O progressismo é uma corrente filosófica, política e social que defende que a sociedade pode e deve ser continuamente aperfeiçoada por meio do avanço científico, tecnológico, educacional e de reformas institucionais.
Principais Origens e Evolução
Iluminismo (Século 15): Fundamenta-se na crença de que o progresso decorre da razão humana e da ciência, e não da tradição ou da fé religiosa.
Positivismo (Século 18): Consagra a ciência como ferramenta para organizar e melhorar a sociedade (com lemas como "Ordem e Progresso").
Século 20 em diante: Incorpora a defesa dos direitos humanos, dos direitos sociais do trabalho, e — nas últimas décadas — de pautas identitárias, feministas, de minorias e de preservação ambiental.
Eixos do Progressismo
Dimensão Cultural e Social: Defende a ampliação de liberdades civis, a inclusão de minorias e a igualdade de direitos.
Dimensão Económica e Fiscal: Frequentemente associa-se à regulação do mercado pelo Estado, à justiça social e a políticas de redistribuição de renda.
Caráter Reformista: Em contraste com o conservadorismo (que privilegia a estabilidade e a preservação das tradições), o progressismo enxerga a mudança rápida e a quebra de normas superadas como um imperativo para corrigir desigualdades.
Perfil dos conservadores e dos progressistas
brasileiros: uma abordagem baseada na
teoria dos valores humanos
Thiago Henrique Carneiro Rios LopesI
Miguel Angel Rivera CastroII,III ✉
✉,
DOI 10.1590/1678-98732331e011
IPrograma de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal de Sergipe, Aracaju, SE, Brasil.
IIPrograma de Pós-Graduação em Administração, Universidade Salvador, Salvador, BA, Brasil
IIIDepartamento de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana, BA, Brasil.
Palavras-chave: teoria dos valores humanos, orientação política, conservadorismo político, cultura política, modelo multinomial.
RESUMOIntrodução: Avaliamos os fatores associados à orientação política no Brasil levando em consideração os espectros políti
cos de esquerda, centro e direita, bem como um conjunto de valores baseados na Teoria de Schwartz. Essa teoria permite entender
como os valores pessoais afetam as escolhas e comportamentos dos indivíduos em diferentes contextos, inclusive em relação à
orientação política. Materiais de métodos: Utilizamos a base de dados da sexta onda de pesquisa da World Value Survey, com 1.146
entrevistados para o Brasil no ano de 2014. A análise fatorial confirmatória permitiu validar o questionário de Schwartz e, com isso,
elaborar quatro indicadores para os seguintes valores: conservadorismo, abertura à mudança, autopromoção e autotranscendência.
Além dessas variáveis, controlamos a análise dos resultados através de um modelo multinomial por um conjunto de variáveis socio
demográficas para avaliar os determinantes do autoposicionamento político. Resultados: Os indicadores de conservadorismo e a
abertura à mudança foram significativos para explicar a diferença entre esquerda e direita. A autotranscendência, por sua vez, é um
valor que está associado mais aos cidadãos que se identificaram como de direita do que de centro. Discussão: Além da importância
dos valores para explicar a orientação política no Brasil, as identidades de grupo, isto é, as características sociodemográficas, tam
bém são relevantes. Isto é ilustrado pela significância estatística dos parâmetros das seguintes variáveis demográficas: gênero, idade,
percepção do nível de renda e nível de escolaridade.
Recebido em 3 de Outubro de 2022. Aprovado em 10 de Março de 2023. Aceito em 16de Abril de 2023.
I. Introdução1
1 Agradecemos aos
comentários e sugestões dos
pareceristas anônimos da
Revista de Sociologia e
Política.
Ao longo dotempo, vários estudos têm apontado que construções psi
cológicas como personalidade, fundamentos morais, e, principalmen
te, valores pessoais estão associados a diferentes aspectos da cognição
e comportamento político dos cidadãos. Em particular, os valores relacionados
ao conservadorismo, tais como i) tradição- que significa respeito, compro
misso e aceitação das ideias e dos costumes tradicionais da cultura ou da reli
gião; ii) conformidade- que implica na restrição de ações, atitudes e os desejos
para se aceitarem as expectativas e as normas sociais; e iii) segurança- que
está associada à preferência pela segurança, a harmonia e a estabilidade da
sociedade-, têm uma relação importante com o voto (Barnea & Schwartz,
1998; Caprara et al., 2006; Schwartz et al., 2010; Caprara et al., 2017). Esses
valores estão associados com a preferência por posições políticas de direita
(Aspelund et al., 2013; Barni et al., 2016; Piurko et al., 2011; Caprara et al.,
2017) e com as atitudes políticas favoráveis à ordem e à segurança social
(Schwartz et al., 2010; Stubager, 2008).
Os resultados desses trabalhos são consistentes com alguns estudos que
indicam que o conservadorismo político está relacionado com a resistência à
mudança, à aceitação da desigualdade econômica e à ideologia de direita (Jost
Rev. Sociol. Polit., v. 31, e011, 2023
2/23
Revista de Sociologia e Política v. 31
et al., 2003; Thorisdottir et al., 2007; Van der Toorn et al., 2017). Essa evi
dência mostrou-se robusta em países de língua inglesa e da Europa Ocidental
(Aspelund et al., 2013; Barni et al., 2016; Piurko et al., 2011; Caprara et al.,
2017), os quais são normalmente denominados em diversos estudos psicológi
cos como países culturalmente ocidentais (Gattario et al., 2015; Gestsdottir
et al., 2015).
No entanto, os valores conservadores têm mostrado limitações para expli
car a orientação política em países não ocidentais (Caprara et al., 2017; Hada
rics, 2017). Isto é observado em trabalhos com amostras de países europeus
pós-comunistas ou da Europa Oriental (Hadarics, 2017; Barni et al., 2016;
Piurko et al., 2011; Hadarics, 2017), bem como em amostras com países
latino-americanos (Schwartz & Barnea, 1995; Solano et al., 2015). Esses
resultados seriam decorrentes das diferenças culturais, políticas e econômicas
de cada sociedade (Aspelund et al., 2013; Barni et al., 2016) uma vez que,
devido aos próprios processos históricos, cada um deles pode dar um sig
nificado diferente à dimensão política da esquerda-direita. Por essa razão, é
importante observar empiricamente esses processos no contexto específico da
realidade do Brasil.
Em resumo, o presente estudo pretende identificar se as quatro dimensões
de valores da proposta de Schwartz (1992), relacionados ao conservadorismo,
à abertura à mudança, autopromoção e autotranscendência, estão associados
com a orientação política, operacionalizada por meio de posicionamentos
políticos de esquerda/centro/direita em uma amostra representativa do Brasil.
Nesta pesquisa, foram apresentados onze itens sobre os valores propostos de
Schwartz.
2 O Big Five é um dos
modelos mais importantes
para a explicação da
personalidade humana. Ele a
define como uma rede
hierárquica de traços, cujo
segundo nível hierárquico é
constituído por cinco traços:
Extroversão, Socialização,
Conscienciosidade,
Neuroticismo e Abertura para
Experiência. Para
aprofundamento, ver Costa
(1992), Costa & McCrae
(1995), Goldberg & Digman
(1994), Hutz et al. (1998) e
Trentini et al. (2009).
Vale registrar que a Teoria dos Valores de Schwartz está, em alguma me
dida, associada com os modelos que estudam os fatores globais de personali
dade, conhecidos como Big Five2. Este último é bastante utilizado em pesquisa
psicológica e em testes de personalidade, mas não será diretamente analisado
no texto. Embora a teoria dos valores de Schwartz e o modelo Big Five sejam
abordagens diferentes, eles estão relacionados porque existem algumas sobre
posições entre os valores e as características da personalidade. Assim, as duas
ideias ajudam a compreender a personalidade humana, e oferecem importantes
insights sobre como as pessoas pensam, sentem e se comportam.
Após a criação da Escala de Valores Básicos de Schwartz (1992), a World
Values Survey (WVS) incluiu as perguntas a ela relacionadas em seus ques
tionários a partir da quinta onda de pesquisas, realizada entre 2005 e 2007. Isso
permitiu que vários estudos sobre essa temática fossem desenvolvidos, aos
quais se acrescentaram diversos refinamentos ao longo do tempo. Por exem
plo, o Inventários de Valores de Schwartz- SVS (Schwartz, 1992) foi apri
morado no Questionário de Perfis de Valores (PQV) (Schwartz et al., 2001).
Posteriormente, Schwartz et al. (2012) propuseram um refinamento da teoria
dos valores individuais básicos que analisa e discrimina 19 valores. De todo
modo, as quatro dimensões de valores da proposta de Schwartz (1992) são
verificadas em todas as variações dos questionários.
Assim, num primeiro momento, este artigo vai investigar se as perguntas
associadas à teoria dos valores básicos, no caso brasileiro, também se relacio
nam com as dimensões propostas pelo autor através de uma análise fatorial
confirmatória. Em seguida, serão realizadas as respectivas análises dessas
dimensões e suas relações com a orientação política através dos dados da sexta
rodada de questionários da World Values Survey (WVS). Assim, este artigo
está estruturado da seguinte forma: inicia com esta introdução, seguida do
Perfil dos conservadores e dos progressistas brasileiros: uma abordagem baseada na teoria dos valores humanos
3/23
referencial teórico, onde são discutidos os conceitos da teoria dos valores
humanos e suas dimensões. Depois, é apresentada a metodologia da pesquisa e
os dados para, em seguida, apresentar e discutir os resultados. Por fim, seguem
as considerações finais.
II. Referencial teórico
Segundo Caprara et al. (2006), nas democracias ocidentais, as escolhas
políticas dos eleitores estão mais associadas às suas preferências pessoais do
que às próprias características sociais. Todavia, nem sempre foi assim. Duran
te muito tempo o debate econômico foi central para diferenciar as escalas
ideológicas. Uma das razões que explicam a mudança de perspectiva é que os
partidos políticos- especialmente os de esquerda e de direita- ficaram cada
vez mais parecidos no debate econômico visando atrair os votos do centro
político. Assim, a diferenciação entre tais partidos mudou de foco, especial
mente num contexto em que o eleitorado passou a se preocupar mais com as
relações sociais. Conforme alertou Mitchell et al., “disagreements between
liberals and conservatives are rooted not just in different assumptions about
how to promote economic growth or in different conceptions of their self
interest but in fundamental values” (1993, p. 637).
Nesse sentido, diversos teóricos identificaram uma série de valores básicos
sob os quais os indivíduos atribuem importância enquanto princípios que
guiam suas vidas, tais como: tradição, benevolência e hedonismo. Esses
valores são a base da ideologia (Caprara et al., 2006). No campo da ciência
política, é possível identificar como os valores influenciam a orientação polí
tica. Isso acontece porque eles “são construtos importantes no conjunto dos
conceitos psicossociais considerados centrais para a predição de atitudes e
comportamentos” (Torres et al., 2016, p. 342). Ou seja, as pessoas expressam
seus valores por meio dos seus comportamentos.
