O acordo secreto firmado entre a Rede Globo e o grupo norte-americano Time-Life em 1962 é um dos episódios mais polêmicos da história da comunicação brasileira, pois garantiu o capital necessário para fundar a emissora, mas violava a Constituição Federal da época.Abaixo estão os principais pontos para entender essa parceria, o escândalo jurídico e o desfecho que moldou a televisão no Brasil.1. O Contexto do Acordo (1962)Em 1957, o presidente Juscelino Kubitschek concedeu a Roberto Marinho o direito de explorar o Canal 4 do Rio de Janeiro. Sem recursos financeiros suficientes para colocar a TV Globo no ar e competir com gigantes da época (como a TV Tupi e a TV Excelsior), Marinho buscou investidores internacionais.O aporte financeiro: O grupo de mídia norte-americano Time-Life injetou cerca de US$ 5 a 6 milhões na futura emissora.A contrapartida: Em troca, os americanos teriam participação nos lucros da empresa e enviaram executivos, como Joe Wallach, para gerenciar a parte administrativa e financeira.A inauguração: Graças a esse dinheiro e equipamentos importados, a TV Globo entrou no ar em 26 de abril de 1965.2. A Ilegalidade JurídicaA Constituição Brasileira de 1946 (artigo 160) proibia expressamente que empresas estrangeiras fossem proprietárias ou participassem da gestão intelectual, administrativa e financeira de veículos de comunicação nacionais.Para contornar a lei, os contratos foram desenhados como "acordos de assistência técnica" e "empréstimos de swap". No entanto, concorrentes e políticos denunciaram que a manobra mascarava uma sociedade ilegal.3. A CPI da TV Globo e Time-Life (1966)Em 1966, o Congresso Nacional abriu uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a denúncia, liderada pelo deputado João Calmon (ligado aos Diários Associados, concorrentes da Globo).A conclusão: O parecer final concluiu por unanimidade que os contratos violavam a Constituição e feriam a soberania nacional.O arquivamento: Apesar do parecer da CPI, o governo militar (que havia assumido o poder no golpe de 1964) interveio. Sete meses depois, o Consultor-Geral daquel tempo. Segundo a Mestra e Publicitarária Maire de Miranda Oliveira Vaz, no Primeiro Semestra da Habilitação em Jornalismo na Comunicação Social, pelas Faculdades Integradas Alcantara Machado (FIAAM FAAM).
Legislação Nacional de Telecomunicação nos anos 60 e 70 e a Rede Globo como estudo
de caso
Gabrielle Lins Meireles*
Abstract
The present work aims at a brief analysis of the legislation about telecommunications
in Brazil between 1962 and 1972. Focusing on investment in the sector by the Military
Government, both in its regulatory, technological development and its control. And looking at
the relationship of this legislation with the establishment and expansion of the Globo
television as a case study. So analyze the relationship between Globo TV and the
governments of the 60 and 70, with emphasis on the military period.
Keywords
Globe, Military, Telecommunications
Na análise da Legislação Nacional voltada para as telecomunicações do período de
1962 e 1972, nota-se uma constante crescente preocupação do governo e do empresariado
com o setor. Vale lembrar que o setor de telecomunicações engloba todos os meios de
comunicação, ou seja, desde rádio e televisão a telefones sem fios e satélites de transmissão.
Essa preocupação se torna ainda maior nos anos que se sucederam após o golpe de 1964,
principalmente voltada a televisão.
Outro fator importante nesse período é que os meios de comunicação nesse mesmo
momento ampliam seu campo de abrangência. O rádio já havia há muito se tornado um
veículo de comunicação de massa, a televisão surgida na década de 50, aos poucos na década
de 60 foi aumentando o número de telespectadores e dando uma cara nova a comunicação. O
que antes era visto apenas em jornal ou então através apenas do som passa a ser visto e
* Graduada em História pela UERJ/FFP. Mestrando do PPGHS – Programa de Pós-Graduação em História
Social – da UERJ, na linha “Território, movimentos sociais e relações de poder”, orientada pelo Profº Dr.
Gelsom Rozentino, com bolsa de fomento da Fundação Carlos Chagas de Ampara a Pesquisa do Estado do Rio
de Janeiro - FAPERJ.
ouvido, significando e muito para o setor de telecomunicações que vê nesse novo momento
um boom de investimentos econômicos e tecnológicos.
E da mesma maneira que despertou interesse em setores econômicos, não foi diferente
no governo, que passa é legislar em prol do setor e principalmente da televisão para
regulamentar e controlar sua implantação.
