A cultura armamentista nos Estados Unidos é um fenômeno único no mundo desenvolvido, profundamente enraizado na identidade nacional, na história e no ordenamento jurídico do país. Os EUA são a única nação com mais armas de fogo em mãos de civis do que habitantes, registrando uma média estimada de 120,5 armas para cada 100 residentes.
Esta relação complexa é sustentada por três pilares principais:
1. Origem Histórica e a Segunda Emenda
Desde o período colonial e a Guerra de Independência, o armamento civil foi visto como um símbolo de liberdade individual, autodefesa e resistência contra a opressão estatal. Essa mentalidade foi formalizada em 1791 pela Segunda Emenda à Constituição dos EUA, que protege o direito do povo de possuir e portar armas. A Suprema Corte do país tem reiterado que esse direito se aplica à autodefesa individual no âmbito privado.
God bless our men in uniform: militarização
e militarismo nos Estados Unidos da América1
God bless our men in uniform: militarization
and militarism in the United States of America
Rev. Bras. Est. Def. v. 10, n. 2, jul./dez. 2023, p. 245–268
DOI: 10.26792/RBED.v10n2.2023.75374
ISSN 2358-3932
CLARISSA FORNER
1
CRISTINA SOREANU PECEQUILO
2
INTRODUÇÃO
O farewell address proferido pelos presidentes dos Estados Unidos da
América (EUA) ao fim de cada administração é um dos momentos mais
simbólicos na política estadunidense. Dentre os desafios enunciados, his
toricamente, a guerra e a administração do aparato militar tornaram-se
um tema recorrente. George Washington, por exemplo, já apontava os pe
rigos decorrentes da manutenção de grandes estruturas militares para a
preservação da liberdade e do governo republicano: “[...] elas [as regiões
do país] evitarão a necessidade daqueles enormes aparatos militares que,
sob qualquer forma de governo, são desfavoráveis à liberdade, e devem ser
1
Clarissa Forner é doutora em Relações Internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas (Unesp
Unicamp-PUC/SP). Professora de Relações Internacionais na Universidade São Judas Tadeu (USJT) e
no Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Professora convidada no cur
so de Pós-Graduação em Política e Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política
de São Paulo (FESPSP). Pesquisadora do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional
(Gedes), do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos
(INCT/INEU) e do Grupo de Pesquisa em Política, Economia,Cultura e Relações Internacionais da
Universidade São Judas Tadeu. Contribuiu no artigo com a sistematização do debate conceitual sobre
militarismo e militarização ecom a discussão sobre o caso dos EUA. orcid.org/0000-0001-5142-5787.
E-mail: clarissaforner@gmail.com.
2
Cristina Soreanu Pecequilo é professora livre-docente em Política Internacional pela Unifesp,
Mestre e Doutora em Ciência Política pela USP. Professora de Relações Internacionais da Unifesp e
dos Programas de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas Unesp/Unicamp/
PUC-SP e em Economia Política Internacional da UFRJ. Pesquisadora do Nerint/UFRGS e do
CNPq (Processo nº. 307010/2021-0). Contribuiu no artigo com a definição da estrutura e recor
te temático, edição e redação do artigo em co-autoria. orcid.org/0000-0003-1617-186X. E-mail:
crispece@gmail.com.
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RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023
vistos como particularmente hostis à liberdade republicana.” (Washington,
1796, tradução nossa).
Receios similares foram verbalizados por Dwight Eisenhower (1953
1961), com o país alçado à condição de potência econômica e militar da
Guerra Fria (1947-1989). Eisenhower encontrava-se em uma realidade na
qual os gastos em defesa totalizavam quase 70% do orçamento federal e
10% do Produto Interno Bruto (PIB). Suas preocupações se destinavam à
ampliação das tropas e ao crescimento do “complexo industrial militar”, a
associação entre o aparato militar e as elites econômicas, responsáveis pelo
incremento da produção de armamentos. Afirmava Eisenhower:
Até o último de nossos conflitos mundiais, os Estados Unidos não
tinham nenhuma indústria de armamentos [...] Mas agora nós não
podemos mais arriscar a improvisação de emergência da defesa na
cional; nós fomos compelidos a criar uma indústria permanente de
armamentos de vastas proporções. Somado a isso, três milhões e meio
de homens e mulheres estão diretamente comprometidos com o esta
blishment de defesa. Nós gastamos mais com segurança militar anual
mente do que a renda líquida de todas as corporações dos Estados
Unidos. Essa conjunção de um imenso aparato militar e uma grande
indústria de armamentos é nova na experiência americana. A influên
cia total- econômica, política, mesmo espiritual — é sentida em cada
cidade, cada estado, cada casa, cada gabinete do governo federal. Nós
reconhecemos a imperativa necessidade desse desenvolvimento. No
entanto, não podemos deixar de compreender suas graves implica
ções [...] nós temos que nos resguardar contra a aquisição da injus
tificada influência, seja intencional ou não, do complexo industrial
militar. (Eisenhower 1961, tradução nossa).
Durante sua formação, os EUA esboçaram um comportamento que re
fletia as palavras de Washington: avesso à manutenção de grandes contin
gentes militares e tropas profissionais. Parte significativa das atividades
de defesa era relegada a milícias locais, compostas por cidadãos que não
tinham na guerra sua ocupação principal. A Guerra de Secessão (1861
1865), travada entre o norte manufatureiro e o sul escravocrata foi um dos
eventos que, já no século XIX, começou a alterar essa disposição, eviden
ciando a necessidade de um exército regular. Porém, o maior incremento
de forças aconteceu após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), marco
da ascensão hegemônica. Para Bacevich (2005), os crescentes gastos mili
tares e inovações tecnológicas, como o desenvolvimento da bomba atômica,
incutiram a percepção interna de que, no campo militar, os EUA haviam
desenvolvido uma expertise única.
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CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO
Em 1949, foi oficializada a criação do Departamento de Defesa (DoD),
unificando os departamentos das forças armadas e centralizando suas ati
vidades sob a coordenação do gabinete do Secretário de Defesa, dotado
de status ministerial. O Pentágono, como ficou conhecido o departamento,
devido ao formato do edifício que o abriga, tornou-se a maior burocracia
do establishment político, captando as mais vultosas somas do orçamento
federal.