Valores são representações cognitivas de desejos, objetivos transituacio
nais que servem como um guia de princípios da vida das pessoas (Schwartz,
1992). Eles podem afetar os traços, os quais são definidos como dimensões de
diferenças individuais em tendências para mostrar padrões consistentes de
pensamento, sentimento e ação (McCrae & Costa, 1990). Enquanto os traços
descrevem como as pessoas são, os valores referem-se ao que elas acham
importante. Os traços podem ser negativos ou positivos, mas os valores de um
indivíduo são fundamentais para justificar escolhas ou ações consideradas
legítimas ou valorosas.
De acordo com Rokeach, valores são crenças duradouras “that a specific
mode of conduct or end-state of existence is personally or socially preferable
to an opposite or converse mode of conduct or end-state of existence” (1973,
p. 5). Já para Schwartz (1992), valores são i) conceitos ou crenças que ii)
transcendem situações específicas; iii) referem-se a estados finais ou compor
tamentos desejáveis, iv) guiam a seleção ou avaliação dos comportamentos e
eventos, e v) são ordenadas por importância relativa. Assim, os valores
diferem das atitudes em sua generalidade (item ii) e em sua ordem hierárquica
de importância (item v). Portanto, as atitudes referem-se a avaliações de obje
tos específicos, ao passo que os valores são padrões gerais utilizados como
base para numerosas avaliações situacionais.
Segundo Allison et al. (2021), podemos dizer que os valores são crenças
fundamentais que orientam as atitudes e comportamentos das pessoas em rela
4/23
Revista de Sociologia e Política v. 31
ção ao sistema político. Eles estão relacionados às crenças mais profundas que
as pessoas têm sobre a política e a sociedade, enquanto as atitudes são mais
específicas e direcionadas a questões ou políticas específicas. Os traços tam
bém podem influenciar o comportamento político, mas são mais relacionados
às características individuais duradouras de uma pessoa.
Na literatura de cultura política, os valores são entendidos como crenças ou
princípios fundamentais que guiam as atitudes e comportamentos dos indiví
duos em relação à política e ao sistema político. Esses valores ajudam a expli
car por que as pessoas se envolvem (ou não) na política, por que elas escolhem
apoiar ou rejeitar certas políticas ou candidatos e como elas se comportam em
situações políticas. Os valores podem ser entendidos como um tipo de crença
mais profunda do que uma atitude ou opinião. Eles são mais persistentes e
mais amplamente aplicáveis do que uma opinião, e menos específicos do que
uma atitude. Os valores também têm uma relação mais direta com o sistema
político em geral, enquanto as atitudes podem ser mais direcionadas a questões
ou políticas específicas.
Existem diferentes tipos de valores políticos, incluindo valores democráti
cos, valores autoritários, valores de direitos individuais e valores de igualdade,
os quais podem estar em conflito uns com os outros, bem como variar em im
portância para diferentes pessoas. Além dos valores, os traços também podem
influenciar o comportamento político das pessoas. Traços são características
psicológicas duradouras de um indivíduo que afetam sua maneira de pensar,
sentir e agir (Muller, 2001). Algumas características de personalidade, como a
disposição para assumir riscos ou a necessidade de segurança, podem influen
ciar a maneira como as pessoas se comportam em situações políticas.
Nessa perspectiva, a Teoria dos Valores Básicos de Schwartz ocupa lugar
de destaque na literatura sobre o tema. O autor faz uma reformulação da Teoria
dos Valores Humanos Básicos desenvolvida por Rokeach (1973). A Teoria de
Schwartz apresenta dez valores básicos universais: poder, conquista (ou reali
zação), hedonismo, encorajamento, autodireção (ou pensamento independen
te), universalismo, benevolência, tradição, conformidade e segurança, confor
me ilustrado na Figura 1.
Note que o encorajamento (estimulação) e a autodireção (autocentração)
estimulam a independência de pensamento, sentimento, ação e a recepção às
mudanças. Esses valores conflitam com os valores conservadores (conser
vadorismo), tais como conformismo, tradição e segurança. Existem, ainda, os
valores de autotranscendência, que são marcados pela ênfase na aceitação dos
outros como iguais e pelo seu bem-estar [universalismo e benevolência]. Esses
últimos, por sua vez, conflitam com o que se chama autopromoção, que englo
ba os valores de poder e realização.
Diversos trabalhos sugerem que os eleitores votam em partidos que pro
metem manter ou preservar os seus valores pessoais. Em grandes linhas,
observa-se que partidos mais à direita enfatizam a defesa da economia de mer
cado e dos empresários como meio de gerar riqueza; eles também enfatizam a
segurança, os limites do tamanho do governo, a família e valores nacionais.
Em contraste, a centro-esquerda defende o mérito do estado de bem-estar
social, expressa forte preocupação com a justiça social, ao passo em que enfa
tiza o pluralismo e a igualdade (Bobbio, 1996).
Contudo, em 2012 houve uma reformulação, feita pelo próprio Schwartz,
da sua Teoria. Schwartz et al. (2012) identificaram 19 valores potenciais:
Autodireção de Pensamento e de Ação; Estimulação; Hedonismo; Realização;
Poder de Domínio e Poder sobre Recursos; Segurança Pessoal e Social; Tradi
Perfil dos conservadores e dos progressistas brasileiros: uma abordagem baseada na teoria dos valores humanos
5/23
Figura 1- Síntese com base na Teoria dos Valores Básicos de Schwartz
Fonte: Granjo et al. (2013, p. 5).
ção; Conformidade com Regras e Conformidade Interpessoal; Benevolência
Dependência e Cuidado; Compromisso; Universalismo Natureza e Universa
lismo Tolerância; Face; e Humildade. A Figura 2 é uma representação gráfica
elaborada por Torres et al. (2016) para ilustrar essa nova reformulação.
Com base nessas ideias, Thorisdottir et al. (2007) examinaram os eleitores
de 19 países da Europa a fim de verificar as motivações das suas orientações
políticas. Os autores usaram como fonte de dados a European Social Survey
(ESS) e levaram em conta os elementos contidos na teoria de Schwartz et al.
(2001). Em linhas gerais, a ideia foi verificar se valores como tradicionalismo,
complacência com a desigualdade, necessidade de lei e ordem, segurança e
abertura a novas experiências estão ligados aos eleitores de direita. Os resulta
dos apontaram que tradicionalismo e aceitação da desigualdade predizem a
orientação política de direita nos países da Europa Ocidental, ao passo que o
tradicionalismo melhor prevê a orientação de direita nos países do leste euro
peu. A necessidade de regras é um valor mais compartilhado na Europa Oci
dental que no Leste europeu. Interessante notar que a necessidade de
segurança, bem como a abertura à novas experiências são valores da esquerda
nos países no leste europeu e de direita na Europa Ocidental.
Os resultados empíricos dos estudos que usaram a estrutura de valores de
Schwartz para conhecer a orientação política apontam para uma forte relação
entre valores conservadores e preferência por uma orientação política de di
reita. O debate sobre valores conservadores pode estar vinculado a uma orien
tação política de extrema-direita devido ao fato de que muitos deles são
compartilhados por tais grupos, como a defesa da tradição, da ordem e da
autoridade, a resistência às mudanças sociais e à diversidade cultural, além da
ênfase na segurança e na identidade nacional.
Norris & Inglehart (2019), argumentam que o populismo autoritário está
relacionado a um conjunto de valores culturais que se tornaram mais salientes
6/23
Revista de Sociologia e Política v. 31
Figura 2- O círculo motivacional dos valores de acordo com a teoria de valores básicos refinada
Fonte: Torres et al. (2016, p. 343).
nos últimos anos, em particular, a oposição às mudanças sociais e culturais, a
ênfase na segurança e na ordem, bem como numa visão do mundo em que a
sociedade é dividida entre “nós” e “eles”. Esses valores estão associados a uma
postura de extrema-direita, que muitas vezes é populista e autoritária. O popu
lismo autoritário é uma forma de política que se baseia em líderes carismáticos
que se apresentam como representantes do “povo” e que criticam as elites
políticas e econômicas. Eles frequentemente defendem a ideia de que a demo
cracia é frágil e que é necessário tomar medidas drásticas para proteger a
ordem e a segurança nacionais. O populismo autoritário é muitas vezes acom
panhado por um forte nacionalismo e uma hostilidade em relação a grupos
minoritários e estrangeiros.
Isso coaduna com o que foi observado para o caso brasileiro nas eleições
de 2018. O discurso político do presidente eleito naquele ano, Jair Bolsonaro,
Perfil dos conservadores e dos progressistas brasileiros: uma abordagem baseada na teoria dos valores humanos
7/23
foi caracterizado por uma retórica nacionalista, conservadora e populista que
atraiu uma base de apoio significativa entre a classe média e a população rural
do Brasil. A ascensão de Bolsonaro está ligada a mudanças sociais, políticas e
econômicas que ocorreram no país nas últimas décadas, mas pode estar asso
ciada, também, aos valores conservadores já presentes em parte da população
e que ganhou espaço entre aqueles cuja orientação política estava mais ao
“centro”. Este movimento talvez tenha ganhado tração após 2014 com a onda
de protestos sociais que aconteceram no Brasil, bem como no período subse
quente marcado pela crise política e econômica que desencadeou no impeach
ment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.
Em resumo, o debate sobre valores conservadores pode estar vinculado a
uma orientação política de extrema-direita quando esses valores são utilizados
para justificar uma postura autoritária, populista e nacionalista. É importante
ressaltar que nem todos os defensores de valores conservadores são de
extrema-direita, mas a associação entre esses valores e essa orientação política
é uma tendência histórica e política relevante.
Ao comparar a primeira e a segunda versões da Teoria dos Valores Básicos
de Schwartz, é possível identificar que quatro valores estão presentes em am
bas: Autotranscendência, Abertura à Mudança, Autopromoção e Conservado
rismo. Dessa forma, o presente trabalho tentou explorar a orientação política
no Brasil com esses quatro valores principais.
O estudo sobre a relação entre os valores e a orientação política no Brasil
pode servir de subsídio para melhor compreender a ascensão da direita radical
no país a partir das eleições de 2018. Vários trabalhos (Amaral et al., 2020;
Setzler, 2021; Fuks et al., 2021) sugerem que a ideologia exerceu relevante
influência na eleição de Jair Bolsonaro naquele ano. Assim, sob essa ótica, a
crescente expansão dos valores associados à direita teria contribuído para a
vitória do ex-presidente.
É importante salientar que o estudo aqui proposto utiliza dados de 2014,
pois essa é a data mais recente em que as questões relacionadas aos valores de
Schwartz estão disponíveis na World Values Survey (WVS). Este foi um perí
odo relevante na política brasileira, marcado por eventos como: i) uma eleição
presidencial acirrada e polarizada; ii) o início da Operação Lava Jato, que
investigou esquemas de corrupção; iii) manifestações em diversas cidades bra
sileiras contra a Copa do Mundo e a classe política tradicional; iv) surgimento
de movimentos ditos apartidários que, posteriormente, se aliaram com a direita
e foram ativos na luta pelo impeachment da presidente Dilma em 2016.