Na década de 60 já são mais de duzentos mil aparelhos de TV no Brasil, e esse número
tente a aumentar gradativamente a ponto de, no início da década de 70 tornar-se o principal
veículo de comunicação do Brasil.
Acompanhando esse crescimento, não só na TV mais também das telecomunicações
em geral, o Governo Federal desenvolve vários meios de controle. Dentre eles: a criação da
do CONTEL (Conselho Nacional de Telecomunicações) tendo como um dos seus presidentes
José Cláudio Beltrão Frederico, do “Código Brasileiro de Telecomunicações”1. Sendo
alterado pelo Decreto-Lei nº 236 de 28 de fevereiro de 1967, modificando a redação dos
artigos 24 e 53. Tal alteração fez com que as telecomunicações ficassem submetidas ao
controle do governo, constando a partir de então no artigo 24 fica instituído o recuso do
Presidente, e no artigo 53 ficou estabelecido os temas proibidos para a radiodifusão
constituindo um crime e contravenção caso esses temas viessem a público, como:
Art. 53. Constitui abuso, no exercício de liberdade da radiodifusão, o emprego desse
meio de comunicação para a prática de crime ou contravenção previstos na legislação
em vigor no país, inclusive:
a) incitar a desobediência às leis ou decisões judiciárias;
b) divulgar segredos de Estado ou assuntos que prejudiquem a defesa
nacional;
c) ultrajar a honra nacional;
d) fazer propaganda de guerra ou de processos de subversão da ordem
política e social;
e) promover campanha discriminatória de classe, côr, raça ou religião;
f) insuflar a rebeldia ou a indisciplina nas fôrças armadas ou nas
organizações de segurança pública;
g) comprometer as relações internacionais do País;
h) ofender a moral familiar pública, ou os bons costumes;
i) caluniar, injuriar ou difamar os Podêres Legislativos, Executivo ou
Judiciário ou os respectivos membros;
1 LEI Nº 4.117, DE 27 DE AGOSTO DE 1962. Essa lei instituiu o Código Brasileiro de Telecomunicações que
regulamenta o setor de telecomunicações no geral, porém incorporando em suas determinações a tv como
principal enfoque.
j) veicular notícias falsas, com perigo para ordem pública, econômica e
social;
l) colaborar na prática de rebeldia, desordens ou manifestações proibidas.2
E no início da década de 60 também é fundada a ABERT (Associação Brasileira de
Telecomunicações) cujo primeiro presidente foi João Calmon, ligado diretamente aos Diários
Associados (TV Tupi). Associado a estes foi criado também a ENBRATEL, com a finalidade
de organizar e desenvolver o setor de telecomunicações. O Estado aparece como o grande
mecenas da televisão brasileira, viabilizando sua implantação e expansão em todo o país.
O setor vem ganhando destaque, e passa absorver mais de 24% dos investimentos
publicitários no país, aumentado seu poder econômico e principalmente expandindo seus
alcances.
Como o setor publicitário em geral, mais especificamente a TV também foi vista pelo
governo como um meio fortíssimo de propaganda e controle. Por isso, sendo um dos motivos
da necessidade de investir e incentivar o setor era justamente o de desenvolver a TV. Como
era comum desde o primeiro governo de Vargas uma preocupação com a propaganda política,
visto a criação do DIP, essa prática não se perde e é ainda mais explorada com os militares a
partir de 1964, e, sobretudo, a partir de 1969, com o Governo de Médici. Cabe destacar que o
mecanismo de propaganda dos militares, em muito se diferenciava do DIP que ao mesmo
tempo era uma agência de promoção e de controle de um governo, cujo governo os militares
consideravam símbolo máximo do populismo, um dos alvos de suas ações. Já na Ditadura
Militar (1964-1985) o controle era realizado sobretudo pelo SNI (Serviço Nacional de
Informação) e a propaganda pela AERP (Assessoria Especial de Relações Públicas). Que
massifica através dos meios de comunicação propagandas ufanistas a favor do
desenvolvimento econômico do país e em defesa do próprio regime, visando gerar em meio a
população um otimismo em relação ao futuro do Brasil, acreditando que o país “estava dando
certo”, com o objetivo de criar uma vontade geral do povo3 brasileiro, na crença de que o
Brasil seria a próxima potência mundial.