Além de se tornar o principal canal formal de comunicação das forças
armadas com o sistema político, o DoD ampliou seu acesso à sociedade
civil, por meio de parcerias no setor de inovação com indústrias de arma
mentos e universidades, consolidando a estrutura doméstica do complexo
industrial militar. A capilaridade do referido complexo ainda alcançou a
esfera cultural, a partir do estabelecimento de parcerias entre o DoD e a
indústria cinematográfica e de propaganda, de forma a ampliar a difusão
social dos valores e ideias militares, por meio do reforço às referências
imagéticas de patriotismo, que corroboram para o aprofundamento do mi
litarismo na sociedade estadunidense.
Essa configuração contribuiu, em última instância, para a maior parti
cipação da burocracia de defesa na esfera decisória da política doméstica e
na implementação da agenda de política externa. Neste segundo campo,
sua presença se tornou ainda mais relevante a partir da década de 1990,
em decorrência da combinação entre a maior diversificação das formas de
emprego das forças armadas — incluindo atividades humanitárias, law en
forcement e cooperação em segurança — e os sucessivos ciclos de cortes
orçamentários experimentados pelas agências civis responsáveis pela re
presentação diplomática como o Departamento de Estado (DoS).
Conforme apontado por Kienscherf (2013), no ato da passagem da Lei
de Segurança Nacional de 1947, que constituiu as principais agências do
aparato federal estadunidense, incluindo o DoD e o Conselho de Segurança
Nacional, a “segurança nacional” substituiu o conceito tradicional de “de
fesa”, possibilitando um entendimento semântico mais abrangente, assen
tado na coordenação civil e militar.
Esta alteração tornou a mobilização militar permanente e sem prece
dentes mais aceitável do ponto de vista das tradições estadunidenses de re
jeição a grandes exércitos, posto que “defesa” evocava a guerra e a proteção
contra ameaças externas, enquanto “segurança” era um conceito aplicado
à garantia da ordem interna. A inversão simbolizou a externalização, para
o sistema internacional, da busca pela ordem vigente no âmbito doméstico
e a internalização da lógica externa de preparação para a guerra. A segu
rança nacional se converteu no princípio organizador de diversas políticas
públicas, incluindo a política exterior e a política de defesa.
247
RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023
Desde então, as temáticas da militarização e do militarismo se tornaram
frequentes nas discussões sobre a constituição do sistema burocrático dos
EUA. Todavia, o emprego de ambos os termos precisa ser aprofundado,
assim como sua relação com o ideário liberal estadunidense, cuja influência
tem feito com que o país seja frequentemente apresentado como um mode
lo bem-sucedido pela literatura tradicional sobre relações civil-militares, a
despeito das evidências históricas que indicam a ampliação do impacto po
lítico-decisório e social do crescimento do aparato militar (Bacevich 2007).
Portanto, o objetivo deste artigo é desenvolver a ideia de que não há
uma contradição entre o liberalismo e o processo de militarização nos
EUA, mas sim, uma complementaridade. Para promover esta discussão,
a metodologia sustenta-se em uma análise qualitativa, baseada na litera
tura especializada e em documentos oficiais. Além desta introdução, e das
considerações finais, o artigo se encontra dividido em duas partes: a apre
sentação dos conceitos de militarismo e militarização e o debate sobre o
“militarismo liberal” nos EUA.
MILITARISMO E MILITARIZAÇÃO: UM DEBATE CONCEITUAL
O emprego dos conceitos de “militarização” e “militarismo” suscita con
trovérsias que levam à ausência de consenso, à banalização ou ao excesso
de uso dos vocábulos. Uma das possíveis explicações para esse fenômeno
talvez seja a permanente relevância dos efeitos da estrutura militar sobre
as sociedades. A despeito das transformações históricas e dos diferentes
formatos assumidos pela organização militar, ela continua a representar
um dos pilares do Estado moderno. A atualidade e pertinência destes con
ceitos se justifica pelas possibilidades de ampliação do entendimento sobre
as dinâmicas do poder militar, não só na guerra, mas principalmente na
paz. Além disso, os estudos sobre militarização e militarismo são interdis
ciplinares envolvendo áreas como a estratégia, as relações civis militares, a
economia política e as relações internacionais.
De maneira genérica, compreendemos “militarismo” como o conjunto
de ideias e comportamentos, que culminam na maior valorização de ele
mentos militares em sociedade e/ ou no aumento à predisposição ao confli
to, mediante a normalização da mobilização constante para a guerra (Enloe
2014; Lisón 2007; Mann 1987; Pion-Berlin 2018; Vagts 1937). A “militari
zação”, por seu turno, consiste no processo de fixação dos comportamen
tos e ideais militaristas na estrutura social, por meio da penetração desses
últimos na organização das relações em sociedade, instituições ou políticas
públicas. O conceito de militarização também costuma ser utilizado para
designar a dimensão material do aumento das funções e cargos desempe
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CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO
nhados por militares e do military build-up (Kinsella 2013; Mathias 2003;
Ross 1987).
Os resultados do processo de militarização podem gerar o aumento da
influência e do poder dos setores militares na sociedade civil, em detrimen
to das parcelas não militares (Kinsella 2013). Por outro lado, a maior parte
das análises admite que os processos de militarização e de intensificação
de comportamentos militaristas não necessariamente decorrem da parti
cipação de militares no sistema político, ou de contextos de desequilíbrio
do controle civil. É possível que tais processos sejam impulsionados por
meio da iniciativa civil, mesmo quando se observa o aumento das funções
ocupadas por militares ou militares aposentados (Bloomfield 1974; Levy
2016; Mathias 2003). Outro ponto é que podem ser identificados diferen
tes graus de militarização e/ ou militarismo, variando de acordo com os
contextos históricos.
Assim, é preciso compreender a evolução destes estudos. As primei
ras tentativas de elaboração conceitual imputavam ao militarismo e à mi
litarização uma carga pejorativa. Principalmente nas sociedades liberais,
o militarismo foi associado à expansão dos poderes da cúpula militar, a
partir do incremento de sua autoridade em relação às classes políticas. O
fenômeno funcionava, nas palavras de Thee (1977), como um “corolário de
comando e privilégio”, que, mediante o aumento da influência militar em
sociedade, tendia a favorecer a predisposição ao conflito e ao expansionis
mo territorial. O militarismo também servia como veículo explicativo das
disputas de poder e do imperialismo europeu, nos séculos XVIII e XIX.