Esse contexto pode ter criado um ambiente de acirramento da polarização,
ainda que assimétrica (Fuks & Marques, 2023), e talvez tenha favorecido o
surgimento de políticos radicais que conseguiram chamar atenção dos eleitores
cujos valores latentes tinham alguma sintonia com a direita democrática. Não
se deve perder de vista, no entanto, que a ascensão da direita radical brasileira
pode ter sido consequência da eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro, tal
como sinalizam Russo et al. (2022).
II.1. Conservadorismo político, valores pessoais e orientação política
Os principais autores apontam que o conservadorismo político de direita é
caracterizado por duas dimensões: resistência à mudança e aceitação da desi
gualdade (Bobbio, 1996; Jos & Kruglanski et al., 2003; Muller, 2001). A pri
meira dimensão apela à tendência das pessoas conservadoras em preferirem o
8/23
Revista de Sociologia e Política v. 31
que é seguro e de se comportarem de acordo com as formas tradicionais (Wil
son, 1973). Nessa linha, as evidências indicam que indivíduos com esses
valores tendem a rejeitar a imigração, bem como têm atitudes positivas em
relação à moralidade tradicional e à manutenção da Lei e da Ordem (Schwartz
et al., 2010). A segunda dimensão baseia-se na noção de que os conservadores
observam a sociedade de forma hierárquica, enquanto as pessoas de orientação
política liberal idealizam o valor da igualdade (Bobbio, 1996; Jost et al.,
2003). Evidências empíricas validam essas últimas afirmações e mostram que
a avaliação da igualdade varia entre aqueles que pertencem à direita ou à es
querda política (Barnea & Schwartz, 1998; Caprara et al., 2017; Rokeach,
1973; Schwartz et al., 2010).
As dimensões do conservadorismo político foram usualmente medidas
através de duas maneiras: a) via aplicação em conjunto das escalas de Auto
ritarismo da Ala Direita (RWA) e Orientação de Domínio Social (SDO) (Jost
et al., 2003); e b) por meio dos Valores Pessoais de Schwartz (Aspelund et al.,
2013; Barni et al., 2016; Thorisdottir et al., 2007). As escalas RWA (Alte
meyer, 1998) e SDO (Sidanius & Pratto, 1999) analisam uma série de atitudes
sociais que estariam na base da ideologia conservadora: coesão social e segu
rança coletiva (no caso do RWA), e a superioridade com base na afiliação do
grupo (no caso de SDO). Por outro lado, Schwartz desenvolveu uma teoria
onde identifica 10 tipos de valores motivacionais diferentes, os quais teriam
uma estrutura quase circular com duas dimensões contrapostas as quais con
templam os 4 altos valores, como se observa na Figura 2 (Schwartz &
Boehnke, 2004):
Os valores de conservadorismo representam segurança, tradição e confor
midade, valores que enfatizam a autodisciplina, preservação das práticas tradi
cionais e estabilidade; os valores associados à abertura à mudança refletem
autodireção e estimulação, valores que enfatizam a independência pessoal e
uma posição favorável à mudança; Os valores de autotranscedência buscam
captar características como universalismo e benevolência, valores que enfati
zam a aceitação dos outros como iguais e a preocupação com o seu bem-estar;
por fim, valores de autopromoção representam poder e realização, valores que
enfatizam o sucesso pessoal e o controle sobre os outros. Vale destacar que o
hedonismo situa-se no meio dos valores de Autopromoção e de Abertura à
mudança (Schwartz & Boehnke, 2004).
Recentes estudos apontaram que os valores de conservadorismo estão rela
cionados ao RWA, enquanto os valores de Autopromoção estariam relaciona
dos ao SDO (Cohrs et al., 2007; McKee & Feather, 2008; Livi et al., 2014;
Duckitt & Sibley, 2017). Portanto, ambas as formas de medida estariam apon
tando para as mesmas dimensões do conservadorismo político (Aspelund
et al., 2013). No entanto, uma vantagem importante da proposta de valores
pessoais de Schwartz é que esse modelo teve ampla validação em diversas
amostras representativas de diferentes países e culturas (Fontaine et al., 2008;
Schwartz, 1992). Além do mais, autores têm mostrado a utilidade das diferen
tes versões da escala de valores de Schwartz e de seus itens para o estudo de
cognição e comportamento político em contextos ocidentais e não ocidentais
(Aspelund et al., 2013; Barni et al., 2016; Caprara et al., 2017; Piurko et al.,
2011; Thorisdottir et al., 2007).
Os estudos que usaram a estrutura de valores de Schwartz para se conhecer
a orientação política de forma transcultural, apontaram para uma forte relação
entre valores conservadores e uma preferência por uma orientação política de
direita (Aspelund et al., 2013; Piurko et al., 2011; Thorisdottir et al., 2007).
Esses resultados ocorreram principalmente em países da Europa Ocidental e
Perfil dos conservadores e dos progressistas brasileiros: uma abordagem baseada na teoria dos valores humanos
9/23
países Anglofalantes, cuja literatura das ciências cognitivas e do comporta
mento foi identificada como “países ou culturas ocidentais” (Gattario et al.,
2015; Gestsdottir et al., 2015; Schwartz, 2006). Segundo Inglehart & Welzel
(2005), esses países caracterizam-se por terem economias desenvolvidas e in
dustrializadas, uma herança cultural judaico-cristã; democracias consolidadas;
e valores orientados para a autoexpressão. De acordo com os principais auto
res, esses países caracterizam-se pela própria marca da orientação cultural para
o individualismo, ao contrário de outros grupos culturais (Hofstede, 1980;
Schwartz, 2006).
Por outro lado, a relação entre valores conservadores e orientação política
não tem sido consistente em estudos realizados com amostras de culturas ou
países não ocidentais. (Caprara et al., 2017), como em nações pós-comunistas
(Aspelund et al., 2013; Barni et al., 2016; Piurko et al., 2011; Thorisdottir
et al., 2007). Nos países da América Latina, há evidências muito limitadas
sobre as relações entre valores e a orientação política. A maioria desses estu
dos foi realizada em amostras não representativas e de estudantes uni
versitários (Brussino et al., 2013; Zubieta et al., 2008); e, em alguns casos,
com resultados pouco consistentes (Schwartz & Barnea, 1995). Portanto, é
relevante se estudar se os valores relacionados à resistência à mudança (con
servadorismo) ou aceitação da desigualdade (autopromoção) permitem uma
melhor compreensão da orientação política no contexto de países latino-ame
ricanos, tal como o caso brasileiro aqui analisado. De acordo com Inglehart &
Carballo (1997), e Schwartz (2006), a América Latina é um grupo cultural
diferente do Ocidente, relativamente homogêneo e com uma herança cultural
da própria história colonial ibérica e católica. Schwartz (2006) e Hofstede
(1980) indicam que essa região se caracteriza pelos próprios valores coletivis
tas, com certas diferenças entre os países que o compõem nos níveis de indivi
dualismo (Imhoff & Brussino, 2013).
Finalmente, Barni et al. (2016) apontam que uma das limitações da maioria
dos estudos da psicologia sobre orientação política é que eles se concentraram
apenas em observar o posicionamento dos indivíduos no espectro esquerda
direita. Como esses autores mencionam, não há um consenso claro sobre os
significados das posições esquerda e direita; significados que, além disso,
podem variar ao longo do tempo e no contexto de cada país. Na pesquisa reali
zada por esses autores em 20 países da Europa Ocidental e pós-comunistas,
eles identificaram que os valores conservadores estavam positivamente asso
ciados à direita política no Ocidente; no entanto, nos países pós-comunistas,
esses valores foram positivamente associados a atitudes em relação à igual
dade econômica.
III. Dados e método
III.1. Variáveis e instrumentos
Foram analisadas as informações da Pesquisa Mundial de Valores, na sua
sexta edição (WVS-6) em que participaram 86,274 pessoas em 60 países. Des
ses, o Brasil foi selecionado como foco do estudo. A amostra completa no
Brasil foi de 1486 entrevistados em 2014, sendo a amostra válida de 1146 par
ticipantes, dos quais 53% eram mulheres e 47% homens representantes da
população de mais de 15 anos (World Values Survey, 2015). Vale a pena
ressaltar que o WVS é fonte de dados desde 1981 e que tem sido utilizada em
10/23
Revista de Sociologia e Política v. 31
trabalhos científicos nos últimos 40 anos por diversas áreas e diversos autores
(Norris & Inglehart, 2019). A aplicação da pesquisa foi realizada pela UFMG
e feita in situ. A Pesquisa WVS-6 usa um questionário que recolhe, em seus
diferentes itens, aspectos relacionados à cognição social e política dos partici
pantes. Com base na Teoria dos Valores Básicos, as estimativas a seguir bus
caram identificar os fatores associados com a orientação política dos
brasileiros no ano de 2014. A escolha deste corte temporal se justifica porque
as perguntas condizentes com a Teoria de Schwartz só aparecem naquele ano
na base de dados utilizada.
O primeiro passo foi construir a variável de orientação política. Seguindo o
trabalho de Barni et al. (2016), a medida da orientação política foi obtida
através dos itens que se referem ao auto posicionamento político de cada
entrevistado numa escala de 10 categorias em que 1 = esquerda e 10 = direita.
Itens similares têm tido um amplo uso no estudo da orientação política em
diversas culturas (Aspelund et al., 2013; Jost et al., 2003; Piurko et al., 2011;
Thorisdottir et al., 2007). Assim, a variável resposta utilizada nesse artigo é
decorrente da pergunta V95 da WVS-6: “Quando se trata de política, as pes
soas se referem a ‘esquerda’ e ‘direita’. Em geral, como você colocaria seus
pontos de vista nesta escala?”. A escala vai de 1 a 10, quanto mais próximo de
1 maior a identificação do entrevistado com a esquerda, quanto mais próximo
de 10 maior a identificação com a direita. Para aquele ano, os resultados
podem ser observados no Gráfico 1.
No Quadro 1, observa-se que a distribuição da orientação política se
concentrou no centro- mais de 40% da amostra citou as escalas centrais: 4,
5, 6 e 7. Por outro lado, os mais próximos da esquerda- escalas 1, 2 e 3
representaram quase 20% da amostra. Esse percentual foi parecido com os
que se identificam com a direita- escalas 8, 9 e 10. Com base nesses
resultados, optou-se não apenas por investigar os fatores associados com a
orientação política classicamente definida como esquerda/direita. Mas tam
bém é fundamental considerar o “centro” na análise aqui proposta.
Gráfico 1- Distribuição do auto posicionamento político
Fonte: elaboração própria (2022).
Perfil dos conservadores e dos progressistas brasileiros: uma abordagem baseada na teoria dos valores humanos
11/23
Desconsiderar esse espectro político, como muitos trabalhos fazem, não
produz respostas acuradas acerca dos fatores associados à orientação polí
tica. Em outras palavras, a variável de auto posicionamento foi definida da
seguinte forma: aqueles que responderam 1, 2 e 3 no questionamento V95,
foram classificados como de “esquerda”; os que responderam 8, 9 e 10
foram classificados como de “direita”; os demais, 4, 5, 6 e 7 receberam o
rótulo de “centro”.