A propaganda política nesse momento significava muito mais do que uma “máquina
de controle ideológico” seria como um modo de divulgar o governo e mais além conforme
2 DECRETO-LEI Nº 236, DE 28 DE FEVEREIRO DE 1967.
3 MICHAUD, Éric. La estética nazi: um arte de La eternidad.
aponta Carlos Fico4, de propagar a “realidade” que o regime pretendia instaurar, fornecendo
uma visão idealizada que o regime tinha de si mesmo. A propaganda política aparece então,
com um caráter pedagógico, afim de, ensinar o povo, que o governo é da vontade geral da
massa, uma pedagogia ufanista, que estava presente no Brasil desde os anos JK.
Caracterizando o que Gramsci chama de hegemonia, o consenso e a coerção5.
A Ditadura Militar, de maneira crescente desde o governo Castello Branco, Costa e
Silva e Médici, ao mesmo tempo que aumentava a censura sobre os veículos de comunicação,
aumentava também os incentivos econômicos e legislativos para a ampliação desses mesmos
meios. Vide o número de decretos leis que foram promulgados no período e principalmente
dos que liberavam recursos financeiros para as agências nacionais de telecomunicações leia-se
ENBRATEL, CONTEL, entre outros6.
A legislação analisada nesse trabalho envolve o período ente 1962 – 1972. Haja vista
que esse período foi eleito como corte cronológico para este estudo, pois é quando ocorre o
desenvolvimento em larga escala do veículo de comunicação e também onde se consolidam as
emissoras de TV.
Desde o governo de Jânio Quadros a televisão e seus usos obtiveram uma maior
atenção, visto que através das fontes reunidas que as principais leis que regulamentavam o
serviço datam desse período. Como também do mesmo período, houve uma expansão das
emissoras de televisão. A Rádio Globo S. A., no ano de 1962 obteve duas concessões de TV
uma no estado da Bahia7 e outra na cidade de Brasília8. Ambas concessões foram revogadas
por não cumprimento do prazo de dois anos para sua implantação.
A constituição da TV Globo se deu regulamentada pelo decreto nº 55.782, de 19 de
fevereiro de 1965, onde constituía sua organização e obrigações para com o governo, sendo
4 FICO, Carlos. Reinventando o otimismo: ditadura, propaganda e imaginário social no Brasil. Rio de Janeiro:
Ed. FVG, 1997.
5 BIANCHI, Álvaro. Estado / Sociedade Civil. In: O Laboratório de Gramsci: fiolosofia, história e partido. São
Paulo. Alameda, 2008, p. 173-198.
6 A exemplo: ver Lei nº 4.773, de 15 de setembro de 1965;
Decreto nº 57.004, de 11 de outubro de 1965;
Lei Nº 4.666, de 8 de junho de 1965;
Lei nº 5.069, de 6 de julho de 1966.
7 Decreto Lei nº 922 de 27 de abril de 1962. Trata da concessão outorgada à Rádio Globo S. A. para
estabelecer uma estação de televisão na cidade de Salvador no Estado da Bahia.
8 Decreto Lei nº 921 de 27 de abril de 1962. Trata da concessão outorgada à Rádio Globo S. A. para
estabelecer uma estação de televisão, geradora de programas, na cidade de Brasília Distrito Federal.
de principal atenção no documento citado a duração da concessão (10 anos), o
estabelecimento do quadro de funcionários (devendo ser constituído por 2/3 de brasileiros) e
sua diretoria deve ser totalmente constituída de brasileiros, estipula um prazo para sua
inauguração e do perímetro territorial de alcance da emissora, entre outras atribuições
interferindo até mesmo no conteúdo de sua programação (como a exibição de informes
meteorológico). Esse decreto lei foi alterado por um conseguinte de nº 55.879 de 30 de março
de 1965, tratando especificamente do artigo nº 2, aumentou o prazo de duração da concessão
de 10 para 15 anos.
Além de Rádio Globo, outros empresários ou grupos empresariais também
conseguiram concessões de TV nesse período, porém nesta análise não cabe tal referência,
pois o foco principal dessa pesquisa é a instituição da Rede Globo de Telecomunicações.
Subseqüente aos incentivos gerados pelos governos desde a implantação da TV no
Brasil, havia um certo rigor no controle de tal veículo. Se comparado aos outros meios (rádio,
jornal) que apenas precisavam de um simples registro a TV, além do registro precisava de
uma lei autorizando seu funcionamento e era passível de ser cassada a qualquer momento
bastando não seguir o que lhe era pré-determinado.
