sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Velho Oeste.


A cultura armamentista nos Estados Unidos é um fenômeno único no mundo desenvolvido, profundamente enraizado na identidade nacional, na história e no ordenamento jurídico do país. Os EUA são a única nação com mais armas de fogo em mãos de civis do que habitantes, registrando uma média estimada de 120,5 armas para cada 100 residentes.

Esta relação complexa é sustentada por três pilares principais:

1. Origem Histórica e a Segunda Emenda

Desde o período colonial e a Guerra de Independência, o armamento civil foi visto como um símbolo de liberdade individual, autodefesa e resistência contra a opressão estatal. Essa mentalidade foi formalizada em 1791 pela Segunda Emenda à Constituição dos EUA, que protege o direito do povo de possuir e portar armas. A Suprema Corte do país tem reiterado que esse direito se aplica à autodefesa individual no âmbito privado.

God bless our men in uniform: militarização  

e militarismo nos Estados Unidos da América1

God bless our men in uniform: militarization  

and militarism in the United States of America

Rev. Bras. Est. Def. v. 10, n. 2, jul./dez. 2023, p. 245–268 

DOI: 10.26792/RBED.v10n2.2023.75374  

ISSN 2358-3932

CLARISSA FORNER

1 

CRISTINA SOREANU PECEQUILO

2

INTRODUÇÃO

O farewell address proferido pelos presidentes dos Estados Unidos da 

América (EUA) ao fim de cada administração é um dos momentos mais 

simbólicos na política estadunidense. Dentre os desafios enunciados, his

toricamente, a guerra e a administração do aparato militar tornaram-se 

um tema recorrente. George Washington, por exemplo, já apontava os pe

rigos decorrentes da manutenção de grandes estruturas militares para a 

preservação da liberdade e do governo republicano: “[...] elas [as regiões 

do país] evitarão a necessidade daqueles enormes aparatos militares que, 

sob qualquer forma de governo, são desfavoráveis à liberdade, e devem ser 

1

Clarissa Forner é doutora em Relações Internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas (Unesp

Unicamp-PUC/SP). Professora de Relações Internacionais na Universidade São Judas Tadeu (USJT) e 

no Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Professora convidada no cur

so de Pós-Graduação em Política e Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política 

de São Paulo (FESPSP). Pesquisadora do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional 

(Gedes), do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos 

(INCT/INEU) e do Grupo de Pesquisa em Política, Economia,Cultura e Relações Internacionais da 

Universidade São Judas Tadeu. Contribuiu no artigo com a sistematização do debate conceitual sobre 

militarismo e militarização ecom a discussão sobre o caso dos EUA. orcid.org/0000-0001-5142-5787. 

E-mail: clarissaforner@gmail.com. 

2

Cristina Soreanu Pecequilo é professora livre-docente em Política Internacional pela Unifesp, 

Mestre e Doutora em Ciência Política pela USP. Professora de Relações Internacionais da Unifesp e 

dos Programas de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas Unesp/Unicamp/

PUC-SP e em Economia Política Internacional da UFRJ. Pesquisadora do Nerint/UFRGS e do 

CNPq (Processo nº. 307010/2021-0). Contribuiu no artigo com a definição da estrutura e recor

te temático, edição e redação do artigo em co-autoria. orcid.org/0000-0003-1617-186X. E-mail: 

crispece@gmail.com.

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RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023

vistos como particularmente hostis à liberdade republicana.” (Washington, 

1796, tradução nossa). 

Receios similares foram verbalizados por Dwight Eisenhower (1953

1961), com o país alçado à condição de potência econômica e militar da 

Guerra Fria (1947-1989). Eisenhower encontrava-se em uma realidade na 

qual os gastos em defesa totalizavam quase 70% do orçamento federal e 

10% do Produto Interno Bruto (PIB). Suas preocupações se destinavam à 

ampliação das tropas e ao crescimento do “complexo industrial militar”, a 

associação entre o aparato militar e as elites econômicas, responsáveis pelo 

incremento da produção de armamentos. Afirmava Eisenhower:

Até o último de nossos conflitos mundiais, os Estados Unidos não 

tinham nenhuma indústria de armamentos [...] Mas agora nós não 

podemos mais arriscar a improvisação de emergência da defesa na

cional; nós fomos compelidos a criar uma indústria permanente de 

armamentos de vastas proporções. Somado a isso, três milhões e meio 

de homens e mulheres estão diretamente comprometidos com o esta

blishment de defesa. Nós gastamos mais com segurança militar anual

mente do que a renda líquida de todas as corporações dos Estados 

Unidos. Essa conjunção de um imenso aparato militar e uma grande 

indústria de armamentos é nova na experiência americana. A influên

cia total- econômica, política, mesmo espiritual — é sentida em cada 

cidade, cada estado, cada casa, cada gabinete do governo federal. Nós 

reconhecemos a imperativa necessidade desse desenvolvimento. No 

entanto, não podemos deixar de compreender suas graves implica

ções [...] nós temos que nos resguardar contra a aquisição da injus

tificada influência, seja intencional ou não, do complexo industrial 

militar. (Eisenhower 1961, tradução nossa).

Durante sua formação, os EUA esboçaram um comportamento que re

fletia as palavras de Washington: avesso à manutenção de grandes contin

gentes militares e tropas profissionais. Parte significativa das atividades 

de defesa era relegada a milícias locais, compostas por cidadãos que não 

tinham na guerra sua ocupação principal. A Guerra de Secessão (1861

1865), travada entre o norte manufatureiro e o sul escravocrata foi um dos 

eventos que, já no século XIX, começou a alterar essa disposição, eviden

ciando a necessidade de um exército regular. Porém, o maior incremento 

de forças aconteceu após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), marco 

da ascensão hegemônica. Para Bacevich (2005), os crescentes gastos mili

tares e inovações tecnológicas, como o desenvolvimento da bomba atômica, 

incutiram a percepção interna de que, no campo militar, os EUA haviam 

desenvolvido uma expertise única. 

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CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO

Em 1949, foi oficializada a criação do Departamento de Defesa (DoD), 

unificando os departamentos das forças armadas e centralizando suas ati

vidades sob a coordenação do gabinete do Secretário de Defesa, dotado 

de status ministerial. O Pentágono, como ficou conhecido o departamento, 

devido ao formato do edifício que o abriga, tornou-se a maior burocracia 

do establishment político, captando as mais vultosas somas do orçamento 

federal. 