Portanto, do ponto de vista metodológico, o presente trabalho con
sidera que existem três possibilidades de orientação política- esquerda,
direita e centro- e não apenas duas- esquerda e direita. Isso implica a
estimação de um modelo multinomial. A orientação política mais popular
é “esquerda-direita” ou “liberal-conservador”. Não se deve ignorar que
essa classificação é controversa. Lipset (1960), por exemplo, argumentou
que historicamente a “direita” esteve associada à aristocracia e ao conser
vadorismo. A esquerda, por sua vez, esteve associada à reforma social e
ao igualitarismo. Porém, com as mudanças políticas, a derrota do comu
nismo e a emergência de novas políticas, os significados tradicionais
sofreram alterações. Isso significa que a simples dimensão “direita-es
querda” pode ser insuficiente para representar a competição política (Piur
ko et al., 2011).
No questionário da WVS-6 (Tabela 1), foram considerados 11 itens do
modelo de valores de Schwartz. Conforme observado, cada item descreve ao
participante a forma de ser de uma pessoa, e o entrevistado deve indicar o
quanto ele se parece com cada uma delas numa escala de 1 = “muito parecida
comigo” ao 6 = “muito diferente de mim”. Para facilitar a análise, a escala foi
invertida. Esses itens têm sido utilizados em outras pesquisas, mostrando a sua
pertinência para os estudos psicológico-sociais (Morselli et al., 2012; Pande &
Jain, 2014). Com essas informações foi possível realizar uma análise fatorial
exploratória (AFE) a fim de avaliar a estrutura fatorial da escala de valores de
Schwartz e obter os indicadores de dimensionalidade, confiabilidade e vali
dade estatística das quatro escalas de medida.
A análise implementada utilizou uma matriz policórica e método de ex
tração Robust Diagonally Weighted Least Squares (RDWLS) (Asparouhov
& Muthen, 2010). A decisão sobre o número de fatores a ser retido foi rea
lizada por meio da técnica da Análise Paralela com permutação aleatória
dos dados observados (Timmerman & Lorenzo-Seva, 2011) e a rotação uti
lizada foi a Robust Promin (Lorenzo-Seva & Ferrando, 2019). Os testes de
esfericidade de Bartlett (χ2: 1743,6; gl = 55; p < 0,01) e KMO (0,71)
sugeriram interpretabilidade da matriz de correlação dos itens. A análise
paralela sugeriu quatro fatores como sendo os mais representativos para os
dados.
Num segundo momento, realizou-se uma Análise Fatorial Confirmatória
(ACF) com o objetivo de avaliar a plausibilidade de uma estrutura uni
dimensional para a escala de valores de Schwartz (Schwartz, 2012) usando
os itens sugeridos pela AFE. Com isso obtêm-se as cargas fatoriais para
construir a escala de medida de cada um dos quatro construtos. A AFC
permite corrigir ou corroborar, no caso de tê-las, as deficiências da AFE,
conduzindo a um maior contraste das hipóteses especificadas (Bollen,
1989). Os índices de ajuste utilizados apresentaram os seguintes resultados:
χ2 : 42.915; χ2/gl = 1.26 Comparative Fit Index (CFI): 0.993; Tucker-Lewis
Index (TLI): 0.989; Standardized Root Mean Residual (SRMR): 0.028 e
Root Mean Square Error of Approximation (RMSEA): 0.016. Valores de χ2
não devem ser significativos; a razão χ2/gl deve ser < que 5 ou, pre
12/23
Revista de Sociologia e Política v. 31
Quadro 1- Descritivo do auto posicionamento político
Esquerda
184
12.4%
2
3
4
5
6
7
8
9
Direita
Não sabe
Não respondeu
(N)
35
65
54
436
99
43
68
27
187
47
240
(1,486)
2.3%
4.4%
3.7%
29.3%
6.7%
2.9%
4.6%
1.8%
12.6%
3.2%
16.2%
100%
Fonte: elaboração própria (2022).
ferencialmente, < que 3; Valores de CFI e TLI devem ser > que 0,90 e,
preferencialmente acima de 0,95; Valores de RMSEA devem ser < que
0,08 ou, preferencialmente < que 0,06 (Brown, 2006). O que mostra que a
estrutura unidimensional apresentou resultados de ajuste bons para poder
usar as cargas fatoriais na construção das quatro escalas de medida3. Os
resultados dessa análise podem ser observados na Tabela 1.
III.2. Modelo econométrico
3 Os indicadores latentes
foram construídos
especificamente para gerar um
escore médio ponderado de
cada indicador, usando a carga
fatorial como peso para cada
um dos valores (McNeish &
Wolf, 2020).
Além do presente artigo ter como foco a investigação dos valores indivi
duais e das características sociodemográficas associadas com a orientação
política no Brasil, há uma diferença metodológica importante em relação à
maioria dos estudos sobre o tema. Ao contrário do que se faz amplamente,
entende-se que as categorias esquerda-direita são insuficientes para explicar a
orientação política. No caso específico do Brasil, uma parte considerável da
população se identifica como de “centro”, tal como se pode verificar nas
seções seguintes.
Portanto, não é razoável limitar o estudo a apenas duas respostas possíveis- direita e esquerda. Nesse sentido, este trabalho considera três possibilidades
de orientação política: esquerda, centro e direita. Do ponto de vista metodoló
gico, isso implica na estimação de um modelo multinomial. Quando esse é o
caso, é preciso considerar a probabilidade de ocorrência para as três categor
ias. Em que:
1
pi0 =
ezi1
1þezi1 þezi2
, pi1 =
ezi2
1þezi1 þezi2
e pi2 =
1þezi1 þezi2
são, respectivamente, a
probabilidade de ocorrência da categoria de referência que, nesse caso, é a
orientação política de esquerda; a probabilidade de ocorrência da orientação
política de centro; e a probabilidade de ocorrência da orientação política de
direita.
Perfil dos conservadores e dos progressistas brasileiros: uma abordagem baseada na teoria dos valores humanos
13/23
Tabela 1- Análise fatorial confirmatória dos 11 itens-valores referidos ao modelo teórico de Schwartz presentes na WVS-6
Itens
Carga
fatorial
Valores
Indicador latente
representado
V72. O importante para essa pessoa é viver num ambiente seguro e
evitar o que pode ser perigoso.
V79. A tradição é importante para essa pessoa; ela segue os cos
tumes da religião ou da família.
V77. Para essa pessoa é importante se comportar de maneira correta
e evitar fazer qualquer coisa que as pessoas achem errado.
V70. Ter novas ideias e ser criativo é o que conta para essa pessoa.
Ela prefere fazer as coisas do seu jeito.
V76. Ter uma vida emocionante é o importante para essa pessoa.
Aventuras e riscos são parte fundamental da vida.
V73. Para essa pessoa é importante se divertir e fazer o que gosta.
V71. Para essa pessoa, o que importa é ser rico, ter muito dinheiro e
coisas caras.
V75. Para essa pessoa, o importante é ter muito sucesso e que as
pessoas reconheçam suas conquistas.
V74. É importante para essa pessoa fazer algo para o bem da socie
dade.
V74B. Para essa pessoa, o importante é poder ajudar as pessoas que
estão próximas e se preocupar com o bem-estar delas.
V78. Se preocupar com o meio ambiente e com a natureza é impor
tante para essa pessoa.
0.549
0.375
0.503
0.379
0.652
0.363
0.493
0.631
0.693
0.672
0.635
Segurança
Tradição
Conformidade
Autodireção
Estimulação
Hedonismo
Poder
Conquista
Benevolência
Benevolência
Universalismo
Conservadorismo
Abertura à mudança
Autopromoção
Autotranscedência
Fonte: elaboração própria (2022).
Na forma completa, as expressões anteriores podem ser escritas como:
pi0 =
1
1þe(α1þβ11:X1i þβ12:X2i þ:::þβk1:Xki) þ e(α2 þβ12:X1i þβ22:X2i þ:::þβk2:Xki)
pi1 =
e(α1 þβ11:X1i þβ12:X2i þ:::þβk1:Xki)
1þe(α1þβ11:X1i þβ12:X2i þ:::þβk1:Xki) þ e(α2 þβ12:X1i þβ22:X2i þ:::þβk2:Xki)
pi2 =
e(α2 þβ12:X1i þβ22:X2i þ:::þβk2:Xki)
1þe(α1þβ11:X1i þβ12:X2i þ:::þβk1:Xki) þ e(α2 þ12:X1i þ22:X2i þ:::þβk2:Xki)
Genericamente, o modelo estimado pode ser representado por:
y=β0þβ1sexoþβ2ra¸caþβ3idadeþβ4idade2 þβ5educ
þβ5rendaþβ6consþβ7autotþβ8mudan¸caþβ9autopþε
em que y = variável dependente que diz respeito ao auto posicionamento polí
tico do entrevistado; 1 se esquerda; 2 se centro; e 3 se direita; sexo = 1 se mu
lher e 0 se homem; raça = 1 se negro e 0 se não negro; idade = idade dos
entrevistados; idade2 = idade ao quadrado; educ = nível de escolaridade do
entrevistado em três categorias: 1- até ensino fundamental completo; 2- de
ensino médio incompleto até ensino médio completo; 3- ensino superior
incompleto até ensino superior completo; renda = escala de 1 a 10 da seguinte
pergunta: “Neste cartão há uma escala de renda na qual 1 indica o grupo de
renda mais baixa e 10 o grupo de renda mais alta em seu país. Gostaríamos de
saber em que grupo se encontra o seu agregado familiar. Por favor, especifique
14/23
Revista de Sociologia e Política v. 31
o número apropriado, contando todos os salários, vencimentos, pensões e ou
tros rendimentos que entram”. O objetivo é capturar a percepção do entrevis
tado sobre o seu nível de renda relativo.
4 Vale ressaltar que a
estimação levou em conta a
correção dos pesos amostrais.
IV. Resultados e discussão
As variáveis acima descritas fazem parte de um conjunto de controles
sobre as características sociodemográficas dos entrevistados4. As variáveis
expostas a seguir, por outro lado, foram construídas a partir da análise fatorial
apresentada anteriormente, e tentam captar um conjunto de valores que poten
cialmente estão associados com a orientação política: i) conservadorismo =
indicador de conservadorismo; ii) autotranscedência = indicador da auto
transcedência; iii) abertura à mudança = indicador de abertura à mudança; iv)
autopromoção = indicador da autopromoção.
Antes de descrever os resultados do modelo econométrico, é importante
perceber que a Tabela 2 apresentada a seguir traz três modelos distintos. A di
ferença entre eles está no controle por variáveis alternativas que fazem refe
rência, de alguma forma, à renda do indivíduo. O objetivo é verificar se os
demais controles possuem alguma robustez. Por exemplo: no primeiro modelo
foi considerada a variável “Renda” já apresentada na seção III.1; no segundo
modelo ela é substituída pelas respostas da seguinte pergunta: “Qual é o seu
grau de satisfação com a situação financeira do seu agregado familiar? Se ‘1’
significa que você está completamente insatisfeito nesta escala, e ‘10’ significa
que você está completamente satisfeito, onde você colocaria sua satisfação
com a situação financeira de sua família?”; por fim, o terceiro modelo substitui
a pergunta anterior pelo seguinte questionamento: “As pessoas às vezes se
descrevem como pertencentes à classe trabalhadora, à classe média ou à classe
alta ou baixa. Você se descreveria como pertencente à: i) classe alta, ii) classe
média alta, iii) classe média baixa, iv) classe trabalhadora ou v) classe baixa?”.