Mesmo no início da década de 60, ainda no governo de Jango, com a TV sendo alvo
de uma preocupação do governo, não se compara aos períodos dos governos militares. Vale
lembrar que as principais leis de regulamentação do instrumento de comunicação datam desse
momento, os incentivos ao setor, passam a ser em larga escala durante o período militar.
Em 1965, o governo de Castelo Branco por meio do Fundo Nacional de
Telecomunicação e do gerenciamento da ENBRATEL, investe na tecnologia da TV, como
instaurando um sistema avançado de transmissão em microondas, abrindo crédito para
compra de receptores, dando incentivos e infra-estrutura para sua expansão. Nesse momento a
TV Globo já havia sido inaugurada e aproveita esse processo incentivador do governo, pois
mesmo antes de 1965, a Globo já contava com os incentivos fiscais do governo, como na
isenção de impostos na importação e consumo de equipamentos para vídeo-tape que não
tivesse similar no Brasil9.
9 Ver Lei nº 4.419, de 29 de setembro de 1964.
Em 1967 é criado o Ministério das Telecomunicações que vai a partir de então reunir
todas as entidades de controle e regulamentação tanto da TV quando dos outros aparelhos de
Telecomunicação centralizando esse controle, tendo como primeiro ministro Carlos Furtado
de Simas, permanecendo no cargo de 1967 a 1969. Ainda nesse mesmo ano, o Decreto-Lei nº
236, de 28 de fevereiro, modifica o Código Brasileiro de Telecomunicações, onde proíbe a
participação de qualquer entidade e ou pessoa jurídica estrangeira, estabelece um teto máximo
de emissoras por grupo (10 estações) e em 5 as de transmissão em VHF, indo mais além ao
subjugar as modificações das sociedades internas assim como os acordos com empresas
estrangeiras a cargo do Ministério das Telecomunicações e do CONTEL.
Outro aparelho usado pelos militares para controle da propaganda política, a AERP –
Assessoria Especial de Relações Públicas, criado em 1968, esse aparelho tinha a função não
só de regulamentar a propaganda política como também promover através da propaganda o
governo. Com tudo, no final dos anos 60 e início dos anos 70, devido ao crescimento
econômico brasileiro, o que foi chamado de milagre econômico, o Brasil entrava em um
momento de estabilidade política, creditando a idéia de um futuro próspero para o país, como
se esse fosse o destino do Brasil, pensamento esse recorrente nas propagandas do governo
promovidas pela agência10.
Um ponto importante nessa pesquisa notado durante a analise das fontes, é o acordo da
Rede Globo de Televisão com a Empresa norte americana Time Life. Sendo este acordo pauta
de alguns documentos identificados na pesquisa como o Projeto de resolução n 190, de 1966,
que trata da instauração de uma CPI para averiguar esse acordo. Esse acordo recebeu atenção,
por meio da denuncia de João Calmon, em primeiro momento de averiguação mesmo com o
parecer do relator Djalma Marinho dizendo que infringia o artigo 160 da Constituição o então
presidente Castelo Branco, autorizou esse acordo. E apenas em 1968, há uma nova analise e é
declarado ilegal o acordo e Costa e Silva é obrigado a revogar a decisão de Castelo Branco, e
a Time Life é obrigada a se retirar da TV Globo11.
10 FICO, Carlos. Reinventando o otimismo: ditadura, propaganda e imaginário social no Brasil. Rio de Janeiro:
Ed. FVG, 1997.
11 Sobre o assunto ver:
Heiz, Daniel. A história Secreta da Rede Globo. Ed. TCHÊ!, 1987.
No início da década de 70, 27% das residências do país já possuem televisão e 75%
estão localizadas no eixo Rio-SP12. E os anunciantes passam a comprar horários entre os
programas e não mais patrocinar um programa inteiro, com isso mo Ministério das
Telecomunicações regulamenta o comercial de 3 minutos para cada 15 de programação. Nota
se com tudo, uma preocupação do governo em atender as necessidades não só das emissoras
de TV mais também a dos anunciantes (empresas que faziam propaganda dos seus produtos
através da TV), atendendo dessa forma as necessidades da burguesia nacional. Vide que a
mesma participava da elaboração dos projetos leis e decretos, representados pelos grupos de
estudos organizados pelo IPES, conforme aponta Dreifuss, esses grupos participavam
diretamente na construção de alguns projetos a exemplo do anteprojeto de Lei sobre o Código
Nacional de Telecomunicações, sob responsabilidade do general Luiz A. Medeiros, da
Globo13.