Além de se tornar o principal canal formal de comunicação das forças 

armadas com o sistema político, o DoD ampliou seu acesso à sociedade 

civil, por meio de parcerias no setor de inovação com indústrias de arma

mentos e universidades, consolidando a estrutura doméstica do complexo 

industrial militar. A capilaridade do referido complexo ainda alcançou a 

esfera cultural, a partir do estabelecimento de parcerias entre o DoD e a 

indústria cinematográfica e de propaganda, de forma a ampliar a difusão 

social dos valores e ideias militares, por meio do reforço às referências 

imagéticas de patriotismo, que corroboram para o aprofundamento do mi

litarismo na sociedade estadunidense. 

Essa configuração contribuiu, em última instância, para a maior parti

cipação da burocracia de defesa na esfera decisória da política doméstica e 

na implementação da agenda de política externa. Neste segundo campo, 

sua presença se tornou ainda mais relevante a partir da década de 1990, 

em decorrência da combinação entre a maior diversificação das formas de 

emprego das forças armadas — incluindo atividades humanitárias, law en

forcement e cooperação em segurança — e os sucessivos ciclos de cortes 

orçamentários experimentados pelas agências civis responsáveis pela re

presentação diplomática como o Departamento de Estado (DoS). 

Conforme apontado por Kienscherf (2013), no ato da passagem da Lei 

de Segurança Nacional de 1947, que constituiu as principais agências do 

aparato federal estadunidense, incluindo o DoD e o Conselho de Segurança 

Nacional, a “segurança nacional” substituiu o conceito tradicional de “de

fesa”, possibilitando um entendimento semântico mais abrangente, assen

tado na coordenação civil e militar. 

Esta alteração tornou a mobilização militar permanente e sem prece

dentes mais aceitável do ponto de vista das tradições estadunidenses de re

jeição a grandes exércitos, posto que “defesa” evocava a guerra e a proteção 

contra ameaças externas, enquanto “segurança” era um conceito aplicado 

à garantia da ordem interna. A inversão simbolizou a externalização, para 

o sistema internacional, da busca pela ordem vigente no âmbito doméstico 

e a internalização da lógica externa de preparação para a guerra. A segu

rança nacional se converteu no princípio organizador de diversas políticas 

públicas, incluindo a política exterior e a política de defesa. 

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RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023

Desde então, as temáticas da militarização e do militarismo se tornaram 

frequentes nas discussões sobre a constituição do sistema burocrático dos 

EUA. Todavia, o emprego de ambos os termos precisa ser aprofundado, 

assim como sua relação com o ideário liberal estadunidense, cuja influência 

tem feito com que o país seja frequentemente apresentado como um mode

lo bem-sucedido pela literatura tradicional sobre relações civil-militares, a 

despeito das evidências históricas que indicam a ampliação do impacto po

lítico-decisório e social do crescimento do aparato militar (Bacevich 2007). 

Portanto, o objetivo deste artigo é desenvolver a ideia de que não há 

uma contradição entre o liberalismo e o processo de militarização nos 

EUA, mas sim, uma complementaridade. Para promover esta discussão, 

a metodologia sustenta-se em uma análise qualitativa, baseada na litera

tura especializada e em documentos oficiais. Além desta introdução, e das 

considerações finais, o artigo se encontra dividido em duas partes: a apre

sentação dos conceitos de militarismo e militarização e o debate sobre o 

“militarismo liberal” nos EUA. 

MILITARISMO E MILITARIZAÇÃO: UM DEBATE CONCEITUAL

O emprego dos conceitos de “militarização” e “militarismo” suscita con

trovérsias que levam à ausência de consenso, à banalização ou ao excesso 

de uso dos vocábulos. Uma das possíveis explicações para esse fenômeno 

talvez seja a permanente relevância dos efeitos da estrutura militar sobre 

as sociedades. A despeito das transformações históricas e dos diferentes 

formatos assumidos pela organização militar, ela continua a representar 

um dos pilares do Estado moderno. A atualidade e pertinência destes con

ceitos se justifica pelas possibilidades de ampliação do entendimento sobre 

as dinâmicas do poder militar, não só na guerra, mas principalmente na 

paz. Além disso, os estudos sobre militarização e militarismo são interdis

ciplinares envolvendo áreas como a estratégia, as relações civis militares, a 

economia política e as relações internacionais. 

De maneira genérica, compreendemos “militarismo” como o conjunto 

de ideias e comportamentos, que culminam na maior valorização de ele

mentos militares em sociedade e/ ou no aumento à predisposição ao confli

to, mediante a normalização da mobilização constante para a guerra (Enloe 

2014; Lisón 2007; Mann 1987; Pion-Berlin 2018; Vagts 1937). A “militari

zação”, por seu turno, consiste no processo de fixação dos comportamen

tos e ideais militaristas na estrutura social, por meio da penetração desses 

últimos na organização das relações em sociedade, instituições ou políticas 

públicas. O conceito de militarização também costuma ser utilizado para 

designar a dimensão material do aumento das funções e cargos desempe

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CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO

nhados por militares e do military build-up (Kinsella 2013; Mathias 2003; 

Ross 1987). 

Os resultados do processo de militarização podem gerar o aumento da 

influência e do poder dos setores militares na sociedade civil, em detrimen

to das parcelas não militares (Kinsella 2013). Por outro lado, a maior parte 

das análises admite que os processos de militarização e de intensificação 

de comportamentos militaristas não necessariamente decorrem da parti

cipação de militares no sistema político, ou de contextos de desequilíbrio 

do controle civil. É possível que tais processos sejam impulsionados por 

meio da iniciativa civil, mesmo quando se observa o aumento das funções 

ocupadas por militares ou militares aposentados (Bloomfield 1974; Levy 

2016; Mathias 2003). Outro ponto é que podem ser identificados diferen

tes graus de militarização e/ ou militarismo, variando de acordo com os 

contextos históricos.

Assim, é preciso compreender a evolução destes estudos. As primei

ras tentativas de elaboração conceitual imputavam ao militarismo e à mi

litarização uma carga pejorativa. Principalmente nas sociedades liberais, 

o militarismo foi associado à expansão dos poderes da cúpula militar, a 

partir do incremento de sua autoridade em relação às classes políticas. O 

fenômeno funcionava, nas palavras de Thee (1977), como um “corolário de 

comando e privilégio”, que, mediante o aumento da influência militar em 

sociedade, tendia a favorecer a predisposição ao conflito e ao expansionis

mo territorial. O militarismo também servia como veículo explicativo das 

disputas de poder e do imperialismo europeu, nos séculos XVIII e XIX. 