Vale destacar que as variáveis “Renda” e “Classe Social” captam muito mais a
percepção do indivíduo quanto à sua posição social do que a sua posição social
de fato. Para conferir os efeitos marginais, o leitor deve consultar o Anexo 1.
Conforme pôde ser observado na Tabela 2, cujos parâmetros estão na
forma de odds-ratios, de modo geral os termos de idade e idade ao quadrado
foram significativos para a categoria “esquerda” em relação a categoria “di
reita” em todos os modelos. Isso significa que os mais jovens tendem a se con
siderar mais de esquerda. Porém, a partir de certa idade, a probabilidade de se
perceber de esquerda cai em relação a se autorreferir de direita.
A variável ‘sexo’, cuja referência é o gênero feminino, mostrou-se signifi
cativa para a orientação política de esquerda em todos os modelos. Os valores,
contudo, indicam que as mulheres têm menor probabilidade que os homens de
se declararem de esquerda quando comparado aos que se perceberam como de
direita. Quanto à raça, não houve diferenças estatísticas entre os negros e os
demais para qualquer tipo de orientação em nenhum dos três modelos.
A variável “educação” revela que quanto maior o nível de escolaridade,
maior a probabilidade dos indivíduos se declararem de esquerda e de centro
em relação a se perceberem de direita. Ela permaneceu significativa em todos
os modelos. Por fim, a escala de renda tem maior relevância não para separar
as categorias esquerda-direita, mas para diferenciar aqueles que se consideram
de centro em relação aos que se classificam como de direita. Nas estimações
alternativas- representadas na Tabela 2 como Modelo 2 e Modelo 3-, percebe
Tabela2-Determinantesdoautoposicionamentopolítico(regressãomultinominal)
Modelo1 Modelo2 Modelo3
Variáveldependente:orientação
política
Odds
ratio
Erro
padrão
Variáveldependente:orientação
política
Odds
ratio
Erro
padrão
Variáveldependente:orientação
política
Odds
ratio
Erro
padrão
Categoriadereferência:direita Categoriadereferência:direita Categoriadereferência:direita
Esquerda Esquerda Esquerda
Sexo 0.72* 0.14 Sexo 0.67** 0.13 Sexo 0.67** 0.13
Idade 1.08*** 0.03 Idade 1.06** 0.03 Idade 1.08*** 0.03
Idade2 0.99*** 0.00 Idade2 0.99** 0.00 Idade2 0.99*** 0.00
Renda1 SatisfaçãocomaRenda2 ClasseSocial3
2 1.39 0.54 2 0.97 0.59 2 2.57 3.83
3 1.66 0.61 3 0.51 0.23 3 2.99 4.10
4 1.04 0.37 4 1.84 1.00 4 1.99 2.73
5 1.90** 0.56 5 0.52* 0.19 5 2.63 3.63
6 1.31 0.45 6 0.63 0.26
7 2.36** 0.92 7 0.67 0.27
8 0.50 0.30 8 0.44** 0.17
9 0.46 0.43 9 0.35** 0.16
10 1.99 2.96 10 0.51* 0.18
Educação4 Educação4 Educação4
2 2.14*** 0.48 2 2.31*** 0.50 2 2.26*** 0.49
3 2.33*** 0.70 3 2.79*** 0.80 3 2.50*** 0.74
Negro 0.95 0.26 Negro 0.87 0.24 Negro 0.92 0.25
Conservação 0.82** 0.07 Conservação 0.81** 0.07 Conservação 0.82** 0.07
Autotranscendência 0.99 0.07 Autotranscendência 1.00 0.07 Autotranscendência 0.98 0.07
Aberturaàmudança 1.17** 0.09 Aberturaàmudança 1.19** 0.09 Aberturaàmudança 1.17** 0.09
Autopromoção 0.89 0.08 Autopromoção 0.87 0.07 Autopromoção 0.89 0.08
Constante 0.58 0.63 Constante 1.49 1.68 Constante 0.37 0.63
Centro Centro Centro
Sexo 0.78 0.13 Sexo 0.77 0.12 Sexo 0.75* 0.12
Idade 1.03 0.03 Idade 1.03 0.03 Idade 1.04* 0.03
(continua)
Perfildosconservadoresedosprogressistasbrasileiros:umaabordagembaseadanateoriadosvaloreshumanos 15/23
Tabela2-Continuação
Modelo1 Modelo2 Modelo3
Variáveldependente:orientação
política
Odds
ratio
Erro
padrão
Variáveldependente:orientação
política
Odds
ratio
Erro
padrão
Variáveldependente:orientação
política
Odds
ratio
Erro
padrão
Idade2 0.99** 0.00 Idade2 0.99* 0.00 Idade2 0.99** 0.00
Renda1 SatisfaçãocomaRenda2 ClasseSocial3
2 2.63*** 0.84 2 1.36 0.77 2 1.52 1.42
3 2.07** 0.68 3 1.40 0.58 3 1.83 1.39
4 2.49*** 0.76 4 3.35** 1.79 4 1.12 0.84
5 3.09*** 0.81 5 1.69 0.57 5 1.06 0.80
6 2.61*** 0.78 6 1.76 0.67
7 2.85*** 1.00 7 2.21** 0.81
8 2.16* 0.88 8 1.46 0.51
9 2.09 1.28 9 1.21 0.48
10 0.00*** 0.00 10 0.90 0.30
Educação4 Educação4 Educação4
2 1.64*** 0.31 2 1.80*** 0.33 2 1.78*** 0.33
3 2.55*** 0.66 3 2.95*** 0.74 3 2.59*** 0.65
Negro 0.83 0.20 Negro 0.79 0.19 Negro 0.86 0.21
Conservação 0.91 0.07 Conservação 0.94 0.07 Conservação 0.93 0.07
Autotranscendência 0.86** 0.05 Autotranscendência 0.86** 0.05 Autotranscendência 0.83*** 0.05
Aberturaàmudança 1.12* 0.07 Aberturaàmudança 1.13** 0.07 Aberturaàmudança 1.11* 0.07
Autopromoção 0.88* 0.06 Autopromoção 0.89 0.06 Autopromoção 0.90 0.06
Constante 4.83* 4.32 Constante 6.00** 5.54 Constante 8.82** 9.70
R2 0.06 0.05 0.06
Fonte:elaboraçãoprópria(2022).
1CategoriadeReferência:rendamaisbaixa.
2CategoriadeReferência:nívelmaisbaixodesatisfação.
3CategoriadeReferência:classebaixa.
4CategoriadeReferência:atéensinofundamentalcompleto.
(*)significativoa10%;
(**)singnificativoa5%;
(***)significativoa1%.
16/23 RevistadeSociologiaePolíticav.31
Perfil dos conservadores e dos progressistas brasileiros: uma abordagem baseada na teoria dos valores humanos
17/23
se que a variável “classe social” não foi significativa, ao passo que os maiores
níveis de “Satisfação com a Renda” se mostraram menos associados com a
orientação de esquerda em relação à direita.
A visão dos sociólogos políticos, tais como Evans (2000) e Lipset & Rok
kan (1967), indica que os eleitores tendem a escolher partidos que promovam
seus interesses de classe. Assim, foi desenvolvida a hipótese de que os tra
balhadores tendiam a votar em partidos de esquerda e a classe média em parti
dos de direita. Segundo Piurko et al. (2011), isso tornou-se uma espécie de
axioma na sociologia política. Mas, ao que parece, a relação entre os eleitores
e a estrutura social está em declínio. Existe, nesse caso, um efeito geracional
importante: eleitores jovens mostram-se mais independentes e com uma orien
tação mais instrumental e individual em relação à política (Inglehart & Car
ballo, 1997). Para o caso brasileiro, pode-se perceber que a estrutura social
ainda importa. Em certa medida, isso pode ser ilustrado pelas variáveis de
renda e educação. Contudo, a renda parece diferenciar mais os eleitores de
centro em relação aos de direita.
Em linhas gerais, o que se percebe é que no caso brasileiro as variáveis
sociodemográficas são fatores associados com a orientação política. Deve-se
ressaltar que os trabalhos de Piurko et al. (2011), Aspelund et al. (2013), Barni
et al. (2016) e Thorisdottir et al. (2007) investigaram a orientação política con
trolando pelas seguintes variáveis sociodemográficas: idade, gênero, educação,
quão religioso se é, quão adequada a renda da família é, se é/foi membro de
sindicato. Eles perceberam que em países tradicionais tanto os valores quanto
as variáveis sociodemográficas explicam a orientação, mas as últimas parecem
mais fortes.
O trabalho dos autores supracitados ainda revela que nos países liberais os
valores explicam duas vezes mais a variância na orientação política do que as
variáveis sociodemográficas. Nos países pós-comunistas o poder de explicação
dos valores é bem menor. Tal como haviam alertado, nas nações liberais avan
çadas os indivíduos estão menos enraizados culturalmente em relação à identi
dade de grupo. Porém, nos países tradicionais ambas as variáveis são rele
vantes. Dentre as características sociodemográficas, a religião foi a que mais
consistentemente associou-se às orientações políticas, mas seu poder foi mais
fraco nos países liberais. A religiosidade foi o mais consistente preditor da
orientação política de direita em 18 dos 20 países analisados. Segundo os au
tores, a religiosidade é uma característica psicológica dos indivíduos que ser
vem como um princípio orientador na vida. Talvez ela seja mais relevante que
a própria posição social.
Os resultados para o caso brasileiro mostram que a identidade de grupo
ainda é um elemento importante para compreender a orientação política, pois
as variáveis sociodemográficas mostraram-se fortemente associadas com a
orientação política no Brasil. Porém, os valores também são relevantes. Note,
por exemplo, que os indicadores de conservadorismo e a abertura à mudança
foram significativos para explicar a diferença entre esquerda e direita. Ainda
que com menor significância, a autotranscedência, abertura à mudança e
autopromoção servem para diferenciar o centro da direita (Aspelund et al.,
2013; Barni et al., 2016; Thorisdottir et al., 2007).
Vale notar que o indicador de conservadorismo foi muito significativo para
diferenciar esquerda-direita em todos os modelos. Em outras palavras, quanto
mais conservador menor a probabilidade de se autorreferir de esquerda vis-à
vis de direita. Destaca-se, porém, que dentro do indicador de conservadorismo
há um item que faz referência à religiosidade. Então, em alguma medida, este
18/23
Revista de Sociologia e Política v. 31
indicador captura essa identidade de grupo. Esse é um resultado que está de
acordo com os trabalhos de Piurko et al. (2011) e Barni et al. (2016), pois
segundo eles a orientação da direita está assentada em valores conservadores
como a tradição e a segurança. O conservadorismo, contudo, não parece servir
para diferenciar a orientação do centro em relação à direita.
Quanto maior o indicador de abertura à mudança, maior a probabilidade
dos indivíduos se perceberem como de esquerda vis-à-vis de direita. Isso tam
bém foi válido nos três modelos, e é um resultado presente em vários estudos.