A militarização, por seu turno, representava uma extensão do militarismo,
incrementando a influência militar sobre as esferas civis, notadamente na
organização social e na economia.
Em uma das primeiras formulações teóricas sobre o tema, Vagts (1937)
expunha essas possibilidades, apontando a existência de uma “via militar” e
outra “via militarista”. A “via militar” se relacionava ao entendimento mo
derno mais tradicional do aparato militar, enquanto meio para a realização
de um fim político. Por outro lado, a “via militarista” era o comportamento
que implicaria a subversão da concepção mais comedida, tornando o poder
militar um fim em si mesmo.
Quando do início da Guerra Fria, o emprego dos termos sofreu novos
alargamentos a fim de mapear os efeitos da corrida armamentista sobre as
potências estadunidense e soviética e a ascensão de regimes militares nos
chamados países de “Terceiro Mundo”. Incrementou-se o interesse pelo
aspecto sistêmico da militarização e sua imbricação com a economia ca
pitalista. A percepção mais comum era de que o militarismo no conflito
bipolar se diferenciava daquele vigente em outras épocas, devido ao seu
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alcance global, perpetuado por meio das relações de dependência econômi
ca e a difusão de tecnologias militares para países subdesenvolvidos, como
extensão dos conflitos travados entre as grandes potências (Thee 1977).
Na metade do século XX, predominavam dois entendimentos de mili
tarismo, categorizados por Grizold (2000) como uma corrente “realista/
liberal” e outra “marxista”. No primeiro caso, o militarismo é compreendi
do como fruto dos processos de fortalecimento do poder militar em relação
à autoridade civil do Estado e de desequilíbrios na estrutura das relações
civis militares. Os grupos militaristas maximizam seus interesses e obje
tivos na esfera decisória, mediante o incentivo ao emprego frequente do
instrumento militar. A possível correção do militarismo exigiria o reforço
das instituições de controle civil objetivo e o aumento da supervisão aos
grupos que esboçassem comportamentos militaristas em sociedade.
As contribuições marxistas assumem um caráter mais complexo, bus
cando a explicação das raízes do fenômeno militarista na estrutura da so
ciedade de classes e nos movimentos de expansão do capital. O militarismo
é encarado por essa vertente como um instrumento de poder das oligar
quias, as quais se utilizam do mecanismo militar para perpetuar seu domí
nio e ganhos econômicos doméstica e internacionalmente. A militarização
corresponde ao incremento da mobilização para a guerra e à penetração
de valores militares na organização da estrutura social, por meio de sua
reprodução em instituições de ensino, política, mídia entre outras. A di
fusão do militarismo contribui para a perpetuação de múltiplas formas de
dominação, inclusive na seara econômica (Grizold 2000).
O foco na economia foi condizente com o período da década de 1970,
caracterizado por eventos como a distensão EUA e URSS. Difundiram
se as teorias sobre o aumento da interdependência entre os Estados e a
multiplicação dos atores internacionais (Keohane 1984), que contribuiriam
para a redução da necessidade do poder militar. Na academia e sociedade
estadunidenses, esse processo foi “temperado” pela ascensão de movimen
tos antimilitaristas devido à Guerra do Vietnã. A pauta da militarização,
assim, foi rechaçada, sob a perspectiva de que seu estudo implicava o incen
tivo e a aproximação aos valores militaristas.
A chegada de Ronald Reagan (1981-1987) à presidência, com uma cam
panha focada na revitalização do aparato militar e no “reaquecimento” da
Guerra Fria resultaram na retomada da corrida armamentista e dos deba
tes sobre a militarização e o militarismo. Se, em um primeiro momento, as
maiores fontes de contribuições para o campo haviam se concentrado nos
estudos sobre relações civis militares e na economia política, nessa nova
fase, os principais avanços vieram da sociologia histórica e das perspectivas
feministas. A despeito de suas diferentes ênfases, a abordagem sociológica
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CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO
e as correntes feministas promoveram a maior inserção do debate sobre as
bases e impactos sociais dos fenômenos da militarização e do militarismo, o
que significava uma mudança do foco conferido à dimensão governamental
pelas análises tradicionais.
Em 1987, na revista New Left Review, Michael Mann, um dos expoen
tes da vertente sociológica, apontava que: “Defino militarismo como um
conjunto de atitudes e práticas sociais que consideram a guerra ou a pre
paração para ela como uma atividade social normal e desejável”. (Mann
1987, 35, tradução nossa). Além do destaque à mobilização social belicosa
permanente, o autor também teceu considerações acerca da relação en
tre a população estadunidense e a guerra. Em sua avaliação, a socieda
de estadunidense mantinha uma relação frouxa com seus exércitos, ainda
mais enfraquecida após o fracasso no Vietnã. Parte significativa da esfera
nacional mantinha-se informada sobre a guerra em territórios distantes,
conservando o apoio à presença militar global, mas este suporte possuía
um caráter frágil e superficial, avesso a casualidades. De acordo com Mann
(1987), com essa configuração o uso da força se tornava uma atividade para
consumo doméstico, quase como entretenimento televisivo, justificando o
emprego do termo “guerra como esporte de espectador”.
Por outro lado, as perspectivas feministas compreendem o militarismo
como expressão de uma sociedade organizada em torno do ideal de mascu
linidade heterossexual, que supervaloriza o culto à violência, o uso da força
e, consequentemente, a atividade militar. Como avalia Basham (2018), a
normalização das práticas militaristas provoca a concentração dos recur
sos estatais no setor militar, em detrimento do investimento em programas
sociais responsáveis pela diminuição da vulnerabilidade dos grupos mar
ginalizados.
Procurando estabelecer definições aos conceitos de militarismo e mili
tarização que abarcassem essas lógicas, Enloe (2014) afirma que o milita
rismo representa um “pacote de ideias”, que culminaria na sobrevaloriza
ção do elemento militar em sociedade e no estabelecimento de “modelos”
de Estado, a partir delas. As ideias básicas seriam as seguintes:
a) que a força armada é a solução última das tensões; que a nature
za humana é propensa ao conflito; c) que ter inimigos é uma condição
natural; d) que relações hierárquicas produzem a ação efetiva; d) que
um Estado sem exército é indefeso, pouco moderno e pouco legíti
mo; f) que, em tempos de crise, aquelas (es) que são femininas (os)
precisam de proteção armada; e g) que, em tempos de crise, qualquer
homem que se recuse a se engajar na ação violenta armada está com
prometendo seu próprio status como um homem masculino. (Enloe
2014, 7, tradução nossa).