Nesse mesmo período o governo cria o PRONTEL (Programa Nacional de
Teleducação) por meio do Decreto nº 70.066, de 26 de janeiro de 1972, regulamentando a
transmissão nacional de programação voltada para a educação. Seguindo essa mesma linha de
programação nacional, que ficou regulamentada desde então, as emissoras de TV começaram
o organizar sua programação nacional, sendo a pioneira delas a TV Globo, que nesse mesmo
ano lança sua programação nacional, se tornando um sucesso de audiência. Outro mecanismo
criado pelo governo foi o Conselho Nacional de Comunicação, sendo um braço do Ministério
das Comunicações com a finalidade de assessorar diretamente o ministro das comunicações,
este conselho cabe ressaltar que foi originário do Conselho Nacional de Telecomunicações.
Notadamente a elite orgânica se encontrava infiltrada em diferentes setores da política
nacional e da sociedade, fazendo com que seus ideais de sociedade moderna fossem
propagados bem como suas necessidades (principalmente econômicas) fossem atendidas.
A reunião dessas fontes pode propiciar uma visão de governo preocupado em não só
atender suas necessidades de propaganda, mas também a atender as necessidades de uma
camada da burguesia, que de certa forma não se opunha ao governo. Através dos incentivos
12 sobre o assunto ver Censo nacional de 1970
13 DREIFUSS, René Armand. 1964: A Conquista do Estado Ação Política, Poder e Golpe de Classe. Petrópolis,
Ed. Vozes, 1981. p. 238
tanto ficais quando de promoção da tecnologia. Não se pode dizer que apenas uma das partes
saia beneficiada com essa política, especificamente como o caso da Rede Globo de Televisão.
A Rede Globo como hoje em dia é conhecida nacionalmente, surgiu inicialmente na
década de 60 com apenas uma emissora, quando ainda era chamada de TV Globo. Essa
emissora é originaria da Rádio Globo, empresa de propriedade de Roberto Marinho, nome
muito importante para o progresso das telecomunicações no Brasil, dono também do jornal O
Globo, que deu origem ao conglomerado empresarial. As empresas de Marinho constituem o
que chamamos de Organizações Globo, várias empresas voltadas para o setor de
comunicação, de mesmo dono, sob a marca Globo.
A primeira concessão de TV obtida por Roberto Marinho foi durante o Governo de
JK, sendo esta que ira entrar no ar no ano de 1965. Esse empresário conseguiu mais duas
concessões posteriormente, no ano de 1962, conforme citado anteriormente, uma na cidade de
Salvador e outra no Distrito Federal ambas caducaram, antes mesmo de vigorarem por falta de
recursos. A situação da TV Globo se modifica apenas quando assina um acordo com o grupo
empresarial norte-americano Time Life, onde ambas empresas (Leia-se Globo e Time Life) se
comprometiam com a inauguração da emissora de TV. Esse acordo foi o diferencial da Globo
em relação as outras emissoras de TV do Brasil, tanto na questão tecnológica quando
organizacional. Pois as emissoras já instaladas no Brasil, possuíam um equipamento precário
e eram feitas de forma quase amadora, visto que a tecnologia era internacional. O que se
modifica com a inauguração a TV Globo sob os padrões internacionais, e com equipamento e
pessoal da Time Life visando ditar um novo padrão televisivo no país.
Esse padrão internacional de televisão fez com que as outras emissoras almejassem o
mesmo patamar e proporcionou não só uma televisão de ponta no país como também uma
corrida pela tecnologia acentuando ainda mais a concorrência entre as emissoras brasileiras
além de modificar a forma de se fazer televisão no Brasil.
Esse acordo estabelecido entre ambas a empresas, pode-se dizer que havia muito mais
que apenas um apoio tecnológico, foi visto também como uma forma de firmar a hegemonia
burguesa no país, como forma de manter essa supremacia burguesa espantando o fantasma
comunista. Atendendo as necessidades do complexo IPES / IBAD, funcionando como
divulgadores da ideologia em defesa dos ideais burgueses discursando em favor da
democracia, do capitalismo e principalmente pregando o anticomunismo. Tal associação além
de visar estabelecer essa supremacia burguesa, era uma forma de ditar os padrões de
sociedade moderna, bem como de divulgar o modelo de sociedade consumista que atendia as
necessidades do capitalismo crescente.