A militarização, por seu turno, representava uma extensão do militarismo, 

incrementando a influência militar sobre as esferas civis, notadamente na 

organização social e na economia. 

Em uma das primeiras formulações teóricas sobre o tema, Vagts (1937) 

expunha essas possibilidades, apontando a existência de uma “via militar” e 

outra “via militarista”. A “via militar” se relacionava ao entendimento mo

derno mais tradicional do aparato militar, enquanto meio para a realização 

de um fim político. Por outro lado, a “via militarista” era o comportamento 

que implicaria a subversão da concepção mais comedida, tornando o poder 

militar um fim em si mesmo. 

Quando do início da Guerra Fria, o emprego dos termos sofreu novos 

alargamentos a fim de mapear os efeitos da corrida armamentista sobre as 

potências estadunidense e soviética e a ascensão de regimes militares nos 

chamados países de “Terceiro Mundo”. Incrementou-se o interesse pelo 

aspecto sistêmico da militarização e sua imbricação com a economia ca

pitalista. A percepção mais comum era de que o militarismo no conflito 

bipolar se diferenciava daquele vigente em outras épocas, devido ao seu 

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alcance global, perpetuado por meio das relações de dependência econômi

ca e a difusão de tecnologias militares para países subdesenvolvidos, como 

extensão dos conflitos travados entre as grandes potências (Thee 1977). 

Na metade do século XX, predominavam dois entendimentos de mili

tarismo, categorizados por Grizold (2000) como uma corrente “realista/

liberal” e outra “marxista”. No primeiro caso, o militarismo é compreendi

do como fruto dos processos de fortalecimento do poder militar em relação 

à autoridade civil do Estado e de desequilíbrios na estrutura das relações 

civis militares. Os grupos militaristas maximizam seus interesses e obje

tivos na esfera decisória, mediante o incentivo ao emprego frequente do 

instrumento militar. A possível correção do militarismo exigiria o reforço 

das instituições de controle civil objetivo e o aumento da supervisão aos 

grupos que esboçassem comportamentos militaristas em sociedade. 

As contribuições marxistas assumem um caráter mais complexo, bus

cando a explicação das raízes do fenômeno militarista na estrutura da so

ciedade de classes e nos movimentos de expansão do capital. O militarismo 

é encarado por essa vertente como um instrumento de poder das oligar

quias, as quais se utilizam do mecanismo militar para perpetuar seu domí

nio e ganhos econômicos doméstica e internacionalmente. A militarização 

corresponde ao incremento da mobilização para a guerra e à penetração 

de valores militares na organização da estrutura social, por meio de sua 

reprodução em instituições de ensino, política, mídia entre outras. A di

fusão do militarismo contribui para a perpetuação de múltiplas formas de 

dominação, inclusive na seara econômica (Grizold 2000). 

O foco na economia foi condizente com o período da década de 1970, 

caracterizado por eventos como a distensão EUA e URSS. Difundiram

se as teorias sobre o aumento da interdependência entre os Estados e a 

multiplicação dos atores internacionais (Keohane 1984), que contribuiriam 

para a redução da necessidade do poder militar. Na academia e sociedade 

estadunidenses, esse processo foi “temperado” pela ascensão de movimen

tos antimilitaristas devido à Guerra do Vietnã. A pauta da militarização, 

assim, foi rechaçada, sob a perspectiva de que seu estudo implicava o incen

tivo e a aproximação aos valores militaristas.

A chegada de Ronald Reagan (1981-1987) à presidência, com uma cam

panha focada na revitalização do aparato militar e no “reaquecimento” da 

Guerra Fria resultaram na retomada da corrida armamentista e dos deba

tes sobre a militarização e o militarismo. Se, em um primeiro momento, as 

maiores fontes de contribuições para o campo haviam se concentrado nos 

estudos sobre relações civis militares e na economia política, nessa nova 

fase, os principais avanços vieram da sociologia histórica e das perspectivas 

feministas. A despeito de suas diferentes ênfases, a abordagem sociológica 

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CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO

e as correntes feministas promoveram a maior inserção do debate sobre as 

bases e impactos sociais dos fenômenos da militarização e do militarismo, o 

que significava uma mudança do foco conferido à dimensão governamental 

pelas análises tradicionais. 

Em 1987, na revista New Left Review, Michael Mann, um dos expoen

tes da vertente sociológica, apontava que: “Defino militarismo como um 

conjunto de atitudes e práticas sociais que consideram a guerra ou a pre

paração para ela como uma atividade social normal e desejável”. (Mann 

1987, 35, tradução nossa). Além do destaque à mobilização social belicosa 

permanente, o autor também teceu considerações acerca da relação en

tre a população estadunidense e a guerra. Em sua avaliação, a socieda

de estadunidense mantinha uma relação frouxa com seus exércitos, ainda 

mais enfraquecida após o fracasso no Vietnã. Parte significativa da esfera 

nacional mantinha-se informada sobre a guerra em territórios distantes, 

conservando o apoio à presença militar global, mas este suporte possuía 

um caráter frágil e superficial, avesso a casualidades. De acordo com Mann 

(1987), com essa configuração o uso da força se tornava uma atividade para 

consumo doméstico, quase como entretenimento televisivo, justificando o 

emprego do termo “guerra como esporte de espectador”. 

Por outro lado, as perspectivas feministas compreendem o militarismo 

como expressão de uma sociedade organizada em torno do ideal de mascu

linidade heterossexual, que supervaloriza o culto à violência, o uso da força 

e, consequentemente, a atividade militar. Como avalia Basham (2018), a 

normalização das práticas militaristas provoca a concentração dos recur

sos estatais no setor militar, em detrimento do investimento em programas 

sociais responsáveis pela diminuição da vulnerabilidade dos grupos mar

ginalizados.

Procurando estabelecer definições aos conceitos de militarismo e mili

tarização que abarcassem essas lógicas, Enloe (2014) afirma que o milita

rismo representa um “pacote de ideias”, que culminaria na sobrevaloriza

ção do elemento militar em sociedade e no estabelecimento de “modelos” 

de Estado, a partir delas. As ideias básicas seriam as seguintes:

a) que a força armada é a solução última das tensões; que a nature

za humana é propensa ao conflito; c) que ter inimigos é uma condição 

natural; d) que relações hierárquicas produzem a ação efetiva; d) que 

um Estado sem exército é indefeso, pouco moderno e pouco legíti

mo; f) que, em tempos de crise, aquelas (es) que são femininas (os) 

precisam de proteção armada; e g) que, em tempos de crise, qualquer 

homem que se recuse a se engajar na ação violenta armada está com

prometendo seu próprio status como um homem masculino. (Enloe 

2014, 7, tradução nossa).