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RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023
A militarização, por sua vez, é definida como:
[…] um processo sociopolítico. Militarização é o processo mul
tidimensional através do qual as raízes do militarismo são cultivadas
no solo da sociedade — ou de uma organização não governamen
tal, um departamento de governo, um grupo étnico ou uma agência
internacional. Não existe nada de automático ou inevitável sobre o
processo de militarização. A militarização pode ser parada pela ex
posição, crítica e resistência em suas fases iniciais; ocasionalmente
pode ser revertida. Ela também pode, de todo modo, ser impulsionada
depois de anos de aparente estagnação. A maior parte dos processos
de militarização ocorre durante o que é erroneamente rotulado como
‘tempo de paz’. (Enloe 2014, 7, tradução nossa).
Em decorrência dessas contribuições, parte significativa da literatu
ra mais recente sobre militarismo e militarização tem se debruçado so
bre a compreensão dos impactos desses fenômenos sobre a vida cotidia
na (Basham 2018; Bernazzolli and Flint 2009; Lutz 2002). O argumento
central é de que a ênfase na guerra ou na militarização construída sobre
“macro narrativas” faz prevalecer um entendimento top down a seu respei
to, que não contempla o papel das relações e práticas diárias na reprodução
desses processos.
Outra vertente de análise dos fenômenos de militarização e militarismo
aborda o debate sobre a produção e aquisição de armamentos. A militari
zação e o militarismo são fenômenos que se relacionam, mas não podem
ser tratados como sinônimos, ou detentores de uma relação causal imediata
(Kinsella 2013). Ilustrando essa questão, Ross (1987) argumentava que a
militarização pode ser entendida em duas dimensões:
a) militarização como um processo através do qual o Estado se torna
militarmente mais equipado, favorecendo a adoção de posturas conflitivas
e militaristas em relação a outros Estados. Nesse caso, a militarização se
equacionaria ao militarismo;
b) militarização como military build-up, ou seja, a aquisição de armamen
tos, aumento dos orçamentos militares e do tamanho das forças armadas
que podem culminar no incremento do setor militar em relação ao civil,
ou no aumento da influência política militar, mas que não necessariamente
incorrem na assimilação de comportamentos militaristas e propensos ao
uso da força.
A proposta de diferenciação se fundamenta na percepção de que as cone
xões entre os processos de military build-up e o militarismo são mais com
plexas do que lineares e tendem a variar. Analisando países de “Terceiro
Mundo”, Ross (1987) pontuava que a associação imediata do incremento
252
CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO
material do poderio militar ao militarismo parecia pressupor a existência
de um “ponto ótimo” normativo que, quando ultrapassado, se configuraria
como representativo de um processo de militarização. A “quantidade ideal”
é um critério subjetivo e não diz muito sobre o comportamento da socie
dade em relação ao setor militar, ou à guerra. Ainda que o military build-up
pudesse ser convertido em militarismo, não se tratava de uma tendência
universal (Kinsella 2013).
No que se refere ao estudo do caso estadunidense, opta-se pelo enten
dimento de militarização como um processo que se conecta à adoção de
comportamentos internacionais e domésticos mais propensos ao militaris
mo. O military build-up funciona como um dos alicerces e instrumentos do
processo, mas não é o único, posto que a difusão da militarização em socie
dade se relaciona à dimensão ideacional e institucional de penetração das
estruturas e relações sociais pelas dinâmicas observadas na esfera militar.
Privilegia-se uma compreensão mais ampla do fenômeno do militaris
mo, não o restringindo à guerra ou à predisposição ao conflito. Todos os
elementos aqui incorporados perfazem feições complementares do milita
rismo, que podem ou não se manifestar simultaneamente. Essas últimas
são resumidas por Pion-Berlin (2018) como sendo: a) militarismo como
ideal social, ou a valorização de ideias e comportamentos militares na vida
política; b) militarismo como o aumento da presença militar e de sua in
fluência sobre o governo; c) militarismo como emprego da força.
Lisón (2007) pontua que o militarismo não exige, necessariamente, a
participação militar nas esferas de comando. Ele pode se manifestar co
mo uma influência indireta do setor fardado em sociedade, reforçando a
hipótese de que o militarismo seja promovido a partir da esfera civil e
de maneira independente quanto aos graus de autonomia militar sobre
os processos de decisão. Não é preciso que os militares tomem parte nas
formulações decisórias para que o militarismo se verifique, embora estru
turas sociais militarizadas tendam a ampliar a projeção da elite fardada no
cenário político.
Por esse motivo, há que se diferenciar o controle civil sobre os militares
do controle civil sobre a militarização (Levy 2016). O primeiro se refere ao
controle e à subordinação do poder militar em relação à autoridade civil,
tal qual proposto pelas teorias do controle civil debatidas. O controle sobre
a militarização, por sua vez, requer a supervisão das instituições — civis e
militares — que legitimam o emprego da força como atividade socialmente
normalizada (Quadro 1).
253
RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023
Quadro 1
Comparando modos de controle
Controle sobre os militares Controle sobre a militarização
Foco
Objetivo
Como funciona
Foco na organização militar:
aspectos operacionais da
organização militar e suas
implicações políticas
Limitação da autonomia civil
para acionar os militares
Foco na cultura política:
legitimação do uso da força
Submeter o uso da força ao
processo deliberativo sobre a
legitimidade do emprego
Mecanismos institucionais que
afetam os atores e as decisões
Dimensão de poder Dimensão institucional
Fonte: Adaptado de Levy (2016, 11).