Caprara et al. (2006), por exemplo, observaram que questões associadas à
amabilidade (ou amizade) e abertura para novas experiências estão associadas
com a centro-esquerda. Isso sugere que os programas de esquerda que enfati
zam a solidariedade, o bem-estar coletivo, a tolerância e a diversidade tendem
a atrair mais as pessoas “abertas” e “amigáveis”. Por outro lado, a ênfase da
centro-direita em programas que valorizam o empreendedorismo individual e
a liberdade comercial atraem pessoas mais ligadas aos traços de dominância,
energia, assertividade. Os valores ligados à tradição e a conformidade que,
como a segurança, endossam o status quo, correlacionam-se com os votos na
centro-direita. Registra-se que os valores de segurança foram os mais for
temente ligados ao voto na centro-direita. Vale destacar que esse indicador
também apresentou significância estatística quando se compara o centro com a
direita. Esse é um aspecto, portanto, que no caso brasileiro aproxima os cida
dãos de esquerda com os de centro.
Percebe-se uma associação entre o indicador de autotranscedência com a
diferença entre centro e direita. Este foi um resultado que permaneceu em
todos os modelos. Mais especificamente, quanto maior esse indicador, menor a
probabilidade do entrevistado se perceber como de centro vis-à-vis de direita.
Esse valor está associado com a benevolência e os resultados são, em alguma
medida, diferentes daqueles mais usualmente encontrados na literatura. Piurko
et al. (2011) e Schwartz & Boehnke (2004) perceberam que valores como be
nevolência e universalismo explicam a orientação de esquerda nos países tra
dicionais e liberais. No caso brasileiro, a benevolência não diferencia esquerda
e direita, mas centro e direita. Além do mais, esse é um valor menos associado
ao centro do que à direita. Essa diferença observada para os resultados no Bra
sil exige uma análise mais aprofundada em estudos posteriores. Talvez ele
possa ser mais bem compreendido à luz da religião, haja vista que cresce na
sociedade brasileira o número de evangélicos.
O indicador da autopromoção foi levemente significativo para diferenciar o
centro da direita. Porém, ele não foi robusto. Em outras palavras, quanto mais
preocupado com o dinheiro e com o sucesso, menor a probabilidade do indiví
duo se auto referir como de centro em relação à direita em apenas um dos mo
delos. Esse é um resultado que precisa ser ponderado, pois ele está no limite da
significância aceitável de 10%.
O que se observa, portanto, é que no caso brasileiro tanto os valores quanto
as variáveis sociodemográficas estão associadas com a orientação política.
Segundo Caprara et al. (2006), com a individualização da política, os valores
podem substituir as classes e outros grupos de interesse enquanto elementos
para explicar a orientação política. Isso foi observado nas eleições italianas em
2001 e 2006, pois os valores parecem ter mais relação com as votações do que
as variáveis sociodemográficas. Ademais, Evans (2000) afirmou que em países
cuja economia de serviços é forte, que possuem alta educação e urbanização,
há maior probabilidade de ter cidadãos que fazem escolhas políticas baseadas
em suas próprias compreensões. Nesses casos, eles são menos influenciados
pela sua posição social. Não parece, contudo, ter sido esse o caso do Brasil em
Perfil dos conservadores e dos progressistas brasileiros: uma abordagem baseada na teoria dos valores humanos
19/23
2014. Naquela data, foi possível perceber que tanto as variáveis sociodemo
gráficas quanto os valores estavam associados com a orientação política.
Portanto, o próximo desafio é entender se ao longo do tempo os valores
tornaram-se mais relevantes na discriminação da orientação política no Brasil.
Essa não é uma tarefa simples, pois os questionários da World Values Survey
para os anos seguintes não são compatíveis. Dessa forma, é preciso buscar
alternativas que permitam alguma aproximação dos questionários para depois
examinar as associações com a orientação política no Brasil.
V. Considerações finais
O presente trabalho teve por objetivo verificar os fatores associados com a
orientação política no Brasil no ano de 2014. Para tanto, além de variáveis
sociodemográficas, foram elaborados quatro indicadores com base na Teoria
dos Valores de Schwartz, quais sejam: conservadorismo, abertura à mudança,
autopromoção e autotranscendência. A base de dados foi obtida na homepage
da World Values Survey e contou com a resposta de 1.146 pessoas. Deve-se
ressaltar que o corte temporal está restrito à presença das questões compatíveis
com os trabalhos de Schwartz.
Parte da literatura sobre o tema sugere que os valores explicam a orienta
ção política mais fortemente que as variáveis sociodemográficas em países li
berais. Nesses, a orientação de direita está expressa em valores como tradição,
poder e segurança. Já a orientação de esquerda está assentada em valores como
universalismo, benevolência e preocupação com o bem-estar dos outros.
Ao contrário da maior parte da literatura, este artigo reconhece a necessi
dade de estudar a orientação política para além da visão tradicional esquerda
direita. Nesse sentido, o modelo empírico proposto considerou avaliar também
o espectro político de centro. Para o caso do Brasil, foi verificado que tanto as
variáveis sociodemográficas como os valores importam. Isso sugere que a
identidade de grupo ainda é um elemento importante para compreender a
orientação política do brasileiro. Levar em conta aqueles que se consideram de
“centro” é importante para se compreender as mudanças políticas que ocorre
ram no Brasil, especialmente após o ano de 2014. Conforme apresentado no
artigo, esse foi um período marcado por manifestações populares, por vezes
radicais, que talvez tenham favorecido a revelação mais contundente dos
valores conservadores de parte da sociedade. Essas expressões ganharam ainda
mais espaço após o impeachment da ex-presidente Dilma, em 2016, e culmi
nou com a eleição de Jair Bolsonaro. Porém, os conservadores radicais difi
cilmente teriam maioria sem um movimento do centro.
Em suma, observou-se que os jovens se identificam mais com a esquerda
do que com a direita. Porém, na medida que a idade avança há uma redução
nessa probabilidade. Por outro lado, as mulheres têm menor chance de se
identificar com a esquerda do que os homens em relação a orientação política
de direita. Não foi possível identificar associação estatisticamente significativa
entre raça e orientação política em nenhuma das estimativas. Quando se con
trola pela percepção quanto à própria renda, notou-se que ela tem maior rele
vância para separar aqueles que se consideram de centro em relação aos que se
classificam como de direita. Nas estimações alternativas, a variável “classe
social” não foi significativa em nenhum dos modelos, ao passo que os maiores
níveis de “Satisfação com a Renda” se mostraram menos associados com a
orientação de esquerda quando comparado com a direita. Por fim, maiores
20/23
Revista de Sociologia e Política v. 31
níveis de escolaridade aumentam a chance do indivíduo se identificar como de
esquerda em relação a se identificar como de direita.
Sob esse ponto de vista, sugere-se que a identidade de grupo ainda é um
elemento importante na compreensão do tema abordado. Contudo, os valores
também são relevantes. Os indicadores de conservadorismo e a abertura à
mudança foram significativos para explicar a diferença entre esquerda e di
reita. Mais especificamente, quanto mais conservador, menor a chance do in
divíduo se identificar com a esquerda em relação à com a direita. Contudo,
esse não é um elemento que diferencia o centro da direita. Aqui, há um impor
tante aspecto para estudos futuros: investigar se, no caso brasileiro, os indiví
duos que se identificam com o centro político são tão conservadores quanto
aqueles que se identificam com a direita. Vale notar que nas três especifica
ções, a autotranscedência- valores que enfatizam aceitação dos outros como
iguais e a preocupação com o seu bem-estar- foi um valor menos associado
com o centro do que com a direita. Por outro lado, o centro é mais próximo da
esquerda no quesito “abertura à mudança”. Em linha com a literatura inter
nacional, os programas de esquerda que enfatizam a solidariedade, o bem-estar
coletivo, a tolerância e a diversidade tendem a atrair mais as pessoas “abertas”
e “amigáveis”. Esse também parece ser o resultado observado no Brasil.
Deve-se ressaltar que, os conservadores tendem a defender um papel limi
tado do governo, o qual deve se concentrar em proteger a ordem e a segurança.
Eles também são favoráveis à redução do gasto público e dos impostos, a fim
de permitir que as pessoas e as empresas tenham mais liberdade para tomar
decisões e investir em suas próprias iniciativas. Em relação às políticas sociais,
os conservadores geralmente acreditam que o governo deve ter um papel limi
tado em garantir o bem-estar social, ao passo que devem favorecer políticas
que incentivam a responsabilidade individual e a autossuficiência. Nesse sen
tido, eles tendem a se opor aos programas sociais que consideram excessiva
mente generosos ou que incentivam a dependência do governo. Além disso, os
valores conservadores muitas vezes se refletem em posições firmes sobre
questões de identidade e moralidade, como a defesa da família tradicional, a
oposição ao aborto, o apoio à religião e a defesa da lei e da ordem. Portanto, o
crescimento desses valores, quando refletidos no processo eleitoral, trarão
implicações sobre a política, bem como a condução da economia brasileira.
Entende-se que o desafio para trabalhos futuros é tentar compatibilizar os
questionários mais recentes com aquele proposto por Schwartz a fim de criar
indicadores sobre os valores. Essa é uma tarefa desafiadora, pois as questões
aplicadas pela World Values Survey são muito diferentes em cada nova onda.
Porém, esse esforço é fundamental para avaliar a importância que os valores
têm para explicar a orientação política no Brasil do presente. Por último,
tomando em consideração a particularidade cultural do Brasil e suas diferenças
internas (Torres et al., 2016), outra linha de pesquisa futura é tratar de entender
se as variáveis culturais como o individualismo, a distância do poder, ou outras
possam dar indicativos sobre a orientação política no Brasil.
Thiago Henrique Carneiro Rios Lopes (thiagohenriquerios@gmail.com) é doutor em Economia pela Universidade Federal de
Minas Gerais e professor do Programa de Pós-Graduação em Economia, Universidade Federal de Sergipe, Aracaju, SE, Bra
sil.
Miguel Angel Rivera Castro (marcastro@uefs.br) é doutor em Economia pela Universidade de Santiago de Compostela
Espanha e professor do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Salvador, Salvador, BA, Brasil e do
Departamento de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana, BA, Brasil.
Perfil dos conservadores e dos progressistas brasileiros: uma abordagem baseada na teoria dos valores humanos
21/23
Referências
Allison, L., Wang, C. & Kaminsky, J. (2021) Religiosity, neutrality, fairness, skepticism, and societal tranquility: a data sci
ence analysis of the World Values Survey. PLoS ONE 16(1), p. e0245231. DOI
Altemeyer, B. (1998) The other “authoritarian personality”. In: M.P. Zanna (org) Advances in experimental social psycho
logy. Volume 30. Orlando: Academic Press., pp. 47-92. DOI
Amaral, O.E. (2022) The victory of Jair Bolsonaro according to the Brazilian electoral study of 2018. Brazilian Political Sci
ence Review, 14(1), pp. 1-13. DOI
Asparouhov, T. & Muthen, B. (2010) Simple second order chi-square correction. Unpublished manuscript. Disponível em:
<https://www.statmodel.com/download/WLSMV_new_chi21.pdf>. Acesso em: 20 de dez. 2022.