O que causa mal estar em relação a esse acordo empresarial, é que segundo a
Constituição Federal essa associação com empresa internacional era proibia pelo artigo 160:
É vedada a propriedade de empresas jornalísticas, sejam políticas ou simplesmente
noticiosas, assim como a de radiodifusão, a sociedades anônimas ações ao portador e
aos estrangeiros. Nem esses, nem pessoas jurídicas, excetuados os partidos políticos
nacionais, poderão ser acionistas de sociedades anônimas proprietárias dessas
empresas. A brasileiros (art. 129 nos I e II) caberá, exclusivamente, a responsabilidade
principal delas e sua orientação intelectual e administrativa14.
Já para Luiz Eduardo Borgeth15, esse acordo não seria ilegal, alegando que era uma
contribuição, que não passava de um financiamento sem juros e sem prazo, dizendo que a
Time Life não sabia nada de Brasil e, portanto, não havia nem feito o apoio técnico adequado.
Porém a TV Globo entre no ar mesmo com esse acordo que somente foi investigado
anos depois. E ainda assim a Globo conseguiu isenção de impostos na importação de
equipamentos e material de vídeo-tape que não fosse produzido no Brasil16. Estabelecendo
uma relação política umbilical. Esse fato não foi comum as outras emissoras de TV, haja vista
que a implantação das emissoras de televisão no Brasil eram altamente controladas pelo
governo afim, de não haver oposição ao governo nos meios de comunicação. A situação da
TV Globo se tornou diferenciada das outras emissoras, tanto no investimento empresarial
quando no tratamento legislativo do governo federal.
No dia 26 de abril de 1965 a TV Globo é inaugurada no Rio de Janeiro, no canal 4 de
televisão, e as 11 horas também do dia 26 de abril entra no ar em São Paulo pelo canal 5 TV
Paulista.
Com a inauguração, alguns técnicos vieram para a TV Globo. O primeiro foi o norte
americano Joseph Wallace, trazendo para a emissora uma visão mais empresarial e em
seguida José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (Boni) sai da TV Rio seguido de Walter Clark e
vão para a Globo. Dessa forma a TV Globo foi reunindo os profissionais de maior categoria
14 Constituição da República Federativa do Brasil. Ed. 1946, artigo 160.
15 BORGETH, Luiz Eduardo. “Quem e como fizemos a TV Globo. A Girafa. 2003.
16 Sobre o assunto ver: Lei nº 4.419, de 29 de setembro de 1964.
além dos enviados pela Time Life, contratava os que já trabalhavam nas emissoras brasileiras.
Além de comprar a TV Paulista das Organizações Vitor Costa. Dessa forma, tornavam os
meios de comunicações mais estáveis financeiramente atraindo investimentos, tanto do capital
privado nacional como também anunciantes de marcas multinacionais.
Com menos de um ano de fundação a TV Globo já abrigava os maiores profissionais
de televisão do Brasil, sendo administrada por homens de marketing, preparados longamente
nas escolas dos EUA. A equipe possuía um padrão empresarial muito forte, não vendo apenas
a TV como um meio de comunicação mais também como uma fonte empresarial rentável.
Criando meios de financiar os programas a partir de seus patrocinadores criando os pacotes
publicitários, e também inovando na forma de fazer o programa, que antes nas outras
emissoras era produzido pelo patrocinador, na Globo o programa era feito pela própria
emissora e apenas contava com o capital financeiro do patrocinador e anunciando seu nome
como o mesmo. Isso pode se dizer que foi o início do que na década de 70 foi intitulado de
“Padrão Globo” de qualidade.
Ainda no ano de 1966, com menos de um ano de inauguração o acordo TV Globo
Time Life começou a ser investigado sob a denúncia de João Calmon, sendo instalada uma
CPI em 29 de março para que fosse feita uma averiguação do mesmo. No primeiro parecer
divulgado no dia 8 de março de 196717, o relator declara que havia irregularidades no que
consta aos cargos atribuídos a estrangeiros como os cargos de gerência, e administração e
também no que tange aos recursos financeiros para a construção de prédio e das instalações da
TV Globo. Esse primeiro parecer foi rejeitado pelo então presidente Castelo Branco,
declarando que esse acordo não possuía irregularidades, e decretou que a associação não era
ilegal, considerando as acusações infundadas.
Apenas em 1968, ainda sob pressão de alguns parlamentares como Carlos Lacerda e
João Calmon, o então presidente Costa e Silva revoga a decisão de Castelo Branco, e aprova o
parecer do dia 20 de outubro de 1967, obrigando a TV Globo a se nacionalizar, ou seja, retirar
a participação da Time Life e também dos estrangeiros do quadro administrativo da TV 18.