Debates públicos afetando a
cultura política sobre o emprego
da força militar
Dimensão social
As duas formas de controle identificadas não se apresentam simultanea
mente e em mesmo grau. Altos níveis de controle civil não significam altos
índices de controle sobre a militarização, e vice-versa. Os EUA têm sido
apresentados por parte significativa da literatura sobre o tema (Bloomfield
1974; Downes 2010; Janowitz 1960) como representativos de um “mili
tarismo não intencional”, cujo gatilho seria, sobretudo, civil. A realização
frequente de intervenções por decisão das classes políticas e, quase sempre,
à revelia dos setores militares avessos à guerra teria incrementado a de
pendência da política externa em relação ao instrumento militar, conforme
esse último tornara-se mais equipado e financiado que os instrumentos
civis. Os militares teriam assumido mais funções e atribuições by default,
e não intencionalmente. Portanto, os EUA se encaixariam, a priori, nos
exemplos de coexistência entre um alto controle civil e baixo controle so
bre a militarização.
Por outro lado, depois da Segunda Guerra Mundial, o setor militar as
sumiu um papel fundamental no processo de tomada de decisões, princi
palmente no campo internacional. No eixo doméstico, a consolidação do
Pentágono enquanto vetor de planejamento da política industrial de defesa
conferiu à essa burocracia um caráter quase autárquico em relação às de
mais agências do governo federal e às empresas do setor privado (Hooks
1990) que, em graus variados, estabeleceram relações de dependência eco
nômica e financeira com o setor militar.
À medida que os militares ampliam seus recursos e margem de in
fluência sobre as etapas do processo de decisão, desde a formulação até
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CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO
sua implementação, as forças armadas e a burocracia militar se tornam
não apenas receptáculos passivos de comandos e decisões, mas atores, com
capacidades autônomas. A ideia da não intencionalidade também deve ser
contestada, sob a justificativa de que seu emprego anula a responsabilidade
política sobre as escolhas que, reiteradas ao longo do tempo, contribuem
para tornar o aparato militar o instrumento burocrático mais responsivo
e capacitado que as opções de resposta civis, em contextos de emergência.
A configuração militarizada das estruturas domésticas favoreceu, em
última instância, a adoção de um viés militarista na política exterior, mani
festo pela tendência de injeção do planejamento e dos instrumentos milita
res nas ações externas do país (Milner and Tingley 2015), ou pela percep
ção da realidade internacional predominantemente em termos militares.
Cabe, portanto, compreender, nos EUA, o amálgama produzido entre libe
ralismo e violência. Assim, é válido avançar nas avaliações da tipologia do
chamado “militarismo liberal”.
O MILITARISMO LIBERAL E O CASO ESTADUNIDENSE
A proposição de uma categoria de análise específica para a compreensão
da relação entre a violência, o aparato militar e as sociedades liberais pa
rece uma extrapolação do conceito de militarismo. Entretanto, esta busca
pode ser compreendida sob a luz da evolução recente do campo de estudos
de segurança internacional, no pós-Guerra Fria que parecia inaugurar um
ciclo virtuoso no sistema internacional, no qual a relevância das temáticas
militares seria reduzida.
Não que isso significasse uma mudança efetiva do modus operandi es
tratégico da potência estadunidense: no plano concreto, o aparato militar
continuava a investir maciçamente na produção de novas tecnologias cada
vez mais sofisticadas, visando a superioridade máxima via Revolução nos
Assuntos Militares (RAM). Documentos estratégicos publicados tanto pe
la presidência quanto pelos setores burocráticos sinalizavam as possíveis
fontes das “novas ameaças”, na ausência do inimigo soviético. Acreditava
se que os conflitos se deslocariam do plano global para o regional e assu
miriam um formato cada vez menos estatizado, impondo a necessidade de
reformatação das forças militares para a atuação em operações de manu
tenção e construção da paz (US Department of Defense 1992).
Os estudos de segurança internacional foram influenciados por es
sas lógicas. Correntes como a tradição da securitização, inaugurada pela
Escola de Copenhague,2 e os estudos críticos de segurança internacional
propunham o alargamento do escopo analítico do campo: as ameaças e os
objetos da segurança se tornariam multidimensionais, e não só militares e/
255
RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023
ou estado-cêntricos, ressignificando os termos de segurança, como “segu
rança humana”, “segurança ambiental”, entre outras. Stavrianakis e Stern
(2018) argumentam que esta ênfase, em detrimento da temática militar,
representou a negligência e a rejeição aos estudos sobre militarismo. A
guerra e a militarização eram restritas à violência cometida pela entidade
estatal, obscurecendo outras possíveis formas de violência dentro do corpo
social.
Quando abordados pelas vertentes críticas, os conceitos apareciam qua
se sempre atrelados à securitização. As respostas militarizadas poderiam
ser articuladas como instrumento de restabelecimento da segurança, sendo
incorporadas ao eixo da excepcionalidade, portanto. Segundo Bernazzoli
e Flint (2009), o emprego do termo “securitização” em detrimento da “mi
litarização” era preferível, na medida em que a securitização identificava
violências para além da força militar e desmitificava o que supostos “falsos
binarismos” inerentes ao conceito de militarização.
A asserção de que determinado campo ou política tornaram-se militari
zados pressupunha o reforço às distinções que funcionavam como catego
rias analíticas, mas não se realizavam na prática, como a separação entre a
sociedade e o aparato militar, entre doméstico e internacional, entre guerra
e paz etc. Tais dicotomias eram agravadas pelo uso das definições de mi
litarismo e militarização que, embora pudessem incluir quaisquer formas
de violência organizada, sua origem ainda recaía sobre a primazia do vetor
militar (Bernazzoli and Flint 2009).
Ainda que o debate sobre o tratamento da realidade em termos biná
rios seja interessante, a adoção dos termos securitização e militarismo co
mo intercambiáveis acarreta perdas analíticas. Stavrianakis e Stern (2018)
apontam para o fato de a ênfase na segurança obscurecer as especificidades
do estudo do poder militar e, principalmente, do impacto da violência, da
guerra — em sua preparação e execução — sobre a sociedade. Para as
autoras, os conceitos de militarismo e militarização poderiam ser utiliza
dos de maneira crítica, questionando os usos e efeitos da dimensão militar
sobre as instituições sociais.
A securitização, como observado, faz referência ao elemento militar sob
a ótica da excepcionalidade. O estudo da militarização procura identificar
o que é perene em sociedade: a influência da violência e da instituição mi
litar, de forma mais restrita, sobre as relações sociais, tanto em contextos
de ameaça direta, quanto fora deles. Embora os dois fenômenos possam se
sobrepor e conectar (Stavrianakis and Stern 2018) não designam os mes
mos processos.