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RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023

A militarização, por sua vez, é definida como:

[…] um processo sociopolítico. Militarização é o processo mul

tidimensional através do qual as raízes do militarismo são cultivadas 

no solo da sociedade — ou de uma organização não governamen

tal, um departamento de governo, um grupo étnico ou uma agência 

internacional. Não existe nada de automático ou inevitável sobre o 

processo de militarização. A militarização pode ser parada pela ex

posição, crítica e resistência em suas fases iniciais; ocasionalmente 

pode ser revertida. Ela também pode, de todo modo, ser impulsionada 

depois de anos de aparente estagnação. A maior parte dos processos 

de militarização ocorre durante o que é erroneamente rotulado como 

‘tempo de paz’. (Enloe 2014, 7, tradução nossa).

Em decorrência dessas contribuições, parte significativa da literatu

ra mais recente sobre militarismo e militarização tem se debruçado so

bre a compreensão dos impactos desses fenômenos sobre a vida cotidia

na (Basham 2018; Bernazzolli and Flint 2009; Lutz 2002). O argumento 

central é de que a ênfase na guerra ou na militarização construída sobre 

“macro narrativas” faz prevalecer um entendimento top down a seu respei

to, que não contempla o papel das relações e práticas diárias na reprodução 

desses processos. 

Outra vertente de análise dos fenômenos de militarização e militarismo 

aborda o debate sobre a produção e aquisição de armamentos. A militari

zação e o militarismo são fenômenos que se relacionam, mas não podem 

ser tratados como sinônimos, ou detentores de uma relação causal imediata 

(Kinsella 2013). Ilustrando essa questão, Ross (1987) argumentava que a 

militarização pode ser entendida em duas dimensões: 

a) militarização como um processo através do qual o Estado se torna 

militarmente mais equipado, favorecendo a adoção de posturas conflitivas 

e militaristas em relação a outros Estados. Nesse caso, a militarização se 

equacionaria ao militarismo; 

b) militarização como military build-up, ou seja, a aquisição de armamen

tos, aumento dos orçamentos militares e do tamanho das forças armadas 

que podem culminar no incremento do setor militar em relação ao civil, 

ou no aumento da influência política militar, mas que não necessariamente 

incorrem na assimilação de comportamentos militaristas e propensos ao 

uso da força. 

A proposta de diferenciação se fundamenta na percepção de que as cone

xões entre os processos de military build-up e o militarismo são mais com

plexas do que lineares e tendem a variar. Analisando países de “Terceiro 

Mundo”, Ross (1987) pontuava que a associação imediata do incremento 

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CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO

material do poderio militar ao militarismo parecia pressupor a existência 

de um “ponto ótimo” normativo que, quando ultrapassado, se configuraria 

como representativo de um processo de militarização. A “quantidade ideal” 

é um critério subjetivo e não diz muito sobre o comportamento da socie

dade em relação ao setor militar, ou à guerra. Ainda que o military build-up 

pudesse ser convertido em militarismo, não se tratava de uma tendência 

universal (Kinsella 2013). 

No que se refere ao estudo do caso estadunidense, opta-se pelo enten

dimento de militarização como um processo que se conecta à adoção de 

comportamentos internacionais e domésticos mais propensos ao militaris

mo. O military build-up funciona como um dos alicerces e instrumentos do 

processo, mas não é o único, posto que a difusão da militarização em socie

dade se relaciona à dimensão ideacional e institucional de penetração das 

estruturas e relações sociais pelas dinâmicas observadas na esfera militar. 

Privilegia-se uma compreensão mais ampla do fenômeno do militaris

mo, não o restringindo à guerra ou à predisposição ao conflito. Todos os 

elementos aqui incorporados perfazem feições complementares do milita

rismo, que podem ou não se manifestar simultaneamente. Essas últimas 

são resumidas por Pion-Berlin (2018) como sendo: a) militarismo como 

ideal social, ou a valorização de ideias e comportamentos militares na vida 

política; b) militarismo como o aumento da presença militar e de sua in

fluência sobre o governo; c) militarismo como emprego da força. 

Lisón (2007) pontua que o militarismo não exige, necessariamente, a 

participação militar nas esferas de comando. Ele pode se manifestar co

mo uma influência indireta do setor fardado em sociedade, reforçando a 

hipótese de que o militarismo seja promovido a partir da esfera civil e 

de maneira independente quanto aos graus de autonomia militar sobre 

os processos de decisão. Não é preciso que os militares tomem parte nas 

formulações decisórias para que o militarismo se verifique, embora estru

turas sociais militarizadas tendam a ampliar a projeção da elite fardada no 

cenário político. 

Por esse motivo, há que se diferenciar o controle civil sobre os militares 

do controle civil sobre a militarização (Levy 2016). O primeiro se refere ao 

controle e à subordinação do poder militar em relação à autoridade civil, 

tal qual proposto pelas teorias do controle civil debatidas. O controle sobre 

a militarização, por sua vez, requer a supervisão das instituições — civis e 

militares — que legitimam o emprego da força como atividade socialmente 

normalizada (Quadro 1).

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RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023

Quadro 1 

Comparando modos de controle

Controle sobre os militares Controle sobre a militarização

Foco

Objetivo

Como funciona

Foco na organização militar: 

aspectos operacionais da 

organização militar e suas 

implicações políticas

Limitação da autonomia civil 

para acionar os militares

Foco na cultura política: 

legitimação do uso da força

Submeter o uso da força ao 

processo deliberativo sobre a 

legitimidade do emprego

Mecanismos institucionais que 

afetam os atores e as decisões

Dimensão de poder Dimensão institucional

Fonte: Adaptado de Levy (2016, 11).

Debates públicos afetando a 

cultura política sobre o emprego 

da força militar

Dimensão social

As duas formas de controle identificadas não se apresentam simultanea

mente e em mesmo grau. Altos níveis de controle civil não significam altos 

índices de controle sobre a militarização, e vice-versa. Os EUA têm sido 

apresentados por parte significativa da literatura sobre o tema (Bloomfield 

1974; Downes 2010; Janowitz 1960) como representativos de um “mili

tarismo não intencional”, cujo gatilho seria, sobretudo, civil. A realização 

frequente de intervenções por decisão das classes políticas e, quase sempre, 

à revelia dos setores militares avessos à guerra teria incrementado a de

pendência da política externa em relação ao instrumento militar, conforme 

esse último tornara-se mais equipado e financiado que os instrumentos 

civis. Os militares teriam assumido mais funções e atribuições by default, 

e não intencionalmente. Portanto, os EUA se encaixariam, a priori, nos 

exemplos de coexistência entre um alto controle civil e baixo controle so

bre a militarização. 