Todavia a TV Globo já abrigava a maior audiência no estado do Rio de Janeiro
segundo a pesquisa IBOPE, perdendo apenas em São Paulo para a TV Record que possuía
17 PR. 1.369-67 nº 490-H, in HERZ, Daniel. “A história Secreta da Rede Globo. TCHÊ!, 1987.
18 18PR. 1.369-67 nº 585-H, in HERZ, Daniel. “A história Secreta da Rede Globo. TCHÊ!, 1987.
ainda um público fiel a sua programação. A TV Globo, inovara a sua programação
incorporando em sua grade uma programação da mais variada, atendendo a varias camadas
sociais e a diferentes faixas de idade. Ainda no ano de 1968, a Globo, com o objetivo de
alcançar a liderança também em São Paulo, coloca no ar uma gama de programas variando de
programas de auditório como “Casamento da TV”, “SOS Amor”, “Dercy de Verdade” no Rio
de Janeiro e “O Homem de Sapato Branco” em São Paulo, fora o investimento em larga
escala na produção das telenovelas, em destaque nesse período as novelas de Janete Clair
como “Véu de Noiva”.
Após a decisão do presidente Costa e Silva a Time Life retira-se da Globo em 1969, e
esta entre em processo de nacionalização. Concomitante a isso a TV Globo avança ainda mais
no desenvolvimento tecnológico sendo a pioneira na transmissão via satélite, como no
lançamento da nave espacial Apolo IX. E em 20 de julho deste mesmo ano transmite a
chegada do homem a lua, propiciada pelos avanços tecnológicos na EMBRATEL que vendia
os links de acesso a transmissão em satélite por valores muito altos, apenas a TV Globo
conseguiu se incorporar a rede mundial.
Outro fator que favoreceu a centralização da TV Globo, foi o incêndio da TV Globo
de São Paulo (antiga sede da TV Paulista). Pois com esse incidente toda a produção da
programação passou a ser centralizada no Rio de Janeiro, sede principal, o que deu certo
operacionalmente, pois além de tornar os custos menores propicia um maior controle de
qualidade.
Somado a isso, em setembro ainda de 1969, entra em rede no Brasil a estréia do
programa jornalístico “Jornal Nacional”, entrou na grade da programação entre duas novelas a
das 19 horas e das 20 horas com iniciais 15 minutos de duração e depois aumentando para 30
minutos. Esse telejornal inaugurou um novo estilo de jornalismo, por vários fatores: por ser o
primeiro em rede nacional, informação em curto tempo, obsessão pelo tempo real – o agora, a
apresentação visual requintada e fria – denotando imparcialidade e distância, por fim os
assuntos das notícias variavam e equipe jornalística contava com repórteres no exterior e em
outros estados, chamados de correspondentes.
Em 1970 a emissora do Rio de Janeiro sofre um incêndio que, porém, não causou
grandes danos para a emissora. Outro incêndio ocorrido em 1971, e nesse mesmo ano, a
Globo treina seu pessoal e adapta seus equipamentos para os usos da imagem, apontando para
um novo alvo a classe média. O padrão visual diferencia das outras emissoras, com os
logotipos e utilização de imagens de impacto que vieram a ser a marca registrada da Globo
em sua propaganda. No âmbito das novelas os hábitos do povo brasileiro passou a ser
incorporado nas tramas, e cada horário de novela abrigou um tipo de temática a das 18 horas
ficou com as histórias românticas e ou de época, a novela das 19 horas lida com temas leves e
a das 20 horas abriga temas de cunho mais adulto discutindo temas como triângulos
amorosos, riqueza, problemas sociais, sendo mais ousadas no conteúdo e na técnica de
produção.
Para atribuir uma veracidade em sua programação, e contar com uma certa
“participação popular” foi criado o “Departamento de Pesquisa” por Boni, sendo um auxiliar
da produção, pois este departamento analisa os comportamentos, as tendências e as demandas
dos espectadores baseando amostragem das grandes cidades, podendo assim antecipar essas
demandas em massa do público, conhecendo assim o público que já abriga e ainda mais
estudar as necessidades para poder alcançar o restante do excedente. Constituindo de fato, o
Padrão Globo de Qualidade.