Por fim, a insistência sobre o estudo da militarização, em detrimento
da abordagem securitária funciona, na concepção de Stavrianakis e Stern
256
CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO
(2018), como um mecanismo de rompimento com o viés eurocêntrico das
perspectivas de segurança. A retirada do foco das questões militares e da
violência revela, tão somente, a apreensão europeia — e, adicionemos, an
glo-saxã — dos conflitos internacionais, sobretudo quando travados em
regiões periféricas. A ênfase na segurança em detrimento da violência tam
bém remonta aos esforços de redução de impacto da atuação de grandes
potências em regiões de periferia.
Os estudos mais recentes sobre o militarismo sob o “guarda-chuva” dos
Estudos Críticos Militares, com maior projeção nos anos 1990, dedicam-se
a recuperar a relevância do conceito. Seu foco reside no aprofundamen
to do debate sobre como as sociedades se relacionam com o fenômeno da
violência organizada, seja em sua forma puramente militar, ou não. Esse
tipo de abordagem permite extrapolar as limitações impostas pelo foco
na entidade estatal dos estudos tradicionais, embora, como argumentado
por Stavrianakis e Stern (2018), essa última não possa ser desconsiderada,
posto que o Estado conserva sua relevância.
Um dos frutos das referidas “novas abordagens” foi a formulação do
conceito de “militarismo liberal”. Suas origens remontam a Edgerton
(1991), que concebeu a tipologia a partir da observação do “modo britânico
de fazer a guerra”. Esse tipo de militarismo pode ser resumido nas se
guintes características: aversão a grandes exércitos e à conscrição militar;
profissionalização das forças armadas; alto investimento tecnológico, com
ênfase no setor de capital intensivo; atrelamento do uso da força militar à
uma visão universalista sobre a ordem mundial.
O emprego do termo “militarismo liberal” se diferencia das abordagens
que elencam as especificidades da “guerra liberal” (Mabee 2016), por cons
truir explicações a partir da guerra e da ligação entre as instituições da
violência e a sociedade, suas formas de interação e legitimação. A impor
tância da legitimação é reforçada por Joana e Mérand (2014), para quem o
militarismo liberal representa:
Mais do que o uso excepcional da força no nível internacional,
ou uma exaltação dos oficiais militares dentro da sociedade, a noção
de militarismo liberal denota aqui as representações sociais inscritas
pelos atores políticos e sociais à política de defesa em democracias
liberais. (Joana and Mérand 2014, 1, tradução nossa).
Tais proposições não pressupõem a imputação de uma análise valora
tiva ou comparativa entre as sociedades liberais e aquelas ditas “não libe
rais”. Trata-se do recurso a um “tipo-ideal” com o intuito de mapear o que
é específico aos contextos liberais — caracterizados, historicamente, pela
rejeição aos exércitos de larga escala, a separação formal entre as esferas
257
RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023
civil e militar e a promoção da economia de livre mercado — a fim de des
mistificar a premissa de que o militarismo é uma característica exclusiva
das sociedades autoritárias. Porém, este é um modelo que reproduz o que
já é verificável dentro da distinção “liberal” versus “não liberal”.
Perspectivas como as de Mabee (2016) e Basham (2018) oferecem ca
minhos mais críticos. A democracia surge muito mais como um instru
mento de legitimação da violência nas sociedades liberais, do que como
uma característica perene e inerente. Fazendo ecos à abordagem feminista,
os autores demonstram as distorções provocadas pelo militarismo nessas
sociedades, especialmente em se tratando da criação de espaços de exclusão
de minorias, desigualdade e aumento da sensação da insegurança.
Stavrianakis (2016) pontua que o arcabouço ideológico do militarismo
liberal funciona como um mecanismo de acobertamento de atividades ar
bitrárias ou irregulares por parte de potências liberais. Para a autora, o
militarismo liberal legitima-se por meio da construção de binarismos en
tre “democracia versus autoritarismo”; “civilização versus barbárie”; “guerra
versus paz”, entre outros.
Fatores chave da especificidade do militarismo liberal incluem: o
caráter capitalista e tecnológico-intensivo da preparação e condução
da guerra; um forte comprometimento com a produção militar du
rante a guerra e a paz e um auto entendimento como poder prima
riamente “econômico, industrial e comercial”; a forma distanciada de
ataques sobre populações do Sul e a simultânea contenção de conflitos
sociais internamente e o policiamento do império externamente, nor
malmente acompanhados de supostamente “pequenos” massacres”;
uma ideologia universalista e concepção de ordem mundial; baixos
níveis de participação militar da sociedade; uma relação Estado
capital que é formalmente separada, mas organicamente interligada.
Justificativas baseadas em valores e critérios morais, promovendo di
reitos humanos e humanitários, centrais para legitimar essas feições
do militarismo liberal, e que contrastam com as justificativas basea
das na soberania de grandes fornecedores e recipientes “não liberais”,
como Rússia, China e Índia. (Stavrianakis 2016, 845, tradução nossa).
A construção de tais dicotomias estabelece uma polarização, que con
cebe, do ponto de vista da nação, a existência de um “nós” liberal, em opo
sição a um “eles” não liberal, que representa uma ameaça à existência e
funcionamento da ordem liberal (Desch 2009). As únicas possibilidades de
interação com o “outro” tornam-se, necessariamente, a eliminação total, ou
a assimilação e reconstrução, a partir de sua adequação aos parâmetros po
líticos e econômicos do liberalismo. A segunda implicação é que por meio
do discurso dicotômico se reforça a associação entre o liberalismo e a paz/
258
CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO
estabilidade. A guerra e a violência são tratadas como rupturas e excepcio
nalidades, e não parte da ordem.
Para Neocleous (2010), a construção da ordem internacional liberal e
da ideia de “paz liberal” se assentam no escamoteamento de estruturas que
propagam e reproduzem a violência. A violência se constitui, não como
uma ruptura da paz e da ordem, mas como parte do funcionamento dessa
última, uma vez que a difusão de seus princípios e instituições têm se rea
lizado, historicamente, a partir da repressão ou aniquilação de indivíduos
e sociedades que não se enquadrem em sua lógica. Afinal, “Não pode haver
nenhum império da liberdade sem armas [...] Impérios da liberdade são
sempre impérios de violência. Como impérios da liberdade, entretanto, es
sa violência é perpetrada em nome da paz e segurança” (Neocleous 2010,
12, tradução nossa).
