès matériel, moral et intellectuel, il a donné aux Syndicats la personnalité civile pour leur permettre de porter au plus haut degré de puissance leur bienfaisante activité. Circulaire ministérielle relative aux Syndicats professionnels (25 août 1884). BnF.4Dans la société actuelle, la Bourse du Travail doit être une société de résistance. (...)Maintenir le plus possible l'équilibre entre le prix de location du travail et le prix d'achat des produits, c'est là le rôle présent des Bourses, et, pour le remplir, il leur faut engager avec le Capital une guerre qui ne finira que par la disparition du système économique et politique actuel.(PELLOUTIER, 1921)
Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 201699perspectiva de reação moral às mudanças representadas na industrialização, por sua vez encarnadas na laicidade da III República. (PIGENET; TARTAKOWSKI, 2012-b,p. 184-185)No mesmo lado de reação à República, mas em sentido diverso, esteve a crise do boulangismo. Após a lei Waldeck-Rousseau, numerosas greves haviam sido deflagradas, sendo a mais retumbante a dos mineiros de Decazeville. Nessa ocasião, o general Boulanger, ministro da Guerra do governo Freycinet, encarregado de enviar a tropa para enfrentar os grevistas, fez o famoso discurso no dia 13 de março de 1886 na Câmara dos Deputados, considerando uma calamidade qualquer conflito entre soldados e trabalhadores. O delicado contexto social proporcionava uma imagem de impotência e divisão no regime parlamentar, o que abriu caminho para a escalada política da unidade radical de caráter social-populista em torno da candidatura de Boulanger e seus partidários, especialmente em Paris no campo eleitoral, mas de grande influência política por diversos departamentos entre os anos de 1888 e 1893. (GARRIGUES, 2012, p. 239)De caráter nacionalista, o boulangismo se fez cultura de resistência à democracia liberal, mas também de oposição ao socialismo estrangeirista, e se dotou de forte xenofobia em meio à crise de emprego em decorrência da Grande Depressão. O estado republicano não foi insensível às violentas demandas dessa faixa social, que pedia leis favoráveis ao “trabalho nacional”. Assim, as primeiras leis sociais da III República foram subordinadas à nacionalidade, e iniciou a formação de um Estado de bem estar social na França antes mesmo do século XX se iniciar.O destaque para a crise do boulangismo vem da importância que o fenômeno teve na recomposição e maturação do movimento operário francês no início dos anos 1890. Ela fez com que uma grande parte dos meios artesanais e operários se liberasse do radicalismo tradicional, colocando-os à disposição de novas formações, especialmente as que vieram a compor aestruturação de um movimento socialista e suas correspondentes divisões, e ao crescimento do movimento sindical. Em Bordeaux, por exemplo, o Partido operário dobrou o número de seus aderentes entre 1889 e 1890, e do outro lado, dos socialistas antiboulangistas, a crise conduziu os militantes a revisarem sua estratégia de luta de classes para aceitar a aliança com partidos burgueses. O sucesso de socialistas como Jaurès e Millerand, provenientes desses partidos burgueses, facilitaram a integração do socialismo ao jogo parlamentar, enquanto trabalhadores têxteis e metalúrgicos em Nancy se sindicalizavam em massa. (GARRIGUES, 2012, p. 246)O boulangismo se caracterizou, também, por uma ambiguidade própria do social-populismo que contribuiu para a formação das convicções da militância da esquerda radical.
Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 2016100Havia a corrente socialista revolucionária, encarnada pelos então deputados Charles-Ange Laisant –mais tarde anarquista –e Ernest Roche, e a corrente nacionalista e plebiscitária, liderada por Paul Déroulède –notório anti-dreyfusard poucos anos depois –e Jules Delahaye. (Ibid., p. 247) Laisant está entre os que recusaram a via parlamentar reformadora após o fim do boulangismo, para anos depois se tornar libertário, militando pela pedagogia racionalista de Ferrer e posteriormente no sindicalismo revolucionário pelo importante jornal anarquista-comunista La Bataille Syndicaliste.Ao mesmo tempo, a segunda industrialização, que se iniciou nos anos 1880 e se prolongou por quase um século, estava associada à transição das pequenas oficinas para a concentração de produções em grandes estabelecimentos. Foi intrínseco a essa fase uma disciplina baseada em regimentos internos que buscavam condicionar os trabalhadores à presença e à exatidão para o bom funcionamento dosequipamentos caros. O advento da politécnica, da ciência do trabalho, que projetava no corpo humano a otimização dos movimentos, tais como os de uma máquina, apontam para a superação da fase clássica de disciplina fabril, por sua vez caracterizada pelas práticas do pagamento por peça e pela vigilância pelo olhar, além do paternalismo na relação entre patrão e empregado. (PERROT, 1988-a. pp. 53-80)A superação dessas características clássicas da disciplina do trabalho envolveram as vagas grevistas do começodo século XX, apontando para novas estratégias dos trabalhadores. Embora o conflito ocorresse, e estivesse concentrado sobre a questão das horas de trabalho, a vida fixa na forma salarial proporcionou maior lealdade entre trabalhadores e patrões. Isso nãosignificou, evidentemente, o estabelecimento de uma completa harmonia entre patrão e trabalhador. Pelo contrário, Perrot também nos mostra que a visão do trabalhador nesse período era caracterizada por certo desprezo, alimentado por um “Saint-simonismo” operário. As representações do patrão pelo trabalhador apresentavam em determinados casos, inclusive, o desejo de substituir os patrões por operários militantes exemplares (que se assemelhavam à figura do engenheiro politécnico) para se realizar a contento o potencial da industrialização. (PERROT, 1988-b. pp. 81-100)Agência e consequência desse período de grandes mudanças econômicas e sociais, o campo político produziu o chamado Bloco de esquerda, expressão da política parlamentar radical entre 1899 e 1905.Resultante do impacto do boulangismo, e nascedouro de diversos partidos socialistas que abriram espaço a camadas sociais até então distantes da vida política, o bloco desempenhou importante papel no radicalismo que forçava a República em direção a um estado social. (REBÉRIOUX, 1975, pp. 43-82). Entretanto, mesmo a situação salarial
Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 2016101tendo mudado, fruto das lutas sindicais potencializadas pelo radicalismo das Bolsas de Trabalho e do Bloco de esquerda, a formação social não se alterou substancialmente com esse primeiro momento da segunda industrialização francesa.A depressão econômica que havia atingido a Europa inteira, tendo o ponto alto entre 1885 e 1886, fez evoluir os repertórios de ação em todo o continente, sem que pudéssemos discernir uma direção única. Na França, diferente dos outros países, como novo índice da nacionalização, a mudança de modalidades de ação coletiva estava ligada a uma grande visibilidade das mobilizações rurais e provinciais. O repertório de ação das mobilizações teve certa continuidade, com mobilizações espontâneas em tempos de crise frumentária, com meetings em praça pública, e cortejos apenas com os antigos communards. (PIGENET; TARTAKOWSKI, 2012-b,p. 189). Abriu-seo tempo das organizações, em que se devia mobilizar pela duração.Nesse período formaram-se também as variações socialistas, que iam do possibilismo, como o Partido Alemanista, ligado a Paul Brousse, ao atomismo, como no caso do Parti Ouvrier Français(POF) de Jules Guesde, que combatiam ações radicais como a greve selvagem dos mineiros de 1892. Ainda assim, a corrente internacionalista e reformista prevaleceu entre os socialistas, e a SFIO foi criada em 1905 com a intenção de unir as principais tendências, encabeçadas por Jean Jaurés, Jules Guesde, e pelo communardEdouard Vaillant. Apesar disso, seria um tanto apressada a afirmação de que o internacionalismo teria dominado o movimento operário francês, que foi estruturado em bases nacionais, conforme foi possível perceber na crise do boulangismo e, em 1914 novamente, com a Union Sacrée, bloco de esquerda que reuniu nada menos que a CGT e a SFIO, até então notórios dissidentes, afirmando a perspectiva patriótica e aliada ao estado na luta contra os alemães.5O caso dos anarquistas e sua contribuição ao movimento operário constitui item a parte deste breve artigo. As mobilizações coletivas ligadas a esse grupo político tiveram impacto no mundo da militância de maneira decisiva, não apenas no âmbito das lutas na França, mas, também na evolução da esquerda e de suas vertentes mais libertárias por todo o mundo, especialmente a partir da prática do sindicalismo de ação direta.Um mundo disperso pela multiplicação das tendências anarquistasExpressão do dinamismo da luta dos trabalhadores, e motivado pelo radicalismo que alimentou os anos iniciais da III República, o movimento anarquista francês foi agente central na composição do conjunto das mobilizações coletivas e de seus respectivos valores que 5Ver BRON, 1970, pp. 53-78; e PIGENET; TARTAKOWSKI, 2012. p. 191.
Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 2016102deram unidade à classe trabalhadora no período de 1880 a 1914. Ainda que em menor número frente aos socialistas, foram os anarquistas que, de maneira efetiva e incisiva, organizaram e colocaram em prática novas modalidades de ação direta, pautadas pela combatividade, que se firmariam enquanto repertório da luta operária. Dentre essas modalidades, a imprensa investigativa e de propaganda revolucionária, o uso sistemático da representação artística (as pinturas, o teatro, a música) como ferramenta política, e a generalização da greve como estratégia de luta autônoma aos partidos marcaramo repertório de ação no período.A série de atentados anarquistas no final do século XIX, protagonizados por militantes individualistas como Ravachol, Auguste Vaillant e Émile Henri, marcou o fim de um período de crescimento do movimento anarquista na França. Seguiu-se, a partir de então, o apogeu do combate ao movimento, empreendido pelo Estado francês com as chamadas “Leis Céleres” e o “Processo dos Trinta”, iniciado em agosto de 1894, em que trinta militantes anarquistas, dentre eles Jean Grave, Sébastien Faure, Félix Fénéon e Émile Pouget foram presos e condenados a penas diversas. Os relatórios de polícia, assim como os relatos dos militantes anarquistas nos anos que se seguiram até as vésperas da primeira Guerra Mundial, denunciam um período de vigilância, perseguição e repressão do Estado que ajudam a compreender não apenas o desmantelamento do movimento, mas, também a grande diversidade de orientações que o caracterizava, muito embora as estratégias, táticas e ações no meio social e político estivessem próximas conforme o repertório de ação que lhes era disponível.Em meio a essa diversidade, a polarização entre as posições individualista e anarquista-comunista no movimento–constantemente estimulada pelasegurança nacional com o uso de inteligência policiale agentes infiltrados –foi promovida à popularização da imagem radical e inconsequente acerca do anarquismo francês. Nos relatos policiais, são várias as associações generalizadas dos anarquistas a bandidos comuns, a não ser em relatórios de síntese, normalmente produzidos por comissários ou investigadores endereçados ao Ministério do Interior, em que os grupos eram tratados com algum grau de profundidade.6O grande número de informação gerado pela vigilância, mobilizada pelos comissariados de polícia após a experiência da Comuna e os atentados do final do século XIX e reunida pela Brigade de Recherches, criou a necessidade de sínteses anuais para controle do Ministério do Interior. Em uma dessas notas de síntese, de 1913, o comissário se esforça por 6Num relatório de políciade julho de 1907, por exemplo,jovens anarquistas e libertários são tratados genericamente comoladrões e golpistas. Que morariam no6º ou 7º andar(último andar nas construções “haussmanianas”, com habitações normalmente precárias epequenas), roubariam diariamente o leite e o pão de outros apartamentos, assim como frutas e outras coisas nas feiras; e que não pagariam os aluguéis, prolongando a dívida até o último momento possível, quando deixavam furtivamente os apartamentos.PPo BA1499 –Menées Anarchistes.
Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 2016103historicizar a evolução dos anarquistas na França. Ao abordar os resultados dos embates de Bakunin e Marx na Internacional, e falar sobre o fim da década de 1870, aponta para o surgimento da divisão do movimento entre individualistas e anarquistas-comunistas por autodenominação dos próprios anarquistas:Il est à noter qu’à cette époque les anarchistes s’appelaient soit socialistes anti-autoritaires soit collectivistes anarchistes. Ils repoussaient la qualification de communistes parce que, prise de préférence par Karl Marx et les socialistes de l’école allemande, elle impliquait des conceptions étatistes auxquelles ils étaient hostiles. Ce n’est qu’en 1880 que, sur la proposition de Kropotkine, ils abandonnèrent l’épithète de Collectivistespour celle decommunistes.O comissário continua a descrever o histórico do movimento, dando mais destaque à atuação dos que eram “coletivistas” e que viriam a ser os “comunistas”, especialmente pelo uso da propaganda escrita, como Jean Grave e o Les Temps Nouveaux, Sébastien Faure e o Le Libertaire, e Émile Pouget e o Le Pére Peinard. Ao descrever os individualistas, adota tom mais grave:Les anarchistes individualistes sont pour la plupart d’anciens communistes ralliés aux théories des philosophes allemands Max STIRNER et NIETZSCHE, qu’ils n’ont peut-être pas toujours comprises et qu’en tout cas ils ont amputées de tout idéalisme. Pour eux, l’individu à se libérer des préjugés qui font obstacle à son émancipation totale et, pour employer une formule qui leur est chère, “à vivre sa vie dans la société actuelle”. Naturellement une telle doctrine mal comprise ne produit que ce qu’elle doit produire: de jeunes illuminés finissent par se persuader qu’ils sont droit immédiatement à toutes les satisfactions et, pour “vivre leur vie”, commettent, sous prétexte de “reprise individuelle”, des délits et quelquefois des crimes. Les membres de la bande BONNOT étaient des adeptes des théories individualistes. En somme, dans ces milieux on trouvera plutôt le malfaiteur de droit commun que l’individu décidé à commettre un attentat par passion politique.7O embate entre individualistas e anarquistas-comunistas já havia marcado mais de 15 anos do movimento, e remontava ao final do século XIX. Após o hiato desencadeado pelo período dos atentados, as ações anarquistas foram retomadas durante os anos de 1895 a 1900. Depois de praticamente desaparecerem em 1894, o número de periódicos anarquistas volta a aumentar, como mostrou Jean Maitron a partir do número de publicações anuais. De 39 no ano de 1894, passa ao máximo de 421 publicações no período, em 1899. (MAITRON, 2007, p. 140)Líderes do movimento como Sébastien Faure, Dhorr, Janvion, Ferrière, Broussouloux, Prost e Ernest Girault percorriam o país para difundir novamente o pensamento anarquista, e 7AN F713053. Notes sur l’anarchisme. 1913.
Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 9, n. 1, jan./jun. 2016104da mesma forma o ponto de vista deles sobre o caso Dreyfus, além de uma atenção nova aos sindicatos –ambiente de mobilizações que já vinha sendo ocupado por outros libertários, como Pelloutier, Griffuelhes, Pouget e Paul Delesalle, empenhados em destituir do sindicalismo a orientação socialista guesdista dominante. Apesar dessas incursões, e dos esforços por difundir o neo-malthusianismo e a educação libertária, a ação anarquista renasce nesse período absorvida pelo caso Dreyfus.(BOUHEY, 2008.Pp. 354-355)Os maiores alvos dos individualistas eram Sébastien Faure, Jean Grave e Pouget. Faure, que viria a se revelar durante o ano de 1898 como um dos principais dreyfusardsno meio libertário, serviu de vetor para as lutas internas do anarquismo. Os individualistas se declaravam francamente anti-dreyfusards, pois eram anti-fauristas e, portanto, empenhavam-se em sabotar e deslegitimar as manifestações e publicações dreyfusards.8O caso Dreyfus representou não apenas a demarcação da divisão entre os individualistas e os anarquistas-comunistas, mas, também a dispersão de tendências do movimento que marcou os vinte anos anteriores à Grande Guerra. Temas como o cooperativismo, o neo-malthusianismo, a pedagogia libertária, o anti-militarismo e o sindicalismo não apenas motivavam embates internos que tomavam a energia do movimento, mas, também constituíam-se como a própria identidade dos grupos que se formaram ao longo do período.Da luta de Daudé Bancel pelo cooperativismo de consumo, em detrimento do de produção e de crédito, passando pela pedagogia libertária de Paul Robin e Sébastien Faure, pelos essencialismos morais em torno do anti-alcoolismo e do neo-malthusianismo, pelas comunidades libertárias no entorno de Paris, ao antimilitarismo como possibilidade de unidade revolucionária no movimento, as ações se confundiam e conformavam o repertório disponível: meetings e conferências, que reuniam a propaganda oral e as intervenções musicais e teatrais; a imprensa libertária e a produção literária dos militantes, que reuniam a propaganda pela palavra.Por outro lado, motivo de grandes divergências no movimento, a prática sindical dos anarquistas criou outras formas de ações –ou associações –no repertório de luta dos trabalhadores. A ação direta, com sabotagens, paralisações, piquetes e, finalmente, a greve generalizada, considerada pelos anarquistas-comunistas a realização revolucionária em si, era considerada a ponta de lança dos anarquistas no movimento operário. Isso pelo menos até 1911, quando os anarquistas-comunistas sentiram a sua influência na CGT diminuir, e criaram 8PPo BA1497. Rapport du 12 mars 1899. O artigo do autor Luiz Felipe Cezar MundimDoutorando em História pela UFRGS/Université Paris 1 –Panthéon-Sorbonneluizmundim@gmail.com
Uma observação . Os biliuonários cada vez mais ricos. E as pessoas e os governos cada vez mais pobres. E em níveis globais .
Confira meu artigo . Link: https://diariodeumjoranlista.b
Confira a noticia .https://auditoriacidada.org.
Confira a noticia https://almapreta.com.br/
Confira a noticia no Portal G1 da Rede Globo https://g1.globo.com/educacao/
E assim caminha a humanidade
Imagem do Portal G1 da Rede Globo.
.

Nenhum comentário:
Postar um comentário