Por outro lado, depois da Segunda Guerra Mundial, o setor militar as

sumiu um papel fundamental no processo de tomada de decisões, princi

palmente no campo internacional. No eixo doméstico, a consolidação do 

Pentágono enquanto vetor de planejamento da política industrial de defesa 

conferiu à essa burocracia um caráter quase autárquico em relação às de

mais agências do governo federal e às empresas do setor privado (Hooks 

1990) que, em graus variados, estabeleceram relações de dependência eco

nômica e financeira com o setor militar. 

À medida que os militares ampliam seus recursos e margem de in

fluência sobre as etapas do processo de decisão, desde a formulação até 

254

CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO

sua implementação, as forças armadas e a burocracia militar se tornam 

não apenas receptáculos passivos de comandos e decisões, mas atores, com 

capacidades autônomas. A ideia da não intencionalidade também deve ser 

contestada, sob a justificativa de que seu emprego anula a responsabilidade 

política sobre as escolhas que, reiteradas ao longo do tempo, contribuem 

para tornar o aparato militar o instrumento burocrático mais responsivo 

e capacitado que as opções de resposta civis, em contextos de emergência. 

A configuração militarizada das estruturas domésticas favoreceu, em 

última instância, a adoção de um viés militarista na política exterior, mani

festo pela tendência de injeção do planejamento e dos instrumentos milita

res nas ações externas do país (Milner and Tingley 2015), ou pela percep

ção da realidade internacional predominantemente em termos militares. 

Cabe, portanto, compreender, nos EUA, o amálgama produzido entre libe

ralismo e violência. Assim, é válido avançar nas avaliações da tipologia do 

chamado “militarismo liberal”.

O MILITARISMO LIBERAL E O CASO ESTADUNIDENSE

A proposição de uma categoria de análise específica para a compreensão 

da relação entre a violência, o aparato militar e as sociedades liberais pa

rece uma extrapolação do conceito de militarismo. Entretanto, esta busca 

pode ser compreendida sob a luz da evolução recente do campo de estudos 

de segurança internacional, no pós-Guerra Fria que parecia inaugurar um 

ciclo virtuoso no sistema internacional, no qual a relevância das temáticas 

militares seria reduzida. 

Não que isso significasse uma mudança efetiva do modus operandi es

tratégico da potência estadunidense: no plano concreto, o aparato militar 

continuava a investir maciçamente na produção de novas tecnologias cada 

vez mais sofisticadas, visando a superioridade máxima via Revolução nos 

Assuntos Militares (RAM). Documentos estratégicos publicados tanto pe

la presidência quanto pelos setores burocráticos sinalizavam as possíveis 

fontes das “novas ameaças”, na ausência do inimigo soviético. Acreditava

se que os conflitos se deslocariam do plano global para o regional e assu

miriam um formato cada vez menos estatizado, impondo a necessidade de 

reformatação das forças militares para a atuação em operações de manu

tenção e construção da paz (US Department of Defense 1992).

Os estudos de segurança internacional foram influenciados por es

sas lógicas. Correntes como a tradição da securitização, inaugurada pela 

Escola de Copenhague,2 e os estudos críticos de segurança internacional 

propunham o alargamento do escopo analítico do campo: as ameaças e os 

objetos da segurança se tornariam multidimensionais, e não só militares e/

255

RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023

ou estado-cêntricos, ressignificando os termos de segurança, como “segu

rança humana”, “segurança ambiental”, entre outras. Stavrianakis e Stern 

(2018) argumentam que esta ênfase, em detrimento da temática militar, 

representou a negligência e a rejeição aos estudos sobre militarismo. A 

guerra e a militarização eram restritas à violência cometida pela entidade 

estatal, obscurecendo outras possíveis formas de violência dentro do corpo 

social. 

Quando abordados pelas vertentes críticas, os conceitos apareciam qua

se sempre atrelados à securitização. As respostas militarizadas poderiam 

ser articuladas como instrumento de restabelecimento da segurança, sendo 

incorporadas ao eixo da excepcionalidade, portanto. Segundo Bernazzoli 

e Flint (2009), o emprego do termo “securitização” em detrimento da “mi

litarização” era preferível, na medida em que a securitização identificava 

violências para além da força militar e desmitificava o que supostos “falsos 

binarismos” inerentes ao conceito de militarização.

A asserção de que determinado campo ou política tornaram-se militari

zados pressupunha o reforço às distinções que funcionavam como catego

rias analíticas, mas não se realizavam na prática, como a separação entre a 

sociedade e o aparato militar, entre doméstico e internacional, entre guerra 

e paz etc. Tais dicotomias eram agravadas pelo uso das definições de mi

litarismo e militarização que, embora pudessem incluir quaisquer formas 

de violência organizada, sua origem ainda recaía sobre a primazia do vetor 

militar (Bernazzoli and Flint 2009). 

Ainda que o debate sobre o tratamento da realidade em termos biná

rios seja interessante, a adoção dos termos securitização e militarismo co

mo intercambiáveis acarreta perdas analíticas. Stavrianakis e Stern (2018) 

apontam para o fato de a ênfase na segurança obscurecer as especificidades 

do estudo do poder militar e, principalmente, do impacto da violência, da 

guerra — em sua preparação e execução — sobre a sociedade. Para as 

autoras, os conceitos de militarismo e militarização poderiam ser utiliza

dos de maneira crítica, questionando os usos e efeitos da dimensão militar 

sobre as instituições sociais. 

A securitização, como observado, faz referência ao elemento militar sob 

a ótica da excepcionalidade. O estudo da militarização procura identificar 

o que é perene em sociedade: a influência da violência e da instituição mi

litar, de forma mais restrita, sobre as relações sociais, tanto em contextos 

de ameaça direta, quanto fora deles. Embora os dois fenômenos possam se 

sobrepor e conectar (Stavrianakis and Stern 2018) não designam os mes

mos processos.