O discurso de legitimação, alicerçado na redução de impactos e nor
malização das práticas militaristas, serve tanto à audiência internacional,
quanto doméstica. Em sociedades liberais, o uso da força envolve o con
sentimento dos indivíduos à atuação estatal. O militarismo se verifica no
esforço de construção de ameaças como um perigo à vida do Estado e à
sociedade, a fim de garantir a anuência da opinião pública. O militarismo
restabelece, nas sociedades liberais, a integração entre Estado e indivíduo,
articulada a partir da ideia de que uma ameaça à integridade estatal repre
senta uma ameaça a todo o corpo social (Basham 2018). A falha nessa co
nexão talvez seja explicativa dos contextos de baixa adesão da população
ao discurso e às soluções internacionais militarizadas.
O militarismo liberal se manifesta, no plano internacional, por meio
de mais duas práticas: a promoção da militarização de capital intensivo,
via grande especialização e sofisticação tecnológica, e a compreensão da
guerra como veículo de modernização econômica e social. Como pondera
Mabee (2016): “Ainda que a modernização não seja claramente conectada
ao militarismo ou à militarização, foi essencial para o projeto liberal, e se
conecta ao militarismo através da exportação de estilos liberais de prepa
ração militar a outros Estados.” (Mabee 2016, 1, tradução nossa).
As fundações do National Security State, ou seja, a orientação do Estado
estadunidense e todo o seu aparato burocrático à segurança e à contenção
da URSS, durante o conflito bipolar, contribuíram para que o setor militar
se convertesse, tal qual discutido, em impulsionador da inovação. Prevalece
a associação burocracia de defesa- superioridade-eficiência, legitimando a
opção política pelo instrumento militar diante da morosidade e falta de
recursos civis.
A construção de acordos de cooperação em segurança e as transferên
cias de armamentos representam a face externa do consórcio entre milita
259
RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023
rismo e modernização. De acordo com Kinsella (2013), a modernização mi
litar de capital intensivo se tornou uma representação simbólica do Estado
moderno. A aquisição de armamentos das grandes potências por países
periféricos se constitui como um processo material de military build-up e
de socialização de normas, valores e práticas sobre o funcionamento do
Estado e da ordem internacional. O armamento e todos os elementos que o
acompanham, como os treinamentos conjuntos, programas de cooperação
em educação militar, carregam um arcabouço normativo sobre como os
Estados recipientes deveriam comportar-se, no que tange à organização
sociopolítica e econômica.
No caso dos EUA, essas iniciativas respondem ao propósito de “ensi
nar aos aliados como os militares estadunidenses fazem as coisas” (Kriege
Souma, and Nexon 2015). Para Mabee (2016), o incentivo à modernização
militar de países aliados tinha um propósito claro de combate ao comu
nismo, estabelecendo um “cordão sanitário” protetor contra as investidas
soviéticas e para evitar que os países da periferia migrassem para a órbita
comunista. Quando do desmoronamento da URSS, porém, um segundo
elemento adicionado a essas dinâmicas foi o uso das estratégias de coope
ração em segurança e reconstrução humanitária como forma de abertura
dos mercados e economias locais ao modo de organização socioeconômica
neoliberal.
A prevalência do militarismo nas relações exteriores e domésticas dos
EUA não parece condizer com as tendências observadas nas interações en
tre as sociedades liberais nas últimas décadas e seus aparatos militares. De
acordo com Joana e Mérand (2014), alguns dos elementos que se repetem
em boa parte dos países da Europa e da América do Norte são: o aumento
do potencial de “civilinização” dos militares, a desmilitarização do Estado
e o incremento da privatização do setor de segurança.
O primeiro item faz ecos às reflexões de Moskos et al. (2000) a res
peito da crescente sobreposição entre as atividades militares e civis nas
“sociedades pós-modernas”. O fim da Guerra Fria teria contribuído para
ampliar as funções militares, tornando os oficialatos cada vez mais próxi
mos da sociedade civil, a despeito da permanência do ethos militar voltado
ao gerenciamento da violência. Atrelada a esse fenômeno, a desmilitariza
ção se refere à perda da expressividade do setor militar em sociedade, em
detrimento de outras esferas governamentais. Essa dimensão se reflete na
menor interação do público com as questões militares — incluindo a baixa
adesão ao alistamento militar — e na redução das porcentagens do PIB
investidas em defesa. Finalmente, a privatização das funções militares, por
meio da contratação de empresas de segurança, tem orientado cada vez
260
CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO
mais a esfera militar ao mercado, o que se verifica nas aquisições e alta
sofisticação da produção de defesa.
O caso dos EUA é destoante em relação às experiências europeias pelo
fato de o impacto do setor militar no país ainda ser elevado economicamen
te. A despeito das reduções em termos de orçamento e pessoal sofridas ao
término da Guerra Fria, o país continuou a incrementar a produção tec
nológica-militar e voltou a destinar maciços recursos ao setor depois dos
atentados de 11 de setembro de 2001. Entretanto, observa-se o alto grau
de privatização das atividades das forças armadas.
A privatização não é inconsistente com o militarismo, na medida em
que, no contexto estadunidense, seu emprego não significa a substituição
dos efetivos militares. A maior parte das funções assumidas pelos contrata
dos se concentra no setor de segurança e logística, ao passo que as ativida
des de combate, reconstrução e treinamento de forças estrangeiras conti
nuam a ser desempenhadas pelas forças militares convencionais e especiais
(Hartung 2011). A imbricação entre o setor público e privado, nos EUA, é
uma das principais fontes da militarização. Igualmente, os EUA represen
tam um estudo de caso complexo sobre a experiência do militarismo e sua
correlação com o liberalismo.