Juntamente como a criação do PRONTEL (conforme citado no capítulo anterior
instituindo as redes nacionais de televisão em 1972), a Globo, amplia ainda mais suas áreas de
atuação inaugurando a sua emissora de Brasília e comprando a geradora de TV do Recife,
consolidando-se então como Rede Globo contando com mais de 36 afiliadas e centenas de
estações retransmissoras no país.
A ascensão da Rede Globo se deu em apenas sete anos após sua inauguração. E
solidificando sua superioridade técnica e sua hegemonia no ibope, que desde então não fora
ameaçado. Contando não só apenas com incentivos legislativos do governo, como também
com um pesado investimento empresarial, contudo associado a um momento de fragilidade
política social, onde um governo precisava se firmar e uma sociedade necessitava de
organizar.
Ressaltando que inicialmente boa parcela da sociedade, principalmente a elite, setores
empresariais, e classe média apoiaram o golpe militar, que resultou no Regime Militar.
A história da Rede Globo e de sua constituição se prolonga por muitos anos, mas no
presente estudo não cabe se prolongar, pois o foco principal são os fatores que levaram a
mesma a se tornar o que conhecemos hoje como Rede Globo de Televisão.
Bibliografia
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WEFFORT, Francisco – O populismo na Política Brasileira. São Paulo: Paz e Terra, 2003. O arttigo da autora Gabrielle Lins Meireles*
As principais polêmicas envolvendo a Rede Globo abrangem desde o seu papel político histórico até questões fiscais e controvérsias jornalísticas recentes. Por ter uma influência sem paralelo na cultura e na opinião pública brasileira, a emissora é frequentemente alvo de debates. Abaixo estão os episódios mais marcantes e debatidos ao longo da trajetória da emissora: Históricas e Políticas Apoio à Ditadura Militar: O nascimento e crescimento da TV Globo são umbilicalmente ligados ao regime militar iniciado em 1964. A emissora foi amplamente criticada por censurar movimentos pró-democracia. Em 2013, o Grupo Globo pediu desculpas publicamente pelo apoio editorial dado ao golpe. Caso Proconsult (1982): A Globo se envolveu na divulgação de uma apuração de votos manipulada no Rio de Janeiro que tentava prejudicar a eleição de Leonel Brizola. A fraude foi exposta por outros veículos e a emissora precisou recuar. Censura ao movimento Diretas Já (1984): Inicialmente, a emissora fez uma cobertura omissa das massivas manifestações que pediam o retorno do voto direto, chegando a reportar um comício em São Paulo apenas como uma "festa de aniversário da cidade".Edição do Debate de 1989: No primeiro pleito presidencial direto pós-ditadura, o Jornal Nacional exibiu uma edição do debate que favoreceu amplamente o candidato Fernando Collor de Mello em detrimento de Luiz Inácio Lula da Silva. O episódio é amplamente apontado por especialistas como um marco de interferência eleitoral. Financeiras e Fiscais Acordo Time-Life (1962): Antes mesmo da estreia oficial da emissora em 1965, o grupo fechou um acordo financeiro e técnico com o grupo norte-americano Time-Life. A prática gerou forte polêmica por violar a proibição constitucional de participação estrangeira em empresas de comunicação nacionais. Sonegação de Impostos (Copa de 2002): A Receita Federal acusou a Rede Globo de montar um esquema em paraísos fiscais para mascarar a compra dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002, visando burlar o pagamento de Imposto de Renda. Jornalismo e Tensões Recentes Relação com a Operação Lava Jato: Críticos apontam que o jornalismo do grupo teve uma atuação excessivamente simbiótica com a força-tarefa da Lava Jato, atuando de maneira a capitalizar politicamente as prisões e vazamentos seletivos conduzidos por procuradores. O Erro do PowerPoint da Globonews (2026): Recentemente, a emissora enfrentou duras críticas após exibir por engano um gráfico estilo PowerPoint associando indevidamente o presidente Lula ao empresário Daniel Vorcaro. A emissora reconheceu o equívoco e se desculpou formalmente. Sabatina Presidencial Tensa: Entrevistas conduzidas pela emissora continuam gerando forte polarização, com políticos tanto da esquerda quanto da direita acusando o canal de adotar formatos agressivos e parciais que miram excessivamente em escândalos passados. Gostaria de focar em algum desses períodos específicos? Se quiser, posso detalhar mais os aspectos jurídicos da quebra do contrato com a Time-Life ou as repercussões políticas imediatas das Diretas já
A Rede Globo. Sempre em polemicas. Confira a noticia no Blog do Paulinho .https://blogdopaulinho.com.br/
E assim caminha a humanidade.
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