Por fim, a insistência sobre o estudo da militarização, em detrimento 

da abordagem securitária funciona, na concepção de Stavrianakis e Stern 

256

CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO

(2018), como um mecanismo de rompimento com o viés eurocêntrico das 

perspectivas de segurança. A retirada do foco das questões militares e da 

violência revela, tão somente, a apreensão europeia — e, adicionemos, an

glo-saxã — dos conflitos internacionais, sobretudo quando travados em 

regiões periféricas. A ênfase na segurança em detrimento da violência tam

bém remonta aos esforços de redução de impacto da atuação de grandes 

potências em regiões de periferia.

Os estudos mais recentes sobre o militarismo sob o “guarda-chuva” dos 

Estudos Críticos Militares, com maior projeção nos anos 1990, dedicam-se 

a recuperar a relevância do conceito. Seu foco reside no aprofundamen

to do debate sobre como as sociedades se relacionam com o fenômeno da 

violência organizada, seja em sua forma puramente militar, ou não. Esse 

tipo de abordagem permite extrapolar as limitações impostas pelo foco 

na entidade estatal dos estudos tradicionais, embora, como argumentado 

por Stavrianakis e Stern (2018), essa última não possa ser desconsiderada, 

posto que o Estado conserva sua relevância.

Um dos frutos das referidas “novas abordagens” foi a formulação do 

conceito de “militarismo liberal”. Suas origens remontam a Edgerton 

(1991), que concebeu a tipologia a partir da observação do “modo britânico 

de fazer a guerra”. Esse tipo de militarismo pode ser resumido nas se

guintes características: aversão a grandes exércitos e à conscrição militar; 

profissionalização das forças armadas; alto investimento tecnológico, com 

ênfase no setor de capital intensivo; atrelamento do uso da força militar à 

uma visão universalista sobre a ordem mundial. 

O emprego do termo “militarismo liberal” se diferencia das abordagens 

que elencam as especificidades da “guerra liberal” (Mabee 2016), por cons

truir explicações a partir da guerra e da ligação entre as instituições da 

violência e a sociedade, suas formas de interação e legitimação. A impor

tância da legitimação é reforçada por Joana e Mérand (2014), para quem o 

militarismo liberal representa:

Mais do que o uso excepcional da força no nível internacional, 

ou uma exaltação dos oficiais militares dentro da sociedade, a noção 

de militarismo liberal denota aqui as representações sociais inscritas 

pelos atores políticos e sociais à política de defesa em democracias 

liberais. (Joana and Mérand 2014, 1, tradução nossa).

Tais proposições não pressupõem a imputação de uma análise valora

tiva ou comparativa entre as sociedades liberais e aquelas ditas “não libe

rais”. Trata-se do recurso a um “tipo-ideal” com o intuito de mapear o que 

é específico aos contextos liberais — caracterizados, historicamente, pela 

rejeição aos exércitos de larga escala, a separação formal entre as esferas 

257

RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023

civil e militar e a promoção da economia de livre mercado — a fim de des

mistificar a premissa de que o militarismo é uma característica exclusiva 

das sociedades autoritárias. Porém, este é um modelo que reproduz o que 

já é verificável dentro da distinção “liberal” versus “não liberal”. 

Perspectivas como as de Mabee (2016) e Basham (2018) oferecem ca

minhos mais críticos. A democracia surge muito mais como um instru

mento de legitimação da violência nas sociedades liberais, do que como 

uma característica perene e inerente. Fazendo ecos à abordagem feminista, 

os autores demonstram as distorções provocadas pelo militarismo nessas 

sociedades, especialmente em se tratando da criação de espaços de exclusão 

de minorias, desigualdade e aumento da sensação da insegurança. 

Stavrianakis (2016) pontua que o arcabouço ideológico do militarismo 

liberal funciona como um mecanismo de acobertamento de atividades ar

bitrárias ou irregulares por parte de potências liberais. Para a autora, o 

militarismo liberal legitima-se por meio da construção de binarismos en

tre “democracia versus autoritarismo”; “civilização versus barbárie”; “guerra 

versus paz”, entre outros.

Fatores chave da especificidade do militarismo liberal incluem: o 

caráter capitalista e tecnológico-intensivo da preparação e condução 

da guerra; um forte comprometimento com a produção militar du

rante a guerra e a paz e um auto entendimento como poder prima

riamente “econômico, industrial e comercial”; a forma distanciada de 

ataques sobre populações do Sul e a simultânea contenção de conflitos 

sociais internamente e o policiamento do império externamente, nor

malmente acompanhados de supostamente “pequenos” massacres”; 

uma ideologia universalista e concepção de ordem mundial; baixos 

níveis de participação militar da sociedade; uma relação Estado

capital que é formalmente separada, mas organicamente interligada. 

Justificativas baseadas em valores e critérios morais, promovendo di

reitos humanos e humanitários, centrais para legitimar essas feições 

do militarismo liberal, e que contrastam com as justificativas basea

das na soberania de grandes fornecedores e recipientes “não liberais”, 

como Rússia, China e Índia. (Stavrianakis 2016, 845, tradução nossa). 

A construção de tais dicotomias estabelece uma polarização, que con

cebe, do ponto de vista da nação, a existência de um “nós” liberal, em opo

sição a um “eles” não liberal, que representa uma ameaça à existência e 

funcionamento da ordem liberal (Desch 2009). As únicas possibilidades de 

interação com o “outro” tornam-se, necessariamente, a eliminação total, ou 

a assimilação e reconstrução, a partir de sua adequação aos parâmetros po

líticos e econômicos do liberalismo. A segunda implicação é que por meio 

do discurso dicotômico se reforça a associação entre o liberalismo e a paz/

258

CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO

estabilidade. A guerra e a violência são tratadas como rupturas e excepcio

nalidades, e não parte da ordem. 

Para Neocleous (2010), a construção da ordem internacional liberal e 

da ideia de “paz liberal” se assentam no escamoteamento de estruturas que 

propagam e reproduzem a violência. A violência se constitui, não como 

uma ruptura da paz e da ordem, mas como parte do funcionamento dessa 

última, uma vez que a difusão de seus princípios e instituições têm se rea

lizado, historicamente, a partir da repressão ou aniquilação de indivíduos 

e sociedades que não se enquadrem em sua lógica. Afinal, “Não pode haver 

nenhum império da liberdade sem armas [...] Impérios da liberdade são 

sempre impérios de violência. Como impérios da liberdade, entretanto, es

sa violência é perpetrada em nome da paz e segurança” (Neocleous 2010, 

12, tradução nossa). 