De forma sintética, as características do militarismo liberal, observadas
no caso estadunidense, podem ser assim sistematizadas, com base na lite
ratura abordada:3
261
RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023
262
Quadro 2
Proposta de Síntese Conceitual
Militarização Militarismo liberal
Aumento contínuo dos investimentos
federais no aparato militar e nas
capacidades coercitivas do Estado
(públicas ou privadas)
Romantização e supervalorização dos
ideais e símbolos militares em sociedade e
em posicionamentos governamentais
Utilização de recursos de origem militar
para o financiamento de políticas civis,
culminando, em alguns casos, em seu
redirecionamento às finalidades militares
Baixos índices de recrutamento/
distanciamento entre a sociedade e as
forças armadas, apesar da manutenção
de altos índices de confiança social na
instituição militar
Alargamento das funções e ocupação de
cargos civis por integrantes na ativa ou
veteranos das forças armadas, que podem
ou não resultar em aumento de poder
decisório
Ampla sobreposição entre os setores
público e privado, e entre as esferas civil
e militar
Incorporação de elementos da doutrina,
mentalidade e/ou organização militar às
políticas e estratégias governamentais
e assimilação de doutrinas e conceitos
civis pelas forças armadas, visando a
legitimação da ação militar
Ênfase na modernização tecnológica e
doutrinária das forças armadas
Acomodação de políticas de governo
às finalidades tipicamente militares
segurança nacional, defesa e o exercício da
guerra
Construção de justificativas e
instrumentos de legitimação do emprego
da força, a partir de princípios liberais
(democracia, direitos humanos, justiça,
prosperidade econômica, entre outros)
Promoção de narrativas de segurança de
caráter binário, sustentado em oposições
como amigo/inimigo, democracia/
autoritarismo, civilização/barbárie,
nós/eles, que determinam, em última
instância, a gradação dos recursos a serem
empregados, isso é, assimilação, coerção ou
aniquilação pela força militar
Fonte: elaboração própria.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Procurou-se debater ao longo deste artigo a correlação entre militari
zação e militarismo nos EUA, e suas particularidades com relação à visão
deste país como uma sociedade liberal. Buscou-se, para tanto, fazer um
mapeamento, não exaustivo, do debate sobre militarismo e militarização.
CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO
Como argumentado, os processos de militarização não podem ser dis
sociados, nos EUA, do reconhecimento de traços de uma estrutura social e
cultural militarista que se reflete sobre a organização da política externa.
O conceito de “militarismo liberal” parece traduzir, de forma mais preci
sa, estas peculiaridades e contradições, na medida em que, como indicado,
o liberalismo não se apresenta como antítese, e sim como mecanismo de
legitimação dos fenômenos da militarização e do militarismo. Apesar de
suas limitações, este arcabouço permite o tensionamento da literatura e das
narrativas políticas predominantes, historicamente, que enquadram o país
como um modelo “bem-sucedido” de controle civil sobre as forças armadas.
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GOD BLESS OUR MEN IN UNIFORM:
MILITARIZAÇÃO E MILITARISMO NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
RESUMO
Este artigo tem como objetivo debater os fenômenos da militarização e do
militarismo no contexto sociopolítico dos Estados Unidos da América
(EUA), analisando suas manifestações domésticas e externas, historicamente.
Argumenta-se que, a despeito da prevalência das interpretações tradicionais,
que associam o país e sua organização social, assentada em valores liberais, a
um modelo de equilíbrio no campo das relações civil-militares, os processos
históricos de crescimento da influência do aparato militar na esfera domésti
ca e internacional revelam uma realidade mais complexa. Neste contexto, o
liberalismo não se apresenta como antítese à perpetuação do militarismo e da
militarização, mas como seu complemento e fonte de legitimação. A fim de ar
ticular tais conexões, o artigo propõe um resgate da discussão conceitual sobre
militarismo e militarização, e o debate da tipologia do “militarismo liberal”,
como forma de caracterização do caso estadunidense. Metodologicamente, a
análise será conduzida por meio de instrumentos qualitativos, incluindo análi
se documental e a revisão da literatura especializada.
Palavras-chave: Militarismo; Militarização; Estados Unidos da América.
ABSTRACT
This article aims to discuss the phenomena of militarism and militarization in
the sociopolitical context of the United States of America (USA), analyzing
its domestic and external manifestations historically. We argue that despite
the dominance of traditional interpretations that associate the country and its
social organization, grounded in liberal values, with a balanced model of civ
il-military relations, the historical processes involving the growing military
influence in domestic and international realms reveal a more complex reality.
In this context, liberalism does not present itself as an antithesis to the per
petuation of militarism and militarization but rather as its complement and
legitimation source. To articulate these connections, the article proposes re
visiting the conceptual discussion on militarism and the typology of “liberal
militarism” as a way to characterize the US case. Methodologically, the anal
ysis will be conducted through qualitative instruments, including document
analysis and literature review.
Keywords: Militarism; Militarization; United States of America.
Recebido em 27/08/2023. Aceito para publicação em 04/12/2023.
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NOTAS
1. O artigo é resultado da tese de doutorado, intitulada como “O Departamento
de Defesa e a militarização da política externa estadunidense de Bush a Obama
(2001-2017)”, desenvolvida com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado de São Paulo (Fapesp).
2. De acordo com Motta (2018), a teoria da securitização foi proposta nos anos
1990 pela Escola de Copenhague, através de expoentes como Barry Buzan e
Lene Hansen. A securitização, em sua definição mais básica, se fundamenta
como um movimento discursivo, que tem por objetivo a representação de uma
ameaça a um determinado objeto de referência, o levando para além do campo
da política e adentrando ao campo das medidas excepcionais.
3. Para esta síntese nos baseamos nas reflexões de Mathias (2003); Ross (1987);
Kinsella (2013); Kienserchef (2013); Shaw (2013); Adams e Murray (2014);
Levy (2016). O artigo das autoras CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO.
Confira o Estatuto do Desarmaneto. No Site Oficial da Presidencia de República.
Ainda tivemos um certo Jair Bolsonaro querendo armar as pessoas no Brasil.............
O Velho Oeste americano, também conhecido como Fronteira Americana ou Faroeste, foi o período de expansão territorial e cultural dos Estados Unidos em direção ao Oceano Pacífico, ocorrendo intensamente durante a segunda metade do século 19 . Impulsionado pelo ideal do Destino Manifesto e por incentivos governamentais, esse momento moldou a identidade americana, equilibrando-se entre o rápido avanço econômico e um histórico de violência profunda.
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E assim caminha a humanidade.
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