Aspelund, A., Lindeman, M. & Verkasalo, M. (2013) Political conservatism and left-right orientation in 28 Eastern and Wes
tern European Countries. Political Psychology, 34(3), pp. 409-417. DOI
Barnea, M.F. & Schwartz, S.H. (1998) Values and voting. Political Psychology, 19(1), pp. 17-40.
Barni, D., Vieno, A. & Roccato, M. (2016) Living in a non-communist versus in a post-communist European country mode
rates the relation between conservative values and political orientation: a multilevel study. European Journal of Per
sonality, 30(1), pp. 92-104. DOI
Bobbio, N. (1996) Left and right: the significance of a political distinction. Chicago: University of Chicago Press.
Bollen K.A. (1989) Structural equations with latent variables. New York: John Wiley & Sons.
Brown, T.A. (2006) Confirmatory factor analysis for applied research. New York: The Guilford Press.
Brussino, S., Imhoff, D., Rabbia, H.H. & Paz Garcia, A.P. (2013) Ideología política en torno a issues y valores sociales: un
estudio correlacional en ciudadanos de Córdoba/Argentina. América Latina Hoy, 65, pp. 161-182. DOI
Caprara, G.V., Schwartz, S.H., Capanna, C., Vecchione, M. & Barbarenelli, C. (2006) Personality and politics: values, traits,
and political choice. Political Psychology, 27(1), pp. 1-28. DOI
Caprara, G.V., Vecchione, M., Schwartz, S.H., Schoen, H., Bain, P.G., Silvester, J. & Caprara, M.G. (2017) Basic values,
ideological self-placement, and voting: a cross-cultural study. Cross-Cultural Research, 51(4), pp. 388-411. DOI
Cohrs, J.C., Maes, K., Moschner, B. & Kielmann, S. (2007) Determinants of human rights attitudes and behavior: a compa
rison and integration of psychological perspectives. Political Psychology, 28(4), pp. 441-469. DOI
Costa Jr., P.T. (1992) Revised NEO Personality Inventory (NEO-PR-R) and NEO Five-Factor manual. Odessa: Psychologi
cal Assessment Resources.
Costa Jr., P.T. & McCrae, R.R. (1995) Domains and facets: hierarchical personality assessment using the revised NEO per
sonality inventory. Journal of Personality Assessment, 64, pp. 21-50. DOI
Duckitt, J. & Sibley, C.G. (2017) The dual process motivational model of ideology and prejudice. Cambridge Handbook on
the Psychology of Prejudice. New York: Cambridge University Press.
Evans, G. (2000) The continued significance of class voting. Annual Review of Political Science, 3, pp. 401-417. DOI
Fontaine, J.R., Poortinga, Y.H., Delbeke, L. & Schwartz, S.H. (2008) Structural equivalence of the values domain across cul
tures distinguishing sampling fluctuations from meaningful variation. Journal of Cross-Cultural Psychology, 39(4),
pp. 345-365. DOI
Fuks, M., Ribeiro, E. & Borba, J. (2021) From antipetismo to generalized antipartisanship: the impact of rejection of political
parties on the 2018 vote for Bolsonaro. Brazilian Political Science Review, 15(1), pp. 1-28. DOI
Fuks, M. & Marques, P.H. (2023) Polarização e contexto: medindo e explicando a polarização política no Brasil. Opinião
Pública, 28, pp. 560-593. DOI
Gattario, K.H., Frisén, A., Fuller-Tyszkiewicz, M., Ricciardelli, L.A., Diedrichs, P.C., Yager, Z., Franko, D.L. & Smolak, L.
(2015) How is men's conformity to masculine norms related to their body image? Masculinity and muscularity across
Western countries. Psychology of Men & Masculinity, 16(3), pp. 337-347. DOI
Gestsdottir, S., Geldhof, G.J., Paus, T., Freund, A.M., Adalbjarnardottir, S., Lerner, J.V. & Lerner, R.M. (2015) Self-regula
tion among youth in four Western cultures: is there an adolescence-specific structure of the Selection-Optimization
Compensation (SOC) model? International Journal of Behavioral Development, 39(4), pp. 346-358. DOI
Goldberg, L.R. & Digman, J.M. (1994) Revealing structure in the data: principles of exploratory factor analysis. In: S. Strack,
M. Lorr, S. Strack & M. Lorr (orgs) Differentiating normal and abnormal personality. New York: Springer, pp. 216
242.
Granjo, M. & Francisco P. (2013) Contributo para o estudo da Escala de Valores Humanos de Schwartz em professores.
Laboratório de Psicologia, 11(1), pp. 3-17. DOI
Hadarics, M. (2017) Conservation motivation, social equality and left-right ideological preferences in Western and Eastern
Europe. Europe's Journal of Psychology, 13(2), pp. 336-351. DOI
Hutz, C.S., Nunes, C.H.S.S., Silveira, A.D., Serra, J., Anton, M. & Wieczorek, L.S. (1998) O desenvolvimento de marca
dores para a avaliação da personalidade no modelo dos cinco grandes fatores. Psicologia: Reflexão e Crítica, 11(2),
pp. 395-409. DOI
Hofstede, G. (1980) Motivation, leadership, and organization: do American theories apply abroad? Organizational Dyna
mics, 9(1), pp. 42-63. DOI
Imhoff, D. & Brussino, S. (2013) Estudio exploratorio de las características psicométricas del portrait values questionnaire en
el contexto de Córdoba-Argentina. Revista Colombiana de Psicología, 22(1), pp. 135-149.
22/23
Revista de Sociologia e Política v. 31
Inglehart, R. & Carballo, M. (1997) Does Latin America exist? (And is there a Confucian culture?): a global analysis of
cross-cultural differences. Political Science & Politics, 30(1), pp. 34-47. DOI
Inglehart, R. & Welzel, C. (2005) Modernization, cultural change and democracy: the human development sequence. New
York: Cambridge University Press.
Jost, J.T., Glasser, J., Kruglanski, A.W. & Sulloway, F.J. (2003) Political conservatism as motivated social cognition. Psy
chological Bulletin, 129(3), pp. 339-375. DOI
Lipset, S.M. (1960) Political man. New York: Doubleday.
Lipset, S.M. & Rokkan, S. (1967) Party systems and voter alignment. New York: Free Press.
Livi, S., Leone, L., Falgares, G. & Lombardo, F. (2014) Values, ideological attitudes and patriotism. Personality and Indivi
dual Differences, 64, pp. 141-146. DOI
Lorenzo-Seva, U. & Ferrando, P.J. (2019) Robust Promin: a method for diagonally weighted factor rotation. Technical
Report, URV. Tarragona, Spain.
Muller, J.Z. (2001) Conservatism: historical aspects. In: N.J. Smelser & P.B. Baltes. International encyclopedia of the social
and behavioral. Amsterdam: Elsevier, pp. 2624-2628.
McNeish, D. & Wolf, M.G. (2020) Thinking twice about sum scores. Behavior Research Methods, 52, pp. 2287-2305. DOI
McCrae, R.R. & Costa, P.T. (1990) Personality in adulthood. New York: Guilford.
McKee, I.R. & Feather, N.T. (2008) Revenge, retribution, and values: social attitudes and punitive sentencing. Social Justice
Research, 21(2), pp. 138-163. DOI
Mitchell, P.G., Tetlock, P.E., Mellers, B.A. & Ordonez, L. (1993) Judgments of social justice: compromises between equality
and efficiency. Journal of Personality and Social Psychology, 65, pp. 629-639.
Morselli, D., Spini, D. & Devos, T. (2012) Human values and trust in institutions across countries: a multilevel test of
Schwartz's hypothesis of structural equivalence. Survey Research Methods, 6(1), pp. 49-60. DOI
Muller, J.Z. (2001) Conservatism: historical aspects. In. N.J. Smelser & P.B. Baltes. International encyclopedia of the social
and behavioral. Amsterdam: Elsevier, pp. 2624-2628.
Norris, P. & Inglehart, R. (2019) Cultural backlash: Trump, Brexit, and authoritarian populism. Cambridge: Cambridge
University Press.
Pande, S. & Jain, N. (2014) Relation between personal values and corruption permissiveness of government servants in India
and the moderating role of dissatisfaction with the financial condition of the family. International Review of Public
Administration, 19(2), pp. 126-142. DOI
Piurko, Y., Schwartz, S.H. & Davidov, E. (2011) Basic personal values and the meaning of left-right political orientations in
20 countries. Political Psychology, 32(4), pp. 537-561. DOI
Rokeach, M. (1973) The nature of human values. New York: Free Press.
Russo, G.A., Pimentel Junior, J., & Avelino, G. (2022) O crescimento da direita e o voto em Bolsonaro: causalidade reversa?
Opinião Pública, 28(3), pp. 594-614. DOI
Setzler, M. (2021) Did Brazilians vote for Jair Bolsonaro because they share his most controversial views? Brazilian Political
Science Review, 15(1), pp. 1-16. DOI
Schwartz, S. (2006) A theory of cultural value orientations: explication and applications. Comparative Sociology, 5(2),
pp. 137-182. DOI
Schwartz, S.H. (1992) Universals in the content and structure of values: theoretical advances and empirical tests in 20 coun
tries. Advances in Experimental Social Psychology, 25, pp. 1-65. DOI
Schwartz, S.H. & Barnea, M. (1995) Los valores en las orientaciones políticas: aplicaciones a España, Venezuela y Méjico.
Psicología Política, 11, pp. 15-40.
Schwartz, S.H. & Boehnke, K. (2004) Evaluating the structure of human values with confirmatory factor analysis. Journal of
Research in Personality, 38(3), pp. 230-255. DOI
Schwartz, S.H., Caprara, G.V. & Vecchione, M. (2010) Basic personal values, core political values and voting: a longitudinal
analysis. Political Psychology, 31(3), pp. 421-452. DOI
Schwartz, S.H., Cieciuch, J., Vecchione, M., Davidov, E., Fischer, R., Beierlein, C., Ramos, A., Verkasalo, M., Lönnqvist, J.
E., Demirutku, K., Dirilen-Gumus, O. & Konty, M. (2012) Refining the theory of basic individual values. Journal of
Personality and Social Psychology, 103(4), pp. 663-688. DOI
Schwartz, S.H., Melech, G., Lehmann, A., Burgess, S. & Harris, M. (2001) Extending the cross-cultural validity of the theory
of basic human values with a different method of measurement. Journal of Cross-Cultural Psychology, 32, pp. 519-542.
DOI
Sidanius, J. & Pratto, F. (1999) Social dominance: an intergroup theory of social hierarchy and oppression. Cambridge:
Cambridge University Press.
Solano, D., Díaz, C. & Peña, P. (2015) Auto-identificación étnica, valores y su relación con el voto en las elecciones pre
sidenciales peruanas del 2011 en una muestra de jóvenes universitarios. In: E. Rodríguez & R. Corcuera. Subjetividades
diversas: análisis de la situación política, social y económica de las juventudes peruanas. Lima: SENAJU-UNESCO,
pp. 163-185.