O discurso de legitimação, alicerçado na redução de impactos e nor

malização das práticas militaristas, serve tanto à audiência internacional, 

quanto doméstica. Em sociedades liberais, o uso da força envolve o con

sentimento dos indivíduos à atuação estatal. O militarismo se verifica no 

esforço de construção de ameaças como um perigo à vida do Estado e à 

sociedade, a fim de garantir a anuência da opinião pública. O militarismo 

restabelece, nas sociedades liberais, a integração entre Estado e indivíduo, 

articulada a partir da ideia de que uma ameaça à integridade estatal repre

senta uma ameaça a todo o corpo social (Basham 2018). A falha nessa co

nexão talvez seja explicativa dos contextos de baixa adesão da população 

ao discurso e às soluções internacionais militarizadas. 

O militarismo liberal se manifesta, no plano internacional, por meio 

de mais duas práticas: a promoção da militarização de capital intensivo, 

via grande especialização e sofisticação tecnológica, e a compreensão da 

guerra como veículo de modernização econômica e social. Como pondera 

Mabee (2016): “Ainda que a modernização não seja claramente conectada 

ao militarismo ou à militarização, foi essencial para o projeto liberal, e se 

conecta ao militarismo através da exportação de estilos liberais de prepa

ração militar a outros Estados.” (Mabee 2016, 1, tradução nossa).

As fundações do National Security State, ou seja, a orientação do Estado 

estadunidense e todo o seu aparato burocrático à segurança e à contenção 

da URSS, durante o conflito bipolar, contribuíram para que o setor militar 

se convertesse, tal qual discutido, em impulsionador da inovação. Prevalece 

a associação burocracia de defesa- superioridade-eficiência, legitimando a 

opção política pelo instrumento militar diante da morosidade e falta de 

recursos civis. 

A construção de acordos de cooperação em segurança e as transferên

cias de armamentos representam a face externa do consórcio entre milita

259

RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023

rismo e modernização. De acordo com Kinsella (2013), a modernização mi

litar de capital intensivo se tornou uma representação simbólica do Estado 

moderno. A aquisição de armamentos das grandes potências por países 

periféricos se constitui como um processo material de military build-up e 

de socialização de normas, valores e práticas sobre o funcionamento do 

Estado e da ordem internacional. O armamento e todos os elementos que o 

acompanham, como os treinamentos conjuntos, programas de cooperação 

em educação militar, carregam um arcabouço normativo sobre como os 

Estados recipientes deveriam comportar-se, no que tange à organização 

sociopolítica e econômica. 

No caso dos EUA, essas iniciativas respondem ao propósito de “ensi

nar aos aliados como os militares estadunidenses fazem as coisas” (Kriege 

Souma, and Nexon 2015). Para Mabee (2016), o incentivo à modernização 

militar de países aliados tinha um propósito claro de combate ao comu

nismo, estabelecendo um “cordão sanitário” protetor contra as investidas 

soviéticas e para evitar que os países da periferia migrassem para a órbita 

comunista. Quando do desmoronamento da URSS, porém, um segundo 

elemento adicionado a essas dinâmicas foi o uso das estratégias de coope

ração em segurança e reconstrução humanitária como forma de abertura 

dos mercados e economias locais ao modo de organização socioeconômica 

neoliberal. 

A prevalência do militarismo nas relações exteriores e domésticas dos 

EUA não parece condizer com as tendências observadas nas interações en

tre as sociedades liberais nas últimas décadas e seus aparatos militares. De 

acordo com Joana e Mérand (2014), alguns dos elementos que se repetem 

em boa parte dos países da Europa e da América do Norte são: o aumento 

do potencial de “civilinização” dos militares, a desmilitarização do Estado 

e o incremento da privatização do setor de segurança. 

O primeiro item faz ecos às reflexões de Moskos et al. (2000) a res

peito da crescente sobreposição entre as atividades militares e civis nas 

“sociedades pós-modernas”. O fim da Guerra Fria teria contribuído para 

ampliar as funções militares, tornando os oficialatos cada vez mais próxi

mos da sociedade civil, a despeito da permanência do ethos militar voltado 

ao gerenciamento da violência. Atrelada a esse fenômeno, a desmilitariza

ção se refere à perda da expressividade do setor militar em sociedade, em 

detrimento de outras esferas governamentais. Essa dimensão se reflete na 

menor interação do público com as questões militares — incluindo a baixa 

adesão ao alistamento militar — e na redução das porcentagens do PIB 

investidas em defesa. Finalmente, a privatização das funções militares, por 

meio da contratação de empresas de segurança, tem orientado cada vez 

260

CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO

mais a esfera militar ao mercado, o que se verifica nas aquisições e alta 

sofisticação da produção de defesa.

O caso dos EUA é destoante em relação às experiências europeias pelo 

fato de o impacto do setor militar no país ainda ser elevado economicamen

te. A despeito das reduções em termos de orçamento e pessoal sofridas ao 

término da Guerra Fria, o país continuou a incrementar a produção tec

nológica-militar e voltou a destinar maciços recursos ao setor depois dos 

atentados de 11 de setembro de 2001. Entretanto, observa-se o alto grau 

de privatização das atividades das forças armadas. 

A privatização não é inconsistente com o militarismo, na medida em 

que, no contexto estadunidense, seu emprego não significa a substituição 

dos efetivos militares. A maior parte das funções assumidas pelos contrata

dos se concentra no setor de segurança e logística, ao passo que as ativida

des de combate, reconstrução e treinamento de forças estrangeiras conti

nuam a ser desempenhadas pelas forças militares convencionais e especiais 

(Hartung 2011). A imbricação entre o setor público e privado, nos EUA, é 

uma das principais fontes da militarização. Igualmente, os EUA represen

tam um estudo de caso complexo sobre a experiência do militarismo e sua 

correlação com o liberalismo.

De forma sintética, as características do militarismo liberal, observadas 

no caso estadunidense, podem ser assim sistematizadas, com base na lite

ratura abordada:3

261

RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023

262

Quadro 2 

Proposta de Síntese Conceitual

Militarização Militarismo liberal

Aumento contínuo dos investimentos 

federais no aparato militar e nas 

capacidades coercitivas do Estado 

(públicas ou privadas)

Romantização e supervalorização dos 

ideais e símbolos militares em sociedade e 

em posicionamentos governamentais

Utilização de recursos de origem militar 

para o financiamento de políticas civis, 

culminando, em alguns casos, em seu 

redirecionamento às finalidades militares

Baixos índices de recrutamento/ 

distanciamento entre a sociedade e as 

forças armadas, apesar da manutenção 

de altos índices de confiança social na 

instituição militar

Alargamento das funções e ocupação de 

cargos civis por integrantes na ativa ou 

veteranos das forças armadas, que podem 

ou não resultar em aumento de poder 

decisório

Ampla sobreposição entre os setores 

público e privado, e entre as esferas civil 

e militar

Incorporação de elementos da doutrina, 

mentalidade e/ou organização militar às 

políticas e estratégias governamentais 

e assimilação de doutrinas e conceitos 

civis pelas forças armadas, visando a 

legitimação da ação militar

Ênfase na modernização tecnológica e 

doutrinária das forças armadas

Acomodação de políticas de governo 

às finalidades tipicamente militares

segurança nacional, defesa e o exercício da 

guerra

Construção de justificativas e 

instrumentos de legitimação do emprego 

da força, a partir de princípios liberais 

(democracia, direitos humanos, justiça, 

prosperidade econômica, entre outros)

Promoção de narrativas de segurança de 

caráter binário, sustentado em oposições 

como amigo/inimigo, democracia/

autoritarismo, civilização/barbárie, 

nós/eles, que determinam, em última 

instância, a gradação dos recursos a serem 

empregados, isso é, assimilação, coerção ou 

aniquilação pela força militar

Fonte: elaboração própria.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Procurou-se debater ao longo deste artigo a correlação entre militari

zação e militarismo nos EUA, e suas particularidades com relação à visão 

deste país como uma sociedade liberal. Buscou-se, para tanto, fazer um 

mapeamento, não exaustivo, do debate sobre militarismo e militarização.

CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO

Como argumentado, os processos de militarização não podem ser dis

sociados, nos EUA, do reconhecimento de traços de uma estrutura social e 

cultural militarista que se reflete sobre a organização da política externa. 

O conceito de “militarismo liberal” parece traduzir, de forma mais preci

sa, estas peculiaridades e contradições, na medida em que, como indicado, 

o liberalismo não se apresenta como antítese, e sim como mecanismo de 

legitimação dos fenômenos da militarização e do militarismo. Apesar de 

suas limitações, este arcabouço permite o tensionamento da literatura e das 

narrativas políticas predominantes, historicamente, que enquadram o país 

como um modelo “bem-sucedido” de controle civil sobre as forças armadas. 

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CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO

GOD BLESS OUR MEN IN UNIFORM: 

MILITARIZAÇÃO E MILITARISMO NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

RESUMO

Este artigo tem como objetivo debater os fenômenos da militarização e do 

militarismo no contexto sociopolítico dos Estados Unidos da América 

(EUA), analisando suas manifestações domésticas e externas, historicamente. 

Argumenta-se que, a despeito da prevalência das interpretações tradicionais, 

que associam o país e sua organização social, assentada em valores liberais, a 

um modelo de equilíbrio no campo das relações civil-militares, os processos 

históricos de crescimento da influência do aparato militar na esfera domésti

ca e internacional revelam uma realidade mais complexa. Neste contexto, o 

liberalismo não se apresenta como antítese à perpetuação do militarismo e da 

militarização, mas como seu complemento e fonte de legitimação. A fim de ar

ticular tais conexões, o artigo propõe um resgate da discussão conceitual sobre 

militarismo e militarização, e o debate da tipologia do “militarismo liberal”, 

como forma de caracterização do caso estadunidense. Metodologicamente, a 

análise será conduzida por meio de instrumentos qualitativos, incluindo análi

se documental e a revisão da literatura especializada. 

Palavras-chave: Militarismo; Militarização; Estados Unidos da América. 

ABSTRACT

This article aims to discuss the phenomena of militarism and militarization in 

the sociopolitical context of the United States of America (USA), analyzing 

its domestic and external manifestations historically. We argue that despite 

the dominance of traditional interpretations that associate the country and its 

social organization, grounded in liberal values, with a balanced model of civ

il-military relations, the historical processes involving the growing military 

influence in domestic and international realms reveal a more complex reality. 

In this context, liberalism does not present itself as an antithesis to the per

petuation of militarism and militarization but rather as its complement and 

legitimation source. To articulate these connections, the article proposes re

visiting the conceptual discussion on militarism and the typology of “liberal 

militarism” as a way to characterize the US case. Methodologically, the anal

ysis will be conducted through qualitative instruments, including document 

analysis and literature review.

Keywords: Militarism; Militarization; United States of America. 

Recebido em 27/08/2023. Aceito para publicação em 04/12/2023.

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RBED, v. 10, nº 2, jul./dez. 2023

NOTAS

1. O artigo é resultado da tese de doutorado, intitulada como “O Departamento 

de Defesa e a militarização da política externa estadunidense de Bush a Obama 

(2001-2017)”, desenvolvida com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento 

de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do 

Estado de São Paulo (Fapesp). 

2. De acordo com Motta (2018), a teoria da securitização foi proposta nos anos 

1990 pela Escola de Copenhague, através de expoentes como Barry Buzan e 

Lene Hansen. A securitização, em sua definição mais básica, se fundamenta 

como um movimento discursivo, que tem por objetivo a representação de uma 

ameaça a um determinado objeto de referência, o levando para além do campo 

da política e adentrando ao campo das medidas excepcionais. 

3. Para esta síntese nos baseamos nas reflexões de Mathias (2003); Ross (1987); 

Kinsella (2013); Kienserchef (2013); Shaw (2013); Adams e Murray (2014); 

Levy (2016). O artigo das autoras CLARISSA FORNER e CRISTINA SOREANU PECEQUILO.

Confira o Estatuto do Desarmaneto. No Site Oficial da Presidencia de República.

Ainda tivemos um certo Jair Bolsonaro querendo armar as pessoas no Brasil.............

O Velho Oeste americano, também conhecido como Fronteira Americana ou Faroeste, foi o período de expansão territorial e cultural dos Estados Unidos em direção ao Oceano Pacífico, ocorrendo intensamente durante a segunda metade do século 19 . Impulsionado pelo ideal do Destino Manifesto e por incentivos governamentais, esse momento moldou a identidade americana, equilibrando-se entre o rápido avanço econômico e um histórico de violência profunda.

Confira a noticia no Portal G1 da Rede Globo           .ttps://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/10/16/atirador-mata-criancas-de-5-8-e-11-anos-em-escola-nos-eua-veja-o-que-se-sabe.ghtml


E assim caminha a humanidade.

Imagem do Portal G1 da Rede Globo. 



 

 


 


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