Stubager, R. (2008) Education effects on authoritarian-libertarian values: a question of socialization. The British Journal of
Sociology, 59(2), pp. 327-350. DOI
Perfil dos conservadores e dos progressistas brasileiros: uma abordagem baseada na teoria dos valores humanos
23/23
Thorisdottir, H., Jost, J.T., Liviatan, I. & Shrout, P.E. (2007) Psychological needs and values underlying left-right political
orientation: cross-national evidence from Eastern and Western Europe. Public Opinion Quarterly, 71(2), pp. 175-203.
DOI
Timmerman, M.E. & Lorenzo-Seva, U. (2011) Dimensionality assessment of ordered polytomous items with parallel analy
sis. Psychological Methods, 16, pp. 209-220. DOI
Torres, C.V., Schwartz, S.H. & Nascimento, T.G. (2016) A teoria de valores refinada: associações com comportamento e
evidências de validade discriminante e preditiva. Psicologia USP, 27(2), pp. 341-356. DOI
Trentini, C.M., Hutz, C.S., Bandeira, D.R., Teixeira, M.A.P., Gonçalves, M.T.A. & Thomazoni, A.R. (2009) Correlações
entre a EFN- Escala Fatorial de Neuroticismo e o IFP- Inventário Fatorial de Personalidade. Avaliação Psicológica, 8
(2), pp. 209-217.
Van der Toorn, J., Jost, J.T., Packer, D.J., Noorbaloochi, S. & Van Bavel, J.J. (2017) In defense of tradition: religiosity, con
servatism, and opposition to same-sex marriage in North America. Personality and Social Psychology Bulletin, 43(10),
pp. 1455-1468. DOI
Wilson, G.D. (1973) The psychology of conservatism. London: Academic Press.
Zubieta, E., Delfino, G. & Fernández, O. (2008) Dominancia social, valores y posicionamiento ideológico en jóvenes uni
versitarios. Psicodebate, 8, pp. 151-170.
Outras fontes
WVS. (2015) World Values Survey. Disponível em: <https://www.worldvaluessurvey.org/wvs.jsp>. Acesso em: 12 de jan.
2023.
A profile of Brazilian conservatives and progressives: an approach based on the theory of basic human
values
Keywords: theory of basic human values, political orientation, political conservatism, political culture, multinomial model.
ABSTRACTIntroduction: We evaluated a set of factors associated with political orientation in Brazil considering the left, center, and
right political spectrums, as well as a group of values based on Schwartz's Theory. This theory enables us to understand how perso
nal values affect individual choices and behavior across different contexts, among which political orientation. Materials and
method: Our source database was the sixth research wave of the World Values Survey, which included 1,146 respondents for Brazil
in 2014. The confirmatory factor analysis allowed us to validate the Schwartz questionnaire and, subsequently, devise four indica
tors for the following values: conservation, openness to change, self-enhancement, and self-transcendence. In addition to these vari
ables, we controlled the analysis of results using a multinomial model with a range of sociodemographic variables to assess the
determinants of political self-positioning. Results: Conservation and openness to change were significant indicators to explain the
difference between left and right. Self-transcendence, in turn, was a value more closely associated with citizens who identify as right
wing rather than center. Discussion: Political orientation in Brazil is heavily reliant on both values and group identities, i.e., socio
demographic characteristics. This is illustrated by the statistical significance of the following demographic variables: gender, age,
perceived income level, and education level.
This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use,
distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.
Anexo1-Efeitosmarginais
Delta-method
dy/dx Std.err. z P>z [95%conf.interval]
Sexo_predict
1-0,02611 0,0259972-1 0,315 0,0770635 0,0248436
2-0,0156075 0,0301902-0,52 0,605 0,0747792 0,0435642
3 0,0417175 0,024462 1,71 0,088 0,0062271 0,0896621
idade_predict
1 0,0090258 0,0043355 2,08 0,037 0,0005283 0,0175233
2-0,0011095 0,0048922-0,23 0,821-0,010698 0,008479
3-0,0079163 0,0037861-2,09 0,037 0,0153369-0,0004957
idade2_predict
1-0,0000962 0,0000473-2,03 0,042 0,0001889-3.46e-06
2-0,0000132 0,0000527-0,25 0,803 0,0001165 0,0000902
3 0,0001094 0,0000389 2,81 0,005 0,0000332 0,0001855
1.renda (baseoutcome)
2.renda_predict
1-0,0545738 0,0588814-0,93 0,354 0,1699793 0,0608317
2 0,1907038 0,0641972 2,97 0,003 0,0648796 0,3165281
3-0,13613 0,0527-2,58 0,01 0,2394201-0,03284
3.renda_predict
1 0,0101633 0,0603235 0,17 0,866 0,1080685 0,1283952
2 0,1095718 0,0647156 1,69 0,09 0,0172684 0,236412
3-0,1197351 0,0548062-2,18 0,029 0,2271533-0,012317
4.renda_predict
1-0,0938449 0,050947-1,84 0,065 0,1936992 0,0060094
2 0,2117189 0,0588794 3,6 0 0,0963173 0,3271205
3-0,117874 0,0521642-2,26 0,024 0,2201139-0,0156341
5.renda_predict
1-0,0207054 0,0481361-0,43 0,667 0,1150505 0,0736397
2 0,1870768 0,0513238 3,65 0 0,0864839 0,2876696
3-0,1663714 0,0439635-3,78 0 0,2525382-0,0802046
6.renda_predict
1-0,0628753 0,0512238-1,23 0,22-0,163272 0,0375214
2 0,1957165 0,0578771 3,38 0,001 0,0822795 0,3091535
3-0,1328412 0,0512526-2,59 0,01 0,2332944-0,032388
7.renda_predict
1 0,0348286 0,061273 0,57 0,57 0,0852643 0,1549215
2 0,1344807 0,064715 2,08 0,038 0,0076415 0,2613198
3-0,1693093 0,0542786-3,12 0,002 0,2756934-0,0629252
8.renda_predict
1-0,1678815 0,0619682-2,71 0,007 0,2893369-0,0464261
(continua)
24/23 RevistadeSociologiaePolíticav.31
Anexo
Anexo1-Continuação
Delta-method
dy/dx Std.err. z P>z [95%conf.interval]
2 0,2420128 0,0819078 2,95 0,003 0,0814764 0,4025491
3-0,0741313 0,0734144-1,01 0,313 0,2180209 0,0697584
9.renda_predict
1-0,1733935 0,0820397-2,11 0,035 0,3341884-0,0125986
2 0,2402148 0,1211054 1,98 0,047 0,0028526 0,4775769
3-0,0668212 0,1114794-0,6 0,549 0,2853169 0,1516744
10.renda_predict
1 0,3376418 0,3168351 1,07 0,287 0,2833436 0,9586272
2-0,3767535 0,0419438-8,98 0 0,4589619-0,2945451
3 0,0391117 0,3168473 0,12 0,902 0,5818977 0,6601211
1.educ (baseoutcome)
2.educ_predict
1 0,0745789 0,0310697 2,4 0,016 0,0136834 0,1354744
2 0,0248194 0,0357186 0,69 0,487 0,0451877 0,0948265
3-0,0993983 0,0308794-3,22 0,001 0,1599208-0,0388758
3.educ_predict
1 0,0275474 0,0377303 0,73 0,465 0,0464026 0,1014974
2 0,115555 0,0442462 2,61 0,009 0,0288341 0,2022759
3-0,1431024 0,0355207-4,03 0 0,2127216-0,0734832
negro_predict
1 0,0143872 0,0388754 0,37 0,711 0,0618072 0,0905817
2-0,0363852 0,0448882-0,81 0,418 0,1243645 0,0515941
3 0,021998 0,0357877 0,61 0,539 0,0481447 0,0921406
conserv_predict
1-0,0232798 0,0112035-2,08 0,038 0,0452383-0,0013213
2 0,0034825 0,0131642 0,26 0,791 0,0223188 0,0292838
3 0,0197973 0,0113472 1,74 0,081 0,0024428 0,0420374
autotransc_predict
1 0,0163791 0,00962 1,7 0,089 0,0024758 0,0352339
2-0,0319884 0,0111906-2,86 0,004 0,0539215-0,0100553
3 0,0156093 0,0094461 1,65 0,098 0,0029047 0,0341233
abermudança_predict
1 0,0134234 0,0110576 1,21 0,225 0,0082492 0,0350959
2 0,0069265 0,0123084 0,56 0,574 0,0171975 0,0310504
3-0,0203499 0,0098423-2,07 0,039 0,0396405-0,0010592
autopromoção_predict
1-0,0036693 0,0121721-0,3 0,763 0,0275261 0,0201875
2-0,0144804 0,0134372-1,08 0,281 0,0408168 0,011856
3 0,0181497 0,0107528 1,69 0,091 0,0029253 0,0392247
Note:dy/dxforfactorlevelsisthediscretechangefromthebaselevel.
Fonte:elaboraçãoprópria(2022). O artigo dos autores Thiago Henrique Carneiro Rios LopesI e Miguel Angel Rivera CastroII, na Revista de Sociologia e Politica.
O petismo é a cultura política, a identidade partidária e o conjunto de ideias associados ao Partido dos Trabalhadores (PT), fundado no Brasil em fevereiro de 1980.
O atipetismo aparentemente, inviabiliza o progressismo no Brasil. Confira na CNN Brsail .https://www.cnnbrasil.com.br/
O conservadorismo é uma filosofia social e política que defende a preservação das instituições, costumes, tradições e valores construídos ao longo da história de uma sociedade. Em vez de propor mudanças radicais ou utópicas, o pensamento conservador defende que a sociedade deve evoluir de forma gradual e prudente, aproveitando a experiência acumulada pelas gerações passadas.
Pilares Fundamentais
Ceticismo político: Desconfiança em relação a teorias abstratas e planos de engenharia social que prometem sociedades perfeitas.
Prudência: Preferência por reformas lentas, pontuais e testadas pela experiência prática, evitando rupturas revolucionárias.
Preservação institucional: Valorização de estruturas fundamentais como a família, as comunidades locais e as organizações religiosas.
Ordem e estabilidade: Crença de que a ordem social e a segurança jurídica são pré-requisitos para a liberdade individual e a justiça.
O conservadorismo político moderno estruturou-se no final do século XVIII, tendo o filósofo e político britânico Edmund Burke como seu principal precursor. Em sua obra clássica, Burke criticou os excessos e a destruição institucional promovidos pela Revolução Francesa, defendendo que os pactos sociais devem respeitar os mortos, os vivos e os que ainda vão nascer.
Assista a uma breve explicação sobre o surgimento do pensamento conservador e seus conceitos clássicos:
O conservadorismo não é uma ideologia rígida ou um conjunto fixo de dogmas; ele varia de acordo com o tempo e a cultura de cada país:
Conservadorismo Tradicionalista: Foca intensamente na preservação da moralidade comum, dos costumes antigos e do papel central das religiões tradicionais na vida pública.
Conservadorismo Liberal: Combina a preservação dos valores e instituições tradicionais nos costumes com a defesa do livre mercado, da propriedade privada e do Estado enxuto na economia.
Neoconservadorismo: Vertente que ganhou força no cenário internacional (especialmente nos EUA), aliando o conservadorismo moral interno a uma postura assertiva e intervencionista na política externa.

Nenhum comentário:
Postar um comentário